Acabo de voltar do cinema após assistir ao filme Somos Tão Jovens. Esse filme conta um pouco da vida de Renato Russo e do nascimento da banda Legião Urbana. Para aqueles que igual a mim curtiam Legião Urbana entre a metade final dos anos oitenta até meados dos anos noventa quando o Renato Russo morreu, o filme é encantador. Vale a pena assistir e se deliciar com algumas das músicas que se tornaram grandes sucessos da banda. E também vai conhecer um pouco da história do nascimento de bandas de Brasília que fizeram fama no rock nacional. O filme mostra que bandas como Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso são contemporâneas e se cruzavam constantemente pela cidade de Brasília.
E para aqueles que gostam da Legião Urbana, a temporada de filmes está excelente, pois além de Somos Tão Jovens está sendo lançado um filme baseado na música da Legião Urbana: Faroeste Caboclo. E em 2012 também fez sucesso na internet um curta metragem promocional da operadora telefônica Vivo, chamado Eduardo e Mônica, que também era baseado num dos grandes sucessos da Legião Urbana.
A primeira música que ouvi da Legião Urbana foi “Eduardo e Mônica”, dentro de um ônibus na cidade paranaense de Rio Negro. Eu participava de um campeonato de basquete e numa das curtas viagens de ônibus entre o alojamento e o ginásio, ouvi a música sendo tocada num toca fitas de um integrante do time de Londrina. E “Faroeste Caboclo” era uma de minhas músicas favoritas da Legião Urbana. Ouvi pela primeira vez no rádio e foi paixão a “primeira ouvida”. Logo dei um jeito de gravar a música numa fita K7 e só sosseguei quando decorei a gigantesca letra da música.
Várias músicas da Legião Urbana marcaram minha adolescência e pós-adolescência. Quando ouço certas músicas da Legião Urbana me veem a mente certos momentos, certas pessoas que passaram por minha vida e deixaram saudade ou tristes lembranças. Então posso afirmar que muitas músicas da Legião Urbana fazem parte da trilha sonora de minha vida.
Somos Tão Jovens.Faroeste Caboclo.Eduardo e Mônica.Uma boa combinação: Pipoca e Legião Urbana.
Para aqueles que gostam de fotografia e cinema (que é o meu caso) segue a dica de um site muito legal e que une cinema e fotografia. O Filmography http://philmfotos.tumblr.com/archive une montagens de fotos de filmes (as fotos em Preto & Branco) com as fotos dos locais que aparecem no filme (fotos coloridas). Algumas montagens ficaram muito boas. Escolhi algumas das fotos do Filmography para publicar aqui no blog e optei por fotos de lugares em Nova York onde estive ao vivo e em cores.
August Rush: O Som do Coração (2007)Assalto nas Alturas (2011)Homens de Preto II (2002)Homens de Preto II (2002)O Quarto do Pânico (2002)Os Vingadores (2012)O Dia Depois de Amanhã (2004)Esqueceram de Mim (1992)
A arte tumular ou arte funerária são obras feitas para permanecerem em cima das sepulturas nos cemitérios e igrejas. Esse tipo de representação está ligado à cosmovisão de determinado contexto histórico, social, econômico e ideológico, interpretando a vida e a morte. Essa interpretação pode ser feita através de um conjunto de símbolos ou de uma obra narrativa, utilizando-se materiais variados como o bronze, ferro fundido, mármore e granito. A arte tumular teve seu apogeu nos séculos 18 e 19, sendo hoje menos utilizada em virtude do avanço do cemitério-jardim.
No caso dos símbolos, a representação remete a um significado diferente do objeto construído e colocado no túmulo. Por exemplo, uma tocha com fogo remete à purificação da alma após a morte, ou seja, a tocha tem seu significado real transformado em um símbolo de purificação. Já com relação à obra narrativa o significado dos objetos construídos é literal e não metafórico, como no caso de muitos imigrantes que têm suas epopeias narradas desde a partida da terra natal com o navio até o final da vida como industrial no Brasil. Nessas duas formas de representações podemos distinguir duas linhas: a nobreza e a burguesia industrial. A nobreza utilizava mais o símbolo aliado a seus brasões e a burguesia industrial tinha a necessidade de demonstrar a sua importância através da suntuosidade.
Símbolos utilizados:
Pietá: a escultura de Maria com Jesus recém crucificado nos braços representa o desejo de que a alma seja bem recebida.
Anjo que aponta: quando a mão indica o céu, significa que o falecido era considerada uma pessoa boa e espera-se que ela vá direto para o paraíso.
Anjo pensativo: quando o anjo está pensativo, com a mão no queixo, significa que está refletindo sobre a vida do falecido e não existe certeza sobre a absolvição de seus atos em vida.
Guirlanda: simboliza o triunfo da vida sobre a morte.
Pata do felino: patas esculpidas nas quinas, são usadas para lembrar que o falecido era o responsável pelo sustento da família.
Coluna partida: representa o túmulo do último membro de uma família tradicional.
Escada: intervalada em degraus finos e largos, representa a vida de altos e baixos que o morto teve.
Cruz: representa a interseção do plano material com o transcendental em seus eixos perpendiculares.
Vaso: geralmente representado vazio, representa o corpo separado da alma.
Ampulheta: remete à utilização e fim do tempo de vida terrestre, e seu reinício em outro plano.
Globo: remete à utilização e fim do tempo de vida terrestre.
Flores, folhas e frutos: representam a vitória da alma humana sobre o pecado e a morte. São associados com frequência à nobreza, à beleza e à precocidade.
No último domingo participei de uma Caminhada na Natureza, na cidade de Borrazópolis. Não conhecia tal cidade, mas fazia muitos anos que tinha curiosidade em conhecer, pois quando criança tinha vizinhos que vieram dessa cidade e sempre falavam dela. Então ficou aquela antiga curiosidade de conhecer a cidade.
Essa foi a primeira caminhada do circuito Caminhadas na Natureza, de que participo esse ano. E foi uma caminhada com um dos mais bonitos percursos. Boa parte dos onze quilômetros de caminhada foram às margens do Rio Ivaí. Tinha muita gente caminhando e o clima ajudou. O tempo estava nublado e após muitos dias seguidos de chuva, não choveu durante a caminhada. A chuva só deu as caras duas horas após o final da caminhada.
Encontrei amigos caminhantes de Maringá, Londrina e Cambé. E mais uma vez fiz novas amizades, o que é uma marca registrada em toda caminhada de que participo. E no próximo ano espero retornar à Borrazópolis, pois vale a pena caminhar pela bela trilha as margens do Rio Ivaí. E a organização do evento também foi muito boa!
Início de caminhada.Rio Ivaí.Às margens do Ivaí.Caminhantes…Barquinho…Amigos de Cambé.Atravessando a pinguela.Entrando na mata.Com meu amigo Pierin.Passando por um sítio.Pau Brasil.Ponto de controle.Trilha ao lado do rio.Fila para o almoço.O pessoal almoçando.Hummm!!!Banheiro ecológico…
Devido a centenas de visitas e dezenas de comentários deixados em postagens que fiz aqui no Blog sobre a época que passei no 20° BIB em Curitiba, resolvi criar um novo Blog. Esse outro Blog é dedicado aos recrutas que fizeram parte da CCS – Companhia de Comando e Serviço do 20° BIB em 1989. Fiz parte dessa turma e o novo Blog servirá para contar e relembrar histórias daquela época, bem como para postar fotos e servir como ponto de encontro e de reencontro do pessoal de 1989 e de outros anos, que passaram pelas fileiras do glorioso 20° Batalhão de Infantaria Blindado.
O Blog atual, que está entrando em seu quinto ano de existencia, continuara funcionando no endereço de sempre. Mas por falta de tempo esse Blog continuara com postagens eventuais e pontuais.
Em 2013 nove filmes concorrem ao Oscar de melhor filme. E consegui assistir a todos os nove concorrentes, antes da noite de entrega do Oscar. Já tinha feito isso duas vezes antes, mas no tempo em que apenas cinco filmes concorriam. Dessa vez não foi tarefa fácil ver todos os filmes, pois alguns chegaram ao Brasil recentemente. Mas hoje em dia existem outras maneiras de se ver um filme e é possível assistir a filmes antes mesmo deles serem lançados no Brasil.
Dos concorrentes ao Oscar de melhor filme, estava ansioso para assistir Lincoln. Gosto desse personagem histórico, já li alguns livros sobre ele, visitei lugares por onde ele passou, vi objetos originais que pertenceram a ele, conheci o teatro onde ele sofreu o atentado que o levou a morte e também a hospedaria onde ele morreu no dia seguinte ao atentado. Ele não foi levado a um hospital, mas sim medicado em uma hospedaria em frente ao Teatro Ford, local do atentado. A expectativa era tanta com relação ao filme, que no final fiquei frustrado. O filme é bom, mas é burocrático, algo para norte americano ver. O filme é cheio de citações históricas, que norte americano aprende na escola. Para o resto do mundo esse filme não é interessante. Acho que Lincoln ganha como melhor filme, pois norte americano é patriota, Lincoln é um dos maiores personagens da história dos Estados Unidos e o filme é bem feito, mesmo tendo pequenos erros históricos.
Dos demais filmes, alguns são excelentes. Gostei bastante de As Aventuras de Pi (que no original é A Vida de Pi), pois esse filme é uma bonita fabula. Também achei muito bom Argo, filme que conta sobre o sequestro na Embaixada Norte Americana no Irã, entre 1978 e 1979. O filme é muito bem feito e com caracterização de época muito boa. Outro filme de que gostei foi A Hora Mais Escura, que mostra detalhadamente como foi á operação militar que encontrou e matou Bin Laden. E um filme com o qual me identifiquei muito foi O Lado Bom da Vida. Ele começa meio chato, mas fica interessante com o decorrer do tempo e tem sequencias muito boas, que te fazem pensar.
Os demais filmes achei todos meia boca. Amor e Indomável Sonhadora são até interessantes, mas não achei nada de especial nos mesmos. E Django Livre foi outro filme pelo qual criei uma boa expectativa, por ser um filme do Tarantino. Mas no final achei o filme fraco, me deu sono. E o maior termômetro para eu gostar ou não de um filme é o filme me dar sono. Já dormi muito no cinema ou em frente a TV, ao ver filmes ruins ou que não me despertaram interesse.
E dos nove concorrentes a melhor filme em 2013, o que menos gostei foi Os Miseráveis. O problema é que não sou fã de musicais e já vi a versão anterior de 1998, que não é musical e é muito bem feita.
Então vou torcer para As Aventuras de Pi, mesmo tendo quase certeza de que Licoln vence.
Abaixo a lista dos filmes que concorrem ao Oscar de melhor filme em 2013, na minha ordem de preferência:
1°) As Aventuras de Pi1°) O Lado Bom da Vida3°) Argo4°) A Hora Mais Escura5°) Lincloln6°) Django Livre7°) Indomável Sonhadora8°) Amor9°) Os Miseráveis
Após uma longa ausência voltei a participar de uma caminhada. Participei com o Grupo Peregrinos de Maringá de uma caminhada de treze quilômetros, entre Maringá e o Distrito de Floriano. Foi bom voltar a caminhar, principalmente após ter ficado um tempo machucado e passado por algumas sessões de fisioterapia. Essa caminhada serviu para desenferrujar e iniciar novo projeto de condicionamento físico.
O pessoal se reuniu ao lado do aeroporto de Maringá e após uma rápida sessão de aquecimento iniciamos a caminhada. O grupo era formado por vinte e quatro caminhantes. O trecho não tinha nenhum atrativo, pois foi todo em estrada de terra e raramente passávamos por alguma árvore. Quase todo o tempo plantações de soja dominavam a paisagem e alguns agricultores aproveitavam o dia de sol após muitos dias de chuva, para colher o soja. Todos esperavam chuva para o horário da caminhada, mas a chuva não veio e caminhamos sob um sol escaldante. Levei somente uma garrafinha de água e o último quilômetro caminhei com sede, pois não passamos por nenhum lugar onde pudéssemos conseguir água. Ao chegar à Floriano parei no primeiro bar que encontrei e de uma vez só tomei dois Tampico e uma garrafinha de água gelada. Ufa!!
Início da caminhada, ao lado do aeroporto.Colheita de soja.Rumo à Floriano.Sombra era raridade pelo caminho.Colheitadeira.Estrada longa…Parada para descanso.Momento de descanso.Pequena ponte na estrada.Longa subida.Chegando à Floriano.Igreja Matriz de Floriano.
Mais um ano começando! Particularmente gosto de anos ímpares, pois os melhores e inesquecíveis anos de minha vida foram ímpares. Também gosto de anos com final “três”, pois 1983, 1993 e 2003 foram anos bem interessantes para mim, com coisas novas acontecendo, mudanças de rumo, experiências diferentes. Então que 2013 seja bem vindo!
Mais uma vez fui até Apucarana participar de uma caminhada noturna. Ao contrário dos dois últimos anos quando lá estive, dessa vez não cheguei atrasado. Os caminhantes se reuniram no centro da cidade, ao lado da catedral. Tinha bastante gente, inclusive grupos de outras cidades. Ali foi servido um lanche para todos os caminhantes e em seguida todo mundo embarcou em ônibus e seguiu até uma fazenda, onde seria o início da caminhada. Encontrei alguns amigos de Londrina e acabamos ganhando carona numa Kombi da Prefeitura de Apucarana. A motorista tinha o pé pesado e os dez quilômetros entre o centro da cidade e o local de início da caminhada, foram de fortes emoções.
A caminhada teve início em frente a um antigo cemitério e após percorrermos alguns poucos quilômetros com a noite clara do horário de verão, logo escureceu. O único problema foi que a caminhada da lua não teve lua. A lua surgiu somente após as 23 horas, quando a caminhada já tinha terminado e estavam todos jantando. Parte do atraso no surgimento da lua foi por que tinham muitas nuvens de chuva justamente no lado onde a lua deveria nascer, e isso fez com que demorasse mais para a lua surgir. Mesmo sem lua a noite estava clara e percorri quase todos os 10 quilômetros sem utilizar lanterna e aproveitando para admirar o céu estrelado.
Parte do trecho percorrido na caminhada eu já conhecia de outras caminhadas. O trecho não era difícil e não tinha subidas íngremes. Apenas alguns trechos tinham muitas pedras soltas e era preciso tomar cuidado para não virar o pé ou cair. Mesmo sendo noite, fazia muito calor! O final da caminhada e o jantar foram no Parque da Redenção. Esse parque é muito bonito e nele existem muitas estátuas que “contam” passagens da vida de Jesus Cristo. Tem desde a Santa Ceia, até a crucificação e a gruta onde Cristo foi sepultado. O local é muito bonito e merece uma visita, principalmente à noite, onde as luzes que iluminam as estátuas dão um clima bem especial ao local.
O jantar estava muito bom e mais uma vez comi mais do que deveria e/ou podia. Após jantar pegamos um ônibus e seguimos até o centro da cidade, desembarcando no mesmo local onde tínhamos embarcado e deixado os carros. Passava da meia noite quando peguei a estrada para percorrer os 160 quilômetros até minha casa. Foi cansativo, mas valeu a pena mais essa caminhada em Apucarana.
Aquecimento pré caminhada.Caminhando…Caminhando antes de escurecer.Caminhando no escuro.No caminho passamos por essa igrejinha.Santa Ceia.Jantar pós caminhada.Parque da Redenção.Parque da Redenção.Gruta do Parque da Redenção.Parque da Redenção.
Participei de mais uma Caminhada na Natureza, dessa vez na cidade de Itambé. Eu não conhecia a cidade, e esse foi um dos motivos para eu escolher fazer essa caminhada. Por culpa de um mapa errado cheguei atrasado à caminhada, mas mesmo assim consegui alcançar boa parte dos caminhantes. Acabei encontrando alguns amigos de Maringá e de Londrina e acabei fazendo mais da metade da caminhada com alguns membros do grupo de caminhadas Londrinapé.
Fazia muito calor e o sol estava forte! Isso fez a caminhada ser cansativa, mas felizmente não tinha muitas subidas no percurso. No segundo ponto de controle, tinham algumas enfermeiras medindo a pressão dos caminhantes. Fui medir a minha pressão, achando que estava alta em virtude do esforço físico e do calor. E para minha surpresa minha pressão estava normal, parecendo à pressão de um garoto de quinze anos. Nesse ponto de controle, a água disponível estava gelada e isso ajudou a matar rapidamente a sede.
O percurso foi de doze quilômetros, com poucos trechos difíceis e passando por poucos lugares bonitos. Mesmo assim não foi um percurso feio! Posso dizer que foi um percurso “normal”. A melhor parte da caminhada foi no final, quando no último quilômetro tinha um rio e quase todos os caminhantes entraram nele para se refrescar. Eu tirei minhas botas, dobrei a barra da calça e sentei no meio do rio, para refrescar os pés e o traseiro. Cheguei a deitar na água, mesmo estando com roupa e foi uma sensação bastante agradável, pois era quase meio dia e o sol estava de “ferver os miolos”. Após sair do rio seguimos por cerca de quinhentos metros e chegamos ao final da caminhada, no local onde estava sendo servido o almoço. A comida estava muito boa e fui obrigado a repetir e recuperar em dobro as calorias perdidas durante a caminhada.
Dia de sol quente.Ponto de controle e de água.Caminhando pela estrada.Teve quem pegou carona!Passando por um pesque pague.No km 10.Quase no final da caminhada tinha um rio…Refrescando o traseiro.Caminhando na sombra.Os caminhantes almoçando.Almoço delicioso!!O pessoal do Londrinapé.Com minha amiga de caminhadas, Claudia.
No final de semana teve Virada Cultural em cinco cidades do Paraná: Curitiba, Foz do Iguaçu, Cianorte, Maringá e Campo Mourão. A Virada Cultural foi promovida pelo Governo do Paraná e contou com uma grande infraestrutura e também com shows de cantores famosos.
Em Campo Mourão foi montado um grande palco na praça central da cidade, onde aconteceram apresentações variadas no sábado e domingo, quando o evento foi encerrado com show do cantor Renato Teixeira. Paralelamente aos eventos no palco principal, aconteceram outros eventos menores em outras partes da cidade.
Estive presente na Virada Cultural no sábado a noite, e mesmo não tendo um público muito grande foi um programa diferente e interessante. Depois de assistir as apresentações que aconteceram no palco principal, fui ver uma peça de teatro na Biblioteca Pública, que terminou pouco antes das 3h00min da manhã. No domingo não participei da Virada Cultural, pois estava ausente da cidade.
Mesmo sendo um evento muito bem feito e grandioso, acredito que faltou um pouco mais de divulgação e presença de público. Não sei dizer os motivos do fracasso de público em tão bom evento! Então público logo abaixo um texto do jornal Gazeta do Povo, que talvez explique um pouco do fracasso da Virada Cultural aqui em Campo Mourão.
Sintonia
O governo do estado investiu pesado na estrutura da Virada Cultural de Campo Mourão, com a instalação de um grande palco, seguranças particulares e a montagem de dezenas de banheiros químicos, que na maioria não chegaram a ser utilizados. Mesmo assim, o evento não chegou a causar empolgação na população que compareceu em número reduzido nas apresentações programadas.
O prefeito da cidade, Nelson Tureck, e sua filha, a deputada Marla Tureck, presentes na apresentação de Renato Teixeira acreditam que houve falhas na definição da programação e na divulgação. “O evento foi organizado pelo governo em Curitiba e os shows foram definidos de cima para baixo, sem consultar os municípios ou a população. Tiveram artistas por aqui que não são fazem parte do gosto do povo. Tinha que ouvir mais as cidades”, analisou Tureck, que acredita que nas próximas edições “o povo ainda vai se acostumar”. O prefeito também criticou a falta de divulgação do evento na cidade pelos órgãos de comunicação locais, mesma tese apresentada ontem pela secretária municipal de Cultura, Sonia Singer.
Mas, se houve erros no planejamento de atrações e horários por parte do governo estadual, o mesmo ocorreu com a participação dos grupos locais, responsabilidade da prefeitura de Campo Mourão. A maioria dos artistas que se apresentaram na Virada são velhos conhecidos do público e estão presentes em quase todos os eventos realizados na cidade, sempre com os mesmo números. É o caso da banda municipal, da trupe de circo, da banda Bons e Velhos – que tocou há duas semana no parque da cidade – e até mesmo da peça teatral “Hamlet Machine”, dirigida pelo diretor mourãoense Carlos Soares, que somente neste ano, foi apresentada em quatro oportunidades. Faltou inovação e sintonia com o povo.
(Gazeta do Povo, Caderno G – 12/11/2012)
Show da “Big Time Orchestra”.Bloco Carnavalesco “Cai Nessa”.Vander e Fabiana, na Virada Cultural.
Hoje faz dez anos que desembarquei em Orlando nos Estados Unidos, para morar um ano na cidade. Era minha segunda viagem aos Estados Unidos e numa tarde muito quente cheguei ao apartamento da Irene, que seria meu lar por doze meses. Esse ano que passei vivendo nos Estados Unidos foi bastante interessante e me permitiu conhecer pessoas de diversas partes do mundo e também viver experiências inesquecíveis. Foi um ano intenso, cheio de momentos bons e alguns ruins, principalmente a saudade da família.
Brincando com esquilo, no Lago Eola.Almoço em casa: Neto, Irene, Elói e Vander.Na Universal Studios.No Magic Kingdom da Disney World.Na International Drive.Com a Betty Boop, no Island Adventure.
Até o próximo dia 25 estará em exibição no Solar do Barão, em Curitiba, uma exposição em homenagem a Sergio Bonelli. O famoso editor italiano faleceu ano passado, aos 79 anos. Sergio Bonelli era apaixonado pelo Brasil e esteve aqui algumas vezes. Tinha predileção pela Amazônia, onde conheceu profundamente os costumes locais e teve inspiração para criar o personagem Mister No. Na exposição em Curitiba estão obras de diversos artistas, feitas como tributo após a morte de Sergio Bonelli. Também estão expostas fotos de Bonelli nos anos 70, visitando a Amazônia.
Enterro de Sergio Bonelli.
Sergio Bonelli na Amazônia, nos anos 70.Ezequiel e Vander.
Em minha recente e rápida passagem por Curitiba, aproveitei para fazer algo que fazia com frequência nos tempos em que morava por lá. Assisti sessão dupla de cinema no Shopping Estação. Sempre gostei de cinema e muitas vezes quando a qualidade dos filmes e os horários permitiam, eu assistia sessões duplas e às vezes até sessões triplas em algum shopping curitibano.
Dessa vez minha sessão dupla de cinema foi com dois filmes nacionais, sendo uma comédia muito boa chamada “Até que a Sorte nos Separe” e o outro filme foi “Gonzaga de Pai pra Filho”, que conta a história dos falecidos cantores Luis Gonzaga e do seu filho Gonzaguinha. Esse filme me surpreendeu, pois achei muito bom e bem feito. E notei que mais da metade da plateia era de mulheres acima dos cinquenta anos. Como gosto de sentar bem na frente na sala de cinema, teve um momento quase no final do filme onde olhei para trás e vi muita gente chorando, inclusive alguns homens. Os dois filmes são bons, vale a pena assisti-los!
Estive em Curitiba participando da Gibicon nº 1, uma feira de quadrinhos. Ano passado aconteceu a Gibicon nº 0, que foi um evento experimental e que devido ao sucesso parece que será permanente daqui para frente. Dessa vez pude rever alguns amigos que também gostam de quadrinhos e fazer novos amigos. Participei de eventos relacionados somente aos quadrinhos italianos da Editora Bonelli, que são os meus quadrinhos favoritos. Participei de uma palestra sobre os quadrinhos Bonelli na Itália e visitei uma mostra dedicada ao editor Sergio Bonelli, que faleceu ano passado. Também participei de uma homenagem ao Sergio Bonelli. Essa homenagem foi meio que uma palestra onde pessoas que conheciam o Sergio Bonelli falaram sobre ele, contaram histórias que viveram junto com ele. Um momento emocionante foi quando o Júlio Schneider (tradutor das revistas Bonelli no Brasil) ao contar sobre sua amizade com o Sergio Bonelli, acabou se emocionando e chorando. O argumentista italiano Moreno Burattini também esteve presente nessa homenagem e mostrou num telão fotos do Sergio Bonelli, inclusive a última foto que ele tirou (ao menos se acredita que seja a última!), durante uma feira de quadrinhos na Itália, dias antes de morrer. O último evento Bonelliano de que participei na Gibicon, foi assistir um documentário sobre o Sergio Bonelli. Esse documentário, com pouco mais de meia hora de duração, foi feito na Itália em 2010.
Fora os eventos relacionados aos personagens Bonelli, dei uma rápida olhada pelos vários estandes da Gibicon e comprei alguns gibis (Bonelli é claro!). Um gibi especial que comprei na Gibicon, foi o Zagor Gigante nº 1. Além de Zagor ser meu personagem favorito de quadrinhos, esse Zagor Gigante nº 1 traz publicado em suas contracapas os nomes de cem leitores de Zagor, inclusive o meu nome. E aproveitei para pegar o autógrafo do Moreno Burattini nessa revista, pois foi ele que escreveu a história publicada nesse Zagor Gigante.
Além do argumentista italiano Moreno Burattini, também estiveram presentes na Gibicon, outros dois italianos que trabalham para a Editora Bonelli. Um deles eu já conhecia, pois esteve no Brasil nos dois últimos anos. Trata-se do simpático desenhista de Tex, Fabio Civitelli. E o outro italiano foi o Roberto Diso, que também é desenhista da Editora Bonelli, mas dedica-se mais ao personagem Mister No. Foi uma experiência gratificante ter contato com estes três simpáticos italianos, que trabalham na criação de personagens de quadrinhos que leio e acompanho a mais de trinta anos.
Ano passado também estive na Gibicon e este ano deu para perceber que o evento aumentou e ficou mais organizando. Mas tamanha organização acabou atrapalhando em alguns momentos! Um exemplo foi no sábado pela manhã, no Paço da Liberdade. As oficinas e palestras estavam marcadas para começar às 10 horas, mas antes desse horário não permitiam que ninguém entrasse no prédio. Somente após as 10 horas é que todos puderam entrar e formar filar para pegar convites para as quatro palestras e oficinas que aconteceriam no mesmo horário. O chato é que do lado de fora tivemos que formar fila sob um sol escaldante. Outra pisada na bola da organização foi marcarem várias palestras no mesmo local e no mesmo horário. Isso fazia com que os participantes tivessem que escolher somente uma palestra, quando muitos queriam ver todas as palestras. O resultado foi que muitas palestras ficaram com pouco público. Se fizessem as palestras em horários diferentes, com certeza todas elas teriam um maior público presente.
E outra reclamação geral foi com relação às senhas para autógrafos. Teve um dia que distribuíram 30 senhas para determinados artistas e no dia seguinte somente 15 senhas. Isso fez com que muitas pessoas ficassem sem conseguir senhas e sem conseguir os autógrafos que queriam. E teve casos de pessoas que ficaram na fila das senhas para autógrafos e perderam a palestra que queriam assistir, pois tiveram que escolher estre pegar a senha do autógrafo ou assistir a palestra.
E teve também casos de palestras onde precisava enfrentar uma fila para pegar a senha. E na hora da palestra não tinha ninguém para recolher tais senhas na entrada do local da palestra. E teve uma palestra onde um monte de gente entrou sem senha e o segurança que estava na porta não falou nada. Daí quando fui entrar o segurança me barrou e me pediu a senha. Por sorte eu tinha a bendita senha! Só não entendi o critério do segurança em pedir senha para uns e não pedir para outros. Ou seja, o negócio todo foi meio confuso e espero que no próximo ano o pessoal da organização de uma melhorada no evento, pois senão fica difícil para quem participa. E vou pensar duas vezes antes de viajar 500 km para ir novamente à Gibicon!
O Ezequiel com sua senha para uma palestra.Moreno Burattini, Vander, Roberto Diso e Fabio Civitteli.Felipe, Vander, Nei, Diso, Ezequiel e Maldonado.Gibicon nº 1Marcos Maldonado (letrista) e Fabio Civitelli.Vander e Júlio Schneider.Gibicon nº 1Ezequiel, Bira Dantas e Vander.Uma personagem de carne e osso!! (Mais carne…)Bira Dantas e o Gralha.Homenagem/Palestra a Sergio Bonelli.Vander, “Zagor” e Moreno Burattini.Platéia do documentário sobre Sergio Bonelli.Documentário sobre Sergio Bonelli.Fabio Civitteli dando autógrafo na rua.
Excepcionalmente dessa vez não farei postagens detalhadas sobre esse evento, por exclusiva falta de tempo. Fazer uma postagem detalhada e cheia de fotos demanda algumas horas de trabalho e no momento não tenho tais horas disponíveis. E se deixar para fazer tal postagem detalhada daqui alguns dias ou semanas, acaba perdendo a graça.
O III Enduro a Pé de Nova Tebas, foi realizado entre os dias 12 e 14 de outubro. Ao todo percorremos 73 quilômetros. Passamos por estradas, carreiros, trilhas, rios, pontes, pastos, sítios e fazendas. Enfrentamos sol, frio, vento, cansaço, bolhas nos pés, cachorros (não é Tiago!!), vacas (não é Valtério!!!). Conhecemos muitas pessoas durante a caminhada e fomos recebidos com muito carinho e hospitalidade por onde passamos. Então fica aqui meu agradecimento a todos que contribuíram para que esse Enduro a Pé fosse um sucesso. E também segue meu agradecimento aos companheiros de caminhadas, pois éramos um grupo unido onde um ajudava o outro.
III Enduro a Pé de Nova Tebas
Início da caminhada no sítio da família Dal Santo.Uma das muitas porteiras que atravessamos.Caminhando entre a criação de ovelhas.Almoço no primeiro dia de enduro.Com a família que nos recepcionou no almoço.No meio do caminho tinha uma ponte.Caminhando num fim de tarde gelado.Atravessando rio.Costela ao fogo de chão.Bate papo antes do jantar.O pessoal que nos recebeu no jantar do primeiro dia.Acampamento ao amanhecer.Início do segundo dia de enduro.Caminhando no asfalto quente.No segundo dia o almoço foi em um pesque pague.Acampamento no sítio do Alex.Celso, Tiago, Valtério, Shudy, Vander, Bamba, Alex, Jaque e Marcos.Chegando à uma fazenda.Foi terrível caminhar por essa estrada de pedras irregulares.No pequeno Distrito de Poema.Almoço na festa da igreja de Poema.O GPS mostrando os quilômetros caminhados.O fim da caminhada foi no Morro dos Ventos.
Fui acordado às 05h30min pela Marilene. A chuva tinha parado e o sol despontava no horizonte, mas fazia frio e ventava muito, um vento gelado que chegava a “doer”. Foi difícil sair de dentro da barraca e ainda mais difícil desmontar a barraca e guardar tudo na mochila. Enquanto o pessoal tomava café da manhã, eu que não costumo tomar café da manhã aproveitei para arrumar minhas coisas lentamente. A câmera da Bebhinn tinha secado por completo e voltado a funcionar, sinal de que fiz um ótimo conserto.
Pouco antes das 7h00min nos despedimos dos donos da casa, que tinham nos recepcionado muito bem. Tiramos uma foto com eles e guardamos nossas coisas na carroceria da caminhonete. Por culpa do frio e da bateria meio baleada, a caminhonete não pegou e foi preciso empurrar. Por sorte a caminhonete estava estacionada num local alto e após ter sido empurrada um pouco ela embalou e a Marilene conseguiu fazê-la dar partida, mesmo tendo dificuldade em conseguir dar o tranco de ré. Todos embarcados e partimos rumo à cidade de Corumbataí do Sul, pois tinha um pneu murcho que precisava ser calibrado.
Foi a primeira vez que estive em Corumbataí do Sul, uma cidade pequena e simpática. Após pedir informações encontramos uma borracharia, que ainda estava fechada, pois era muito cedo. Por sorte o dono da borracharia era também dono de uma padaria que ficava ao lado e estava aberta. Enquanto enchiam os pneus da caminhonete eu fui “guiado” para dentro da padaria graças ao delicioso cheiro de pão fresquinho. Não resisti e comprei alguns pães de queijo quentinhos, que ajudaram a combater o frio. O vento estava congelante e logo voltei para o interior da caminhonete. Não demorou muito e pegamos a estrada rumo à cidade de Fênix.
Percorremos algumas estradas de terra e chegamos a um local isolado, onde além de plantações, gado e alguma mata, não existia mais nada. Ficamos um bom tempo sem avistar casas ou pessoas. Teve uma parte da estrada que era ruim e cheia de buracos e a Marilene teve que mostrar suas habilidades de motorista. Fora um ou outro buraco em que ela passava rápido, até que ela se mostrou boa motorista. Teve um momento em que uma vaca atravessou a estrada e meio que empacou, mas logo o dono apareceu e tirou o animal do caminho. E alguns quilômetros depois foi a vez de um cavalo aparecer na estrada e assustado correr um bom tempo em frente à caminhonete. Ele não sabe o perigo que correu!!!
Logo na entrada de Fênix resolvemos fazer um desvio e visitar uma igreja que fica no alto de um morro. Já visitei tal igreja anos atrás e a mesma estava abandonada e deteriorada. Existem algumas duvidas sobre a origem e ano de construção de tal igreja. Já ouvi relatos infundados de que ela era centenária, outros de que ela tinha sido construída pelos jesuítas no século XVII. A verdade é que tal igreja não é tão velha assim e parece que foi construída no final dos anos sessenta, início dos anos setenta do século passado. Ou seja, ela não deve ter mais de cinquenta anos. Ao chegar à igreja vi que a mesma estava sendo reformada. Uma igreja daquelas deveria é ser restaurada, mas pelo que vi ninguém se preocupou com qualquer tipo de restauração. O que estão fazendo é um reforma que mais parece uma reconstrução da igreja, rebocando com cimento todas as paredes e já fizeram um novo piso de cimento, bem como trocaram o telhado. Quando visitei essa igreja anos antes, o piso tinha sido destruído e possuía muitos buracos, sinal de que pessoas sem noção e mal informadas tinham escavado o piso da igreja em busca do lendário tesouro perdido dos jesuítas. Se tais pessoas soubessem que a igreja não foi construída pelos jesuítas e que ela não é tão antiga, talvez eles não tivessem perdido tempo e principalmente destruído parte de uma igreja, um local sagrado que deveria ser respeitado. Não demoramos muito na igreja, pois a mesma não desperta mais nenhum tipo de interesse para turistas.
Atravessámos a cidade de Fênix e fomos até o Parque Estadual de Vila Rica do Espirito Santo. No parque existe uma grande reserva florestal nativa e as ruínas da redução jesuíta de Vila Rica. O parque é bonito, mas está precisando de algumas reformas. Parece que o governo do Estado não tem se preocupado com tal patrimônio histórico e o dinheiro que envia para o parque mal da para sua conservação. Outro problema do parque é que as escavações que foram iniciadas na região onde ficava a antiga redução de Vila Rica, estão abandonadas há muito tempo por falta de dinheiro. Visitamos o pequeno museu que existe na recepção do parque e depois fomos caminhar por seu interior. Seguimos por uma antiga estrada que atravessa o parque e chega até a margem do rio Ivaí. No passado existiu uma balsa na margem do rio, a qual foi desativada depois que o local foi transformado em parque estadual, bem como a estrada também foi desativada. Pelo caminho fomos observando a mata e avistamos algumas árvores centenárias, inclusive algumas figueiras enormes. Chegando ao final da estrada tiramos algumas fotos em frente ao rio Ivaí, descansamos um pouco e fizemos o caminho de volta. A antiga vila jesuíta ficava nesse local, mas não é possível visualizar nada. As ruínas existentes ficam no meio do mato e como as construções eram de pau a pique, é preciso um trabalho de escavação feito por arqueólogos para que se possa avistar alguma coisa. E não estávamos autorizados a visitar as ruínas ou mexer em algo que avistássemos, então não saímos da estrada.
Antes de ir embora do parque, resolvemos seguir por uma trilha estreita no meio da mata e ir até um lago que foi construído nos anos cinquenta. O local é bonito e possui uma área de repouso com bancos e mesas. Ao chegar ao lago aconteceu uma cena engraçada, quando a Karina se deparou com um lagarto e deu um grito tão alto que o bichinho deve estar correndo até agora mata adentro. Foi difícil saber quem se assustou mais com tal encontro, se a Karina ou o pobre lagarto! E como a Karina num passado recente matou uma aranha enorme com um grito, esse lagarto deve se dar por satisfeito por ainda estar vivo. Descansamos um pouco no lago e logo voltamos à trilha e retornamos a recepção do parque. Não demoramos muito e partimos dali rumo à Fênix.
Fizemos uma rápida parada no centro de Fênix, em frente à catedral. Na fachada da igreja existe uma bela pintura, que mostra os jesuítas batizando os índios da região num rio. Do outro lado da rua existe um monumento de gosto duvidoso, que mostra uma ave (Fênix) no alto de um pedestal e no chão algumas bolas que parecem ser ovos. Achei o monumento curioso, mas não bonito. Após tirarmos algumas fotos da igreja e do monumento em frente, embarcamos na caminhonete e saímos da cidade. Seguimos alguns quilômetros por uma estrada asfaltada, até entramos numa estrada de terra e seguir até uma antiga fazenda de café, que atualmente é um hotel fazenda.
O Hotel Fazenda Água Azul (http://www.aguaazul.com.br/), funciona em uma antiga fazenda de café. As antigas casas da colônia onde moravam os trabalhadores foram transformadas em quartos e suítes para receber os hóspedes. A fazenda possui uma enorme área de mata nativa e é possível percorrer parte do interior da mata através de algumas trilhas. Na fazenda existe também um museu que guarda muitos objetos da época que a fazenda plantava somente café e muitos outros objetos que foram trazidos de viagens feitas por membros da família dona da fazenda. O museu é muito bem organizado e seu acervo bastante interessante. Fomos acompanhados numa rápida visita pelo hotel fazenda e percorremos uma das trilhas curtas do lugar. Em seguida fomos almoçar no restaurante do hotel fazenda. A comida estava muito tão boa que acabei comendo demais. Após o almoço ficamos em uma varanda conversando com os donos do hotel fazenda e ouvindo histórias do local.
Á tarde, visitamos o museu, numa visita guiada. Depois fomos ver os novos chalés que estão sendo construídos em outra área da fazenda. Por último percorremos uma trilha pelo meio da mata e passamos por lugares muito bonitos e preservados. Dois dias antes tinha sido avistado nos arredores um casal de onça parda com um filhote. Isso mostra como a mata em torno da fazenda é preservada. Em 1967 o sueco Johan Gabriel Berg von Linde, patriarca da família dona do hotel fazenda, comprou tais terras para cultivar café e decidiu preservar parte da mata, deixando a mesma intacta e proibindo a caça e a pesca no local. Na época ele foi taxado de insano, pois a prática vigente era derrubar toda a mata existente para plantar café e outros tipos de cultura. Naquela época não existia nenhuma preocupação com a ecologia e com a preservação de mata nativa e animais. O senhor von Linde era um visionário e graças a sua consciência em preservar o meio ambiente e parte da mata nativa de suas terras, hoje é possível admirar e visitar a reserva florestal existente nas terras da família von Linden. Após terminar de percorrer a trilha existente no meio da mata, descansamos um pouco e fomos embora da Fazenda Água Azul.
Marilene, Wagner e Bebhinn seguiram a pé pelos cerca de doze quilômetros até uma outra fazenda, onde pernoitaríamos. Eu e a Karina seguimos na caminhonete. Eu bem que gostaria de ter feito o trajeto final caminhando, mas meu pé machucado tinha inchado bastante e passei a sentir muita dor. Seguimos direto até a fazenda e quando chegamos a Karina ficou conversando com a Dona Penha e eu fiquei dormindo na caminhonete. Eram quase 19h00min quando a Karina foi me chamar para irmos atrás de nossos amigos caminhantes. Tínhamos combinado com a Marilene que se eles não chagassem à fazenda até escurecer, era para irmos buscá-los na estrada. Nem chegamos a sair da fazenda e encontramos o pessoal, então demos meio volta e retornamos à casa da Dona Penha e do Seu Manoel. Fiquei um tempo conversando com o Seu Manoel, que me contou sobre como era a fazenda trinta e poucos anos antes, quando ele começou a trabalhar ali. Naquela época existiam cerca de cinquenta famílias trabalhando e morando nas terras da fazenda. Atualmente existem apenas seis famílias. Isso comprova como foi grande o êxodo agrícola que ocorreu no Paraná nos anos oitenta e que levou muitas famílias a deixarem o campo e irem morar na cidade.
Era para dormirmos na fazenda e percorrer mais um pedaço de estrada na manhã seguinte, mas a Bebhinn mudou seus planos. Ela ficou sabendo sobre inscrições em pedras que existem na região por onde passava o Caminho de Peabiru na cidade de Pitanga e resolveu ir até Pitanga no dia seguinte. Então resolvemos não mais pernoitar na fazenda e regressamos para Campo Mourão após o jantar. Mesmo com nosso “passeio” encurtado, valeu a pena os dois dias que passamos percorrendo trechos por onde passava o lendário Caminho de Peabiru. Conhecemos lugares bonitos, pessoas legais e fizemos novos amigos.
Marilene, Luceni, Wagner, Nesão, Bebhinn, Karina e Vander.Pegando no tranco.Igrejinha sendo reformada próximo à Fênix.Museu do Parque de Vila Rica.Maquete da antiga redução jesuíta de Vila Rica.Caminhando pelo interior do Parque Estadual de Vila Rica.Às margens do Rio Ivaí, no interior do Parque de Vila Rica.Lago no interior do Parque de Vila Rica.Catedral de Fênix e a bela pintura em sua fachada.Monumento de gosto duvidoso.Um dos chalés do Hotel Fazenda Água Azul.Museu do Hotel Fazenda Água Azul.No Hotel Fazenda Água Azul.Descanso após trilha no interior da Fazenda Água Azul.Eu e o neto da Dona Penha e Seu Manoel.
Na semana que passou uma irlandesa esteve em Campo Mourão com a única finalidade de visitar alguns locais na região, por onde passava o histórico Caminho de Peabiru. Esse caminho ligava o litoral ao interior do continente e era utilizado pelos indígenas muito antes dos europeus chegarem ao Brasil. Depois do descobrimento ele foi utilizado pelos europeus para desbravar o interior da região sul do Brasil. Um ramal do Caminho de Peabiru passava pela região de Campo Mourão, onde próximo também existiu uma redução jesuíta.
A irlandesa Bebhinn Ramsay, que vive há alguns anos em Florianópolis é uma estudiosa do Caminho de Peabiru e veio conhecer um pouco do caminho que por aqui passava. Quem organizou a visita da irlandesa foi minha amiga Marilene, que é uma grande conhecedora e estudiosa do Caminho de Peabiru. Também fizeram parte do pequeno grupo que acompanhou a irlandesa, minha amiga de caminhadas Karina e o Wagner. Foram dois dias interessantes, caminhando, conhecendo pessoas e locais da região que eu não conhecia.
1º Dia – 25/09/2012
Partimos de Campo Mourão bem cedo numa manhã chuvosa. Nossa primeira parada foi na região conhecida como Barreiro das Frutas, onde em uma pequena reserva florestal existe uma trilha. No momento em que paramos em tal lugar chovia forte e preferi ficar dentro da caminhonete, pois ainda me recuperava de um problema no pé e caminhar no barro exige um esforço pelo qual eu não queria passar, para não forçar meu pé machucado. A Karina ficou comigo na caminhonete e ficamos conversando enquanto esperávamos nossos amigos. De ruim foi que estávamos estacionados ao lado de uma árvore conhecida como Pau D’alho e que exala um cheiro horrível de alho. Nossos amigos não demoraram muito a retornar e logo seguimos viagem.
Mesmo com chuva e barro a Marilene contrariou minha expectativa e se mostrou uma ótima motorista. Logo chegamos à cachoeira do Boi Cotó e a chuva deu uma trégua. Deixamos a caminhonete guardada na propriedade do seu Antonio Gancebo e seguimos a pé. Foi um pouco complicado caminhar no barro da estrada, pois a terra vermelha da região costuma grudar no calçado quando se transforma em barro. Percorremos um trecho plano e após passar por uma ponte e alguns trechos de mata, começamos a subir um morro. A Karina foi quem mais sofreu com a caminhada, pois estava um pouco fora de forma. E nossa nova amiga irlandesa se mostrou em total forma, pois em nenhum momento se cansava de caminhar. Subimos o morro onde no alto se acredita que no passado existia um cemitério indígena, pois no local foram encontrados alguns vestígios anos atrás. A vista do alto do morro era muito bonita e se podia enxergar a quilômetros de distância. Na volta encontramos um morador da região, que parou conversar conosco e contou algumas coisas sobre o local e inclusive nos mostrou ao longe uma antiga toca de onça. Até início dos anos setenta aquela região era de mata fechada e ali existiam muitos animais, inclusive onças. Logo deixamos o morro para trás e voltamos a caminhar pela estrada. Um ônibus da Prefeitura de Corumbataí do Sul passou por nós e ofereceu carona. Eu, Marilene e Karina aceitamos a carona. Bebhinn e Wagner seguiram caminhando. O ônibus nos deixou numa encruzilhada da estrada, ao lado de um marco do Caminho de Peabiru. A Marilene foi buscar a caminhonete e eu e Karina subimos um pequeno morro ao lado da estrada, onde no alto existe uma capela e uma imagem de São Tomé. No alto do morro eu e Karina descansamos um pouco, tiramos fotos e ficamos conversando. Logo chegaram Bebhinn e Wagner e descemos até a estrada para esperar a Marilene.
Não demorou muito e a Marilene chegou. Embarcamos na caminhonete e seguimos pela estrada rumo à fazenda onde almoçaríamos. No caminho paramos para ver uma árvore que tinha sido destruída por um raio quatro dias antes. A imagem era um pouco assustadora. Logo chegamos à casa do casal Nesão e Luceni, onde um saboroso almoço nos aguardava. Ali fiquei conhecendo a Vera, uma cachorra preta muito simpática e que tinha brigado com um Quati umas semanas antes e acabou levando a pior. Ela teve um olho furado e levou muitos cortes pelo corpo, sendo que muitas cicatrizes eram visíveis e ela andava toda torta. De qualquer forma a cachorra era simpática e foi com minha cara. Após o almoço me deitei em uma rede na varanda e logo peguei no sono.
Fui acordado pela Marilene, me chamando para caminhar. Deu vontade de ficar na rede, pois meu pé machucado doía um pouco. Mas reuni forças e segui meu grupo de amigos na caminhada da tarde. O tempo estava fechado e anunciava chuva. Na caminhada fomos seguidos pela Vera e por outro cachorro. A vera seguia caminhando ao nosso lado ou no meio de nós. Já o outro cachorro era mais tímido e nos seguida a uma curta distância. Após alguns quilômetros o seu Nezão passou por nós de moto e a Vera seguiu seu dono. O outro cachorro nos seguiu por mais um tempo, até que passamos por uma casa de onde saíram três cachorros e deram um carreirão nele. Fiquei de longe torcendo para que nosso pequeno amigo não fosse alcançado pelos três ferozes cachorros.
Chegamos num local onde tivemos que passar por duas cercas de arame farpado e entrar na mata. Logo chegamos até uma pedra, a qual possui marcas circulares. Tal pedra foi encontrada há alguns anos, soterrada no meio do mato. Ninguém sabe a origem de tais marcas na pedra, mas acredita-se que ela esteja diretamente relacionada ao Caminho de Peabiru e aos caminhantes que por ali passaram. Outras pedras com marcas e até espécies de mapas já foram encontradas próximas ao local por onde passava o Caminho de Peabiru. A Bebhinn ficou encantada com tal pedra. Ficamos ao lado da pedra conversando e chegamos à conclusão de que tal pedra ficava em pé, pois uma de suas extremidades é achatada. E outra conclusão foi de que alguém tinha tirado a pedra de seu lugar, para cavar embaixo, pois ela estava caída dentro de um buraco. A lenda do tesouro perdido dos jesuítas é bastante conhecida e muita gente já andou cavando locais próximos ao Caminho de Peabiru em busca de tal tesouro.
Deixamos a pedra para trás e fizemos o caminho de volta até a casa do seu Nezão. Quase chegando a casa começou a chover, mas não chegamos a nos molhar. A caminhada do dia estava encerrada e agora era descansar e se preparar para o dia seguinte. A dona Luceni nos esperava com um delicioso café com pãezinhos caseiros feitos na hora, que estavam um delicia. Após o café fui montar minha barraca na varanda. O Wagner resolveu dormir numa rede na varanda e as meninas iam dormir no interior da casa, em camas confortáveis. Estava faltando energia elétrica na casa e mesmo assim a Marilene resolveu ir tomar banho, frio. Logo que ela saiu do banho a energia voltou e todos os demais puderam tomar banho quente. Ficamos conversando na varanda e eu tentei consertar a câmera da Bebhinn, que tinha sido molhada pela chuva. Utilizei o secador de cabelos da dona Luceni para tentar secar o interior da câmera e a deixei pegando vento a noite toda para tentar secá-la por completo. Logo foi servida a janta e depois enquanto o pessoal foi ver a novela eu preferi me recolher ao interior de minha barraca e dormir, pois estava cansado e a noite fria e chuvosa era convidativa ao sono. Logo dormi e só fui acordar algumas horas depois com o barulho do vento. Ventava muito forte e agradeci pela barraca não estar armada ao ar livre, pois daí sim seria complicado dormir com vento tão forte.
Filhotes na fazenda do Sr. Antonio.Cachoeira do Boi Cotó.Marco do Caminho de Peabiru.Atravessando ponte.Marilene e Karina.Local provável do antigo cemitério indígena.Bebhinn, Wagner, Marilene, Karina e Vander.Morador local que encontramos pelo caminho.Capela de São Tomé.Marco das quatro fronteiras.Árvore destruída por um raio.Amoras ao lado da estrada.Comendo amoras.Pedra com marcas circulares.Bebhinn admirando a pedra.A simpática Vera.Minha barraca na varanda.
Hoje estive em Maringá e participei do 1º Trekkingá – Enduro a pé no Parque do Ingá. Fiz parte de uma das equipes do Grupo Peregrinos de Maringá. O enduro com orientação foi realizado dentro do Parque do Ingá e contou com a participação de trinta equipes. Fazia muitos anos que eu não via uma bussola ou fazia algum tipo de orientação com planilha. A última vez tinha sido nos meus tempos de Exército. Confesso que estava totalmente enferrujado, e eu que era o capitão da equipe e responsável pela leitura da planilha de orientação, tive que contar com a ajuda de meus companheiros de equipe, pois muitas vezes fiquei totalmente perdido na orientação e leitura da planilha. Minha equipe era a Peregrinos II (equipe número 15) e dela faziam parte: Gaúcho (que contava os passos); Sueli (que auxiliava o Gaúcho na contagem); Mada (responsável pela leitura da bussola) e Matilde (que fez de tudo um pouco).
Na largada que aconteceu às 09h00min, cada equipe partia com dois minutos de diferença da equipe anterior. A rota inicial do enduro até que foi tranquila, pois na planilha de orientação existiam algumas boas referencias que ajudavam na leitura da planilha. Ao mesmo tempo em que tínhamos que procurar fazer uma leitura correta da planilha, tínhamos que contar passos para ter noção de distância que a planilha indicava e também fazer leituras na bussola para descobrir a direção correta a seguir em alguns trechos. Passamos por trilhas e ruas dentro do parque, entramos em valetas, atravessamos pequenas pontes e outras coisas mais. Tínhamos que manter certa regularidade e tentar seguir o tempo estipulado na planilha para percorrer cada trecho. Existiam alguns pontos de controle escondidos pelo caminho e precisamos encontrar estes pontos e carimbar nossa planilha. E não podíamos passar nos pontos de controle muito adiantados ou atrasados, pois passar muito adiantado ou atrasado por um ponto de controle significava perder pontos.
Até o ponto de controle número dois nós fomos muito bem e passamos dentro de uma margem de tempo aceitável. Mas logo nos perdemos por culpa de uma referência errada e acabamos perdendo um bom tempo até chegarmos ao ponto de controle número três. Em seguida conseguimos recuperar um pouco nosso tempo e passamos bem pelo ponto de controle quatro. Mas a partir daí nos perdemos e ficamos andando de um lado para outro tentando entender a planilha e encontrar o caminho correto. Nossa maior dificuldade foi que a planilha passou a ter poucas referencias e isso fez com que ao errarmos um pouco a contagem da distância a percorrer através da contagem de passos ou errar em alguma leitura da bussola ou indicação da planilha, a falta de referencias nos fazia ficar literalmente perdidos. E não fomos o único grupo a ficar perdido a partir do ponto de controle quatro. Mais grupos também se perderam e reclamaram da falta de mais referencias. Como se tratava de uma prova de orientação para iniciantes, bem que os organizadores podiam ter facilitado um pouco e colocado mais pontos de referencia na planilha.
Após três horas de caminhada pelo interior do Parque do Ingá, chegamos ao final do Treekingá. Na colocação geral ficamos em 15 º lugar entre as trinta equipes participantes, o que não foi um mau resultado se levarmos em conta nossa falta de experiência nesse tipo de prova, bem como as dificuldades que enfrentamos e os perdidos que demos. No final valeu a experiência e espero no futuro participar de outras provas do tipo. E com certeza se não tivéssemos tido tanta dificuldade na parte final do enduro, teríamos ficado numa colocação muito melhor. Mas valeu ter participado e conhecido novas pessoas, feito novos amigos!
Equipe Peregrinos I (de branco) e Peregrinos II (de azul).A primeira página da Planilha de Orientação.Na LARGADA: Matilde, Gaúcho, Mada, Sueli e Vander.Quase chegando no primeiro ponto de controle.Local onde muitas equipes se perderam.Nesse momento estávamos bem perdidos.Mada e Gaúcho tentando encontrar o caminho certo.Na CHEGADA a divulgação do resultado do Trekkingá.
Recebi pelo correio um belo presente vindo do Canadá, enviado pelo meu amigo Gilberto. O presente foi uma camisa do Vancouver Whitecaps, time de futebol que disputa a MLS (Major League Soccer) campeonato de futebol disputado por times do Canadá e Estados Unidos.
Quando estive no Canadá ano passado assisti a dois jogos do Whitecaps e virei torcedor “honorário”. Desde então tenho acompanhado pela internet notícias e resultados dos jogos do Whitecaps. Se ano passado ele ficou em último lugar (lá não tem rebaixamento) nesse ano ele está se dando melhor e no momento está em quinto lugar na Conferência Oeste e com chances de disputar os play offs.
Camisa do Whitecaps que eu ganhei.Vancouver Whitecaps.
Fui ao show do RPM, banda que fez muito sucesso em meados dos anos oitenta e que faz parte das lembranças de minha adolescência. O show estava lotado e dessa vez fui mais tarde e cheguei bem no início do show. O pessoal marca o show para um horário e sempre começa com algumas horas de atraso. Acho que fazem isso para manter o público bebendo. Ou seja, consumindo e pagando caro nas bebidas do bar. Como não gosto de ficar esperando e não bebo, resolvi chegar mais tarde e dei sorte de chegar exatamente no início do show, a uma da manhã.
Encontrei alguns amigos e conhecidos antigos, sendo que alguns eu não via há uns trinta anos, desde a época de colégio. E por falar em época de colégio, vi muita gente dessa época. Eu envelheci, mas olhando a maioria do pessoal que encontrei ontem até que não estou tão mal. A mulherada está muito acabada! O interessante é que justamente as garotas mais bonitas na época do colégio, hoje são as que estão mais acabadas. Coisas da vida!!! Kkk….
O show foi muito bom, mas podia ter sido ainda melhor. O RPM cantou muitas músicas novas, que ninguém conhece. Quando cantavam os antigos sucessos o público enlouquecia e cantava junto. Se tivessem cantado somente às músicas antigas e já consagradas, com certeza o show teria sido muito melhor do que foi. Mesmo assim valeu a pena ter ido, pois foi um bom show, que me fez voltar ao passado e relembrar meus 15 anos, quando eu ouvia muito RPM.
Show do RPM. (25/08/2012)Paulo Ricardo.Show do RPM. (25/08/2012)
Domingo foi dia de levantar cedo e viajar 135 km até à cidade de Pitanga, para participar de mais uma Caminhada na Natureza. Dessa vez tive a companhia de minhas amigas Marilene, Zilma e Cris. Essa foi à primeira Caminhada na Natureza de que participei nesse ano, pois em razão de outros compromissos não pude ir às outras caminhadas que aconteceram aqui pela região em 2012.
A caminhada de Pitanga foi a mais organizada de que já participei. O pessoal que organizou essa caminhada está de parabéns! O percurso foi de 12 km e passava por lugares bonitos, sendo alguns trechos de mato e muitas araucárias. Também passámos por uma bela cachoeira, onde ao lado existiam algumas pedras com inscrições antigas, possivelmente mapas feitos na rocha por antigos viajantes que passaram pelo local há dezenas de anos. O fato lamentável é que no local existem muitas pichações e algumas foram feitas por cima dessas inscrições. Ontem vi que alguém tinha acabado de escrever o nome e colocado à data numa das pedras, em cima de uma das antigas inscrições. E pela data dava para ver que tinha sido alguém que participava da caminhada. É lamentável que pessoas ditas civilizadas façam coisas do tipo. Mas infelizmente existem muitas pessoas por aí que não sabem e não merecem viver em sociedade.
Mesmo com sol e um céu sem nuvens, a temperatura estava agradável e foi muito gostoso caminhar. Quem sofreu um pouco foi a Zilma, que está fora de forma e nas subidas quase não conseguia caminhar. Mas com a ajudinha de um “isotônico” de uva ela ganhou uma força extra para chegar até o final da caminhada.
E a melhor parte da caminhada foi o almoço, que estava caprichado e com uma variedade enorme de opções. Comi mais do que queria, devia ou podia! Após o almoço fiquei sentado na grama conversando com minhas três amigas de caminhada e estamos com algumas ideias interessantes com relação a caminhadas. Se o que conversamos for em frente, conto aqui em breve.
Início da caminhadaAlguns caminhantes.Dia bonito para caminhar.Trecho da caminhada.Araras.Pessegueiros floridos.Zilma, Vander, Mari e Cris.Cachoeira.Antigas inscrições na rocha.Almoço.
O amor à montanha, naqueles que o sentem, tem raízes profundas. O ritual de preparação, o ato da subida, a busca pela imensidão faz parte do íntimo de muitos indivíduos, que não se contentam apenas à contemplação. É um momento de introspecção, a viagem se interioriza. O sentimento de subir é indizível, o silêncio é rompido pela respiração ofegante. O cume se aproxima!
Zelita Seabra
No alto da montanha de Huayna Picchu. (Peru, maio/2012)Montanhas próximas à La Paz. (Bolívia, junho/2012)
27Na última sexta-feira fui a um show da banda NENHUM DE NÓS que aconteceu na Unique em Campo Mourão. Essa é uma das poucas bandas de rock que gosto e de que conheço muitas músicas. O show foi muito bom, mas infelizmente começou com mais de duas horas de atraso e eu não me aguentava mais de sono, por pouco não fui embora antes do show iniciar. Quando entrou no palco a banda deu um “show”, mesclando músicas novas com algumas antigas e consagradas. E no final do show cantaram seu maior sucesso, “Astronauta de Mármore”.
Essa semana estive no interior do Rio Grande do Sul e me encontrei com a Laura, minha amiga portuguesa/canadense. Ela está passeando pelo Brasil e foi à Ijuí visitar a família do Gilberto, que teve que cancelar sua vinda ao Brasil na última hora por razões de trabalho. Foi muito bom reencontrar a Laura e pudemos conversar bastante. Fomos jantar no melhor restaurante da cidade e ela pagou a conta. No dia seguinte retribuí e paguei o café da manhã. Na verdade o café da manhã foi um copo de café daqueles de máquina, em um posto de gasolina. Mas o que vale é a intenção!!! Kkkk…
Espero rever a Laura daqui uns dois ou três anos, quando pretendo fazer uma nova visita ao Canadá. E espero rever o Gilberto ainda esse ano, quando ele vier ao Brasil!
No último dia 3 de julho fez 27 anos que o filme De Volta Para o Futuro (Back To The Future) estreou nos cinemas. Foi há 27 anos que Marty McFly fez sua primeira viagem no DeLorean do Doc Brown e encantou pessoas mundo afora. Eu fui uma dessas pessoas que se encantaram com o filme. Estava então com 15 anos e assisti ao filme meses depois de sua estreia, quando ele finalmente chegou ao único cinema de minha cidade, no interior do Paraná. Fiquei fascinado pelo filme que se tornou um de meus favoritos, para sempre!
Com um orçamento de U$ 20 milhões o filme arrecadou cerca de U$ 320 milhões, tendo se tornado na época uma das maiores bilheterias de todos os tempos. A história de um jovem que viaja no tempo utilizando um carro que é uma máquina do tempo, fez muito sucesso com os jovens. Tal sucesso possibilitou sua continuação, com mais dois filmes da série que foram gravados de forma simultânea. Os dois filmes da sequencia foram lançados em 1989 e 1990. O filme De Volta Para o Futuro teve grande influencia na cultura POP e permanece como uma das trilogias mais importantes da história do cinema.
Anos após ter assistido ao primeiro filme da trilogia no cinema de minha cidade, tive a oportunidade de nos Estados Unidos ver ao vivo o carro e alguns outros itens utilizados nos filmes da trilogia. Durante muitos anos funcionou no parque temático da Universal Studios de Orlando, uma atração baseada no filme De Volta Para o Futuro. A atração era um ride, onde você entrava em um carro parecido com o DeLorean do filme e voava pela cidade do filme e alguns outros locais. Os carrinhos ficavam parados, mas se moviam conforme as imagens que apareciam num telão gigante a sua frente e a sensação era de que você estava realmente viajando no DeLorean do filme. Nessa atração inclusive você viajava até o tempo dos dinossauros. Isso soava estranho, pois em nenhum dos três filmes da série existem dinossauros. Acontece que a Universal pretendia lançar um quarto filme, onde o DeLorean viajaria a um passado remoto, na época dos dinossauros. Tal plano de um quarto filme abordando esse tema foi abortado quando do lançamento do filme Jurrasic Park. Já faz alguns anos que o rideDe Volta Para o Futuro foi desativado, dando lugar a uma atração baseada nos Simpsons. No parque da Universal Studios ainda está em exposição o carro e também o trem utilizado no terceiro filme da série.
De tempos em tempos revejo o filme De Volta Para o Futuro, que marcou minha adolescência e principalmente o ano de 1985, que foi o melhor ano de minha vida (até agora!).
De Volta Para o Futuro.
De Volta Para o Futuro II.
De Volta Para o Futuro III.
Marty McFly e Doc Brown em De Volta Para o Futuro II.
Com o DeLorean do filme, na Universal Studios. (Orlando, fev/2003)
Universal Studios, Orlando. (fev/2003)
Entrada do “ride” De Volta Para o Futuro. (2003)
Cartaz do ride De Volta Para o Futuro.
Marty McFly e Doc Brown no DeLorean.
DeLorean em exposição na Universal Studios. (out/2011)
DeLorean em exposição na Universal Studios. (out/2011)
Acabo de comprar três livros, sendo que dois deles deram origem a filmes que assisti e gostei. O outro é sobre escaladas, assunto de que gosto muito. Preciso perder menos tempo com a internet e voltar com o velho hábito de ler ao menos um livro por mês.
“(…) porque as únicas pessoas que me interessam são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões… mas queimam, queimam como fogos de artifício pela noite“.
No último final de semana estive em Marechal Cândido Rondon, visitando meus amigos Marcão e Rosemeire. E além deles pude rever outros amigos, alguns que eram de Curitiba e agora vivem em Marechal. E entre as muitas coisas que fiz vale mencionar as brincadeiras que tive com a Mirella, filha do Marcão e da Rosemeire. Brinquei de bola, de quebra cabeças, de desenhar e até de boneca. Em pleno sábado à noite eu estava trocando vestidos da Barbie! Eu que durante muitos anos tive medo de relacionamentos sérios e não queria casar, não queria filhos por achar que não seria um bom pai, a cada dia que passa tenho mudado de opinião. Após a experiência de meu último namoro, onde a namorada era separada e tinha uma filha de nove anos com quem eu me entendia muito bem, cada dia mais tenho percebido que levo jeito com crianças e que quero ser pai. Quem me viu e quem me vê!!!!
Ganhei um presente muito simpático, dado por minha amiga Heverly. Essa foto foi tirada em Cusco no dia 18/05/2012, logo após eu ter encontrado a Heverly por acaso na rua. O detalhe é que não vimos a foto ser tirada.
Foi sofrido, demorou, mas finalmente o Corinthians foi Campeão da Copa Libertadores. Se o time não mostrou um futebol de encher os olhos, ao menos mostrou um futebol de resultado, que fica claro na forma invicta com que conquistou o título. E no futebol o importante é o resultado, o importante é ser campeão. A melhor Seleção Brasileira que já vi jogar foi a da Copa de 82 com Zico e Sócrates, comandada pelo mestre Telê Santana. Aquela seleção jogou bonito, mas não venceu. Então prefiro um time que não jogue bonito e seja campeão, do que um time que jogue bonito e não ganhe títulos. No futebol o importante é o resultado e nada mais!
Esse título do Corinthians serviu para calar muitos chatos, os tais “anti-corinthianos”, que se importam mais com os resultados do Corinthians do que com os resultados de seu próprio time. Se estes anti se preocupassem mais com seus próprios times, talvez estes times tivessem mais torcida e dessem mais audiência na TV. Nessa Copa Libertadores o Corinthians teve Ibope igual à Seleção Brasileira em jogos de Copa do Mundo. Somente o Corinthians para conseguir uma proeza dessas! Isso é sinal de que se não somos (ainda) a maior torcida do Brasil, somos a mais fiel, a mais apaixonada e a mais louca. E o Flamengo que se cuide, pois com esse título da Copa Libertadores uma nova safra de torcedores está nascendo e muito em breve seremos a maior torcida do Brasil.
Sou corinthiano desde meus seis anos de idade, desde a derrota para o Internacional na final do Brasileirão de 1976. Mas sou pé quente, pois no ano seguinte o Corinthians foi Campeão Paulista, saindo de uma fila de 23 anos à espera de um título. Não sou um torcedor fanático daqueles que fazem loucuras pelo time, que batem ou apanham. Sou um torcedor apaixonado e como quase tudo que faço na vida, sou um torcedor discreto. E sou aquele que veste a camisa do time não somente nas vitórias, mas também nas derrotas, igual fiz no rebaixamento do time em 2007, quando após o jogo do rebaixamento saí à rua em Curitiba com a camisa do Corinthians. Naquele dia muita gente na rua veio me cumprimentar pelo meu exemplo de amor ao time mesmo na derrota.
Então é isso! Meus sinceros parabéns a todos os corinthianos! E aos anti-corinthianos, que se preocupem mais com seus times e deixem o Corinthians em paz, pois não nos precupamos com vocês e seus times. E para nós mais importante do que conquistas é o próprio CORINTHIANS!!!
Eram 6h30min quando uma moça me acordou e entregou uma bandeja com o café da manhã. Comi o sanduiche de presunto e a salada de frutas que foram servidos. Dispensei o café e o chá de coca. Fui ao banheiro escovar os dentes e lavar o rosto e logo voltei para minha poltrona. Fiquei olhando pela janela do trem e a paisagem eram árvores e alguns pastos. Vi muitos passarinhos, inclusive alguns papagaios e araras azuis. Aquela região fazia parte do pantanal e era muito rica em fauna e flora. Mais meia hora de viagem e chegámos a Porto Quijarro.
O desembarque foi tranquilo e nem entrei na estação, saí por um portão lateral e peguei um taxi na rua em frente. Paguei $ 10,00 bolivianos (meus últimos bolivianos) e desembarquei na fronteira com o Brasil. Fui para a fila da imigração, que não era grande naquele horário e não demorou muito para que verificassem e carimbassem meu passaporte. Apenas achei muito detonado o escritório da imigração, que era todo sujo, com móveis velhos e equipamentos quebrados. Com certeza foi o pior escritório de imigração onde já estive!
Atravessei a fronteira a pé e fui “recebido” no lado brasileiro por um simpático cachorrinho. Passei pela imigração brasileira, onde pela primeira vez consegui ver na tela do computador como é o cadastrado vinculado ao número de passaporte da pessoa e as informações de entrada e saída no Brasil. Geralmente em aeroportos o monitor do computador fica virado para o funcionário e não é possível ver nada. Ali o monitor estava de lado e eu dei uma esticada de pescoço para poder matar minha curiosidade e ver o que aparecia para o agente federal. Carimbaram meu passaporte, o que não é um procedimento usual e foi a primeira vez que isso aconteceu, de eu ganhar um carimbo brasileiro no passaporte.
Corumbá – MS
Já em solo brasileiro fui procurar um jeito de ir até a rodoviária de Corumbá, cidade ao lado da fronteira. Pedi informações para dois rapazes que entregavam panfletos sobre viagens turísticas pelo pantanal. Os rapazes me sugeririam conversar com uma mulher e sua filha, que estavam num ponto de taxi próximo e propor a elas pegar o mesmo taxi até a rodoviária. E foi o que fiz, conversei com a tal mulher, que tinha vindo no mesmo trem que eu. O preço da corrida até a rodoviária era R$ 40,00 e paguei a metade. No caminho o taxista parou em um supermercado, onde fui sacar reais num caixa eletrônico. Desembarcamos na rodoviária pouco antes das 9h00min e fomos direto ao balcão da Viação Andorinha, para comprar a passagem até Campo Grande. O próximo ônibus partiria às 11h00min e paguei R$ 79,00 na passagem. Fiquei bastante tempo conversando com a senhora com quem dividi o taxi e com sua filha. A tal senhora era paranaense, mas vive em Minas Gerais e é casada com um boliviano.
Estava ficando com fome e fui procurar um lugar para comer. Na rodoviária só tinha uma lanchonete e para comer a única opção eram algumas coxinhas gordurosas e caras. Dei uma volta pelas proximidades e só encontrei um restaurante, do outro lado da rua. O local era bem simples, mas olhei a cozinha e era limpa e o cheiro da comida era tentador. O Problema é que ia demorar um pouco para a comida ficar pronta. Voltei até a rodoviária e falei para a senhora com quem dividi o táxi, sobre o restaurante que tinha encontrado. Ela e a filha foram comigo até o restaurante e ficamos esperando a comida ficar pronta. Eu fiquei o tempo todo de olho no relógio, com medo de perder o ônibus. Quando faltavam vinte minutos para o horário de partida do ônibus, o almoço foi servido. Era prato feito, na verdade dois pratos, um com feijão e arroz, e outro com bife e salada. Era muita comida para uma pessoa somente e achei que não ia dar conta de comer tudo. Fazia quase um mês que eu não comia feijão e quando vi aquele prato de feijão e arroz na minha frente não pensei duas vezes e comecei a comer. A comida era muito boa e foi uma pena que tive que comer correndo. E comi tudo, não deixei um único grão de arroz no prato! A senhora e sua filha dividiram um prato e mesmo assim não conseguiram comer toda a comida.
Voltamos à rodoviária e o pessoal já estava embarcando. Coloquei minhas mochilas no bagageiro e fui para meu lugar, no corredor ao lado de um homem. Tão logo o ônibus partiu eu dormi e acordei uma hora depois, num posto de fiscalização. Voltamos à estrada e dormi um bom tempo, até nova parada, dessa vez num posto da Policia Rodoviária Federal. Os policiais pediram documentos de alguns bolivianos e também de duas garotas com cara de menores de idade, que viajavam sozinhas. No fim não encontraram nenhum problema e fomos liberados para seguir viagem. Dormi mais um pouco e acordei novamente quando teve uma parada para lanche. Desci, estiquei as pernas e fiz um lanche rápido. Embarquei e o restante da viagem fui dormindo.
Campo Grande
Pouco depois das 18h30min o ônibus passou em frente ao aeroporto de Campo Grande e desembarquei. Fiquei feliz pelo ônibus ter passado em frente ao aeroporto, pois assim eu economizava o taxi da rodoviária até ali. Entrei no saguão do aeroporto e fui direto ao banheiro. Eu estava sem banho desde o dia anterior, então procurei amenizar um pouco a situação lavando os pés e passando uma toalha úmida pelo corpo. Coloquei uma camiseta limpa, que era a última peça de roupa limpa que eu tinha. Voltei ao saguão e lembrei-me da lanchonete do posto de gasolina que fica do outro lado da avenida em frente aeroporto. Nessa lanchonete eu tinha lanchado quando passei por Campo Grande no início da viagem. Fui até lá e comi três deliciosas coxinhas, acompanhadas de um Todynho. A bela e simpática dona da lanchonete lembrou que eu tinha passado por lá dias antes e puxou conversa. Ficamos um bom tempo papeando. Como estava ficando tarde resolvi voltar para o aeroporto. Escolhi uma cadeira confortável e fiquei ali usando o net book, organizando as fotos da viagem e também alguns textos sobre a viagem, para postar no blog. Tenho uma tia e alguns primos que moram em Campo Grande e poderia entrar em contato com eles e me hospedar na casa de algum deles. Ou poderia ir para um hotel. Mas como não gosto de incomodar os outros, principalmente meus parentes e como sou um cara econômico (não confunda com pão duro) achei melhor passar a noite acordado no aeroporto. Já fiz isso outras vezes, tanto em aeroportos brasileiros como no exterior. Aeroportos são locais seguros e sossegados para passar a noite. Tem muita gente que faz isso, sendo que alguns dormem pelos bancos ou no chão. Eu prefiro ficar acordado, fazendo algo para passar o tempo.
Pouco antes da meia noite resolvi dar uma volta pelo aeroporto, que não é grande. Entrei numa livraria e fiquei vendo os livros e revistas. Acabei comprando um livro do Rodrigo Ranieri, onde ele conta sobre suas escaladas pelo mundo e principalmente suas experiências no Everest. Sentei-me para ler o livro, que era muito interessante. Animei-me tanto com a leitura que só fui parar de ler poucos antes da 3h00min, quando estava na metade do livro. Dei mais uma volta pelo aeroporto, para esticar as pernas. Sentia fome e fui até uma Casa do Pão de Queijo, que fica ao lado de uma das portas do aeroporto e que estava aberta naquele horário. Olhei o cardápio e pedi um suco. A atendente disse que não tinha. Daí pedi um sanduíche e também não tinha. Olhei mais uma vez o cardápio e pedi outro tipo de sanduíche. Novamente a resposta foi que não tinha. Então desisti! Levantei, dei tchau para a atendente e por pouco não perguntei a ela porque não fecham aquela espelunca, já que não tem nada para servir. Acabei entrando no restaurante mais caro do aeroporto, pois era o único que restava aberto. Pedi um suco e um sanduíche (ali tinha!) e fiquei numa mesa lendo meu livro e comendo. Após quase uma hora ali, comecei a sentir sono e resolvi sair e dar uma volta.
Fiquei uns 15 minutos caminhando pelo aeroporto e resolvi me sentar e terminar de ler meu livro. Mas cadê o livro? Voltei ao restaurante, pois só podia ter esquecido o livro lá. Quando entrei pela porta vi a atendente lendo meu livro. Quando ela me viu deu um sorriso, mostrou a capa do livro e perguntou se era eu na foto. Respondi que não, apesar de estar barbudo igual o Rodrigo Ranieri na capa do livro. Ela disse que me achou parecido com o cara da capa e como eu estava cheio de mochilas, pensou que fosse eu o autor do livro. Ficamos papeando um pouco e quando chegaram clientes a deixei ir trabalhar e voltei a me sentar no saguão. Fiquei lendo meu livro até amanhecer o dia.
09/06/2012
Campo Grande
Às 6h00min fui até o balcão da Gol e fiz meu checkin. Despachei a mochila grande e a média, e em seguida fui para a sala de embarque, onde terminei de ler o meu livro. Logo embarquei num voo que vinha de Santa Cruz de La Sierra e seguia para São Paulo. Fui o último a embarcar no avião lotado. Meu lugar era no meio, na janela e ao meu lado foi sentado um senhor de meia idade e uma boliviana com cara de antipática. Antes da decolagem peguei no sono e só fui acordar quando chegámos à São Paulo, ao aeroporto de Guarulhos.
São Paulo
Minha conexão para Maringá seria às 11h00min, então não tinha pressa para desembarcar do avião. Esperei todos passarem pelo corredor e me levantei para sair. Ao passar pela poltrona do corredor onde a boliviana estava sentada, vi uma pasta com um note book e um Iphone. Na pressa de descer a boliviana esqueceu suas coisas. Peguei o note book e o Iphone e na saída do avião os entreguei a comissária de bordo e falei a ela o número da poltrona onde os tinha encontrado. Em nenhum momento tive vontade de ficar com tais coisas, o que seria fácil, pois era só guardar rapidamente em minha mochila e desembarcar. Mas aprendi desde criança a não pegar o que é dos outros. Se eu tivesse encontrado aquilo em um lugar onde não tinha como devolver ao dono, ou então não soubesse quem era o dono seria diferente, seria algo “achado” literalmente. Mas nesse caso eu sabia quem era o dono, tinha a opção de deixar com a comissária de bordo, pois a dona podia procurar com a Cia Aérea.
Desci do avião e resolvi ir atrás da boliviana, para avisá-la que tinha encontrado suas coisas e deixado com a comissária. Em vez de seguir para a sala de embarque de minha conexão, segui por outra porta e tive que passar pela imigração. Mostrei meu passaporte e cartão de embarque, para provar que mesmo eu vindo num voo internacional eu tinha embarcado em solo brasileiro, o que me liberava de certos tramites burocráticos. Fui até a esteira de bagagens e lá encontrei o senhor que estava sentado ao meu lado. Perguntei se a boliviana estava junto com ele e a resposta foi negativa. Ele disse que ela desceu somente com a bagagem de mão e que a viu saindo pela porta de desembarque. Eu não tinha mais como encontrar a boliviana, mas minha consciência estava tranquila, pois fiz a coisa certa. Apenas não sei (e jamais saberei!) se a comissária de bordo fez a parte dela e deu o encaminhamento correto ao note book e Iphone que entreguei a ela. Espero que tenha dado!!
Andei um pouco pelo aeroporto, para espantar o sono. Pouco antes das 11h00min embarquei e mais uma vez dormi durante quase toda a viagem.
Maringá
O desembarque em Maringá como sempre foi um pouco tumultuado, em razão do pequeno espaço físico na hora de pegar as malas na esteira. E a saída para o saguão também é complicada, pois sempre tem gente esperando quem chega de viagem e eles acabam travando a saída de quem está saindo com suas malas. Encontrei meu irmão, que me levou até a rodoviária, onde peguei um ônibus para Campo Mourão.
Na viagem fui lembrando de alguns momentos dos vinte e poucos dias de viagem. Lembrei dos amigos que fiz e das pessoas que conheci. A maioria dessas pessoas jamais verei ou terei notícias delas novamente. Alguns amigos que fiz manterei contato, mas com o tempo alguns vão desaparecendo e somente com poucos é que terei um contato mais permanente. Também lembrei das fotos que tirei na viagem e que muitas dessas fotos ficarão espalhadas pelo mundo. Daqui uns cinquenta anos o neto de algumas das pessoas que estavam ao meu lado nas fotos, vai ficar se perguntando quem era e de onde era aquele cara de barba vermelha que aparece na foto junto ao seu avô ou avó. Bem como daqui cinquenta anos meus netos vão olhar minhas fotos e perguntar quem eram as pessoas que estavam comigo nas fotos.
Essa foi uma das melhores viagens que já fiz, principalmente em razão das coisas que fiz, das pessoas maravilhosas que conheci. E contar sobre essa viagem de forma detalhada no blog é uma forma de não esquecer tal viagem e nem as pessoas que fizeram parte dessa história. Sempre que eu reler a narrativa dessa viagem estarei recordando momentos especiais e inesquecíveis e relembrando as muitas emoções e até momentos de medo pelos quais passei. Viajar, conhecer novos lugares e pessoas, viver aventuras, é uma das coisas que mais gosto na vida. Em cada viagem, no contato com todas as pessoas que conheço nas viagens, aprendo algo novo e procuro colocar em prática no meu dia a dia muitas dessas coisas que aprendo.
E finalizando os relatos da viagem ao Peru e Bolívia, vou “emprestar” o lema da empresa na qual trabalho atualmente e que diz: VIVER É VIAJAR!
Acordei às 10h00min e fiquei vendo TV na cama por algum tempo. Depois levantei, tomei banho frio (não tinha outra opção!), arrumei minhas coisas e saí. Fiz o checkout às 11h30, que era o horário limite para sair do hotel. Saí e atravessei à avenida em frente ao hotel para ir até o Terminal Bimodal. Lá deixei minhas mochilas no guarda volumes e fui para o centro da cidade. A chuva tinha parado, mas continuava nublado e fazendo frio. Ao caminhar pela rua notei que minha calça estava caindo. Após tantos dias comendo comidas ruins, fazendo algumas atividades físicas desgastantes e vivendo em altas atitudes, acabei perdendo alguns quilos.
Eu conhecia o caminho até o centro da cidade, pois estivera passeando por alí algumas semanas antes, no início da viagem. Minha intenção era almoçar no mesmo restaurante onde almocei da outra vez em companhia de alguns amigos. Encontrei o restaurante, mas naquele dia não serviriam almoço. Achei estranho isso, mas não perguntei o motivo. Saí andar pelo centro e então notei que todas as lojas estavam fechadas. Foi então que lembrei que era feriado de Corpus Christi. Nessa viagem eu tinha perdido um pouco a noção de tempo e muitas vezes não sabia que dia da semana ou do mês era, e muito menos me lembrava de feriados. Andei um pouco pelo centro e fui até a praça em frente à Catedral, que mais uma vez estava fechada. Com tudo estando fechado em razão do feriado e Santa Cruz não sendo uma cidade com muitos atrativos para turistas, resolvi voltar para o Terminal Bimodal. Pelo caminho fui procurando algum restaurante aberto, mas não encontrei nenhum.
Na região em frente ao Terminal Bimodal existiam muitos restaurantes e todos estavam abertos. Resolvi procurar outro lugar para almoçar e não o restaurante onde tinha almoçado e jantado no dia anterior. Passei por todos os restaurantes, olhei as mesas, a comida que estava sendo servida e nenhum me agradou. Todos eram sujos e a comida estranha. Tinha até uma pequena churrascaria, cuja churrasqueira ficava na calçada. Dei uma olhada nas carnes que estava sendo assadas e que no meio tinha algumas tripas de boi sendo assadas. Fiquei alguns minutos parado olhando o churrasqueiro e após ver algumas atitudes nada higienicas por parte dele, desisti de comer ali. Fui almoçar no mesmo restaurante do dia anterior, que se não era um exemplo de limpeza e higiene, ao menos a comida era razoável e não tinha me feito mal. Chegando ao restaurante encontrei uma única mesa vazia, pois como das outras vezes estava lotado. Pedi o costumeiro prato feito com arroz, frango, batata frita e comecei a comer.
Á tarde eu não tinha nada para fazer, a não ser esperar o final do dia quando meu trem partiria. Voltou a chover e isso impossibilitou qualquer passeio pela cidade. Entrei em uma lan house e passei o resto da tarde usando a internet. Quando escureceu fui para o Terminal Bimodal e no caminho ouvi música na rua, que vinha de uma loja. Dessa vez era Roberto Carlos, cantando em espanhol. No Terminal Bimodal peguei minhas mochilas no guarda volumes e fui para a fila do embarque. A fila era pequena e quando fui passar pelo portão de embarque me barraram. Ali também era preciso comprar o tal ticket de taxa de embarque. Fui comprar o ticket e voltei para o portão de embarque. O trem estava parado logo em frente e eram somente dois vagões. Creio que por ser o trem luxo que é mais caro, pouca gente costuma viajar nele.
Embarquei no trem e me senti frustrado, pois esse Trem da Morte não era nada parecido com o Trem da Morte das histórias que li em livros. Esse trem em que estava embarcado era a versão luxuosa do Trem da Morte, com poltronas macias e reclinaveis, ar condicionado, TVs de plasma passando filmes norte americanos e banheiro limpo. Eu que esperei tanto tempo para viajar no clássico Trem da Morte, acabei tendo que me contentar com a versão luxo e sem graça do trem. Viajar pelo Trem da Morte é uma espécie de ritual e todo mochileiro que se preze um dia deve passar por tal ritual, deve fazer tal viagem, para então ser considerado um mochileiro de verdade. Eu que viajo há muitos anos no estilo mochileiro, ainda não tinha tal viagem no meu currículo.
A viagem de trem entre Santa Cruz de La Sierra e Porto Quijarro, na fronteira com o Brasil, é de pouco mais de seiscentos quilômetros. O nome Trem da Morte, ao contrário do que muitos imaginam não é em razão da estrada ser perigosa, com desfiladeiros e cheia de pontes prestes a cair. O nome Trem da Morte é por que no século passado durante uma grande epidemia de febre amarela que assolou a região de Santa Cruz de La Sierra, esse trem foi utilizado para transportar muitas pessoas doentes e também corpos de mortos na epidemia. E muitos dos doentes transportados no trem, morreram durante a viagem. Além disso, naquela época a ferrovia se encontrava em péssimas condições de conservação e muitos descarrilhamentos com mortes aconteciam, aumentado ainda mais a má fama da ferrovia e tornando “famoso” o Trem da Morte.
Atualmente existem três tipos de trens percorrendo o trecho entre Santa Cruz de La Sierra e Porto Quijarro (e vice versa). Tem o Regional, que é o preferido dos viajantes, pois é o mais barato. O Regional é considerado o Trem da Morte clássico, pois sua viagem dura em média 19 horas e normalmente está lotado. Ele costuma ter pessoas dormindo pelo chão e transportando galinhas dentro dos vagões. Nesse tipo de trem é permitida a entrada de vendedores, então em cada parada que o trem faz muita gente entra e desce dos vagões, vendendo diversos tipos de produtos. O Regional também é o preferido pelos mochileiros do mundo todo que buscam fazer a famosa viagem pelo Trem da Morte. O trem intermediario é o Expresso Oriental, cuja viagem tem duração média de 16 horas e o preço é um pouco maior do que o Regional. O trem mais luxuoso é o Ferrobus, que é o mais chique e caro, e cuja duração da viagem é de cerca de 12 horas. Era justamente no Ferrobus que eu ia viajar. O mais caro, mais luxuoso, mais confortável e mais sem graça dos trens. E justamente o trem pelo qual eu não queria viajar. Mas não tive opção, pois tinha ficado mais de um dia esperando um trem que partisse de Santa Cruz e tanto meu dinheiro, quanto minha paciência estavam no fim e eu queria voltar logo para casa.
Acomodei-me em minha poltrona, que era bastante confortável. Meu vagão estava quase vazio, com mais seis pessoas somente. Dentro do vagão fazia muito frio e mais tarde descobri que o sistema de ar condicionado estava com defeito e por isso que ficava tão frio dentro do trem. Entrei dentro de meu saco de dormir e fiquei vendo um filme que passava em uma TV presa ao teto, no corredor do trem. E para minha surpresa logo apareceram duas moças com um carrinho igual os de serviço de bordo de aviões. Elas traziam o jantar! O trem era mesmo chique, tinha até jantar quente. O cardápio era arroz, batata cozida e carne assada. Para beber tinha água e Coca-Cola. E de sobremesa tinha pudim. A comida era boa, pena que em pouca quantidade. Mesmo tendo gostado da comida, do filme e do conforto do trem, fiquei decepcionado e frustrado, pois aquela não era a viagem pelo Trem da Morte que tanto planejei e esperei. Paciência! O jeito era me conformar e talvez um dia voltar ali e fazer a viagem pelo Trem da Morte clássico, desconfortável, sujo, cheio de gente e extremamente lento…
Começou a tocar o despertador do celular do cara que estava sentado na poltrona próxima a mim, do outro lado do corredor. Acordei com o barulho do despertador e também a criança de colo que estava na poltrona da frente. Foi um berreiro tão grande que acordou quase todo mundo dentro do ônibus. Depois dessa acho que o dono do celular passou a ser odiado por todos. Olhei no relógio e eram 5h35min. Tentei dormir novamente, mas a criança da frente chorova tão alto que era impossível voltar a dormir. Coloquei os fones do MP3, liguei a música bem alta para tentar abafar o choro da criança e assim consegui dormir.
Acordei algumas horas mais tarde, quando o ônibus parou em outro posto policial. Dessa vez todos tiveram que descer e ficar esperando ao lado da estrada pouco a frente do ônibus. Três policiais entraram no ônibus e fizeram uma varredura, olhando inclusive as mochilas e bolsas que tinham ficado dentro do ônibus. Um policial ao passar por mim parou e quando ia falar algo, alguém o chamou e ele entrou num carro e foi embora. Sorte minha!! Após meia hora nos mandaram embarcar e fomos embora. A bateria do MP3 acabou e fiquei sem ter o que fazer para matar tempo. O jeito foi ficar olhando pela janela, onde a paisagem era mato e uma ou outra casa. Mais duas horas de viagem e paramos para almoçar, em uma cabana na beira da estrada. Quase todos os passageiros comeram nesse lugar da parada. Eu entrei, circulei entre as mesas, dei uma olhada na cozinha e diante da precariedade da mesma e da aparente falta de higiene, desisti de comer ali. Comprei uma Fanta e fiquei parado próximo ao ônibus. O tempo estava nublado desde cedo e parecia que ia chover. Logo o ônibus da empresa cujo vendedor não quis me vender passagem em La Paz, parou ao lado. Dei uma olhada mais detalhada no tal ônibus, fui até sua porta e olhei dentro. Mais uma vez fiquei muito agradecido ao vendedor por não ter me vendido a passagem. O ônibus era muito ruim e desconfortável. O ônibus em que eu estava viajando não era dos melhores, mas com certeza era bem melhor do que aquele em que quase viajei. E o preço da passagem era o mesmo nas duas empresas de ônibus. O motorista apareceu e me chamou para embarcar.
O cara da poltrona do outro lado do corredor levou uma marmita para comer dentro do ônibus. E mais uma vez jogou o lixo no chão, inclusive ossos de frango. O espaço em volta a poltrona dele parecia um chiqueiro. Almocei alguns biscoitos e chocolates que tinha na mochila. Guardei as embalagens vazias no bolso lateral da mochila, bem como catei alguns farelos que tinham caído no chão. O cara da poltrona ao lado ficou olhando eu gurdando o lixo e limpando o chão. Espero que ele tenha aprendido algo comigo e em futuras viagens não seja tão porco. Começou a chover e fiquei alternando alguns cochilos, com olhadas para a paisagem.
Passava um pouco das 13h00min quando finalmente chegamos à Santa Cruz de La Sierra. O desembarque foi na lateral do Terminal Bimodal (rodoviária + estação de trem) e quando fui pegar minha mochila no bagageiro começou a chover forte. Não encontrei o ticket de bagagem. Procurei nos bolsos, na mochila e nada de encontrá-lo. Sempre fui cuidadoso com ticket de bagagem, seja em viagens de ônibus ou avião e nunca tinha perdido algum. Fui falar com o motorista e contei que não tinha o ticket. Ele me respondeu que sem ticket ele não entregava a bagagem. Fiquei quieto e fui me proteger da chuva debaixo de uma marquise. Mas fiquei o tempo todo olhando minha mochila, enquanto o pessoal pegava suas bagagens. Quando todos pegaram suas coisas e só ficou a minha mochila no bagageiro do ônibus, fui falar novamente com o motorista. Ele mais uma vez respondeu grosseiramente que sem o ticket ele não entregava a mochila. Argumentei com ele de que só tinha sobrado aquela mochila e que ele sabia que ela era minha. Lembrei a ele sobre a parada de madrugada no posto policial (ver postagem anterior) quando o policial entregou minha mochila na mão dele e disse para ele guardá-la no bagageiro. Ele pensou um instante, fez cara feia e me mandou pegar a mochila. Coloquei a mochila nas costas e ao passar pelo motorista dei um tapinha nas costas dele e disse muito obrigado. Ele não respondeu e virou de costas.
Fui até dentro do Terminal Bimodal a procura de um lugar para trocar meus últimos U$ 40,00. Esses dólares eu tinha guardado para comprar a passagem de trem ali em Santa Cruz de La Sierra. A única casa de cambio existente no Terminal estava fechada. Fui até o ghichê que vende passagens de trem para me informar sobre o Trem da Morte. O Trem da Morte clássico, que é o mais barato e onde o pessoal viaja meio amontoado, leva animais dentro e que era justamente o que eu queria saíria no final do dia. Mas não tinha mais passagens e outro trem igual só dali três dias. Fiquei decepcionado, pois eu queria viajar nesse mais simples, não pelo preço que era o mais barato, mas sim por que nesse trem tinha mais “emoção” e era o preferido pelos mochileiros do mundo todo. E eu não podia e não queria ficar três dias em Santa Cruz de La Sierra esperando o Trem da Morte clássico. O próximo trem que tinha passagem à venda partiria no dia seguinte, no final do dia e era justamente o trem de luxo. A passagem nesse trem de luxo custava $ 240,00 bolivianos. Não era possível pagar com dólares e o vendedor disse para eu ir até a entrada do Terminal, que ali algumas pessoas faziam cambio. Fui até o portão de entrada e logo vi um senhor de idade com um monte de notas de dólares e de bolivianos na mão. Fiz o cambio com ele e fiquei pensando que se fosse no Brasil o cara já tinha sido assaltado, pois ficar com tanto dinheiro na mão em um local público e cheio de gente, no Brasil é pedir para ser assaltado. Infelizmente cada dia tenho mais certeza de que o Brasil é o país dos ladrões!
Voltei até o ghichê da empresa de trem e comprei minha passagem. Como o trem só partiria às 18h30min do dia seguinte, eu tinha mais de vinte e quatro horas de espera. Saí do Terminal Bimodal a procura de um hotel. Voltou a chover e atravessar a rua em frente ao Terminal foi uma aventura. Primeiro por que atravessar ruas em Santa Cruz de La Sierra já é uma aventura em qualquer dia, em razão dos muitos carros que passam feito louco buzinando. E a segunda razão foi que boa parte da rua estava submersa, em alguns trechos com água batendo na altura da canela. Eu não queria molhar meus pés e principalmente meu único par de tênis. Parei e fiquei observando ao redor para ver como o pessoal estava fazendo para atravessar a rua. Vi que em algumas partes da rua tinham sido colocadas pedras e tijolos, aonde as pessoas iam pisando em cima para poder atravessar a rua sem molhar os pés. Fiz o mesmo, mas como estava com três mochilas tive que ser meio equilibrista para passar por sobre as pedras e tijolos sem cair na água e molhar os pés.
Na região em frente ao Terminal Bimodal vi somente dois hotéis. Entrei em um deles e ninguém veio me atender. Saí e fui em outro quase ao lado. O recpecionista tinha a maior cara de malandro e me atendeu contando algumas histórias e já ficou cheio de intimidades. O quarto custava $ 35,00 bolivianos e ficava no segundo ar. Subi sem expectativa alguma de que seria um bom quarto e ao abrir a porta vi que não estava enganado. Deixei minhas mochilas sobre a cama e fui tomar banho. E descobri que o banho era frio. Já fiquei em muito hotel pelo Brasil e pelo mundo, tanto em hotéis chiques, hotéis mais ou menos e alguns pulgueiros. Mas nunca fiquei em um hotel onde o banho fosse frio. Mas para quem já tinha tomado muito banho frio nessa viagem, um a mais ou a menos não ia fazer mal.
Saí do hotel e fui procurar um local para almoçar. A chuva tinha aumentado e ir para o centro da cidade não era uma boa idéia naquele momento. Dei uma volta pelas redondezas e resolvi entrar em um restaurante que apesar de ser meio sujo estava lotado. E restaurante lotado, mais que sinal de preço baixo é sinal de comida boa. O cardápio era o clássico arroz com frango e batata frita. E tinha um adicional, que era macarrão. Fiz meu pedido e logo veio o prato feito, que devorei todo só deixando os ossos. O macarrão era horroroso, mas comi do mesmo jeito. Saindo do restaurante entrei em uma lan houde e fiquei o resto da tarde usando a internet. Aproveitei para reponder e-mails, papear com alguns amigos, postar fotos no Facebook e postar algo no blog.
Já estava escuro quando voltei ao hotel. Tinha esfriado muito e não parava de chover. Deitei na cama e vi o controle da TV numa mesa ao lado. Liguei a TV e para minha surpresa entre muitos canais disponíveis tinha Record e Globo internacional. Fazia mais de três semanas que eu não via TV e foi bom ver algo em português. Comecei a assistir “Eu Odeio o Cris”, que passava na Record e após alguns minutos adormeci. Acordei umas duas horas depois e resolvi descer para jantar. Ia no mesmo restaurante onde tinha almoçado e ao virar a esquina dei de cara com cinco caras mal encarados e em atitude supeita. Quando eles me viram um deles deu um passo em minha direção e não pensei duas vezes, dei meia volta e saí correndo para o hotel. Em toda a viagem por Peru e Bolívia esse foi o único momento onde levei algum susto achando que alguém fosse me assaltar. Na verdade não sei se me assaltar era o plano dos caras. Mas sendo noite, numa rua deserta e meio escura, com chuva, eu é que não ia ficar esperando para saber se os caras fariam alguma coisa ou me deixariam passar tranquilamente. Seguro morreu de velho!!!
Saí novamente do hotel e para ir até o restaurante, dessa vez escolhi o caminho mais longo, mais iluminado e mais cheio de gente. O restuarante estava tão cheio como no almoço. Pedi o clássico arroz com frango e batata frita. Dessa vez pedi que não colocassem o macarrão. Comi tranquilamente e voltei direito para o hotel. Liguei a TV e deixei na Globo, onde ia passar um jogo de futebol. Antes que o juíz apitasse o início do jogo eu já estava dormindo.
Acordei com o barulho de música vindo do corredor. Olhei no relógio e vi que passava um pouco das 9h00min. Eu tinha dormido bem e me recuperado do esforço dos últimos dias. Ao sair no corredor vi que a música alta vinha de um rádio na recepção, onde uma boliviana passava pano no chão. Fui para o banho e ao ligar o chuveiro começou a tocar Gusttavo Lima no rádio. Daí dancei o tche tcherere tche tchê debaixo do chuveiro. Eu estava com muito bom humor, me sentido feliz.
Eu pretendia ir para o interior da Bolívia, para a região do Salar de Yuni, mas desisti. Já estava fora fazia muitos dias e precisava voltar ao Brasil, bem como estava ficando sem dinheiro. Então resolvi deixar para conhecer o Salar de Yuni e em outra oportunidade. Arrumei minhas mochilas e decidi ir embora, voltar ao Brasil. Pouco antes do meio-dia fui até a recepção, paguei minha conta e deixei duas mochilas guardadas no depósito do hostal. Votaria para buscá-las à noite. Saí á rua e de cara ouvi Ai se eu te pego, que estava tocando na TV em uma loja. O Gusttavo Lima e o Michel Telo definitivamente são um grande sucesso na Bolívia. Fui até a rodoviária, onde troquei meus últimos dólares por bolivianos e em seguida fui visitar algumas empresas de ônibus. Eu queria passagem para Santa Cruz de La Sierra, pois de lá pretendia seguir no Trem da Morte até a fronteira com o Brasil. O preço não mudava muito entre às muitas empresas de ônibus, então me foquei no horário. Buscava um ônibus que partisse a noite, pois dessa forma eu poderia ficar passeando por La Paz durante a tarde. Acabei escolhendo uma empresa chamada Bolívia, mas após dez minutos parado em frente ao guichê olhando o vendedor conversar com a moça do guichê ao lado, desisti de comprar a passagem ali. O vendedor pelo jeito não estava a fim de vender nada. E de sacanagem fui ao guiché da agencia em frente e comprei a passagem lá. O nome da empresa onde comprei a passagem era El Dorado. Paguei $ 60,00 bolivianos e seria um ônibus semi leito. Ao passar em frente ao guichê da empresa Bolívia, dei um sorriso para o cara que não me atendeu e ainda levantei a mão mostrei a passagem da outra empresa. Acho que o otário do vendedor entendeu o meu “recado”!
Meu ônibus ia sair às 19h30min, então eu teria algumas horas para passear e fazer algumas compras. Fui em direção ao centro e parei numa lan house usar a internet. Depois passei na vendedora de abacaxis e comi três fatias. Só não comi mais por que saíram algumas afitas em minha boca, por culpa do abacaxi. Desci pela avenida principal e depois fui em direção ao centro. Cheguei à Praça Murillo, que fica em frente ao Palácio do Governo. Ao lado ficava a Catedral, que estava fechada. Tirei algumas fotos e fui andar mais um pouco pelo centro. Eu estava com pouco dinheiro, então teria que economizar o máximo possível até chegar ao Brasil. No centro vi muitos bancos e resolvi entrar em alguns deles para tentar sacar dinheiro com meu cartão de crédito. No segundo banco consegui sacar bolivianos utilizando o cartão de crédito e isso me deixou aliviado, pois não precisaria mais ficar contando os trocados. Para comemorar resolvi ir almoçar em um restaurante chique que tinha visto no centro. No restaurante olhei o cardápio e só tinham comidas típicas. Não queria ter surpresas desagradáveis, então não pedi nenhum dos pratos. Resolvi almoçar uma banana split gigante e uma fatia de torta de morango. Esse almoço alternativo foi uma delícia e paguei por ele $ 40,00 bolivianos, que foi o maior gasto que tive com comida durante todo o tempo em que fiquei na Bolívia.
Fiquei o resto da tarde passeando pelo centro da cidade e tirando fotos. Também comprei alguns presentinhos para o pessoal de casa. Não podia comprar muita coisa, por que minhas mochilas estavam cheias e pesadas e não queria deixá-las ainda mais pesadas. Algo que me chamou a atenção foram os engraxates que trabalhavam no centro, todos mascarados. Todos os engraxates usavam um capuz cobrindo o rosto. Sinceramente não entendi o motivo disso e fiquei com vergonha de ir perguntar a um deles o porquê dos rostos escondidos. Passei pela Calle de las Brujas, um local onde existem muitas coisas para vender, muitas barraquinhas e algumas delas são de produtos para magia. E a coisa mais curiosa que vi a venda foram fetos de lhama ressecados. Parece-me que estes fetos são utilizados em oferendas para a deusa Pachamama.
Quando anoiteceu jantei frango com arroz e batata frita, no restaurante onde tinha ido muitos vezes antes. Após jantar fui até o hostal pegar minhas mochilas. Resolvi ir a pé até a rodoviária e não sei como errei o caminho. Tive que andar um monte a mais até encontrar o caminho correto e cheguei na rodoviária quase em cima do horário de partida do meu ônibus. Fui embarcar e dessa vez lembrei de comprar o tal tíquete da taxa de embarque. Quando fui entrar no portão de embarque não tinha ninguém controlando o portão. Algumas pessoas estavam esperando, mas eu entrei direto, pois estava atrasado. Achei meu ônibus e ao lado dele estava estacionado o ônibus da outra empresa, cujo vendedor de passagens não quis me atender. Fiquei grato a ele, pois o ônibus era muito velho e ruim. O ônibus da El Dorado, empresa pela qual eu viajaria era bem melhor. Fiquei esperando para guardar a mochila grande no bagageiro, mas ninguém da empresa apareceu. Aí descobri que tinha que entrar no guiché da empresa, para primeiro pesar a bagagem e em seguida um funcionário colocava uma etiqueta nela e levava até o bagageiro do ônibus. O sistema era improdutivo, principalmente em razão de o guiché ser pequeno. Estava um caos, pessoas querendo entrar para pesar suas malas, outras querendo sair com suas malas já pesadas. Após uma longa espera consegui entrar e minha mochila foi pesada e etiquetada. Quando fui sair do guiché entraram dois bolivianos e um deles ao passar por mim cutucou com o dedo a bandeira dos Estados Unidos pregada na manga de minha camisa e falou algo para outro o cara que estava com ele. Não entendi o que ele falou, mas deve ter sido algo ruim, pois todos que estavam no guichê silenciaram e ficaram me olhando. Como não gostei da atitude do tal cara parei, me virei em direção a ele e perguntei com cara de bravo falando em espanhol “qual era o problema?” (¿cuál fue el problema). O cara fez cara de espanto e não falou nada. Ele deve ter achado que eu tinha entendido o que ele falou e viu que eu não era norte americano. Saí do guiché e fiquei olhando o funcionário da empresa de ônibus, que ia levar minha mochila até o ônibus. Quando ele passou por mim fui atrás dele e fiquei olhando onde ele ia guardar a mochila. Ele viu que eu estava olhando e balançou a mochila três vezes e a jogou dentro do bagageiro. Quando ele passou por mim dei um sorriso e disse a ele “bom trabalho” em espanhol, e o xinguei um monte em pensamento.
Partimos com meia hora de atraso e antes de sairmos da rodoviária o ônibus parou e um dos caras que controla os portões de embarque entrou no ônibus. Ele veio direto ao meu banco e pediu o tíquete da taxa de embarque, com um sorriso irônico no rosto. Acho que alguém tinha me dedurado, contando que entrei direto pelo portão. Fiz um charminho e lentamente procurei minha mochila pequena que estava debaixo do banco, abri-a lentamente, procurei minha carteira, abri a carteira, peguei o tíquete da taxa de embarque e entreguei a ele, devolvendo o sorriso irônico. Ele fechou a cara, me devolveu o tíquete e desceu do ônibus. O ônibus voltou a andar e para minha sorte não tinha ninguém sentado ao meu lado. Eu era o único estrangeiro no ônibus. Na minha frente ia um casal, com uma criança de colo e na poltrona do outro lado do corredor um boliviano, muito bem vestido.
Após meia hora paramos ao lado na estrada, num local cheio de barraquinhas que vendiam dezenas de produtos. Ali embarcaram mais pessoas, mas ninguém sentou ao meu lado. Alguns passageiros desceram, compraram comida e voltaram para o ônibus. Ficamos meia hora parados e voltamos para a estrada. O ônibus passou a andar mais rápido e começou a entrar um vento muito frio por frestas das janelas. Eu estava com meu saco de dormir ao lado e logo entrei nele e fiquei quentinho. A criança do banco da frente começou a chorar e achei melhor ouvir música. O cara bem vestido da poltrona ao lado tinha comprado um monte de comida e após comer jogou todo o lixo no chão, até ossos de frango. Fiquei olhando pela janela enquanto ouvia música e logo peguei no sono.
Acordei com um cara me cutucando. Tinham embarcado mais passageiros e um deles iria sentado ao meu lado. Tirei a mochila que estava na poltrona ao lado e o cara sentou. Dei uma rápida olhada e vi que ele estava sujo, muito sujo. Voltei a dormir e acordei novamente quando o ônibus parou num restaurante ao lado da estrada. Para sair de minha poltrona tive que fazer malabarismo e pular por cima do cara sentado ao meu lado. Desci do ônibus e descobri que fazia muito frio. Vi um banheiro e fui em direção a ele. Quando fui entrar tomei o maior susto quando uma moça saiu debaixo de uma lona que estava na porta do banheiro e disse que era $ 1,00 sole. Paguei e fui usar o banheiro. Nunca vi um banheiro tão sujo e tão detonado. Eu devia ter ido usar o matinho ao lado do banheiro, igual muitos passageiros fizeram, pois o matinho era mais limpo e de graça. Estiquei um pouco as pernas e voltei para o ônibus. Dessa vez o cara que ia sentado ao meu lado estava acordado e se levantou para eu me sentar. Olhei que o cara bem vestido e porquinho da outra poltrona, ele estava jantando novamente. E depois ele jogou o lixo no chão, igual tinha feito antes. Ajeitei-me no meu canto, voltei ouvir música e logo dormi.
Acordei com a claridade que vinha do lado de fora. Vi que tínhamos parado em um posto policial. Olhei no relógio e eram 3h20min. Dois policiais entraram no ônibus e foram passando por todas as poltronas olhando os passageiros que dormiam. Eu tinha certeza de que eles iam implicar comigo. Então fiz de conta que dormia. Logo senti alguém me cutucando no ombro e abri os olhos lentamente e virei para o lado em que me cutucavam. O cara que estava sentado ao meu lado acho que tinha desembarcado e um dos policias estava sentado na poltrona ao meu lado e outro policial com uma metralhadora nas mãos estava em pé ao lado dele. Tirei o saco de dormir que me cobria e ele viu a bandeira norte americana no ombro de minha camisa. Em inglês ele pediu meu passaporte. Lentamente procurei minha mochila debaixo do banco e de dentro dela tirei meu passaporte. Então ele folheou o passaporte e perguntou em espanhol se eu era brasileiro. Respondi em português que era brasileiro e ele perguntou sobre minha bagagem. Falei que tinha a pequena mochila no chão sob o banco, uma mochila no bagageiro acima de minha cabeça e outra no bagageiro do ônibus. Ele olhou e apalpou a mochila que estava no bagageiro acima de minha cabeça. Em seguida disse para eu descer junto com ele. Fora do ônibus fazia muito frio e me arrependi por não ter colocado um casaco antes de descer. O policial me pediu para mostrar qual era minha mochila e depois de olhar em dois bagageiros, vi a mochila e mostrei a ele. Ele chamou o motorista do ônibus e disse para ele pegar a mochila. O motorista entregou a mochila nas mãos do policial, que ao pegá-la disse que estava muito leve. Respondi a ele que nela só tinham roupas sujas. A mochila estava com uma capa de proteção em volta e eu tinha enrolado ela com fita adesiva. Ele colocou a mochila sobre um banco e eu comecei a tirar as fitas. Ele disse que não precisava tirar e então começou a apalpar os lados da mochila. Em seguida pegou a mochila e entregou-a ao motorista e disse para ele guardá-la. Então se virou para mim e disse para eu subir no ônibus para me aquecer e voltar a dormir. Por último tirou meu passaporte que estava em seu bolso e me devolveu. Chegaram mais alguns policiais armados e um deles parou na minha frente e me perguntou se estava tudo bem. Respondi que sim e ele me mandou subir no ônibus para me aquecer. Quando entrei no ônibus todos os passageiros estavam acordados e conforme eu ia passando entre as poltronas todos me acompanhavam com os olhos. Fiz cara de mau e segui até meu lugar, me segurando para não rir. Achei estranha a forma de revista que o policial fez. Creio que trabalham mais no psicológico das pessoas e como me mostrei calmo todo o tempo e pela forma que eu agi, eles viram que eu não levava nada proibido. É a velha história do quem não deve não teve e não demonstra que deve. Logo peguei no sono e não vi mais nada
Entrada do Hostal El Solário.
Plaza Murillo.
Catedral de La Paz.
Em frente ao Palácio de Governo.
Avenida no centro de La Paz.
Uma das milhares de vans que circulam por La Paz.
Parte do centro de La Paz.
Os engraxates “mascarados” de La Paz.
Fetos ressecados de lhamas, à venda na Calle de Las Brujas.
Era meia noite quando o suíço me chamou, estava na hora de partirmos para o ataque ao cume do Huayna Potosi. Fiquei um minuto criando coragem para levantar, para sair do saco de dormir quentinho e ir enfrentar a noite fria, caminhando na neve. Peguei minha mochila que estava pronta ao lado com algumas coisas que levaria no ataque ao cume. Antes de sair olhei do lado e vi que a Bruna dormia. Peguei meu saco de dormir, o abri igual um cobertor e a cobri. Como ela era friorenta uma coberta a mais lhe faria bem. Desci para a sala de refeições e comecei a colocar a roupa para andar na neve.
Levei meia hora para colocar as roupas e equipamentos de segurança. O que deu mais trabalho foi colocar as botas. Minha maior preocupação era com meus pés, pois não queria ter bolhas e também não queria sentir frio neles. Quando meus pés ficam gelados costumo sentir muito frio, então coloquei três meias. Primeiro uma meia de algodão, especial para caminhadas e depois uma de lã, que comprei em Laz Paz. Por último outra meia de caminhada, igual à primeira. E coloquei no nariz um dilatador nasal, que é um adesivo que ajuda a respirar melhor. Foi servido o café, mas não comi nada, preferi tomar somente um chá de coca bem quente. Foi feita mais uma reunião, onde nosso guia Cecilio explicou como seria o ataque ao cume. Tinha chegado outro guia no meio da tarde e ele seguiria junto comigo. O Cecilio seguiria com o casal de suíços e o guia da Bruna ficaria dormindo, já que ela não faria o ataque ao cume.
Era uma hora em ponto quando saímos do refúgio. No momento em que pisei do lado de fora tive duas surpresas. A primeira foi o frio e o vento que eram intensos. Já a segunda supresa foi agradável, era a lua cheia que estava bem alta no céu e clareava a noite. A luz da lua era refletida na neve e deixava tudo muito claro. Nunca tinha visto uma noite igual aquela, estava muito linda. Caminhamos cerca de cem metros até chegar num local onde começava a neve mais alta. Ali colocamos os grampões nas botas e o guia deu os últimos avisos. Jhony, o meu guia seguiu na frente e eu alguns metros atrás atado a ele por uma corda amarrada em um equipamento preso em minha cintura, parecido com um cinto. O Cecilio vinha logo atrás, seguindo a frente do casal de suíços e também atado a eles por uma corda. Nos primeiros metros eu e meu guia caminhamos com nossas lanternas de cabeça ligadas, mas logo percebemos que não era necessário gastar pilhas, pois a noite estava tão clara que não precisava de lanterna. Caminhar na neve sendo iluminados pela lua cheia foi uma experiência inédita e inesquecível para mim. Era possível ver dezenas de metros para os lados, e para cima era possível enxergar o perfil da montanha. Teve um trecho de subida onde dava para ver alguns metros abaixo nossas sombras, seguindo em linha indiana. Aquela imagem parecia coisa de filme e só não parei para fotografar ou gravar, por que eu usava duas luvas, sendo que uma delas era muito grossa e seria impossível manusear a câmera utilizando tal luva. E tirá-la e recolocá-la nas mãos era muito trabalhoso.
O primeiro quilômetro de caminhada foi tranquilo, pois a subida não era tão ingrime. Seguimos por uma trilha na neve, que atravessava um vale. O frio era abaixo de zero e o vento era cortante. Antes de sair o Cecilio nos deu bataclavas, que é um tipo de capuz onde só os olhos ficam de fora. Meu guia seguiu num passo rápido e eu conseguia acompanhá-lo numa boa, sinal de que estava em boa forma e também aclimatado a altitude. Após meia hora de caminhada fizemos a primeira parada para descanso. O casal de suíços logo parou ao nosso lado. A guria estava mal do estômago desde o início do dia e estava tendo dificuldades para caminhar. Ali vi que eles dificilmente chegariam até o cume e entendi por que o Cecilio tinha ficado com eles, mesmo após ter me dito no meio da tarde que subiria junto comigo. Ele sendo o guia principal podia escolher quem acompanhar e sendo experiente na profissão ele tinha notado que a suíça não ia aguentar subir, que não ia demorar em desistir. Então acompanhando o casal de suíços ele tinha boas chances de logo poder voltar para a cama. Para os guias tanto faz levar o pessoal até o cume ou não, pois eles recebem a mesma coisa. E sempre é mais confortável ficar dormindo no refúgio do que passar a noite caminhando na montanha. E no caso de Cecilio, que trabalha há doze anos como guia, chegar uma vez mais ao cume do Huyama Potosi, não faria diferença alguma.
Eu estava suportando bem a caminhada, onde a cada metro percorrido aumentava a altitude e diminuía a quantidade de oxigênio para respirar. A segunda parada foi quando completamos uma hora de caminhada. Nessa parada já não vimos mais o casal de suíços ou o Cecilio. Ou eles estavam caminhando muito lentamente e tinham ficado bem para trás, ou tinham desistido e retornado ao refúgio. Já fazia alguns minutos que estávamos vendo cinco pessoas caminhando próximo a nós, vindo por uma trilha que levava a outro refúgio, pouco acima do nosso. Nessa segunda parada eles nos alcançaram, eram três alemães e dois guias bolivianos. Voltamos a caminhar e seguimos atrás do grupo de alemães no mesmo ritmo que eles. A trilha passou a ficar mais difícil e tivemos que passar por alguns trechos ingrimes, onde a subida exigia bastante esforço. Mesmo assim eu estava curtindo o “passeio” e olhando o céu estrelado, a lua, a montanha branca iluminada pela lua.
A terceira parada foi após uma hora e meia de caminhada e foi um pouco mais longa que as paradas anteriores. Se o guia não tivesse parado, acho que eu teria pedido para ele parar, pois estava começando a me cansar. Sentei-me na neve ao lado dos guias e procurei respirar profundamente, pois estava sentindo falta de ar. Ajeitei a bataclava de uma forma que meu nariz e boca ficassem livres, pois não estava conseguindo respirar direito com a boca tapada. Após o descanso voltamos a caminhar e de cara enfrentamos uma subida bastante ingrime e que exigiu muito esforço nosso. Quando chegamos ao alto dessa subida eu estava exausto e comecei a pensar que não conseguiria chegar até o cume. Mais um trecho plano e nova subida, onde gastei o restante do meu preparo físico. No Exército aprendi que quando nosso preparo físico chega ao fim, ainda temos cinquenta por cento de forças para utilizar. Éssa força extra é a famosa força de vontade. Em minha vida muitas vezes utilizei esses cinquenta por cento de força extra, geralmente quando minhas pernas não tinham mais forças. E para a força de vontade funcionar, você precisa ficar falando para você mesmo que vai conseguir, que vai chegar onde quer, que vai ser fácil. E foi o que fiz, fiquei o tempo todo tentando me convencer de que eu conseguiria, de que eu tinha forças para chegar ao cume. Minha preocupação principal passou a ser conseguir seguir em frente, dar o próximo passo, então parei de olhar a paisagem, a lua e as estrelas. Eu precisava me concentrar e arrumar forças para o passo seguinte e foi o que fiz.
Eu segurava o piolet com a mão esquerda, pois até ali as únicas vezes que precisei usá-lo, foi com a mão esquerda. O guia avisava quando chegavámos num trecho perigoso e que era preciso utilizar o piolet como apoio, qual era a mão para usá-lo de uma forma que fosse mais seguro. E de tanto ficar com o piolet que era de ferro, numa mesma mão, meus dedos começaram a congelar mesmo utilizando duas luvas grossas. Na parada que fizemos às 3h00min, eu sentia muita dor na mão esquerda, principalmente nos dedos. Isso era sinal de que estavam ficando congelados. Durante a parada para descanso, eu me sentei e coloquei a mão semi congelada no meio de minhas coxas e fiquei apertando-as contra a mão. Após dez minutos as dores cessaram e consegui mover a mão normalmente. Eu trazia água, biscoitos e chocolates na mochila, mas em nenhuma das paradas senti vontade de beber água ou de comer algo.
Voltamos a caminhar e dessa vez a trilha era mais estreita e passámos por algumas subidas. Eu já estava quase esgotado e vi que o guia começou a apertar o passo, inclusive ultrapassámos o grupo de alemães. Eu já não estava aguentando mais e cheguei a pensar em desistir. Daí entendi qual era a do guia, que de bobo não tinha nada. Ele viu que eu estava cansado e resolveu apertar o passo para me fazer cansar de vez e desistir, pois dessa forma voltaríamos ao refúgio mais cedo. Não caí na dele e comecei a parar toda vez que me sentia muito cansado. Quando eu via que não aguentava mais, eu dizia a ele que precisava parar e sentava no chão. Ele não estava gostando muito disso, mas não pôde fazer nada quanto a isso. E se bem lembrava (e creio que ele também) era eu que estava pagando, era eu o cliente, então acho que tinha o direito de parar quando achasse melhor. Teve um momento em que eu parei e ele puxou a corda, quase me arrastando. Falei para ele ir com calma, que não precisava fazer aquilo. Depois disso ele ficou calminho e toda vez que eu parava ele parava junto e não falava nada. E assim segui caminhando um pouquinho, descansando um pouquinho. E sou guerreiro, não me entrego facilmente, principalmente depois de todos os problemas que tive em 2010 e 2011. Acabei me tornando mais forte em todos os sentidos e é difícil eu me entregar ou desistir do que eu quero. Continuei arrumando forças não sei onde para seguir em frente. Teve um momento em que até olhei para o céu e falei – “Deus, dá uma ajudinha aí! Estou tão perto!” -. O mais difícil foi ter chegado até ali, a centenas de quilômetros de casa, tinha gastado muita grana, tinha treinado e me preparado muito para estar ali. Então não desistiria tão próximo de alcançar meu objetivo.
O que atrapalhou bastante meu preparo físico foi que essa viagem era para ter acontecido 15 dias antes do que aconteceu. Tive que cancelar a passagem e mudar a data de embarque em razão de ter machucado minha coluna durante os treinamentos que estava fazendo para subir Huayna Potosi. Eu treinava pesado durante duas, três horas por noite e acabei me machucando. Com isso perdi boa parte do condicionamento adquirido, após ter ficado 12 dias em repouso total, tomando remédios para me curar do problema na coluna. Ali naquele trecho da montanha esse condicionamento fisíco que perdi acabou fazendo falta.
Eu estava decidido a não desistir, ia tentar chegar até o cume. Mas não faria igual fiz com relação a algumas coisas meses antes, quando eu seguia na base do “consigo o que quero ou morro tentando”. Já tinha passado dessa fase de fazer loucuras e desafiar a morte de forma idiota. Dessa vez, em Huayana Potossi eu não ia morrer tentando, eu queria era viver tentando e principalmente conseguir o que queria. Minha maior preocupação era ficar esgotado em razão do pouco ar, pois fazer atividade física em alta montanha é muito desgastante. Se eu passasse a sentir tontura ou muita dor de cabeça, aí sim eu teria que analisar minhas condições e decidir se desistia ou não. Mas em nenhum momento tive dor de cabeça ou tontura. O que faltava era um pouco de perna por culpa de meu preparo físico estar se deteriorando.
Chegamos num trecho onde a trilha seguia pela lateral da montanha, numa parte com aclive e com a neve muita fofa. Algumas vezes eu pisava e minha perna afundava na neve até quase o joelho. Esse trecho de neve fofa tinha uns 500 metros de extensão. Foi terrível passar por esse trecho e quando chegamos ao final dele e fizemos uma parada para descansar, pensei em desistir. Perguntei ao guia quanto tempo faltava e ele disse que mais duas horas de caminhada. Aquilo me desanimou e vi que não aguentaria caminhar mais duas horas. Comecei a sentir cada vez mais frio, em parte porque estava ficando mais frio. E também por que o vento em alguns trechos em que ficavámos afastados da montanha era muito forte. Sentado na neve fiquei pensando no que fazer, se seguia em frente até cair ou se voltava dali. Então me lembrei de algo que o Rodrigo Raniere, que é alpinista e que já chegou ao cume do Everest (montanha com 8.848 metros, que é o ponto culminante do planeta terra) disse. Segundo o Rodrigo chegar ao cume de uma montanha é somente a metade do caminho. E ele tem toda razão, pois você após chegar ao cume de uma montanha, precisa descer e para isso tem que percorrer todo o caminho de volta. Em altas montanhas, e principalmente no Everest, a maioria das mortes que ocorrem são justamente na descida. O cara gasta toda sua energia para subir e depois não tem forças para descer e acaba morrendo, pois com o cansaço e o desgaste, o raciocínio fica lento e o cara fica mais sujeito a sofrer acidentes.
O guia puxou a corda e eu me desliguei de meus pensamentos. Nos minutos em que fiquei pensando tinha decidido apenas que seguiria em frente até onde aguentasse, ou então que sentisse que estava tão desgastado que ficaria perigoso seguir em frente. Eu já nem sabia mais que horas eram e olhar o relógio dava muito trabalho, pois estava cheio de casacos e luvas que cobriam o relógio. O passo seguinte era passar ao lado de uma enorme rocha e em seguida subir por um caminho estreito e com neve fofa. Quando cheguei ao início desse caminho estreito, vi que dos dois lados existiam um precípicio enorme, que em razão da escuridão (mesmo tendo a luz da lua) eu não conseguia enxergar direito. Eu estava tão cansado que achei melhor não me preocupar com isso e principalmente não olhar para os lados. Segui com todo o cuidado olhando no máximo um metro à frente e para o chão. Após atravessar o trecho estreito, subi alguns metros e encontrei os alemães parados e se cumprimentando uns aos outros. Antes que eu entendesse o que estava acontecendo o guia falou CHEGAMOS! Foi então que me dei conta de que tínhamos chegado ao cume do Huyana Potosi e que o guia tinha sido sacana quando um pouco antes me disse que ainda faltavam duas horas para chegar ao cume. E eu quase que desisto de chegar ao cume justamente quando estava muito próximo dele.
O cansaço era tanto que me sentei na neve e fiquei olhando em volta. De um lado dava para ver as luzes de La Paz e do outro lado o sol nascendo. Olhei no relógio e eram 05h32min. Olhei no meu termômetro que estava no fundo da mochila e a temperatura era de exatos 15 graus negativos. E com o vento que soprava lá em cima, a sensação térmica devia ser de uns 20 graus negativos ou mais (ou seria menos?). O sol foi surgindo, tudo foi clareando e a vista lá do alto foi ficando cada vez mais bonita. Comecei a sentir muito frio e estava tão cansado que nem cheguei a sentir algum tipo de emoção diferente. Pôxa! Eu estava realizando um antigo sonho, que era subir uma montanha nevada. Desde muito jovem que eu leio e coleciono livros sobre narrativas de viagens e escaladas. Li muitos livros que falavam sobre as dificuldades de subir montanhas nevadas e essas leituras fizeram nascer em mim à vontade de um dia chegar ao cume de uma alta montanha. E quem sonhou com o Everest, chegou ao Huayana Potosi! E chegar ao Huyana Potosi com seus 6.088 metros era bem mais do que eu tinha imaginado. Uma coisa é sonhar, pois muitas vezes sonhamos coisas impossíveis. E outra coisa é realizar tais sonhos. E como sempre digo: SONHOS NÃO TEM PREÇO!
Fiquei alguns minutos sentado olhando a paisagem em volta da montanha. Eu estava à 6.088 metros e tinha quebrado mais uma vez o meu recorde de altitude. Agora quebrar esse novo recorde será muito difícil. Quando comecei a tremer de frio, resolvi me levantar e movimentar um pouco os braços e pernas. Foi então que o meu guia veio me dar parabéns e tirámos uma foto juntos. Eu tinha levado uma garrafa de Coca-Cola para tomar no topo da montanha, mas de tão cansado que estava nem me lembrei da tal Coca. Tirei algumas fotos, curti um pouco a vista e o guia falou para pegar minhas coisas, pois tinhámos que descer a montanha o quanto antes. Com o sol a neve fica mole, o que dificulta caminhar sobre ela. E outro problema são os buracos e gretas (fissuras) que ficam sob a neve. No frio a neve fica compacta e tais buracos e gretas não são muito perigosos. Já com o sol alto, a neve amolece e o risco de você cair num desses buracos é bem maior. Então o plano era descer a montanha o mais rápido possível.
Me aprontei e o guia falou que para descer era diferente, que eu seguiria na frente e ele atrás segurando a corda. Desde o início da subida eu tinha dúvidas sobre o guia conseguir fazer a ancoragem com a corda no caso de eu cair em um precípicio. Ele era menor que eu, então achei que em caso de eu cair, das duas uma, ou ele caía junto ou soltava a corda e me deixava cair sozinho. Alteramos a posição da corda e ele disse para eu seguir em frente. Os Alemães ainda estavam tirando fotos no cume e iam demorar um pouco para descer. Comecei a caminhar e quando cheguei ao trecho estreito de neve, levei um susto e parei. Na ida ao passar por ali no escuro e sem ver direito onde estava passando, achei aquele trecho perigoso e agora ver o mesmo trecho com dia claro me causou pânico. Não sou medroso, mas quando vi por onde teria que passar eu senti muito medo e falei para mim mesmo que por ali não passaria. Fiquei parado olhando para a trilha e o guia disse para eu não ter medo, que não tinha perigo. Pedi para ele esperar um pouco e então vi que eu teria que passar por ali de qualquer jeito, pois não existia outra opção. Ou passava por aquele trecho estreito, ou ficava no cume congelando. Na hora lembrei que tinha visto na internet algumas fotos daquele trecho e que nas fotos ele não era tão estreito. Daí me ocorreu que as fotos podiam ser da época de nevascas, onde aquele trecho em razão de cair mais neve ficava mais largo. Meus pensamentos foram interrompidos pelo guia, mais uma vez dizendo para eu não ter medo e seguir em frente. Respirei fundo e dei o primeiro passo. Achei que a trilha estava mais estreita do que na ida e foi então que me dei conta de que na ida, no escuro, eu tinha caminhado por cima de uma espécie de mureta na neve, com uns 40 centímetros de altura. E que essa espécie de mureta ficava justamente na borda da montanha. Ao lado dela era um precípicio que descia pela montanha e parecia um tobogã de neve, o qual não conseguia enxergar o fim. Fiquei me perguntando se no escuro da subida somente eu tinha passado por aquela parte mais perigosa, ou todos passaram por ali? Com dia claro era impossível passar por essa espécie de mureta. Seu eu passase ali com certeza minha labirintite ficaria atacada, eu teria tontura, as pernas tremeriam e eu correria o risco de cair no abismo. O jeito foi seguir caminhando pela faixa estreita de neve ao lado da tal mureta de neve, dando um passo por vez e colocando um pé na frente do outro. E a todo custo evitei olhar para os lados, me concentrava no próximo passo e nada mais. Dei uma rápida olhada para o lado direito e vi que ali o precípicio era menor do que do outro lado. Mas cair ali também significaria morrer. E ali eu tinha certeza que em caso de queda o guia não conseguiria fazer a ancoragem, que ele soltaria a corda e me deixaria cair montanha abaixo. Atravessar a trilha estreita durou poucos minutos, mas para mim pareceu que demorou bem mais. Quando cheguei ao final da trilha, desci até uma rocha que ficava um pouco abaixo e que foi ao lado dela onde fizemos a última parada para descanso durante a subida. Comecei a sentir o suor escorrer pelas axilas e costas. Num frio de muitos graus negativos eu estava sentindo calor.
Fizemos uma curta parada para descansar e começamos a descer a montanha. Atravessámos a parte inclinada ao lado da montanha e que tinha neve fofa. Sofri para atravessar esse trecho e afundei na neve mais vezes do que tinha afundando na subida. E passamos ao lado de alguns buracos enormes que eu não tinha visto durante a subida. Após atravessar esse trecho de neve fofa, fizemos nova parada para descanso. Ali tirei o casaco grosso que usava por cima e coloquei óculos de sol, pois o reflexo do sol na neve estava me incomodando. Tenho problema com claridade em excesso e quando era criança usei durante dois anos óculos com lentes escuras, por culpa de uma insolação que peguei na praia. Estava com sede e ao pegar minha garrafa de água na mochila, descobri que ela estava congelada. Minha água tinha virado um cubo de gelo. Lembrei-me da garrafa de Coca-Cola e ao pegá-la vi que também estava congelada. A água do guia também tinha congelado, então o jeito foi ficar com sede.
Descer a montanha era bem mais fácil do que subir, mas era bastante cansativo também, principalmente em razão do desgaste que foi subir. Dei algumas olhadas para os lados e vi que a paisagem era muito bonita, mas não deu para curtir muito. Eu me concentrava em olhar para frente e buscar forças não sei onde. Comecei a ficar cada vez mais com sede, a boca ficou seca e senti meus lábios e bochechas ardendo. Foi aí que descobri que eles estavam queimados pelo frio. Como não conseguia respirar direito durante a subida, eu afastei a bataclava do rosto e nariz e o vento gelado causou algumas queimaduras leves. Não me importei muito com isso naquele momento, pois tinha problemas maiores para me preocupar e o maior deles no momento era a forte dor que eu sentia na parte da frente dos meus dedos dos pés. Por estar descendo os dedos eram forçados contra a parte interna do bico das botas e isso estava me causando muita dor.
Descemos numa boa velocidade, mas logo fui perdendo forças e comecei a caminhar mais devagar. O guia ficava o tempo todo me mandando ir mais rápido, até que chegou um momento em que me estressei e respondi que não dava para ir mais rápido que aquilo. E depois disso passei a fazer muitas paradas, onde eu me sentava ou deitava na neve e tentava respirar. O guia não gostou muito disso, mas não falou nada. Numa dessas paradas, no meio de uma vale, vi que por todo o vale próximo a nós existiam dezenas de pedras de gelo espalhadas. Algumas pedras eram pequenas, outras tinham o tamanho de uma moto. Perguntei ao guia de onde vinham aquelas pedras e ele me mostrou numa parte da montanha atrás de nós uma pequena geleira. Segundo ele quando esquentava, algumas pedras se soltavam e desciam pelo vale numa espécie de avalanche. Na mesma hora levantei e disse a ele para seguirmos em frente, pois aquele local não era bom para descanso. Depois de todo o esforço para subir a motanha, o que menos queria era ser atropelado por um cubo de gelo gigante.
A sede foi apertando, comecei a ficar tonto e as pernas não obedeciam direito. Vi que estava ficando desidratado e minha água continuava congelada. Passamos a descer por uma trilha estreita e eu tropecei com a ponta do pé direito no calcanhar do pé esquerdo, caindo literalmente de boca na neve. O guia fez rapidamente a ancoragem esticando a corda e não deixando que eu saísse rolando trilha abaixo. Ali o guia conseguiu fazer a ancoragem, mas continuei achando que se fosse num local mais inclinado e perigoso, ele não conseguiria. Seguimos montanha abaixo, fazendo algumas poucas paradas para descanso e para tirar fotos. Eu que sou de bater muitas fotos, nesse dia não estava com ânimo para ficar a todo instante tirando as luvas e batendo fotos. Os lugares pelos quais estávamos passando dariam boas fotos, mas preferi guardar tais imagens na memória, pois isso dava menos trabalho.
Os alemães passaram por nós e desceram rapidamente pela montanha. Depois pegaram uma trilha a direita e sumiram de vista atrás de umas pedras. Mais abaixo já era possível ver o nosso refúgio que parecia estar perto, mas que levou meia hora para chegarmos até ele. Essa meia hora foi uma das mais longas de minha vida, pois eu não me aguentava mais e meus dedos dos pés estavam cada vez mais doloridos. Ao todo levamos quase três horas de descida até chegarmos ao refúgio. Paramos tirar os grampões e para isso sentamos numa pedra. Eu não estava conseguindo tirar os meus e o guia veio me ajudar. Em seguida atravessamos os poucos metros até a entrada do refúgio, onde encontrei o Cecilio, o guia da Bruna e o casal de suíços, todos sentados tomando sol. Perguntaram se eu tinha chegado ao cume e diante de minha resposta vieram me cumprimentar. Os suíços contaram que desistiram da subida após a primeira hora, e colocaram a culpa no problema de estômago da guria. Eu mal conseguia estender a mão para eles e só agradeci rapidamente e entrei no refúgio em busca de água. Depois de beber um litro de água, sentei-me e tirei as roupas para neve e as botas que estavam esmagando meus dedos. Então encontrei a Bruna, que me deu parabéns por ter chegado ao cume.
Subi até o dormitório e entrei no saco de dormir, pois estava começando a sentir muito frio. O Cecilio subiu para falar comigo e disse que era para arrumar minhas coisas, pois precisávamos descer até o primeiro refúgio aonde o taxi iria nos buscar. Pedi a ele que me desse meia hora para descansar, pois eu estava exausto e desidratado. A Bruna subiu e se sentou no colchão ao lado do meu. Ficamos conversando, eu contando um pouco de como tinha sido a subida. Logo o guia dela veio chamá-la, pois eles iam embora primeiro. Eu e Bruna nos despedimos e voltei a deitar. Após 15 minutos o guia veio me chamar e não sei onde encontrei forças para levantar e arrumar minhas coisas. Coloquei minhas botas de caminhada e elas que sempre achei serem pesadas agora pareciam leves. A sensação era de estar com um chinelo nos pés. Após tantas horas com as pesadas botas para gelo nos pés, minhas botas de caminhada pareciam plumas.
Com dificuldade comecei a descida por entre o gelo e as pedras na trilha abaixo do refúgio. O Cecilio pegou minha mochila menor e colocou nas costas, o que foi uma grande ajuda. Os dois guias e o casal suíço desceram na frente, caminhando num bom ritmo. Eu fui atrás, me arrastando. Fiz algumas paradas para descansar e ao longe vi que os guias paravam de vez em quando e ficavam me olhando. Eles tentavam nunca me perder de vista. Quase no final do trecho cheio de pedras, escorreguei e caí de bunda no chão. Por sorte caí num trecho onde não tinha pedras na trilha, então somente o orgulho ficou machucado. Felizmente ninguém me viu caindo.
Antes de chegar ao segundo trecho da trilha, encontrei os dois guias sentados, me esperando. Sentei ao lado deles e ficamos conversando por alguns minutos. Depois voltamos a caminhar, eles na frente e eu cada vez mais atrás. Segui me arrastando e torcendo para chegar logo o final da trilha, pois não tinha mais forças. E numa curva da trilha dei de cara com a Bruna, sentada em uma pedra. Foi bom encontrá-la ali, principalmente por que imaginava que não fosse revê-la tão cedo. Mesmo saindo na frente, ela seguia devagar e fazia paradas para descansar, então acabei a alcançando. Passámos a caminhar juntos e foi à vez dela retribuir o favor do dia anterior e me dar apoio moral para eu seguir em frente. Encontramos os três guias parados num canto da trilha e quando viram que estávamos caminhando juntos, os três se mandaram na frente e só fomos encontrá-los novamente quando chegamos ao refúgio.
Nosso taxi, o mesmo da ida, já estava lá nos esperando. Arrumei minhas coisas e guardei tudo no taxi. Me despedi novamente da Bruna, que seguiria com o seu guia em outro carro. Também me despedi do pessoal do refúgio e do Jhony, o guia que subiu junto comigo. Ele disse que eu era forte. Agradeci a ele pela ajuda e entrei no taxi, no banco de trás junto com os suíços. Eu estava muito cansado e só pensava em chegar ao hostal e dormir. Tentei dormir no carro, mas era apertado, desconfortável e na estrada esburacada chacoalhava muito. Ao passarmos em frente ao velho cemitério que fica ao lado da estrada, me virei para trás e dei uma última olhada na montanha de Huayna Potosi. Ela aparecia majestosa iluminada pelo sol, com o céu azul por trás e com seu manto branco de neve. Olhando para a montanha eu não acreditei que tinha chegado até seu cume. A ficha ainda não tinha caído! E jurei que nunca mais subiria uma montanha nevada novamente.
Foi torturante a quase uma hora que levamos para chegar até a casa do Cecilio. Como era descida o taxista parou em frente a casa, na beirada do abismo. O Cecilio descarregou suas coisas, despediu-se de todos e embarcamos no taxi. Dessa vez me sentei no banco do carona e quando olhei para frente e vi o tão próximo que estávamos da beira do abismo, achei melhor não colocar o cinto de segurança e fiquei segurando na fechadura da porta. Vai que o motorista erra a ré, ou acontece algum outro problema? Achei melhor me garantir e ter uma chance de me atirar para fora do carro caso fosse necessário. Felizmente nada de ruim aconteceu e após mais uma hora andando por ruas sem asfaltdo e parte do centro de La Paz, finalmente chegámos ao Hostal.
La Paz
Fui até a recepção do Hostal El Solário e pedi um quarto e também minha mochila grande que tinha ficado guardada no depósito. Dessa vez me deram um quarto próximo a recepção e com um banheiro ao lado da porta. Fui primeiro ao banheiro e na hora de sair bati a porta com força e escutei um click. Só então li um aviso pregado na porta, escrito em espanhol e inglês e que dizia para não trancar a porta, pois tinham perdido a chave. Olhei para os lados e não vi ninguém que testemunhasse a cagada (não literal) que eu tinha acabado de fazer. Entrei no meu quarto, dei uma olhada rápida nele e vi que era melhor do que o quarto onde tinha ficado anteriormente. Tirei minhas botas, sentei na cama e a testei para ver se era confortável e vi que a exemplo do quarto, a cama era bem melhor do que a anterior. Depois disso não me lembro de mais anda, pois dormi.
Acordei às 15h30min com barulho de vozes no corredor ao lado. Olhei para os lados e demorei um pouco para entender o que estava acontecendo e onde eu estava. Foi aí que me lembrei de que eu estava sujo, sem comer nada a umas 15 horas e que tinha chegado ao cume do Hyaina Potosi, realizando o antigo sonho de escalar uma montanha nevada. Finalmente a ficha caiu e senti aquela sensação gostosa de missão cumprida. Sei que parece insano você se arriscar, sofrer e levar horas para chegar ao alto de uma montanha, onde fica poucos minutos e depois desce. Mas isso não é insano, isso para quem gosta não tem preço e para saber como é tal sensação o único jeito é você fazer algo igual. Não é possível explicar como é tal sensação, só é possível sentir e sentimentos não são explicavéis, eles são sentidos, são vividos, são exercitados…
Fui tomar banho e fiquei longos minutos debaixo do chuveiro, com a água quente caindo sobre meu corpo. Após ter enfrentado as menores temperaturas de minha vida, um banho quente era uma espécie de prêmio que eu dava a mim mesmo. Fui para o quarto e tirei minhas coisas das mochilas, separei o que era sujo do que era limpo, dei uma organizada em tudo e senti o estômago roncando. Saí a rua e mais uma vez ao passar pelos muitos salões que existem na vizinhança o pessoal ficou me chamando para entrar e fazer a barba. Eu já estava cansado disso, que acontecia toda vez que saía do hostal e passei a fazer de conta que não os ouvia. Deixei de ser educado e responder a todos dizendo não e passei a olhar para frente e não dar bola para ninguém. Fui ao restaurante da esquina de baixo, onde já tinha comido algumas vezes. Pedi o maior prato de arroz, frango frito e batata fritas que eles tinham e uma Coca-Cola gelada. Almocei lentamente e ao sair do restaurante parei na vendedora de abacaxis que ficava na rua em frente e comi duas enormes fatias de abacaxi. Depois fui caminhar e desci por uma longa avenida que passava ao lado e que atravessava o centro da cidade. Estava com dor nas pernas, mas continuei caminhando lentamente. Minha calça jeans (a única que levei na viagem) ficava caindo, sinal de que eu tinha perdido ainda mais peso do que já tinha perdido desde que saí do Brasil.
Fiquei duas horas andando pelas ruas, olhando vitrines, construções e pessoas. Parei tomar um delicioso sorvete de pêssego, com muitos pedaços de pêssego. Antes de voltar ao hostal entrei em uma lan house, onde telefonei para casa e depois fiquei usando a internet. Quando anoiteceu fui para o hostal e descansei um pouco. Mais tarde saí e fui jantar em outro restaurante cujo prato principal também era arroz, frango frito e batata frita. Fiquei olhando o cardápio e para comemorar minha recente façanha pedi o prato mais caro, que era frango parmegiana. O prato mais caro custava $ 26,00 bolivianos (R$ 8,20). O frango parmegiana deles é diferente do frango parmegiana brasileiro. Não tinnha molho de tomate e nem queijo por cima. Na verdade era uma mistura de frango, massa de trigo e ovo, tudo misturado, prensado e assado na chapa. Mas o que me surpreendeu foi o tamanho, era enorme e achei que não conseguiria comer tudo. Mas comi, pois precisava recuperar minhas forças que tinham sido perdidas em Huayna Potosi. Voltei para o hostal de pança cheia e caí na cama pensando qual seria a próxima montanha nevada que eu subiria. A promessa de nunca mais subir novamente uma montanha nevada não tinha durado muitas horas. Apesar do sacríficio tinha gostado da experiência e queria repeti-la um dia. Logo dormi curtindo a cama confortável e quente.
Pronto para o ataque ao cume do Huayna Potosi.
Momento de descanso.
Cume (la cumbre) do Huayna Potosi.
Descansando numa temperatura de -15 graus.
O sol nascendo.
Com Jhony, o meu guia na montanha.
Descendo Huayna Potosi após chegar ao seu cume.
Trecho de neve fofa.
Descendo o Huayna Potosi.
Huayna Potosi.
Em Huayna Potosi.
Huayna Potosi.
Huayna Potosi.
Admirando a paisagem.
Huayna Potosi.
Quase chegando ao refúgio Alta Rocha.
Refúgio Alta Rocha.
Me despedindo de Bruna, no primeiro refúgio.
A última imagem que tive do Huayna Potosi.
Vista de La Paz a partir da casa do Cecilio, o guia.
Tive que ir de madrugada ao banheiro, que ficava do lado de fora do refugio. Fazia um frio de três graus. Na volta do banheiro parei para brincar com um cachorro que estava dormindo num canto da sala onde guardamos os equipamentos. Passei a mão nele, que não gostou e tentou me morder. O cachorro mesmo sendo pequeno era bastante bravo e se eu não fosse ligeiro tinha levado uma bela de uma mordida. Depois do susto voltei para a cama, olhei no relógio e vi que passava um pouco das cinco horas.
Levantamos cedo, tomamos café, arrumamos nossas coisas e saímos do abrigo. Seguimos montanha acima rumo ao segundo refúgio, de onde partiríamos para o ataque ao cume do Huayna Potosi. Foi complicado arrumar todas as minhas coisas e fazer caber tudo em minhas duas mochilas. Tive que amarrar fora da mochila a bota para gelo, que era bastante pesada. A trilha pela qual seguimos era a mesma que tinhamos percorrido no dia anterior, quando fomos até o Glaciar Velho. Antes de chegar ao cruzamento que leva ao glaciar, encontramos duas mulheres em uma mesa ao lado da trilha. Elas estavam ali para registrar os dados de quem estava seguindo para Huayna Potosi e cobrar uma taxa de manutenção no valor de $ 10,00 bolivianos. Após fazermos o registro e pagar a taxa, voltamos à trilha. Quando chegamos próximo ao Glaciar Velho, viramos a direita e seguimos por uma trilha que subia a montanha.
Conforme íamos subindo o ar ia ficando ainda mais rarefeito em razão da altitude. E com sol na cabeça e o peso das mochilas, o desgaste e o cansaço foram enormes. Caminhei o tempo todo junto com a Bruna, conversando com ela e incentivando-a a seguir em frente. Ela quando comprou o pacote para Huayana Potosi, não sabia o quanto difícil era chegar até o alto da montanha. E também não estava preparada fisicamente, então sofreu bastante para caminhar no ar rarefeito carregando sua mochila. A trilha no início era larga e conforme subia ia ficando estreita e cercada de pedras. Na parte final da trilha os guias seguiram na frente, pois iam preparar o almoço. O casal de suíços caminhava lentamente, fez várias paradas, mas seguiu em frente. Eu fiquei o tempo todo junto com a Bruna e quando ela parava eu parava, quando andava eu também andava. Ela estava muito cansada, mas foi guerreira e encontrou forças para seguir em frente.
Na parte final da trilha, alcançamos a parte da montanha onde tinha gelo. No início era pouco gelo, no meio das pedras. Conforme subíamos, o gelo ia aumentando e era sólido e liso, então tinhámos que tomar bastante cuidado para não escorregar. Não estavámos usando as botas para gelo, então todo cuidado era pouco. Já morreu gente ali, que escorregou e caiu montanha abaixo no meio das pedras. Na parte final da trilha a Bruna estava nas últimas, e para ajudar até carreguei algumas coisas dela. Após três horas de desgastante caminhada, finalmente chegamos ao segundo refugio de Huayna Potosi, chamado de Campo Alta Rocha (Rock Camp). Esse refugio é feito de pedra, uma bela construção situada a 5.130 metros de altitude. Ao ver o refugio fiquei imaginando o trabalhão que deu para construí-lo, levando o material nas costas montanha acima.
O refugio não era tão limpo e arrumado igual o refugio anterior, mas era aconchegante. Suas paredes internas eram revestidas de compensado e estavam cheias de inscrições, desenhos, mensagens e até algumas bandeiras deixadas por pessoas do mundo todo que passaram por aquele abrigo nos últimos anos. O dormitório era na parte de cima e para chegar até ele era preciso subir uma escada de madeira. Escolhi um colchão e ali estendi meu saco de dormir e deixei minhas mochilas ao lado. Na sala de refeições deixamos todo o equipamento de escalada sobre uma mesa e debaixo dela.
Pouco depois do meio-dia o almoço foi servido. Arroz, linguiça, tomate e pepino (que dispensei) era o cardápio. A comida estava boa, creio que mais em razão da fome que eu sentia do que em razão da qualidade culinária dos guias que a fizeram. Após comermos teve uma rápida reunião, onde o guia informou a programação do dia. Basicamente era descansar, dormir, comer, descansar mais, comer mais e dormir de novo. Saíriamos a uma da manhã para fazer o ataque ao cume do Huayna Potosi. A meia noite deveríamos nos reunir na sala de refeições para colocarmos as roupas e o equipamento. Fui para meu colchão e tentei dormir, mas não consegui. Resolvi sair e ver a vizinhança do abrigo. Mesmo com sol fazia frio e ventava, então não me demorei muito do lado de fora e voltei para minha cama. Conversei com a Bruna durante um longo tempo, ela estava achando que não conseguiria subir a montanha, pois a subida até o segundo abrigo tinha esgotada suas forças.
Fui ao banheiro, que ficava fora do refugio e no meio da neve. O banheiro era sinistro, feito com restos de madeira e ficava na borda da montanha. O vaso sanitário era um balde com um assento de privada, e o que se fazia dentro dele ali ficava até ele ficar cheio e algum guia levar o balde montanha abaixo para despejar seu conteúdo em algum canto. E eu que tinha achado ruim o banheiro do primeiro refugio! E chegar até o banheiro era complicado, principalmente a noite. Se o cara tivesse apurado ele podia pisar no gelo em volta do banheiro, escorregar e quebrar o pescoço! Tomei meu banho de gato, troquei a roupa e fui descansar mais um pouco.
As 17h00min a janta foi servida e o prato foi macarrão. Depois de comer saí com Bruna para tirar fotos do lado de fora do refugio. A noite estava chegando e junto com ela uma bela lua cheia. Estava muito frio do lado de fora e após tirar algumas fotos e admirar a vista, voltamos para nossas camas. A noite chegou de vez e junto com ela uma ventania que dava medo. Em alguns momentos o vento era tão forte, que fazia um barulho parecido com um uivo. Fiquei deitado em meu colchão, me aquecendo dentro do saco de dormir e pensando na insanidade que seria sair com aquele vento, no frio abaixo de zero que devia estar fazendo lá fora, para caminhar de madrugada rumo ao cume da montanha. Mas se eu tinha chegado até ali, não ia desistir. E sou insano o suficiente para encarar frio, vento, altitude e madrugada na montanha.
Conversei um tempo com Bruna e ela contou que estava decidida a não subir a montanha, que para ela tinha terminado ali. Quem ficaria feliz seria o guia dela, que poderia ficar dormindo em vez de passar horas caminhando no frio. Falei a Bruna que a escolha dela era sensata, pois mesmo eu tendo me preparado fisicamente e feito uma boa aclimatação para subir a montanha, eu não sabia se conseguiria chegar ao cume. Falei que ela era uma vencedora por ter chegado até onde chegou, pois conheço muito marmanjo que não teria a coragem e a força de vontade que ela teve em chegar até ali onde estavámos.
O interior do dormitório foi ficando cada vez mais frio e somado a falta de sono e a ansiedade, ficou difícil pegar no sono. Fiquei um longo tempo ouvindo o ruido assustador do vento do lado de fora e pensando na vida. Finalmente consegui adormecer, mas logo fui acordado pela Bruna que acendeu a lanterna e procurava algo em sua mochila. Consegui dormir novamente e mais uma vez fui acordado pela Bruna fazendo barulho, creio que procurando mais roupas para vestir, pois ela parecia sentir muito frio. Voltei a dormir novamente e dessa vez não fui mais acordado.
Trilha para o segundo refugio.
Bruna em uma de suas muitas paradas para descanso.
Abaixo a esquerda, o Glaciar Velho.
O casal de suíços e os guias.
A exausta Bruna.
Quase no final da trilha.
Refugio Alta Rocha (5.130 metros de altitude).
Almoço no segundo refugio.
Dois brasileiros e dois suíços partilhando a mesa no refugio.
O Huayna Potosi é uma montanha de 6.088 metros, que faz parte da Cordilheira dos Andes e une a Cordilheira Real ao maciço de Mamacora Taquesi e do Condoriri, através de uma cadeia de montanhas menores. O Huayna Potosi é o destino de muitas pessoas com pouca ou nenhuma experiência em alpinismo. São amadores do montanhismo que sonham escalar uma montanha com mais de seis mil metros, e o Huayna Potosi oferece a rara oportunidade para que estes alpinistas realizem o sonho de escalar uma alta montanha. Acompanhados por guias eles chegam até o cume do Huayna Potosi utilizando a rota normal, que é relativamente fácil se comparada com a rota oeste ou noroeste da montanha, que possuem dificuldades técnicas que somente montanhistas experientes conseguem transpor. Huayna Potosi fica distante cerca de 25 quilômetros de La Paz. É possível chegar de carro até o primeiro refugio de Huayna Potosi, localizado acima de quatro mil metros. A estrada que leva até o refugio não é asfaltada, mas está sempre em boas condições, o que permite que até mesmo carros de passeio transitem por ela sem problemas.
Huayana Potosi – 1° dia
Pulei cedo da cama e corri para o banheiro. Acordei muito mal do estômago e o culpado era o Salchipapas que comi na noite anterior. Eu estava mal, com muita dor na barriga, diarreia e enjoo. Justamente quando ia partir para o maior desafio de toda a viagem, quando ia fazer o que mais desejava nessa viagem, fui ficar mal. Por outro lado a garganta estava totalmente curada e em boa parte graças aos antibióticos salvadores que o Enrico tinha me dado. Entre dores e enjoos acabei de arrumar minhas coisas. Depois levei a mochila grande para guardar no depósito do hostal e paguei a conta referente aos dias que tinha ficado hospedado ali.
Na agencia de turismo que fica na entrada do hostal, encontrei o guia e o casal de suíços com os quais eu iria para Huayana Potosi. O guia nos disse que teríamos que ir a pé até o local onde um táxi nos aguardava. Era aniversário da Bolívia e as ruas próximas ao hostal estavam todas fechadas, pois aconteceria um grande desfile comemorativo pelo centro da cidade. Saímos à rua seguindo o guia e eu me sentindo cada vez mais enjoado. Não conseguia deixar de lembrar do gosto do tal Salchipapas. Sempre que algo me faz mal isso acontece, meu estômago fica me lembrando do gosto do que me fez mal, para que eu nunca mais volte a comer tal coisa. As ruas estavam sem carros, mas cheias de gente. E ao atravessar uma grande avenida tivemos que dar uma corridinha, pois estava se aproximando o desfile, com muitas pessoas usando roupas típicas. Mais alguns quarteirões e chegamos até um velho táxi que nos esperava. Fomos guardar nossas coisas no porta malas e foi então que o guia percebeu que tinha esquecido minhas roupas para frio. Ele voltou até a agencia enquanto eu e os suíços ficamos esperando no táxi. Resolvi tomar uma Coca-Cola numa barraquinha próxima, para ver se aliviava minhas dores de estômago. Não tinha Coca gelada, então foi uma quente mesmo! O dono da barraquinha viu que eu era brasileiro e contou que já morou em São Paulo e que trabalhou com costura no Braz. A quantidade de bolivianos que conheci e que moraram e trabalharam em São Paulo, era impressionante! Voltei para o táxi e comecei a conversar com o taxista. Falamos muito sobre futebol e política. Após 40 minutos o guia voltou com as coisas que tinha esquecido.
Antes de seguir rumo à Huayana Potosi fizemos uma parada numa feira, em um bairro afastado. O guia ia comprar algumas coisas que faltavam para as refeições e eu aproveitei para ir numa farmácia. Contei a atendente sobre meu problema e ela me indicou uns comprimidos. Tomei um comprimido ali mesmo na farmácia. Antes de voltar ao táxi fui comprar água e uma garrafa de Coca-Cola, que pretendia levar para beber no cume do Huayana Potosi. Voltei ao táxi, me sentei e fiquei curtindo meu mal estar. O guia demorou em voltar e quando voltou estava cheio de sacolas com comida. Partimos e após atravessar alguns bairros distantes do centro de La Paz, chegamos até um bairro que fica na parte alta da cidade, com ruas esburacadas e empoeiradas. Paramos numa rua e o guia perguntou se eu podia ir com ele até sua casa, para pegar algumas coisas, inclusive minha bota para gelo. Fui com ele e fiquei impressionado com a vista que se tinha a partir da casa do guia, que ficava bem perto da beira do barranco. Da casa dava para ver boa parte de La Paz, e o Illimani, que é uma enorme montanha nevada próxima a La Paz. O guia demorou um pouco e logo começou a sair com mochilas, sacos e cordas. Peguei metade das coisas, joguei nas costas e subi rumo ao taxi. Eram uns 300 metros rua acima e sofri com o peso e a falta de ar.
Era quase meio-dia quando finalmente pegamos a estrada poeirenta que leva até o Huayana Potosi. Até certo ponto a estrada era a mesma pela qual eu tinha passado no dia anterior rumo ao Chacaltaya. Dobramos a esquerda e seguimos por uma longa estrada de onde dava para ver uma represa morro abaixo. Passamos por um velho cemitério abandonado, que fica ao lado da estrada e de onde se tem uma vista muito bonita do Huayana Potosi. Chegamos a um posto de controle e entramos numa mineradora abandonada. Mais um pouco e chegamos ao refugio Casa Blanca, situado a 4.740 metros de altitude. A possibilidade de chegar de carro até tal altitude é o que faz o Huayana Potosi ser uma das poucas montanhas no mundo com mais de 6.000 metros, onde pessoas sem experiência e com um pouco de preparo físico conseguem chegar ao cume.
Fazia sol, mas fazia frio no refugio e achei interessante algumas poças d’agua no chão, que estavam congeladas. Entramos no refugio e logo na entrada tinha um local para guardar a roupa e equipamento de escalada. Depois entramos numa sala com uma grande mesa e nas paredes diversos quadros e fotos de montanhas enfeitando o local. Uma senhora veio nos receber e falou que era para deixarmos nossas mochilas no andar de cima, onde ficava o dormitório. Para subir ao dormitório era preciso tirar o calçado e o deixar no pé da escada. O dormitório estava muito organizado e limpo, com colchões espalhados pelo chão. Escolhi um colchão no canto e ali estendi meu saco de dormir. Aliás, o saco de dormir tinha sido emprestado pelo guia, pois o meu é para zero graus e o guia achou melhor que eu levasse um saco de dormir para temperaturas negativas, então me emprestou um para até 15 graus negativos. O casal de suíços (não anotei e não consigo lembrar o nome deles) se ajeitou nos colchões ao meu lado. Na hora de descer a escada de madeira, que era estreita e íngreme, escorreguei e quase caí de cabeça escada abaixo. Era o que me faltava, chegar tão perto do Huayana Potosi e me machucar ao cair da escada do abrigo, antes mesmo de começar a subir a montanha.
Era 13h50min quando o almoço foi servido. O cardápio era arroz e peito de frango assado. A comida estava fria, quase gelada, mas saborosa. Eu que gosto de comida fria não me importei, mas os suíços fizeram cara feia e reclamaram um pouco. Após comermos, o guia fez uma rápida reunião ali mesmo na mesa. Depois fomos deitar para descansar um pouco e vi os suíços tomando chimarrão. Isso mesmo!! Perguntei onde eles tinham conhecido tal bebida e me contaram que foi durante um mês que passaram na Argentina. O remédio fez efeito, pois as dores na barriga e o enjoo desapareceram.
Às 15h00min descemos para a entrada do abrigo e ali aprendemos como vestir as roupas de frio e o equipamento de segurança. Colocar a bota de neve deu um trabalhão, pois ela é muito pesada e tem uma parte interna com cordão e depois a parte da bota propriamente dita, com outro cordão. Sofri para amarrar os cordões, que não ficavam firmes o suficiente e se desamarrariam muitas vezes. Saímos equipados e fomos subir rumo a uma geleira que fica montanha acima. A trilha era estreita, no meio das pedras e logo comecei a sentir muito calor em razão de estar usando a roupa para gelo. Senti-me bem adaptado com relação à altitude e consegui caminhar no mesmo ritmo que o guia. O casal suíço subiu lentamente, fizeram várias paradas e estavam com dificuldade para respirar. E o que piorava a situação deles é que ambos eram fumantes. Então para eles era ainda mais difícil respirar ali, com pouco ar em razão da altitude. Após 45 minutos de caminhada chegamos ao Glaciar Velho, uma geleira que é utilizada para treinamento dos novatos em prática de escalada em gelo. Quase no final da trilha passamos por uma garota que tinha cara de norte americana, e seu guia boliviano. Ao chegar à geleira o guia olhou para mim, mostrou a garota pela qual tínhamos acabado de passar e disse que ela era brasileira. Logo a guria e seu guia pararam ao nosso lado e fiquei olhando para ela, vendo suas roupas e acessórios em busca de algum sinal que mostrasse que ela era mesmo brasileira. Como não encontrei nada, falei algo a ela em português. Ela se virou e me respondeu em espanhol. Achei que ela não era brasileira e que o guia estava equivocado, mas logo ela pediu desculpas por ter me respondido em espanhol (questão de hábito) e desandou a falar em português, com sotaque gaúcho. O nome da gauchinha era Bruna, e logo ela se transformaria numa das pessoas mais especiais que conheci nessa viagem.
Na geleira o guia nos ensinou a colocar os grampões (garras para andar no gelo) nas botas e também explicou como utilizar o piolet (espécie de machadinha) para caminhar no gelo e subir paredões gelados. Em seguida ele nos mostrou as várias técnicas para caminhar sobre o gelo, tanto para subir, como descer e andar lateralmente. No começo tomei cuidado, pois não me sentia seguro e parecia que ia cair a todo o momento. Logo peguei prática e comecei a andar de cima para baixo sem medo. A lição seguinte foi subir em paredão de gelo utilizando os grampões. Você tinha que literalmente chutar o paredão, para cravas as garras do grampão no gelo. E ao mesmo tempo que chutava o gelo tinha que utilizar o piolet cravando ele no gelo para ir subindo paredão acima. No começo deu um pouco de medo, mas logo peguei o jeito e ficou divertido. E a última lição foi escalar um paredão de gelo utilizando os grampões, dois piolets e com uma corda amarrada em você, tendo outra pessoa fazendo a ancoragem. Achei que o guia por ser pequeno não ia conseguir fazer a ancoragem e me segurar caso eu caísse. Ele disse que eu podia confiar e foi o que fiz, já que não tinha outra opção. Essa subida foi divertida, pois ao fixar os grampões no paredão voava gelo para todo lado. Eu subi de uma vez e quando cheguei ao alto do paredão fiquei sem fôlego e pedi para o guia esperar eu me recuperar, para então eu poder descer. O paredão que subi tinha uns doze metros e somente quando cheguei ao alto é que olhei para baixo e senti um pouco de medo. Cair lá de cima seria perigoso, ainda mais que existia uma fenda no gelo em baixo, logo no final do paredão. Após descansar uns minutos o guia puxou a corda e mandou-me descer. Resolvi confiar nele e soltei meu corpo, deslizando em segurança paredão abaixo. Foi tão divertido que deu vontade de repetir a experiência. Após eu descer foi a vez dos suíços subirem, sendo primeiro o marido e depois a esposa, que mostrou muita prática em subir. Enquanto eles subiam fiquei vendo a Bruna subir outro paredão próximo de onde estávamos. A gauchinha era corajosa!
Treinamento feito, tiramos os grampões e seguimos trilha abaixo de volta para o abrigo. Chegamos ao abrigo pouco depois das 17h00min e fomos tomar café. Logo chegaram a Bruna e seu guia. Eles tinham tido um desentendimento e a Bruna não quis ficar sozinha com ele em outro abrigo ali perto, onde eles estavam instalados. Então ficou decidido que a Bruna faria parte de meu grupo e ficaria no nosso alojamento. Para mim foi uma boa notícia a vinda da Bruna para o meu grupo, pois eu teria com quem conversar, já que os suíços e o guia se isolavam e não eram de conversa. E foi isso que aconteceu entre a hora do café e a janta. Eu e Bruna ficamos conversando sem parar, sentados a mesa. Nossas conversas foram sobre vários assuntos e nasceu ali uma boa amizade. A Bruna tem 24 anos e está no interior da Bolívia fazendo trabalho voluntário em um orfanato. Ela é recém-formada em enfermagem e antes já tinha feito um trabalho semelhante na Venezuela. A Bruna ganhou muitos pontos comigo, ao dizer que eu tinha uns 26 anos. Um quarentão como eu ser taxado como um jovem de vinte e poucos anos é uma excelente massagem ao ego. Ou então a Bruna não enxergava muito bem!! Vai saber? Kkk….
A janta foi servida às 18h10min e estava um pouco melhor do que o almoço. De entrada foi servida sopa quente e depois macarrão com carne moída. Depois da janta subimos todos para o alojamento, onde arrumei minhas coisas e me preparei para tomar banho. Ao me virar para sair do alojamento dei de cara com a suíça, que estava abaixada, de calcinha preta, trocando de calça e com o traseiro virado para meu lado. Na hora fiquei sem jeito, pois não sabia se seguia para fora e passava por trás dela, se virava o rosto e não olhava, ou então se olhava para ela se trocando. O marido dela estava do meu lado e isso me deixou ainda mais sem graça. Olhei para a Bruna, que estava sentada em seu colchão e a cara dela era de espanto. Mais uma vez tive a prova de que as mulheres europeias não são cheias de pudores iguais a sul americanas e asiáticas. Para elas trocar de roupa ou andar com pouca roupa em frente de estranhos não é nenhum problema. (Teve o caso da holandesa no hostal na Isla del Sol).
Fui tomar meu costumeiro banho de gato. O banheiro ficava cerca de cem metros distante do abrigo, numa área descampada. Não tinha luz, o vaso sanitário era velho e quebrado e a descarga era alguns galões com água que ficavam num canto do banheiro e que cuja água você despejava no vaso após usá-lo. A janela do banheiro não tinha vidro e a porta era cheia de buracos e não fechava direito. Resumindo, utilizar banheiro ali era um problema sério. E nesse banheiro tomei meu banho de gato, passando uma toalha molhada pelo corpo e depois lenços umedecidos. Em seguida coloquei camiseta, meias e cueca limpas. Quase congelei ao realizar tal procedimento. Acabei emprestando meus lenços umedecidos para a Bruna tomar o banho de gato (no caso dela banho de gata!). Os suíços não sei se tomaram banho ou algo parecido. Pouco depois das 19h30min todos se recolheram para seus sacos de dormir. Eu não sei e não gosto de dormir cedo, então para mim foi um problema ir deitar tão cedo. E para piorar meu MP3 tinha passado o dia todo ligado dentro da mochila e ficou sem bateria. O jeito foi ficar quieto dentro do saco de dormir, pensando na vida. E de hora em hora eu ouvia o bip de meu relógio dentro da mochila jogada num canto e ficava sabendo que horas eram. Acabei dormindo depois das 23h00min e pouco antes tinha olhado meu termômetro, que marcava sete graus.
História – Huayna Potosi
A história do Huayna Potosi é confusa e parece que o grande especialista inglês dos Andes Meridionais, Sir Martín Conway haveria tido dúvidas quanto a geografia deste “senhor” dos Andes Bolivianos. Em 1877, quando o francês Charles Wiener e seus companheiros de Illimani fazem uma tentativa de escalada que, como temos visto, se viu coroada com êxito, um grupo de alpinistas alemães tenta a ascensão do Huayna Potosi. Sem equipamento, desprovidos de víveres e praticamente sem nenhuma informação, se lançam para o alto desconhecido apesar de sua proximidade da cidade. Quatro deles teriam de encontrar um destino trágico, acima dos 5.600 metros de altitude; os outros dois, desesperados tentaram uma descida arriscada pelo glaciar. Porém a neblina estava ali fazia uma semana e com dois metros de neve profunda recém-caída, o que impede uma progressão rápida. Depois de 11 dias passados e em condições climáticas espantosas, os dois alpinistas chegam ao colo de Zongo a 4.890 metros, onde morrem de esgotamento. Em 9 de setembro de 1898, outra expedição provavelmente austríaca tenta sua vez na aventura; desceram também depois de 5 dias passados a 5.900 metros.
Em 1919, os alemães R. Dienst e O. Lhose, chegam enfim ao cume da ponta sul, ligeiramente mais baixa que a norte, neste mesmo momento, os italianos e os suíços fazem várias incursões no cume vizinho e fracassam em seu intento, o que os leva ao Condoriri sem lograr maior êxito. Este último se encontra muito próximo do Huayna Potosi. A partir de 1940 que os italianos junto com Pietro Chiglione, chefe da expedição chegaram a pisar pela primeira vez alguns cumes vizinhos do Huayna Potosi, como o Taquesi, Cumacutincora e Michuloma, dos quais nenhum chega aos 6.000 metros. Sem embargo, levando em conta as possibilidades técnicas da época, estas escaladas representam dimensões de verdadeiras explorações que bem podem ser consideradas como façanhas. Em 1950, o Huayna Potosi é objeto de uma ascensão internacional; sua proximidade da capital unida a sua beleza fazem dele, junto com o Condoriri, o Illimani e o Illampu, um dos cumes mais cobiçadas da Cordilheira Real. Depois das vias normais, sudeste e noroeste, que se unem a outro cume, as faces oeste, as arestas norte se impõem como linha direta para alcançar o ponto culminante. Várias tentativas franco bolivianas, alemãs e americanas, fracassaram. Somente em 1969 que o americano, Roman Labat abre uma via lógica até o cume pela aresta Noroeste cortando uma parte da face oeste. Pouco depois, uma equipe alemã faz a aresta integralmente (Rudolf Knott, Peter Schleyer e Otto Ekkehart).
Em 1970, a verdadeira rota desta face, partindo da base do cume norte, estava por abrir. Ernesto Sánchez e Alain Mesili trataram de escalar sem êxito, depois de passados 4 dias em péssimas condições climáticas e quase sem material; uma queda de Mesili sob as estrias entre os blocos de gelo deteriora a situação moral e física dos dois escaladores. Acima dos 5.600 metros, um bloco de pedra corta a corda em várias partes e eles decidem pela descida. Seriam necessárias 15 horas de cramponagem de descida metro a metro, entre nevascas e trovoadas, pelas pendentes de 55º a 60º graus para chegar à rota principal. Em 1977 os franceses Cristian Jacquier, Dominique Chapuis e Christian Charriere, abrem exitosamente a primeira via, pelo extremo lado direito da parede, saindo assim pela parte baixa do pico sul. Em julho de 1978, Michel e Jean Affansief traçaram uma via quase idêntica a anterior. Em setembro do mesmo ano, Frederic Faure, Guy Challeat, Yves Levy e Alain Mesili, abrem uma via pela borda do cume principal. O Huayna Potosi apresenta um atrativo especial, uma atração estética para o alpinista.
Nestes últimos anos, a via normal tem sido escalada centenas de vezes por temporada, o que é comparável ao Huascarán na Cordilheira Blanca do Peru, o que denota por outro lado uma mudança de atitude no que se refere ao interesse que despertam as montanhas situadas nos confins dos Andes para o europeu acostumado aos Andes peruanos.
Nesse dia levantei um pouco mais tarde, pois a saída para o Chacaltaya e Valle de La Luna estava marcada para as 8h00min. Minha garganta estava quase curada, tinha desinchado totalmente, não doía e sumiu a tosse e as secreções. Creio que o responsável pela rápida melhora foi o antibiótico que tomei. Me arrumei, coloquei algumas coisas na mochila e fui para a frente do hostal. Lá encontrei o Enrico e Olivia. Eles não estavam mais hospedados no El Solário, tinham ido para outro hostal ali perto. Logo a van e o guia que nos acompanharia no passeio chegaram. Embarcamos e o guia avisou que passaria em outros hostals para pegar mais pessoas. Na primeira parada embarcaram três gurias que pouco depois descobri serem brasileiras, cariocas de Niterói. Em outro hostal embarcaram dois caras que pareciam ser israelenses. Mais outra parada e embarcou um casal brasileiro. E na última parada embarcou um oriental, que não sei de que país era. Com a van cheia, pegamos o caminho em direção à periferia de La Paz. Comecei a conversar com o Enrico e a Olivia e logo o outro casal brasileiro também entrou na conversa. Álvaro e Ellen eram paranaenses, mas viviam no interior de São Paulo. A família da Ellen era de Campo Mourão. Mundo realmente pequeno esse nosso!!!
Nos afastamos do centro e atravessámos alguns bairros pobres e isolados, com ruas poeirentas. Depois pegamos uma estrada de terra que seguia em direção as montanhas. Passamos em um local onde um rebanho de lhamas cruzava a estrada a nossa frente. Descemos da van e nos aproximamos para tirar fotos. Logo reembarcamos e seguimos pela estrada. A nossa frente surgiu o Chacaltaya e a sua esquerda o Huayna Potosi. Contei para o Enrico e a Olivia que a montanha de Huayna Potosi seria meu próximo destino. E daí eles perguntaram como tinha sido o downhill de bicicleta no dia anterior. Uma das cariocas, Natalia, ao ouvir sobre o downhill se virou e começou a fazer perguntas, pois tinha vontade de fazer tal passeio. Seguimos conversando na van e nos aproximando cada vez mais das montanhas. Começamos a subir por uma estrada estreita e cheia de curvas, onde o motorista passava bem próximo a beira do abismo e a visão do precipício lá embaixo era um pouco assustadora. Ao meu lado estava sentada uma das cariocas, Meire, que ficou bastante assustada e um pouco nervosa em passar por aquela estrada. Vimos algumas espécies de pequenas cabanas cheias de fios, espalhadas ao lado da estrada quando estávamos quase chegando ao Chacaltaya. Perguntamos ao guia o que era aquilo e ele respondeu que eram equipamentos utilizados em estudos climáticos. Ali funciona o Observatório Astrofísico de Chacaltaya, que durante muitos anos foi um dos principais colaboradores do esforço internacional para estudos de raios cósmicos.
O Chacaltaya é uma montanha que faz parte da Cordilheira dos Andes. Ela tem 5.421 metros de altitude e fica cerca de 30 quilômetros de distância do centro de La Paz. É uma montanha bastante visitada por turistas, em razão de se conseguir chegar de carro até cerca de 200 metros abaixo de seu cume. E se tratando de uma montanha com mais de cinco mil metros, não é em qualquer lugar do mundo que se consegue chegar de carro tão próximo do cume assim tão alta. Ali funciona uma estação de esqui, que está semi desativada em razão de ter pouca neve por culpa das mudanças climáticas que ocorreram no planeta nos últimos anos. E o curioso é que o maior volume de neve no Chacaltaya ocorre no verão. É que no verão chove na região e isso faz com que caía neve. Já o outono e inverno é época de seca e a neve existente no alto da montanha vai derretendo com o sol constante. A estação de esqui do Chacaltaya é a estação de esqui de maior altitude no mundo, ficando a 5.395 metros acima do nível do mar.
Desembarcamos da van ao lado de um prédio onde funciona a administração do lugar, e também uma pequena lanchonete e algumas lojinhas que estavam fechadas. Fui usar o banheiro e me assustei com suas condições. Nem tem como descrever o estado deplorável e de abandono em que ele estava. Realmente o lugar está decadente e meio abandonado. Olhei no meu termômetro e estava fazendo 4 graus, no sol. Dei uma volta pelo local, tirei algumas fotos e gostei de uma construção antiga feita em madeira, que fica numa das extremidades do morro. Ela estava fechada, então não pude entrar e ver como era por dentro.
Começamos a subir em direção ao cume. Existia um caminho que levava para o alto da montanha e que não era muito extenso. Mas subir ali não era tão fácil, pois devido à alta altitude o ar era rarefeito e por menor que fosse o esforço feito, você sentia falta de ar e ficava cansado. Logo no início da subida uma das cariocas começou a se sentir mal e desistiu de subir. O Enrico não gosta de altura e resolveu ficar sentado numa pedra e curtir a vista que se tinha dali. O Álvaro estava com dificuldades para respirar, mas logo percebeu que se não falasse e desse passadas curtas, ele conseguia subir. Os estrangeiros do grupo seguiram na frente, junto com o guia boliviano. Eu fiquei junto com a Olivia, Meire, Álvaro, Ellen e Natalia. Subimos juntos até o cume, conversando. Em alguns momentos eu apertava um pouco o passo, pois queria sentir como estava minha aclimatação com relação à altitude. Descobri que eu estava bem, pois não me cansava muito e não tive dor de cabeça ou tonturas. Não tinha neve nesse trecho final e só fomos encontrá-la no cume, sendo que em pouca quantidade e muito dura, mais parecendo gelo compacto. No cume estava fazendo 10 graus. Eu imaginei que estaria mais frio lá em cima, mas me enganei. Mas embaixo na montanha estava ventando um pouco e talvez por essa razão que estava mais frio. Eu bati novamente meu recorde de altitude ao chegar ao cume do Chacaltaya.
A vista lá do alto do cume era muito bonita. Víamos a estrada cheia de curvas por onde tínhamos passado para chegar ali e também algumas pequenas lagoas. Dava para ver La Paz ao longe e bem próximo o Huayana Potosi, que é uns setecentos metros mais alto que o Chacaltaya. Fiquei um longo tempo olhando para o Huayna Potosi e pensando se eu conseguiria chegar até o seu cume dali uns dias. O guia nos mostrou algumas pedras que tinha encontrado no chão e no meio delas dava para ver fósseis de conchinhas. Aquela montanha com mais de cinco mil metros já tinha sido fundo de oceano milhares de anos antes.
Nosso grupo de brasileiros ficou o tempo todo junto no cume do Chacaltaya. Eu conversei bastante com a Natalia, com quem descobri muitas afinidades. Peguei bastante no pé dela, pois ela ficou o tempo todo segurando uma garrafa de água de 2 litros. Mesmo nas fotos ela ficava com a garrafa de água nas mãos. Tiramos fotos, admiramos mais um pouco a vista e chegou a hora de voltar. Dias antes eu tinha visto algumas fotos do Chacaltaya que minha amiga Renata Melo tinha postado no Facebook. As fotos dela tinham sido tiradas alguns meses antes, com neve cobrindo toda a montanha. Inclusive ela pegou uma nevasca quando estava no alto do Chacaltaya. A visão que eu estava tendo da montanha era totalmente diferente do que eu tinha visto nas fotos da Renata. Sem neve a montanha fica muito diferente, parece ser outra.
Na hora de embarcar na van, eu e o Álvaro conversámos sobre a fragilidade daquela van. Ela era antiga, com pneus pequenos e possivelmente sua manutenção devia ser precária. Uma van daquela, cheia de gente, andando pela estrada estreita e sinuosa que leva até o Chacaltaya, era o convite para um acidente grave. Mas como não adiantava reclamar ou ficar com medo, o jeito for entrar na van e procurar curtir a paisagem. E achei estranho os vidros da van estarem lacrados, não dava para abrir. A descida foi mais tranquila do que a subida e até mesmo a Meire estava relaxada e disse não estar com medo. Os brasileiros do grupo já tinham ficado amigos e a conversa rolou solta. Os três estrangeiros acabaram ficando de lado.
Valle de La Luna
Atravessámos La Paz de um lado ao outro, levamos pouco mais de uma hora rodando pela cidade. Passamos pela parte sul e rica da cidade. Nessa região existiam casas, prédios e carros bonitos, não tinham vendedores nas ruas. De tão perfeito e bonito, essa parte da cidade me pareceu sem graça. Finalmente chegamos ao Valle de La Luna, que é uma formação rochosa que lembra um pouco a paisagem lunar. Na verdade são arenitos, que com o passar do tempo foram sendo esculpidos pela ação da chuva e do vento. Eu não tinha nenhuma expectativa com relação a esse passeio, mas acabei gostando. O lugar era interessante e acabou sendo um passeio agradável. Fiquei o tempo todo caminhando e conversando com os demais brasileiros do grupo. Após uma hora caminhando pelo Valle de La Luna, embarcamos na van e seguimos em direção ao centro da cidade. As três cariocas logo desembarcaram, pois pretendiam passear pela região sul da cidade. Fui um dos últimos a desembarcar, numa rua próxima ao hostal e junto com os dois casais de brasileiros. Despedi-me do Álvaro e da Ellen e saí caminhar com Olivia e Enrico. Diferente de mim que sou enjoado e evito as comidas locais, eles gostavam de provar tudo o que era novo. Contei a eles sobre o abacaxi enorme que vi sendo vendido na rua e eles disseram que já tinham provado e que era muito bom. Eu que adoro abacaxi, tinha ficado com vontade de provar, mas achei as condições higiênicas bastante precárias. Acabamos indo até a rua paralela ao hostal, onde duas mulheres vendiam os tais abacaxis. Elas vendiam copos de suco por $ 1,00 boliviano e fatias de abacaxi por $ 3,00. Acabei provando uma fatia e gostei, foi o melhor abacaxi que já provei. Ao lado de onde era vendido o abacaxi, funciona uma espécie de padaria na calçada. Algumas mulheres tinham bancas onde vendiam pão, e a todo momento pessoas paravam para comprar variados tipos de pão. Voltamos aos nossos hostals e combinamos de sair mais tarde para jantarmos juntos.
Ao entrar no hostal a moça da agencia de viagens me chamou dizendo que tinha novidades. Ela disse que surgiu um casal de suíços que queriam ir para Huayna Potosi, partindo no dia seguinte. Acabei fechando o pacote para ir junto com eles. Os três dias na montanha, com refeição, guia, equipamento, roupas e transporte, custava $ 930,00 bolivianos. Eu não tinha todo esse valor em bolivianos e pensei em pagar em dólares, mas o cambio ali era baixo demais. Então saí cambiar dólares numa agencia ali perto. No Brasil as agencias de cambio funcionam cheias de cuidados, com seguranças, portas com detector de metal, vidros blindados. Na Bolívia não tinha nada disso, as agencias funcionavam sem nenhum tipo de segurança ou cuidado. Nessa agencia que troquei os dólares, o balcão ficava quase na rua e em frente todos que passavam viam que eu estava trocando dinheiro e onde eu guardei o dinheiro. E voltei tranquilamente até o hostal sem ter qualquer tipo de problema. Fazer algo parecido no Brasil é pedir para ser assaltado. Mais uma vez cheguei à conclusão que o culpa pela violência no Brasil não é a pobreza.
Fechei a compra do pacote para Huayna Potosi, fui apresentado ao guia e ele me levou para provar roupas e equipamento. As botas não me serviram, elas apertavam meus dedos. O guia falou que tinha em sua casa uma bota tamanho 43, que certamente me serviria. Eu calço 41 e precisava de uma bota maior, pois teria que usar três pares de meia para aquecer os pés. Tudo resolvido e saí à rua para usar a internet numa lan house e também telefonar para casa. Eu sabia que subir Huayna Potosi teria certo risco, que gente já morreu por lá. Então achei melhor ligar para casa e depois deixei um recado no Facebook, que no caso de eu morrer serviria como uma espécie de despedida. E no meio dessas coisas todas que fiz, acabei perdendo o horário de encontrar o Enrico e a Olivia. Voltei para o hostal e fiquei lá na frente uns quinze minutos, até que eles apareceram. Já tinham jantado, pois cansaram de me esperar no horário marcado. Saímos juntos, eu precisava comprar pilhas para minha lanterna e uma meia de lã. Em La Paz o comércio informal domina a cidade, o que mais existe são bancas e vendedores pelas ruas, onde você encontra de tudo. Demos uma volta pela vizinhança e logo encontrei as pilhas e um meia de lã bem quentinha (e zebrada). Eu não tinha jantado e fui num outro restaurante que servia a refeição comum da cidade; frango, arroz e batata frita. Meus amigos me acompanharam e enquanto eu comia ficamos conversando descontraidamente. Eu tinha visto um prato de nome Salchipapas (batata frita e salsicha) e mesmo já tendo comido, pedi o tal prato. E Enrico também pediu um, o qual dividiu com a Olivia. O Salchipapas era saboroso, mas no dia seguinte eu me arrependeria amargamente por tê-lo comido. Saímos do restaurante, demos mais uma volta pela rua olhando as bancas de produtos a venda e entramos no hostal do meu casal de amigos. Conversamos, trocamos endereços e nos despedimos. Na madrugada seguinte eles seguiriam para Buenos Aires e eu me aventuraria na nevada e gelada montanha de Huayna Potosi.
Fui para o hostal e logo que entrei vi que numa sala na parte de baixo estava rolando uma festa. Quando comecei a subir a escada para meu quarto, uma guria me parou e perguntou em espanhol de onde eu era. Respondi que era do Brasil e então ela se apresentou e disse ser francesa. Ela me convidou para a festa e eu não tive como dizer não. Fui com ela até o local onde o pessoal estava reunido e vi que tinha muita bebida, três caras tocando violão e muita fumaça, pois quase todos estavam fumando. Fiquei uns cinco minutos ali e falei para a francesinha ao meu lado que ia até o meu quarto e logo voltaria. E saí sabendo que não ia voltar, principalmente em razão da fumaça, pois detesto cigarro, cheiro de cigarro, fumaça de cigarro. No quarto arrumei minhas coisas, separarei na mochila grande tudo o que ia deixar guardado no depósito do hostal, e na mochila média e na pequena, separei o que levaria para a montanha. Era quase meia noite quando me deitei para dormir e levei algum tempo para pegar no sono. Fiquei pensando como seriam os próximos três dias na montanha, o frio intenso, a falta de banho, a comida ruim e principalmente os perigos de subir uma montanha nevada e com alta altitude. E no meio de tais pensamentos dormi, aproveitando a cama confortável e quente, da qual eu sentiria saudade na duas noites seguintes.
A esquerda Huayna Potosi e em frente o Chacaltaya.
Rebanho de lhamas cruzando a estrada.
A sinuosa e perigosa estrada que leva ao Chacaltaya.
Levantei às 6h00min me sentindo melhor do problema da garganta, que tinha desinchado. Pelo visto os remédios bolivianos e o antibiótico que o Enrico me deu estavam dando resultado. Para garantir coloquei na mochila uma cartela de pastilhas para garganta. Fui ao banheiro, voltei ao quarto me arrumar e logo desci. No hostal seria servido um café da manhã gratuito para o grupo que faria o downhill pela Estrada da Morte. No local do café fiquei conhecendo o guia e os outros três caras que fariam o downhill (um espanhol, um israelense e um suíço) e também um casal de chilenos, que iria conosco de carona até CoRoico, cidade próxima ao final do downhill. No café da manhã comi pão com doce de leite e bebi um copo de Tampico de manga. Argh, que coisa ruim!! Gosto de Tampico de laranja, mas não gosto de manga e o tal Tampico sabor manga que eu nunca tinha visto antes, era horrível demais. Após o café o guia entregou nossas roupas, que todos vestiram ali mesmo e fez uma reunião, sempre falando em inglês. Mesmo com meu inglês sofrível eu conseguia entender bem as explicações, então não pedi que ele traduzisse tudo para o espanhol. E durante todo o dia as explicações e avisos foram em inglês.
Embarcamos numa van, que levava em cima algumas bicicletas e partimos. Seguimos pelo centro de La Paz e depois pela periferia até uma região de serra. O motorista colocou umas músicas locais para tocar e num volume altíssimo. Foi a maior tortura e numa situação daquelas dava vontade de ser surdo. Após uma hora de viagem chegamos ao La Cumbre (o cume) local onde teria início o downhill. Fazia muito frio mesmo com sol. Eu vestia uma calça de ciclismo e por cima dela uma calça de agasalho que fazia parte do uniforme da agencia. E também uma camiseta, uma blusa e por cima o casaco da agencia. E para completar dois pares de meias e luvas. O guia nos entregou o equipamento de segurança, que consistia de capacete, perneiras e joelheiras de plástico. Usar toda aquela proteção era desconfortável, mas um mal necessário. O começo do downhill seria na parte asfaltada da Estrada da Morte. Na estrada passavam carros, então teríamos que tomar muito cuidado e não exagerar na velocidade. Depois de alguns quilômetros embarcaríamos na van e seguiríamos até a parte antiga da Estrada da Morte, que não é asfaltada e está quase que totalmente desativada. A partir de 1996 quando a estrada asfaltada foi inaugurada, esse trecho de terra passou a ser somente utilizado na época da colheita e para turismo, principalmente os passeios de bicicleta. Antes de ser asfaltada, a média de mortes anuais na Estrada da Morte era de duzentas. E desde que os passeios de bicicleta começaram a ser feitos na Estrada da Morte, vários ciclistas morreram ali, principalmente ao cair nos precipícios que existem de um dos lados da estrada. O nome Estrada da Morte é merecido, pois ela é estreita, toda em terra e cascalho, cheia de curvas, tendo de um lado um precipício que termina na mata e do outro lado um paredão de pedra.
Mais uma reunião foi feita, onde o guia explicou os cuidados com segurança que deveríamos ter. Tiramos fotos e o guia mostrou no fundo do abismo os restos de um ônibus que tinha caído ali três anos antes e que matou muitas pessoas. Não foi nada animador ver os pedaços do ônibus pouco antes de iniciar a descida pela estrada. Partiríamos de La Cumbre numa altitude de 4.700 metros (meu novo recorde de altitude) e no final do downhill em Yolosa, a altitude seria de 1.185 metros. Ou seja, seria o tempo todo descendo e como downhill significa “descida”, aquele era o lugar ideal para descer e descer… O início do downhill foi com muito frio, em razão da alta altitude e seu final seria numa região de mata e quente. Então no meio da descida faríamos uma parada para tirar a roupa de frio e colocar uma roupa para temperaturas altas. Do jeito que tinha me vestido, isso seria fácil. Bastava tirar as luvas, a calça de agasalho e os dois casacos.
Quando seguimos rumo a estrada para iniciar a descida, chegou outro grupo de ciclistas. Esse grupo era formado por umas vinte pessoas. O que me chamou a atenção foi que o único tipo de proteção que eles usavam era o capacete. E também usavam um colete amarelo, com o logo da agencia de turismo pela qual estavam fazendo o downhill. Achei que seria bem mais interessante fazer a descida com um grupo pequeno igual eu estava fazendo, do que num grupo tão grande igual o da outra agencia.
Já no primeiro quilômetro de estrada começou a descida e era uma curva atrás da outra. Não era preciso pedalar, bastava deixar a bicicleta pegar embalo. Para ganhar mais velocidade era só baixar o corpo e encostar o queixo no guidão. Fazia muito frio e descendo em alta velocidade o vento deixava a sensação térmica muito baixa. Mesmo com luvas, comecei a sentir os dedos congelarem e doerem de frio. No início utilizei bastante o freio, até me acostumar com a bicicleta e com a estrada. Minha bicicleta era boa, bastante leve e fácil de controlar. O freio era forte e logo peguei o jeito de frear em segurança. Só não gostei do selim, que era duro. O que amenizava um pouco o desconforto era a calça de ciclismo que eu usava por baixo da calça de agasalho e que tinha espuma no traseiro e nas partes mais sensíveis próximas a ele (entendeu?). Logo peguei gosto pela coisa, perdi o medo e comecei a andar em alta velocidade. Aquilo era muito louco, adrenalina pura. Em razão do horário poucos carros passavam pela estrada, e os que passavam na maioria eram caminhões e ônibus que subiam a estrada. Segundo o guia, nossa velocidade ficava entre sessenta e setenta quilômetros por hora. Cair a uma velocidade dessas significava sérios ferimentos, mesmo utilizando equipamento de proteção. Meu maior receio era cair de boca na estrada.
A descida foi ficando divertida e fazer curvas era ainda mais divertido. O guia ficava próximo a nós, tirando fotos e dando algumas instruções. Jorge, o espanhol logo começou a andar na frente e fazia as curvas em alta velocidade. Eu e o suíço andávamos sempre próximos um do outro, nos alternado um na frente do outro. E o israelense seguia sempre no final do grupo. Logo atrás dele vinha nossa van, cujo motorista também era enfermeiro para o caso de algum acidente. E o casal de chilenos vinha na van curtindo a paisagem e tirando fotos. Eu tinha perdido totalmente o medo e me adaptado à bicicleta, então passei a tentar andar na mesma velocidade que o espanhol. Em alguns momentos consegui ultrapassá-lo. Mas cheguei numa curva que tinha pedriscos e perdi o controle da bicicleta. O pneu da frente derrapou nos pedriscos e para conseguir controlar a bicicleta não usei o freio, pois senão teria derrapado de vez e caído. Meu sangue frio e experiência em andar de bicicleta foi o que me livrou de um tombo, pois ao mesmo tempo em que olhei rapidamente para os dois lados para ver se não vinham carros, fui tocando de leve no freio traseiro e equilibrando a bicicleta, cujo pneu dianteiro seguia dançando de um lado para outro. Segui controlando a bicicleta com o pneu dianteiro dançando, até chegar à grama em frente um guard rail do outro lado da estrada. Ali apertei mais forte o freio traseiro, fiz uma curva brusca já em menor velocidade e toquei levemente o pé esquerdo no guard rail, para me equilibrar. Dessa forma consegui controlar a bicicleta e voltar para a estrada em segurança. Nossa van vinha logo atrás e pude ver a cara de assustados do pessoal que estava nela. Depois de o perigo ter passado foi que senti o coração disparado e um frio no estômago. Foi aí que caiu a ficha e vi do que tinha me livrado. Se tivesse vindo algum carro no momento em que perdi o controle da bike, eu teria que ter freado bruscamente e fatalmente teria caído e me machucado feio. E outra coisa que poderia ter acontecido, seria eu ter batido no guard rail e caído no precipício atrás dele. Como não queria correr mais riscos e nem levar novos sustos, passei a ir mais devagar e até o israelense me ultrapassou.
Dez minutos após meu quase acidente, chegamos num local onde tinham algumas lanchonetes, banheiro e um posto de fiscalização da polícia boliviana. Ali fizemos uma parada para lanche e banheiro. E também compramos um tíquete que dava direito a passar pela parte antiga da Estrada da Morte, que fica dentro de um parque ecológico. A chilena veio falar comigo e disse que na van todos acharam que eu ia cair quando perdi o controle da bicicleta na curva. Respondi a ela que eu também achei que ia cair. Após meia hora de descanso voltamos a pedalar e ao passar pelo posto policial me distrai, perdi o equilíbrio e bati de lado numa cerca de ferro. Por sorte eu estava numa velocidade muito baixa e não me machuquei mais seriamente, apenas fiquei o resto do dia com dor no cotovelo e joelho direito. E o equipamento de proteção aliviou a pancada. Só faltava isso, depois de escapar milagrosamente de cair numa curva estando em alta velocidade, eu me machucar de bobeira estando com a bicicleta quase parada. Descemos por mais algumas curvas e chegamos num túnel. O guia nos mandou parar e disse que era proibido passar por dentro do túnel e que ele não tinha iluminação. Existia um desvio não asfaltado que passava ao lado do túnel e passamos por ele. Logo em seguida paramos, colocamos as bicicletas em cima da van e entramos nela para seguir até o início do trecho antigo e não asfaltado da Estrada da Morte.
Desembarcamos da van logo no início da parte original da Estrada da Morte. A paisagem era de tirar o folego. O guia fez nova reunião e explicou que ali era utilizada mão inglesa, ou seja, teríamos que descer pelo lado esquerdo da estrada, bem próximo ao precipício. Ele explicou que funciona dessa forma ali por que em razão da estrada ser estreita, quando dois carros se encontram fica mais fácil para o motorista que está subindo ver até onde ele pode se aproximar em segurança do morro e o motorista que está descendo pode ver até onde ele pode se aproximar da beira do precipício. Outro aviso que o guia deu foi que ao encontramos algum veículo pelo caminho, a preferencia seria dele. Que por segurança deveríamos parar e descer da bicicleta e só voltar a pedalar após o veículo ter passado. Avisos dados e começamos a descer pela estrada cheia de pedras. O guia acostumado que estava em passar por ali quase todos os dias, desceu em alta velocidade e desapareceu de nossa vista. Eu fui com calma, pois queria pegar o jeito da coisa, já que descer pela estrada de terra e cheia de pedras era bem diferente de descer pela estrada de asfalto. A velocidade que alcançávamos era menor, mas em compensação o risco de sofrer algum tipo de acidente era bem maior. Andávamos muito próximo da beira do precipício e cair ali era morte quase certa. Nas curvas o cuidado tinha que ser redobrado, principalmente em curvas muito fechadas e sem área de escape, onde a estrada passava rente ao precipício. Senti um pouco de medo no início, mas logo peguei gosto e jeito pela coisa. E não achei necessário andar sempre pelo lado esquerdo da estrada, pois quase não passavam carros e em muitas partes era possível ver um bom pedaço de estrada à frente. Então eu olhava para ver se não vinham carros e seguia pelo lado direito da estrada. Em curvas fechadas onde eu não tinha muita visão da estrada, eu reduzia a velocidade e seguia com cuidado pelo lado esquerdo. E os poucos carros que passaram por nós vinham buzinando para alertar eventuais motoristas e ciclistas que estivessem seguindo pela estrada.
Fizemos algumas paradas durante a descida, que serviram para tirar fotos e também admirar a beleza do lugar. Paramos em uma curva e o guia nos mostrou lá no fundo do precipício um carro todo retorcido. Esse carro tinha caído ali cinco dias antes, quando o motorista se perdeu na curva. Morreram quatro pessoas nesse acidente. Seguimos em frente, sempre descendo e o frio foi ficando para trás e a temperatura começou a subir. Fizemos uma nova parada, dessa vez numa curva onde ano passado (ou retrasado, não lembro mais!) aconteceu o último acidente com morte de ciclista na Estrada da Morte. Foi um israelense que se perdeu numa curva e caiu no precipício morrendo na hora. Um pouco mais a frente e chegamos numa curva que é o local mais conhecido da Estrada da Morte e onde todo ciclista que passa por ali, tem que obrigatoriamente parar para tirar fotos. A curva é bem fechada, não tem área de escape ou outro tipo de proteção lateral e a estrada passa bem na beira do abismo. Você olha para baixo e demora para ver o fundo. Cair ali é morte certa!
Mais alguns quilômetros descendo velozmente estrada abaixo e levando alguns pequenos sustos, e chegamos num local onde existe um monumento. Esse monumento foi construído pela família de uma ciclista israelense, que morreu ali em 2001. A guria na época tinha 23 anos, se perdeu numa curva e caiu no abismo. O Barack, o israelense do grupo não tinha prestado atenção ao monumento, então mostrei a ele a placa que está escrita em hebraico. Daí o guia contou que dos ciclistas mortos na Estrada da Morte desde que ela foi aberta aos ciclistas, o recorde de mortos por país é de israelenses, com doze mortes. O Barack fez cara de espanto e brinquei com ele perguntando se os israelenses são ruins de visão, ou não aprendem a andar de bicicleta quando crianças. E também falei que a estrada é nazista, pois mata principalmente judeus. Sei que foram piadas idiotas e sem graça, mas ao menos serviram para quebrar o clima ruim que tinha sido criado e para deixar o Barack mais relaxado. Depois disso, ele que já vinha o tempo todo mais devagar e no final do grupo, passou a pedalar ainda mais lentamente e com cuidado redobrado. Nessa parada em frente ao monumento da garota israelense, aproveitamos para tirar as roupas de frio e guardá-las na van.
Voltamos a pedalar e logo passamos por um trecho da estrada onde caía água da montanha por sobre a estrada. Tentei desviar da água, mas não consegui. Ter água gelada caindo sobre mim não foi nada agradável. Dali para baixo passamos a pedalar mais distante da beira do precipício, então comecei a correr mais. E por duas vezes fui parar no mato baixo ao lado da estrada, mas não cheguei a cair. Também atravessamos alguns trechos onde rios atravessavam a estrada. Eu passava com cuidado para não cair na água gelada e levantava os pés para não molhar o tênis. Chegamos num trecho onde tinha muitas pedras soltas na estrada. Na velocidade que estávamos algumas pedras voavam para os lados, outras batiam no pedal ou no quadro da bicicleta, fazendo barulho. Teve uma pedra que bateu no pedal e depois no meu queixo. Não chegou a machucar, mas que levei um susto enorme, isso levei! Comecei a sentir muita dor no pulso direito e parei para ver o que estava acontecendo. Meu pulso estava inchando, creio que em razão do esforço de horas pedalando e apertando o freio. Com o pulso inchado a pulseira do relógio ficou apertada (uso relógio no pulso direito, sempre usei desse lado!) e acabou cortando meu pulso, o que provocou a dor. Tirei o relógio, o coloquei no bolso e voltei a pedalar.
Na parte final da estrada as pedras desapareceram e passamos a percorrer uma região com muita poeira. A descida deixou de ser tão inclinada como fora desde o início e tivemos que pedalar o tempo todo e não mais andar no embalo. Ali fazia muito calor, nem parecia que tínhamos iniciado a descida com frio quase abaixo de zero. Chegamos num posto de controle, onde tivemos que mostrar os ingressos que tínhamos comprado horas antes. Aproveitamos para descansar e tirar fotos. No local uma equipe de reportagem da BBC de Londres, estava gravando parte de um documentário com uma equipe de resgate boliviana que trabalha na Estrada da Morte. Tirámos fotos com o pessoal e quando um dos caras da equipe de resgate soube que eu era brasileiro, veio falar comigo. Ele contou que é casado com uma brasileira e que sua esposa mora no interior da Bahia. Ele fica três meses na Bolívia trabalhando e três meses no Brasil com a esposa. O cara era muito gente boa e engatamos uma conversa animada. Ele contou que atualmente mesmo existindo a estrada nova, ainda ocorrem muitas mortes na parte da Estrada da Morte pela qual tínhamos descido. E que somando as mortes atuais na parte antiga da estrada e na parte nova, ocorrem em média cem mortes por ano. Encerramos a conversa quando o chamaram para almoçar.
Voltamos a pedalar e seguimos por um trecho sem graça, onde não existia curvas perigosas ou descida inclinadas. E exatamente às 13h30min chegamos ao final da estrada, num local com alguns bares e casas, próximo ao trevo que levava a cidade de CoRoico, que ficava ali perto. O guia disse que tínhamos percorrido de bicicleta algo em torno de 60 quilômetros. Entramos num bar e o pessoal foi tomar cerveja e bater papo. Tinha uma TV ligada onde passavam clips internacionais. E logo começou a passar um clip do Michel Teló, com a música “Ai se eu te pego”. Michel Teló e Gustavo Lima também fazem sucesso na Bolívia e não somente no Peru, igual eu tinha visto (e escutado) em muitos lugares. Pedi para usar o banheiro e o dono do bar foi me mostrar onde era. Na verdade não existia um banheiro propriamente dito, mas sim um local atrás do bar, que o pessoal utilizava como banheiro. Papel higiênico, absorventes e outras coisas mais espalhadas pelo chão, deixavam claro que aquele local era utilizado frequentemente como banheiro. Voltei para dentro do bar e conversei um bom tempo com o suíço do grupo. Ele falava bem o espanhol, pois tem uma namorada peruana.
Embarcamos na van e seguimos para o local do almoço, que seria num hotel fazenda no meio da mata. O lugar era exótico e bonito. Quando chegamos tinha um pessoal de saída e vi que tinham brasileiros no meio, mas não falei com nenhum deles. Estava com muita fome e queria comer o quanto antes. O sistema era self servisse e tinha muita salada e macarrão. Como de costume peguei pouca comida, pois onde quer que eu vá costumo provar um pouco da comida e se gostar pego mais. A comida estava muita boa, foi a melhor comida que provei em toda a viagem por Peru e Bolívia. Acabei repetindo três vezes e achei que ia passar mal mais tarde. Depois de almoçar ficamos conversando à mesa e o casal de caronistas chilenos contou sobre sua viagem. Eles tinham saído do Chile e pretendiam chegar até o México, gastando pouco, dormindo em barraca e pegando carona sempre que possível. O dono do hotel fazenda veio conversar conosco e contou brevemente sua história. Ele é húngaro e resolveu há seis anos vir tentar a vida na América do Sul. Passou pelo Brasil, mas não conseguiu se estabelecer no país e então seguiu para a Bolívia, onde tudo deu certo e ele vive feliz com a família, sem vontade de um dia voltar para a Hungria. Na mesa começou a encher de mosquitinhos, daqueles cuja picada coça e saí sangue. O interessante é que eles atacaram principalmente o suíço. Brinquei com ele dizendo que ele tinha sangue doce em razão de comer muito chocolate suíço. Fui o único que não foi picado pelos mosquitos, que não se aproximavam de mim. Acredito que isso em razão dos remédios que eu estava tomando, que devia causar algum cheiro imperceptível para os humanos, mas que funcionava como repelente para mosquitos.
Embarcamos na van e seguimos para o trevo de CoRoico. Ali os chilenos desembarcaram e nós subimos a serra. O guia foi no banco da frente com o motorista e na parte de trás existiam quatro bancos e quatro passageiros. Cada um ficou num banco e meus colegas logo deitaram e pegaram no sono. Eu preferi ficar olhando a estrada e a bela paisagem. A trilha sonora da volta foi bem melhor do que a da ida. Tocou o tempo todo músicas de uma banda mexicana chamada Coquetel Molotov. Teve uma das músicas que inclusive foi gravada em português pelo Capital Inicial. Subimos o tempo todo e após uma hora chegámos na parte da estrada onde tínhamos descido de bicicleta pela manhã. De dentro da van, vendo a estrada, suas curvas, precipícios, veículos passando, cheguei à conclusão de que descer de bicicleta por ali igual nós tínhamos feito era muita loucura. O final da tarde foi chegando e na parte final da subida da serra o tempo fechou e ficou com neblina. Passámos por alguns lugares onde existiam pequenas cachoeiras descendo da montanha ao lado da estrada e em muitas partes a água estava congelada. Pena que o motorista não parou nesses locais, pois daria belas fotos. Saímos da serra e o sol reapareceu. Mais uma hora e estávamos circulando pelo centro de La Paz. Pela janela da van pude conhecer um pouco mais da cidade. E passámos em frente ao belo estádio Hernando Siles, local onde em 1993 a Seleção Brasileira perdeu sua primeira partida de eliminatórias de Copa do Mundo.
Chegamos ao hostal e passei na agencia de viagens para ver se tinha algum grupo formado para ir à Huayna Potosi nos próximos dias. A moça da agencia disse que não, mas que no dia seguinte poderia ter novidades. Acabei fechando com ela um passeio para o Chacaltaya, no dia seguinte. O Chalcaltaya é uma montanha, onde funciona uma estação de esqui semi desativada. A altitude dessa montanha é de 5.421 metros e ir até lá fazia parte do meu plano de aclimatação para subir Huayna Potosi. O pacote de dia inteiro, com van e guia para o Chalcaltaya e Vale de La Luna custava $ 50,00 bolivianos. Antes de sair da agencia ganhei de brinde um CD com as fotos do downhill e uma camiseta alusiva ao passeio, com uma bandeirinha da Bolívia pregada na manga direita.
Subi para meu quarto, tomei banho, deitei um pouco para descansar e quando já era noite saí à rua. Novamente ao passar pelas várias barbearias da vizinhança o pessoal me convidava para entrar e fazer a barba. Fui jantar na lanchonete da esquina e novamente comi um prato com arroz, frango frito e batata frita. Paguei $ 4,50 bolivianos, o que dá R$ 1,42. Era muito barato comer ali. Dei uma volta pelas redondezas e parei numa lan house para usar a internet. Voltei ao hostal pouco depois das 21h00min. Na porta encontrei Elisa, minha amiga italiana. Ela estava indo embora, seguiria para o interior da Bolívia. Conversámos um pouco, nos despedimos e subi para meu quarto. Arrumei a mochila para o passeio do dia seguinte, baixei as fotos do dia no net book e fui dormir, com os braços e mãos doendo em razão das horas em cima da bicicleta. E agora posso dizer que sobrevivi à Estrada da Morte!!!
Barack (Israel), Vander (Brasil), Jorge (Espanha), Stefan (Suiça).
Fazendo graça!!
Início do downhill.
Pegando velocidade.
Sempre descendo.
Pouco antes de quase cair numa curva.
Parada para descanso.
Trecho antigo da Estrada da Morte.
Um dos trechos mais perigosos da estrada.
Trecho da Estrada da Morte onde a parada para fotos é obrigatória.
Essa paisagem é clássica.
Cadê o final do abismo?
Estrada da Morte.
Trecho onde ocorreu a última morte de ciclista na Estrada da Morte.
Monumento a uma ciclista israelense que morreu ao cair no precipício.
Parada para trocar de roupa.
Pela estrada afora eu vou bem contente…
Parada no posto de controle.
Vamos pular, vamos pular, vamos pulaaaaarrrr!!!!
Com os repórteres da BBC de Londres e a equipe boliviana de salvamento.
Pedalando na poeira.
Atravessando o rio.
O banheiro no fundo do bar.
O delicioso almoço hungaro.
Com meus companheiros de downhill e o casal de chilenos.
A direita recado que deixei no livro de visitantes.
Acordei com a camareira batendo na porta do quarto e quando olhei no relógio me assustei, tinha dormido por doze horas a fio. Arrumei minhas coisas e desci fazer o chekout. Perguntei sobre minhas amigas e o recepcionista disse que elas já tinham saído do hotel. Achei que elas tinham ido embora no ônibus que segue às 9h00min para La Paz. Deixei minhas mochilas guardadas no depósito do hotel e saí, fui visitar algumas empresas de ônibus e comprar minha passagem para La Paz. Todas as empresas só tinham ônibus às 13h30min e o preço mudava pouca coisa de uma empresa para outra. Vi na rua alguns ônibus menores e algumas pessoas anunciando que eles saíram em 15 minutos. Fui pedir informações e descobri que estes ônibus não iam até a rodoviária, mas somente até um cemitério na entrada de La Paz. Voltei ao hotel e comprei a passagem do recepcionista, paguei $ 20,00 bolivianos.
Fui dar uma volta pela cidade e após caminhar por algumas ruas próximas ao centro, fui novamente até a Basílica Nossa Senhora de Copacabana. Depois fui numa praça em frente e um cara vestido com a camisa do Grêmio pediu para eu bater uma foto dele. Quando ele descobriu que eu era brasileiro, começou a falar sem parar e me deu algumas dicas sobre o que fazer em La Paz. Caminhei mais um pouco pelo centro, fui até o lago e voltei ao hotel. Fiquei lendo na recepção até próximo ao horário de meu ônibus partir. Fui pegar minhas mochilas no depósito e quem me levou até o depósito e abriu a porta foi uma garotinha de uns quatro anos. Entrei no depósito e peguei minhas mochilas, dei uma olhada em volta e tinham dezenas de mochilas. Algumas de marcas europeias que custam cerca de U$ 300,00. Se eu fosse um cara desonesto podia escolher qualquer mochila ali e sair tranquilamente, pois não existia nenhum tipo de controle e a garotinha nem sabia o que estava fazendo.
Fui para o local do embarque, que era na esquina do hotel. Passou por mim um casal e vi que a moça tinha uma capa da Náutica em sua mochila, igualzinha a minha. E o cara tinha uma mochila da Trilhas & Rumos, que é uma marca brasileira. A dedução foi de que eram brasileiros. Embarquei no ônibus e ao sentar em minha poltrona quase que não consigo me encaixar nela, de tão pequena que era. E não existia encosto no meio dos bancos. Ao meu lado foi uma norte americana e ficamos quase sentados um sobre o outro de tão apertada que era a poltrona. No banco da frente ia duas outras norte americanas, amigas da guria que ia ao meu lado. Fui reclinar minha poltrona e a moça de trás pediu para eu não fazer isso, pois senão as pernas dela não caberiam onde estavam. Primeiro achei que era frescura dela, daí olhei para ela de cima a baixo e vi que além de alta ela era gordinha e realmente não ia caber na poltrona se eu reclinasse a minha. Então o jeito foi ficar meio espremido e para minha sorte a guria da frente não reclinou a poltrona dela.
O ônibus partiu e após passarmos pela periferia da cidade, passamos a percorrer uma estrada que seguia ao lado do Lago Titicaca. A paisagem era bonita, o contraste de cores entre a terra árida e marrom e o azul das águas do lago. Em alguns trechos da estrada o lago surgia dos dois lados. Em algumas partes era possível ver montanhas nevadas que ficavam a quilômetros de distância. Passaram uma relação para todos os passageiros assinarem e também preencher sua nacionalidade e idade. Vi que no ônibus tinha gente de todas as partes do mundo. E também vi que a americana que estava do meu lado tinha apenas 18 anos, bem como as duas amigas dela.
Chegamos a um pequeno pueblo as margem do lago e a estrada acabava ali. Teríamos que desembarcar e atravessar o lago de lancha, enquanto o ônibus atravessaria numa pequena balsa. A passagem para atravessar de lancha custava $ 1,50 bolivianos. A lancha não era das maiores e vi que era bem velha. Começou a entrar gente e não parava mais, alguns sentando na parte da frente bem no fundo. E muita gente ficou em pé. Achei aquele excesso de lotação perigoso e fiquei nos fundos da lancha, pois em caso de naufrágio teria mais chances de me salvar. Logo que a lancha partiu duas americanas abriram espaço entre elas e disseram para eu sentar ali. Uma era a guria que estava ao meu lado no ônibus e a outra era amiga dela. Sentei-me e fiquei olhando nosso ônibus atravessar numa balsa. Fiquei pensando no que aconteceria com minhas mochilas que estavam no bagageiro do ônibus, caso ele caísse da balsa e afundasse no lago. A travessia durou cinco minutos e ao desembarcar do outro lado aproveitei para caminhar e esticar as pernas.
Enquanto esperava o ônibus aparecer, vi o casal de brasileiros que tinha embarcado em Copacabana e fui falar com eles. Olivia e Enrico eram do interior de São Paulo. Já tinham passado pelo Peru e agora iam passar uns dias em La Paz e de lá seguir para Buenos Aires de avião. Conversámos um pouco e quando o ônibus apareceu embarcamos e seguimos viagem. A paisagem não mudava muito e após nos afastarmos do Lago Titicaca ela ficou menos bonita, se resumindo a pequenas casas e algumas plantações e criações de ovelhas. Acabei dormindo e só fui acordar quando chegamos à La Paz, quase no final da tarde.
La Paz
A periferia de La Paz era muito feia, pobre e suja. Entramos pela parte alta da cidade e chamou atenção uma estátua de Che Guevara feita de sucatas. Essa estátua ficava numa pequena praça onde em frente dezenas de vans esperavam passageiros. A maior parte dos veículos de La Paz é formada por vans, pois em razão das muitas ladeiras e ruas estreitas existem poucos ônibus e muitas vans circulando pela cidade. Passamos por um pedágio e começamos a descer para a parte baixa da cidade, onde fica o centro. Eu já tinha passado por ali dias antes, quando fui ao Peru. Ao longe dava para ver o Illimani, que é uma montanha nevada com quase 6.500 metros. Logo chegamos á rodoviária e desembarcamos. Ao descer do ônibus vi um Iphone debaixo do banco e lembrei que o tinha visto nas mãos de umas das norte americanas. Fui atrás dela e a encontrei na saída do portão de embarque e devolvi o Iphone a ela, que ficou muito agradecida. Fui pegar minhas mochilas no bagageiro e ao sair pelo portão de embarque um cara veio atrás de mim e me entregou minha garrafinha de água, que segundo ele eu tinha derrubado na hora que peguei a mochila. Essa garrafinha é de alumínio e comprei no Canadá, então ela tem um valor sentimental para mim. Ainda dentro da rodoviária troquei dólares por bolivianos, numa casa de cambio. Antes de sair do Peru eu saquei todos os dólares que tinha na conta do meu cartão da Confidence, pois na Bolívia não tinha terminais ATM para fazer saques. Andar com todos os meus dólares era perigoso, mas não tinha outra solução. Parei num centro de informações turísticas na saída da rodoviária e peguei gratuitamente um mapa do centro da cidade.
Na frente da rodoviária fiquei pensando no que fazer, se pegava um taxi até o hostal El Solário, onde eu pretendia me hospedar, ou se ia a pé até lá. Eu sabia que ele ficava a cerca de um quilômetro da rodoviária. Como boa parte do caminho era descida, resolvi ir a pé. Passei em frente ao Hostal Pirwa, que era da mesma rede do hostals que eu tinha ficado em Cusco. Entrei e fui perguntar o preço. Achei caro $ 100,00 bolivianos por um quarto individual e resolvi ir para o El Solário, pois sabia que lá o quarto individual custava $ 35,00 bolivianos. Tinha que atravessar uma enorme avenida, que em razão do horário estava com trânsito intenso. Fiquei um tempão esperando e não conseguia uma brecha para atravessar. Por estar cheio de mochilas eu não podia correr igual os outros pedestres faziam para atravessar a avenida. Fiz uma tentativa de atravessá-la e antes de chegar na metade me vi cercado de carros, quase sendo atropelado. Consegui voltar para a calçada e fiquei pensando no que fazer para atravessar em segurança. Daí surgiu um guarda de trânsito não sei de onde e perguntou se eu queria atravessar a avenida. Respondi que sim e o guarda assoprou seu apito, levantou a mão direita, entrou no meio da avenida e todos os carros pararam. Atravessei a avenida me sentindo importante, com todos os motoristas me olhando. Nunca tinha passado por experiência igual, nem mesmo no Brasil. Ao passar pelo guarda agradeci e logo estava são e salvo do outro lado da avenida. Pedi informação a algumas pessoas sobre como chegar na rua do hostal e todos foram simpáticos ao dar informação. E logo encontrei o hostal, que fica num prédio antigo, quase nos fundos de uma igreja. Junto ao hostal funciona uma agencia de turismo, na qual eu pretendia contratar alguns serviços turísticos.
Subi até a recepção e pedi um quarto individual. O preço era mesmo de $ 35,00 bolivianos. Existiam quartos coletivos com quatro, seis e até oito camas. Estes quartos custavam de $ 20,00 a $ 30,00 bolivianos e eram mistos, com homens e mulheres misturados. Não achei vantagem ficar num quarto destes, pois a diferença de preço para o quarto individual não era muita. Eu preferia ficar sozinho, pois podia deixar minhas coisas espalhadas pelo quarto e também ficar a vontade para entrar, sair e dormir a hora que eu quisesse. No quarto ajeitei minhas coisas e fui tomar banho, num banheiro de uso coletivo que ficava no corredor. Ao voltar para meu quarto descobri que a Olivia e o Enrico estavam no quarto ao lado. Eles tinham vindo de taxi da rodoviária até o hostal. Então lembrei que eu tinha dado o endereço do hostal a eles. Conversamos um pouco e fui me ajeitar para sair jantar. Minha garganta tinha voltado a doer e a formar secreção. E uma tosse chata estava começando a incomodar. Isso me deixou preocupado, pois eu pretendia subir uma montanha nevada e com a garganta ruim isso seria um enorme problema.
Saí do hostal e caminhei pelas ruas próximas. Em volta existiam muitas barbearias e por onde eu passava pessoas na porta insistiam para eu entrar e fazer a barba. Foi então que notei que os bolivianos não usam barba. A todos que me abordavam eu agradecia educadamente e dizia que não queria fazer a barba. Encontrei uma farmácia e entrei para comprar alguns remédios para a garganta. A farmácia parecia aquelas farmácias antigas que vemos em novelas ou filmes de época, com balcões e prateleiras de madeira e potes com medicamentos por todos os lados. Ali se vende remédios a granel, ou seja, você diz quantos comprimidos quer e a atendente vende a quantidade que você pediu. Esse sistema é bem melhor do que o sistema brasileiro, onde você compra a caixa toda e muitas vezes não utiliza tudo e acaba jogando fora o que sobrou. Também comprei algumas soroche phills, comprimidos que servem para combater o mal de altitude. Pretendia utilizar tais comprimidos quando fosse subir a montanha nevada dali uns dias. Antes de voltar ao hostal, entrei em uma lanchonete para jantar. Além de lanches eles também tinham refeição. Escolhi um prato com arroz, batata frita e frango frito. Na Bolívia não existe feijão e a carne vermelha é cara, então frango e arroz é à base da alimentação local.
Voltei ao hostal e encontrei a Elisa, a italiana que conheci na Isla del Sol. Ela veio para La Paz no mesmo horário que eu, mas por outra empresa de ônibus. A Audrey tinha ido para outra cidade no interior da Bolívia. Nosso desencontro ocorreu por que levantei tarde e elas saíram muito cedo para passear por Copacabana. Fui até a agencia de turismo que funciona no hostal e acabei fechando para o dia seguinte um passeio de dia inteiro pela estrada da morte. O passeio era um downhill de bike. Escolhi uma bicicleta intermediaria, com freio a disco e suspensão somente na dianteira. Provei roupas, capacete e acertei o horário de saída e outros detalhes para o dia seguinte. Pelo pacote que incluía bicicleta, roupas, equipamentos, guia, transporte, lanche e almoço, paguei $ 360,00 bolivianos. Subi para meu quarto e ao passar pelo corredor uma guria que estava sentada ficou me olhando de cima a baixo. Ela parecia a Angelina Jolie, mas numa versão loira e dez anos mais nova. Ao entrar no meu quarto vi que o quarto ao lado estava com a porta aberta e fui conversar com o Enrico e a Olivia. Acabei contando sobre meu problema de garganta e que se não melhorasse isso seria um problema para meus planos futuros. O Enrico falou que tinham alguns antibióticos, que ganhou de um tio que é médico. Ele disse que se eu não melhorasse, no dia seguinte era para falar com ele, que me daria alguns desses antibióticos. Voltei para meu quarto e fiquei descansando e lendo.
Depois de uma hora descansando fui usar o banheiro e resolvi dar uma volta pelo hostal, para conhecê-lo melhor. O hostal é antigo e enorme, com dois andares, cozinhas coletivas e muitos quartos. Vi que tinha muita gente hospedada ali, principalmente europeus. Quando estava subindo de volta para meu quarto que ficava no segundo andar, encontrei novamente a sósia da Angelina Jolie. Ela perguntou em inglês de onde eu era e quando disse que era brasileiro ela começou a falar em espanhol. Ela era francesa e disse que adorava homens com barba. A guria era muito bonita e enquanto conversava com ela comecei a sentir um cheiro estranho. Em um momento em que a francesa se virou para falar com outra guria, cheguei mais perto dela e disfarçadamente cheirei o seu pescoço. Quase caí de costas, o mau cheiro que estava sentido vinha dela. O que ela tinha de bonita tinha de porquinha e pelo cheiro fazia dias que não tomava banho. Com um fedor daqueles, nem que fosse a Angelina Jolie original eu encarava. Falei a ela que precisava ir dormir, pois tinha que acordar cedo no dia seguinte e subi para meu quarto. Que decepção! Ao menos fez bem ao meu ego ter uma guria bonita e jovem me olhando, vindo conversar comigo. Mas com aquele mau cheiro, sem chance!!! Eu já estava deitado quando bateram na porta do quarto. Fiquei com receio de que fosse a Angelina Jolie fedida e abri a porta com cuidado. Era o Enrico, que veio me dar alguns antibióticos, pois não sabia se ia me ver no dia seguinte. Agradeci pelos remédios, que eram amostras grátis e tomei um comprimido antes de voltar para a cama. Não sei se foi o remédio, mas logo peguei no sono e dormi feito um anjinho…
Acordei às 7h00min, mas estava muito frio e fiquei enrolando na cama até 8h00min. Levantei e fui escovar os dentes numa pia que ficava do lado de fora. Vi que o banheiro estava ocupado e fiquei esperando. Chegou um boliviano e também ficou esperando ao meu lado. Então saiu do banheiro a holandesa que estava no quarto ao lado. Ela me deu good morning, respondi e então vi que ela estava de camiseta e calcinha, caminhando tranquilamente como se estivesse em sua casa. Aquela foi uma bela visão para começar o dia, principalmente por que além de bonita a holandesa era gostosa… Enquanto fiquei olhando a bunda da holandesa, o peruano cortou a fila e entrou no banheiro. Não reclamei!
Após ajeitar minhas coisas saí e fui esperar minhas amigas em frente ao hostal onde elas estavam. O dia era de sol, não tinha nenhuma nuvem no céu, mas fazia frio e o vento era de arrepiar. Logo minhas amigas apareceram e fomos tomar café em um restaurante de frente para a praia. Tinham duas mesas ocupadas e ficamos esperando nossa vez. Eu e Audrey pedimos café no estilo americano, com ovos e panquecas. Já a Elisa pediu somente um chá, pois continuava mal do estômago. Nosso pedido levou quase uma hora para vir e nesse meio tempo ficamos papeando. Logo chegaram os holandeses e a holandesa que eu vi seminua me deu outro good morning e um sorrisinho. Ai ai!! O café finalmente foi servido e eu dispensei o café preto e o chá, pois não tomo café e gosto somente de chá mate, o que não existe nessas paragens. Eles servem chá de coca ou de algum outro tipo de fruta local, ou planta. Tem até chá de anis, que achei horrível.
Após tomarmos café seguimos rumo à parte sul da ilha, dessa vez pelo caminho certo. Fomo subindo uma montanha e passamos a andar por uma trilha no lado da montanha. A vista a partir da trilha era de tirar o folego, muito bonita. Passamos por algumas casas de moradores locais e por um ou outro morador. Fizemos algumas rápidas paradas para descansar e caminhando sob o sol o frio deixou de ser um incomodo. Após uma hora de caminhada chegamos até uma praia, onde em frente tinha uma escola. Estavam no horário de intervalo e um monte de meninas jogava futebol em um campo na praia. Era engraçado ver as meninas jogando, todas com a roupa tradicional das cholas (indígenas bolivianas), saia longa e um chapéu de coco. Continuamos nosso caminho e ao sair da praia seguimos montanha acima por uma trilha. Chegamos ao alto da montanha e pudemos ver a Isla de la Luna, uma ilha menor que fica alguns quilômetros de distância da Isla del Sol. Mais um tempo caminhando e chegamos num local onde um homem cobrava a taxa para andar por aquele lado da ilha. Pagamos $ 20,00 bolivianos e ele nos deu um ingresso. Creio que o dinheiro arrecadado com tal taxa seja utilizado na manutenção da ilha.
Após duas horas de caminhada fizemos uma parada mais longa. A Audrey queria ir até um canto da montanha para ver a paisagem a partir desse lugar. Fui com ela e a Elisa preferiu ficar descansando. Deixamos nossas mochilas com ela e levamos somente água e nossas câmeras. Caminhamos uns quinze minutos por uma trilha e dobramos a direita. Chegamos num local onde a vista era muito bonita, víamos boa parte do lado sul da ilha. Achamos que não valia a pena descer até a água e resolvemos voltar. A Audrey seguiu na frente e errou o caminho. Tentamos voltar, mas não encontramos a trilha por onde tínhamos vindo até ali. Então resolvemos seguir pelo lado da montanha, fora de qualquer trilha. Tinham muitas pedras soltas e isso dificultava um pouco caminhar. A Audrey estava de sandália e shorts e sofreu um pouco com isso, pois escorregava nas pedras e ganhou alguns arranhões nas pernas provocados pelo mato. Teve um momento em que ela escorreu e quando ia cair montanha abaixo consegui segurá-la pelo braço. Levamos meia hora para chegar até onde a Elisa estava e sentamos cansados.
Votamos a caminhar e meia hora depois chegamos ao povoado existente na parte sul da ilha. A quantidade de casas, restaurantes e hostals eram maiores que no lado norte. Foram longas horas de caminhada até ali e chegamos bastante cansados. Entramos num restaurante e olhamos o cardápio. A Audrey escolheu truta, eu frango e a Elisa sopa. A vista que tínhamos a partir do restaurante era bonita, dava para ver a Isla de la Luna e uma montanha nevada que fica na margem oposta do lago. A comida estava boa e o preço foi quase o dobro do que pagamos para comer no lado norte. A informação que eu tinha estava correta, de que tudo no lado sul é mais caro do que no lado norte. Descansamos um pouco no restaurante e descemos rumo à marina. Compramos a passagem do barco que sairia às 16h30min e fomos dar uma volta pelo local. Tinha uma escadaria de pedra que subia a montanha e levava até uma fonte. Encontramos um professor boliviano em frente à fonte, que nos contou sobre a história do lugar. Segundo ele essa fonte existia muito antes dos espanhóis chegarem à ilha e ela era utilizada em um ritual em que os garotos do lugar deixavam de ser garotos e passavam a ser considerados homens. Um dos ensinamentos que eles tinham era de que para serem homens de verdade precisavam ser corajosos e nunca mentir ou roubar. Achei interessantes estes ensinamentos e posso afirmar que mesmo não sendo inca, cumpro tais ensinamentos desde garoto.
Pouco antes do horário do barco partir, subi até a parte de cima do barco e fiquei olhando a paisagem. Daí subiu uma chola e se sentou pouco atrás de mim. Continuei a observar a vista e pensar na vida. Então escuto Nossa, nossa, assim você me mata! Ai se eu te pego… Virei para descobrir de onde vinha à música e vi a chola erguendo as muitas saias que vestia e debaixo de uma das saias ela tirou um celular, cujo toque era a música do Michel Teló. Caí na risada, pois ouvir Michel Teló em um barco atracado numa ilha no meio do Lago Titicaca, não era algo tão comum de acontecer. O Michel Teló é foda! Ele faz sucesso até debaixo das saias de uma chola… KKkkkk
Finalmente o barco partiu e com o vento no meio do lago, foi hora de colocar o casaco, pois ficou muito frio. Minhas duas amigas foram conversando com a chola do celular e outra boliviana. Eu fiquei quieto num canto olhando a paisagem. O barco estava quase vazio e isso permitiu que ele viajasse numa velocidade maior e que chegássemos a Copacabana após uma hora de viagem.
Copacabana
Desembarcamos em Copacabana e fomos até o hostal onde a Audrey tinha ficado hospedada antes de ir para a ilha. Ela e a Elisa iam dividir um quarto e eu fiquei no quarto ao lado do delas. Saí buscar as mochilas que eu tinha deixado guardadas no centro de informações turísticas. Quando retirava as mochilas do armário o senhor que cuidava do local apareceu, já reclamando que eu devia ter tirado minhas coisas ao meio dia. Eu não estava a fim de conversa fiada e perguntei quanto eu tinha que pagar para ele não me encher o saco. Ele disse que $ 5,00 bolivianos. Paguei a ele, peguei minhas coisas e fui embora. O cara era chato e nada honesto, então preferi pagar e não escutá-lo.
Voltei ao hostal e no quarto tirei minhas coisas das mochilas e coloquei tudo sobre uma cama. O quarto era feio, sujo, mas a cama era macia e limpa e isso é que importava. Tomei banho e me deitei para descansar. Acabei cochilando e quando acordei uma hora mais tarde vi que tinha perdido o horário do por do sol, que ali é muito bonito. Fui até a marina, mas já era tarde e eu tinha perdido o por do sol. Resolvi dar uma volta por Copacabana e fui até a Basílica Nossa Senhora de Copacabana, onde está à imagem de Nossa Senhora de Copacabana que é a padroeira da Bolívia. A praia de Copacabana no Rio de Janeiro tem esse nome por que no século XVIII comerciantes bolivianos e peruanos levaram uma imagem de Nossa Senhora de Copacabana para o Rio de Janeiro, justamente para o local onde hoje é a praia de Copacabana. O interior da Basílica é muito bonito. Fiquei andando e admirando o local e então vi que tinha uma passagem nos fundos que levava para um anexo. Fui seguindo em frente e cheguei até uma bonita capela, chamada de Camarim da Santa, onde fica a imagem original de Nossa Senhora de Copacabana. A imagem da santa foi talhada por Franciso Tito Yupanqui, que era de linhagem real inca. Possui a pele morena como o povo da região e é enfeitada com várias joias preciosas, ouro e prata. O seu manto é trocado de tempos em tempos, assim como suas jóias. A imagem fica sobre uma base giratória e durante quatro dias da semana ela fica virada para a Bolívia e nos outros três dias fica virada em direção ao Peru. Diz à lenda que todas as vezes que tentaram tirar a imagem da santa do lugar, algum desastre natural aconteceu. Só não consegui descobrir quando a imagem foi feita, mas deve fazer muito anos. Fiquei alguns minutos sentado em um dos bancos e fiz algumas orações. E como estava em frente à santa protetora da Bolívia, pedi que ela me pretegesse durante minha permanência em terras bolivianas, pois eu pretendia fazer algumas coisas meio perigosas e proteção nunca é demais.
Saindo da Basílica caminhei pela rua principal da cidade e ao entrar numa lan house encontrei a Elisa. Combinamos de nos encontrar mais tarde no hostal, para irmos jantar juntos. Usei a internet durante meia hora e fui para o hostal. Lá não encontrei Elisa e Audrey em seu quarto. Então saí e caminhei pela rua principal para ver se encontrava minhas amigas em algum restaurante. E na rua levei um grande susto, pois um cachorro enorme veio correndo não sei de onde e pulou em mim, quase me derrubando. Felizmente ele só queria brincar e acho que dar susto nas pessoas é uma de suas diversões favoritas. Não encontrei minhas amigas e como estava cansado e com frio, comprei algumas empanadas e uma garrafinha de suco e fui jantar no meu quarto no hostal. Após comer resolvi ir dormir, pois minha garganta estava voltando a incomodar e não achei que seria boa ideia ficar andando no frio.
Local do café da manhã.
Deixando o lado norte da Isla del Sol.
Atravessando a Isla del Sol.
Trilha no interior da Isla del Sol.
Casas no interior da ilha.
Interior da Isla del Sol.
Isla del Sol.
Elisa, Audrey e Vander.
Isla del Sol, lado sul.
Lado sul da Isla del Sol.
Isla del sol, lado sul. A direita em cima, a Isla de la Luna.
Fonte Inca.
Barcos na marina.
No barco com minhas amigas européias.
A chola e seu celular que tocava Michel Teló.
Chegando à Copacabana.
Barco de totora, igual o utilizado pelos antigos incas.
Chegamos em Puno às 5h00min, fazia muito frio. Desembarquei, peguei minha mochila no bagageiro e fui junto com outras pessoas que seguiriam para Copacabana, até o balcão da empresa de ônibus e lá nossas passagens foram remarcadas para outra empresa. O ônibus sairia às 7h30min, então sentamos todos juntos em frente ao portão de embarque e ali ficamos esperando e quase congelando de frio.
O sol nasceu e a temperatura subiu um pouco. Às 7h15mim o ônibus estacionou na plataforma de embarque. Fui embarcar e mais uma vez me barraram, pois faltava comprar o tíquete da taxa de embarque. Eu não conseguia me acostumar com isso de sempre ter que comprar o tíquete da taxa de embarque. Eu e todos os demais passageiros que iam embarcar no ônibus fomos barrados e tivemos que comprar o tíquete da taxa. Finalmente entrei na plataforma, deixei minha mochila no bagageiro e embarquei, pois mesmo com sol fazia muito frio. O ônibus era velho, mal cuidado, mas confortável e com poltronas semi leito. Entrei no meu saco de dormir e logo fiquei aquecido. Não demorou muito e peguei no sono. Acordei duas horas depois, quase na fronteira com a Bolívia. Fiquei olhando a paisagem, que era inóspita e bonita, com algumas pequenas casas feitas de barro e algumas ovelhas pastando.
Chegamos à fronteira, desembarcamos do lado peruano e fui até um bar trocar meus soles por bolivianos. Na Bolívia o real estava valendo R$ 3,17 para cada $ 1.00 boliviano, o que deixava tudo mais barato do que no Peru. Lembrei que os guardas peruanos costumam “convidar” turistas desavisados que passam em frente a eles, para entrar em sua sala e lá fazem de tudo para extorquir os turistas. Eles evitam fazer isso com europeus e norte americanos, preferindo os sul americanos, principalmente brasileiros. Vi que tinham dois guardas parados na estrada onde teríamos que passar para ir até o posto de fiscalização peruano. Então fiquei parado em frente ao bar onde troquei dinheiro, esperando que os guardas saíssem dali. Não demorou muito e uma senhora equatoriana que estava no mesmo ônibus que eu, saiu com os dois filhos e passou em frente aos guardas. Até senti vontade de avisá-la sobre o que os guardas fazem, mas tive que ser egoísta e pensar primeiro em mim. Quando a tal senhora passou em frente aos guardas, eles a chamaram e entraram na sala deles. O caminho ficou livre e fui rapidinho até o posto de fiscalização. Preenchi um formulário de entrada na Bolívia, tive meu passaporte carimbado e saí. Vi que os guardas ainda não tinham voltado para a estrada e então segui a pé atrás de um casal norte americano. Eu não sabia se encontraria mais guardas no caminho, então segui ao lado do tal casal que ia conversando em inglês. Andamos cerca de duzentos metros e atravessámos a fronteira entre Peru e Bolívia. Felizmente não encontrei mais nenhum policial pelo caminho e logo entrei no posto de fiscalização boliviano. Carimbaram meu passaporte e me liberaram. Para entrar na Bolívia os norte americanos precisam pagar uma taxa de U$ 150,00. Essa taxa é cobrada exclusivamente dos norte americanos em razão de rusgas políticas entre os dois países. Meu ônibus estava estacionado do outro lado da rua e fui até ele. Em frente tinha um bar e resolvi fazer um lanche. Comi uma empanada e tomei uma Coca-Cola gelada, artigo que era raro de encontrar no Peru. Logo embarcamos no ônibus e ficou faltando à senhora equatoriana e seus filhos. Demorou uns quinze minutos até eles aparecerem e a senhora entrou no ônibus reclamando que os policiais peruanos pegaram alguns dólares dela.
Copacabana
No lado boliviano começamos a percorrer uma estrada próxima a margem do Lago Titicaca. A água azul do lago deixava a paisagem muito bonita. Me lembrei dos tempos de colégio quando ouvi pela primeira vez falar no Lago Titica, nas aulas de geografia. Meia hora de viagem e chegamos à Copacabana, cidade que fica às margens do lago. Um fiscal da prefeitura local entrou no ônibus e cobrou $ 1,00 boliviano de cada passageiro, como taxa de turismo. Desembarcamos no centro da pequena cidade, em frente ao escritório da empresa de ônibus, pois na cidade não existe rodoviária. Lembrei-me das dicas que o Alex tinha me dado em Cusco e fui procurar o centro de informações turísticas. Desci pela avenida principal até o final dela em frente ao lago e não encontrei nada. Voltei rua acima e encontrei o tal centro de informações, justamente do outro lado da rua onde eu tinha desembarcado do ônibus. Não sei como eu não tinha visto tal lugar antes. Nesse centro de informações existem armários com cadeados, onde você pode guardar coisas pelo preço de $ 5,00 bolivianos por dia. Separei algumas roupas e outros itens em uma mochila e deixei duas mochilas guardadas num armário, pelo qual paguei $ 10,00 bolivianos. O senhor que cuida do lugar disse que eu tinha que retirar minhas coisas até o meio dia do dia seguinte. Tentei argumentar com ele, pois se eu estava pagando $ 10,00 bolivianos era para dois dias e se era para retirar minhas coisas vinte quatro horas depois, então eu teria que pagar somente $ 5,00 bolivianos, já que seriam 24 horas, o que equivale há um dia. O tal senhor se fez de desentendido, falou um monte de coisas, tentou explicar e eu acabei desistindo de argumentar e saí dali. Os $ 10,00 bolivianos equivalem a R$ 3,15 então não valia a pena ficar me estressando e discutindo por um valor tão baixo.
Desci pela rua principal a procura do local onde vende passagens de barco, pois pretendia ir até a Isla del Sol, que fica no meio do lago. No meio da rua acabei encontrando o Caíque, brasileiro que eu tinha conhecido alguns dias antes em Santa Cruz de La Sierra. Ele estava voltando da Isla del Sol e depois seguiria para Cusco. Conversámos um pouco e fomos almoçar no restaurante de um argentino que ficava em frente ao lago. A comida na Bolívia é melhor do que no Peru, onde tive problemas. E além de comível, na Bolívia a comida é barata, o que significava que nos próximos dias eu podia deixar de lado o fast food e biscoitos, que tinham sido à base de minha alimentação no Peru. O problema no Peru nem tinha sido o preço, mas sim a minha total incompatibilidade com os temperos que eles utilizam e que faziam mal ao meu estômago.
Depois de almoçar o Caíque foi pegar o ônibus para Cusco e eu fui pegar o barco. Comprei a passagem por $ 15,00 bolivianos. O barco partiu às 13h00min e estava lotado. Nele embarcaram muitos turistas e alguns moradores. Ao meu lado tinha um grupo de chilenos, que estavam viajando com pouco dinheiro, pegando carona sempre que podiam e no caminho fazendo algum trabalho ou vendendo coisas. Eles tinham um cachorro com o qual fiquei brincando por um tempo. Após meia hora de viagem começou a fazer muito frio, pois saímos de trás das montanhas e passámos a navegar bem no meio do Lago Titicaca. Coloquei meu casaco, me encostei num canto e… dormi! Foram duas horas e meia de viagem até chegarmos na Isla del Sol, no lado norte, que é menos habitado e com menos infraestrutura para turismo. Mas que todos dizem ser o lado mais bonito da ilha.
Isla del Sol
No desembarque muitos moradores locais estavam na praia, esperando os turistas para oferecer pouso em suas casas ou nos poucos hostals da ilha. Eu não pretendia dormir nesse lado da ilha, minha intenção era seguir para o lado sul e dormir por lá. Daí logo cedo pegar o barco para Copacabana e de lá seguir para La Paz, onde eu pretendia dormir no dia seguinte. Um garoto veio me oferecer pernoite e disse a ele que não ia dormir ali. Pedi informação de como ir para o lado sul e ele me disse que era para ir por uma trilha que seguia pela encosta, no lado oposto de onde estávamos. Segui por tal trilha a passos largos, pois pretendia chegar ao lado sul antes de escurecer. No caminho fui admirando a vista do lugar, que é muito bonita. A água é transparente em algumas partes, mas muito gelada e é impossível tomar banho ali. Ao passar perto de uma escola, uma mulher me abordou e disse que tinha que pagar $ 15,00 bolivianos, que era a taxa cobrada para circular por aquele lado da ilha. Paguei e ela me deu um ingresso que comprovava o pagamento da tal taxa. Continuei meu caminho, seguindo pelo alto de uma montanha e sempre vendo a água ao lado. Depois de um tempo a trilha que estava seguindo ia em direção ao centro da ilha e não vi mais o lago. Pelo caminho passei por um grupo de ovelhas e entre quinze ovelhas brancas, tinha uma ovelha negra. Achei bem interessante isso! Mais um tempo caminhando e passei a ver novamente o lago. Cheguei em algumas ruínas e dei uma rápida olhada nelas, pois não podia me demorar muito ali, já que o dia estava chegando ao fim. Logo que me afastei das ruínas encontrei um homem e ele pediu para ver o ingresso que dava acesso a caminhar pela ilha. Procurei nos bolsos, na mochila e nada de encontrar o ingresso. O tal homem deve ter pensando que eu estava tentando enrolar ele para não pagar o ingresso. Após uns dez minutos procurando o ingresso, finalmente o encontrei perdido num bolso esterno da mochila. O tal homem deu uma rápida olhada no ingresso e disse que eu podia seguir em frente. Continuei caminhando e após meia hora cheguei ao final da trilha. Fiquei sem saber para qual lado seguir e não via nenhuma construção ou pessoa. Vi um morro alto que ficava próximo e decidi subir até o alto dele, para ter uma visão melhor da região. Cheguei ao alto do morro e lá de cima não via nada que me ajudasse a decidir para qual lado seguir. A conclusão que cheguei foi de que estava perdido.
Faltava meia hora para escurecer e após pensar um pouco resolvi voltar pelo caminho por onde tinha vindo. Ao chegar às ruínas encontrei duas moças; Elisa (italiana) e Audrey (belga). Conversei com elas e descobri que tinha seguido pelo lado errado, que o garoto tinha me dado informação errada. Onde eu estava era a parte norte, a parte sul ficava do lado oposto de onde tinha desembarcado. O garoto me indicou a trilha errada, não sei se por maldade ou por não ter entendido direito o que eu tinha perguntado. A noite estava chegando e eu podia desistir de ir dormir no lado sul da ilha, teria que pernoitar no lado norte. Comecei a conversar com as duas moças que tinha acabado de conhecer e elas disseram para eu seguir com elas, pois me levariam até o hostal onde estavam hospedadas, que lá tinha quarto vago. Seguimos pela trilha e logo anoiteceu e esfriou bastante. Tinha lua e isso ajudava a clarear a trilha. Depois de quarenta minutos caminhando chegamos à parte habitada do lado norte da ilha, perto do local onde eu tinha desembarcado à tarde. Fomos caminhando pela praia e paramos conversar com um cara que tocava violão sentado na areia. Esse cara era mexicano e estava passando um tempo na ilha. Sentamos na areia e ficamos conversando. O mexicano quando soube que eu era brasileiro, tocou “Trem das Onze”, cantando em português. Esse foi mais um daqueles momentos especiais da viagem, pois eu estava numa ilha no meio do Lago Titicaca, sentado na areia sob a luz da lua, cercado de pessoas que tinha acabado de conhecer, ouvindo o barulho das ondas, sentindo muito frio, olhando as estrelas no céu e ouvindo música brasileira cantada por um mexicano. Esse foi mais um momento surreal e inesquecível da viagem. O frio começou a apertar e resolvemos sair dali. O mexicano nos convidou para voltar ali mais tarde, pois teria fogueira, bebida e cantoria. Mas não voltamos…
Fui com Elisa e Audrey até o hostal onde estavam hospedadas, mas não tinha ninguém lá. Então resolvemos procurar um lugar para jantar. Caminhamos pelas ruas escuras do lugar e logo entramos num pequeno restaurante, que funcionava em frente a uma residência. O prato principal era truta, pois na ilha existe criação de trutas. Eu não como peixe e consegui que me servissem frango frito. O boliviano dono do restaurante, quando soube que eu era brasileiro contou que já morou em São Paulo, no bairro do Braz e que trabalhou com costura. Ele deve ter feito parte daquele esquema de bolivianos que trabalham ilegalmente em São Paulo, quase em sistema de escravidão. E o cara tinha simpatia pelo Corinthians!! Virou meu camarada quando contei a ele que eu era corintiano. O jantar custou $ 20,00 bolivianos (R$ 6,30).
Depois de jantar ficamos conversando e alguns holandeses que estavam na mesa ao lado também entraram na conversa. Eram 21h00min quando resolvemos sair do restaurante e seguimos para o hostal. Os donos do hostal ainda não tinham voltado e resolvi procurar outro lugar para dormir. Despedi-me de minhas novas amigas e marcamos de nos encontrar na manhã seguinte ali em frente. Saí caminhando pelas ruas escuras do pequeno povoado, num vento muito frio a procura de um pouso. Se eu não encontrasse um lugar para dormir, eu poderia começar a ficar preocupado, pois teria sérios problemas se dormisse no frio. Na pior das hipóteses eu iria até a praia procurar os chilenos que estavam no barco, pois eles iam acampar em barracas na praia. E como precisavam de dinheiro, com certeza iam me aceitar como hóspede em uma de suas barracas. Segui por um lado do povoado em frente à praia e estava tudo fechado, nas casas todos dormindo. Então fui para o centro do povoado e em frente ao restaurante onde tinha jantado, vi uma placa em frente a uma casa, que dizia “alugamos quartos”. Uma guria veio me atender e disse que tinha quarto vago, que custava $ 24,00 bolivianos, com banheiro fora do quarto e de uso coletivo. Eu não podia escolher muito e fechei na hora, pagando adiantado. Ela me mostrou o quarto, que não era dos piores. Fui até o banheiro e ao contrário do que eu esperava, o banho era quente. Então tomei banho e fui direito para a cama. No quarto ao lado vi um dos casais de holandeses que estavam no restaurante quando jantamos. A cama era confortável e quente, muito aconchegante. Fiquei um tempo ouvindo música no MP3 e pensando na vida. Era estranho estar dormindo numa ilha no meio do Lago Titicaca. E entre tais pensamentos adormeci…
Embarque em Puno, no frio. Em Copacabana, com o Caíque. Rua principal de Copacabana. Almoçando de frente para o lago. Deixando Copacabana para trás. Desembarque na Isla del Sol. Água transparente na Isla del Sol. Isla del Sol. Isla del Sol. Trilha na Isla del Sol. Isla del Sol. No interior da ilha. Ruínas no interior da ilha. Com Elisa (italiana) e Audrey (belga). O mexicano cantando “Trem das Onze”.
Levantei um pouco mais tarde, pois além de estar adoentado iria passar a noite viajando de ônibus, então preferi ficar um pouco mais curtindo a cama macia do hostal. Quando levantei fui buscar as roupas que tinha deixado na lavanderia. Veio tudo limpinho, passado, dobrado dentro de um saco plástico. Serviço de primeira e por um preço muito em conta. No hostal arrumei minhas coisas, guardei tudo nas mochilas e fechei a conta. Deixei as mochilas guardadas no hostal, em um depósito e saí. Fui até o centro e dei uma volta pela Plaza de Armas, onde estava acontecendo um novo evento cívico, com bandeiras sendo hasteadas, estudantes desfilando. Dei uma rápida olhada no desfile e fui me sentar um pouco na praça em frente, tomar sol.
Eram quase 11h00min quando resolvi almoçar no Bembos. Ainda estava cedo, mas estava com fome e queria aproveitar que o Bembos ainda estava vazio. Depois que o desfile acabasse ele ia ficar lotado. Olhei o cardápio, escolhi um sanduiche gigante e calórico. O sanduba não estava muito saboroso, mas mesmo assim não deixei sobrar nenhum farelo. Olhei a tv e vi que ia começar as 500 milhas de Indianapolis, prova de Fórmula Indy. Então resolvi ficar mais um tempo ali e assistir a corrida, pois queria ver como o Rubens Barrichello se sairia em sua primeira corrida em circuito oval. Fiquei um bom tempo vendo a corrida e quando começou a encher de gente resolvi ir embora, para liberar a mesa para quem ia comer.
Nesse dia eu não tinha nada para fazer, só precisava esperar o tempo passar e chegar a hora de pegar o ônibus para ir embora de Cusco. Por culpa da dor de garganta estava com pouca disposição para andar, então fiquei matando tempo. Sentei-me num banco de uma praça mais afastada do centro e fiquei ali observando o movimento e as pessoas. Depois fui dar uma volta pela região próxima ao meu hostal, numa parte em que a cidade avança morro acima. Fiquei andando pelas ruelas do lugar, olhando as construções, que são bastante parecidas, as diferenças estão nos detalhes. E em Cusco praticamente todas as construções são na cor branca e umas poucas na cor bege. Passei por ruas tranquilas com pouca gente e logo voltei ao centro. Tirei fotos de prédios, de pessoas, de coisas que achei curiosas. E tudo com a maior discrição, principalmente quando fotografava alguma pessoa. Eu ficava de longe e utilizava o zoom da câmera. E assim passei o dia e quando anoiteceu o frio chegou e resolvi dar uma última volta pelo centro. Cusco é uma cidade da qual gostei muito e nessa segunda visita à cidade consegui conhecer muito mais coisas. E não sei se voltarei ali algum dia. Espero que sim, pois é um lugar que vale a pena voltar quantas vezes for possível.
Fui até uma confeitaria comer uns doces de que tinha gostado. Tinha um folheado recheado de doce em leite, em forma de canudo que era uma delicia. E também tinha outro doce, feito com massa integral e recheio de doce de leite, que também era muito bom. Se não gostei da comida no Peru, ao menos os doces eu adorei. Quando ia entrar na confeitaria, passei em frente a um latão cheio de lixo e algo me chamou a atenção. Voltei e olhei no latão de lixo mais de perto e vi que meus olhos não tinham me pregado uma peça. Ali no meio do lixo tinha uma nota novinha de $ 50,00 soles. Peguei a nota e olhei para ver se tinha mais alguma à vista. Não vi mais nenhuma e logicamente não ia revirar o lixo para procurar mais notas. Como tal nota foi parar no lixo é um mistério! Entrei na confeitaria, comprei os doces e saí comendo pela rua. Passei pelo muro dos incapazes e fui até a Plaza de Armas. Resolvi que ia jantar pizza na mesma pizzaria onde tinha comido na noite anterior com minhas amigas chilenas. Escolhi o mesmo sabor de pizza e paguei a conta com a nota de $ 50,00 que tinha achado no lixo… kkkk
Fui até o hostal, peguei minhas mochilas e embarquei num taxi rumo à rodoviária. Comprei o boleto de taxa de embarque, sentei numa cadeira e fiquei esperando o horário do meu ônibus partir. Vi muitos mochileiros perambulando pela rodoviária, tinha gente de toda parte do mundo. Às 22h00min fui para o embarque, coloquei minha mochila grande no bagageiro e embarquei. Minha poltrona era sozinha, larga e confortável, mas o local para colocar as pernas era curto e isso causou certo incomodo. Logo partimos e fui ouvindo música para passar o tempo. A temperatura interna estava muito alta, chegou a 28 graus e por estar com a garganta inflamada e numa região de alta altitude, eu não conseguia respirar direito. Fui tentar falar com o motorista, mas não tinha contato interno entre a cabine de passageiros e a cabine do motorista. Subi até a parte de cima dar uma olhada e lá a temperatura estava agradável. Procurei uma poltrona vazia e não encontrei nenhuma. As poltronas ali não eram leito, mas eram confortáveis. Vi que não tinha sido vantagem pagar um pouco mais caro para ir na parte de baixo, nas poltronas leito. Me sentei na escada que unia os dois andares do ônibus e fiquei ali ouvindo música. Viajei por duas horas sentado na escada e quando o frio começou a ficar insuportável, voltei para minha poltrona. Tinham desligado o aquecedor e a temperatura na cabine leito ficou mais agradável. Me ajeitei em minha poltrona e logo peguei no sono, em minha última noite em solo peruano.
Hostal Pirwa, onde fiquei nos últimos dias em Cusco.
Acordei às 9h00min, com febre e mal da garganta. Tinha trazido meu kit de remédios do Brasil, inclusive remédios e pastilhas para garganta, então fiz minha automedicação, me arrumei e saí. Fui até a Plaza de Armas. Estava tendo um evento festivo lá, com autoridades, estudantes, militares e muitas outras pessoas comemorando uma data festiva local e desfilando pelas ruas. Dei uma olhada rápida no desfile, mas não achei nada de interessante. Em seguida fui dar uma volta pelo centro e encontrei minhas amigas chilenas.
Eu, Carolina e Joyce demos uma volta pelo centro, conversando e olhando lojas e vitrines. Fomos até o Mercado Municipal, entramos e ficamos olhando as muitas bancas e tirando fotos. Conforme íamos passando pelas bancas de frutas e verduras, eu falava o nome de determinada fruta ou verdura em português e elas diziam o nome em espanhol. Essa foi uma boa maneira de aprender um pouco mais de espanhol. Teve algumas frutas que nem eu ou minhas amigas sabíamos os nomes, pois eram típicas do Peru. No horário em que fomos ao Mercado Municipal tinha muita gente almoçando ali, umas comidas estranhas e com cheiro que não me agradavam. Saindo do Mercado Municipal demos uma volta pelas ruas próximas, às mesmas ruas que eu tinha visitado com o Thiago dias antes. Era a região dos açougues, onde carnes são vendidas nas portas dos açougues ou em frente, em bancas. Entre muitas coisas estranhas vi uns caras carregando porcos inteiros nas costas rua acima. Em alguns lugares os refrigeradores estavam vazios e as carnes em exposição penduradas logo acima deles, ou em bancas nas portas. Estranho isso!! Passámos num açougue que vendia carne de Cuye, que é um bicho parecido com um rato grande. A Carolina entrou tirar fotos, eu preferi ficar do lado de fora, pois não gostei de ver tais bichinhos mortos.
Voltamos para a área mais central da cidade e tiramos muitas fotos e conversamos. Perto do meio dia fomos para o hotel das meninas e na recepção as malas delas estavam guardadas num canto. Chegou uma van para levá-las ao aeroporto, pois elas seguiriam para Lima, onde ficariam dois dias e depois retornariam ao Chile. Nos despedimos e elas embarcaram na van. Segui caminhando rumo a Plaza de Armas e comecei a me sentir sozinho. Era estranho após tantos dias em companhia de muitas pessoas, de repente estar sozinho. Passei num supermercado fazer algumas compras e segui para o hostal, pois não me sentia bem. Chegando ao hostal fui me deitar, pois estava com febre e com a garganta doendo e gerando muita secreção.
Quando acordei já era noite e mesmo tendo dormindo a tarde toda, me sentia cansado, com dor no corpo. Felizmente a febre tinha cessado. Tomei banho e resolvi sair dar uma volta. Estava muito frio e com uma garoa fina, isso quase me fez desistir do passeio. Fui até a Plaza de Armas, e lá estava acontecendo um show com uma banda peruana. Tinha muita gente assistindo ao show e gritando. O palco estava montando nas escadarias em frente a Catedral. Me posicionei bem atrás do palco, próximo aos cantores e nenhum segurança ou policial me mandou sair dali. Achei engraçado isso, pois tinham muitas garotas locais que queriam se aproximar do palco e eles não deixavam. A banda era ruim, podia até fazer sucesso no Peru, mas cantavam e tocavam mal. Comecei a sentir muito frio, não sei se em razão da temperatura ter caído mais, ou por estar adoentado. Comecei a tremer de frio e resolvi retornar ao hostal e nem quis jantar. Fui direto para a cama, me cobri até a cabeça e tive uma noite maravilhosa de sono. Lembro que sonhei com a pizza da La Tavola, loja de uns conhecidos de Campo Mourão que vendem pizzas maravilhosas para assar em casa. Eu tinha comido pizza na noite anterior, por isso achei estranho ter sonhado com pizza nessa noite. ZZZZzzzzzzz…
Acordei às 8h00mim e a japonesa que tinha dormido na cama ao lado também. Ela me deu good morning e foi ao banheiro. Eu levantei, coloquei minhas botas, peguei minhas mochilas e saí. Na recepção encontrei o carinha com quem tinha discutido na madrugada. Ele quando me viu tentou dar meia volta, fez cara de assustado, ficou sem jeito. Fiquei com vontade de rir, mas fiz cara de bravo e pedi a mochila grande que eu tinha deixado guardada antes de seguir para a Trilha Salkantay. Ele pegou a mochila e disse eu que tinha que pagar $ 15,00 soles, que era a taxa por ter guardado a mochila por cinco dias. Engraçado é que quando pedi para guardar me disseram que não cobravam nada. E em nenhum outro hostal por ande andei durante a viagem, seja na Bolívia ou Peru, me cobraram algo para guardar as mochilas. Realmente o tal Hostal Samanapata é uma porcaria e o pessoal é desonesto, fala uma coisa e não cumpre. Para não brigar, pois eu não estava a fim de me estressar, coloquei $ 15,00 soles no balcão, dei um sorrisinho debochado para o carinha e saí sem falar nada. Caminhei 30 metros na rua em frente e entrei no Hostal Pirwa. Fui até a recepção e pedi um quarto individual. O preço ali era pouca coisa mais do que no outro hostal, mas o atendimento foi excelente, o casal da recepção foi simpático e o quarto em que fiquei era bem melhor e mais limpo do que do hostal anterior.
Tirei as roupas sujas das mochilas, dei uma arrumada em tudo e fui tomar banho. Fiz a barba, cortei as unhas e coloquei roupa limpa. Me senti um novo homem, depois de cinco dias onde passei muito tempo sujo, suado e com poucos banhos. Juntei as roupas sujas numa sacola e saí. Fui à mesma lavanderia onde tinha deixado roupas para lavar uns dias antes. Deu três quilos de roupa suja. Na verdade boa parte das roupas estava molhada e isso fez o peso ser maior. Mas isso não importava! Segui rumo ao centro e entrei numa Lan House. Precisava mandar notícias para o Brasil, dizer que estava vivo. E também queria saber as notícias de lá. E no Facebook tinha uma mensagem simpática, de uma pessoa que ganhou um presente dias antes e estava agradecendo, tinha gostado do presente. Eu estava curioso para saber o que tal pessoa tinha achado do presente e fiquei contente por ela ter gostado. Após uma hora de Lan House, saí e fui até a Plaza de Armas.
Em frente à Catedral encontrei quase todo o pessoal do grupo da Trilha Salkantay. O encontro ali tinha sido marcado para que fossem trocados endereços e fotos. Eu tinha levado minhas fotos numa pen drive e passei elas para o note book da Florencia, que depois passaria para mais pessoas. Troquei alguns endereços e por último tiramos a foto oficial da despedida. Na hora da foto todos se abraçaram e quando fui abraçar a Florencia aconteceu um “acidente”, que prefiro não mencionar aqui. Na foto ela aparece rindo em razão do tal acidente. O pessoal marcou de se encontrar mais tarde em um bar, onde seria a despedida final. Não gosto de despedidas e achei até melhor não ter que me despedir de um por um ali, naquele momento. E não iria ao bar mais tarde, então saí dando tchau para todos, sem uma despedida mais formal. Prefiro assim!
Fui com o Alex até a rodoviária. A região próxima à rodoviária é bem pobre e meio assustadora, mas não tivemos nenhum problema em andar pelo lugar. Se fosse no Brasil com certeza eu não andaria num lugar parecido. Tanto no Peru, como na Bolívia, que são países bem mais pobres que o Brasil, andei por lugares desertos à noite, regiões pobres e em nenhum momento tive medo ou fui ameaçado. Isso mostra que a violência não esta relacionada à pobreza. E não vi ninguém drogado nas ruas, ou traficando e consumindo drogas. Esse tipo de coisa é comum ver em muitas cidades do Brasil. Então penso que o maior problema pela violência no Brasil é a impunidade, pois poucos vão presos e os que vão não cumprem sua pena até o fim. E outro culpado é a droga, os traficantes e principalmente os usuários. Enquanto ficarem tratando usuários de drogas como coitadinhos, como doentes, a violência causado pelo comércio de drogas não terá fim. Existem traficantes por que existem usuários. Então é preciso acabar primeiro com os usuários, que também são culpados pelas mortes causadas pelo tráfico. Para mim todo usuário de droga, seja aquele que comprou apenas umas poucas gramas de maconha para si, ou uma única pedra de craque, é culpado pelos crimes e mortes causados pelo tráfico. Esse pequeno usuário também tem sangue nas mãos e um dia vai ter que prestar contas disso, pois é criminoso também.
Na rodoviária eu e Alex fomos em muitas empresas de ônibus perguntando preços e outros detalhes. Existem muitas empresas e os preços variam muito, bem como a qualidade dos ônibus. O Alex comprou passagem para Lima e eu para Copacabana, na Bolívia. Eu tinha pensado em ir até Uros, que é no lago Titicaca do lado peruano. Mas mudei de ideia, pois ali o lago não é tão bonito e as famosas ilhas flutuantes são uma encenação, parece mais um parque temático. O pessoal passa o dia nas ilhas para que os turistas vejam e tirem fotos, depois voltam para suas casas. Eles retratam a vida como eram naquele local anos antes. Preferi ir direto à Copacabana, onde o lago Titicaca é mais bonito. Acabei fechando com a empresa Titicaca Tours, paguei $ 60,00 soles para ir na parte de baixo do ônibus, com poltrona leito. Ao sair da rodoviária vi o cara do hostal onde tinha tido problemas, o mesmo cara que me abordou na madrugada em que cheguei com o Thiago em Cusco e nos convenceu a ir até o hostal dele. Se não me engano o nome dele era Carlos, que junto com seu irmão administra (de forma incompetente e desonesta) o Hostal Samanapata. O cara me viu e ficou olhando. Se ele viesse falar comigo ia ouvir um monte de besteira e verdades. E não fui falar com ele, nem o cumprimentei, pois ele não merecia!
Saindo da rodoviária eu e Alex fomos a pé até o centro da cidade. No caminho paramos em algumas lojas de artesanato, pois o Alex estava à procura de alguns presentes para levar para o Brasil. No centro nos despedimos e fui dar uma volta, fiz um lanche e voltei na Lan House usar a internet. Aproveitei e liguei para casa, falei com minha mãe. Depois fui ao mercado e comprei algumas coisas. Dei mais uma volta pelo centro da cidade e fui para meu hostal. Fiquei descansando até anoitecer e saí. Pedi informações na recepção. O recepcionista me deu um mapa do centro de Cusco e fui procurar o hotel onde minhas amigas chilenas ficariam hospedadas. O hotel era no lado oposto de onde eu estava, ficava pouco depois do centro. Mas não era longe, principalmente para alguém como eu que gosta de caminhar.
Estava fazendo muito frio e saí bem agasalhado. Atravessei todo o centro e cheguei até o hotel. A exemplo de Aguas Calientes, elas também estavam no hotel mais chique da cidade. Falei com o recepcionista e ele disse para eu descer no subsolo, pois elas me esperavam lá. As encontrei numa sala usando a internet. Ficamos um tempo ali conversando e olhando fotos no Facebook. Então saímos e seguimos a pé em direção ao centro. No caminho paramos para ver um evento folclórico que estava sendo realizado num parque. Não nos demoramos ali e fomos para a Plaza de Armas. Caminhamos, conversámos, tiramos fotos e decidimos ir comer uma pizza. Mas onde? A Joyce foi pedir informação para um policial de turismo que indicou uma pizzaria que ficava numa das estreitas ruas próximas a Plaza de Armas. Fomos até o lugar, que era exótico e aconchegante. Ficamos um longo tempo conversando e comemos uma deliciosa pizza. Saindo dali andamos mais um pouco pelo centro e elas queriam ver onde eu estava hospedado. No caminho paramos tirar fotos em frente alguns prédios antigos e diferentes. Chegando no hostal elas pediram para usar o banheiro e o recepcionista deixou que elas entrassem e fomos até meu quarto. No quarto elas usaram o banheiro, papeamos um pouco e logo foram embora. Não me deixaram que as acompanhasse, pois eu estava tossindo muito e elas me mandaram ir direto para a cama. E foi o que fiz tão logo elas saíram. E descobri que a temperatura do meu quarto era permanentemente 13 graus. Podia ser noite, ser dia, fazer sol, que a temperatura não mudava.
Cusco.
Plaza de Armas.
Quase todo o grupo da Trilha Salkantay, reunido para despedida.
Proximidades da rodoviária de Cusco.
Lojas de artesanato.
Show folclórico.
Joyce e Carolina.
Batendo papo na pizzaria.
Pizza peruana.
Joyce e Vander.
O pizzaiolo.
A rua da pizzaria.
O muro que aparece no filme “Diários de Motocicleta”.
Despertei assustado, pois sempre que tenho hora para levantar eu acordo sem despertador, mesmo que um pouco atrasado. Olhei no relógio e eram quase 4h00min. O corno do recepcionista não me acordou às 3h30min conforme eu tinha pedido. Levantei falando um monte de palavrões contra o recepcionista, fiquei muito bravo. Que o cara não ia com minha cara eu já sabia, só não sabia se ele não tinha me acordado por sacanagem ou incompetência dele. Tinha sido marcado um encontro às 4h00min em frente ao hotel onde o guia Daniel estava hospedado juntamente com a maioria do pessoal do grupo da Trilha Salkantay. Quem quisesse ir a pé até Machu Picchu, deveria ir a esse encontro. Quem quisesse ir de ônibus podia ficar dormindo e ir mais tarde, no primeiro ônibus que segue para Machu Picchu, logo ao amanhecer. Logicamente que eu queria ir a pé, pois gosto das coisas da maneira mais difícil, com mais emoção, mais aventura.
Em menos de dez minutos eu estava pronto e desci as escadas com minhas duas mochilas. Estava curioso para ver a cara do recepcionista e saber o que aconteceu para ele não ter me acordado. Ao chegar à recepção encontrei o recepcionista dormindo em um sofá, com a tv ligada. Tinha sido incompetência dele! De sacanagem joguei uma mochila no chão que fez um barulhão e o cara levantou assustado quase pulando do sofá. Ele olhou no relógio e ficou todo sem graça. Mesmo querendo falar um monte de bobagem a ele, dei um sorriso cínico e perguntei se ele podia guardar minha mochila grande no depósito do hotel. Ele disse que sim e entreguei a ele a mochila e saí xingando o cara em pensamento. Se eu brigasse com o cara por não ter me acordado, possivelmente ele não ia querer guardar minha mochila, então tive que ser politico, algo que não gosto de ser e agir e falar ao contrário do que gostaria de fazer naquele momento.
A madrugada estava muito fria e escura e segui para o hotel do encontro, torcendo para que o pessoal ainda não tivesse partido rumo à Machu Picchu. Como o pessoal sempre se atrasava, fui contando com tal possibilidade. E ao chegar ao hotel o pessoal ainda estava lá e o guia demorou uns minutos para aparecer. Apenas metade do grupo ia subir a pé rumo à Machu Picchu. O guia deu uns avisos e começamos a caminhar. Seguimos pelas ruas calçadas da pequena e adormecida cidade e logo chegamos à estrada, que leva a entrada secundaria de Machu Picchu. A estrada era a mesma que eu tinha percorrido no dia anterior, chegando à Aguas Calientes. Fui caminhando e conversando com o Alex, o outro brasileiro do grupo. Seguimos com as lanternas desligadas, afastados do restante do grupo e era possível ver claramente a estrada. Caminhamos ao lado do rio ouvindo seu barulho e olhando o céu estrelado. Após vinte minutos chegamos à entrada de Machu Picchu, na chamada Ponte Velha e ali já se formava uma fila de turistas. Entrei no final da fila e vi que a minha frente tinha um grupo de brasileiros. Comecei a conversar com eles e quando deu 5h00min em ponto os guardas começaram a verificar passaporte e ingressos de todos. Eu e o Alex passamos pelo guarda e atravessamos a Ponte Velha, que chacoalhou um pouco, mas nada que desse medo. Em seguida começamos a subir a montanha rumo ao portão principal de Machu Picchu. Os ônibus sobem a montanha pela estrada que segue em caracol. Já para os pedestres existe uma trilha, com degraus de pedra que sobe meio que em linha reta, atravessando a estrada em vários momentos. Seguir por esse atalho mesmo tendo a dificuldade dos degraus acaba tornando o caminho mais curto. Segui junto com o Alex durante um tempo, até que ele parou para descansar e beber água. Eu estava com frio e resolvi seguir em frente sem parar, pois assim me aquecia mais rapidamente. Não foi muito fácil subir tantas escadas, principalmente por me sentir cansado dos muitos quilômetros percorridos na Trilha Salkantay e por ter dormido pouco na última noite. Quando amanheceu eu estava quase no final da trilha e pude ver que o céu estava bastante nublado o que impossibilitaria ver o sol nascer em Machu Picchu.
Cheguei em frente ao portão principal de Machu Picchu pouco antes das 6h00min e na fila a minha frente tinham umas vinte pessoas. Mesmo estando frio eu sentia muito calor e resolvi tirar a blusa. Minha camiseta estava quase toda molhada de suor. A fila atrás de mim foi aumentando e alguns conhecidos foram chegando. Quando o portão abriu exatamente às 6h00min, o primeiro ônibus com turistas chegou e nele também vieram alguns membros do meu grupo. Entrando em Machu Picchu, segui por uma escadaria no lado esquerdo e subi por alguns minutos. Daí cheguei numa parte alta, onde existe uma antiga construção coberta com palha, uma das poucas construções cobertas do lugar. Desse local é possível ter uma vista completa de Machu Picchu e da montanha de Huayna Picchu ao fundo. Tirei algumas fotos, aproveitando que ainda não tinha ninguém circulando pelas ruínas. Comecei a sentir frio novamente e coloquei a blusa por cima da camiseta molhada. Acabei encontrando o Alex e nos sentamos num local para admirar a paisagem. Eu não pretendia circular muito por Machu Picchu, pois já conhecia tudo da visita no ano anterior. Minha intenção principal era subir a montanha de Huyna Picchu, pois nessa eu não tinha ido um ano antes.
Machu Picchu e a direita a montanha de Huayna Picchu.Machu Picchu.Machu Picchu.Em Machu Picchu.Machu Picchu.Machu Picchu.
Huayna Picchu
Pouco antes das 8h00min eu e Alex seguimos em direção à entrada de Huyana Picchu, que fica nos fundos das ruínas de Machu Picchu. O Alex não tinha a entrada, pois a agencia comeu bola e não comprou a entrada dele. Ele tinha conversado com o guia e esse disse que daria um jeito e que era para ele ir para a fila de entrada às 8h00min. E foi o que ele fez. Quando o pessoal começou a entrar em Huayna Picchu eu entrei e o Alex ficou do lado de fora esperando para ver se o “tal jeito” que o guia prometeu dar, ia funcionar. Mais tarde fiquei sabendo que não funcionou e que o Alex não entrou em Huayna Picchu. Eu segui por uma trilha em direção à montanha, mas estava tão cansado e sentindo frio que comecei a pensar em desistir de subir Huayna Picchu. Após andar alguns minutos cheguei num local onde existia uma grande pedra e de onde se tinha uma linda vista das montanhas, do rio correndo lá embaixo e de Machu Picchu. Deitei-me na tal pedra e cheguei a cochilar por alguns minutos. Depois me sentei e fiquei admirando a vista e pensando se subiria ou não Huayna Picchu. Então a Izabel, brasileira que era do meu grupo e seu namorado francês passaram por mim. Logo depois passaram três velhinhas, na casa dos oitenta anos e ao vê-las caminhando com dificuldade, mas com vontade rumo à montanha, decidi que ia subir também.
Subir Huayna Picchu não é tão fácil é algo cansativo. Primeiro tem uma trilha que começa descendo e depois sobe. Em seguida tem uma escadaria sem fim, que vai subindo em zig zag montanha acima. Aos poucos fui deixando a preguiça de lado e comecei a gostar da subida. Quanto mais subia mais bonita ficava a paisagem vista lá do alto. Por trás das montanhas verdes que estavam próximas, era possível ver mais ao longe muitas montanhas com o cume nevado. E Machu Picchu ia ficando pequena lá embaixo, sendo visível numa área descampada e na cor verde claro. Olhando para cima era possível ver algumas construções de pedra no alto da montanha e muitas escadarias. Fiquei impressionado com o que via e tentava imaginar como tinha sido difícil construir tudo aquilo na montanha. Fiquei imaginando quanto sofrimento e quantas mortes tal construção custou aos Incas. Em alguns trechos tinha mais de um caminho para subir, sendo um menos perigoso e outro mais perigoso, próximo à borda da montanha. Lógico que escolhi o mais perigoso! Em algumas partes da escadaria tinha congestionamento de pessoas subindo. E mais próximo ao cume comecei a encontrar pessoas descendo. Atualmente são permitidos apenas 400 acessos por dia até a montanha. São 200 acessos às 8h00min e mais 200 às 10h00min. Até ano passado quem tinha direito de subir eram os 400 primeiros que entravam numa fila de madrugada e pegavam uma senha. A partir desse ano o sistema mudou, e os 400 acessos diários são vendidos pelas agências de turismo ao preço de $ 10,00 soles cada.
No meio do caminho tinha um túnel estreito e uma escadaria que passava por dentro dele e outra ao lado. Passei por dentro do túnel meio que me arrastando num trecho, mas consegui sair do outro lado. Se a pessoa for meio gordinha ou ela não consegue passar ou fica entalada no túnel. Levei pouco mais de uma hora para chegar ao cume, pois fiz algumas paradas para admirar a vista e para tirar fotos. Lá no alto algumas pessoas se amontoavam para tirar fotos e admirar a vista. No cume existem algumas pedras enormes. Tinha um guarda lá em cima que ficava pedindo para o pessoal que tinha tirado fotos, descer para dar lugar aos que estavam subindo. Encontrei a Izabel e ela tirou algumas fotos minhas. Vi que numa pedra que avançava rumo ao vazio, algumas americanas de um grupo só de garotas, estavam subindo para tirar fotos. Achei que daria uma foto legal e fui até lá. A Izabel ficou de longe tirando as fotos com zoom. Quando cheguei ao local vi que em frente e do lado direito à montanha ia desaparecendo e lá em baixo, bem lá embaixo dava para ver o rio. Não senti medo nenhum ali, até que me virei e olhei para trás. Simplesmente eu estava na beirada de um abismo e nem conseguia ver o final da montanha. Na hora minha labirintite deu sinal de vida, minhas pernas ficaram moles e minha vista escureceu. Que medo!!! Abaixei-me e fiquei segurando na pedra até voltar a me sentir bem. A Izabel tirou mais algumas fotos e eu me mandei dali rapidinho, arrastando a bunda na rocha até chegar num local seguro. Melhor sair dali de uma forma meio humilhante do que cair lá de cima. De qualquer maneira valeu o susto, pois saíram boas fotos.
Desci da parte mais alta por trás das rochas, no sentido contrário de onde tinha subido. E foi então que descobri que existia outro caminho para sair da montanha, uma escadaria que seguia pela parte de trás e levava até uma caverna e uma gruta. Depois tinha que seguir por uma escadaria que passava pelo lado da montanha e ia até perto da pedra em que eu tinha cochilado no início da subida. Seria bem mais interessante seguir por outro caminho em vez de voltar pelo mesmo caminho que eu tinha subido. Mas seguir por esse novo caminho significava andar mais, o que levaria bem mais tempo para retornar à Machu Picchu. Fiquei pensando se seguia por esse caminho ou não, e nisso uma moça veio falar comigo. Ela era chilena, se chamava Joyce e estava esperando sua amiga. O sol apareceu, o que deixou a vista lá do alto da montanha ainda mais bonita. Resolvi tirar a blusa e a camiseta que tinha ficado novamente molhada de suor e coloquei uma camiseta limpa que estava na mochila. Nada como ser precavido! Então resolvi explorar umas construções que ficavam pouco abaixo do cume e pelas quais eu tinha passado pela lateral. Fiquei cerca de uma hora subindo e descendo escadas por estas construções, admirando a vista e tirando fotos. Voltei até o cume e encontrei a chilena Joyce e sua amiga, Carolina. Começamos a conversar e a conversa ficou tão animada que resolvi descer junto com elas, pela parte de trás da montanha. Elas iam até a gruta e eu fui junto. No caminho existiam algumas placas dizendo o tempo de caminhada até os locais, mas esses tempos assinalados eram menores do que realmente foi o tempo que levamos caminhando.
O sol começou a judiar um pouco, passou a fazer muito calor. E dizer que até pouco tempo antes eu estava morrendo de frio! Descer a montanha até que era fácil e levamos menos de uma hora até chegar numa gruta que leva o nome de “Gran Caverna”. Próximo a essa gruta existiam algumas ruínas e fiquei tentando imaginar como devia ser aquele lugar no passado, com pessoas vivendo ali. Logo parei de divagar e segui caminhando com minhas amigas. Dessa vez começamos a subir e minhas amigas passaram a caminhar mais lentamente. Segui no ritmo delas, pois estava cansado e não tinha pressa. Chegamos a “Gruta da Lua” e encontramos um guarda que estava com um rádio na mão e perguntou se as duas eram chilenas e eu brasileiro. Pelo visto só tínhamos nós perambulando pela montanha naquele momento e o pessoal do controle da entrada tinha passado essa informação a ele. O guarda se chamava Nolan, era bastante simpático e disse que não precisávamos ter pressa, que podíamos seguir nosso passeio tranquilamente. Ficamos um bom tempo na gruta, que não chegou a ser terminada, pois os espanhóis chegaram antes e quase dizimaram os Incas, destruindo boa parte de sua cultura e construções. De qualquer forma o que existia na gruta era interessante e tinha sido válido ir até ali.
Saindo da Gruta da Lua, seguimos em direção à saída de Hauyna Picchu, o guarda seguiu conosco. Para chegar até a saída seria preciso contornar a montanha, quase sempre subindo. Fizemos muitas paradas para descanso e logo fiquei sem água. Eu não tinha planejado ficar tanto tempo na montanha e por isso não levei muita água. Passamos por um local onde o Nolan disse existir ursos. Mas não era para ficarmos com medo, pois eles tinham mais medo de nós e geralmente ficavam no alto das árvores nesse horário. Cansamos de olhar para cima e não vimos nenhum urso. Minhas amigas cansaram de vez e passamos a fazer cada vez mais paradas para descanso. O tempo fechou e ao longe víamos a chuva e ouvíamos os trovões. Tivemos que descer uma escada de madeira muito alta e preferi não olhar muito para baixo. Depois percorremos um trecho de escadas de pedra bem ao lado da montanha, onde em algumas partes existiam muros de pedra como proteção para o caminhante não cair no abismo. A vista era muito bonita, achei o lugar impressionante. Também passamos por um local onde a escadaria subia a montanha por baixo da rocha, quase parecia um túnel.
Pouco antes do final da trilha de Huyna Picchu, aconteceu um fato que não entendi direito, mas que me deixou bastante espantado. Quem me conhece sabe que sou incrédulo e que para eu acreditar em algo geralmente tenho que ter boas provas ou ver com meus próprios olhos. Mas nos últimos dois anos passei por tantas coisas e vi tanta coisa estranha, que acho que nada mais me surpreende (ou quase!) e estou acreditando em quase tudo. Eu estava em pé no início de uma escadaria, ao lado de um precipício. Minhas amigas chilenas e o guarda peruano vinham um pouco mais atrás e fiquei esperando parado de frente para eles. Quando eles chegaram à minha frente falei que tinha gostado tanto da montanha que queria ficar ali. Na mesma hora parece que o local que eu estava pisando tremeu, eu me desequilibrei e quase caí para um lado. Me ajeitei, me desequilibrei de novo e quase caí montanha abaixo. Tomei o maior susto! A Carolina ficou olhando e disse que Pachamama (uma deusa dos povos andinos) tinha ouvido meu pedido de ficar na montanha. Na hora respondi que era brincadeira, que eu não queria ficar ali não. Virei-me e segui ainda assustado escadaria acima. Não sou de assustar fácil, mas aquilo foi estranho demais, não consigo explicar direito o que aconteceu, a sensação de que a pedra embaixo de meus pés estava se movendo, querendo me derrubar. Sei lá!! Mas sei que coisas estranhas e sem explicação acontecem em Machu Picchu e região.
Mais algumas escadas e chegamos à saída de Huayna Picchu. A chuva estava chegando perto e começou a garoar. Paramos um pouco no posto de controle para descansar. Eu estava com muita sede, com a boca seca e queria sair logo dali e ir até a entrada de Machu Picchu, onde tinha água à venda. Quem foi até Machu Picchu e não percorreu Huyana Picchu por inteiro, perdeu de ver muita coisa bonita e interessante. Eu acabei gostando mais de Huayna Picchu do que da própria Machu Picchu.
Subindo Huayna Picchu.No alto de Huayna Picchu.Subindo ao lado do abismo.Túnel no alto da montanha.Vista bonita.Ficar nesse lugar dava medo, era muito alto.Pedras no cume de Huayna Picchu.Placas indicativas no alto da montanha.A esquerda, na parte mais clara aparece Machu Picchu.Em Huayna Picchu.Admirando a paisagem no alto de Huayna Picchu.Foi tenso descer por essa escada.Na parte de trás de Huayna Picchu.Com as chilhenas, na Gran Caverna.Gran Caverna.Ruínas em Huayna Picchu.Cama de pedra dentro da Gruta da Lua.Procurando ursos.Nolan, Carolina, Joyce e Vander.Procurando o fim do abismo.
Machu Picchu
Atravessamos lentamente as ruínas de Machu Picchu, rumo à entrada. A Joyce é que parecia estar mais cansada, ia caminhando a passos lentos. Vimos algumas lhamas passeando pelas ruínas e fomos tirar fotos delas. Depois seguimos rumo à entrada. No caminho vi um cego caminhando pelas ruínas e fiquei pensado o que ele sente e pensa ao caminhar por um local bonito, mas que ele não pode ver? E se com sua sensibilidade mais treinada, será que ele consegue sentir mais fortemente a energia que emana em Machu Picchu? Em meio a mais essas divagações cheguei à entrada de Machu Picchu e comprei água, que ali tem preço de ouro. Acho uma sacanagem enorme cobrarem preços tão caros em locais turísticos. Eles pensam que todo turista é rico, quando na verdade a maioria vai até ali com muito sacrifício e economia.
Eram quase 17h00min e me sentei com Carolina num banco e fiz um lanchinho. Comi alguns biscoitos e tomei um suco de pêssego. Essa era minha primeira refeição do dia. Eu pretendia descer a pé até Aguas Calientes, mas estava tão cansado que resolvi descer no ônibus junto com as meninas. Comprei a passagem por U$ 9,00 e logo embarcamos num dos ônibus que partem a todo o momento dali. A viagem montanha abaixo até Aguas Calientes leva em média 20 minutos e dormi durante quase toda a viagem.
Machu Picchu.Claudia, a lhama curiosa.
Aguas Calientes
Chegando à Aguas Calientes desembarcamos na entrada da cidade. Eu precisava encontrar o guia do meu grupo, pois estava com ele minha passagem de trem para logo mais a noite. Minhas novas amigas chilenas só iriam para Cusco no dia seguinte. Então fui com elas até em frente ao hotel delas, para saber onde era e depois de resolver meu problema da passagem eu ia até lá encontrá-las. Elas não eram fracas, estavam no hotel mais chique da cidade! Fui procurar o guia e no caminho encontrei o Alex, que disse que o guia tinha deixado as passagens de trem num restaurante ao lado do hotel onde ele estava. Fomos até lá e peguei minha passagem, que estava marcada para as 21h30min. Saindo dali fui até o Mercado Municipal comprar um lanche para comer no trem. Parei numa banca e pedi para uma mulher fazer três sanduíches de queijo. Fiquei olhando a mulher fazer os sanduíches e foi tanto relaxo e falta de higiene que achei que jamais fosse comer aqueles sanduíches. Ela pegou os pães, cortou ao meio e colocou a faca em cima de umas cenouras sujas. Daí pegou o queijo de dentro de um plástico e usou a mesma faca para cortar algumas fatias. Depois colocou as fatias dentro de uma cesta de plástico que estava suja e com um pouco de terra. Então apareceu um cachorro e pulou nas pernas da mulher. Ela coçou a cabeça do cachorro e com a mesma mãe que afagou o cachorro pegou o queijo e colocou dentro dos pães. Perguntei se o cachorro era dela e ela respondeu que sim, que ele passa o dia ali com ela. Paguei pelos sanduíches e saí perplexo com tanta falta de higiene. Pensei em jogar fora os sanduíches, pois não ia comer aquilo. Mas acabei guardando na mochila para o caso de encontrar algum cachorro faminto pelo caminho.
Fui até o hotel onde eu tinha ficado e peguei minha mochila. Conferi para ver se ela não tinha nada faltando, virei às costas e nem olhei para o recepcionista com o qual tinha tido alguns problemas. Não costumo ser mal educado, mas aquele cara não merecia um muito obrigado. Fui até o hotel de minhas amigas chilenas e a Carolina estava sentada na calçada em frente me esperando. Ela conversou com o pessoal da recepção e eles autorizaram minha entrada para deixar minhas mochilas no quarto delas até o horário de pegar o trem. Fui até o quarto e lá estava a Joyce descansando. Deixei as mochilas e saímos. Fomos até uma Termas que fica na parte alta da cidade, no pé do morro. A cidade se chama Aguas Calientes em razão dessas termas de água quente. Pagamos $ 10,00 soles para entrar. O local tem três piscinas, com temperaturas diferentes. Na mais quente a água fica em torno de 38 graus. Eu não tinha levado toalha e no local não alugavam toalhas, o que seria um problema na hora de sair da água. A água das piscinas era escura, meio com cor de ferrugem. Não era nada parecido com a Termas onde estive no terceiro dia de Trilha Salkantay, cuja água era límpida. Primeiro fomos numa piscina de 27 graus, mas com o anoitecer o frio chegou e a água não parecia ser tão quente. Então fomos para a outra piscina mais quente. Tão longo entrei nessa piscina, tive câimbra na parte da frente da coxa direita. A dor era tão forte que comecei a gritar e muita gente ficou olhando. Nunca tive câimbras tão fortes e doloridas iguais a essa. Me alonguei um pouco e as câimbras passaram, mas fiquei com um pouco de dor na coxa por uns dias. A energia elétrica acabou em toda a cidade e ficamos no escuro dentro da piscina conversando e olhando o céu estrelado. Foi algo bem interessante isso, de estar numa piscina de água quente, quase no meio do mato, no escuro, olhando as estrelas. Mais um tempo ali e chegou a hora de sair. Eu sem toalha acabei pegando a maior friagem e no vestiário me sequei com a camiseta. Minha garganta que já não estava muito boa depois do frio que passei na Trilha Salkantay, após essa friagem toda que peguei ficou ainda pior. Voltamos no escuro até o hotel das chilenas. No hotel as escadarias e corredores estavam cheios de velas. Ficamos conversando no quarto, eu deitado atravessado numa cama, pois estava morto de cansaço. Conversamos sobre vários assuntos, comemos pistache e depois de uma hora a energia voltou. Trocamos endereços e ficamos de nos encontrar em Cuzco na noite seguinte, quando as duas chegassem à cidade. Foi muito interessante à amizade que nasceu entre eu e as duas chilenas em tão pouco tempo.
Acabei deixando no hotel para ser jogado no lixo o meu bastão de caminhada. Ele quebrou uma mola interna e não fechava por completo. Daí seria difícil levar ele na mochila e achei melhor descartá-lo. Eu tinha comprado o bastão no ano anterior, em Cusco, para fazer a Trilha Inca. Levei ele para o Brasil, trouxe de volta ao Peru e agora ele ia para o lixo, após ter cumprido muito bem sua missão. Às 21h00min as duas chilenas me acompanharam até a Estação de Trem, onde conversamos mais um pouco. Comentei sobre a sensação de que as conhecia há muito tempo e não somente há poucas horas. Então elas disseram que tinham a mesma sensação e a Carolina disse algo interessante. Ela contou que dias antes de viajar contou a uma conhecida que ia para Machu Picchu e essa pessoa disse para ela dar um oi para a mãe dela, que já faleceu. É que segundo essa pessoa, existem alguns lugares na terra que funcionam como portais para outra dimensão, seja temporal ou espiritual. E que Machu Picchu é um destes lugares mágicos, que ali costumam se encontrar pessoas que já se conheceram em outras vidas, (para quem acredita em reencarnação) que de alguma forma estas pessoas se atraem e se reencontram nesse lugar. E que ali você também consegue contato com o espirito de pessoas que já morreram. Achei interessante o que ela contou e lembrei-me do sonho que tive na noite anterior, onde uma pessoa que já faleceu veio dar um recado para alguém que eu conheço. Já ouvi relatos de outras pessoas sobre experiências estranhas que tiveram em Machu Picchu e eu mesmo tive algumas experiências e sensações estranhas nas duas vezes em que estive nessa região. Então deixo em aberto tal assunto e cada um pensa o que quiser sobre o mesmo. Mas que tem algo estranho ali, isso tem!!! Li num lugar que: Quando for para Machu Picchu e região, tudo o que emocionalmente para lá você levar, será potencializado. E o que estiver guardado em seu coração, de uma forma ou outra, será revelado.
Despedi-me de minhas novas amigas e entrei na estação. Lá encontrei o pessoal do meu grupo e fiquei com eles num canto. Um dos israelenses pegou seu pequeno violão e começou a cantar e o pessoal junto. Outras pessoas que estavam na estação foram se aproximando. E encontrei mais uma vez sem querer, minha amiga Heverly. Na verdade foi ela que me viu e veio até onde eu estava. Conversamos um pouco, ela contando como tinha sido percorrer a Trilha Inca. Logo o trem chegou e descobri que eu era o único do meu grupo que seguiria em outro vagão. E coincidentemente fui no mesmo vagão que o grupo de Londrina, do qual a Heverly fazia parte.
Sentei em minha poltrona, ao lado de uma peruana e de frente a duas gurias que pareciam ser europeias. Elas logo pegaram no sono. Eu estava com muita fome e me arrependi de não ter comido nada antes de embarcar. Lembrei dos sanduíches de queijo que estavam na mochila. E também lembrei da “porca” que os fez! Mas a fome era tanta que pensei: dana-se! Tinha comprado uma Fanta antes do embarque, que junto com os três sanduíches de queijo foi minha janta. Depois de comer fui até a poltrona da Heverly e até o final da viagem fomos conversando e vendo fotos da trilha.
No desembarque me despedi da Heverly e fui encontrar meu grupo. Uma van nos esperava e embarcamos nela rapidamente, pois estava muito frio. Essa van nos levaria até Cusco, distante cem quilômetros dali. Desde as fortes chuvas de 2010 que destruíram boa parte da estrada de ferro, que o trem não vai até Cusco. Logo desembarcamos, pois com nosso peso o motorista não conseguia passar por uma elevação ao lado da estrada. Reembarcamos e fui no fundo da van, numa posição desconfortável e apertada. Mas estava tão cansado que não me importei. A garganta estava doendo muito e notei que estava com febre e tendo calafrios. Acabei dormindo até chegarmos a Cusco. Desembarcamos no centro da cidade e cada um foi para seu lado. No dia seguinte estava marcado um encontro para despedidas. Fui direto para o hostal, aonde cheguei às 2h00min. Bati na porta e demorou para o recepcionista abrir. Entrei e falei que tinha reservado e pago um quarto cinco dias antes. Ele olhou no livro de registros e disse que não tinha quarto livre e que eu teria que ir para um quarto coletivo. E que o preço tinha subido e que eu teria que pagar diferença de preço nesse quarto e também referente aos dias que tinha ficado no hotel junto como o Thiago. Eu não sou de brigar ou criar barraco, mas fiquei tão bravo que joguei as mochilas no chão e falei um monte de bobagens para o cara. Falei que pagava a diferença de quarto daquela noite, pois estava cansado, com sono, frio e febre e não ia sair atrás de outro hostal para dormir, que ia ficar naquela porcaria de hostal naquela noite. E que das noites anteriores eu não pagava de jeito nenhum, pois era absurdo querer cobrar algo que tinha sido pago antes dos preços aumentarem. Entre outras coisas até falei que ele podia chamar a Polícia, que mesmo assim eu não pagava. E que ia abrir uma reclamação por tal cobrança ilegal no Escritório de Turismo da cidade, pois aquilo era sacanagem. Acho que o cara ficou com medo de mim, pois ficou parado com cara de assustado e não falava e não fazia nada. Coloquei uma nota de $ 10,00 soles no balcão, que era a diferença que ele queria cobrar por aquela noite e disse para ele me mostrar onde eu ia dormir, senão eu já me deitava no sofá da recepção e ninguém ia me tirar dali. Ele então me levou até um quarto coletivo, que ficava nos fundos de outro quarto coletivo onde vi três camas ocupadas. No meu quarto vi que tinha uma garota oriental dormindo numa cama. O recepcionista foi acender a luz e eu disse não, mandei que sumisse o mais rápido dali, pois queria dormir. Eu estava muito bravo!!! Apenas tirei minhas botas e deitei na cama de solteiro, ao lado da cama da oriental. Demorei um bom tempo para pegar no sono, pois tinha ficado tão irritado que no dia seguinte a primeira coisa que faria seria sair da porcaria do Hostal Samanapata…
A peruana (relaxada) fazendo sanduiches.Na estação esperando o trem.Heverly, no trem.
Acordei às 6h00min e dei uma olhada fora da barraca. O acampamento estava no maior silêncio. Pelo visto o pessoal estava todo de ressaca! Olhei para meu companheiro de barraca que sempre era o primeiro a acordar e ele estava desmaiado dentro do saco de dormir. Não consegui voltar a dormir e fiquei ouvindo música até às 9h00mim, quando o pessoal começou a levantar. O suíço acordou com uma cara de ressaca que dava medo. Fui para o café, pois acordei com fome e finalmente bom do estômago. Para minha sorte naquele dia o café da manhã foi caprichado, com direito a panquecas com doce de leite, iogurte e salada de frutas. Para completar meu café, tomei uma Coca-Cola bem gelada. O pessoal foi aparecendo aos poucos para tomar café e um com cara pior que o outro. Até o guia, Daniel, estava de resseca.
Após o café teve uma rápida reunião com todo o grupo e até surgiu o papo de ninguém caminhar naquele dia e todos seguirem de van até Aguas Calientes, povoado que fica próximo a Machu Picchu. Eu não concordei, pois queria fazer a trilha inteira caminhando e não era culpa minha se todos encheram a cara na noite anterior e não conseguiam caminhar. No final das contas eu e mais quatro caras (os dois israelenses, o inglês e o italiano) seriamos os únicos que faríamos a pé os 24 km que faltavam para terminar a trilha. Fiquei surpreso com meu companheiro de barraca, o suíço triatleta que tinha o melhor condicionamento físico do grupo e que não ia caminhar naquele dia. Quando vi ele cabisbaixo dentro da van, entendi que ele estava mesmo mal, com ressaca de Pisco. Acho que ele até queria caminhar, mas pelo visto não tinha mesmo condições. A única parte chata é que os caminhantes teriam que levar todas as suas coisas, pois a partir dali não teria mais transporte para a segunda mochila de até 5 quilos. Caminhar 24 km com duas mochilas seria desgastante, mas se não existia outra opção, então o jeito era caminhar com todas as minhas coisas.
As 10h30min o pessoal saiu na van, iam até a estação de trem que ficava próximo a uma hidrelétrica, distante 14 km dali. Alguns iam começar a caminhar a partir da estação e outros iam de van até Aguas Calientes. Eu e meus quatro companheiros seriamos guiados pelo Brian, um garoto que estava acompanhando nosso grupo desde o início, pois estava aprendendo a profissão de guia. Antes da partida o guia nos entregou uma sacola com o almoço do dia. Nem olhei o conteúdo da sacola, apenas a guardei na mochila.
Iniciamos a caminhada pela estrada que passava em frente e fomos seguindo rumo a saída da pequena cidade. Eu fui carregando uma mochila nas costas e outra na frente, o que dificultava um pouco caminhar. Um cachorro que estava no local do acampamento passou a nos acompanhar. Tentei faze-lo voltar, mas ele não voltou. O engraçado é que todo carro que passava por nós ele corria atrás latindo ferozmente. Andamos pouco mais de um quilômetro e o italiano retornou ao acampamento, pois tinha esquecido algo. Seguimos pela estrada e após uma longa subida passamos a caminhar ao lado do rio. A estrada era meio movimentada, passavam alguns carros da hidrelétrica que está sendo construída ali perto. E o nosso novo mascote corria atrás de todos os carros que passavam. Algumas vezes eu fechava os olhos, pois o cachorro era meio atrapalhado e vez ou outra entrava quase embaixo dos carros. Ele não sabia que era mais seguro correr atrás dos carros em vez de correr ao lado deles.
A estrada era poeirenta e cada vez que passava um carro o ar ficava irrespirável. As duas mochilas estavam fazendo meus ombros doerem, mas segui em frente, pois desde meus tempos de Exército aprendi que após doer um pouco os ombros ficam amortecidos e você não sente mais a dor. Fizemos algumas breves paradas para descanso e logo o italiano nos alcançou. Caminhei um bom tempo conversando com o Brian, e ele passou a ser de uma vez por todas meu fotógrafo oficial. Ele até sabia que prefiro fotos com a câmera na horizontal e não na vertical.
O tempo estava nublado desde cedo e começou a ficar quente, sinal de que viria chuva. Atravessámos uma grande ponte sobre o rio e logo chegamos num local de onde saía uma cachoeira de dentro da montanha. Eu nunca tinha visto algo igual. Fizemos uma longa parada em frente a essa cachoeira e ficamos admirando a beleza e a força da água caindo da montanha direto no rio. Voltamos a caminhar e passamos a andar entre grandes montanhas muito bonitas. Mais uma hora de caminhada e chegamos à hidrelétrica que estava sendo construída. Ali existia um posto de controle onde tivemos que mostrar nossos passaportes. A partir deste posto de controle passaríamos a caminhar dentro da região que faz parte do Parque Nacional de Machu Picchu. Enquanto estávamos parados no posto de controle saiu uma caminhonete de dentro da hidrelétrica e nosso mascote canino pra variar foi correr atrás dela. E não é que o cachorro foi atropelado bem na nossa frente! Ele calculou mal o espaço lateral e a roda traseira da caminhonete acertou ele de lado. Ele saiu ganindo e mancando e foi se esconder debaixo de um banco. Fomos dar uma olhada nele e aparentemente não tinha sido nada grave. Mas pela cara de dor, devia tê-lo machucado. Tentamos dar água e comida a ele, que acabou recusando. O cachorro era mesmo atrapalhado, pois foi ser atropelado justamente pelo último carro que passou por nós naquele dia.
A partir do posto de controle não caminharíamos mais pela estrada, mas sim por uma trilha no meio do mato. Não demorou muito e chegamos à estação de trem. O guia nos mandou entrar em um dos pequenos e precários restaurantes que existiam no local, pois seria ali o lugar do nosso almoço. Nosso mascote continuou nos seguindo mesmo mancando e ao entrar no restaurante foi devidamente espantado pela dona do local e junto com ele mais dois cachorros que estavam dentro do recinto também foram expulsos. Eu fui entrar justamente no momento em que os cachorros saiam correndo do restaurante e quase fui derrubado por eles. Escolhemos uma mesa e enquanto os dois judeus foram preparar sua comida na pequena e suja cozinha do lugar, eu e os demais tiramos das mochilas nossas sacolinhas com o almoço. O almoço vinha dentro de uma marmita de isopor e junto tinha uma caixa de suco de pêssego. Ao abrir minha marmita, levei um tempo para descobrir o que era o almoço. Estava tudo misturado, por culpa da marmita ter sido chacoalhada durante muitos quilômetros dentro da mochila. Sei que tinha arroz, macarrão, uns pedaços minúsculos de frango, batata frita e salada. Identifiquei algumas fatias de pepino, que foi a única coisa que tirei da marmita, pois pepino cru eu não como. E meio com receio dei a primeira garfada naquele almoço, que para minha surpresa estava bom. Ou seria a fome que fez ele ficar bom? Eu não tinha comido nem metade do meu almoço, quando o guia peruano de um grupo de norte americanos que tinha acampado no mesmo local que o meu grupo na noite anterior, veio até onde eu estava e após olhar o que eu comia perguntou se a “merda” estava saborosa. Respondi que sim e ofereci um pouco a ele. O grupo dele estava almoçando comida feita na hora, por cozinheiros do grupo. E como existe certa concorrência entre as várias empresas e guias que levam grupos pela Trilha Salkantay, entendi que ele queria desfazer da nossa comida e da empresa que nos guiava. Se fosse em outros tempos eu tinha mandado ele para algum lugar nada agradável por tal brincadeira sem graça. Mas como estou numa fase zen, achei melhor não me estressar e muito menos arrumar briga. Mas faltou pouco para eu dizer coisas nada agradáveis a ele. Voltei a comer e deixei um pouco da comida para dar ao nosso mascote canino. Fui até fora do restaurante e encontrei nosso amigo de quatro patas deitado debaixo de um banco na pequena estação de trem em frente. Chamei ele até um canto e coloquei a marmita com o resto da comida no chão. Ele chegou perto, cheirou a comida e deu meia volta sem ao menos tocar na comida. Daí apareceram os outros dois cachorros que a dona do restaurante tinha expulsado quando cheguei. Os dois também cheiraram a comida e deram meia volta sem comer nada. Depois disso comecei a achar que o guia do outro grupo estava certo e que a comida era mesmo uma merda, pois nem cachorros famintos queriam come-la.
Começou a chover e ficamos cerca de meia hora no restaurante descansando. Ouvimos alguns trovões fortes e tudo indicava que o os 14 km de caminhada que faltavam, seriam feitos debaixo de chuva. Colocamos capa de chuva, pegamos nossas mochilas e fomos caminhar. Não encontramos mais nosso mascote canino. Acredito que ele tenha encontrado outra pessoa, ou grupo de pessoas para seguir. Tiramos uma foto na saída e seguimos em frente. O primeiro trecho era por uma trilha estreita, subindo um morro. Essa trilha ligava o final de uma linha férrea até outra linha mais acima. Levamos uns dez minutos para percorrer essa trilha, que foi bastante difícil. Quando chegamos no final dela paramos para tirar capa de chuva e blusas, pois tinha ficado muito quente. A chuva parou e passamos a caminhar ao lado dos trilhos do trem. Em alguns trechos existia uma trilha ao lado, o que facilitava a caminhada. Já em outros trechos tínhamos que caminhar sobre os trilhos e pedras soltas, o que era ruim. Andamos um tempo próximo a um rio e depois em meio à mata. Passámos a encontrar algumas pessoas que vinham caminhando em sentido contrário, sem mochila. Isso era sinal de que perto existiam casas e também que algumas dessas pessoas vinham de Aguas Calientes até ali e voltavam.
Atravessamos uma grande ponte metálica e nessa travessia dei muitas risadas. O italiano atravessou a ponte andando devagar e com todo o cuidado, pois tinha medo de altura. E ele não queria ninguém andando perto dele, pois o medo aumentava com alguém perto. Os quilômetros seguintes de caminhada foram tranquilos, o caminho era uma reta só. O trem que leva turistas até Machu Picchu passou por nós. Fiz algumas paradas para tirar fotos e numa delas esqueci meu bastão de caminhada encostado numa pedra. Pensei em voltar para buscá-lo, mas achei que não valia a pena. Daí lembrei que o italiano estava bem mais atrás caminhando e fiquei esperando, pois talvez ele tivesse encontrado meu bastão. E não demorou muito o italiano apareceu e ao me ver ergueu o bastão, que ele tinha encontrado no caminho e sabia que era meu. Andamos mais alguns minutos e chegamos numa pequena estação desativada, ao lado da entrada secundária de Machu Picchu. Para chegar à Machu Picchu você passa por essa entrada e depois sobe a montanha em caracol até chegar ao portão principal. A partir dessa entrada parámos de caminhar ao lado do trilho do trem e seguimos pela estrada ao lado do rio. Logo começamos a ver as construções de Aguas Calientes. No ano anterior eu cheguei à Aguas Calientes também caminhando ao lado dos trilhos do trem, mas pelo outro lado da cidade. Conforme fomos chegando à cidade senti uma forte emoção, a sensação de mais um desafio cumprido, mais uma meta alcançada. Esse tipo de sensação é inexplicável. Fiquei com os olhos marejados e aproveitei para gravar um vídeo enquanto caminhava, onde falei coisas meio sem nexo, mas sinceras. No vídeo até errei a data, pois falei que era dia 24 quando na verdade era 23. Num momento desses, após percorrer 82 km em quatro dias não tinha como não lembrar de todos os problemas pelos quais passei dois anos antes. E foi planejar e realizar coisas iguais a que eu estava acabando de fazer que me deram forças e coragem para enfrentar o longo e dolorido tratamento que hoje me permite andar normalmente e não sentir dor. E são estes desafios que me motivam a continuar me cuidando, a ir diariamente numa academia fazer exercícios para fortalecimento de minha coluna. Mesmo quando estou cansado no final do dia, ou o dia está frio, eu encontro motivação para ir à academia, pois sei que sem tais exercícios corro o risco de que minhas hérnias de disco voltem a doer e me deixem novamente com as pernas atrofiadas, sem poder caminhar. Então pelo resto de minha vida terei que encontrar motivação para continuar frequentemente me exercitando, cuidando para não ganhar peso, pois somente assim é que poderei levar uma vida normal e sem dores.
Na entrada da cidade o guia Daniel nos esperava e cumprimentou cada um de nós. Ele ainda tinha cara de ressaca e não perdemos a oportunidade de zoar com ele sobre isso. Seguimos até uma praça no centro da cidade e de lá ele levou cada um para o seu hotel. É isso mesmo, naquela noite dormiríamos em hotel! Eu não sabia disso e fiquei muito contente com tal noticia. Após três noites dormindo no chão duro da barraca, dormir numa cama confortável era um bom presente. Fui o último a ser levado até o hotel e tive a falta de sorte de ficar justamente no hotel mais distante, no pé de um morro. O guia me deixou na portaria e enquanto um mal humorado atendente procurava minha reserva vi que três brasileiras conversavam na recepção. Puxei conversa com elas e descobri que eram de Fortaleza e que iriam embora dali a pouco. O recepcionista me chamou e disse que não tinha nenhuma reserva em meu nome. Mostrei o voucher da agencia de turismo e ele ligou em Cusco, na agencia. Levou uns 15 minutos até que ele entrar num acordo com a agencia e me dar à chave de um quarto. O quarto era no terceiro andar, tive que subir escada acima morto de cansado carregando minhas mochilas.
Quando entrei no quarto me joguei numa das camas e vi que a mesma era confortável. Daí gravei um pequeno vídeo mostrando o quarto e em seguida tirei todas minhas coisas das mochilas e espalhei pelo chão. Era um monte de roupas sujas, molhadas, cheias de barro. Em seguida fui tomar banho e fiquei um longo tempo debaixo da água quente do chuveiro. Depois me deitei para descansar e logo bateram na porta. Era o cara da portaria e outro cara que dizia ser o guia do dia seguinte para Machu Picchu. Achei estranho ter outro guia para nos levar até lá, mas mesmo assim deixei os dois entrarem. O tal guia me passou os detalhes sobre a ida à Machu Picchu e depois o cara da portaria pediu minha carteirinha de estudante. Respondi a ele que não tinha carteirinha, pois já era formado, não estudava mais. Então ele disse que eu tinha que pagar uma diferença de valor no ingresso de Machu Picchu, pois tinha declarado ser estudante. Acabei me irritando com o cara, pois ele além de querer me cobrar algo indevido, estava sendo bastante grosso comigo. Mostrei novamente a ele o voucher da agencia e que ali não dizia nada sobre meio ingresso. O cara falou que eu tinha mentido ser estudante, que eu ia ter que pagar a diferença e bla bla bla… Sei que me estressei pra valer e já estava quase pegando o cara pelo pescoço, pois ele estava falando muita bobagem e sendo grosseiro. Nesse meio tempo o tal guia saiu do quarto, enquanto eu fiquei batendo boca com o cara da recepção. Logo o guia voltou e me pediu desculpas, disse que tinha se enganado de quarto, pois tinha outro hospede no hotel com o sobrenome Dissenha, e era esse hospede que ele tinha que guiar no dia seguinte. O cara da recepção saiu rapidinho e nem olhou para trás. O guia pediu mil desculpas e eu de cara amarrada não disse nada, apenas pedi para ele me dar licença, pois eu precisava descansar. Nesse rolo todo perdi quase uma hora de precioso descanso. E nem tive a curiosidade de verificar se tinha mesmo outro Dissenha hospedado no hotel.
Cochilei um pouco e logo que anoiteceu saí. Dei uma rápida volta pelo pequeno centro de Aguas Calientes e fui até a praça central, onde o pessoal tinha marcado de se encontrar. Fui o primeiro a chegar e o restante do pessoal se atrasou. Todos reunidos, seguimos até um restaurante, onde seria servido o jantar de despedida do grupo. Antes do jantar o guia pegou o número de passaporte de alguns membros do grupo e ficou resolvendo questões relativas aos ingressos de Machu Picchu e tíquetes de trem para o retorno à Cusco no dia seguinte. Sei que ocorreram alguns problemas com relação à falta de ingressos para Huayna Picchu, que é a montanha que fica dentro de Machu Picchu. O meu ingresso estava correto e fui informado que meu tíquete de trem seria entregue no dia seguinte. Enquanto esperava o jantar ser servido conversei com a Izabel e seu namorado. Em seguida foi servido o jantar, que estava bom, mas cuja quantidade era pouca e me deixou com fome. Após o jantar tivemos mais uma reunião do lado de fora do restaurante, em frente à linha do trem. Avisos dados e só ficaram lá aqueles que tinham tido problema com relação ao ingresso de Machu Picchu. Como eu não tinha nenhum problema com isso resolvi ir embora, pois teria que acordar às 3h30min, já que pretendia ir a pé até Machu Picchu, para ver o sol nascer.
No caminho até o hotel passei em frente a um restaurante e vi que numa tv enorme estava passando o jogo Corinthians x Vasco, pela Copa Libertadores. Me encostei num poste em frente ao restaurante e fiquei vendo o jogo que estava quase no final. E fui pé quente, pois logo saiu o gol que deu a vitória e a classificação ao Corinthians. Segui para o hotel e na porta vi que o recepcionista estava conversando com um cara. Fiquei 13 minutos esperando a conversa terminar e o recepcionista vir me entregar à chave do quarto. Definitivamente ele não ia com a minha cara! Pedi que ele me acordasse às 3h30min e ele anotou meu nome, o número do quarto e o horário em uma folha. Subi para o quarto e arrumei toda a bagunça que eu tinha deixado. Quando deitei olhei no relógio e era 2h00min. Fiquei desanimado, pois teria que levantar dali uma hora e meia. Logo me dei conta de que meu relógio estava no horário do Brasil, que é duas horas à frente em relação ao Peru. O relógio tem dois horários e sem querer devo ter apertado o botão errado e ele estava mostrando o horário brasileiro em vez do horário local. Fiquei contente, pois teria um pouco mais de tempo para dormir. A cama estava muito confortável e quentinha, pena que ficaria pouco tempo nela. De qualquer forma era bem melhor dormir ali do que na barraca. Nessa noite tive dois sonhos estranhos com o pai já falecido de uma guria que conheço (cujo pai não conheci e nem o nome dele sei). Nunca tive sonhos desse tipo e achei tais sonhos muito estranhos, principalmente por que o pai dessa guria, no sonho falava o nome dele e meio que dava um recado para a mãe dela. Foi muito estranho, acordei e demorei um pouco para conseguir dormir novamente. Naquela região coisas estranhas acontecem, então não sei se tais sonhos tem fundamento ou não. Sei lá, entende!
Peter de ressaca.Reunião com o grupo.A van levando o pessoal.O dog atrapalhado que nos seguiu.Caminhando pela estrada.Trecho de estrada submerso.Cachoeira saindo da montanha.Posto de controle.A cachorrada sendo enxotada do restaurante.O almoço estranho.Os único membros do grupo que fizeram todo o caminho a pé.Atravessando ponte do trem.Passamos por alguns lugares perigosos.Trilhos.O trem que leva turistas à Machu Picchu.Descansando na estação abandonada.Primeira entrada de Machu Picchu.Aguas Calientes.Em Aguas Calientes, final da Trilha Salkantay.A comida da janta, que era boa e pouca.Aguas Calientes.
Acordei às 5h00min com o barulho do barbeador do meu companheiro de barraca. Toda manhã a primeira coisa que o suíço fazia era se barbear, ainda dentro do saco de dormir. E eu que me acho cheio de manias!! Ainda chovia e arrumei minhas coisas lentamente. Mais uma vez não fui tomar café, pois o estômago continuava ruim. Pouco depois das 7h00min iniciamos a caminhada do dia, seguindo por uma estrada que descia a montanha. Logo a chuva parou e o tempo continuou nublado, o que era bom para caminhar. A curitibana Izabel e seu namorado francês seguiram numa van, pois tinham tido problemas com bolhas no pé no dia anterior. Eu estava me sentindo muito cansado nesse dia, o que não é muito normal em mim. A razão do cansaço devia ser ter comido pouco nos últimos dias por culpa do problema de estômago. De qualquer forma sou de seguir em frente sempre e não me entrego facilmente.
Caminhamos um tempo por uma trilha estreita ao lado de uma montanha e vez ou outra passava por nós alguma tropa de mulas transportando coisas. Logo passamos a caminhar por uma estrada que descia em caracol a montanha e vez ou outra passávamos por algum pequeno povoado ou encontrávamos algum morador local caminhando na estrada. Alguns carros passaram por nós e sempre éramos saudados por alguma buzina ou aceno de mão. Os moradores locais já estão habituados com os turistas do mundo todo que passam por ali diariamente percorrendo a Trilha Salkantay, então acabam sendo simpáticos com os turistas. Após alguns quilômetros caminhando pela estrada, atravessámos uma ponte e passámos a caminhar ao lado de um rio, que ficava mais abaixo na estrada. Pouco tempo depois fizemos uma parada para descanso num local bonito, onde de um lado descia água da montanha e atravessava a estrada. Do outro lado existia um precipício com o rio passando lá embaixo. Ao fundo a vista das montanhas era muito bonita. Após o descanso não seguimos mais pela estrada, mas descemos por uma pequena trilha e logo chegamos ao rio. Atravessamos o rio por uma ponte de madeira, que era meio improvisada, mas segura. O único que passou apuros para atravessar a ponte foi o italiano, pois ele morria de medo de altura. Na descida até o rio encontrei um simpático cachorrinho e parei para brincar com ele. Ele tinha cara de fome e lhe dei alguns biscoitos. Daí ele me seguiu até um local onde fizemos uma parada mais longa para descanso. Descobri que esse local era a casa do cachorrinho e lá tinham mais três cachorros, todos simpáticos, mas muito magros e famintos.
Seguimos com nossa caminhada, dessa vez por uma trilha ao lado da montanha e acompanhando o rio. Andamos um bom tempo até passar por uma nova ponte precária e daí a trilha seguia no mesmo sentido em que tínhamos ido, mas do outro lado do rio. De onde estávamos era possível ver na margem oposta do rio a trilha por onde tínhamos passado um tempo antes. Mais um pouco e entramos numa outra trilha, no meio do mato e fizemos mais uma parada para descanso. Eu estava me sentindo cada vez mais cansado e comecei a ficar preocupado com isso, pois caminhar passou a ser meio torturante. Mais um pouco caminhando e chegamos num Shopping Center no meio da mata. Não era miragem não, na entrada até existia uma placa de madeira com o nome do shopping. Na verdade o tal shopping era uma barraquinha de madeira com alguns produtos a venda. O dono do local devia ter muito senso de humor, por dar o nome de shopping ao local, como por ter colocado tal placa. Mas os preços do tal shopping eram tão caros que ninguém do grupo comprou algo ali. Eu fiquei de olho numa Coca-Cola, pois estava “seco” de vontade de uma Coca gelada, mas as que estavam à venda eram todas a temperatura ambiente. Após o breve descanso voltamos para a trilha e dessa vez começamos a caminhar por um trecho cheio de pedras e bastante estreito, no meio da mata fechada. Após 15 minutos caminhando chegamos até um pequeno riacho e do outro lado tinha uma estrada e nela uma van nos aguardava. Ali fiquei sabendo que percorreríamos um pequeno trecho da estrada de van e não caminhando. Embarcamos na van e logo começou a emoção. A van andava ao lado do precipício, numa estrada péssima, cheia de buracos. Eu já não tinha mais medo ou receio de acidentes após viajar centenas de quilômetros de ônibus pela Bolívia e Peru, então passei a curtir o passeio de van. Não demorou muito e chegamos numa pequena comunidade, no meio da floresta. O local tinha algumas poucas casas, uns bares, camping, uma pequena escola, um campo de futebol cheio de buracos e uma quadra esportiva. E vi que muitas construções estavam sendo feitas ali, inclusive com muitos sinais de árvores arrancadas. Fomos até um bar, feito de madeira e com as laterais semiabertas. Ali seria servido o almoço do dia. Antes de almoçar dei uma volta pelo local e na quadra de esportes encontrei o Alex batendo bola com um garoto peruano. O nome do garoto era Anderson e ele era apaixonado por futebol, se bem que era muito ruim de bola… Kkkk A bola dele era verde e amarela, com o escudo da CBF. Brinquei um pouco de bola também e daí fui ver se o almoço estava pronto.
Mesmo ainda estando com o estômago ruim, resolvi almoçar, pois estava me sentindo muito fraco. Por sorte a comida estava boa e ainda consegui uma Coca-Cola estupidamente gelada. No grupo tinham dois israelenses (judeus) e eles não comiam a mesma comida do restante do pessoal. Eles levaram a própria comida e eles mesmo a preparavam, seguindo rituais de sua religião. Durante o preparo da comida faziam orações e liam trechos da Torah, a bíblia dos judeus. Durante o almoço aconteceu um fato ao mesmo tempo interessante e engraçado. Eu estava sentado ao lado do Alex, de frente para ama inglesa. Então comecei a ouvir barulho de chuva, mas olhando para fora pela parede aberta do bar que ficava a minha frente eu só via o céu claro e sol. Mas continuava a ouvir barulho de chuva e comentei sobre isso. O Alex também perguntou de onde vinha tal barulho. A inglesa respondeu que o barulho era por que estava chovendo. Eu e o Alex respondemos que não, que estava fazendo sol. Daí a inglesa falou para olharmos para fora e indicou o lado que estava de frente para ela e nas nossas costas. E não é que estava chovendo mesmo daquele lado! Aquilo foi meio surreal, pois de um lado do bar chovia e do outro fazia sol. Foi muito engraçado aquilo, pois o bar era estreito e de cada lado dele o clima estava completamente diferente. Essa foi uma das muitas coisas estranhas que vi nessa viagem.
Após almoçar não demoramos muito e embarcamos na van. Seguimos mais um tempo pela estrada e logo chegamos numa pequena cidadezinha, chamada Santa Tereza. Paramos num local na saída da cidadezinha e ali ao lado de um pequeno prédio, nosso acampamento estava montado. Era o meio da tarde e a caminhada do dia tinha sido encerrada. Eu desde o início preferi não ler a programação dos quatro dias de trilha, pois prefiro iniciar o dia sem saber o que farei e muito menos que horário vamos parar, ou onde vamos dormir. Assim algumas vezes acabo tendo surpresas agradáveis, como foi nesse dia em que eu estava extremamente cansado e a caminhada foi mais curta e acabou mais cedo. E mais surpresas viriam, pois o guia mandou deixarmos nossas coisas num quarto do prédio, pois iriamos de van até uma estação termal ali perto.
Após todos guardarem suas coisas e trocarem de roupa, seguimos em duas vans até uns dez quilômetros distantes da cidade, onde ao lado de um grande rio tinha uma bela estação termal, com três piscinas de água límpida e quente. Na piscina mais quente a água tinha 38 graus. O sol foi embora e esfriou um pouco, mas dentro da piscina estava muito quentinho e ficar na água foi relaxante, serviu para descansar dos vários quilômetros caminhados nos últimos três dias. Fiquei um tempo na água conversando com o pessoal e fui andar próximo ao rio. Depois fiquei no canto de uma das piscianas, pensando na vida. Eu estava um pouco ansioso e curioso, pois no Brasil tinha deixado com minha sobrinha um presente para ela entregar a uma certa pessoa que fazia aniversário naquele dia e não sabia se o presente seria bem recebido ou não. Então estava pensando nisso e querendo saber o desfecho da entrega do presente. Mas só fui saber o que aconteceu uns dias depois, quando tive acesso à internet.
Escureceu e parte do pessoal ainda ficou na água. Outra parte foi num bar tomar cerveja e conversar. Eu fiquei isolado num canto, pois não estava a fim de conversar. Pouco depois das 19h00min embarcamos na van e voltamos ao local do acampamento. Um dos israelenses tinha levado um pequeno violão e começou a cantar dentro da van. E não demorou muito para ele cantar “Ai se eu te pego”, do Michel Teló. Foi muito engraçado, eu nos confins do Peru, dentro de uma van, olhando o céu estrelado e ouvindo um judeu cantar o hit do meu conterrâneo Michel Teló. Chegando ao local do acampamento fui colocar roupa limpa e descansar na barraca. Banho não precisava, pois às horas passadas dentro da piscina de água quente tinham servido como banho do dia. Senti falta de minhas botas e fui procurá-las no quarto onde tínhamos guardado nossas coisas. Encontrei o pé direito debaixo da cama e junto dele outro pé direito, que era de uma bota número 37. A minha é 41. Pelo número da bota achei se tratar de uma bota feminina e fui perguntar as meninas se alguma delas tinha se confundindo e pego minha bota por engano. Todas responderam que não. Fiquei preocupado, pois como é que ia caminhar no dia seguinte com duas botas do pé direito? Eu só tinha levado um par de botas e um chinelo para a trilha e caminhar de chinelo seria impossível.
Pouco depois das 20h00min fui jantar. O estômago tinha melhorado e a comida estava boa, era um macarrão meio estranho, coberto com mostarda. Contei ao guia sobre o problema com minha bota e ele saiu perguntando para todo mundo, inclusive o pessoal da cozinha, se alguém sabia de algo. Uma das inglesas pediu para ver a bota, examinou a mesma e disse que não era dela. Esse assunto acabou virando motivo de gozação no grupo, mas eu continuava preocupado, pois sem o pé esquerdo de minha bota eu não teria mais como caminhar. Mesmo que eu encontrasse uma bota para comprar na cidadezinha, seria complicado, pois caminhar com uma bota sem ela estar laceada é sinal de bolhas nos pés. Lembro muito bem das muitas bolhas, calos e unhas pretas que ganhei até lacear minhas botas em muitas caminhadas.
Depois da janta teve nova comemoração de aniversário para o suíço Peter. Os cozinheiros do grupo fizeram um bolo para ele. O Peter comprou uma garrafa de Pisco, a bebida nacional do Peru. Daí comemos o bolo e fizemos brinde com Pisco. Eu dessa vez resolvi participar do brinde e no segundo copinho de Pisco já me senti tonto e resolvi parar por ali. Como não bebo, acabo sendo fraco para bebida e qualquer dose de álcool por menor que seja sobe rapidinho. E por milagre minha bota apareceu! A inglesa loira encontrou em sua barraca o pé da minha bota, que sua amiga tinha pego por engano. Só achei estranho da amiga dela ter pedido antes para olhar a bota que tinham deixado no lugar da minha e não tê-la reconhecido como sendo a sua bota. Das duas uma, ou ela era muito tapada, ou ficou com vergonha de assumir que tinha pego minha bota por engano e o pessoal ficar zoando com ela. Sei que fiquei muito aliviado em ter minha bota de volta.
E a comemoração da noite não acabou no brinde. O guia informou que do lado de fora tinha sido acesa uma fogueira e que um grupo de americanos já estava lá. Era para nos juntarmos a eles, pois teria balada a céu aberto, com luzes e música. O pessoal gostava de uma festa e logo fizeram uma vaquinha para comprar cerveja e mais Pisco. Me uni a eles na balada, mas não bebi mais. Logo estavam todos dançando, conversando e bebendo muito. O DJ era peruano e logo tocou “Ai se eu te pego”. E pouco depois tocou outra música que está fazendo muito sucesso no Peru e Bolívia, “Tche tche re re” do Gustavo Lima. Quando tocou essa, pedi licença ao namorado da Izabel e a tirei para dançar. E a festa seguiu cada vez mais animada e teve até penetras, que foram bem vindas a festa. Fiquei conversando com algumas pessoas e observando o pessoal, que estavam bebendo demais. O mais animado e bêbado era o Peter, o suíço. O guia também bebeu todas e daí passei a duvidar que o pessoal iria conseguir caminhar no dia seguinte. Um dos israelenses estava muito bêbado, estava caindo até… E era justamente o que fazia as orações durante as refeições, que usava o Kippa na cabeça (parece uma pequena touca). Isso não me espantou, pois já vi muita gente que se mostrava religiosa, com discursos e postura corretíssimas, mas que em algumas situações com álcool ou não, se mostraram “piores” do que muitos pecadores por aí. Religião é assim mesmo, nem todos vivem o que pregam ou querem que os outros façam. Também não tenho motivos para ficar julgando ninguém sobre isso, pois não sou tão bom exemplo. Ao menos não sou hipócrita como muitos por aí…
Era pouco mais de meia noite quando resolvi ir dormir, pois pretendia caminhar no dia seguinte e queria estar disposto. A maioria do pessoal seguiu na festa, dançando e bebendo. Nem vi quando meu companheiro de barraca entrou para dormir.
Na trilha após o fim da chuva.Grupo reunido (faltam dois).Estrada descendo o morro.Ponte pouco segura.Descanso com os cachorros.Caminhando ao lado do rio.Shopping Center no meio da floresta.Almoço.Batendo bola com o pequeno peruano.O peruano Anderson e sua bola do Brasil.Relaxando na piscina de água quente.Piscinas termais ao lado do rio.Botas da discórdia.Brinde com Pisco.Dançando com Izabel.Com a hungara e a japonesa penetras na festa.Peter, o suíço animado.Um argentino se humilhando.
Fui acordado ás 5h00min. Fazia muito frio e não dava a mínima vontade de sair de dentro do saco de dormir. Mesmo sentindo um pouco de frio eu tinha conseguindo dormir por várias horas à noite, tendo acordado brevemente por duas vezes. Durante a noite senti muita falta de meu colchão de ar, o qual deixa a noite dormida numa barraca muito mais confortável. Mas ele é pesado e por isso não o levei na viagem. Reuni coragem e levantei para ir escovar os dentes. Ainda fazia muito frio e fui olhar meu termômetro, que marcava 3 graus naquele instante. Fiz a higiene básica, fiz meu xixizinho matinal e fiquei alguns minutos olhando as montanhas nevadas. Vi que mais ninguém tinha levantado e então voltei para a barraca me deitar e me esquentar um pouco. Logo fui chamado para o café e ao chegar à mesa fui recebido com um Good morning caralho e um Buenos dias cacete. Pelo visto o pessoal está aprendendo cada vez mais palavrões brasileiros e não era eu quem estava ensinando. Sentei-me a mesa, mas não comi e não bebi nada, pois meu estômago não estava nada bom. O guia se ofereceu para fazer um chá para mim e recusei, pois lembrei do chá que me deram no ano anterior para o estômago durante a Trilha Inca e que foi uma das coisas mais ruins que coloquei em minha boca em toda minha vida. Preferi tomar um Eno que eu tinha trazido do Brasil do que encarar novamente o tal chá peruano para estômago.
Pouco depois das 7h00min todos estavam prontos e iniciámos a caminhada do dia. Esse seria o dia mais difícil na trilha, em razão de atingirmos a maior altitude. Comecei a caminhar todo agasalhado, pois o frio estava demais. Logo de cara tinha uma subida e ao caminhar esquentou um pouco. Segui sozinho, pensando na vida, mas logo fui caminhando ao lado de um ou outro companheiro do grupo. O sol surgiu e a temperatura subiu um pouco, o que para mim foi o suficiente para tirar o casaco mais grosso que estava usando e guardá-lo na mochila. Após caminhar um tempo por uma trilha estreita, passámos a caminhar por uma trilha mais larga e entramos num vale que aos poucos ia afunilando e ficando mais alto. Vez ou outra eu parava e olhava para trás, pois a vista era muito bonita. Bem ao fundo em um vale, era visível o local onde tínhamos dormido. Aos poucos conforme fomos caminhando o local do pernoite desapareceu atrás de uma montanha.
Quase no meio da manhã chegamos à parte mais difícil do caminho, que era uma trilha que seguia em caracol montanha acima. Ali a altitude já ficava acima dos quatro mil metros e o ar faltava. Fazer qualquer esforço físico nessa altitude nos deixava com falta de ar e ofegantes. Eu não senti nenhum outro tipo de problema causado pela altitude. Creio que ter vindo pela Bolívia e ter passado pela alta altitude de La Paz, tenha ajudado bastante em minha aclimatação. No ano anterior eu tinha passado muito mal no meu primeiro dia em Cusco, onde a altitude é um pouco mais de três mil metros. Continuei subindo a trilha em caracol e fui fazendo pequenas paradas, onde ao mesmo tempo aproveitava para descansar, observar a vista e tirar fotos. Teve um momento em que senti tontura e minha vista escureceu por alguns segundos. Na hora parei e procurei me sentar numa pedra, pois estava caminhando ao lado de um precipício. Respirei fundo e me senti melhor. Creio que o problema não tenha sido a altitude, mas sim o esforço físico com o estômago vazio, pois eu não tinha jantado direito e não comi nada pela manhã, em razão de não estar bem do estômago. No dia a dia eu não como nada pela manhã, apenas bebo um copo d’agua. Mas ali eu estava numa situação muito diferente do meu dia a dia, pois ali estava em alta altitude e fazendo um grande esforço físico. E ainda por cima tenho labirintite, que fica “atacada” na altitude. Logo me senti melhor, voltei a caminhar e não tive mais nenhum mal estar. De qualquer forma procurei ficar distante da beira do abismo.
Conforme fomos subindo em direção às montanhas nevadas, a paisagem foi ficando mais bonita. Logo estávamos caminhando ao lado das montanhas nevadas. trilha. Passámos por um pequeno lago, que deixava a paisagem muito mais bonita. O sol começou a castigar e o dia que tinha começado muito frio passou a ficar quente. Mesmo com calor mantive um casaco no corpo, pois o vento que vinha das montanhas nevadas era bastante gelado. Passei a caminhar um pouco com o Max, o argentino do grupo. Paramos tirar fotos em um local muito bonito, com grama e pedras e daí passou por nós o pessoal do grupo que não tinha aguentado caminhar e que pagou $ 100,00 bolivianos para percorrer de cavalo aquele trecho difícil da trilha. Que eu me lembre foram três ou quatro pessoas que seguiram de cavalo. Ao mesmo tempo em que fiquei contente por esse pessoal ter tido uma opção para atravessar a parte difícil da trilha, fiquei triste pelos cavalos, que devem ter sofrido bastante para subir a trilha com gente em cima.
Pouco antes das 11h00min chegamos finalmente ao ponto mais alto da trilha, os 4.600 metros de altitude. Eu tinha batido meu novo recorde de altitude, mas que não ia durar muito, pois logo eu chegaria à altitudes maiores na Bolívia dali uns dias. Esse ponto máximo de altitude ficava bem em frente a montanha Salkantay. Ali fizemos uma parada mais demorada e eu procurei me isolar um pouco e me sentei ao lado de uma grande pedra. Ali fiquei um tempo descansando e meditando. Também contei meus problemas e dilemas para uma pedrinha que peguei no chão e depois coloquei ela em cima de um dos muitos montes de pedras que estavam próximos. Isso de contar os problemas a pedrinhas e fazer pequenos montes de pedras é uma antiga tradição de que percorre trilhas pelo Peru. Logo o guia me chamou e fez uma reunião com todos, explicando a história do local. A montanha Salkantay é considerada uma montanha virgem, pois nunca atingiram o seu cume. A última vez que tentaram escalar a montanha já faz alguns anos, e foi uma expedição japonesa que acabou desaparecendo na montanha, atingida por uma avalanche. E por falar em avalanche, teve um momento em que escutei um ruído que pareciam fogos de artificio sendo estourados. Daí o guia falou que aquilo era barulho de avalanche do outro lado da montanha. Um tempo depois escutei o mesmo barulho, mas dessa vez mais forte. Olhei para a montanha e dessa vez o barulho era do lado em que estávamos. Era uma pequena avalanche, que ia levantando uma nuvem branca por onde passava e fazendo o tal ruído de fogos estourados. Achei tal imagem da avalanche linda e assustadora ao mesmo tempo.
Tiramos uma foto do grupo todo em frente a uma placa que indica a altitude do local e nos preparamos para continuar a trilha, dessa vez descendo. Segundo o guia o tempo naquele local muda muito e de uma hora para outra tanto pode começar a chover, quanto a nevar. Andamos ainda muito tempo tendo a nossas costas a montanha nevada de Salkantay. Vez ou outra eu parava e dava uma olhada para trás observando a beleza do lugar. Fiquei pensando se um dia voltarei ali novamente? Acho que não!! Cerca de uma hora após termos partido do ponto de altitude mais elevada, o tempo fechou e esfriou um pouco. Mais um tempo e chegamos ao local onde seria servido o almoço. Eu me sentia muito cansado e mal do estômago, então quando cheguei no local do almoço a primeira coisa que fiz foi tirar minha mochila e me deitar na grama. Mas não devo ter ficado nem um minuto deitado e começou a chover, uma chuva fina e gelada. Corremos para debaixo de um abrigo, que era uma cabaninha sem paredes laterais. Outra parte do pessoal e os cozinheiros correram para a lateral de uma pequena casa. O almoço foi servido e eu fiquei só olhando o pessoal, pois não conseguia comer. Só de pensar em comer eu me sentia ainda mais enjoado.
Após o almoço tivemos meia hora de descanso e logo tivemos que voltar à trilha. A chuva aumentou e alguns membros do grupo resolveram esperar um pouco para ver se a chuva diminuía. Eu coloquei minha nada discreta capa de chuva amarela e fiquei um tempo junto com o pessoal que esperava a chuva passar. Depois de meia hora de espera e vendo que a chuva não ia passar, eu, Alex e Florencia resolvemos seguir debaixo de chuva. No início foi meio complicado caminhar, pois tinha muito barro no caminho. Fizemos uma rápida parada em um local onde existe uma enorme pedra e em frente uma placa dizendo que aquele local era uma gruta. Ao lado tinha uma pequena casa de pedra, abandonada e que pelos vestígios deixados dentro dela, ultimamente tinha a função de banheiro. Voltamos a trilha e mais uma meia hora de caminhada a chuva cessou. Logo passámos a caminhar por uma estrada, no meio de uma floresta. De um lado muitas árvores e do outro um precipício, onde vez ou outra era possível ver um rio correndo lá embaixo.
Eu, Alex e Florencia seguimos caminhando juntos, sendo que algumas vezes eu me afastava um pouco dos dois, pois parava para tirar fotos. Logo a estrada virou uma trilha, que passou a ficar bastante empoeirada. Nem parecia que até pouco tempo atrás tínhamos caminhado sob chuva. Realmente o clima no local muda muito rápido. Quase no final da tarde passámos por um local onde uma placa dizia que ao lado existiam algumas ruínas antigas. Olhei por cima de uma cerca e vi somente uma porção de pedras semi soterradas. Eu já tinha conhecido muitas ruínas interessantes no ano anterior na Trilha Inca, então não senti vontade de parar no local para ver melhor aquelas poucas ruínas. Seguimos em frente e quase no final da tarde chegamos ao local do acampamento da noite. Ao lado de onde nossas barracas estavam montadas existiam algumas casas. Ao chegar ficamos sabendo que o italiano estava caminhando a frente do grupo sozinho e que passou direto pelo local do acampamento. Daí era possível vê-lo na estrada retornando ao local onde estávamos. Quando ele chegou ao acampamento todos que ali estavam ficaram rindo e pegando no pé dele.
Encontrei minha barraca e o suíço já estava lá alojado. Ele já tinha tomado seu banho de gato e estava descansando. Fiquei sabendo que no local tinha banheiro e chuveiro, mas que o banho era frio. Ou melhor, era gelado! Fui conversar com a Florencia e falei com ela sobre minha dúvida em tomar banho ou não. Ela então me respondeu que ela não precisava tomar banho, pois ela era francesa e as francesas são perfumadas por natureza. Caí na risada!!! Sei que enquanto estava na dúvida sobre tomar banho ou não, vi que a Florencia tinha decidido tomar banho. Então fui na porta do banheiro dar um apoio moral e emprestei meu chinelo do Corinthians para ela (chinelo que minha irmã me deu de aniversário). Sei que foi divertido ficar ouvindo os gritos dela que vinham do banheiro. Se a francesinha tinha tomado banho, eu é que não ia fugir da raia. Logo que a Florencia saiu do banheiro me enchi de coragem e fui tomar banho. O problema foi que ela demorou para devolver meu chinelo e tive que tomar banho descalço num banheiro sujo e gelado. Creio que num frio daqueles não corri o risco de pegar nenhuma frieira. A água era muito gelada e começar a molhar o corpo era algo que exigia muita coragem. Também dei uns gritos e logo estava de corpo inteiro debaixo da água. E como certas coisas na vida, o difícil é entrar, pois depois que entrou vai que é uma maravilha. Sei que ao sair do banho nem sentia frio do lado de fora, parecia que o dia estava quente. Nesse dia somente eu é a Florencia fomos os únicos corajosos que encaramos o banho frio. Mais ninguém tomou banho e apenas alguns poucos foram até um tanque de roupa e se limparam um pouco. Mas eu iria me arrepender amargamente desse banho nos próximos dias, pois foi aí que começou uma dor de garganta que me causou sérios problemas.
Após o banho fui negociar com a dona de uma das casas uma tomada para eu carregar uma das baterias da câmera. A mulher me emprestava uma tomada por uma hora, desde que eu comprasse algum dos produtos que ela vendia. Acabei comprando uma garrafa de água por $ 8,00 bolivianos. Na cidade uma garrafa igual custava $ 3,00. Os preços ali são mais altos, pois os produtos chegam quase sempre até o lugar em lombo de mula. Ao colocar o carregador na tomada a mulher foi me ajudar e sem querer passei meu nariz próximo ao cangote da dona. Cara, que fedor!!! Devia fazer muito tempo que ela não tomava banho, seja quente ou frio. Depois dessa experiência nada agradável, fui para a barraca descansar e quando já estava quase dormindo, alguém foi me chamar para jantar (não lembro quem foi). Eu continuava mal do estômago e achei melhor não jantar mais uma vez. Comi uns biscoitos do meu estoque e já estava pensando em me ajeitar para dormir, quando alguém foi me avisar que era aniversário do Peter, o suíço que era meu parceiro de barraca. Ele tinha trazido um litro de licor e um pacote de biscoitos suíços para comemorar a data. Fui até o refeitório para não fazer desfeita ao meu novo amigo. O mais difícil foi subir uma escada molhada de madeira que levava até o refeitório. E fui no escuro, pois descobri que minha lanterna tinha ligado sozinha dentro da mochila e que ficou sem bateria. Todo o pessoal estava na comemoração do Peter, que após um breve discurso fez um brinde. Eu não bebi o licor e dei o meu para o argentino. Mas fiquei de olho gordo nos biscoitos suíços, que pareciam apetitosos. E sou louco por biscoitos! Quando uma forma com os biscoitos passou pela minha frente, com a boca cheia de água peguei aquele que parecia ser o mais apetitoso. E com a boca ainda mais cheia de água dei uma bela mordida no biscoito. Quase quebrei o dente da frente! Que biscoito duro e ruim!!! Sei que escondi o que sobrou do biscoito no bolso e saí de fininho. No caminho até a barraca encontrei um cachorro faminto e dei a ele o que sobrou do biscoito. Só espero que o infeliz não tenha quebrado nenhum dente.
Fui escovar meus dentinhos no tanque e ao voltar vi uma cena que me fez rir muito. Pela primeira vez pude presenciar uma súdita da Rainha da Inglaterra escovando os dentes. E confesso que nunca na vida vi uma escovação dentária tão engraçada. A inglesinha (a loira) escovava um pouco os dentes estando em pé e então se abaixava até quase o chão para cuspir. E ao cuspir ela fazia um ruído com a boca que não tenho como descrever aqui, mas que era muito engraçado. E ao mesmo tempo em que ela cuspira e fazia tal ruído, ela dava um pulinho e jogava a cabeça para trás, além de fazer cara de nojo. Era uma cena ao mesmo tempo incomum, patética e muito engraçada. Nunca tinha visto algo igual! Não me aguentei e comecei a rir, ela percebeu, fez cara de brava, foi terminar de escovar os dentes em outro lugar e nunca mais olhou nos meus olhos ou me dirigiu a palavra (em inglês britânico) novamente. Tudo bem! Sou daqueles que perde o amigo, mas não perde a piada ou a chance de rir. Entrei na barraca, me deitei, comecei a ouvir música no MP4 e então começou a chover. Choveu a noite toda. Quem já dormiu em barraca com chuva sabe como é chato o barulhinho da chuva na barraca a poucos centímetros de seu rosto. Gosto de dormir com barulho de chuva batendo na janela! Já dormir com barulho de chuva batendo na barraca é muito chato!!!
No início da caminhada, frio de 3 graus.
Com o suíço Peter.
O sol deixou a paisagem ainda mais bonita.
Momento de descanso.
Caminhando perto das montanhas nevadas.
Alex e Max.
Tropa de mulas.
Lago nas alturas.
Trilha acima de quatro mil metros de altitude.
O grupo reunido no ponto mais alto da trilha, a 4.600 metros.
Acordei ás 3h00min, quando o Tiago saiu para ir rumo à Machu Picchu. Nos despedimos rapidamente, eu nem saí da cama. Meia hora depois levantei com muita dificuldade, me arrumei, acordei o carinha da recepção, deixei duas mochilas guardadas no depósito do hostal e saí. Fazia frio e eram um pouco assustadoras as ruas escuras e desertas de Cuzco naquele horário, mas felizmente tais ruas eram seguras. Cheguei em frente a agencia na qual comprei o pacote para a Trilha Salkantay ás 4h15min. Não tinha ninguém ali e temi que me esquecessem em razão do cara com quem comprei o pacote estar bêbado no dia anterior quando passei ali falar com ele. Esperei vinte minutos e apareceu um cara perguntando meu nome. Respondi e ele pediu para segui-lo até uma van estacionada ali perto. Entrei na van e vi quatro pessoas dentro dela. Dei um “hi” e me sentei. Seguimos até uma praça ali perto e após meia hora de espera os demais integrantes do grupo foram chegando, bem como alguns peruanos que seriam guias, cozinheiros e ajudantes. O dia estava começando a clarear quando partimos rumo ao local do início da trilha. Fazia muito frio, encostei a cabeça no vidro e dormi. Um tempo depois acordei quando estávamos em uma serra, cheia de curvas e eu quase caindo do banco. Me ajeitei um pouco melhor e voltei a dormir.
Eram quase 8h00min quando chegamos num pequeno povoado. Desembarcamos da van e entramos nos fundos de uma casa. Ali estava preparada uma mesa com o café. Tomei apenas um chá quente e fiquei observando os demais integrantes do grupo. O grupo era formado por 16 pessoas. Logo notei um cara sentado isolado e fui falar com ele, pois tinha certeza de que era brasileiro. E era mesmo! Alex, gaúcho de Porto Alegre. Começamos a conversar e uma loira veio falar conosco. Isabel, brasileira de Curitiba, mas morando em São Paulo. Ela estava junto com seu namorado, um francês. Começamos a conversar os três e então uma francesa veio conversar conosco em português. Florencia já morou na Bahia e por isso domina bem o português. Atualmente está morando na Guiana Francesa. Ficamos conversando os quatro e logo o guia nos chamou para fora, pois seriam pesadas as mochilas que as mulas levariam nos dois primeiros dias de trilha. Minha mochila pequena pesava justamente os 5 kg permitidos para serem levados pelas mulas. Nessa mochila seguiam alguns biscoitos e outras guloseimas. Conforme fosse consumindo tais coisas eu ia passando coisas da outra mochila para essa pequena e dessa forma o peso que eu teria que carregar nos próximos dias ia sendo reduzido aos poucos.
Após tudo pesado e ajustado nas mulas, seguimos para a praça em frente. Ao lado da praça estava funcionando uma pequena feira, onde o produto principal negociado eram batatas de várias qualidades. Os feirantes e moradores locais não deram atenção para nós, talvez já acostumados com as várias expedições que partem dali quase diariamente rumo a Trilha Salkantay. Tivemos uma breve reunião de apresentação no meio da praça e tiramos uma foto com o grupo todo reunido, inclusive com os peruanos que dariam apoio a expedição. Nosso grupo era formado por 3 brasileiros, 2 franceses, 3 ingleses, 3 canadenses, 2 israelenses, 1 suíço, 1 argentino e 1 italiano. Era um grupo bem eclético, mas nos próximos dias se mostraria bastante unido.
Começamos a percorrer os primeiros metros da Trilha Salkantay. Passamos por dentro da cidade e logo começamos a caminhar por uma estrada empoeirada, sempre subindo. A Trilha Salkantay não é tão famosa quanto a Trilha Inca (que fiz em 2011), mas é mais longa, tendo 82 km contra os 42 km da Trilha Inca. As duas trilhas são bem diferentes, pois enquanto a Trilha Inca é quase toda em calçadas e escadarias de pedra, passando por ruínas e antigas construções incas, a Salkantay passa por estradas, florestas, trilhas próximo a montanhas nevadas. A Inca é mais isolada, enquanto a Salkantay passa por pequenos povoados no meio da floresta e também tem um longo percurso por estrada e ao lado do trilho do trem. A Inca é uma trilha clássica e tem o número de caminhantes controlados pelo Governo Peruano, pois passa dentro de um parque nacional. Na temporada é preciso reservar seu lugar na trilha com bastante antecedência. Então a Salkantay acaba sendo uma opção para aqueles que chegam ao Peru e não conseguem lugar para percorrer a Trilha Inca. As agencias de turismo costumam “vender” a Salkantay como substituta e igual à Trilha Inca, mas as são muito diferentes. Aconselho a quem puder, que faça as duas trilhas igual eu fiz, pois são experiências totalmente distintas e inesquecíveis.
No início da caminhada segui ao lado da Florencia, conversando. Depois da primeira parada de descanso passei a caminhar com a Izabel, que é astróloga e me contou algumas coisas muito interessantes sobre o tema. Ela tinha feito a Trilha Inca dezessete anos antes e dessa vez como não conseguiu lugar para percorrer a Trilha Inca, resolveu fazer a Salkantay. Creio que quase todos do grupo estavam fazendo a Salkantay por não terem conseguido lugar na Trilha Inca. Acho que eu era a única exceção, pois tinha ido fazer a Salkantay por já ter feito a Trilha Inca dezesseis meses antes.
Os primeiros quilômetros de trilha me fizeram lembrar das caminhadas que faço no Brasil, pois andamos por estradas próximas a pequenos sítios, regiões de agricultura. E vez ou outra passava por nós algum carro ou pequeno caminhão. A manhã toda percorremos lugares parecidos e vez ou outra atravessávamos algum local de mata, mas sempre subindo. A cada meia hora em média fazíamos uma pequena parada para descanso. Eu caminhei quase sempre no final do grupo, às vezes sozinho, outras vezes iniciando um papo com alguém. Pouco depois do meio dia paramos num local descampado onde ao lado tinha uma pequena venda onde eram vendidos água, chocolate, refrigerantes e mais uma porção de coisas. Dali era possível ver ao longe uma montanha nevada, a qual seria nossa companheira na paisagem pelo resto do dia. Sentei numa pedra e comi alguns biscoitos. Daí apareceram dois cachorros e duas ovelhas, querendo um pedacinho dos meus biscoitos. As ovelhas logo foram para outro lugar, mas os cachorros permaneceram ali e dividi com eles um pacote de biscoitos. Cachorros vi aos montes enquanto estive no Peru e quase todos eram magros, com cara de famintos. Se para os moradores da região a vida é dura, para os cachorros é mais ainda, pois eles não tem comida garantida todos os dias. Me lembrei dos cachorros de casa que tem três refeições ao dia e que se uma delas atrasa, eles reclamam latindo sem parar. Os cachorros que vi no Peru tem uma verdadeira vida de cão!
Continuamos nossa trilha e após uma hora paramos no local destinado ao almoço. Ao passar pelo cozinheiro vi o mesmo provando a sopa colocando a concha na boca e devolvendo o que sobrou direto na panela. Vi que nos próximos dias eu ia sofrer com a comida! No ano anterior eu tinha passado mal na Trilha Inca por culpa da comida. Além da higiene precária, o que me deixou mal do estômago foram os temperos que o pessoal utiliza no Peru e também a água com a qual fazem à comida, que é vinda direto da montanha. Dessa vez eu me precavi um pouco e levei bastante comida, principalmente biscoitos, frutas secas, leite condensado e chocolate. Se eu visse que a comida servida para o grupo fosse me fazer mal, eu recorreria a meu estoque próprio. O almoço foi servido e logicamente recusei a sopa. E achei melhor não contar para os demais membros do grupo o que tinha visto o cozinheiro fazer com relação à sopa, pois podia causar um mal estar geral. Depois da sopa veio o prato principal, que estava muito bom. Era arroz, com tiras de carne frita e alguns legumes. Até me surpreendi com o sabor da comida e pensei em perdoar o cozinheiro por seus hábitos não muito higiênicos no preparo da comida. Lembrei que era domingo e enquanto comia olhei para o Alex, o gaúcho que estava na minha frente e contei a ele que domingo era dia de churrasco em casa. Ele disse que na casa dele também era. Então comemos aquele rango peruano pensando no churrasco brasileiro. Depois da comida foi servido chá de coca, o qual recusei, pois no ano anterior o chá foi um dos causadores de problema ao meu frágil estômago. Vale lembrar que o chá de coca, bem como as folhas de coca, são consumidos na região há muitos séculos. Eles bebem o chá para combater o mal de altitude, o frio e também para ganhar mais força e disposição. O chá não faz mal, não é droga. A cocaína é feita tendo como base à mesma folha de coca consumida há séculos, mas o diferencial é que fazem uma mistura com produtos químicos, o que causa o vício. Então não confunda as coisas e ache que tomar chá de coca tem o mesmo efeito que cheirar cocaína. O único detalhe é que se você fizer um exame de sangue após consumir chá de coca, pode aparecer traços de cocaína no resultado. Ficou famoso o caso do ex-goleiro Zetti, que num jogo da seleção brasileira na Bolívia foi pego no exame antidoping por consumo de cocaína, quando na verdade tinha consumido chá de coca para amenizar os efeitos da altitude.
Após o almoço descansamos um pouco e quase que me machuco sem querer. Ao lado de uma cerca de arame tinha alguns troncos de madeira encostados no arame. Um dos israelenses encostou num destes troncos sem perceber que os mesmos não estavam fixos ao arame. O resultado foi que se criou um efeito dominó, derrubando uns quatro troncos e o último por apenas alguns centímetros não caiu sobre meu querido pé direito. O tronco era tão pesado que tentei erguer o mesmo e não consegui. Por muito pouco que minha trilha não acaba logo no primeiro dia! Fui escovar os dentes e o suiço veio perguntar se no Brasil é hábito escovar os dentes após todas as refeições. Respondi que sim e ele disse que na região onde ele mora o costume é escovar os dentes somente pela manhã e ántes de dormir.
Pouco antes das 15h00min seguimos com nossa caminhada, dessa vez seguindo por uma estrada poeirenta e sempre tendo a frente à montanha nevada que vimos pela primeira vez pouco antes do almoço. Em algumas partes do lado direito da estrada surgiu um enorme preciício. Começou a fazer bastante calor e caminhar e ficou um pouco desgastante caminhar. Caminhei alguns quilômetros com o suíço do grupo, que falava bem o espanhol por já ter morado um tempo no México. Ele é triatleta e trabalha numa empresa de informática na Suíça. Costuma passar em média quatro meses ao ano viajando pelo mundo a trabalho, tendo visitado dezenas de países. Conversar com ele foi muito interessante e enriquecedor.
Conforme o final da tarde foi chegando, começou a esfriar. E outro motivo do frio é que estávamos nos aproximando cada vez mais da montanha nevada e o vento que vinha dela era congelante. A estrada poeirenta se transformou numa estrada larga e cheia de pedras. Passamos por um riacho e alguns lugares muito bonitos. Quase no final da tarde chegamos ao local onde passaríamos a noite. Era uma grande barraca feita de lona azul, de chão batido e eternit como telhado. Dentro dessa grande barraca, algumas barracas para três pessoas estavam montadas e seria nelas que dormiríamos. Quando cheguei no acampamento vi que ao lado tinha outra montanha nevada, tão bonita quanto à montanha que “seguimos” a tarde toda.
Na separação das barracas, acabei dividindo uma com o suíço. Era bem mais cômodo ficar em dois do que em três numa barraca. Arrumei minhas coisas na barraca, coloquei no chão um isolante que tinha sido disponibilizado aos caminhantes e sobre ele estiquei meu saco de dormir. Me espantou o quão frio era o chão e vi que o isolante não era grosso o suficiente para isolar tamanho frio. Ou seja, eu passaria um pouco de frio a noite. Antes de escurecer resolvi ir tomar um banho de gato, pois banho é uma de minhas prioridades, seja onde for. Peguei uma pequena toalha e fui até um local onde duas torneiras despejavam uma água muito gelada. Lá encontrei meu companheiro de barraca, o suíço. Ele também estava se lavando na água fria e me senti aliviado por isso, pois no ano anterior na Trilha Inca dividi a barraca com um argentino porquinho que fedia a noite na barraca. Após me lavar como dava e passar a toalha molhada no corpo, fui até a barraca e passei pelo corpo alguns lenços umedecidos e perfumados que levará. Apesar de sentir muito frio após tal processo de limpeza, a sensação de banho tomado era muito boa.
Pouco depois das seis todos se reuniram na mesa montada ao lado das barracas para tomar café. Tinha pipoca e meu café foi somente pipoca. O guia, Daniel, veio conversar comigo e vi que ele sabia um bom repertório de palavrões brasileiros. Conversei um pouco com a Florencia e fui até a barraca dela passar pomada e fazer massagem no pescoço dela, pois ela sentia muitas dores provavelmente em razão do peso da mochila que tinha carregado o dia todo. Em trilhas e outras situações parecidas é comum um ajudar o outro no que for preciso e possível. Logo fomos jantar e não consegui comer. O cheiro da comida me deixou enjoado e comecei a me sentir mal do estômago, possivelmente por culpa do almoço. Eram 7h30min quando a maioria do pessoal foi se ajeitar nas barracas para dormir. Fazia muito frio e ainda tive coragem de ficar um tempo do lado de fora vendo o céu e as estrelas. Estava uma noite muito bonita, com o céu repleto de estrelas. E ao lado as montanhas nevadas deixavam a noite ainda mais bonita. Foi mais um daqueles momentos inesquecíveis, onde fotos ou gravações não conseguem captar a beleza do momento. Tal beleza é possível de se guardar na memória apenas. Comecei a sentir muito frio e fui para minha barraca. Me enchi de blusas e entrei no saco de dormir. Enquanto me aquecia olhei no relógio e vi que eram 9h30min no Brasil. Lembrei que estava passando o Fantástico e que em casa naquela hora o pessoal deveria estar terminando de jantar o que sobrou do tradicional churrasco do almoço de domingo. Também lembrei que era aniversário de minha amiga Andrea C. e fiz uma breve oração por ela. Mesmo sabendo que ela não é lá muito cristã, sei que Deus estaria abençoando a vida dela naquele momento, em mais um aniversário que ela completava. E assim adormeci…
Levantei cedo, banho, arrumei algumas coisas numa pequena mochila para levar no city tour que faria pelo Vale Sagrado. Pouco antes das 8h00min eu e Tiago saímos do hostal e fomos até o centro. Ao passar pela frente da catedral vi que estava tendo missa e me chamou atenção algumas pessoas pedindo esmola na porta. O contraste era grande, na porta os pedintes e dentro altares de ouro. Demos uma pequena volta pela Plaza de Armas e fomos até o local marcado para pegar a van que faria o city tour. Não demorou muito e a van chegou. Embarcamos e logo o guia pediu para o Tiago descer e entrar num micro ônibus. Isso fez com que ficássemos separados durante todo o city tour. Fui no último banco da van, ao lado de uma peruana e sua filha. A mulher ficou olhando “torto” para mim. O restante do grupo era todo de peruanos, sendo um casal em lua de mel, uma mulher com dois filhos pequenos e sua mãe idosa e mais um grupo de amigos. Pelo que entendi eram todos de outras cidades do Peru e estavam conhecendo Cuzco. O guia pediu que todos falassem seus nomes e de onde eram e quando disse que era brasileiro, a peruana que me olhava torto ficou toda derretida, me disse que sonhava em conhecer o Brasil, que achava os brasileiros maravilhosos.
Saímos da cidade e seguimos por uma estrada muito bonita, passando por montanhas e alguns vales. Logo fizemos uma rápida parada, num local cheio de barraquinhas com vários produtos de artesanato. O pessoal foi fazer compras e eu fiquei num canto esperando, pois além de não gostar desses locais de compras para turistas, eu estava com minhas mochilas cheias e não podia comprar nada, pois não tinha onde colocar. E cada coisa a mais que eu comprasse era um peso a mais para carregar nas costas, então não pretendia comprar nada ali ou em outro lugar.
Após meia hora o guia chamou todos de volta a van e a senhora que estava ao meu lado e sua filha se atrasaram. Quando apareceram estavam cheias de compras. Pelo que entendi elas estavam mais interessadas em fazer compras em Cuzco do que conhecer a cidade e as atrações da região. Elas eram de Lima, a capital e acho que alguns dos produtos que estavam levando era para vender lá em Lima. Seguimos com o passeio e fizemos uma rápida parada num mirante, de onde se tinha uma bela vista do Vale Sagrado. O vale tinha esse nome mais por se tratar de um local bonito e dedicado à agricultura, do que por razões religiosas ou sagradas. Após algumas fotos embarcamos novamente na van e seguimos com nosso tour. A senhora de idade que fazia parte do grupo começou a passar mal e sua filha ficou cuidando dela. E durante todo o tour a tal senhora passou mais tempo gemendo dentro da van do que aproveitando algum passeio.
Chegamos à entrada do parque nacional de Pisaq, que são ruínas espalhadas por uma montanha. O guia perguntou quem tinha o tíquete que dava direito a entrar em Pisaq e em outras atrações. Quase ninguém tinha e ele se disponibilizou a comprar os tíquetes. O preço era $ 80,00 soles. Disse a ele que eu mesmo preferia comprar o meu tíquete. Descemos todos da van e fui comprar o tíquete de um dia por $ 70,00 soles. Sempre fico esperto com guias turísticos, seja onde for, pois eles sempre dão um jeito de ganhar alguns trocados ás custas de turistas, seja ganhando comissão nas lojas e restaurantes onde leva os turistas, ou então intermediando algum serviço. O trabalho que o guia teve para comprar os tíquetes foi recolher o dinheiro na van, descer, andar cinco metros e ir na bilheteria que nem fila tinha. Pelos meus cálculos ele levou uns $ 60,00 soles da galera, somente nessa compra de tíquetes. O detalhe é que no tíquete vinha impresso o valor de $ 70,00 soles e não vi ninguém reclamar com o guia por estar pagando mais caro. Fiquei na minha, pois o problema não era meu, eu me preocupava com o meu dinheiro e se os demais não estavam nem aí por pagar mais caro pelas coisas o problema era deles.
Entramos em Pisaq e fomos seguindo por uma trilha, passando por algumas ruínas e fizemos uma parada onde o guia contou a história do local. Depois seguimos para um outro local, onde no alto de uma pequena montanha era visível algumas ruínas. A vista do local em geral era muito bonita. Pedi para o guia autorização para fazer o passeio sozinho por ali, pois ficar andando em grupo atrás do guia não faz o meu gosto, prefiro seguir sozinho, indo onde sentir vontade. O guia disse que tudo bem, apenas me alertou para o horário que eu deveria estar na saída do parque para não perder a van. Acho que ele ficou aliviado em me ter longe do grupo, talvez com medo de eu contar ao pessoal que ele tinha cobrado mais caro pelos tíquetes. Acabei encontrando a Marcelle e a Neusa, que são do grupo de Londrina. Conversamos um pouco e tiramos fotos juntos. Logo apareceu a Heverly com o restante do grupo de Londrina. Era a segunda vez que nos encontrávamos sem querer. O grupo de Londrina seguiu para outro local e eu fiquei andando sozinho por Pisaq. Acabei encontrando o Tiago, que chegava com seu grupo. Como estavam em um micro ônibus, o grupo dele sempre estava atrasado com relação ao meu, pois na van éramos mais velozes na estrada. O Tiago seguiu com o seu grupo e eu fui para a saída do parque, onde encontrei o meu grupo e embarcamos todos na van.
Seguimos com o tour e paramos num pequeno povoado, cujo nome não lembro. O local era cheio de lojinhas de artesanato. Mais uma vez encontrei a Heverly, sem querer, no meio de uma ruela. Fui com ela até o ônibus do pessoal de Londrina e ela me deu de presente uma foto, que tinha sido tirada em Cuzco no dia que nos encontramos pela primeira vez. O fotógrafo era da cidade e tirou a foto sem nós vermos. Ela acabou ficando com o presente e ia me mandar pelo correio quando chegasse ao Brasil, pois se eu ficasse com a foto ia acabar amassando em razão de carregá-la na mochila por muito tempo. O pessoal de Londrina seguiu seu tour e eu voltei para encontrar meu grupo. Acabei me perdendo nas ruas estreitas do povoado e só encontrei o caminho correto ao observar as montanhas em volta e conseguir me localizar. No caminho um morador local me chamou de brasileiro e na hora não entendi como ele tinha descoberto isso. Somente mais tarde é que me dei conta de que a camiseta que estava usando tinha uma pequena bandeira do Brasil pregada na barra direita.
Eram quase 14h00min quando paramos num restaurante no pequeno povoado de Urubamba. Eu não pretendia comer a comida local, da qual vinha fugido e muito menos naquele restaurante para turistas, onde certamente a comida seria pouca, ruim e cara. E o guia ia levar uma bela comissão. Avisei o guia que não ia comer ali e que voltava em uma hora, que seria o tempo que o pessoal ficaria ali. Ele disse que tudo bem e parecia preferir que eu ficasse cada vez mais longe do grupo. Caminhei um pouco, encontrei a avenida principal e fui caminhar por ela. O povoado era pequeno e muito organizado. Fui subindo pela avenida e observando as pessoas, as casas, as lojas, as montanhas em volta. Me chamou atenção os táxis, que na verdade eram motos com um largo banco atrás e uma capota. Outra coisa que me chamou atenção foi ao passar em frente a uma casa funerária e ver alguns caixões. Eles tem vidro em cima e nas laterais, ou seja, você pode ver o defunto pelos lados. Nunca tinha visto algo igual! Fui até o final da avenida e resolvi retornar. Ao passar em frente a um confeitaria o meu fraco por doces falou mais alto e entrei. Escolhi uma torta de chocolate recheada com doce de leite, que junto com um sorvete foi o meu almoço do dia. A torta estava deliciosa e só não comi outra por que não tinha espaço no estômago, seria gulodice comer outra. Vi que já tinha se passado quase uma hora desde que saíra do restaurante e resolvi voltar para junto do meu grupo.
Chegando no restaurante o pessoal já estava embarcando na van e ouvi alguns reclamando que a comida tinha sido pouca e o preço caro demais. Mais uma vez eu tinha acertado em não ficar junto ao grupo. Já viajei muito, tanto sozinho como em viagens guiadas e aprendi que ir nos lugares que o guia indica é furada, pois sempre são locais caros e nem sempre de boa qualidade. E que o guia sempre está ganhando alguma grana por levar os turistas nesses locais. Tudo bem, esse é o ganha pão dele, mas deixo que ele ganhe a vida em cima dos outros turistas menos avisados e não em minhas costas.
Seguimos para a próxima parada do tour, que seria o povoado de Ollantaytambo. Eu já conhecia esse povoado, pois foi ali a última parada antes de iniciar a Trilha Inca no ano anterior. Apenas não tinha conhecido as ruínas que ficam em montanhas em volta do povoado. Acho o lugar muito legal e foi bom retornar ali. Desembarcamos na entrada das ruínas e encontrei novamente o pessoal de Londrina, que tinha acabado de chegar ali. Pedi autorização ao guia para fazer o passeio pelas ruínas junto com meus amigos brasileiros e ele autorizou na hora.
Fiz todo o passeio com o grupo de Londrina, ouvindo as explicações da guia deles, que era muito melhor que o guia do meu grupo. Passei a maior parte do tempo junto com a Heverly e a Marcelle. A Marcelle sofria um pouco com as descidas de escadarias, um pouco por medo, outro pouco por se sentir mal. Ficamos cerca de uma hora fazendo o tour pelas ruínas de Ollantaytambo e o mais legal era a vista lá do alto, tanto a vista das montanhas em volta, quanto à vista do povoado lá embaixo. Ao me despedir dos amigos de Londrina, mais uma vez combinei com a Heverly de nos encontrarmos na Plaza de Armas a noite para irmos comer uma pizza juntos. O pessoal de Londrina foi embora e eu reencontrei o meu grupo. Embarcamos na van e mais uma vez ficou faltando à senhora de Lima e sua filha. Uns quinze minutos depois elas apareceram cheias de sacolas. Nem tinham feito o passeio pelas ruínas, apenas tinham ficado fazendo compras nas várias barracas de artesanato do local. Definitivamente o motivo da viagem delas não era cultural, mas sim comercial. E a senhora de idade estava cada vez passando mais mal e a filha dela pediu para a senhora de Lima e sua filha trocarem de lugar com ela, pois queria que a senhorinha seguisse deitada. O resultado de tal troca foi que fiquei espremido num canto com a senhorinha doente deitada ao meu lado e gemendo cada vez mais alto.
Seguimos para o próximo destino, que era um pequeno povoado chamado Chinchero. A estrada até lá era muito bonita e era possível ver algumas montanhas nevadas. O motorista da van mais uma vez mostrou ter o pé pesado e que gostava de ultrapassar em curvas. Chegamos à Chinchero no final da tarde e tive enorme dificuldade para descer da van em razão da senhorinha doente estar deitada nos bancos ao meu lado. Mais uma vez preferi andar sozinho pelo povoado do que ficar seguindo o grupo e o guia. O que mais gostei foi da igreja do local, que é muito antiga e dentro tem uma infinidade de imagens, quadros e outros tipos de enfeites. Nunca vi nada igual e infelizmente não era permitido tirar fotos dentro da igreja. Dei mais uma volta por algumas ruínas próximas à igreja e entrei num pequeno museu. A noite chegou de vez e com ela o frio aumentou. Logo voltei para perto da van e fiquei esperando o pessoal das compras retornar. Ao lado uma mulher vendia milho cozido. Era um milho local, gigante. Fiquei na dúvida sobre comprar ou não uma espiga. O cheiro estava muito bom! Depois de observar por alguns minutos os cuidados higiênicos da vendedora de milho, desisti, pois comer um milho daqueles seria diarréia na certa. O pessoal retornou e fomos embarcar na van. A velhinha doente, sua filha e netos tinham desaparecido! O guia disse que embarcaram em outra van, pois não iam voltar a Cuzco, mas sim seguiriam de trem para Águas Calientes. Sinceramente não sei se a senhorinha chegou viva ao fim da viagem.
Chegamos à Cuzco às 19h15min. Desembarquei perto da Plaza de Armas, dei um tchau geral a todos e fui na agencia onde tinha comprado o pacote para a Trilha Salkantay, para acertar os detalhes do dia seguinte. Chegando lá encontrei o cara que me vendeu o pacote, ele estava completamente bêbado e não disse coisa com coisa. Era para eu estar em frente a agencia às 4h00min da manhã. Saí da agencia com receio de que o cara não se lembrasse do horário e do local que tinha marcado para eu encontrar o grupo da Trilha Salkantay.
Dei uma volta pelo centro da cidade e comprei algumas coisas para levar na trilha. Entre as compras uma lanterna de cabeça, alguns biscoitos, chocolate e pequenas latas de 100 ml de Leite Moça. Acabei comprando também uma mochila. Eu tinha levado uma mochila grande, de 70 litros e duas pequenas. Mas na trilha o ideal seria levar um mochila média, a qual eu teria que carregar e uma pequena com até 5 kg, que seria transportada por mulas nos dois primeiros dias. Voltei para o hostal, tomei banho e me arrumei para sair. Passei na recepção e deixei pago e reservado uma vaga num quarto coletivo para quando voltasse da trilha, dali quatro dias. Aquela seria minha última noite dividindo quarto com o Tiago, pois a partir do dia seguinte cada um seguiria para um destino diferente. Quando estava saindo o Tiago estava chegando do city tour. Ele comentou que tinha passado na agencia para acertar detalhes sobre sua ida para Machu Picchu no dia seguinte e que o guia estava bêbado. Ri do comentário dele e disse que também tinha falado com o guia bêbado.
Fui para o centro e fiquei uma hora no frio da Plaza de Armas tentando encontrar a Heverly. Pelo jeito é mais fácil nos encontrarmos por acaso, pois das vezes que marcamos algo não dá certo, nos desencontramos. E não foi somente no Peru que nossos encontros não dão certo, pois lembrei que meses antes ela tinha me dado um cano em Londrina. KKkkk… Desisti de encontrar a Heverly e da pizza e fui comer um lanche no Bembo’s. Em seguida voltei ao hostal, onde arrumei as coisas que ia levar para a Trilha Salkantay em duas mochilas, a média nova e numa pequena. E na mochila grande e na outra pequena, coloquei tudo o que não ia levar na trilha. Essas mochilas ficariam guardadas até minha volta em um depósito no hostal. Antes de dormir descobri que o terceiro quarto que tínhamos ocupado em dois dias no hostal, também estava sem água. O tal Hostal Samanapata era uma bela droga! Logo fui para a cama quentinha e aproveitei para dormir no conforto que não teria nos próximos dias na trilha, dormindo em barraca.
Contraste: pedintes na porta e altares de ouro.
Centro de Cuzco.
No Vale Sagrado.
Vale Sagrado.
Ruínas de Pisaq.
Pisaq.
Em Pisaq, com Tiago.
Em Pisaq, com as londrinenses Marcelle e Neusa.
Num povoado que esqueci o nome.
No centro de Urubamba.
Confeitaria onde almocei em Urubamba.
Peruanitas em Ollantaytambo.
Ruínas de Ollantaytambo.
Fazendo o tour por Ollantaytambo com o pessoal do Londrinapé.
Chegamos à Cuzco pouco depois das 5h00min. Fazia frio e o desembarque na rodoviária foi tranqüilo. Logo que desembarcamos, eu e Tiago fomos abordados por um cara que dizia ser dono de um hostal. Resolvemos ir para o hostal dele, pois pelo folder que ele nos mostrou parecia ser bom e o preço não era ruim. Embarcamos num táxi e fomos até o centro de Cuzco, na parte alta, onde ficava o hostal. Logo fomos para um quarto com duas camas. Ao entrar no quarto constatamos que ele não era bem como mostravam as fotos do folder, mas já que estávamos ali era melhor ficar. Estavámos cansados, fazia frio e logo fomos para as camas dormir.
Acordamos às 8h30min e descobrimos que nosso quarto não tinha água. Após uma rápida conversa na portaria, mudamos para outro quarto. Tomei um delicioso banho quente e fui dar uma olhada na parte dos fundos do hostal, de onde se tinha uma bela vista de parte da cidade.
Eu e Tiago saímos e fomos dar uma volta pelo centro da cidade e também pela região da Plaza de Armas. Tiramos fotos e fomos para uma região mais afastada, próximo ao Mercado Municipal. Nessa região funcionavam os açougues da cidade e o que vimos era um pouco assustador. As carnes e frangos ficavam em exposição nas portas ou em mesas na frente dos estabelecimentos, tudo sem refrigeração. Andamos mais um pouco pela região e também vimos gente vendendo carne no chão, em cima de um saco. Ao passar em frente a um estabelecimento vimos uma mulher tirando de dentro de um porco morto, um punhado de fezes com a mão e jogando na rua. Eu que já não pretendia comer em qualquer lugar enquanto estivesse no Peru, depois do que vi é que não ia comer carne onde quer que fosse. Tiramos algumas fotos, andamos mais um pouco pelo centro e então fomos pesquisar preços em algumas agencias de turismo. O Tiago queria saber preços para Machu Picchu e eu para a Trilha Salkantay. Entramos em algumas agencias e vimos que os preços não mudavam muito de uma para outra. Então fomos num escritório de informações turísticas que funciona bem no centro da cidade. Ali fomos informados que não podiam indicar agencias, mas que podíamos ir até lá com os nomes das agencias que tínhamos escolhido para ver se eram agencias autorizadas, ou se constavam da lista negra com alguma reclamação registrada.
Fomos a mais algumas agencias, pesquisamos preços, anotamos os nomes e retornamos ao centro de informações turísticas, para ver se elas tinham alguma reclamação registrada. Descobri que a agencia com a qual queria fechar a Trilha Salkantay tinha um reclamação registrada em setembro de 2011. O Tiago comprou no centro de informações um ingresso que dá direito a alguns passeios e entrada em museus. Pagou $ 110,00 soles por tal ingresso. Em seguida fechou com uma agencia um city tour pela cidade. Eu preferi não fazer tal city tour, pois já conhecia do ano passado parte dos locais por onde o city tour passaria.
O Tiago seguiu para o city tour e eu fui almoçar no Bembo’s que fica em frente a Plaza de Armas. O Bembo’s é uma rede peruana de fast food. Os preços são um pouco menores que o Mc Donald’s, que fica do outro lado da Plaza de Armas, mas minha escolha se deu em razão das opções de comida serem diferentes. Escolhi um prato com ovo frito e batatas fritas que estava muito bom. Após almoçar voltei ao hostal e separei algumas roupas sujas. Daí fui numa lavanderia próxima e deixei a roupa para lavar. Me cobraram $ 3,00 soles para lavar e passar 1 kg de roupa, que estaria pronta no final da tarde. Voltei ao hostal e descansei um pouco.
No meio da tarde resolvi sair, mas antes fiz uma “limpeza” em minha carteira, pois estava com dinheiro de quatro países diferentes. Guardei as notas de real, de bolivianos e algumas de dólar. Fui para o centro da cidade e ao passar ao lado da catedral vi minha amiga Heverly sentada na escadaria da igreja. Ela é de Londrina e estava em Cuzco junto com um grupo do Londrinapé Caminhadas. Foi uma grata coincidência encontrá-la ali. Eu sabia que o grupo estaria no Peru por aqueles dias, pois iam fazer a Trilha Inca. Após conversar um pouco com a Heverly e contar as novidades, fui andar um pouco com o grupo de Londrina, pois eles estavam com um guia fazendo um city tour pela cidade. Após meia hora eles embarcaram em um ônibus para continuar com o city tour e eu fui andar mais um pouco pela cidade. Combinei com a Heverly de nos encontrarmos a noite na Plaza de Armas para irmos comer uma pizza.
Caminhei um pouco pelo centro da cidade, usei internet, comi um empanada, olhei algumas lojas de artesanato e finalmente resolvi fechar a Trilha Salkantay com um agencia em frente a Plaza de Armas. O cara da agencia falava bem o português em razão de sempre atender clientes brasileiros. Fechei o pacote de quatro dias para a trilha por U$ 200,00 com tudo incluso; transporte, alimentação, guia, passagem de trem na volta, entrada para Machu Picchu. Aproveitei e também fechei por U$ 24,00 um tour pelo Vale Sagrado para o dia seguinte. Voltei para o hostal no final da tarde e no caminho passei pegar minha roupa na lavanderia. Estava tudo limpinho e passado, até meias e cuecas.
O Tiago chegou do city tour no começo da noite e contei a ele que tinha acabado de descobrir que o novo quarto também não tinha água. Ele desceu para reclamar na recepção e logo nos mandaram ir para outro quarto, no andar de baixo. Nos ajeitamos no novo quarto, tomamos banho e saímos. Fomos para o centro e após caminhar um pouco pela região da Plaza de Armas, o Tiago foi lanchar numa suqueria e eu no Bembo’s. Nos encontramos novamente e fomos dar mais um volta. Entramos num museu onde estava tendo um evento folclórico, com alguns músicos. Não nos demoramos ali e fomos andar mais um pouco. Logo nos separamos e enquanto o Tiago voltou para o hostal eu fui tentar encontrar a Heverly. Nos desencontramos e esperei por ela durante uma hora, até que resolvi voltar ao hostal, pois estava ficando muito frio. No hostal fiquei um pouco usando a internet e logo fui dormir, pois no dia seguinte teria que levantar bem cedo.
PS: Para saber mais sobre a cidade de Cuzco, acesso o link abaixo, que é do próprio Blog e foi postado em janeiro de 2011 quando de minha visita anterior à cidade.http://vanderdissenha.wordpress.com/2011/01/28/cuzco/
Vista de Cuzco a partir dos fundos do hostal onde fiquei.
Frangos a venda.
Minha carteira com dinheiro de quatro diferentes países.
Acordei às 5h42min quando o ônibus fez uma parada na estrada, para o pessoal fazer um xixizinho. Desci do ônibus também e o local da parada era ao lado de um precipício. Homens de um lado, mulheres do outro, tudo muito organizado, um não olhava para o outro. Também que graça tem ver alguém fazendo xixi? Fazia muito frio, quando voltei para minha poltrona olhei no meu termômetro e fazia 7 graus. Me ajeitei dentro do saco de dormir e logo fiquei aquecido novamente. Fiquei um tempo vendo o sol nascer por trás de umas montanhas, uma imagem muito bonita. Logo peguei no sono.
Às 8h20min nova parada, dessa vez numa pequena cidadezinha a beira da estrada. Ao lado tinham alguns banheiros, onde se pagava $ 1,00 boliviano para usar. A descarga nos banheiros era despejar um balde com água após fazer o “serviço”. Tal método acabei vendo muitas outras vezes na Bolívia. Alguns passageiros ou por falta de dinheiro, ou por não se importarem em utilizar algum banheiro, foram fazer suas necessidades num terreno baldio ao lado. Algumas cholas (indígenas bolivianas que usam roupas típicas) tinham um método interessante, pois como usam grandes saias, elas se abaixavam em qualquer lugar para fazer suas necessidades e seguravam a saia de uma forma que ninguém visse o que estavam fazendo agachadas. Dei uma olhada no local onde o pessoal tomava café, mas não deu coragem de entrar, era muito sujo. Se bem que não costumo tomar café da manhã, então aproveitei o tempo de parada para me aquecer ao sol.
Quando comprei a passagem o vendedor disse que chegaríamos a La Paz às 8h00min em ponto. Falei com o motorista e ele me disse que o horário de chegada seria ao meio dia. Bem que eu tinha desconfiado que o vendedor estivesse mentindo em alguma coisa. Nas horas seguintes o ônibus se transformou numa espécie de pinga-pinga, parando em muitos lugares e gente embarcando. Quem embarcava ia sentando nas escadas, no chão dos corredores. Fui observando a paisagem pela janela do ônibus. Tudo era meio deserto, com muitas pedras e poeira. Algumas pequenas casas, bem simples feitas de barro era o que diferenciava um pouco a paisagem. Conforme fomos nos aproximando de La Paz, foram surgindo casas simples, lojas, algumas fábricas. A periferia de La Paz era suja, feia.
La Paz era a sexta capital de país que fico conhecendo. O detalhe é que não conheço Brasília, a capital do meu país. E não faço questão de conhecer, acho Brasília uma cidade feia e não curto arquitetura moderna. Se for a Brasília um dia será meramente por questões profissionais ou outras, mas a turismo para conhecer a capita brasileira, jamais. La Paz é a capital em altitude mais alta no mundo. Na verdade a cidade foi construída num canyon, um verdadeiro buraco. A parte alta da cidade, El Alto fica pouco acima dos 4.000 mil metros e a parte baixa fica a 3.700 metros. Chegamos pela parte alta e logo começamos a descer e descer. É impressionante essa diferença de altura dentro da mesma cidade. Em volta da cidade, numa distância não muito grande é possível ver o Illimani, uma montanha nevada com mais de 6.000 metros. La Paz foi fundada em 1548 e sua população atual é de pouco mais de um milhão de habitantes, sendo quase metade de origem indígena.
Desembarcamos em frente à rodoviária, o que confirmou minha suspeita de que a empresa pela qual viajei era pirata e não tinha autorização para entrar na rodoviária fazer o desembarque dos passageiros. Peguei minhas coisas e logo entrei na rodoviária. Estava começando a sentir os sintomas do soroche, o mal de altitude. Quanto maior a altitude, menos oxigênio temos para respirar e em conseqüência sentimos dor de cabeça, tontura, enjôo, ficamos ofegantes por qualquer esforço que fazemos, por menor que seja. Eu já conhecia esse mal da viagem no ano anterior ao Peru. Comecei a sentir muita dor de cabeça e resolvi tomar uma das soroche pills que tinha levado e também algumas aspirinas. Isso aliviou um pouco a dor.
Dei uma volta pela rodoviária pesquisando preço de passagens até Cusco. Achei um local para trocar dólares por bolivianos. O câmbio ali também estava bom, U$ 1,00 valia $ 6,95 bolivianos. Acabei encontrando meus amigos japoneses. Eles precisavam ir até um determinado endereço no centro da cidade para alterar algumas passagens aéreas. Negociei com um taxista para levá-los até o tal endereço por $ 10,00 bolivianos. Nos despedimos, tiramos uma foto juntos e voltei para dentro da rodoviária. Fui dar mais uma pesquisada nos preço das passagens e acabei encontrando um brasileiro, Tiago, carioca de Niterói. Conversamos um pouco, ele também ia para Cusco e acabamos comprando passagem na mesma empresa. Pagamos $ 150,00 bolivianos na passagem. O Tiago saiu dar uma volta e eu fui procurar algo para comer. Dei uma volta fora da rodoviária, mas não encontrei nada que desse coragem de comer. Voltei para a rodoviária e depois de olhar todos os pequenos botecos e lanchonetes, resolvi comer um sanduíche de queijo e presunto. Até que estava gostoso acompanhado de uma Coca Cola sem gelo. Tanto na Bolívia quanto no Peru é raro encontrar refrigerante gelado, eles costumam servir o refrigerante a temperatura ambiente.
Comprei dois sanduíches onde tinha lanchado, eles seriam minha janta na viagem. Reencontrei o Tiago e logo fomos para o embarque. Antes tive que ir comprar um tíquete que é a taxa de embarque da rodoviária. Essa prática de descobrir na hora de embarcar que você tem que comprar tal tíquete se tornaria comum tanto na Bolívia quanto no Peru. O embarque foi rápido, o ônibus não era dos melhores, mas as poltronas era confortáveis. Não estava cheio e os passageiros eram todos estrangeiros, aquilo parecia uma Babel. Teve serviço de bordo, mas não encarei o sanduíche que serviram, fiquei apenas com um saquinho de suco de maçã.
Como o ônibus estava vazio arrumei uma poltrona para ir sozinho, pois seria mais confortável. Conversei um bom tempo com o Tiago, ele contando como tinha sido sua visita à região do salar. Logo começou a escurecer e pela janela do ônibus foi possível ver um belo pôr do sol. Um tempo depois paramos num posto de fiscalização e um policial subiu no ônibus e perguntou de quem era a mala com número tal (que estava no tíquete de embarque) e o dono da mala teve que descer e acompanhar a revista da mala. Tal procedimento se repetiu mais duas vezes e felizmente não fui um dos sorteados para ter a bagagem revistada. A viagem seguiu e depois de duas horas nova parada, dessa vez na fronteira com o Peru. Desembarcamos do ônibus e seguimos a pé, passamos pela fiscalização boliviana e atravessamos a fronteira caminhando. O local era numa pequena cidade, muito feia e suja. Na fiscalização peruana um cara veio com a guia obrigatória para preenchimento e pediu meus dados para preencher. Eu mesmo podia preencher tal guia, mas resolvi deixar o tal cara preencher, pois vi que aquele era o ganha pão dele. Pelo serviço lhe dei $ 5,00 bolivianos. Passaporte carimbado e saí com o Tiago à procura de nosso ônibus. Tinha orientação de amigos para tomar cuidado com os guardas peruanos, pois se der bobeira do lado de fora eles chamam você para entrar na salinha deles e tentam te extorquir, principalmente se você tiver dólares. E se for brasileiro pior ainda, pois são as vitimas preferências dos guardas. Encontramos nosso ônibus e ficamos perto da porta esperando a ordem de embarque. Daí vimos que um cara entrou no bagageiro e meio que se trancou lá dentro. Ficamos assustados, achando que era algum guarda ou outra pessoa mexendo nas bagagens para furtar alguma coisa. Depois ficamos aliviados quando descobrimos que era um outro motorista e que tinha entrado no bagageiro para trocar de roupa.
Seguimos viagem e optei por ir sentado na última poltrona. Peguei uma das mantas que estavam disponíveis para os passageiros, meu MP4 e fiquei ouvindo música e olhando o céu. A noite estava bonita, cheia de estrelas. Fiquei um bom tempo assim, olhando o céu, ouvindo música e pensando na vida. Passamos por algumas pequenas cidades e fiquei observando as casas, lojas, as pessoas na rua… E logo adormeci, em terras peruanas, em minha segunda vez no país.
O dia amanheceu e quando deu 7h00min resolvi sair do aeroporto. Tinham alguns táxis em frente e fui perguntar o preço da corrida até a Estação Bimodal, no caso Rodoviária, mas que tinha esse nome de “bimodal” por ser ao mesmo tempo estação de ônibus e de trem. O preço era o mesmo em todos os táxis que perguntei; 50 bolivianos o que dava uns R$ 18,00. Então embarquei num táxi que era bastante velho, mas espaçoso. Estava com muito sono e não demorou muito para eu dormir. Um tempo depois acordei bruscamente com o barulho de uma freada e os xingamentos do taxista. Olhei para o lado e um outro carro por muito pouco não tinha batido no meu lado da porta. O trânsito era caótico e a buzina bastante utilizada. Ninguém usava seta ou dava preferência aos outros motoristas quando necessário. Aquilo me fez lembrar do trânsito de Lima, no Peru. E também me fez sentir saudade dos motoristas barbeiros de Campo Mourão. Olhei no relógio e vi que já tinha se passado 20 minutos desde que saímos do aeroporto. O sono continuava me chamando e resolvi me entregar de vez a ele. Acordei quando estávamos chegando ao Terminal Bimodal. Foram 45 minutos de viagem até ali. Desci do táxi, peguei minhas mochilas (uma grande e duas pequenas) e fui em direção ao Terminal. O local era feio, sujo, cheio de ambulantes e de pessoas berrando tentando vender passagens para vários lugares.
Dentro do Terminal também era tudo estranho, escuro, sujo e nem de longe lembrava as rodoviárias brasileiras. Vendedores de passagens tentavam te laçar literalmente. Andei de uma ponta a outra do Terminal vendo as placas das agencias e tentando descobrir se alguma empresa tinha ônibus direto de Santa Cruz até Cusco, no Peru. Não encontrei nenhuma e após me informar, me foram indicadas duas agencias. Fui até elas e achei caro o preço, queriam cobrar U$ 70,00 e ainda tinha que fazer uma longa parada em La Paz. Achei melhor comprar passagem direto para La Paz e lá comprar outra para Cusco. Após pesquisar um pouco acabei comprando a passagem na empresa San Miguel, que me pareceu confiável e o preço era equivalente a R$ 50,00. O vendedor foi bastante atencioso, o que me deixou meio com o pé atrás, pois prometeu mundos e fundos e algo me dizia que não seria bem como ele estava prometendo. De qualquer forma eu não tinha outra opção. Eram quase 11h00min no horário local, que é de uma hora a menos que no Brasil. Meu ônibus sairia somente às 17h00min, então resolvi me sentar e pensar no que fazer com o tempo livre que teria até o horário do embarque. Fiquei observando quem passava e vi um rapaz com jeito de ser brasileiro, mas a moça que estava com ele não tinha nada de brasileira. Fiquei mais um tempo sentado olhando quem passava para ver se via algum outro brasileiro perdido por ali. Logo me cansei e resolvi dar uma volta. Num canto no Terminal vi novamente o casal que tinha visto há pouco. Eles conversavam com um casal japonês. Ao passar por eles o rapaz se abaixou e vi na parte de cima da aba de seu chapéu uma bandeira do Brasil bordada. Parei e puxei conversa. O nome do rapaz era Caíque, ele é de São José dos Campos – SP. A moça que estava com ele era francesa, Julie. Ela trabalhava até pouco tempo atrás na Embaixada Francesa em Brasília e antes de retornar a França estava passeando um pouco pela América do Sul. Eles se conheceram no dia anterior, dentro do trem da morte, que seguia da fronteira entre Brasil e Bolívia até Santa Cruz de La Sierra. O casal de japoneses; Yukari e Yoshikatsu eles conheceram no trem. Os japoneses estavam em lua de mel e faziam três meses que viajavam pelo mundo. Conversamos um pouco e decidimos deixar nossas mochilas no guarda volumes e sair dar uma volta pela cidade. A Julie disse que tinha visto num guia de viagens que próximo ao Terminal existia uma parte da cidade que era bonita, com uma bela praça.
Saímos os cinco do Terminal Bimodal e após pedir informação para algumas pessoas seguimos no sentido do centro da cidade. Próximo ao Terminal a cidade era feia e suja e o trânsito caótico. Atravessar as ruas era uma arriscada aventura e as buzinas ecoavam de todos os lados. Chegamos à conclusão que quem buzinava primeiro era que tinha preferência para atravessar a rua ou fazer alguma conversão. Após caminharmos algumas quadras chegamos até uma parte onde entre as duas avenidas existia um canteiro com ciclovia no meio, então seguimos por ele, pois era mais seguro. Mais alguns pedidos de informação e olhadas no guia do Caíque e chegamos ao centro da cidade. Andamos um pouco por ali a procura da Catedral e da praça em frente, mas acabamos seguindo para o lado contrário. Uma coisa que incomodava ali era o excesso de monóxido de carbono que saía dos escapamentos dos carros, chegava a sufocar. Me parece que o combustível boliviano não é de boa qualidade e é altamente poluente.
Estávamos passando em frente a um restaurante e vimos algumas tortas expostas numa vitrine. Resolvemos entrar e descobrimos que ali tinha um buffet e a comida parecia ser boa. Um dos cuidados que eu teria tanto na Bolívia quanto no Peru seria com a comida. Nestes países não dá para comer em qualquer lugar, pois a higiene não é das melhores. E eu também pretendia passar longe das comidas típicas, pois sou chato para comer e comidas típicas evito em qualquer parte. Não tenho frescura para desconforto, frio, viajar de ônibus e outras coisas mais, mas com relação à comida sou extremamente chato e não como de tudo seja onde for. Até mesmo na casa de amigos e parentes acabo sendo chato com relação à comida e meu paladar depende muito do meu olfato, ou seja, se não gostar do cheiro não como, nem preciso provar para saber se o gosto da comida é bom ou ruim. Talvez por isso que não como peixe ou qualquer outra coisa que venha da água, pois acho peixe fedido e daí não consigo comer. Frescuras a parte, resolvemos almoçar no restaurante e a comida estava muito boa. Enquanto comíamos ficamos conversando, nos conhecendo melhor e trocando informações sobre viagens. Eu, Caíque e Julie conversávamos em português e os japoneses vez ou outra falavam algo em inglês. Foi legal logo no segundo dia de viagem fazer novas amizades. Em viagens do tipo mochilão é bastante comum conhecer pessoas, fazer coisas juntos e logo depois cada um seguir para um lado.
Após almoçar voltamos ao nosso passeio e logo encontramos a Catedral e a praça em frente, que realmente era muito bonita. A Catedral estava fechada e não conseguimos visitá-la. Já na praça ficamos certo tempo olhando o movimento e as dezenas de pombos que circulavam por ali. No guia dizia que bichos preguiça viviam nas árvores da praça, mas cansamos de olhar para cima e não vimos nada. Algo que nos chamou atenção foi um senhor com uma câmera fotográfica bastante antiga, que estava tirando fotos de uma moça e depois revelou as fotos ali mesmo utilizando água e produtos químicos. O processo era antigo e artesanal, mas o resultado foi muito bom, as fotos ficaram ótimas. Demos mais uma pequena volta pelo centro, paramos em uma praça ver alguns alunos de uma escola ensaiarem uma dança típica e entramos numa loja de produtos artesanais locais. Não me demorei na loja, pois sendo início de viagem era melhor não comprar nada para evitar ter peso extra nas mochilas. Fiquei do lado de fora da loja olhando o movimento enquanto o pessoal estava na loja. Seguimos para o Terminal Bimodal, paramos no caminho comprar água numa loja e depois numa farmácia, onde comprei um novo tubo de creme dental para substituir o que fora confiscado no aeroporto de Campo Grande.
De volta ao Terminal pegamos nossas mochilas no guarda volumes e fomos para um canto perto dos banheiros. Eu, Caíque e Julie resolvemos tomar banho. Pagamos 3,00 bolivianos e fomos para as duchas. O banho era frio e o banheiro não era dos mais limpos. Para piorar era complicado arrumar a mochila em cima de uma pequena banqueta, de modo que ela não se molhasse. Quando liguei a ducha descobri que o banho não era frio, na verdade era gelado. O difícil num banho frio é começar a se molhar, mas depois de um tempo e de alguns gritos você acostuma com a temperatura da água e tudo bem. Após o banho e de algumas manobras para trocar de roupa sem deixar nada cair no chão molhado e sujo do banheiro, finalmente saí e encontrei o pessoal do lado de fora. Fomos num bar onde compramos água e algumas guloseimas e então nos despedimos. Eu e os japoneses seguiríamos para La Paz, mas em ônibus diferentes. Já o Caíque e a Julie seguiriam para Sucre.
Quando chegou o horário de embarque fui até a agencia onde comprei a passagem e o vendedor pegou minha mochila grande e pediu que o seguisse. Fomos indo para um lado das plataformas de embarque e quando vi os dois últimos ônibus estacionados me assustei, pois eram muito velhos. Comecei a achar que tinha sido enganado, pois comprara assento cama, que para os Bolivianos é o leito ou semi leito no Brasil. Se bem que no Brasil já existem leitos cama, que ficam na horizontal. Sei que passamos pelos dois ônibus velhos e quase fora da área de embarque chegamos ao ônibus da empresa. Ele era dois andares e se não era novo, ao menos não era dos piores. O vendedor me entregou a mochila e disse para eu levá-la dentro do ônibus, para não deixá-la no bagageiro. Não perguntei a razão de tal conselho, mas decidi acatá-lo. Fiquei um tempo esperando o embarque, que já estava atrasado. Daí apareceu uma vendedora de bolinhos, que pareciam pão de queijo. Como não sabia em que tipo de local seria a parada para janta, resolvi garantir minha janta com um pacote daqueles bolinhos que estavam cheirosos. O problema é que eu não tinha dinheiro local trocado. Daí consegui convencer a vendedora a receber em reais. Dei R$5,00 a ela e falei que aquilo valia justamente o dobro do que ela estava me cobrando pelo bolinhos. E era verdade, eu jamais ia enganar a moça! Ela acabou topando o negócio e depois que embarquei no ônibus ainda ficou me dando tchauzinho.
Minha poltrona era na parte de cima do ônibus, do lado direito e sozinha, quase na frente. Era um poltrona larga e confortável e a frente ficava uma espécie de mesa que serviu para eu colocar os pés durante a viagem. Consegui a muito custo encaixar minha mochila grande em frente a poltrona e estava pronto para enfrentar 14 horas de viagem até La Paz. Descobri que eu era o único “diferente” no ônibus, ou seja, o único não boliviano embarcado, o mais branquinho a bordo. O ônibus partiu com 40 minutos de atraso e resolvi jantar logo meus bolinhos, enquanto ainda estavam quentes e cheirosos. Mesmo parecendo pão de queijo e sendo feitos com queijo, o sabor era bem diferente do sabor do pão de queijo, mas não era ruim. No pacote vinham dez bolinhos e logo descobri que tinham dois que não eram frescos, que de tão duros que estavam deviam ser de um ou dois dias atrás. Eu tinha sido enganado pela bela e simpática vendedora de bolinhos que ficou me dando tchauzinho. Paciência, ninguém está livre de ser passado para trás vez ou outra na vida! Após jantar os oito bolinhos comíveis, tirei meu saco de dormir da mochila e me ajeitei dentro dele, pois a noite prometia ser fria. Coloquei os fones do MP4 e comecei a ouvir alguns sertanejões. Logo peguei no sono, pois vinha de uma noite em claro.
Fui acordar três horas depois, em um local estranho no meio do nada. Fiquei sabendo que teríamos uma parada de 30 minutos para janta. Ao descer do andar de cima e passar pela porta do banheiro, descobri que o mesmo não funcionava. O local de parada para janta era uma barraquinha na beira da estrada, um local feio e sujo. E nem banheiro existia ali. Vi que os homens seguiram para um lado e as mulheres para outro. Um matinho ao lado os homens utilizaram como banheiro. Já algumas mulheres acho que tinham medo de escuro, não se distanciaram muito e logo abaixaram para fazer suas necessidades. Aquilo tudo era ao mesmo tempo surreal e curioso. Como não tinha outra opção, também fui no “matinho masculino” fazer meu xixizinho. Depois fiquei encostado no ônibus observando o pessoal comer. Confesso que nem que eu estivesse com muita fome eu comeria naquele local. Pode ser frescura, mas já disse que sou fresco com comida e ainda lembro dos apuros que passei no ano anterior no Peru por culpa da comida que me fez mal. Então melhor ser um fresco bom do estômago, do que um não fresco com enjôo e diarréia. Passado trinta minutos embarcamos no ônibus e seguimos viagem. Eu voltei a dormir, mas não demorou muito tempo e paramos num posto policial. Após uns minutos um oficial de Polícia entrou no ônibus e queria saber quem eram os donos de tais e tais malas. Daí os donos tiveram que descer para dar explicações sobre o conteúdo das mesmas, que pelo que entendi eram produtos para serem vendidos em La Paz, produtos que iam desde sapatos até roupas para crianças. Foi aí que entendi o conselho do vendedor de passagens que disse para eu não colocar minha mochila embaixo. Ele sabia que as bagagens seriam revistadas e que eu poderia ter que dar explicações sobre o conteúdo de minha mochila caso algum agente da Lei resolvesse implicar com ela. Após uma meia hora parado ali, o pessoal que tinha descido voltou com a cara amarrada. Só não sei se perderam alguns produtos ou tiveram que pagar propina para terem suas malas liberadas. Voltei a dormir e não vi mais nada da viagem.
Após ter adiado a viagem por 15 dias em razão de dores em minhas hérnias de disco, finalmente chegou o dia de partir para a tão esperada viagem rumo a Bolívia e Peru. Essa viagem não estava programada, na verdade existia o plano de quando possível retornar ao Peru para conhecer melhor a cidade de Cusco e para fazer a Trilha Salkantay. Em 2011 passei uns dias em Cusco e me encantei pela cidade e prometi que voltaria. Nessa mesma viagem percorri a Trilha Inca até Machu Picchu e como não foi possível visitar a montanha de Wayna Picchu, que fica dentro de Machu Picchu, a vontade de retornar era imensa. E de repente tudo contribuiu para que tal viagem pudesse acontecer. Fiz os planos básicos e resolvi incluir a Bolívia no roteiro de viagem, pois queria fazer alguns passeios neste país, entre os quais descer a Estrada da Morte de bicicleta e também escalar minha primeira montanha nevada. Eu tinha milhas da Gol, mas seu único destino na Bolívia é Santa Cruz de La Sierra. Então resolvi ir até essa cidade utilizando minhas milhas da Gol e de lá seguir de ônibus até o Peru. Gosto de viajar de ônibus, para mim não é problema viajar longas distâncias utilizando tal meio de transporte.
Tinha dormido em Maringá e logo cedo fui encontrar meu irmão num shopping. Troquei dinheiro e creditei dólares em meu cartão da Confidence. É mais seguro viajar com um cartão para saques em terminais ATM do que viajar com dinheiro em espécie. O que me deixou um pouco triste foi que o dólar tinha subido 20 centavos nos últimos trinta dias, o que encarecia um pouco a viagem. Feito os últimos acertos para a viagem deixei meu carro no estacionamento do shopping, onde um amigo o pegaria depois e deixaria estacionado em outro local. Meu irmão me levou ao aeroporto, onde almocei e depois fiz o chekin internacional, despachando minha mochila grande direto para a Bolívia. Em seguida me despedi de meu irmão e fui para a sala de embarque.
O primeiro trecho da viagem foi tranqüilo, um vôo de uma hora até Guarulhos. Aproveitei para ler um pouco durante a viagem. Em Guarulhos fiquei no setor de conexão e após duas horas de espera embarquei num vôo para Campo Grande. Pouco mais de uma hora de um vôo tranqüilo e desembarquei em Campo Grande. Estava com fome e resolvi sair para fora do aeroporto para ver se encontrava algum local próximo para comer algo, já que dentro de aeroportos os preços são abusivos, um verdadeiro assalto ao viajante. Dei sorte e vi que do outro lado da avenida em frente ao aeroporto tinha um posto de gasolina com lanchonete. Vi que era seguro ir até lá, pois tinham policiamento no local. Fui até o posto, lanchei por um preço bem em conta e retornei ao aeroporto. Fiquei seis horas esperando meu vôo para a Bolívia, contando o fuso horário de uma hora a mais de Campo Grande com relação ao horário de Brasília. Para passar o tempo fiquei vendo filmes no note book e também caminhei um pouco pelo aeroporto, que é bem pequeno.
Finalmente chegou a hora do embarque rumo à Bolívia. Já era quase meia noite quando passei pelo raio x e aduana. Meu tubo de pasta de dentes foi confiscado da bagagem de mão. Mesmo o tubo estando quase vazio a justificativa foi que era um tubo de mais de 100 ml, por isso não podia levá-lo na bagagem de mão. Achei uma idiotice isso, excesso de zelo idiota, mas deixei pra lá. Sentei-me na sala de embarque que é minúscula e fiquei esperando o embarque. Não foi a toa que Campo Grande ficou de fora na escolha das sedes da Copa do Mundo de 2014, pois seu aeroporto é muito pequeno para uma capital é menor que muito aeroporto de cidade de interior do Brasil.
O embarque foi feito na pista, com um vento de congelar. O avião estava lotado, com muita gente já embarcada vindas de São Paulo. O vôo até Santa Cruz de La Sierra foi tranqüilo e aproveitei para dormir um pouco. Chegando a Santa Cruz de La Sierra o desembarque foi rápido e segui para o setor de imigração. Eu estava com uma camiseta do Caminho de Peabiru e um rapaz que estava a minha frente na fila perguntou se eu era de Peabiru ou de Campo Mourão? Respondi que era de Campo Mourão e ele disse que era de Peabiru e que morava há quinze anos na Bolívia. Ele e a esposa estavam vindo de Curitiba. Ficamos conversando na fila, que era bem lenta. Um guarda pediu para ver meu passaporte e ao folhear viu que tinham muitos carimbos e ficou olhando um por um. Depois de um tempo ele resolveu olhar o passaporte novamente e dessa vez encontrou o visto canadense e o carimbo de minha visita ao Canadá em 2011, que estão numa folha separada mais a frente no passaporte. Então ele olhou mais duas vezes o passaporte, bem detalhadamente. Achei estranho tal procedimento por parte de tal guarda. Ao passar pela imigração o guarda me perguntou quanto tempo eu ficaria na Bolívia e respondi que apenas dois dias, pois estava de passagem rumo ao Peru. Então ele me disse para tomar cuidado no Peru, pois é um país muito perigoso. Achei engraçado seu comentário, pois é justamente o contrário, a Bolívia é mais perigosa que o Peru. Segui para outra fila onde dei sorte e ao apertar o botão de revista deu sinal verde e pude passar sem ter minha bagagem revistada. O casal de Peabiru estava me esperando para se despedirem.
Eram três e meia da manhã e não compensava ir para um hotel, pois logo cedo eu pretendia ir para a Rodoviária e pegar um ônibus para La Paz. Então fiquei de bobeira andando de um lado para outro no aeroporto. A Bolívia era o nono país que eu conhecia (sem contar o Brasil). Fui tentar sacar dólares, mas não encontrei nenhum caixa ATM. Por sorte eu tinha levado U$ 150,00 em espécie e troquei U$ 50,00 numa agencia de cambio. O boliviano (moeda local) estava valendo 3,18 por cada um real, o que era um bom valor, sinal de que o real está valorizado na Bolívia. Estava começando a ficar com fome e às 4h00min resolvi fazer um lanche num Subway dentro do eroporto. Depois fiquei lendo um gibi e daí resolvi ligar o note book para tentar piratear algum sinal de internet. Dei sorte e consegui acessar uma rede de alta velocidade que estava desprotegida. Então fiquei navegando na internet até o dia amanhecer.
O título dessa postagem retrata meu sentimento com relação à América do Sul. Sendo sul-americano e cada vez mais conhecendo a América do Sul e seu povo, vou me “apaixonando” por essa vasta e linda região. É claro que ela tem seus defeitos, é pobre em muitas partes e possui alguns governantes totalmente sem noção, daqueles chatos populistas e ditadores. Por outro lado, a América do Sul possui muitas belezas naturais e um povo cheio de contrastes, onde boa parte da população é receptiva, alegre e outra é malandra, quer passar o turista desavisado para trás. Conheço muita coisa do primeiro mundo, tendo visitado Europa e América do Norte e vivido por um ano nos Estados Unidos. Gosto de muita coisa do primeiro mundo, mas o meu coração pertence mesmo é ao terceiro mundo sul-americano.
E por essas e outras é que estou partindo para uma nova viagem pela América do Sul. Dessa vez vou conhecer a Bolívia e depois ir ao Peru pela segunda vez. Entre outras coisas pretendo fazer trilhas no meio da mata, nas altas montanhas e também em algumas montanhas nevadas. A viagem começou ontem e não tem data para terminar. Vai levar de 10 a 30 dias. A duração dela vai depender de vários fatores, entre os quais as condições climáticas dos lugares onde pretendo ir, dos gastos que não podem ultrapassar meu orçamento para essa viagem e principalmente de minhas condições físicas e de saúde. Tive que adiar essa viagem por 15 dias mesmo estando com passagem marcada, em razão de novo problema com minhas hérnias de disco. Então meu preparo físico não é o adequado para certas coisas que pretendo fazer e somado ao frio do outono nas regiões onde vou passar e que faz piorar minhas dores nas costas, à duração dessa viagem é uma incógnita nesse momento. Mas como sempre vou procurar superar e suportar as dores e realizar os meus planos com muita força de vontade e um pouco de sacrifício, mas sempre respeitando os limites do meu corpo.
Então lhe convido para “viajar comigo” através das postagens que farei sobre essa viagem aqui no blog. Como vou para alguns lugares longe da civilização e da internet, as postagens ficarão atrasadas, pois farei as mesmas conforme for possível. Mas serão feitas de forma completa e em ordem cronológica. Além do blog, a narrativa dessa viagem também será postada como de costume no site mochileiros.com, para servir de ajuda a outros viajantes que pretendem passar pelos mesmos lugares que eu.
Então é isso!! Torçam e orem por mim, pois essa é para ser talvez a maior de minhas “aventuras”…
Ontem (domingo) fui à Maringá assistir ao show de Jorge & Mateus na 40ª Expoingá. O show aconteceu na arena de rodeios, que é coberta e estava totalmente lotada. O show foi sensacional, o pessoal cantou todas às músicas junto com a dupla, que está fazendo enorme sucesso atualmente. No final das contas valeu a pena viajar 180 quilômetros entre ida e volta para ver esse show e chegar em casa às 4h00min da manhã, tendo que levantar 7h40min para ir trabalhar. Louco eu? Nem tanto!!!
“As regiões selvagens atraem aqueles que estão aborrecidos ou desgostosos com o homem e suas obras. Elas não só oferecem uma fuga da sociedade, mas também um palco ideal para o indivíduo romântico exercer o culto que frequentemente faz de sua própria alma. A solidão e a liberdade total da natureza criam o cenário perfeito para a melancolia ou a exaltação.”
No domingo fui pedalar com o Luis Cesar, meu parceiro de pedal. Fez um dia bonito, não estava nem frio e nem calor, o que fez o passeio ser bastante prazeroso. E escolhemos um caminho onde tínhamos ido pela última vez em agosto de 2005, logo que começamos a pedalar juntos. Eu estava melancólico desde sábado e o sol na cabeça, o vento no rosto me fizeram deixar a melancolia pelo caminho. Após 31 km de pedaladas a alegria voltou.
Eu que adoro lua cheia, ontem aproveitei para ver a superlua. Fui para fora da cidade, estacionei o carro na entrada de uma fazenda e fiquei encostado no carro ouvindo música e olhando para o céu. E fiz isso justamente a 0h35min, que foi o momento em que aconteceu o auge do fenômeno da superlua, onde ela ficou 14% maior e 30% mais brilhante que as outras luas cheias normais de 2012. Esse fenômeno tem o nome cientifico de “lua perigeu”. A lua segue uma trajetória elíptica ao redor da Terra com um dos lados – ou perigeu – cerca de 50 mil km mais perto que o outro – ou apogeu.
Fiquei um bom tempo olhando o céu e “conversando” com a lua – conversar com a lua é uma das muitas “esquisitices” que tenho… kkk – . Sei que esse foi mais um daqueles momentos em que a natureza mostra toda sua plenitude e beleza e que são difíceis de explicar. É mais fácil a pessoa “ir ver” e tirar suas próprias conclusões.
Fui ao show do João Neto & Frederico, dupla que está fazendo enorme sucesso atualmente. É deles a segunda música mais executada no Brasil em 2012 (LêLêLê), que só perde para “Ai se eu te pego”, do Michel Telo. O show foi na cidade de Araruna, que fica distante onze quilômetros de Campo Mourão. Era aniversário de dois anos da “Estancia Piseiro”. O show foi muito bom, pena que era a noite mais fria do ano até agora e tinha um vento de gelar as orelhas.
Fui novamente à Bahia, dessa vez à Salvador. Essa é minha quarta vez na Bahia, sendo a segunda vez em Salvador. Os baianos que me perdoem (meus amigos Orlando e Miralva principalmente), mas Salvador é a cidade mais “fedida” onde já estive e também é bastante suja. Salvador para mim foi uma grande decepção, pois pela fama que tem imaginava outra cidade. Acho que a maioria dos turistas que gostam de Salvador são aqueles que gostam de carnaval e vão à cidade nessa época de festa. Eu que não gosto de carnaval acabei me decepcionando muito com a cidade. E por gostar de história e de monumentos e construções históricas, outra decepção foi ver o estado de abandono e falta de cuidado em que se encontram muitas construções antigas da cidade, que foi a primeira Capital do Brasil. Em compensação o povo de Salvador é muito simpático e receptivo.
Se não gosto muito de Salvador, adoro o interior da Bahia principalmente o litoral sul, as cidades de Porto Seguro, Arraial D’Ajuda, Trancoso, Prado, Alcobaça e Caravelas, locais muito bonitos. E pretendo voltar outras vezes à Bahia, menos a Salvador!
Após uma longa ausência, voltei a assistir jogos de basquete do time de Campo Mourão. Dessa vez vi jogos validos pela Copa Sul Brasil, onde o time de Campo Mourão venceu todos os três jogos da primeira fase. E o mais legal foi voltar ao Ginásio JK, local onde treinei e joguei basquete muitas vezes entre meus 13 e 17 anos. Boas lembranças daquela época, dos treinos de madrugada, das participações em Jogos Escolares, Jogos Estudantis, dos antigos amigos, de namorar no escurinho atrás do ginásio. Hoje isso não seria mais possível, já que está tudo iluminado, tem rua asfaltada e casas do outro lado da rua… Kkkkkk
E foi graças ao basquete que arrumei minha primeira namorada. Eu tinha 15 anos e fomos participar da fase final dos Jogos Escolares na cidade de Rio Negro, bem na divisa do Paraná com Santa Catarina. Uma bela tarde eu estava no ginásio esperando a hora do meu jogo começar e uma garota veio conversar comigo. Ela estava passando férias na cidade, na casa da irmã. Perguntei de onde ela era e ela respondeu que era de Campo Mourão. Não acreditei, achei que estivesse brincando! Daí foi a vez dela perguntar de onde eu era e em vez de responder virei de costas e mostrei meu agasalho, onde estava escrito CAMPO MOURÃO. Ambos começamos a rir, pois era muita coincidência sermos da mesma cidade e termos viajado 600 quilômetros para nos conhecer. Trocamos telefone e duas semanas depois nos encontramos em Campo Mourão. Mais uma semana e começamos a namorar. Foram apenas três meses de namoro, que foi inesquecível por ser o primeiro. O nome da garota era Roseli (melhor não contar o sobrenome) e faz uns vinte anos que a vi pela última vez.
Bons e saudosos tempos!!!
Colégio Estadual. Estou em pé, segundo da direita para a esquerda. O Wagão, meu irmão é o garotinho com agasalho branco. (Ginásio JK - 1984)
Colégio Unidade Polo. Estou em pé, segundo da direita para a esquerda. (Ginásio JK - 1985)
Seleção de Campo Mourão. (Ginásio JK - 1985)
Ginásio JK - 2012.
Campo Mourão X Santa Cruz/RS. (Ginásio JK - 13/04/2012)
Após quase duas décadas vivendo em Curitiba é estranho hoje em dia ir à Curitiba como turista. Essa semana passei dois dias em Curitiba e tive meus momentos de turista. É diferente isso, pois agora posso andar calmamente pelas ruas observando tudo, ouvindo os ruídos, sentindo os cheiros da cidade. Quando lá morava isso não era possível, pois quase sempre passava pelos locais com pressa, estressado, bravo com o trânsito caótico. Agora percebo melhor até as diferenças que acontecem na cidade, como prédios reformados, prédios demolidos, novas construções, lojas que mudaram. Em alguns casos tenho certa dificuldade em lembrar o que existia antes em certos lugares, pois as mudanças são tantas que a memória não consegue processar tudo adequadamente.
E pelo que tudo indica daqui para frente visitarei Curitiba somente como turista. Tenho organizado minha vida de uma forma a ficar definitivamente vivendo no interior. Estou feliz, passando por um momento muito bom e totalmente adaptado a minha nova vida. Gosto de Curitiba, mas meu tempo por lá já expirou. Prefiro mais a tranqüilidade de uma cidade interiorana do que a correria da cidade grande. Tenho boas lembranças, centenas de histórias e vários amigos em Curitiba. Mas daqui para frente à tendência é que eu vá cada vez menos à Curitiba e somente para passear, para curtir momentos de turista despreocupado.
Rua XV de Novembro. (16/04/2012)Catedral em reformas. (16/04/2012)Centro de Curitiba. (17/04/2012)Praça Generoso Marques. (17/04/2012)Universidade Federal do Paraná. (17/04/2012)
Christopher McCandless nasceu em 12 de fevereiro de 1968 na cidade de El Segundo, localizada no estado americano da Califórnia. Em 1976 mudou-se com a família para Annandale, Virgínia, onde cresceu. O seu pai, Walt McCandless, trabalhou para a NASA como um especialista em antenas. A sua mãe, Wilhelmina “Billie” Johnson, foi secretária do pai de Chris e depois ajudou Walt a fundar e dirigir uma bem sucedida empresa de consultoria. Desde a infância os seus professores notaram que Chris era extraordinariamente enérgico, adorando esportes físicos. Conforme cresceu, ele uniu isso a um intenso idealismo e resistência física. Na escola, ele foi o capitão da equipe de cross-country onde ele estimulava os seus companheiros a considerarem a corrida como um exercício espiritual, no qual eles estavam “a correr contra as forças da escuridão… todo o mal do mundo, todo o ódio.” Ele se graduou no W.T Woodson High School em 1986 e na Emory University em 1990, especializando-se em história e antropologia. O fato de vir da classe média alta e ter graduação universitária escondeu um crescente desprezo interior para o que ele via como o materialismo vazio da sociedade americana. Os trabalhos de Jack London, Leon Tolstoy e Henry David Thoreau tiveram uma grande influência sobre McCandless, e ele sonhava em deixar a sociedade para um período thoreauniano de contemplação solitária.
Logo após acabar o curso na Universidade de Atlanta, em 1990, Christopher McCandless doou os seus 24 mil dólares que tinha no saldo bancário a instituições de caridade e desapareceu sem avisar a família. Já não era a primeira vez que Chris decidia fazer uma viagem pelos vários estados americanos, sozinho, dependendo da natureza e do que encontrava no caminho. Mas daquela vez foi diferente. A sua raiva quanto à civilização em que vivia, quanto às mentalidades e materialismos da época, foi fundamental para a sua tomada de decisão. A partir daquele dia, nunca mais regressou a casa. Devido a um problema com o seu velho Datsun amarelo, Chris foi impelido a abandonar seu carro junto ao lago Meade, em Detrital Wash, mas isso não o impediu de continuar. Encarou a situação como um sinal do destino e, abandonando junto ao carro grande parte dos seus pertences e queimando todo o dinheiro que trazia consigo – cerca de cento e vinte e três dólares – Chris McCandless partiu a pé em direção ao Oeste, adotando um novo estilo de vida, no qual era livre e assumia o nome de Alexander Supertramp, seguindo em busca de experiências novas e enriquecedoras.
Foi de carona que chegou a Fairbanks, no Alasca, fazendo amigos e conhecendo lugares magníficos pelo caminho. Entre as suas aventuras destacam-se uma descida do rio Colorado em canoa. Walt e Billie McCandless, pais de Chris, ainda tentaram encontrá-lo, mas em vão. Apenas a sua irmã Carine recebia uma carta de vez em quando, e mesmo ela não sabia a sua localização. Os anos foram passando, e Chris continuava sozinho, vagando pela América, passando por Carthage, Bullhead City, Las Vegas, Orick, Salton City, entre outros, até chegar finalmente ao destino pretendido: o Stampede Trail. Conheceu Jan e Bob Burres, Wayne Westerberg, Ronald Franz, que se tornaram seus amigos inseparáveis a quem se ia correspondendo por cartas; permaneceu em alguns endereços durante meses, mas partia em seguida para outras aventuras. Por onde passou, Chris alterou as vidas das pessoas que o conheceram. A sua personalidade forte, muito inteligente e simpática deu uma nova vitalidade a Jan, Franz e Westerberg. Raramente falava de Annadale e de casa, e eram muitas às vezes em que era reservado e ponderado. Mas o rapaz de vinte e quatro anos, que todos conheceram como Alex, cumpriu o seu destino e partiu de Fairbanks em direção ao Monte McKinley, dois anos depois de ter iniciado a sua viagem.
Gallien deu carona a Chris até ao Parque Nacional Denali, através do Stampede Trail, um caminho que levava ao interior do Alasca. Também ele simpatizou com o rapaz, que gentilmente lhe contou os planos de permanecer alguns meses na floresta. A única comida que levava era um saco com cinco quilos de arroz, e o seu equipamento era inadequado para quem planejava fazer o que ele se propunha. Ainda assim, o rapaz parecia determinado, e nada o podia dissuadir. Partiu assim para o desconhecido, ignorando a hora e o dia, numa quinta-feira de abril, sem deixar rastro. Através de um diário que manteve na contracapa de vários livros, com cento e treze anotações, podemos compreender o que realmente aconteceu a Chris McCandless na sua viagem ao interior do Alasca. O seu diário contém registros cobrindo um total de 113 dias diferentes. Esses registros cobrem do eufórico até ao horrível, de acordo com a mudança de sorte de McCandless.
Alimentou-se do que trazia e de algumas sementes que colheu na natureza, tal como de alguns animais que caçou, com sucesso; leu vários livros, rabiscando-os com pensamentos próprios sobre a vida; passeou por diversos bosques, mas o local onde permaneceu mais tempo foi logo abaixo da Cordilheira Externa, onde ainda hoje se encontra um ônibus abandonado, de número 142 do Fairbanks Transit System, que serviu de residência a Chris, onde pernoitou e escreveu algumas frases no seu interior, nos meses que se encontrou na floresta como: “(…) SEM JAMAIS TER DE VOLTAR A SER ENVENENADO PELA CIVILIZAÇÃO, FOGE E CAMINHA SOZINHO PELA TERRA PARA SE PERDER NA FLORESTA”. Permaneceu cerca de quatro meses nas montanhas, sobrevivendo à custa do que encontrava, totalmente sozinho, livre. Em 6 de setembro de 1992, dois trilheiros e um grupo de caçadores de alce acharam esta mensagem na porta do ônibus: “S.O.S. Preciso de ajuda. Estou aleijado, quase morto e fraco demais para sair daqui. Estou totalmente só, não estou brincando. Pelo amor de Deus, por favor, tentem me salvar. Estou lá fora apanhando frutas nas proximidades e devo voltar esta noite. Obrigado, Chris McCandless.” O seu corpo foi encontrado em decomposição em agosto de 1992, embrulhado num saco de dormir no interior do ônibus, já morto há cerca de duas semanas. A causa oficial da morte foi inanição. Porém, alguns pensam que foi envenenado acidentalmente por algumas sementes que ingeriu. Nunca se saberá bem a verdade.
Jon Krakauer acredita que McCandless morreu por ingerir sementes de batata selvagem (Hedysarum alpinum), que McCandless mencionou nos seus registros, sendo os efeitos devastos para o organismo humano. Essa espécie de batata não é considerada venenosa — a sua raiz é comestível, mas há evidência de que as suas sementes contêm um alcalóide que interfere no metabolismo da glicose pelo organismo. Entretanto, o Dr. Thomas Clausen da Universidade de Fairbanks no Alasca conduziu testes extensivos nas sementes encontradas no acampamento de McCandless e constatou que não continham toxinas ou alcalóides. (Note que esta é a teoria que Krakauer apresenta no seu livro sobre McCandless, e difere da teoria anterior que ele relatou no seu artigo da revista Outside, envolvendo outra planta, Hedysarum boreale mackenzii, uma ervilha de cheiro semelhante à batata selvagem e conhecida por ser venenosa). Na edição mais recente do seu livro, Krakauer modificou sutilmente a sua teoria com respeito à causa de morte de McCandless. Ele acredita que as sementes da batata selvagem encontravam-se com mofo e foi este o agente que contribuiu para sua toxicidade. Mas Chris McCandless morreu feliz; ele próprio o disse numa anotação no diário, percebendo o seu fraco estado de saúde: “Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe a todos”.
Quando foi descoberto no Alasca, sem vida, a tarefa de escrever um artigo sobre o viajante, na altura desconhecido, foi incumbida a Jon Krakauer, jornalista da revista Outside. A história de McCandless tocou-o profundamente, e o fato de a sua própria vida se assemelhar à do rapaz, levou-o a investigar a fundo, obsessivamente toda a sua jornada desde Anandale até ao Alasca: – “Quando era adolescente, eu era teimoso, introvertido, sempre imprudente, de humor variável. Desapontei o meu pai das formas que são habituais. Tal como McCandless, as características de autoridade provocavam em mim uma combinação confusa de fúria contida e ânsia de agradar. Se qualquer coisa despertava a minha imaginação indisciplinada, perseguia-a com um zelo que atingia a obsessão e, desde os dezessete anos até quase aos trinta essa coisa era a escalada.” – Tudo o que descobriu, depois de falar com diversas pessoas, e visitar vários locais por onde o viajante Alex passou, foi agrupado num livro ao qual deu o nome de “Into The Wild – Na Natureza Selvagem”. O livro, bestseller desde que foi lançado, em 1996, deu origem a um filme, com o mesmo nome, realizado por Sean Penn.
O livro de Krakauer fez de McCandless uma figura heróica para muitos. Em 2002, o ônibus abandonado em Stampede Trail onde McCandless acampou tornou-se um atrativo turístico de aventura. O filme de Sean Penn, Into the Wild, baseado no livro de Jon Krakauer, lançado em setembro de 2007 foi bem recebido pela crítica. Um filme documentário sobre a viagem de McCandless feito pelo produtor de filmes independente Ron Lamothe, The Call of the Wild, também foi lançado em 2007. A história de McCandless também inspirou um episódio da série de TV Millenium e canções populares do cantor Ellis Paul, Eddie From Ohio, e Funck, assim como Eddie Vedder, da banda Pearl Jam, que se disponibilizou para fazer toda a trilha sonora do filme de Sean Penn.
Diferente de Krakauer, assim como Sean Penn, e muitos leitores de seu livro, que possuem uma visão simpática de McCandless, alguns alasquianos possuem uma opinião negativa tanto de McCandless como daqueles que romantizam a sua morte. McCandless estava inconsciente de que vagões operados manualmente cruzavam o rio a 400 metros do Stampede Trail, enquanto um abrigo nas redondezas estava abastecido com alimentos de emergência, como descrito no livro de Krakauer. O guarda-florestal do Parque Alasquiano Peter Christian escreveu: “Eu estou exposto continuamente ao que chamo de fenômeno McCandless”. Pessoas, quase sempre homens jovens, vêm ao Alasca para se desafiarem contra um implacável cenário selvagem onde oportunidade de acesso e possibilidade de resgate são praticamente inexistentes… quando você considera McCandless da minha perspectiva, você apercebe-se que o que ele fez não foi particularmente corajoso, apenas estúpido, trágico e inconsciente. Primeiro de tudo, ele gastou muito pouco tempo a aprender como realmente se vive na selva. Ele chegou em Stampede Trail sem um mapa da região. Se ele tivesse um bom mapa ele poderia ter saído daquela situação difícil. Basicamente, Chris McCandless cometeu suicídio”. Muitos o acusam de egoísmo e superficialidade, considerando a sua atitude de abandonar tudo, sem falar com a família, e partir para o desconhecido, como uma forma de satisfação pessoal e ostentação, e até mesmo de suicídio. – Suicídio este, que segundo muito dos simpatizantes de MacCandless, como Krakauer e Sean Penn, e os seus próprios pais rejeitam, pois McCandless ao deixar a mensagem no ônibus a pedir que o resgatassem, claramente não era um suicida, e sim um jovem em busca de uma aventura para mais tarde recordar. – Judith Kleinfeld escreveu no Notícias Diárias do Ancoradouro que “muitos alasquenses reagiram com raiva a essa estupidez apelidada por muitos de “aventura”. Tem-se que ser um completo idiota, para morrer de fome no verão a 30 kmde distância da estrada do parque, disseram eles.”
No entanto, Roman destaca o quão é difícil para qualquer pessoa aventurar-se e fazer o que McCandless fez: “Claro, ele fez porcaria. Mas admiro o que estava tentando fazer, depender completamente da terra como ele fez, mês após mês, é extremamente difícil. Nunca o fiz. E aposto com vocês que muitas poucas, ou mesmo nenhumas das pessoas que chamaram de incompetente a McCandless, também não o fizeram, pelo menos não por mais de uma semana ou duas. Viver no interior da floresta por um longo período, subsistindo apenas do que se consegue caçar e apanhar – a maioria das pessoas não sabe o quanto isso é difícil. E McCandless quase o conseguiu. – Acho que não consigo deixar de me identificar com o tipo – confessa Roman – Detesto admiti-lo, mas ainda não há muitos anos seria fácil ter sido eu a estar metido neste tipo de dificuldades. Quando comecei a vir para o Alasca, provavelmente era muito parecido com McCandless: inexperiente como ele, orgulhoso como ele. E tenho a certeza de que há muitos outros habitantes do Alasca que tinham muito em comum com McCandless quando chegaram cá, incluindo muitos dos seus críticos. E talvez seja por isso que são tão severos com ele. Talvez McCandless lhes recorde demasiado como eram.” Outros, como Krakauer, admiram a sua coragem inabalável de viver melhor, com simplicidade, tirando partido das pequenas coisas da vida, vivendo aventuras e experiências que mais tarde poderia contar aos seus netos; sendo livre e feliz. Os dois anos que viveu servem ainda hoje de exemplo para milhares de jovens que decidem mudar não só o seu futuro, mas o seu presente, tal como outros serviram de inspiração à viagem do próprio Chris McCandless.
A acrescentar ao fascínio irrealista pelo lado selvagem da América Chris McCandless idolatrava o eremitismo de Thoreau e mimetizou as paisagens ficcionadas de Jack London. Todavia, já era tarde quando percebeu que entre a ficção e a realidade por vezes o fosso é abissal. Essa foi a dolorosa experiência de Chris McCandless que muitos perspectivam como própria de um maníaco misantropo desprovido de qualquer responsabilidade. Mas, por outro lado, o radicalismo de Chris McCandless é um ato de liberdade numa sociedade que diluiu o indivíduo à escala de um mero contribuinte ou de um número de segurança social de massas. O livro de Krakauer pode pois repousar na estante ao lado da “Geração X” de Douglas Coupland que, seguramente, compreendeu o êxodo de Chris McCandless em busca da última fronteira Americana. Para lá dessa fronteira fica-nos o livro como alegoria contra o conformismo que consome a nossa própria natureza.
Fonte: Diversas, na internet
Nota pessoal de Vander Dissenha: Faço parte daqueles que não concordam que Chris McCandless foi um idiota, ou um suicida. Acredito que ele morreu por falta de tomar alguns cuidados e por uma fatalidade. E fatalidades acontecem, mesmo quando se está preparado e que se tenha tomado todos os cuidados necessários quando se decide viver uma aventura, seja qual for. Eu como um semi-aventureiro, já me machuquei sem gravidade e escapei por muito pouco de situações que poderiam ter me custado a vida. Chris McCandless com certeza morreu feliz, pois morreu realizando seu grande sonho, e sonhos não tem preço.
Chris McCandless me serviu e serve de inspiração. Tanto o livro quanto o filme que contam sua história, me são fonte de releituras e consultas e sempre aprendo algo novo. Teve um tempo em que eu era meio “psicopata” em minhas aventuras e ia na base do conseguir ou morrer tentando. Hoje já não arrisco tanto, e procuro planejar bem minhas aventuras e viagens e principalmente ter o discernimento de saber o momento de mudar os planos, e se for o caso desistir. Acho que isso ocorreu em conseqüência da experiência e da idade, o que nos torna mais sábios e cuidadosos. E foi isso justamente o que no meu ponto de vista faltou ao jovem Chris McCandless e lhe custou a vida.
Chris McCandless.
Sean Penn (filme) e Jon Krakauer (livro) sobre Chris McCandless.
Hoje assisti novamente ao filme “Na Natureza Selvagem” (Into The Wild), que é um de meus filmes favoritos. O livro no qual o filme foi baseado também é um de meus favoritos. A história de Christopher McCandless, mesmo tendo final infeliz é para mim inspiradora. E mais uma vez vendo o filme tive idéias de novas viagens e aventuras. Então aguardem que em breve terei novidades para contar aqui no Blog!!
Eu não teria coragem para largar tudo e “cair no mundo” igual fez o jovem Chris, utilizando o pseudônimo Alexander Supertramp (Supertramp significa Super Andarilho). Mas consegui entender parte do que ele sentia e coloquei em prática isso faz algum tempo. Ficar atrelado a uma vida infeliz em troca de um bom salário, certa estabilidade e uma vida pequena burguesa cercada de muitos confortos da vida moderna, pode ser bom para muitas pessoas, mas com certeza afasta essas pessoas do seu “eu” ancestral, que é viver próximo, senão junto à natureza. E viver um tempo desapegado do dinheiro e do conforto, nos faz dar ainda mais valor as coisas simples da vida e as pessoas de que gostamos. Como disse o navegador Amyr Klink:“É preciso sentir frio para dar valor ao calor, sentir-se desabrigado para dar valor ao próprio teto”. Coloquei isso em prática – se bem que era algo que eu já fazia antes em menor grau – e desde então passei a dar valor às coisas que realmente importam. Não desisti de levar uma vida confortável, mas vez ou outra tenho que fazer alguma atividade, alguma viagem que me faça deixar de lado por algum tempo o conforto da vida moderna e viver de uma forma muito simples, valorizando as pequenas coisas.
Passei alguns anos infeliz e triste, me matando de trabalhar para ganhar cada vez mais dinheiro e depois descobri que isso não me trazia uma real felicidade. E bastaram alguns problema pessoais e de saúde, para que minha infelicidade se transformasse em uma depressão que quase me matou. Tive que recomeçar minha vida do zero, e ainda estou tentando dar um rumo definitivo a ela. Mas para isso tive que parar por um tempo e me aventurar por muitos lugares na busca de um novo rumo para minha vida e principalmente tentando me reconhecer, tentando descobrir quem era esse novo “eu”, a nova pessoa em que me transformei. Esse processo foi longo e muitas vezes doloroso, mas foi necessário e hoje encontrei finalmente meu novo norte e sei o que quero e o que não quero de/em minha vida daqui para frente. E nesse processo, tanto o livro quanto o filme “Na Natureza Selvagem” me ajudaram, serviram de inspiração. Para o personagem do livro/filme, infelizmente não foi possível recomeçar sua vida quando ele finalmente tinha encontrando o seu norte e decidira voltar a viver na “civilização”. Ele cometeu um erro que lhe custou à vida. Mas sua morte não foi em vão, pois ela serviu e serve de inspiração para pessoas no mundo todo.
Se você não conhece a história de Christopher McCandless, leia o livro e veja o filme. Garanto-lhe que alguma coisa, por menor que seja, vai mudar em sua mente e no seu coração. E se assistir ao filme, com certeza a trilha sonora de Eddie Vedder vai fazer valer a pena o tempo que “perdeu” vendo o filme.
O segundo dia em Colorado foi tranqüilo. O chato foi que dormi pouco, pois não me deixaram dormir. Chegou mais um amigo nosso, o Percival. Eu e o Sid fomos acordar o Piti, que estava numa ressaca brava. Ele tentou resistir, mas não teve jeito e logo acabou levantando. Passamos boa parte da manhã sentados em frente à casa do Danilo, conversando. Chegaram mais três garotas de Maringá e a Dona Sueli, mãe do Danilo, providenciou almoço para todo mundo.
À tarde o sol estava forte e mesmo assim fomos para o centro da cidade, ver o movimento. Muitas ruas estavam fechadas, num verdadeiro “carnaval sertanejo”. Muita gente bebendo e dançando no meio da rua. Eram tantos carros com o som ligado no último volume que em alguns locais você não conseguia saber que música estava tocando, pois virava um mistura que chegava a doer nos ouvidos.
O pessoal ia ficar para a final do rodeio e para o show do Milionário & José Rico, que aconteceria a noite. Eu estava cansado e resolvi ir embora ao final da tarde. Mesmo cansativo acabou sendo um final de semana divertido e pude fazer muitos novos amigos. Em 2013 pretendo voltar ao rodeio de Colorado, dessa vez indo nos dois finais de semana, aproveitando mais o tempo, conhecendo mais pessoas e vendo mais shows.
No final de semana fui à Colorado, num dos rodeios mais famosos do Paraná. Fui com meus amigos Piti, Sid e Luciano. Nos encontramos em Maringá e de lá seguimos por quase 100 quilômetros até chegar à Colorado. A cidade estava lotada, com gente vinda de várias cidades do Brasil. Eu nunca tinha visto nada igual, centenas de pessoas acampando no meio da rua, dormindo em carros, calçadas, numa loucura total!!!
Ficamos na casa do Danilo, amigo do Piti. Ele, sua irmã Tuani e sua mãe nos receberam super bem. A casa estava servindo de “base” também para algumas meninas vindas de Maringá. De ponto negativo foi que logo ao chegar “chutei” sem querer um copo que estava no chão. O detalhe é que o copo era da Tuani, um copo de “estimação”. Fiquei super sem graça com tal incidente e ainda tive que agüentar o pessoal tirando sarro.
A noite fomos ao Parque de Exposições, onde teria prova de cavalo (três tambores) e rodeio de cavalos e touros. Eu não curto rodeios, pois não gosto que maltratem os animais, então sempre fico torcendo pelos animais. Não que eu queira que algum peão se machuque, apenas torço para que as montarias os derrubem rapidinho.
Após o rodeio teve show com a dupla Marcos & Belutti. A arena estava cheia e o pessoal bastante animado. Mesmo essa dupla não sendo de minhas favoritas, foi um bom show e valeu a pena ter ido.
Eu e o Piti voltamos para a casa do Danilo quando já passava das cinco da manhã. Estávamos nos guiando pelo GPS do Piti, pois não conhecemos muito bem a cidade. E daí o GPS ficou sem bateria quando estávamos quase chegando à casa. Sei que ficamos meia hora rodando para cima e para baixo por quase todas as ruas do bairro, até encontrar a casa. O mais engraçado foi descobrir depois que tínhamos passado pelas duas ruas laterais e não tínhamos encontrado a casa. O Piti estava bêbado e não ia encontrar nada mesmo naquela altura da madrugada! Já eu que não bebo nada alcoólico, não posso dar nenhuma desculpa por ter ficado perdido. Ou melhor, a desculpa é que tudo foi culpa do Piti, pois quando se saí junto com ele é normal se meter em alguma presepada. KKKKkkkkk…
Luciano, Piti e SidSid e seu “amigo” Red Label.Arena de rodeios.
Show de Marcos & Belutti.Patricia e Vander.Piti e Tuani.O Danilo vendo o show de “camarote”.Marcos & Belutti.Assistindo ao show.Piti e Lorota.Com minha prima, Adrielly Dissenha.
“Eu amo tudo o que foi, Tudo o que já não é, A dor que já me não dói, A antiga e errônea fé, O ontem que dor deixou, O que deixou alegria Só porque foi, e voou E hoje é já outro dia.” (Fernando Pessoa, 1931)
Todos nós temos nossos locais preferidos, seja um restaurante, um bar, um cinema, uma praça. No meu caso, um dos lugares que mais gosto no mundo (e olha que conheci muitos lugares!!) é o Parque Estadual do Marumbi, uma cadeia de montanhas na Serra do Mar paranaense. A primeira vez que passei por esse lugar foi em 1989, de trem. E a primeira vez que coloquei os pés na região do Marumbi foi em 1995. A partir daí voltei várias vezes ao lugar e subi algumas vezes até o topo do Olimpo, que é um dos picos do conjunto Marumbi.
Acampei muitas vezes no camping próximo a Estação Marumbi, e passei ali a virada de ano de 1999 para 2000. Era a virada do milênio, todo mundo querendo festar e eu preferi me isolar e passei o réveillon sozinho no Marumbi, com muita chuva e frio. Foi um réveillon inesquecível em vários aspectos!
E além de meus momentos solitários no Marumbi, também tive momentos acompanhados por lá. Levei meu irmão e alguns amigos até o alto da montanha, com direito a muitas risadas e também alguns sustos. O Luis Cesar que o diga, pois ele quase morreu por lá!! E também levei alguns amores, com os quais passei momentos agradáveis e inesquecíveis tendo como testemunha o Marumbi. Mas sobre isso é melhor não contar aqui, pois esses amores hoje em dia estão casadas e são mães…
Atualmente vivendo no interior do Paraná, distante da Serra do Mar e das montanhas que tanto gosto, sinto falta de passar alguns momentos naquele lugar paradisíaco. Mas tenho certeza de que voltarei muitas vezes lá, pois quando gostamos de algo ou de alguém, sempre achamos um jeito de ficar perto do que gostamos.
Após alguns meses sem “pisar” em Cianorte, voltei à cidade com alguns amigos. Fomos ao General Lee, que é um bar muito interessante, com uma decoração exótica com muitos itens antigos. A noite era de “sertanejão”, com duas bandas cantando ao vivo. Foi muito divertido e teve um cara que dançou tanto que chegou a torcer o joelho e ao que tudo indica vai ter que passar por uma cirurgia. Depois dessa acho que esse meu amigo nunca mais vai esquecer Cianorte e uma certa moça com um vestido de onça… kkk!!!
E ontem fui ao segundo show sertanejo do final de semana. Depois do show da Paula Fernandes no sábado à noite em Maringá, dessa vez fui ao show de Edson & Hudson, em Campo Mourão. A dupla de irmãos é uma de minhas favoritas e tinha lamentado muito a separação deles. Mas agora voltaram a formar a dupla e prometem fazer muito sucesso. O show foi bom, cantaram novas músicas e principalmente os antigos sucessos, que o público presente no show cantou junto. Foi um excelente programa para o domingo a noite, principalmente por que a segunda-feira é feriado por aqui.
Como terei que passar os finais de semana em Maringá durante um tempo, estou aproveitando para sair e conhecer um pouco mais da cidade. E ontem fui no show da Paula Fernandes, que aconteceu num dos pavilhões da Expoinga.
O show começou quase uma da manhã e tinha bastante gente. E foi muito bom, pois a Paula Fernandes tem boas músicas, canta bem e tem boa presença de palco. Foi um programa muito divertido!!
Para finalizar a sexta-feira véspera de feriadão (segunda é feriado do padroeiro) fui com alguns amigos do trabalho em um bingo. O bingo promovido pela comunidade ucraniana de Campo Mourão foi realizado no salão de festas, ao lado da Igreja Ucraniana da cidade. Ao chegar ao salão de festas me lembrei que a última vez em que estive numa festa naquele local foi em 1978, logo após meu irmão ter nascido. Ou seja, fazia 34 anos que eu não pisava ali.
Além do bingo teve jantar, onde foi servido arroz carreteiro. E mesmo não tendo ganhado nenhum prêmio no bingo, acabou valendo o programa, pois demos boas risadas na mesa. E ganhei a noite quando a vice-prefeita passou por nossa mesa e disse que éramos um grupo de jovens bem alegres. Ser chamado de “jovem” estando próximo de completar 42 anos é um grande elogio!!! Kkk…
Fiquei por três pedras no prêmio principal, que era um cheque de R$ 5.000,00. E no nosso grupo teve uma menina que ficou faltando somente uma pedra para ganhar o prêmio principal. Se não ganhei nada, ao menos comi um monte. Mas não comi mais que o Guilherme e o Maico, pois estes são bons de garfo!!
Fui a um show do Fernando & Sorocaba, que já faz tempo que é minha dupla sertaneja favorita. O show estava lotado e foi muito bom, com quase duas horas de duração. E tem um momento do show em que os dois entram em bolas de ar e vão para o meio do público. Os caras são loucos!!! De negativo apenas a quantidade excessiva de músicas de axé que cantaram no show. Talvez eles ainda estivessem no clima de Carnaval! Mesmo assim não gostei, principalmente por não gostar de músicas baianas. De qualquer forma valeu ter ido ao show, com direito a tratamento vip e camarote gratuito!!!
Ontem foi noite de entrega do Oscar. Assisti somente uma parte da premiação, pois estava cansado e precisava levantar cedo no dia seguinte. Ainda não assisti ao filme que levou a estatueta de melhor filme (O Artista), pretendo fazer isso em breve.
Abaixo segue a lista dos filmes que ganharam o Oscar de melhor filme, desde 1990. Dessa lista de filmes, além do filme vencedor desse ano, só não assisti ao filme vencedor de 2010 (Guerra ao Terror). Foi esquecimento meu, e pretendo assistir a esse filme o mais breve possível. E dos demais filmes, alguns marcaram momentos importantes de minha vida e se encontram na lista dos meus filmes favoritos (Forrest Gump, Dança com Lobos, Silêncio dos Inocentes). Dez deles eu assisti acompanhado, no cinema (boas lembranças!). Teve um dos filmes que assisti num cinema nos Estados Unidos (Chicago) e outro que assisti no avião, numa viagem ao Chile (Quem quer ser um milionário?).
Abaixo lista dos últimos filmes vencedores do Oscar:
2012 O Artista 2011 O Discurso do Rei 2010 Guerra ao terror 2009 Quem quer ser um milionário? 2008 Onde os fracos não tem vez 2007 Os infiltrados 2006 Crash – no limite 2005 Menina de ouro 2004 O Senhor dos Anéis: o retorno do rei 2003 Chicago 2002 Uma mente brilhante 2001 Gladiador 2000 Beleza americana 1999 Shakespeare apaixonado 1998 Titanic 1997 O paciente inglês 1996 Coração valente 1995 Forrest Gump 1994 A lista de Schindler 1993 Os imperdoáveis 1992 O silêncio do inocentes 1991 Dança com lobos 1990 Conduzindo Miss Daisy
Vi esse ensaio fotográfico graças a minha amiga Stella Maris Ludwig. O nome do fotógrafo é James Mollison, e o ensaio em questão mostra algumas crianças e os locais onde elas dormem. É muito interessante o contraste, os diferentes quartos, as diferentes camas. Algumas pobres, algumas ricas, outras exóticas. Olhar esse ensaio fotográfico nos faz pensar nas diferentes classes sociais, culturas, costumes.
Não costumo postar mensagens de aniversário aqui no Blog, mas hoje farei uma exceção. É que tem três pessoas “especiais” fazendo aniversário por estes dias e queria fazer uma pequena homenagem a elas.
Hoje, dia 18 é aniversário da Fran, que completa 24 anos. Ela é uma pessoa muito querida e que após um tempo “afastada” reapareceu em minha vida.
Amanhã, dia 19 é aniversário do meu irmão, Wagão. Ele nos últimos anos deixou de ser somente meu irmão para se tornar meu melhor amigo e que me ajudou muito num período complicado pelo qual passei rescentemente.
E no próximo dia 23 será aniversário da Erica, minha sobrinha, que fará 19 aninhos. A ela um forte abraço desse tio que às vezes é meio chato e gosta de zoar (até demais) com ela.
E aproveito para também homenagear um amigo das antigas, que completou 42 anos no último dia 3. Um forte abraço ao José Mário, parceiro de muitas aventuras, desventuras, conquistas e frias pela vida afora, e do qual estou afastado já faz um tempo por questões geográficas e por relaxo de minha parte. A ele meus parabéns e minhas desculpas por ter desaparecido por tanto tempo.
Aos quatro aniversariantes desejo de coração que sejam muito felizes, que possam comemorar muitos mais aniversários em suas vidas e que consigam alcançar tudo aquilo que almejam.
Estou passando por uma crise de identidade. Nos muitos anos que morei em Curitiba muita gente brincava com meu sotaque do interior, com o “pÓrrrta” por exemplo. E agora que estou no interior já ouvi comentários de que não pareço ser do interior, e até mesmo zoaram do meu “sotaque curitibano” que destaca o “e” (lEitE quEntE). Então fiquei meio perdido nessa, pois de repente não sou nem curitibano e nem interiorano. Então o que eu sou? Sei lá!! Isso me fez lembrar de uma piada, que dizia que o cara foi morar nos Estados Unidos e lá não aprendeu a falar inglês e esqueceu o português. Então ele voltou ao Brasil “mudo”… Coitado!!! Kkkk… E essa piada me fez lembrar da Talita, que está morando na Alemanha e cada vez que me escreve fica ainda mais difícil de entender o seu português, devido à quantidade de erros. Ela simplesmente está esquecendo o idioma. Sorte dela que aprendeu bem o alemão, senão corria o risco de se um dia voltar ao Brasil, voltar “muda” igual o cara da piada.
E outra que me falaram essa semana foi que tenho uma aparência meio exótica. Até agora não entendi se isso é bom, se é ruim? Se a pessoa quis dizer que sou bonito, ou que sou feio? Segundo o dicionário, exótico significa: forasteiro, estranho, raro, inusitado, diferente, esquisito, curioso, esdrúxulo, excêntrico, alienígena, original, sistemático, alheio, extravagante, indefinível. Algumas dessas características se encaixam perfeitamente a minha personalidade. Já com relação a se encaixar com minha aparência física, sinceramente não sei? A única coisa que sei é que após tal comentário resolvi raspar a barba, a qual tenho usado já faz alguns anos. Talvez sem minha barba vermelha (que agora está ficando vermelha e branca) eu fique parecendo menos “exótico” e principalmente menos “alienígena”…
Quem me falou da Regra dos Três Terços na Fotografia foi meu amigo G. G. Carsan, que é fotógrafo profissional. Há um ano e meio estávamos na Comix em São Paulo (Feira de Quadrinhos) e ele me pediu para bater umas fotos e me explicou rapidamente sobre a Regra dos Três Terços. Depois me mandou pesquisar sobre o assunto na internet, pois segundo ele, conhecer tal regra melhoraria consideravelmente a qualidade das fotos tiradas por mim. E foi o que fiz um tempo depois e inclusive descobri que existia uma configuração em minha câmera (que não é profissional) que deixa no visor as linhas da Regra dos Três Terços, e isso facilita o enquadramento e melhora a qualidade das fotos.
A Regra dos Três Terços é muito utilizada na composição de uma boa foto, principalmente se a foto for de alguma paisagem. Se você observar revistas com fotos profissionais ou observar como as cenas são enquadradas na TV ou em filmes, perceberá que o objeto principal raramente está no centro da imagem. Os fotógrafos se baseiam no que provavelmente é a regra mais importante para a composição de uma foto: a Regra dos Terços. Essa regra divide virtualmente o enquadramento em partes iguais utilizando um símbolo que lembra um jogo-da-velha (algumas câmeras inserem o símbolo no visor para auxiliá-lo nessa função). A ideia é que os quatro pontos formados no enquadramento (onde as linhas do jogo-da-velha se cruzam) são áreas de interesse comum. Alocando o objeto em um desses pontos geralmente cria-se uma imagem harmoniosa. E sem dúvida, você perceberá que a maioria das fotos profissionais segue essa regra. Mas essa regra não precisa ser obedecida sempre, já que ela serve mais como um guia para registrar as imagens de forma menos amadora.
O esquema de três terços.
Alguns objetos, porém, merecem um tratamento diferenciado. Por exemplo, você pode alinhar seu assunto não em um dos quatro pontos, mas sim por toda a extensão de uma das linhas. Tal dica também vale no caso de o objeto a ser retratado ser muito grande e ocupar grande parte do enquadramento e não caber em um dos quatro pontos. Nesse caso o melhor a fazer é escolher um elemento interessante e se focar nele. Se você está fotografando uma pessoa ou um animal, os olhos são um bom local para se focar.
A Regra dos Três Terços.
Abaixo estão três fotos que tirei em uma praia de Florianópolis nos primeiros dias de 2012. Nessas fotos utilizei a Regra do Três Terços, enquadrando o objeto principal (no caso, os barcos) uma vez em cada quadrante. Veja o resultado final dessa experiência, escolha qual foto ficou melhor composta e assim entenderá melhor a Regra dos Três Terços.
Hoje está fazendo exatamente dez anos que saí da Stella Barros Turismo, franquia de Curitiba. Foi o melhor emprego que já tive, não em razão do salário, mas sim do ambiente, das pessoas que conheci lá, de tudo o que aprendi. Trabalhei na Stella Barros, de maio de 1993 até janeiro de 1998, e depois de janeiro de 1999 até janeiro de 2002. E saí de forma definitiva por que a agencia fecharia as portas, pois senão acho que estaria lá até hoje.
Na época em que trabalhei na franquia Stella Barros de Curitiba, a operadora Stella Barros era uma das maiores do Brasil, possuía cerca de cinqüenta franquias. Era operadora oficial da Copa do Mundo e Olimpíada, e o carro chefe de vendas eram os pacotes para a Disney. Eu que já gostava de viajar, depois que fui trabalhar na Stella Barros fiquei gostando ainda mais de viagens. Mesmo trabalhando na área administrativa aprendi muita coisa sobre pacotes e roteiros turísticos, companhias aéreas, reserva de hotéis, obtenção de vistos. Aprendi coisas que nos anos seguintes utilizei em viagens que fiz.
Trabalhei com muita gente legal na Stella Barros e foi lá que conheci o Mauricio, grande amigo até hoje, parceiro de muitas aventuras e desventuras pela vida afora e com quem depois também trabalhei junto no Colégio Medianeira de Curitiba. Outros amigos inesquecíveis que lá conheci foram: Consuelo Zardo, Marcelo Romeiro, Paulinha Pasqualine, Sheila Watanabe, Inês Santeti, Marli, Dora, Newton e Ricardo Bayel. E as donas da agencia; Kate e Silvia, com as quais aprendi muita coisa, tanto na área profissional quanto na pessoal e principalmente adquiri uma grande carga cultural, pois ambas eram cultas, viajadas e inteligentes. Então os anos que passei trabalhando para elas foram de intenso aprendizado. E do que mais sinto saudade dessa época, foram dos seis anos que morei nos fundos da agência, numa casa/garagem. E essa casa/garagem tem muitas histórias boas, engraçadas e inesquecíveis. Muita coisa legal acontecia ali nas noites frias de Curitiba e nos finais de semana tranqüilos do bairro Batel. Pena que aquela época não volta mais…
Casa onde a Stella Barros de Curitiba funcionou entre 1993 e 2002.
Confraternização de final de ano. (1994)
Vander, Sheila e Raquel. (1995)
Vander e Ricardo. (1995)
Festinha surpresa no meu aniversário de 26 anos. (1996)
Newton, Paulinha, Marcia, Vander e Mauricio. (1997)
Marcelo, Mauricio e Vander. (2000)
Consuelo e Vander, Tampa - USA. (2002)
A casa/garagem de boas recordações. (foi demolida em 2003)
Aproveitando a viagem até Marechal Cândido Rondon (ver post anterior) e a proximidade da cidade com o Paraguai, acabei indo fazer umas comprinhas no lado de lá da fronteira. O calor estava forte, algo entre 36 e 38 graus. Mesmo assim acabei andando bastante visitando algumas lojas. Antes de ir embora aproveitei para rodar um pouco pelo Paraguai e conhecer mais a região.
Acabei encontrando minha ex e última namorada, Andréia. Fazia alguns meses que não nos víamos, e acabamos nos encontrando numa “esquina” paraguaia. Realmente esse mundo é pequeno!
Igual ocorreu nas últimas vezes que fui ao Paraguai, entrei e saí do país sem que me parassem, olhassem documento ou revistassem o carro para ver que tipo de mercadoria eu estava levando. Se por um lado não ser parado pela Receita Federal ou Polícia Federal brasileira acaba sendo bom, pois não tem aquele incomodo de ficar respondendo perguntas e ver o carro e as compras sendo vasculhados, por outro lado fico preocupado com essa falta de controle na fronteira. Imagine a quantidade de drogas e armas que entram ilegalmente no Brasil todos os dias, em razão do fraco controle das fronteiras. Dessa forma fica difícil combater a criminalidade que aumenta a cada dia no Brasil, pois se em locais onde existem postos de fiscalização e controle de fronteira não existe uma fiscalização eficiente, imagine como ficam os milhares de quilômetros de fronteira que não possuem nenhum tipo de controle? Desse jeito fica difícil!
Muito calor.
Conhecendo um pouco mais do Paraguai.
Monumento aos 200 anos de República (1811 - 2011).
Ponte Ayrton Senna, na divisa entre Mato Grosso do Sul e Paraná.
No último final de semana fui a Marechal Cândido Rondon, cidade com uma das maiores colônias de imigrantes alemães no Brasil. Tenho muitos amigos nessa cidade, e já tinha ido várias vezes lá, mas fazia exatos onze anos que não visitava a cidade. Dessa vez fui até lá para visitar meus amigos Marcos e Roseméri. Desde que eles mudaram de Curitiba há uns seis anos, que eu não os via. E além da grande amizade que tenho pelos dois, fui o cupido do casal, fui eu quem apresentou um ao outro e depois fui padrinho de casamento deles.
Mesmo sendo rápida a visita, passei bons momentos na cidade em companhia de meus amigos e também revi familiares da Roseméri, que eu conheço há quase duas décadas. Além de muita conversa, e a noite uma saída para pizza e sorvete, a melhor parte da visita foi conhecer a filhinha do casal. A menina é uma graça e acabei brincando um pouco com ela, que ficava me chamando de tio. Eu que não gostava de crianças, que tinha medo de ter filhos, de uns anos para cá perdi tal medo e descobri que me entendo bem com as crianças. Talvez por que no fundo eu tenho ainda um pouco da criança que fui (e continuo sendo). Kkkkk
Vou procurar não demorar tantos anos para fazer nova visita aos meus queridos amigos. E disse aos dois que já que fui eu que os “desencalhei”, agora é a vez de eles darem um jeito de me “desencalhar”. Vamos ver se eles são tão bons como cupidos, igual eu fui e me arrumam alguma(s) pretendente(s). Kkkkkkkkkk…
Uma coisa é matar animais para que sirva de alimento, outra coisa bem diferente é judiar e matar animais por pura diversão. Nos últimos anos estive em algumas festas de peão e não assisti aos rodeios, pois não gosto de ver os animais sendo maltratados. E sempre sou a favor do touro, quando ouço que em alguma tourada o toureiro foi chifrado.
E acho a tal da Farra do Boi, em Santa Catarina um grande absurdo. Meu pai é catarina, tenho muitos amigos catarinas, já tive namorada em Santa Catarina e não tenho nada contra o pessoal de lá. Inclusive o último reveillon passei em Florianópolis. Mas acho um absurdo, uma covardia o povo de lá ficar correndo atrás e maltratando bois por culpa de uma tradição antiga e idiota.
Ainda não consegui virar vegetariano, mas tenho diminuído meu consumo de carne que já devo estar “economizando” um boi por ano.
Passei dois dias muito divertidos em Londrina. Até algum tempo atrás eu não gostava de Londrina e nem de Maringá. Mas no último um ano e meio estive tantas vezes nessas cidades, conheci muitas coisas legais e fiz muitos novos amigos, que passei a gostar das duas cidades e ainda voltarei muitas vezes.
O “Anda Brasil” lançou um jornalzinho com informações sobre caminhadas e também o calendário de “Caminhadas na Natureza” em 2012. O jornalzinho tem muitas fotos e numa dessas fotos eu apareço, junto com o pessoal de Maringá, durante uma caminhada em Nova Tebas em 2010.
E dando uma olhada no site do Anda Brasil, vi que estão postadas lá algumas fotos de caminhadas que participei em 2011, inclusive algumas fotos são de minha autoria. Acho legal isso, de poder ajudar com as fotos a divulgar o projeto desenvolvido pelo Anda Brasil.
Para os interessados em saber se existem caminhadas programadas para sua região, favor acessar o site do Anda Brasil e dar uma olhada no calendário: http://www.andabrasil.com.br/
Jornalzinho do Anda Brasil.
Apareço na última foto.
Foto com o pessoal de Maringá. (Nova Tebas - 2010)
Acabo de adquirir mais alguns itens para minha coleção da Coca-Cola. Pouca gente sabe, mas desde 1997 que coleciono latinhas de Coca, bem como algumas garrafas e copos. Tenho cerca de 300 itens na coleção. Só de latinhas são 240, sendo todos os modelos lançados no Brasil desde 1997 e muitas do exterior. Adquiri algumas latinhas em viagens que fiz para o exterior, e amigos que viajavam para fora do Brasil e sabiam de minha coleção sempre traziam alguma latinha. E outro que me ajudou muito na coleção foi meu irmão, que em suas viagens sempre consegue trazer alguma latinha nova para mim. Numa viagem a Israel em 2010, ele trouxe uma rara latinha de Coca-Cola da Palestina e outra de Israel. As latas chegaram um pouco amassadas, pois ele foi detido na saída de Israel, passou um tempo sendo interrogado e revistado e consequentemente as latinha foram amassadas nessas revistas. Mesmo assim valeu o esforço dele para me trazer estes raros itens de coleção.
Comecei a coleção de latinhas meio sem querer. Em dezembro de 1996 a Coca-Cola lançou no Brasil a primeira lata com tema natalino, com um Papai Noel estilizado na lata. Meu amigo Mauricio, que na época trabalhava comigo na Stella Barros Turismo, furou o fundo de uma dessas latas e disse que ia iniciar uma coleção. Alguns meses depois encontrei essa mesma lata “jogada” num armário da empresa e perguntei a ele sobre a coleção que disse que ia fazer. Ele me respondeu que tinha desistido da coleção. Então perguntei a ele se eu podia ficar com a latinha do Papai Noel e ele respondeu que sim. Então decidi que ia começar uma coleção de latinhas de Coca-Cola. E foi assim que a coleção iniciou e tomou corpo. Agora passado tantos anos já começo a ter dificuldade para guardar tantos itens. As latas precisam ter um cuidado especial para não amassar. No princípio achei melhor guardar as latas cheias, mas com o tempo descobri que algumas vazam e que outras estouram. Então passei a guardá-las vazias, tomando o cuidado para não abrir muito o lacre no momento de esvaziar as latas.
Tenho latas de dezenas de países, e algumas são muito bonitas e até curiosas. É interessante a diversidade do tamanho das latas que mudam em alguns países, e até mesmo o formato da lata sofre algumas mudanças. E mesmo no Brasil existem algumas diferenças conforme a região do pais, ou a fabrica da Coca-Cola. Por exemplo, no Rio Grande do Sul encontrei latas menores, com 270 ml. E no Nordeste existem estados onde as latas não são de alumínio igual no restante do Brasil. E no Norte e Oeste do Paraná existem garrafas de vidro de 600 ml, algo que não vi em outros lugares. Em viagens internacionais também notei algumas diferenças. No Paraguai e Uruguai não existem latas fabricadas localmente, as latas de Coca-Cola vendidas nesses paises são fabricadas na Argentina. E no Peru também não existem latas de Coca-Cola, lá só existem garrafas.
O pais que achei mais interessante em relação à Coca-Cola foi justamente os Estados Unidos, onde o refrigerante foi inventado. Lá existe uma vasta variedade de sabores diferentes de Coca-Cola. Existe: normal, normal descafeinada, diet, diet com cereja, diet com cereja e baunilha, zero, zero descafeinada, zero com cereja, cereja, diet com limão, diet com limão descafeinada, baunilha, baunilha descafeinada, baunilha zero, descafeinada, diet adoçada com Splenda, diet adoçada com Splenda descafeinada, orgânica. São diversos sabores, adequados ao gosto e consumismo norte-americano, mas que no Brasil com certeza muitos desses sabores não fariam sucesso. Alguns são horríveis! E além da diversidade de sabores das latas de Coca-Cola, nos Estados Unidos existem muitas garrafas de Coca-Cola comemorativas. Algumas são alusivas a eventos esportivos ou festas e outras a data comemorativas.
Se você tiver alguma lata antiga de Coca-Cola, ou fizer alguma viagem ao exterior, saiba que aceito doações de itens para minha coleção…
Últimos itens da Coca-Cola incorporados a minha coleção.
Aproveitando o sábado de muito calor, fui com minhas amigas Mari e Mariá fazer uma caminhada em volta da Usina Mourão. Minha mãe foi junto, mas como ela não pode caminhar em razão de um problema no joelho, a deixei na chácara de um tio, onde também ficou o carro.
O sol estava de rachar mamona, mas como a Mari conhece alguns “atalhos” na região, acabamos caminhando um bom trecho no meio de árvores. Na sombra estava gostoso caminhar e não foi tão cansativo. O mais difícil foi ouvir as duas “comadres” fofocarem o tempo todo… kkkk!!! Após 1h45min e cerca de sete quilômetros de caminhada, chegamos ao outro lado da Usina, na chácara de nossa antiga amiga de caminhadas, Zilma.
Após um breve descanso, muita água gelada e um animado bate papo, pegamos carona de lancha com um primo meu que estava passeando por lá. Fizemos um passeio pela represa e daí ele nos deixou na chácara do meu tio, onde iniciamos a caminhada. Acabou sendo uma tarde muito agradável, onde tanto o passeio a pé quanto o de lancha foram divertidos.
Mesmo com a chuva atrapalhando um pouco, pude fazer alguns passeios interessantes por Florianópolis. E conheci algumas praias onde nunca estive em minhas visitas anteriores a Ilha de Santa Catarina. E um local bem simpático onde estive duas vezes, foi o distrito de Santo Antonio de Lisboa. No local existe uma igreja centenária e também foi ali realizado o primeiro calçamento em uma rua no Estado de Santa Catarina. Tal fato ocorreu em 1845 durante uma visita do Imperador Dom Pedro II.
Após uma virada de ano com muita chuva, o tempo melhorou e foi possível admirar um belo pôr do sol na praia, em Santo Antonio de Lisboa, um dos locais mais antigos da Ilha de Santa Catarina.
Momentos distintos de um mesmo pôr do sol.
Distrito de Santo Antonio de Lisboa, Florianópolis - SC.
O reveillon foi bastante molhado, com muita chuva em Florianópolis. Mesmo assim foi bastante divertido. Quase em frente ao prédio onde estava teve show da Paula Fernandes sob muita chuva, na avenida Beira Mar Norte. E na virada do ano teve 15 minutos de queima de fogos, um espetáculo muito bonito. Pena que eu esqueci de carregar a bateria da câmera e quase fico sem fotos da virada. E agora que venha 2012, um ano que promete muitos desafios e coisas boas. Feliz 2012 a todos!!!!
Se 2010 foi o pior ano de minha vida, 2011 foi um dos melhores, confirmando que anos ímpares sempre são os melhores anos para mim. Muita coisa boa aconteceu, muitas pessoas interessantes entraram em minha vida. Fiz muitas viagens, algumas que desejava fazer a muito tempo: Peru (Trilha Inca e Machu Picchu), Caminho da Fé (de bike), Canadá e Washington.
O ano não foi perfeito totalmente, pois é praticamente impossível que um ano seja cem por cento bom. Tive momentos meio complicados, mas que foram curtos. Fiz algumas escolhas que no início achei que eram certas e logo descobri que eram erradas. O problema maior foi que insisti achando que as coisas deixariam de ser erradas e se tornariam certas. Após um tempo desisti de vez, mudei o rumo a seguir e tudo melhorou.
E olhando para trás em 2011, percebo que muita gente entrou em minha vida nesse ano. Teve algumas pessoas que ressurgiram e outras saíram de vez de minha vida. E teve algumas poucas que ao mesmo tempo em que entraram em minha vida nesse ano, também saíram de minha vida em 2011. E o mais importante foi que consegui “apagar” de vez certas pessoas de minha vida. Finalmente aprendi a virar páginas, a esquecer, levantar a cabeça e seguir em frente. E o interessante é que tais pessoas que “apaguei” não eram tão importantes em minha vida como algumas vezes cheguei a imaginar.
Então é isso, 2011 vai deixar muita saudade. E daqui um ano espero estar fazendo um novo resumo, contando que 2012 foi ainda melhor que 2011.
Aproveitando os dias de calor que tem feito por aqui, fui para o Ody Park com alguns amigos. O parque aquático fica em Maringá e nessa época do ano está sempre lotado. Passamos um dia divertido e zoamos muito. Apenas não pude desfrutar de todas as atrações do parque, pois alguns toboáguas são meio radicais e não posso arriscar dar um mau jeito em minhas hérnias de disco, justo agora que elas não incomodam mais.
Ao fazer visitas pela cidade, me deparei com o Seu Celso e D. Maria, moradores de rua por pressão, pois foram despejados e enganados por pessoas que venderam sua casa e nunca lhes entregaram o dinheiro. Recebem ajuda de uma igreja que ás vezes paga uma noite em um hotel pra eles. Mas há 1 mês adotaram o Rex, que foi abandonado, empurrado de um “carrão de gente rica”, “não tive tempo de anotar a placa, senão ia levar na polícia, pois sei que isso é crime” disse o Sr sorridente e simpatia em pessoa, desde então não se hospedam mais no hotel que vez ou outra certa igreja paga. “Veja bem moça, se formos ficar na cama quentinha, não podemos levar o Rex, e ele tá tão triste que nem quer comer a ração”. Sim, Seu Celso compra ração pro rex com a venda das latinhas que cata, assim é que os 3 se alimentam diariamente. E a única coisa que eles querem é um emprego de caseiro, pois possuem habilidades para tal serviço, e Seu Celso tem carteira de motorista em ordem. Seu Celso, D. Maria e o Rex, passam os dias na praça do Atlético, este ponto de ônibus que os encontrei é o da Av. Iguaçu, bem em frente á praça. Ajudei como pude, na alimentação daquela tarde véspera de Natal, mas eles precisam mesmo é de um trabalho com moradia…
E o dia de Natal foi divertido, mais uma vez passei em uma reunião de família, na fazenda de um tio. Foi um dia muito agradável e passou muito rápido. E ficou comprovado que atualmente estou “mais para o jogo do que para o amor”, pois teve a tradicional “cacheta” de Natal e dessa vez ganhei uma boa grana. E olha que eu não jogava desde o último Natal!
Desejo um Feliz Natal a todos os amigos e demais seguidores do Blog. Que o Natal seja especial para vocês e que não vejam somente o lado consumista e de festa relacionados a essa data. Que vocês vejam principalmente o significado de amor que o Natal nos mostra, o lado espiritual, o nascimento de Jesus Cristo.
Eu particularmente não curto Natal e outras datas comemorativas. Para mim todos os dias são iguais, e não vejo motivo para que certas datas sejam tão valorizadas, tão comemoradas. E algo que me incomoda no Natal é esse consumismo desenfreado que existe, onde muitas pessoas saem comprando sem parar e muitos nem tem como pagar, daí começam o ano cheio de dividas. O mundo não acaba no Natal e nem no Ano Novo, então não entendo por que muitos agem como se o mundo fosse acabar e exageram tanto nas compras, quanto nas festas e bebedeiras.
E algo que sempre me incomodou no Natal foi lembrar daqueles que nada tem, daqueles que passam o Natal em “branco”, principalmente as crianças pobres que esperam um Papai Noel que não existe em todos os sentidos. Você alguma vez já saiu na noite de natal a rua e observou quantas pessoas passam tal noite sozinhas na rua, muitas vezes sem nada para comer? Isso é mais visível nas grandes cidades. Que tal nesse Natal fazer algo diferente, tipo dar uma volta pelo seu bairro ou pelo centro de sua cidade, e escolher alguém que não tem nada, que está sozinho no Natal e dar a ele um presente, um prato de comida que sobrou de sua ceia natalina. Tente fazer algo assim, que garanto que seu Natal então terá sentido e você entenderá o que é o tal espírito natalino ao ver o sorriso de agradecimento de tal pessoa.
Após a noite mal dormida o jeito foi levantar acampamento e ir tomar café. Fomos até o salão paroquial, onde estava sendo servido o café da manhã para os caminhantes. No cardápio muito suco de uva e uvas. Notei que tinha bem menos caminhantes do que ano passado. Acredito que por ser próximo ao Natal, muita gente já está de férias e viajando, talvez por isso que o número de caminhantes era muito inferior ao de outras caminhadas de que participei.
Após o café iniciamos a caminhada. Os demais caminhantes já tinham partido, e seguimos tranquilamente, pois nosso objetivo nunca é ser os primeiros a chegar, pois não estamos participando de uma corrida. Seguimos sempre em nosso ritmo próprio, conversando, curtindo a paisagem e fazendo paradas sempre que existe necessidade de descanso, ou então para observar e curtir melhor determinado local. Esse ano inverteram o trajeto, que foi o contrário do trajeto do ano passado. Achei tal idéia inteligente, pois para quem já tinha feito antes tal trajeto, dessa vez parecia estar fazendo um trajeto totalmente novo. É incrível como passar por um mesmo lugar, mas em sentido contrário muda tudo, é como caminhar em um outro lugar.
O sol estava muito quente e isso judiou um pouquinho de nós. Fisicamente estou muito bem, e a caminhada foi como um passeio no parque para mim. Nos últimos dias tenho treinado entre duas e três horas diariamente, fazendo caminhadas, correndo, andando de bike, fazendo aulas de RPM e musculação. Então meu preparo físico está muito bom e não senti nenhum cansaço durante a caminhada. Somente o sol quente é que judiou um pouco. Pelo caminho vez ou outra passávamos ou éramos passados por um grupo de Pitanga. Após tantos encontros durante a caminhada, chegou um momento e que começamos a caminhar um trecho junto com o pessoal de Pitanga e a conversar com as garotas do grupo. É legal esse tipo de intercâmbio que ocorre durante as caminhadas e onde sempre nasce alguma amizade.
Fizemos algumas curtas paradas para descanso e também nos postos de controle durante o trajeto. Nesses locais sempre tinha água gelada, o que era uma benção. Num dos pontos de parada, teve um rapaz que exerce um cargo na Prefeitura local, e cujo nome não lembro, que ao saber que não tínhamos dormindo por culpa do barulho, disse que ano que vem ele faz questão que vamos dormir na casa dele, pois lá não tem barulho. Esse é um dos momentos bons das caminhadas, conhecer pessoas que mesmo sem nos conhecer direito, nos convida para almoçar, jantar, dormir em suas casas. E quanto mais interior, melhor e mais sincera é acolhida.
Durante a caminhada passamos por muitas plantações de uva e dava para ver o pessoal trabalhando na colheita. Em alguns sítios por onde passamos, eram visíveis no quintal caixas e mais caixas de uvas colhidas. O cheiro de uva no ar era delicioso. Quase no final da caminhada passamos por um rio e como fazia muito calor e não tínhamos tomado banho na noite anterior e estávamos com poeira no corpo todo, descemos à ponte e fomos nos banhar no rio. Entrar na água fria após caminhar muitos quilômetros sob sol quente é algo prazeroso e relaxante. Após um tempo no rio, o jeito foi voltar à estrada e percorrer o último quilômetro da caminhada, que terminou no parque de exposições, onde estava sendo servido o almoço.
Almoçamos, conversamos um pouco com a Ivaldete, que é da Emater e uma das organizadoras das Caminhadas na Natureza no Paraná. Já a conhecíamos de outras caminhadas e ela sempre nos trata muito bem, tem sido muito atenciosa e nos dá dicas de locais para acampar. A Vanessa se inscreveu num concurso de quem mais comia uva, que aconteceria mais no final da tarde. Enquanto esperávamos o horário do concurso, fomos procurar um local para descansar. Encontramos um gramado ao lado de uma rua empoeirada, próximo ao campo de futebol e foi ali mesmo que deitamos para descansar. Eu estava com tanto sono, que logo dormi. Mesmo deitado sobre algumas pedras e com barulho em volta, dormi tão profundamente que cheguei a sonhar. Já dormi em lugares bem piores, então aquele gramado naquele momento parecia à cama de um hotel cinco estrelas.
Eram quatro horas quando voltamos ao parque de exposições. A Vanessa ocupou seu lugar em frente a um prato cheio de uvas. Eram quinze participantes do concurso de comedor de uva e ganhava quem comesse tudo em menos tempo. E só podia deixar os cachos das uvas no prato, o restante tinha que comer tudo. A Vanessa tinha tomado café da manhã e comido bastante no almoço, então sabíamos que as chances dela ganhar eram quase nulas. Mas como ela é “comilona” de repente podia ser a zebra do concurso. Foi divertido ver o pessoal comendo uvas desesperadamente, motivados pelo prêmio em dinheiro. A Vanessa não fez feio, comeu cinco cachos e ficou em penúltimo lugar. Ela vai treinar durante o ano e na próxima irá lutar bravamente pelo título de maior comedora de uva de Rosário do Ivaí. Os dois primeiros colocados eram de Campo Mourão, mas não conhecia nenhum deles.
Quase no final da tarde pegamos a estrada de volta para casa. Estávamos todos muito cansados, mas felizes, pois o final de semana foi muito movimentado e divertido. Na viagem tive que me esforçar para não dormir ao volante. Quando passamos por Lunardelli, fizemos uma parada para descanso e para beber algo gelado. Daí aproveitamos para conhecer a Capela de Santa Rita, que é famosa na região por ser milagreira. Não demoramos muito e voltamos à estrada. Mesmo cansados, o pessoal estava animado e conseguia fazer uma ou outra graça. E todos já estão pensando no próximo ano, nas próximas caminhadas e acampamentos. Uma pena que a Karina está mudando de cidade e não fará mais parte de nossa turminha de caminhantes. Então para finalizar, desejo em nome de todos uma boa viagem e muita felicidade a Karina nessa nova fase de sua vida.
No sábado fui para o último acampamento e caminhada do ano. Saí de Campo Mourão com a Vanessa e a Karina. A bagagem das duas praticamente ocupou todo o espaço do porta malas do carro. Em Engenheiro Beltrão encontramos o Valter e o Shudy, que tinham vindo de Maringá. Nos “amontoamos” os cinco no carro e seguimos em direção a Rosário do Ivaí. Ano passado estive na caminhada de Rosário, mas como fui de ônibus com o grupo do Jair, de Maringá, e dormi durante toda a viagem tanto na ida quanto na volta, eu não sabia direito parte do caminho. Então antes de sair de casa desenhei um mapa num papel e coloquei no bolso. Quando na estrada tirei o mapa do bolso, a Vanessa teve a idéia de colar o mapa com um chiclete no pára-brisa, e deu o nome de “GPS de pobre”. A partir daí a zoação correu solta e isso fez a viagem passar mais rápida e ser mais agradável. Rosário é o local mais distante onde já fui fazer caminhada, pois fica a 220 km de casa. E a cidade é meio que no “fim da linha”, pois tem a estrada asfaltada que acaba em Rosário e depois não tem mais nada, somente pequenas estradas de terra. A região é bonita, fica no meio de alguns morros. Quase no final da viagem passamos por um descida interminável, com uma vista linda, onde a Vanessa aproveitou para gravar um fiminho da paisagem e de nossa bagunça no carro.
Quando chegamos a Rosário já estava começando a escurecer. Paramos na entrada da cidade, onde existe a imagem de uma santa e de um imenso rosário de cimento estendido em um gramado. Tiramos algumas fotos ali, o Valter fez xixi no poste ao lado da praça e seguimos até o centro da cidade. Demos uma volta para descobrir um local onde poderíamos jantar e fomos até o parque de exposições. Andamos pelo parque, verificamos o horário do rodeio e do show sertanejo que aconteceria ali e voltamos para o centro. Paramos numa lanchonete e jantamos pizza. Ali aproveitamos para gravar um vídeo em comemoração ao aniversário da Marilene, que dessa vez não pôde ir conosco. A comemoração teve direito a vela (só não queiram saber de onde veio a vela) e parabéns para você, mas em vez de bolo a vela foi em cima da pizza. Depois comemos e ficamos papeando. Vale mencionar que a Vanessa cobriu todas as fatias de pizza que comeu, com maionese e Ketchup numa quantidade exagerada, como nunca vi alguém fazer. Achei que o dono da lanchonete ia cobrar o vidro de Ketchup, pois ela comeu quase um vidro inteiro.
Voltamos para o parque de exposições e demos uma volta por lá. Faz algum tempo que não chove em Rosário, e a poeira no local era de dar medo. Algo que nos chamou atenção ali foi que quase todos trajavam camisa xadrez e bota. Nosso grupinho destoava dos demais presentes, pois alguns usavam tênis e bermuda. Não demorou muito e começou o show com a dupla Gilberto & Gilmar. Assisti um show deles em 1987, em Campo Mourão. Conhecia quase todas as músicas que a dupla cantou no show, principalmente as mais antigas. Logo muita gente começou a dançar durante o show e subia tanta poeira, que em algumas fotos que tiramos é possível ver a poeira no ar. Como o show estava ficando animado, aproveitei para dançar um pouco também. Após o show, andamos um pouco pelo local e fomos procurar um lugar para acampar.
Montamos nosso acampamento em um campo de futebol, próximo ao parque de exposições. Já eram quase duas da manhã e o barulho e movimento de pessoas no local era grande, sinal de que teríamos um noite complicada para dormir. Não tinha onde tomar banho, e por estar me sentindo mal com tanta poeira no corpo, acabei me lavando numa torneira próxima. Depois fui para a barraca e tentei dormir, mas com tanto barulho próximo, levei um tempão para pegar no sono. Quando finalmente dormi, não demorou muito e fui acordado pela Vanessa, puxando meu pé. Ela queria a chave do carro, pois estava mal do estômago e queria pegar um remédio. Na hora lembrei que o motivo do mal estar só podia ser o monte de Ketchup que ela comeu. Tentei voltar a dormir, mais foi impossível. Além do som alto em muitos carros estacionados próximos, vez ou outra alguém soltava fogos de artifício.
Era quase cinco da manhã e eu tentando dormir, daí ouvi uns ruídos estranhos e fui olhar fora da barraca. Numa arquibancada perto, três caras e uma guria, todos bêbados, estavam organizando um tipo de orgia. Não demorou muito e dois dos caras correram pelados pelo campo de futebol. Voltei a tentar dormir e quando estava quase pegando no sono, ouvi gritos de Quero Quero. Dessa vez não teve galo me acordando como de costume, mas teve Quero Quero! Demorou um pouco e quando estava novamente pegando no sono, três cachorros começaram a correr pelo meio das barracas, brincando. Depois disso não lembro de mais nada, só sei que dormi com o dia amanhecendo. Devo ter dormindo cerca de uma hora e meia e acordei, pois com o sol aquecendo a barraca, era impossível ficar ali dentro. Eram quase oito da manhã, não tinha dormido nada, mas mesmo assim levantei animado para desmontar acampamento e ver o que o domingo nos reservava.
Entrada de Rosário do Ivaí.
Na arena do rodeio.
Vanessa e o ônibus de Gilberto & Gilmar.
Jantando pizza.
Show de Gilberto & Gilmar.
Público vendo o show, e a poeira aparecendo na foto.
Quem me falou sobre The Big Bang Theory, foi minha amiga Andrea C. É que essa série é do mesmo produtor de Two And a Half Man, minha série favorita. Por curiosidade assisti um episódio de The Big Bang Theory, acabei gostando e não consigo mais parar de assistir. Em uma semana já assisti todos os 18 episódios da primeira temporada, e 12 episódios da segunda temporada. Nesse ritmo, em mais dez dias assisto todos os episódios, chegando aos atuais que são da quinta temporada. Virei fã da Penny… E me divirto com o Sheldon, que de tão inteligente chega a ser burro muitas vezes. Obrigado pela dica Andrea!!!!!
Um fazendeiro, que lutava com muitas dificuldades, possuía alguns cavalos para ajudar nos trabalhos em sua pequena fazenda. Um dia, seu capataz veio trazer a notícia de que um dos cavalos havia caído num velho poço abandonado. O poço era muito profundo e seria extremamente difícil tirar o cavalo de lá. O fazendeiro foi rapidamente até o local do acidente, avaliou a situação, certificando-se de que o animal não se havia machucado. Mas, pela dificuldade de alto custo para retirá-lo do fundo do poço, achou que não valia a pena investir na operação de resgate. Tomou, então a difícil decisão: determinou ao capataz que se sacrificasse o animal jogando terra no poço até enterrá-lo, ali mesmo. Os empregados, comandados pelo capataz, começaram a lançar terra pra dentro do buraco de forma a cobrir o cavalo. Mas, à medida que a terra ia caindo em seu dorso, o animal a sacudia e ela ia se acumulando no fundo, possibilitando o cavalo subir. Logo os homens perceberam que o cavalo não se deixava enterrar, mas ao contrário, estava subindo à medida que a terra enchia o poço, até que finalmente, conseguiu subir e sair do poço!!!
Se você tiver “lá em baixo”, sentindo-se pouco valorizado, quando, certos de seu “desaparecimento”, os outros jogarem sobre você terra da incompreensão, da falta de oportunidade e de apoio, lembre-se do cavalo desta história. Não aceite a terra que jogarem sobre você, sacuda-a e suba sobre ela. E quanto mais jogarem, mais você vai subindo, subindo, subindo… sorrindo, sorrindo, sorrindo…
Após a noite acampados num hotel fazenda em Faxinal, seguimos bem cedo até a AABB, onde teria início a Caminhada na Natureza. Quando chegamos à AABB, me surpreendi com a quantidade de pessoas que estavam lá, se preparando para caminhar. Depois fiquei sabendo que foram 501 caminhantes inscritos. Andando pelo local e tirando fotos, me chamou atenção um grupo de caminhantes de Londrina, composto por muitas pessoas e todos uniformizados.
Fomos tomar café, mas já tinha acabado. O problema não foi culpa dos organizadores da caminhada, mas sim dos próprios caminhantes. Muita gente não faz inscrição antecipada pela internet e mesmo que os organizadores façam o planejamento do café para uma quantidade maior de pessoas, algumas vezes o número de pessoas que aparecem para caminhar ficar bem acima do esperado. Dessa vez foi isso que aconteceu, o número de caminhantes superou em muito o esperado, pois muita gente (inclusive eu) não fez a inscrição antecipada.
Como não tinha café, eu, Mariá, Marilene, Celso, Walter e Shudy, fomos tomar café em uma padaria próxima ao local onde estávamos. Quando voltamos para a AABB, o pessoal já tinha partido e fomos os últimos a iniciar a caminhada. A Mariá e a Marilene, logo pegaram carona num ônibus, pois queriam caminhar junto com o restante do pessoal. Eu e os meninos recusamos a carona e preferimos seguir caminhando.
Os primeiros quilômetros de caminhada foram por uma estrada de terra. Depois pegamos uma outra estrada também de terra e chegamos à cachoeira Chicão I. Descemos por uma trilha no meio do mato até chegar ao rio abaixo da cachoeira. Ficamos um tempo ali admirando a beleza do local e tirando fotos. Depois retornamos à estrada e seguimos por uma longa subida. Na metade da subida viramos a esquerda e passamos a caminhar por dentro de uma fazenda. A vista era bonita, e passamos por uma mata cheia de belas araucárias. Então passamos a caminhar pelo meio de um pasto, ora descendo, ora subindo morro. Entramos em um trecho de mata fechada e chegamos a mais uma cachoeira. Depois voltamos a caminhar pelo mato e em seguida por uma longa estrada de terra em meio a uma plantação de feijão. Atravessamos uma precária ponte de madeira sobre um rio e voltamos à estrada na qual tínhamos iniciado a caminhada.
Fizemos uma parada em um sítio, onde eram vendidos alguns produtos de artesanato. Fazia calor e aproveitei para provar um suco de laranja e cenoura que duas simpáticas senhoras vendiam. O suco tinha sabor de Fanta. Saindo do sítio caminhamos próximo a uma plantação de eucaliptos e logo passamos por uma cerca de arame e chegamos até uma espécie de caverna, ao lado de um rio. Tiramos algumas fotos na caverna e voltamos a caminhar, dessa vez dentro de uma mata e sempre próximo a um rio.
Quase saindo da mata, passamos por alguns dos integrantes do grupo de Londrina e acabamos conversando com alguns deles. O nome do grupo é Londrinapé, e eles fazem caminhadas praticamente todos os finais de semana. Seguimos caminhando e ao olhar para trás vi que uma das moças de Londrina estava tirando fotos de tudo o que via pela trilha. Então parei e perguntei para a tal moça se ela era bióloga, pois tenho uma amiga bióloga que tem o costume de tirar fotos de tudo o que se move e não se move, quando ela entra em uma mata. A resposta foi que ela era agrônoma, o que também explicava ela estar tirando fotos de tudo o que via na mata. Estávamos quase no final da caminhada, e iniciei uma gostosa conversa com a tal moça (Heverly) que seguiu até chegarmos ao hotel fazenda onde tínhamos acampado, e onde estava sendo servido o almoço para os participantes da caminhada.
Após almoçar, descansar e conversar fomos caminhar mais um pouco para conhecer a Cachoeira da Fonte. Seguimos alguns minutos por uma estrada e depois por uma trilha em meio à mata. Quando chegamos à cachoeira me surpreendi com sua beleza. A Cachoeira da Fonte tem 62 metros de altura e é muito bonita. Não pude resistir e junto com o Celso e o Shudy, entrei na água e fomos até próximo ao local onde a água da cachoeira caí no rio. A queda da água era tão forte que não dava para entrar embaixo. Mas não precisava entrar embaixo da cachoeira para ficar molhado, pois a água era borrifada em grande quantidade e a uma grande distância. Foi uma experiência muito gostosa ficar no rio próximo a cachoeira. Mas tudo o que é bom dura pouco e logo tivemos que voltar para o Hotel Fazenda. Lá esperamos o ônibus que nos levaria até a AABB para pegarmos os carros e voltarmos para casa.
O ônibus acabou atrasando e isso me fez perder a final do Campeonato Brasileiro, onde o meu Corinthians foi campeão. Mas não me importei em perder o jogo, pois o dia foi tão interessante que acabou valendo a pena cada momento dele. Além de conhecer novos lugares, também pude conhecer novas pessoas, algumas muito interessantes. Então valeu muito o final de semana, e que venham novos acampamentos e caminhadas.
Troquei um final de semana em Camboriú, por um acampamento e caminhada em Faxinal. Mas não me arrependo, pois além de estar resfriado e sem vontade de fazer uma viagem longa, quem me conhece bem sabe que prefiro montanha, mato e cachoeira, do que praia.
A ida até Faxinal foi tranqüila e dessa vez fui como caronista. Exagerei na dose do remédio para o resfriado e acabei dormindo um pouco na viagem. Mas acordei a tempo de ver que a motorista tinha passado direto por Faxinal. Não sei o que aconteceu, mas sei que quando acordei já estávamos uns 3 km após Faxinal. Daí foi dar meia volta e retornar a cidade. E com certeza vou pegar no pé da Mari por muito tempo, por culpa desse “deslize” por parte dela.
Em Faxinal encontramos nossos amigos de Maringá e seguimos alguns quilômetros por uma estrada de terra, até chegar ao Hotel Fazenda Cachoeira da Fonte. Lá armamos nossas barracas e ficamos esperando que fizessem à janta. Dei uma grande bobeira ao não levar nenhuma blusa e de ter levado somente bermudas. A noite fez muito frio, nem parecia que durante o dia tinha feito bastante calor. Sei que passei frio e tive que me enrolar no saco de dormir para poder ficar andando fora da barraca.
A janta estava muito boa e me acabei de tanto comer torresminho de porco. Depois fiquei conversando um tempo com o pessoal e daí fui olhar as estrelas. A noite estava limpa, sem nenhuma nuvem e com lua. O céu estava repleto de estrelas e consegui ver algumas estrelas cadentes. Mas chegou um momento em que o frio era tanto, que achei melhor entrar na barraca e tentar dormir. Com o frio a barraca se torna mais confortável e aconchegante. Próximo ao local onde acampamos, tinha uma cachoeira, e ouvir o barulho da mesma era quase uma canção de ninar. Dormi muito bem e só fui acordar de madrugada com o barulho do alarme da caminhonete da Mari, que disparou sem motivo. Voltei a dormir e depois fui acordado por uma sinfonia de galos. Eram dois ou três, e tinha até um garnisé, que cantava mais fino. É difícil um acampamento onde os galos não incomodem. Estou começando a pegar raiva desses “bichos penudos”… Acho que vou comprar um estilingue para levar nos próximos acampamentos!!!
Você sabia que 9 entre 10 filhotes de cachorro que nascem não encontram um lar? Daí esses nove filhotes ou são mortos, ou então são abandonados nas ruas. Alguns crescem até certa idade e ficam perambulando pelas ruas das cidades, sujos, feios, cheios de sarna, e com um semblante de tristeza. Outros vão parar em canis municipais, e depois de um tempo são sacrificados. E uns poucos são acolhidos por entidades de proteção aos animais, e por mais boa vontade que os dirigentes dessas entidades tenham, fica difícil cuidar adequadamente de todos os animais que aparecem.
Então quando sentir vontade de ter um animal, um cachorro, por exemplo, evite comprar um cachorro de raça de criadores ou em Pet Shop. A maioria dos criadores trata os cachorros como se fosse “gado”, fazendo as matrizes criarem o máximo de vezes que for possível. E quando essas matrizes não tem mais idade para criar, muitas vezes são abandonas na rua. Já vi casos assim!
Quando sentir vontade de ter um cão, ou gato, procure adotar um dos milhares de vira-latas que vivem abandonados nas ruas, canis municipais e entidades de proteção aos animais. Evitem fomentar o comércio de animais de raça, adquira um vira-lata. Lhe garanto que nem sempre o cachorro mais bonito é o mais alegre, o mais divertido e o mais companheiro. Em casa temos dois exemplos disso, duas cachorras que foram resgatadas da rua, sujas, tristes e famintas. Uma delas hoje é o xodó da família. Ela é inteligente, carinhosa, manhosa, brincalhona e companheira. Não trocamos ela por nenhum cachorro de raça, por mais bonito que este possa ser.
Ontem teve caminhada noturna em Apucarana, e durante a semana convidei o pessoal de Campo Mourão para ir junto comigo nessa caminhada, mas ninguém podia ir. Daí fiquei desanimado e decidi que também não ia. Mas na última hora mudei de idéia, e segui para Apucarana. O engraçado foi que ano passado, no dia 21 de novembro aconteceu algo parecido. Teve caminhada noturna em Apucarana, era um sábado de muito sol e calor, e eu estava desanimado e triste, e decidi ir à caminhada na última hora. Quase um ano depois, tudo se repetiu, outro sábado de muito sol e calor, eu desanimado e triste, e na última hora decidi seguir para Apucarana, caminhar na noite e tentar deixar a tristeza e o desânimo pelo caminho.
Dessa vez resolvi mudar o caminho que sempre faço, e pesquisando no mapa descobri um outro roteiro para chegar até Apucarana. Esse roteiro seria 20 quilômetros mais curto e eu fugiria dos pedágios. E também teria pouco trânsito, pois seguiria por estradas de pouco movimento. De desvantagem nesse novo roteiro, era que parte da estrada era ruim, não tinha acostamento e passaria por locais bem desertos, onde caso eu tivesse algum problema mecânico, estaria literalmente f… ferrado. Por outro lado curto dirigir em estradinhas assim, passando por pequenos povoados e cidades, vendo paisagens bonitas e evitando o grande número de carros na estrada. Fazia muito calor e dirigir com as janelas do carro abertas, com o vento batendo no rosto, foi muito gostoso. Fui ouvindo música sertaneja, e cantando junto. Estava nessa “balada” até metade do caminho, quando notei que o mostrador de temperatura estava sinalizando algum problema. A temperatura estava quase no limite aceitável. Parei, tentei descobrir se tinha algo errado no motor, e não descobri nada. Voltei à estrada e tive que tirar o pé do acelerador, pois sempre que “pisava” um pouco mais a temperatura chegava ao limite de segurança, e se forçasse mais poderia fundir o motor. Tendo que reduzir a velocidade comecei a temer que não chegaria a tempo de encontrar o pessoal da caminhada no centro de Apucarana.
O horário de saída dos ônibus que levaria o pessoal até o local da caminhada, era 19h30min. Quando deu esse horário eu ainda estava há 20 quilômetros de Apucarana. Então lembrei que tinha o telefone de uma pessoa que faria a caminhada e liguei para ela. Expliquei meu problema, e pedi que pedisse para o pessoal da organização esperar até eu chegar. Esses últimos 20 quilômetros fui guiando com todo o cuidado, no limite entre superaquecer o motor de vez e ficar parado na estrada. Cheguei ao centro de Apucarana, na praça da Catedral, com vinte minutos de atraso. Vi o pessoal já embarcado nos dois ônibus da prefeitura e fui procurar um lugar para estacionar. Mas estava tendo um casamento na Catedral e não tinha nenhuma vaga para estacionar. Inclusive vi os noivos, que estavam tirando fotos no meio da rua em frente á igreja. Além de atrapalharem ainda mais o trânsito que já estava caótico, achei o ângulo da foto e tudo em volta muito horrível. Independente disso tive que dar umas voltas até conseguir estacionar, duas quadras para baixo da Catedral. Fechei o carro, peguei minha mochila e saí correndo. Para cortar caminho, bem que deu vontade de atravessar correndo por dentro da igreja, mas como sou educado e não queria atrapalhar o casamento de ninguém, dei a volta na igreja correndo. Ao chegar à rua do lado oposto, um dos ônibus com o pessoal da caminhada passou por mim. Dei com a mão para pararem, mas o ônibus seguiu em frente. Daí vi o outro ônibus que vinha atrás e dessa vez me meti no meio dos carros, sinalizando feito louco para que o ônibus parasse. Após quase ser atropelado duas vezes, o motorista do ônibus teve bom coração e resolveu parar e abrir a porta. O ônibus estava lotado e consegui achar um espaço minúsculo no primeiro degrau da porta e ali fiquei espremido ao lado de duas moças, enquanto o ônibus dava partida. Uma das moças perguntou se eu era o Vander. Respondi ofegante que sim, ainda tentando me recuperar da corrida atrás dos ônibus e pensando no que teria acontecido se eu não tivesse abortado no último instante minha insana idéia de pegar atalho por dentro da igreja, durante o casamento. A moça (cujo nome esqueci no momento) me disse que um carro tinha ficado me esperando, e que ela ia ligar para a dona do carro avisando que o retardatário (no caso eu) já tinha embarcado em um dos ônibus.
Seguimos durante uns dez minutos por ruas asfaltadas, até que entramos numa estrada de terra. Tinha muita poeira na estrada e percebi que essa caminhada era daquelas de comer poeira. Percorremos vinte minutos pela estrada de terra, sacolejando nos buracos em meio à poeira e com o barulho ensurdecedor do velho motor maçarico do busão ano 74, doendo nos ouvidos. Já estava escuro quando desembarcamos em frente a uma igrejinha fechada. O pessoal do outro ônibus tinha acabado de desembarcar. Ao descer já encontrei alguns amigos de Maringá e fui falar com eles. Após um breve aquecimento, teve início a caminhada noturna. Deviam ser umas cem pessoas participando da caminhada. Eu já tinha participado de outras duas caminhadas em Apucarana, onde as caminhadas são sempre bem organizadas e contam com a participação de muita gente.
Caminhei a maior parte do tempo com minha amiga Mira. E conforme íamos passando por outras pessoas, conversávamos com algumas dessas pessoas e seguíamos em frente. O primeiro quilômetro foi de descida, depois uma longa reta, até que começou uma longa subida. Era bonito ver as luzes das lanternas do pessoal formando uma fila indiana morro acima. Mesmo a noite fazia calor, o céu estava bem escuro e muito estrelado. De vez em quando eu desligava a lanterna e caminhava no escuro, vendo a beleza do céu repleto de estrelas. Foi mais um daqueles momentos em que nenhuma foto ou gravação consegue captar a beleza do momento, do céu, das estrelas. Conforme caminhávamos os cheiros bons e ruins iam se alterando. Era interessante perceber tal mudança olfativa.
Praticamente na metade no caminho ocorreu uma confusão com relação ao caminho a seguir. Ninguém sabia que íamos caminhar em círculo nos primeiros quilômetros e passar em frente à igrejinha onde a caminhada se iniciou. Então quem estava na frente viu a seta branca no chão, que indicava para seguir a direita e não viu a igreja poucos metros à frente, do outro lado da estrada. Isso fez com que muitos caminhantes, inclusive eu, seguisse pelo caminho errado. A seta indicava o caminho a seguir no início da caminhada, pois já tínhamos passado naquele local. Felizmente alguém da organização percebeu e foram de Kombi avisar que estávamos no caminho errado. Daí o jeito foi dar meia voltar e seguir até encontrar o caminho certo. Tal erro fez com que eu andasse cerca de um quilômetro e meio a mais, o que não foi nenhum dano, principalmente por me encontrar bem fisicamente, o que não me deixa cansado em uma caminhada “curta” de dez, doze quilômetros.
A parte final da caminhada foi por uma estrada longa, que iniciou com uma longa subida. De um lado da estrada dava para ver ao longe as luzes da cidade, e do outro lado muitos cafezais. Seguimos pela estrada até chegar a uma Estação Ecológica e ali entramos. Caminhamos pelo meio de uma mata bem preservada e finalmente chegamos ao fim da caminhada. Eram 22h42min, e como fui um dos primeiros a chegar, aproveitei que não tinha fila e fui jantar, pois estava “faminto de fome”. Logo o restante do pessoal foi chegando e não demorou até que todos estivem jantando.
Após a janta fiquei conversando com o pessoal e depois fomos embarcar nos ônibus. Quase chegando ao ônibus pisei em um buraco escondido na grama e levei uma torção no tornozelo direito, o que me fez sentir muita na dor na hora e até agora está causando certo incômodo. Na volta até o centro da cidade fui “espremido” no meio do busão, conversando com a Mira, Celso, Waltério, Bamba e Shudy. Desembarcamos no centro da cidade, tiramos uma foto de nossa turminha juntos, nos despedimos e combinamos a próxima caminhada. Fui pegar o carro e na viagem de volta dirigi com o máximo de cuidado, pois o problema de superaquecimento continuava. Nas descidas eu deixava o carro seguir no embalo, sem acelerar, e isso fazia com que a temperatura baixasse um pouco. Nas retas e subidas eu não passava de 70 km/h, e não tirava o olho do marcador de temperatura. Nessa de olhar demais para o marcador, me distrai e acabei entrando errado num trevo. Somente após percorrer uns cinco quilômetros é que percebi o erro. Daí tive que dar meia volta e procurar a estrada certa. E nesse ritmo lento acabei chegando em casa ás 4h05min da madrugada. Meio tarde, mas felizmente cheguei inteiro. Valeu ter viajado 350 quilômetros entre ida e volta para participar da caminhada. Apesar do problema no carro, cheguei em casa bem humorado e feliz. A tristeza e o desânimo deixei em algum lugar da estrada de terra onde caminhei lá para os lados de Apucarana. Cada dia gosto mais desse novo “hobby” que são as caminhadas. Elas me fazem bem, me deixam relaxado e feliz. O que para muitos é “programa de índio”, para mim é um santo remédio.
Mochileira deite comigo essa noite E conte aquela boa velha história De como as noites são claras em Machu Pichu
Moça eu não vou precisar ler na sua mão Pra saber que você não vai voltar Pra vida maluca das pessoas Do mundo Das formigas tentando se esconder da chuva
Porque não fazer algo mais divertido que casar com executivos E acabar achando excitante A reunião semanal da confraria dos amantes Das delícias da boa velha tecnocracia
Moça eu sei que não é legal Ficar sozinha quando o velho medo vem E essa noite em Cuzco é tão fria Me passe a garrafa de vinho…
Mesmo tendo nascido em Campo Mourão e vivido muitos anos na cidade, eu não conhecia o Parque Estadual Lago Azul, distante apenas 6 km do centro da cidade. Engraçado isso, de nesses anos todos ter conhecido muita coisas mundo afora, e não ter conhecido algo que fica quase no “quintal” de casa.
Fui conhecer o parque a convite de uma amiga, Vanessa, e levei junto mais três amigas: Marilene, Mariá e Cris. Chegando ao Parque Estadual Lago Azul, encontramos a Vanessa e nos juntamos a um grupo de rapazes e também alguns alunos da Fecilcan, que estavam tendo aula de campo com um professor de biologia. Nosso grupo percorreu a Trilha Aventura, que percorre vários lugares no interior do parque. Fazia muito calor e a parte boa de percorrer a Trilha Aventura, foi que andamos muito por dentro da água. E também passamos por duas cachoeiras. O momento mais complicado foi quando fui levado pela correnteza, e o Alemão que ajudava o pessoal atravessar o rio na parte de correnteza forte, tentou me segurar e acabamos nós dois sendo levados pela água. Por sorte minutos antes eu tinha “jogado” minha mochila para a Marilene e dessa forma salvei a câmera e as fotos do passeio. Eu estava descalço no momento de atravessar o rio, e além do banho involuntário acabei cortando o pé. Mas não foi nada grave e nem de longe abalou a sensação gostosa de ter percorrido essa trilha tão bonita. Foi uma tarde muito agradável e pretendo voltar outras vezes para percorrer a mesma trilha e atravessar os mesmos rios, só que dessa vez se possível sem cair e ser levado pela correnteza.
No período de 1985 a 1987, a Copel investiu recursos para mitigação dos impactos causados por incêndios florestais. O sucesso das ações ambientais, aliado às características físicas, sócio-econômicas e do biossistema remanescente viabilizaram a criação do Parque Estadual Lago Azul, o qual tem caráter pioneiro no setor elétrico brasileiro. Localizado ao lado da Usina Mourão, próximo à cidade de Campo Mourão, o Parque Estadual Lago Azul é um local de preservação ambiental, e possui muitas belezas naturais.
Desde 1990 que eu não via a Usina Mourão com água passando por cima de sua represa. Nesses últimos 21 anos tal fato deve ter ocorrido algumas vezes, mas como não ia muito a Campo Mourão, acabou se passando duas décadas sem eu presenciar tal fato. Vendo a imagem da água passando por sobre a barragem, me veio algumas lembranças da infância. Naquela época parecia que a represa da Usina Mourão era gigante, mas após conhecer outras Usinas Hidrelétricas e principalmente conhecer Itaipu, descobri que a Usina Mourão é bem pequena. De qualquer forma ela é a Usina de minha infância, e sempre será a minha preferida.
História: A Usina Hidrelétrica Mourão possui potência instalada de 8,2 MW, e está localizada na margem direita do rio Mourão, no Município de Campo Mourão, a aproximadamente 6 km do centro da cidade. No final da década de 50, o Governo do Paraná solicitou pedido de concessão ao Governo Federal para aproveitar o potencial existente no Salto São João. A construção foi iniciada pelo DNAEE em 1958. Em 1961, após obtenção da concessão junto ao Governo Federal, a Copel retomou suas obras, inaugurando a usina em 1964. Foi reforçada assim a oferta de energia à região Norte. Durante muito tempo a Usina Mourão atendeu isoladamente a região composta por 15 municípios do centro-oeste paranaense. Depois, com a interligação do sistema elétrico do Paraná, passou a fazer parte do parque gerador da Copel.
O dia amanheceu sem chuva e com um sol bonitinho. Levantar foi complicado, mas como não tinha outra opção dei um jeito de sair de minha aconchegante barraca. O pessoal já estava tomando café, e me juntei a eles. Tomar café da manhã é algo que normalmente não faço, mas quando tem caminhada sempre procuro comer algo, para não caminhar de pança vazia. Comi um sanduba de queijo com presunto e bebi um copo de água. É que só tomo chá e não tinha chá. Preciso reclamar sobre isso com a Marilene, que foi quem organizou a caminhada. Mari, sei que você vai ler isso, então favor levar um caixinha de chá mate natural Leão na próxima caminhada. rs!!!
Antes de sair caminhar desmontamos as barracas, tiramos uma foto com todo nosso grupo e pouco antes das nove iniciamos a caminhada. O primeiro trecho tinha barro, em razão da chuva do dia anterior. E não demorou muito chegamos ao asfalto e seguimos por ele um bom tempo. O clima estava ótimo para caminhar, pois mesmo com sol não fazia muito calor. Como nosso grupo não era grande fomos caminhando próximos uns aos outros. E como é natural se formavam alguns grupinhos ou duplas que seguiam juntos caminhando. O trecho que percorremos no início eu já conhecia de outras caminhadas e passeios de bike. A região é bonita, com muito verde.
Menos de duas horas de caminhada e chegamos à ponte do Rio da Várzea. Depois da ponte enfrentamos a primeira grande subida da caminhada e o tempo fechou, começando a cair uma fina garoa. Mais um pouco caminhando e entramos num lugar de mata fechada, seguindo ao lado do rio e chegamos ao Salto Santa Amália. Pelo plano original, deveríamos atravessar o rio pouco abaixo do Salto Santa Amália e seguir por uma trilha do outro lado. Mas em razão da chuva dos últimos dias o rio estava muito cheio e com a correnteza forte. Então o jeito foi descansar um pouco ali e dar meia volta, seguindo pelo caminho de onde tínhamos vindo. Ao chegar novamente a ponte do Rio da Várzea começou a garoar e algum tempo depois começou a chover mais forte. Acabamos nos molhando, mas foi divertido.
Fizemos um trecho alternativo na volta, para não passar pelo mesmo caminho. Viramos em uma estrada de terra e após pular uma porteira e passar por um pasto cheio de vacas, entramos numa região de mata. A chuva parou e o sol voltou belo e formoso. Mas o barro permanecia e em alguns trechos foi complicado caminhar, pois o barro grudava no calçado e ficava pesado o movimento de levantar os pés ao dar as passadas. Passamos por algumas casas que estavam vazias, pulamos mais duas porteiras e logo chegamos próximo a uma aldeia indígena. Em seguida enfrentamos a maior subida da caminhada e com o sol do meio-dia, acabou sendo a parte mais complicada do caminho. No final da subida paramos sob a sombra de algumas árvores para descansar e parte do pessoal aproveitou para colher jabuticabas.
Após o breve descanso recomeçamos a caminhada e chegamos a Comunidade do Barreiro das Frutas. Nesse local pernoitamos em outubro do ano passado, durante uma caminhada do Caminho de Peabiru. Ali descansamos mais um pouco e voltamos a caminhar. Chegamos de volta ao local do acampamento pouco depois das três horas e um gostoso almoço nos esperava. Antes de comer fui ao lago tirar o barro de minhas botas e depois me sentei junto com alguns amigos ao lado de um córrego, onde colocamos os pés na água fria. Isso foi algo muito relaxante e logo as dores nos pés tinham desaparecido. Em seguida fui almoçar junto com o pessoal. Daí ficamos conversando um tempo e no final da tarde fomos embora. O acampamento e a caminhada foram muito bons e espero reencontrar o pessoal em breve, se não todos, ao menos alguns, para fazermos novas caminhadas e acampamentos.
Durante as semanas que fiquei fora do Brasil, senti muita saudade dos acampamentos e caminhadas. Eu via as fotos que os amigos postavam no Facebook e no Orkut e ficava com vontade de ter participado com eles de algumas caminhadas e de um acampamento que aconteceu no Morro dos Ventos, em Nova Tebas. E por sorte, tão logo voltei ao Brasil foi marcado um acampamento com caminhada, na região do Barreiro das Frutas.
Choveu muito no dia do acampamento, e mesmo assim a maioria do pessoal compareceu. Acampamos em uma chácara, e não demorou muito para que alguns dos amigos de Maringá chegassem, bem como o Pierin e sua família, que vieram de Cambé. Para a janta fizemos um churrasco, onde eu e o Doni sofremos para acender o fogo. Depois de jantarmos ficamos conversando. Alguns foram dormir cedo, e outros ficaram até tarde conversando. Parte do pessoal dormiu na casa da chácara, nos quartos e na sala. Eu e alguns outros armamos nossas barracas na varanda, para fugir da chuva.
Fui um dos últimos a ir dormir, fiquei conversando e zoando com o pessoal até tarde. Eram umas três da manhã quando entrei em minha barraca. Estava quase pegando no sono quando as nuvens de chuva dispersaram e surgiu uma lua muito clara no céu. Eu não tinha colocado a capa da barraca e a lua deixou a noite muito clara e tive dificuldades para dormir. De madrugada alguém foi ao banheiro e deixou a luz da varanda acesa, e essa luz batia em cheio no meu rosto. Acordei e demorei em pegar no sono. Daí finalmente dormi e nem mesmo ouvi o galo que alguns disseram ter cantado alto desde muito cedo. O chato foi acordar cedo após ter dormido poucas horas. Mas isso era um detalhe, o importante é que a chuva tinha ido embora e o dia prometia uma ótima caminhada, para eu matar minha saudade de andar pelo mato, no barro, sob sol, sob chuva. Essa é uma paixão que muitos não entendem, mas os que entendem e gostam sabem como é bom.
Ontem teve Luau do Passarinho, com show do Michel Teló. Não estava em meus planos ir, mas na última hora acabei indo e após certa dificuldade em conseguir ingresso, acabei entrando no show. Eu gostava mais quando o Michel Teló cantava no grupo Tradição, mas como cantor solo ele não é ruim. O show foi bom, ele cantou vários tipos de música, vários ritmos. O Luau do Passarinho estava lotado, e esse ano foi mais organizado que o do ano passado.
O momento surreal do show foi quando o Michel Teló cantou a música “Como Zaqueu”, composição do Regis Danese. Essa música é para um momento de interseção e adoração a Deus, não combina com um show onde 90% dos presentes estavam com um copo de bebida alcoólica na mão, muitos caindo de bêbado. E na minha frente tinham dois casais cheirando cocaína, na cara de pau, bem no momento em que o Teló cantava essa música. Ficou muito estranho, muito surreal. Acho que ele deveria tirar essa música do repertório do show, pois não combina com o ambiente, não tem nada a ver com o tipo de show que ele faz. Essa música é para ser cantada em eventos gospel, em igrejas, não em um show repleto de bêbados. Essa é minha modesta opinião!! Fora isso, valeu! Grande show!!!
Acabei tendo que voltar ao Brasil antes do planejado. Quando saí do Brasil minha passagem de volta estava marcada para final de janeiro. Mas existia a possibilidade de ter que retornar antes ou até mesmo não retornar. No fim assuntos pendentes me fizeram pagar U$ 200 de multa para mudar a passagem e antecipar minha volta. Se não retorno agora ao Brasil o prejuízo seria bem maior que os U$ 200 que paguei de multa. Mas tudo bem, ter que voltar antes do planejado não é nenhum problema, não me deixa triste e nem frustrado. O período que fiquei fora foi muito bom, conheci novos lugares, fiz novos amigos. Também revi certos lugares e alguns amigos. No final das contas foi válido cada dia, cada hora, cada minuto que passei fora do Brasil nessa viagem. Alguns momentos, alguns lugares serão inesquecíveis.
Mudei a passagem num dia e no outro já estava com as malas prontas e embarcando para casa. No aeroporto tive problemas com o peso de uma mala, e queriam me cobrar U$ 100 pelo excesso. O jeito foi abrir minhas duas malas no chão do aeroporto e mudar algumas coisas de uma mala para outra. No fim não precisei pagar excesso e uma das malas ficou somente com 200 gramas abaixo do peso permitido. O vôo de Orlando a Miami foi tranqüilo, apenas a conexão é que ficou com horário apertado, e mal desci de um avião já tive que embarcar em outro.
No vôo rumo ao Brasil fiquei num lugar bom, mas outra vez dei azar e veio um cara enorme do meu lado. E o pior é que o cara cheirava muito a suor. Tive que me espremer no canto da janela, ligar o ar no último e direcionar a saída do ar para o meu rosto. Isso aliviou o cheiro ruim, mas em compensação o ar frio me fez chegar ao Brasil resfriado. E a parte mais chata da viagem foi quando o avião estava preparado para decolar, já estava entrando na pista principal e de repente parou, as turbinas pararam. Ficamos um bom tempo ali parados e dava para ouvir o ruído das turbinas tentando serem ligadas. Era algo parecido com um carro que não quer dar partida e você fica forçando. Depois de uns 15 minutos nessa situação o piloto avisou pelo rádio que estavam com problemas no computador de bordo e caso não conseguissem solucionar o problema, logo ele voltaria avisando quais providências seriam tomadas. Nesses caso nunca sei se é melhor saber que estamos com um problema, ou não saber de nada! Sei que depois de 15 minutos finalmente conseguiram ligar as turbinas e foi dado o aviso que a decolagem seria feita. Mas aí já era tarde, a tensão era geral. Fiquei pensando se tinham mesmo resolvido o problema de uma forma definitiva, ou se o computador de bordo daria nova pane durante o vôo? Daí fica aquela duvida, será que iam decolar com uma aeronave com problemas? Ou iam arriscar, já que cancelar ou atrasar o vôo causaria alguns problemas e prejuízos para a Companhia Aérea? No fim das contas perdi o sono e qualquer ruído diferente durante o vôo era motivo para muitos passageiros olharem para os lados de forma apreensiva. Foram quase oito horas de vôo até chegar a São Paulo e não dormi um minuto sequer. Para passar o tempo e me distrair, assisti a quatro filmes.
O desembarque foi tranqüilo e mais tranqüilo ainda foi passar pela Receita Federal. Simplesmente não tinha fiscalização, estavam liberando todo mundo. Eu estava trazendo coisas acima da cota permitida e fiquei aliviado ao ver que não tinha fiscalização. E teve gente que ficou mais aliviada do que eu, pois traziam muitas malas, muita mercadoria, muitos aparelhos eletrônicos. Isso mostra mais uma vez que no momento o Brasil não tem capacidade para dar um tratamento adequado à demanda de passageiros que entram e saem de nosso pais. Será que terão na época da Copa e da Olimpíada? E outra constatação foi que Guarulhos, nosso maior e melhor aeroporto, é um “lixo” comparado aos muitos aeroportos por onde passei nessa viagem. Realmente estamos no terceiro mundo em termos de infra-estrutura. Independente disso tudo, foi bom voltar para casa.
Agora é dar uma parada nas viagens, e recomeçar minha vida. Quinze meses parado, cuidando da saúde, descansando e viajando muito foram suficientes para me deixar completamente curado de meus problemas. Posso dizer que hoje sou um novo homem, com uma nova visão sobre a vida e sobre muitas coisas. Essa última viagem me permitiu pensar muito e ajustar algumas coisas que ainda não estavam bem certas. Hoje sei o que quero, sei qual rumo dar a minha vida. E decidi que certas coisas e certas pessoas não quero mais em minha vida. Tem algumas pessoas que se possível nunca mais quero ver, nunca mais quero falar com elas, ou saber algo sobre elas. Para mim simplesmente “morreram”. Em contrapartida tem pessoas que surgiram em minha vida recentemente e que são muito importantes. E espero que com o passar do tempo essas pessoas se tornem ainda mais importantes. É isso aí! Vida nova, novos planos, novos sonhos… O que passou ficou no passado e com o tempo tudo será esquecido. O que importa são as lições que aprendi com tudo o que passei, principalmente com as dificuldades. Agora é cabeça erguida e uma nova vida pela frente. Amém!!!
Visitei o único dos quatro parques da Disney que ainda não conhecia, o Disney Hollywood Studios, antigo Disney MGM Studios. Mesmo tendo atrações baseadas em filmes de cinema, ele perde de longe para a Universal Studios, que tem atrações bem mais interessantes. O Disney Hollywood Studios é mais para crianças do que para adultos, ao menos em minha opinião. Mesmo assim foi um dia interessante que passei no parque e pude desfrutar de algumas atrações interessantes.
Entre muita coisa que fiz e vi, vale mencionar que assisti aos Muppets num teatro, numa mistura de cinema 3D e participação ao vivo de alguns bonecos. Outra atração que gostei foi Indiana Jones, onde você vê trechos do filme sendo apresentado por atores como se estivesse sendo gravado naquele momento. Eles usam e abusam dos efeitos especiais. E teve um passeio como se fosse num barco que percorre um túnel e passa por diversos cenários de filmes, com robôs representando os atores. Essa é uma legítima viagem na história do cinema. E também assisti a apresentação ao vivo de “A Bela e a Fera”. Essa atração é mais para crianças, mas mesmo assim foi divertido. Vi muito mais coisa e evitei a montanha russa e o elevador que despenca.
E teve uma parte do parque que achei muito interessante. É um local dedicado a Walt Disney, e conta toda sua história e do império que ele criou. Tem muito material original. Entre o material em exposição está o escritório de Walt Disney, que ficava em Burbank, na Califórnia. E algo que gostei muito, foi ver ao vivo e a cores alguns dos OSCAR ganhos pela Disney. Desde criança que gosto de assistir anualmente na TV a entrega do Oscar. E poder ver alguns deles foi uma experiência bastante interessante.
Acabei encontrando meu amigo Samuel mais uma vez em Orlando e fomos à Noite do Horror, na Universal Studios. Foi bem divertido, apesar das longas e demoradas filas para entrar em algumas atrações. Ficamos de 5 a 40 minutos em algumas filas para entrar nas atrações, e cerca de cinco minutos em cada atração. Quando a atração era boa, valia a pena o tempo de espera, mas quando era ruim, dava uma raiva enorme ter perdido tempo na fila. As atrações de terror eram muitas, mas bem parecidas no conceito. Ou seja, você entrava em um local fechado, que era todo decorado com algum tema relacionado a terror, ou em alguns casos a filmes de terror. A decoração era muito caprichada e cheia de efeitos especiais, luzes, gelo seco, ruídos, gritos, personagens caracterizados andando pelo local e tentando te assustar. Tudo isso criava um clima de medo.
Confesso que não me assustei nas atrações, pois já entrava preparado e atento para não levar sustos. E ficava olhando para todo lado e prestando atenção em tudo para não levar sustos. A única atração realmente assustadora em minha opinião foi o passeio pelo cemitério. Essa atração foi muito bem bolada e estava bem caracterizada. Senti-me dentro do filme “A Volta dos Mortos Vivos”, grande sucesso em meados dos anos oitenta. Essa atração consistia de um passeio por dentro de um cemitério cenográfico, à noite, com nevoeiro, ruídos estranhos, monstros surgindo no meio das tumbas, tumbas se abrindo e mortos decompostos aparecendo em sua frente. Ali não teve como não ficar com medo e não levar sustos. Mesmo sabendo que era tudo de “brincadeira”, o clima criado acabava te envolvendo e você se assustava. E mais uma vez foi uma pena não poder gravar ou fotografar dentro das atrações. E mesmo que fosse possível fotografar e gravar, não teria como transmitir a verdadeira sensação de horror e medo de algumas atrações. Só mesmo indo lá para saber como é, e se assustar um pouquinho.
E nessa noite acabei indo na montanha russa da Múmia. Essa atração é baseada no filme “A Múmia”. No início o trenzinho segue calmamente, passando por túneis com cenários idênticos aos do filme. Mas logo você entra num túnel escuro, que na verdade é uma montanha russa no escuro. Eu tinha sido aconselhado pela Consuelo e pelo Wagão, que já conheciam essa atração, a não ir nela em razão de minha labirintite. Mas como sou teimoso, curioso e adorei o filme no qual a montanha russa foi baseado, acabei indo. Quando começou a parte de freadas bruscas, curvas e descidas em alta velocidade, lembrei do conselho que me deram e me arrependi de estar ali. Segurei firme, fechei os olhos e fiquei torcendo para que acabasse rápido. Teve um momento em que quase apaguei, fiquei tão tonto que achei que ia desmaiar. Quando desci estava muito tonto, com a cabeça doendo e a labirintite atacada. Fiquei um bom tempo andando meio grogue e jurando que nunca mais entro novamente em uma montanha russa, seja ela no claro ou no escuro.
E nesse retorno a Orlando, finalmente consegui encontrar meu grande amigo Samuel, vulgo Samuca. Nos conhecemos em 2002, logo que fui morar em Orlando e ele foi o melhor amigo que fiz nos Estados Unidos. O Samuel é de Olinda – PE, e vive há 11 anos em Orlando. Marcamos de nos encontra em um bar para conversar e passamos um bom tempo contando sobre nossas vidas nos últimos oito anos, desde que nos vimos pela última vez. E relembramos alguns momentos e histórias que vivemos juntos em 2002 e 2003.
Conheci o Samuel quando fui trabalhar num hotel em Cocoa Beach, praia que fica próxima a NASA. Éramos uma equipe contratada para fazer pequenos retoques nos banheiros de 400 quartos do hotel, principalmente no isolamento ao redor das banheiras. Para quem não sabe, nos Estados Unidos praticamente todos os banheiros de casas e hotéis possuem banheira. O chuveiro fica acima da banheira e você toma banho em pé dentro da banheira. A equipe era formada por mim, Samuel, Marcos e Honey. Nossa supervisora era uma jovem loira irlandesa, que estava fazendo estágio em hotelaria nos Estados Unidos. Nos primeiros dias enrolamos bastante no serviço, pois ganhávamos por hora. E mesmo assim a irlandesa veio reclamar que estávamos indo rápido demais e dessa forma o trabalho ia acabar logo, o que não era bom para ela. Ser nossa supervisora era moleza, e ela queria permanecer nessa moleza por mais tempo. Então firmamos um acordo, onde limitamos a quatro o número de quartos que cada dupla consertaria por dia. Se fosse para trabalhar para valer, daria para fazer tranquilamente uns 12 quartos por dia. E assim ficamos dois meses nesse hotel, que era em frente ao mar, fazendo o trabalho de forma tranqüila. E riamos muito, pois zoávamos o tempo todo. E vez ou outra dávamos um jeito de fugir e ir passear na praia. Outra coisa comum era enquanto um trabalhava, o outro ficar dormindo. Lembro do Marcos dormindo debaixo de uma cama. E eu muitas vezes dormia sentado atrás da porta do banheiro. Bons tempos!
Eu e o Wagão aproveitamos um dia quase inteiro para visitar o parque temático da Universal Studios. Além desse parque ser o que ficava mais próximo ao nosso hotel, ele é o nosso parque favorito em razão de suas atrações, quase todas baseadas em filmes de cinema.
Chegando a Universal Studios fomos primeiro em nossas atrações favoritas: Shrek 4D, MIB – Homens de Preto, e Twister. Assistimos o show de blues dos Irmãos Cara de Pau e também ao Rock Horror Show. O Wagão ainda não conhecia “Tubarão”, pois da outra vez que foi a Universal a atração estava fechada por problemas técnicos. Então enfrentamos uma fila enorme e embarcamos para “caçar” o temido tubarão. Essa atração é uma das melhores do parque. Infelizmente não é possível fotografar ou filmar dentro dos locais das principais atrações. E mesmo que fosse possível, não se conseguiria captar a sensação e a emoção dessas atrações. Então só mesmo indo até lá para sentir ao vivo o quanto a Universal Studios é sensacional.
Eu já tinha ido algumas vezes na Universal Studios, e mesmo assim foi bom ir outra vez. De novidade tinha a atração da Múmia, uma espécie de Montanha Russa no escuro, que da freadas bruscas e faz curvas radicais. Achei melhor não ir, em razão de minha labirintite que já tinha me deixado tonto com as rodadas básicas do carrinho, quando fomos caçar extras terrestres em MIB. E a sensação atual do parque é uma montanha russa super radical, com curvas, subidas e descidas de dar medo. Não curto montanhas russas, e nem é por medo. É por que fico mal, tonto mesmo e depois que tive labirintite a situação piorou ainda mais, posso chegar a desmaiar dentro do carrinho da montanha russa. Então melhor não arriscar.
E após mais de um mês “rodando” por Canadá e algumas cidades dos Estados Unidos, voltei a Orlando, que é o meu “cantinho” nos Estados Unidos. Tenho um carinho enorme por essa cidade, principalmente após ter morado durante um ano nela.
Na viagem entre Nova York e Orlando, o momento mais tenso foi sair do hotel às cinco da manhã, com frio e estando escuro. Minha preocupação era percorrer os dois quarteirões até a estação do metrô. Logo ao sair do hotel e virar a esquina, dei de cara com um carro de polícia parado com o motor ligado, e dentro dois policiais. O motivo do motor do carro estar ligado era para que funcionasse o sistema de ar quente, pois fazia muito frio. Ver o carro de polícia ali parado me tranqüilizou, pois se ocorresse algum problema até chegar à estação do metrô, eu sabia para que lado correr pedindo socorro. Meu vôo para Orlando saiu no horário e dormi durante toda a viagem.
Chegando a Orlando encontrei meu irmão no aeroporto. Ele tinha ido a Miami resolver alguns assuntos profissionais e tirou dois dias para ir a Orlando me encontrar. Era sua terceira vez nos Estados Unidos e a primeira vez em que nos encontrávamos em solo norte-americano. Nunca antes tinha dado certo de nos encontrarmos, nem mesmo quando eu morava em Orlando.
Saindo do aeroporto paramos num Denny’s almoçar e depois fomos para o hotel. Ficamos hospedados no Days Inn que fica próximo a Universal Studios. O detalhe é que trabalhei nesse hotel e também no restaurante que fica ao lado do hotel. Na época em que ali trabalhei o restaurante era um Denny’s. Agora é um restaurante indiano. E mais interessante foi que o quarto onde ficamos ficava em cima da lavanderia, local do hotel onde trabalhei bastante em 2003. O dono do hotel ainda é o mesmo, um indiano chamado Anchu. Além dele não existe mais ninguém no hotel ou no restaurante, que eram da época em que lá trabalhei. O restante do dia eu e meu irmão tiramos para passear, visitar algumas lojas e fazer compras.
Não farei postagens sobre todos os locais que visitei em Nova York, pois em alguns tirei poucas fotos e outros a importância não é tanta. Então finalizo por aqui as postagens sobre Nova York, deixando uma galeria de fotos.
NYPD
Ao fundo o famoso touro de Wall Street.
A gaivota mansa em Staten Island.
Empire State.
Estação de Metrô.
Comendo um Hot Dog original.
Entrada do Rockefeller Center.
Na Quinta Avenida.
Biblioteca Pública de Nova York.
Atrás de mim a Grand Central Station e ao fundo o Chrysler Building.
Um local interessante que conheci em Nova York, foi o Washington Square Park. Esse parque fica na região conhecida como Greenwich Village, no final da Quinta Avenida. Ele é um importante ponto de encontro de atividades culturais. Nesse parque fica o Arco de Washington, uma construção parecida com o Arco do Triunfo, em Paris.
Em abril desse ano assisti ao filme “August Rush: O Som do Coração”, o qual gostei muito. E boa parte do filme acontece no Washington Square Park, pois é ali que o personagem principal, August Rush, se apresenta com um violão para ganhar dinheiro. Cheguei até a tirar uma foto no palco onde o August se apresentava, palco esse que fica praticamente no meio do parque. O legal de Nova York é que para apaixonados por cinema igual a mim, em todo canto você acaba “tropeçando” em algum lugar que foi cenário de filmes.
Nos dias 18 e 19 de novembro a noite vai ter sol. Você que gosta de poesia e do Leminski, visite o site http://www.essanoitevaitersol.com.br/ personalize uma imagem sua com o bigodão do Leminski e faça parte da homenagem.
Estive duas noites em Times Square, que atualmente é o ponto turístico mais visitado do mundo. Times Square pode ser considerado o “centro” da cidade de Nova York. Gostei das mudanças que ocorreram desde minha última visita. Uma rua foi bloqueada ao trânsito e mesas e cadeiras ocupam o espaço que antes pertencia aos carros. A área e a quantidade de painéis luminosos foi ampliada, deixando a região de Times Square ainda mais iluminada e bonita. E foi construída uma espécie de arquibancada, onde o pessoal senta para descansar e ficar observando o movimento das pessoas e olhando as dezenas de painéis luminosos. Aquilo parece uma babel, pois você ouve as pessoas falando diversos idiomas diferentes. E vi muitos policiais pela região, reflexo da tentativa de atentado com um carro-bomba que ocorreu ali em maio de 2010.
A Times Square está localizada na junção da rua Broadway com a 7ª Avenida, entre a ruas 42 Oeste e 47 Oeste, na região central de Manhattan. É uma área comercial, onde todos os prédios são obrigados a instalar letreiros luminosos, para propósitos de publicidade. Na Times Square está localizada a NASDAQ, uma das principais bolsas de valores do mundo. Entre seus pontos comerciais mais conhecidos estão os estúdios da rede de televisão ABC, de onde o programa matinal Good Morning America é transmitido ao vivo, bem como os famosos estúdios da MTV e da Virgin Records. O local possui uma das maiores concentrações da indústria do entretenimento no mundo, além de grandes lojas de famosas marcas internacionais, e obviamente congrega inúmeros anúncios luminosos de publicidade que durante a noite tornam-se uma atração peculiar. É também na Times Square que se pode assistir a uma das maiores festas de passagem de ano do planeta, contando sempre com inúmeros recursos visuais e pirotecnia.
Times Square significa “Praça do Tempo”, e até abril de 1904 era conhecida como Longacre Square, nome original dado pelos colonizadores britânicos. O local teve seu nome mudado em função da construção do edifício que durante muitos anos serviu para abrigar os escritórios centrais do jornal New York Times, o Times Building, hoje conhecido como One Times Square.
O Museu de História Natural era um lugar que eu não conhecia. Na visita anterior a Nova York eu tinha ficado em um hotel bem próximo ao Museu, mas não tive interesse em conhecê-lo. E foi somente após assistir ao filme “Uma Noite no Museu I”, que tal vontade surgiu. No fim das contas a visita ao Museu acabou sendo uma decepção, pois o Museu é interessante para quem gosta de biologia, zoologia, botânica, geologia, astronomia, o que não é meu caso. E o Museu é enorme, com muitos andares para percorrer. Sei que no final das contas não visitei todas as alas do Museu. Acabou sendo um passeio mais ou menos interessante, onde o que mais gostei foi poder ver de perto alguns meteoritos, sendo o principal deles o Willamette, um meteorito de 15,5 toneladas que foi encontrado nos Estados Unidos em 1902 e é o sexto maior meteorito já encontrado na terra. Fora isso, nem mesmo os diversos esqueletos de dinossauro que lá existem achei interessante.
O Museu de História Natural foi fundado em 1869. É especialmente reconhecido pela sua vasta coleção de fósseis, incluindo algumas espécies de Dinossauros. Uma das grandes atrações do museu é uma coleção de esqueletos de dinossauro, com mais de 30 milhões de fósseis e artefatos espalhados por 42 salas de exibição. Um barossauro de aproximadamente 15 metros dá as boas vindas aos visitantes na entrada.
Minha intenção era chegar no observatório do Empire State no final da tarde e poder ver lá de cima a cidade durante o dia e depois a noite, com suas luzes acesas. Fiz isso em uma visita anterior anos antes. Mas fui surpreendido pelo tamanho da fila de visitantes. Demorou tanto para chegar até o elevador e subir os 88 andares até o observatório, que quando lá cheguei já era noite. Mesmo assim valeu a visita, e a vista lá do alto é muito bonita. Fazia muito frio e tinha um lado de onde estava vindo o vento, no qual não dava para permanecer muito tempo, pois estava congelante. O Empire State tem muita história e durante muitos anos foi o maior edifício do mundo. E quem não se lembra do filme King Kong? As versões do filme feitas em 1933 e 2005, acontecem no alto do Empire State (a versão de 1976 se passa no World Trade Center).
É no observatório do Empire State, que Tom Hanks e Meg Ryan se encontram no filme “Sintonia de Amor” (1993), um de meus filmes favoritos. O curioso nesse filme é que os personagens principais interpretados por Tom Hanks e Meg Ryan, aparecem juntos na tela por aproximadamente dois minutos apenas. E boa parte desses dois minutos é justamente no observatório do Empire State. E “Sintonia de Amor” faz muitas referências ao filme “Affair to Remember”, de 1957, no qual o casal principal do filme também tem um encontro no observatório do Empire State.
O Empire State Building foi projetado por Gregory Johnson, o qual preparou o projeto do edifício em apenas duas semanas, usando o projeto de outro edifício como projeto base. O edifício foi projetado de cima para baixo. As escavações no local começaram em 22 de janeiro de 1930, e a construção do edifício em sí, começou simbolicamente em 17 de março. O projeto envolveu 3.400 trabalhadores, a maioria imigrantes da Europa. De acordo com os dados oficiais, cinco trabalhadores morreram durante a construção. Foi inaugurado em primeiro de Maio de 1931.
Com 102 andares, o Empire State Building foi o arranha-céu mais alto do mundo por 41 anos, e a estrutura mais alta já feita pelo homem por 23 anos. Logo após a destruição do World Trade Center em 2001, o Empire State Building recebeu novamente o título de edifício mais alto de Nova York.
Chegando ao Empire State.
Entrando no Empire State.
Na recepção do Empire State.
Vista que se tem de um dos lados do Empire State.
No lado Oeste quase congelei com o vento gelado.
Turistas no observatório do Empire State.
Meg Ryan e Tom Hanks, no filme “Sintonia de Amor” (1993).
Que tal descer 84 andares pelas escadas?
King Kong no alto do Empire State (versão de 2005).
Atravessando a rua em frente ao Edifício Dakota e entrando no Central Park, logo se chega a Strawberry Fields, um memorial construído para homenagear John Lennon. É um enorme jardim e numa parte dele existe um mosaico circular no chão, onde no meio está escrito a palavra IMAGINE, que remete a uma das mais famosas músicas compostas por Lennon. Nesse mosaico é comum as pessoas depositarem flores, cartas, fotos, acenderem velas. O engraçado é que muita gente que vai até ali acha que foi no local onde está o mosaico que Lennon tombou morto. Na verdade aquele local é apenas uma homenagem a Lennon, que foi morto há vários metros dali, do outro lado da rua (ver post anterior).
Strawberry Fields é um memorial jardim de 10.000 m², e que fica dentro do Central Park. Foi dedicado a Jonh Lennon, no que teria sido seu aniversário de 45 anos, em 9 de outubro de 1985. A entrada para o memorial está localizado no Central Park, próximo a rua 72 e em frente ao Edifício Dakota, onde Lennon viveu seus últimos anos de vida e onde foi assassinado. O memorial é uma área triangular de terra, e seu ponto principal é um mosaico de pedras incrustadas, com uma única palavra, o título da famosa canção de Lennon: IMAGINE. O mosaico foi um presente da cidade de Nápoles. Próximo ao mosaico existe uma placa com o nome das nações que contribuíram para a construção do memorial. Yoko Ono, viúva de Lennon, contribuiu com mais de um milhão de dólares para o paisagismo e manutenção de Strawberry Fields.
O memorial geralmente é coberto com flores, velas em vidros, e outros pertences deixados para trás pelos fãs de Lennon. No aniversário de Lennon (9 de outubro) e no aniversário da sua morte (8 de dezembro), as pessoas se reúnem para cantar músicas e pagar tributo. Muitas ficam ali até tarde da noite, numa época em que geralmente faz muito frio.
O Edifício Dakota fica em frente ao Central Park, e foi residência de John Lennon. Foi em frente a uma das entradas do Dakota que Lennon foi assassinado em 8 de dezembro de 1980.
Construído entre 1880 e 1884, o Edifício Dakota com o passar dos anos se tornou um endereço importante e caro. Passou a ser a casa do ex-Beatle John Lennon a partir de 1973. Na noite de 8 de dezembro de 1980, Lennon voltava de um studio onde tinha feito à gravação de uma música. Antes de ir jantar com a esposa Yoko Ono, resolveu passar em casa para dar boa noite a seu filho. Alguns fãns como de costume esperavam na frente do prédio para pedir autógrafos e tirar fotos com o ex-Beatle. Em vez de desembarcar do carro na parte interna do Dakota, Lennon resolveu parar na rua em frente para atender aos fãs. Acabou sendo alvejado com vários tiros pelas costas, por Mark David Chapman, e morreu ao dar entrada no hospital. Horas antes do atentado, Lennon tinha dado autógrafo a Chapman, no mesmo local do assassinato.
Yoko Ono ainda possui alguns apartamentos no Edifício Dakota e todo ano no aniversário da morte de Lennon, uma vela é deixada acesa na janela de um apartamento. Em frente ao Dakota, no Central Park, que fica do outro lado da rua, foi construído o memorial Strawberry Fields, em homenagem a Lennon.
Em frente ao Dakota.
Entrada do Dakota (Rua 72) onde Lennon foi assassinado.
Lennon dando autógrafo ao seu assassino horas antes de morrer.
Edifício Dakota visto do Central Park, no final da década de 1880.
Visitar o Central Park por completo é missão para no mínimo um dia inteiro, em razão de seu enorme tamanho. Como eu não tinha tempo para isso e como já conhecia boa parte do parque da visita anterior oito anos antes, escolhi apenas um área do parque para visitar. O Central Park é muito bonito e interessante e é um dos pontos de Nova York que sempre aparece em filmes. Então é interessante andar por lá e ficar tentando lembrar em qual filme você viu tal ponte, tal estátua, tal banco, tal árvore, tal esquilo… rs!! Fiquei um tempo na Fonte Bethesda e depois caminhei pelo parque olhando o movimento, que era enorme nesse dia.
O Central Park ocupa 3,41 km² do centro da Ilha de Manhattan e anualmente recebe cerca de 35 milhões de visitantes. Foi aberto inicialmente em 1857, e teve uma grande obra de expansão que foi concluída em 1873. É o parque urbano mais famoso do mundo, por culpa dos muitos filmes que o utilizaram como cenário e o divulgaram pelo mundo.
Visitar Nova York e não ir até a Estátua da Liberdade é algo inadmissível. Esse foi outro local que já conhecia e que mereceu nova vista. A fila para comprar ingresso e depois embarcar num dos barcos que levam até a ilhota onde fica a Estátua da Liberdade, estava bastante grande. E o processo de revista para poder embarcar, é quase o mesmo feito nos aeroportos. Os americanos morrem de medo de outro atentado terrorista, principalmente contra algum de seus ícones, como é o caso da Estátua da Liberdade.
A viagem de barco é rápida e conforme vamos nos afastando do porto, a vista da cidade de Nova York vai ficando cada vez mais bonita. Fazia frio e com o vento durante a travessia, a sensação térmica baixou bastante. Mesmo assim preferi ficar do lado de fora do barco e apreciar a paisagem. Desembarcando na ilha fui até a estátua e tirei algumas fotos. Diferente da visita anterior a oito anos, quando não era permitido se aproximar da estátua, dessa vez a visitação ao interior da estátua e a sua coroa, estavam liberadas. Mas a visita era liberada somente até às 15h30min e eu cheguei uns minutos depois desse horário. Então mais uma vez fiquei sem poder conhecer mais detalhadamente a Estátua da Liberdade. Não tem jeito, no futuro preciso voltar à Nova York para visitar a Estátua da Liberdade mais uma vez… rs!!
A estátua mede 46,50 metros (92,99 metros contando o pedestal). O nariz mede 1,37 metros. O conjunto pesa um total de 24.635 toneladas. É a estátua mais pesada do mundo, segundo o Guiness. A coloração verde-azul é causada por reações químicas, o que produziu sais de cobre e criou a atual tonalidade. A Estátua da Liberdade foi um presente dado por Napoleão III, como prêmio aos Estados Unidos após uma batalha vencida contra a Inglaterra. O historiador francês Edouard de Laboualaye foi quem primeiro propôs a ideia do presente, e o povo francês arrecadou os fundos para que, em 1875, a equipe do escultor Fréderic Auguste Bartholdi começasse a trabalhar na estátua. Bartholdi fez uma viagem aos Estados Unidos e encontrou o que ele julgava ser o local ideal para a futura estátua – uma ilhota na baía de Nova York, posteriormente chamada Ilha da Liberdade (batizada oficialmentecomo Liberty Island em 1956). A inauguração da estátua ocorreu em 28 de outubro de 1886.
A estátua funcionou como farol de 1886 a 1902, sendo o primeiro farol a ter utilizado energia elétrica. O ato de sabotagem dos alemães na Primeira Guerra Mundial, conhecido como a explosão Black Tom, causou um prejuízo de US$ 100.000, danificando a saia e a tocha. Desde então não é permitida a visitação da tocha. A estátua sofreu uma grande reforma em comemoração do seu centenário. A estátua foi reinaugurada em 3 de julho de 1986, ao custo de 69,8 milhões de dólares. Foi feita uma limpeza geral na estátua e sua coroa, corroída pelo tempo, foi substituída. A coroa original está exposta no saguão. Depois do atentado terrorista contra o World Trade Center, a visitação a coroa foi proibida, por motivos de segurança. Porém, em 4 de julho de 2009, a visitação da coroa foi reaberta, depois de 8 anos fechada ao público.
Outro local que já conhecia e que mereceu uma nova visita, foi a Trinity Church e o cemitério ao lado da igreja. Esse cemitério hoje em dia mais parece um parque onde o pessoal vai passear e até namorar. Mas ele é o primeiro cemitério de Manhattan, e onde estão sepultados muitos personagens importantes na história da cidade de Nova York. Em algumas lápides ainda é possível ler o nome, datas e homenagens ao morto em questão. É um local “diferente” e bastante interessante.
A primeira Trinity Church, foi construída no local em 1698. A construção do segundo prédio da Trinity Church começou em 1788 e foi consagrado em 1790. A estrutura foi demolida depois de ter sido enfraquecida pelas grandes nevascas durante o inverno de 1838-1839. A terceira e atual Trinity Church foi concluída em 1846 e no momento da sua conclusão sua torre de 86 metros e cruz, tornou-se o ponto mais alto de Nova York, até ser superado em 1890 pelo Edifício New York World.
O Cemitério da Trinity Church, na verdade consiste de três pequenos cemitérios separados e associados, que ficam ao redor da igreja. Os cemitérios têm sido o lugar de descanso final para muitas figuras históricas da cidade de Nova York, desde 1697.
Estive mais uma vez visitando o local onde ficava o World Trade Center. Da vez anterior, só existia um buraco enorme no local e estavam reconstruindo a linha do metrô. Nessa última visita pude ver que uma das torres do novo World Trade Center está com muitos andares prontos e no local o movimento de trabalhadores é intenso.
Esperava visitar o Memorial ao 11 de Setembro, que foi inaugurado no último dia 11 de setembro, quando completou dez anos dos atentados terroristas no local. Achava que era só ir lá e entrar, mas me enganei. É preciso fazer reserva pela internet, onde existe certa fila de espera. Em razão de ser algo recente, a procura por parte dos visitantes é enorme e a fila de espera demora alguns dias. Então a visita ao Memorial fica para outra oportunidade.
Na primeira manhã em Nova York, o primeiro lugar que visitei foi a Ponte do Brooklyn, famosa por ter sido cenário de centenas de filmes. Já tinha visitado essa ponte oito anos antes e ela era um dos lugares que eu queria rever em Nova York. Fazia frio, o tempo estava nublado, mas mesmo assim muitos turistas estavam percorrendo a ponte e apreciando a bela vista que se tem lá de cima. Do alto da ponte da para ver boa parte dos prédios que ficam ao sul da Ilha de Manhattan e também uma torre do novo World Trade Center, que está em fase de construção. Também se vê a Estátua da Liberdade, parte do porto, a Ponte Manhattan, que fica paralela e um pouco distante da Ponte do Brooklyn e parte do bairro do Brollklyn.
A Ponte do Brooklyn (Brooklyn Bridge) é uma das mais antigas pontes suspensas dos Estados Unidos. Sua extensão é de 1.834 metros, e situa-se sobre o rio East, ligando a Ilha de Manhattan ao bairro do Brooklyn. Ao ser finalizada em 1883, era a maior ponte suspensa do mundo, e a primeira a utilizar-se de cabos. Foi a primeira ponte de aço suspensa do mundo e suas imensas torres de suporte já foram as estruturas mais altas de toda a cidade de Nova York. Sua construção começou em 1869 e ficou completa quatorze anos depois, sendo aberta para o uso em 24 de maio de 1883. No primeiro dia, um total de 1.800 veículos e 150.300 pessoas atravessaram-na. Aproximadamente 27 pessoas morreram durante a construção, inclusive seu arquiteto.
A ponte foi desenhada pelo arquitero John Augustus Roebling. Quando a construção começou, o pé de Roebling sofreu uma séria lesão num acidente em uma barcaça, e dentro de poucas semanas ele morreu de tétano. Quando a ponte foi aberta, a esposa de seu filho Washington, Emily Warren Roebling, foi a primeira pessoa a atravessar; Washington não conseguiu sair de sua casa, devido à depressão de que ele sofria naquele momento, e assistiu a construção através de um telescópio.
Ponte do Brooklyn a noite.
Ao fundo os prédios que ficam ao sul de Manhattan.
Uma das torres da Ponte do Brooklyn.
Quase no meio da ponte.
Carros seguindo no sentido Manhattan/Brooklyn.
Carros no sentindo Brooklyn/Manhattan.
No alto da ponte olhando o movimento.
A pista de ciclistas e pedestres.
Imagem de 1883, pouco após a inauguração da ponte.
Após ficar somente 24 horas em Washington e visitar o máximo de lugares possíveis, fiz as malas e segui para Nova York. A partida atrasou um pouco e cheguei a Nova York no final da noite. Era minha segunda vez em Nova York, sendo que a vez anterior tinha sido há pouco mais de oito anos. Dessa vez encontrei pronto o serviço de Sky Trem no aeroporto, que faz ligação com o metrô. Isso facilitou bastante as coisas para mim.
Não consegui hotel barato em Manhattan, então fiz reserva num hotel fora da ilha, no bairro do Brooklyn. Escolhi um hotel de uma rede conhecida, com bom preço, que ficava somente a duas quadras de uma estação do metrô. Esses cuidados todos eram para evitar de entrar em alguma fria. Mesmo assim entrei numa fria enorme. Quando desci na estação perto do hotel era quase meia noite e reparei que eu era um dos poucos brancos a estar ali. Nos Estados Unidos os negros são mais racistas com relação a brancos, do que os brancos com relação a negros no Brasil. Estar tarde da noite na saída de uma estação de metrô, numa região de maioria negra, num bairro de Nova York e arrastando uma mala que deixava claro que eu era turista, foi algo assustador. Pensei em pegar um táxi para percorrer os dois quarteirões até o hotel, mas não vi nenhum dos famosos táxis amarelos. Vi somente alguns táxis velhos, de cor preta e com cara de serem clandestinos. Seria abusar da sorte embarcar num desses táxis, então o jeito foi respirar fundo e seguir a pé até o hotel. Quando saí da estação fui abordado por alguns elementos mal encarados oferecendo táxi. Preferi não responder, para que meu inglês não entregasse que além de turista eu era estrangeiro. Fui “respondendo” não com a cabeça, fiz cara de mau e segui em frente arrastando minha mala. Logo vi que no outro lado da rua ficava uma Central de Polícia, o que me deu certo alívio. Chegando a esquina vi os dois quarteirões desertos e meio escuros que teria que percorrer. Olhei para o céu pedindo proteção, respirei fundo e segui em frente. O trecho até o hotel estava deserto, e em situações iguais a essa é bem melhor encontrar ruas desertas, do que ruas com elementos suspeitos. Quase chegando no final do segundo quarteirão vi que um homem caminhava em sentido contrário do outro lado da rua. Senti um frio na barriga e continuei caminhando rápido. Quando cheguei perto desse homem, ufa! Ele era um policial! Logo cheguei na esquina, dobrei o quarteirão e vi o hotel, que felizmente tinha boa aparência e parecia ser bom. Mas a vizinhança do hotel não era das melhores, ele ficava exatamente ao lado de uma linha do metrô, daquelas suspensas como se fosse um viaduto. Até me lembrei de um filme, cujo nome não lembro, onde muitas passagens do filme eram num lugar parecido com aquele, isso se não for o mesmo lugar.
Entrando no hotel me senti seguro e fui atendido por alguns indianos que cuidavam da recepção. Então subi para o quarto que ficava no quarto andar, na parte da frente do hotel e ao lado da linha do metrô. Tive que dar risada da situação. Por sorte que da meia-noite às cinco da manhã o metrô passava meio que de hora em hora. Mas cada vez que ele passava o quarto parecia chacoalhar. E depois das cinco da manhã era um trem atrás do outro e quase não dava para dormir. E mesmo com a grossa janela do quarto fechada, dava para ouvir a gravação da estação informando sobre embarque, desembarque, número de plataformas. Como o hotel serviria somente para dormir algumas horas à noite e para tomar banho, não me importei muito com o barulho. Tomei banho e caí na cama, pois os dois próximos dias seriam de muitos passeios e cansativos quilômetros a percorrer. E o importante é que eu tinha saído ileso da aventura que foi ir da estação do metrô até o hotel. Até agora não sei dizer se sou burro, louco, ou corajoso em enfrentar uma situação dessas da forma como enfrentei, metendo a cara e pagando pra ver…
O último ponto turístico que visitei em Washington foi à Casa Branca. Foi a maior dificuldade poder chegar até próximo a uma das entradas frontais da Casa Branca. Em volta do prédio muitas barricadas, portarias e seguranças. Achei interessante que muitos seguranças andavam com uma espécie de mochila no ombro e dentro um fuzil pronto para atirar. Nos jardins da Casa Branca era possível ver alguns seguranças escondidos entre as árvores. E só era possível ficar de um lado da rua, sendo que a rua estava repleta de policiais que não deixavam ninguém colocar sequer o pé fora da calçada. Apesar de todo o trabalho e de não poder ver muita coisa, a visita à Casa Branca foi válida, em razão de sua importância histórica. E estando ali na frente lembrei do filme “Independence Day”, no qual a Casa Branca é explodida por alienígenas. Pôxa, foi tanta dificuldade para chegar até ali na frente, e o Obama nem me convidou para um chazinho. rs!!!!
A Casa Branca é a residência oficial e principal local de trabalho do Presidente dos Estados Unidos, sendo, ao mesmo tempo, a sede oficial do poder executivo. O edifício foi construído no período compreendido entre 1792 e 1800, pintado de arenito esbranquiçado no estilo georgiano e tem sido a residência executiva de todos os presidentes americanos desde o mandato de John Adams. O edifício foi expandido por Thomas Jefferson, que ali se instalou em 1801. Em 1814, durante a Guerra Anglo-Americana, o edifício ardeu em chamas quando o exército britânico incendiou toda a cidade de Washington, destruindo o interior e chamuscando muitas das paredes exteriores da construção. A reconstrução iniciou-se quase imediatamente e o presidente James Monroe mudou-se para a semi-reconstruída casa em outubro de 1817. A construção continuou com a adição do Pórtico Sul em 1824 e do Norte em 1829. Devido à aglomeração dentro da própria mansão executiva, o presidente Theodore Roosevelt teve quase todos os escritórios de trabalho relocalizados na recentemente construída Ala Oeste em 1901. Oito anos depois, o presidente Willian Howard Taft expandiu a Ala Oeste e criou o primeiro Salão Oval, o qual foi sendo posteriormente movido conforme a seção ia sendo expandida. O terceiro andar, que era um sótão, foi convertido em quartos comuns em 1927. A recém construída Ala Leste foi usada como uma área de recepção para eventos sociais. As alterações na Ala Leste foram concluídas em 1946, criando um espaço para trabalho adicional. Em 1948, as paredes exteriores da casa e os quartos interiores foram completamente desmantelados, resultando na construção de um novo e interno vigamento de aço e na remontagem dos quartos interiores.
Em Washington visitei o Memorial aos Mortos no Vietnã. O Memorial é um muro de 75 metros de comprimento e com altura máxima de três metros em alguns pontos. É feito de mármore preto no qual estão inscritos os nomes de todos os soldados mortos no conflito do Vietnã. O Memorial está situado próximo ao Monumento a Lincoln e foi inaugurado em 1982. Atualmente o muro contém os nomes de 58.195 homens e mulheres mortos no Vietnã. Quando um visitante olha para a parede negra do muro, seu reflexo pode ser visto em simultâneo com os nomes gravados, que se destina a trazer simbolicamente o passado e o presente juntos.
O Muro do Memorial é um local de cura espiritual para as famílias dos veteranos mortos no Vietnã, bem como para veteranos sobreviventes. Muitos visitantes deixam oferendas, ou notas às pessoas queridas que foram mortas para que outros visitantes as leiam e compartilhem. E muitos visitantes procuram o nome de algum parente ou conhecido no muro, e fazem um decalque do nome utilizando papel e lápis. O decalque acaba sendo uma lembrança do ente querido a ser levada para casa. Recebe em média três milhões de visitantes a cada ano.
Além do Muro com os nomes dos mortos, fazem parte do Monumento uma escultura representando três soldados apoiando-se uns aos outros: um branco, um negro e um hispânico. E uma outra escultura homenageia as mulheres falecidas na Guerra do Vietnã.
Ainda em Washington visitei o Lincoln Memorial, uma construção enorme cuja principal influência em sua construção foi o Templo de Zeus, na Grécia. O Monumento foi construído em homenagem ao ex-presidente Abraham Lincoln. Foi concluído em 1922 e dentro do Memorial fica uma enorme estátua de Lincoln. Na parede atrás da estátua estão escritos os seguintes dizeres:
IN THIS TEMPLE
AS IN THE HEARTS OF THE PEOPLE
FOR WHOM HE SAVED THE UNION
THE MEMORY OF ABRAHAM LINCOLN
IS ENSHRINED FOREVER
Em 28 de agosto de 1963 foi em frente a esse Memorial que Martin Luther King fez seu memorável discurso “I Have a Dream”, considerado um dos maiores comícios políticos na história americana.
Lincoln Memorial.
Estátua de Lincoln que fica dentro do Memorial.
Em frente a estátua de Lincoln.
Em frente ao Lincoln Memorial.
Do memorial da pra ver o espelho d'agua em reforma e o Obelisco.
O Monumento a Washington é um obelisco, e foi construído como um memorial a George Washington, entre 1848 a 1885. Possui 169,7 metros de altura e é a estrutura mais alta da cidade de Washington. Quando inaugurada, tornou-se a mais alta estrutura construída pelo homem, até 1889, quando a Torre Eiffel foi inaugurada em Paris.
O monumento está entre as estruturas mais altas do mundo, e é o mais alto obelisco do mundo. É constituído de mármore, granito e arenito. Foi desenhado pelo arquiteto Robert Mills em 1840. A construção do monumento foi iniciada em 1848, mas só foi concluída em 1885, quase 30 anos após a morte do seu arquiteto. Essa ruptura na construção foi devido a falta de fundos e a intervenção da Guerra Civil Americana. Uma diferença de sombreamento do mármore, visível aproximadamente 45 metros acima, claramente delineia a construção inicial e a construção final reiniciada em 1876. O reflexo do Monumento de Washington pode ser visto no chamado Espelho D’agua, uma piscina retangular que fica próximo ao Monumento e que se estende a oeste até o Lincoln Memorial.
O segundo Museu que visitei em Washington, foi o de História Americana. O acervo do Museu é fabuloso e variado, e pude ver ao vivo e a cores centenas de objetos. Os que mais achei interessantes foram vestimentas de personagens da Guerra Civil e de indígenas, como Touro Sentado. Também gostei de objetos de Presidentes norte americanos e da Guerra do Vietnã. Também vi uma coluna do Word Trade Center e alguns objetos pessoais que foram recolhidos dos escombros. E vi muitos carros antigos, invenções, e muitas outras coisas interessantes. Mas as que mais gostei foram os bonecos originais de “Os Muppets”, programa que eu adorava quando era criança. E também vi um maiô original que a Farrah Facett utilizou. Ela era uma das panteras no seriado “As Panteras”. Esse era um programa que eu não perdia no final dos anos setenta.
O Museu Nacional Smithsonian de História Americana abriu ao público em janeiro de 1964, como Museu de História e Tecnologia. Desde então, cerca de 4 milhões de visitantes por ano passaram por suas portas para desfrutar das exposições do Museu, programas públicos, atividades educacionais, coleções e instalações de pesquisa. Em 1980, o nome do Museu foi mudado para Museu Nacional de História Americana, para melhor representar o seu papel primordial de missão a coleta, cuidados e estudo de objetos que refletem a experiência do povo americano.
O Museu coleciona e preserva mais de 3 milhões de artefatos, todos verdadeiros tesouros nacionais. No Museu se encontra desde a cartola de Abraham Lincoln, até os sapatos de rubi de Dorothy, no filme “O Mágico de Oz.” Também está em exposição no Museu objetos antigos e mais recentes que retratam a história e a cultura norte americana. No Museu pode ser visto entre outras coisas a espada de George Washington, roupas do General Custer, a farda que o General Colin Powell usou durante a Guerra do Golfo. Entre itens mais modernos estão expostos um chapéu de Michael Jackson. E tem também muitos objetos da época da Guerra da Independência, Guerra Civil, II Guerra Mundial, objetos de vários Presidentes, invenções, veículos antigos, e muito mais.
Visitei somente pelo lado de fora o Capitólio (Congresso). E ao tirar fotos em frente ao prédio não teve como não lembrar que se em 11 de setembro de 2001 o voo 93 da United não tivesse caído no Estado da Pensilvânia (na minha opinião ele foi abatido), ele teria sido arremessado contra o prédio do Capitólio e o mesmo não estaria ali a minha frente belo e formoso.
O Capitólio dos Estados Unidos da América é o prédio que serve como centro legislativo do governo dos Estados Unidos. O Capitólio é o local de reunião do Congresso norte americano, formado pelo Senado (câmara alta) e pela Câmara dos Representantes (câmara baixa). O edifício é destacado por sua cúpula central e por suas duas alas, cada qual para uma das câmaras do Congresso: na ala norte situa-se o Senado, enquanto na ala sul situa-se a Câmara dos Representantes. Acima destas câmaras encontram-se galerias a partir das quais os visitantes podem assistir as sessões. O local fica a 1,6 km da Casa Branca.
Em 1792, um concurso foi anunciado pelos Comissários da Capital Federal, procurando desenhos tanto para o Congresso quanto para a residência presidencial. George Washington estabeleceu a pedra fundamental em 18 de setembro de 1793. A ala do senado foi concluída em 1800, enquanto a ala da Câmara foi concluída em 1811. No entanto, a Câmara dos Representantes mudou para o novo prédio já em 1807. Embora a construção estivesse incompleta, o Capitólio teve sua primeira sessão do Congresso dos Estados Unidos em 17 de novembro de 1800. A Estátua da Liberdade, situada sobre a cúpula, foi concluída em 1863. A Suprema Corte também teve sessões no Capitólio até que seu próprio edifício (localizado atrás da fachada leste) fosse concluído em 1935.
Devido à escassez de tempo, tive que escolher somente dois museus para visitar em Washington, e o primeiro foi justamente o Museu Aeroespacial do Instituto Smithsonian. Esse museu ficou bem conhecido após ter sido cenário do filme “Uma Noite no Museu II”. O Museu Aeroespacial mantém a maior coleção de aeronaves e espaçonaves históricas do mundo. Além disso, é um centro vital de pesquisa de história, ciências e tecnologia da aviação e da aviação espacial. Desde sua inauguração em 1976, o prédio do Museu Aeroespacial tem sido um dos Museus mais visitados do mundo, com média de nove milhões de pessoas por ano. Como em todos os museus de Washington, a entrada é gratuita.
O Museu conta a história da aviação desde os primeiros vôos em balão até as explorações do espaço aéreo dos nossos dias. As galerias da exposição destacam a história da aviação, sistema solar, imagens por satélite e fotografia aérea e a exploração do universo. Os mais importantes símbolos da aviação estão em exibição, incluindo o Spirit of St. Louis, que pilotado por Charles Lindbergh atravessou o Atlântico no que podemos considerar o primeiro vôo intercontinental da humanidade.
Em razão do seu espaço limitado para comportar enormes aeronaves e foguetes, somente parte da coleção do Museu se encontra em exposição ali. Foi muito divertido, instrutivo e interessante percorrer as várias alas do Museu e conhecer de perto muitas coisas que eu só tinha visto ou ouvido falar em livros e na tv. E pude tocar em uma minúscula rocha lunar. Também vi diversas roupas utilizadas por astronautas americanos e soviéticos, além de vários aviões comerciais e militares de várias épocas.
Um dos aviões expostos era o Wright Flyer, o avião original dos Irmãos Wright, que é considerado por muitos, e por mim também, o primeiro avião do mundo (desculpa Santos Dumont, mas mesmo sendo brasileiro não dá para creditar o 14 BIS como o primeiro avião do mundo). Outro item importante que vi no Museu foi o módulo de comando da Apollo 11, a primeira missão lunar com desembarque bem sucedido. O módulo está todo queimado por fora devido a sua entrada na atmosfera terrestre. Também estão expostos no Museu o primeiro jato americano, o Airacomet Bell XP-59A, além do Bell X-1, o primeiro avião a romper a barreira mítica do “som”. E o avião mais rápido que o homem já produziu até hoje, o North American X-15.
E entre vários objetos em destaque, existe também alguns mísseis balísticos e toda sua evolução desde as Bombas V-1 e V-2 alemãs, aos mais modernos mísseis teleguiados como o Tomahawk usados pelos Estados Unidos na Guerra do Iraque. E pude entrar dentro do Skylab, o maior componente de uma estação espacial que não foi utilizada no espaço, pois o programa Skylab foi cancelado já que o esforço passou a se concentrar no desenvolvimento dos ônibus espaciais. Foi muito interessante entrar nessa estação espacial e ver como os astronautas tem que viver em espaços tão apertados. Foram tantas coisas interessantes que vi nesse Museu, que levaria horas escrevendo sobre tudo o que vi. Então vou parar por aqui.
Logo após sair do hotel e pegar o metrô até o Pentágono, fui mais uma estação e parei no Cemitério de Arlington. Sempre tive curiosidade em conhecer tal lugar, devido ao seu caráter histórico e também pelo meu interesse pelas muitas guerras que aconteceram e das quais muitos participantes repousam nesse cemitério. Devido a escassez de tempo a visita teve que ser rápida e não pude visitar todos os túmulos de personagens que me interessavam, pois o local é enorme e para visitar tudo detalhadamente é preciso um dia todo.
Mesmo com o tempo escasso pude visitar o túmulo do ex-presidente John F. Kennedy e de sua esposa Jaqueline Kennedy Onassis. Também visitei o memorial aos mortos nos acidentes das naves espaciais Challenger (1986) e Columbia (2003). E pude ver a concorrida troca de guarda no Túmulo ao Soldado Desconhecido. Tanto o Túmulo quanto a construção próxima, uma espécie de anfiteatro ao ar livre, é famosa por ter aparecido em dezenas de filmes.
O Cemitério Nacional de Arlington, é o mais conhecido e tradicional cemitério militar dos Estados Unidos. Fundado no antigo terreno de Arlington House, o palácio da família da esposa do comandante das forças confederadas da Guerra Civil Americana, General Robert Lee. Em seus 624 acres, estão enterradas mais de 300 mil pessoas, veteranos de cada uma das guerras travadas pelo país, desde a Guerra da Independência até a atual Guerra do Iraque. Os corpos dos mortos antes da Guerra da Secessão (Guerra Civil) foram para lá levados após 1900.
Alguns dos personagens históricos mais famosos enterrados em Arlington são os astronautas das naves Challenger e Columbia, os generais Omar Bradley e Jonathan Wainwright, da Segunda Guerra Mundial, o Senador Robert Kennedy e seu irmão, o Presidente John Kennedy, ao lado do qual uma pira eterna arde e é visitada por milhares de turistas anualmente. No cemitério também repousam outros presidentes e importantes políticos, cientistas, empresários e militares norte americanos.
O local mais popular entre os visitantes de Arlington é o Túmulo ao Soldado Desconhecido, onde os restos de três soldados não-identificados da I Guerra Mundial, Guerra da Coréia e II Guerra Mundial, são guardados perpetuamente por uma Guarda de Honra do exército, cuja cerimônia de troca de sentinelas é um evento bastante procurado pelos visitantes.
Com as muitas guerras recentes que os Estados Unidos tem participado e com o alto número de falecimentos entre os participantes da Segunda Guerra Mundial, a demanda por túmulos no Cemitério de Arlington tem crescido muito. Mesmo que somente cerca de 10% dos soldados mortos sejam sepultados em Arlington, a quantidade de sepultamentos diários fica entre 25 e 30 sepultamentos. Alguns envolvem cerimônias muito elaboradas, com bandas de música e cavalos conduzindo o caixão ao túmulo. Em razão da enorme demanda os responsáveis pelo cemitério, que é administrado pelo exército, decidiram iniciar uma ampliação para garantir que Arlington possa continuar acomodando novas sepulturas por pelo menos mais meio século. Com orçamento de US$ 35 milhões, o Projeto Milênio permitirá a expansão do cemitério para além de seus atuais limites, com a reforma de sua disposição interna e o aproveitamento de terrenos reservados hoje a um bosque e outros usos.
Chegando ao Cemitério de Arlington.
Túmulo ao Soldado Desconhecido.
Anfiteatro.
Túmulos e mais túmulos.
Mortos no acidente da nave Charllenger, em 1986.
No monumento aos mortos das naves Challenger e Columbia.
Túmulos de John Kennedy e Jaqueline Kennedy Onassis.
Cemitério de Arlington.
Túmulos de mortos na I Guerra Mundial.
Túmulo de Joe Louis, militar e campeão mundial de boxe.
Após levar o tiro quase fatal em sua cabeça, Licoln foi atendido por um médico ainda no Teatro Ford. Como o ferimento era grave, o médico achou melhor levar Lincoln até a Casa Petersen, uma hospedaria que ficava do outro lado da rua, em frente ao Teatro Ford. Lincoln foi levado para um quarto na parte traseira dos salões e colocado em uma cama que não era longa o suficiente para ele. Durante a noite e de manhã cedo, guardas militares patrulhavam fora da casa para evitar que curiosos entrassem. Apenas um grupo de funcionários do governo e médicos foi autorizado a entrar e visitar o Presidente inconsciente. Apesar do esforço dos médicos, Lincoln morreu dentro de casa em 15 de abril de 1865, às 07h22, aos 56 anos.
Desde 1933 a Casa Petersen funciona como um Museu Histórico e seu interior foi decorado para ficar igual era no dia da morte de Abraham Lincoln.
O Teatro Ford (Ford’s Theatre) era utilizado como casa de espetáculos desde 1860. E foi nele que em 14 de abril de 1865 o presidente norte americano Abraham Lincoln sofreu um atentado onde foi baleado e veio a falecer no dia seguinte. Lincoln estava com sua esposa em um camarote do teatro, assistindo a peça “Nosso Primo Americano” quando o famoso ator teatral John Wilkes Booth entrou no camarote presidencial e desferiu um tiro na cabeça de Lincoln. Fazia apenas cinco dias que o exército confederado tinha se rendido, colocando fim a Guerra Civil. John Wilkes Booth era um sulista apaixonado pela causa dos confederados e que não se conformava com a derrota para os nortistas. Após atirar em Lincoln, ele saltou para o palco do teatro e gritou “sic semper tyrannis” e fugiu pela parte de trás do teatro. Alguns dias depois ele foi morto por um soldado durante um cerco que buscava capturá-lo vivo.
Após o assassinato de Lincoln, o Governo dos Estados Unidos apropriou-se do teatro, com o Congresso pagando aos donos cem mil dólares. Foi então emitida uma ordem proibindo a sua utilização para sempre como um lugar de diversão pública. Entre 1866 e 1887, o teatro foi tomado pelos militares dos EUA e serviu como escritório do Departamento de Guerra. Em junho de 1893, parte do prédio desabou, matando 22 funcionários e ferindo outros 68. Isto levou algumas pessoas a acreditar que o local era amaldiçoado. O edifício foi então reparado e usado como um armazém do governo até 1931.
O local ficou abandonado durante muito anos até que em 1964 foi iniciada uma restauração que terminou em 1968, quando o teatro foi reinaugurado. Ele foi reformado novamente na década de 2000, sendo reinagurado outra vez em fevereiro de 2009. O teatro foi reconstituído internamente igual era quando do atentado que vitimou Lincoln. Até mesmo o camarote presidencial é igual como na época do atentado. Muitas pessoas que visitam o teatro atualmente, acreditam que tudo lá dentro é original, pois não sabem das reformas pelas quais o teatro passou. Na verdade somente as paredes do teatro são originais, o interior é igual era em 1865, mas nele não existe nada original daquela época.
Eu sou contra esse tipo de reconstituição. Prefiro que monumentos históricos sejam preservados ao maximo igual eram quando foram construídos ou quando algum fato importante neles aconteceu. Isso de reconstituir um local como ele era originalmente não me agrada, pois quebra todo o encanto e “espírito” do local. Para mim isso parece mais uma enganação e o pior é que tem muita gente que visita o local e saí dali acreditando que tudo é igual como era antes, não percebe ou não se informa sobre a reconstituição feita no lugar.
Na primeira e única manhã em Washington, a chuva desapareceu e fez um calorzinho gostoso, que até aproveitei para sair a rua de bermuda. Mas logo após o almoço o tempo virou, nublou, esfriou e me dei mal, passei frio o resto do dia. Eu tinha até o final da tarde para visitar a cidade, e muitos locais que queria ver. Então o jeito foi sair cedo do hotel e dar prioridade aos pontos que mais me interessavam.
O hotel onde fiquei hospedado ficava em Pentagon City, um bairro próximo ao Pentágono e onde residem muitos militares. Desci na estação de metrô do Pentágono, mas não deu para ver muita coisa, pois tudo é isolado e proibido de tirar fotos. E após o 11 de setembro de 2011 quando um dos aviões dos atentados organizados por Bin Laden foi lançado contra o Pentágono, a rigidez na segurança ficou ainda maior. E nessa rápida visita lembrei do Wagão, meu irmão, que ano retrasado esteve visitando o local e tirou algumas fotos. Daí um militar foi até ele e para não ter a câmera aprendida teve que excluir rapidamente todas as fotos sob o olhar atento do militar. Mesmo sendo rápida e incompleta, acabou valendo a pena a visita ao Pentágono, dado a sua importância.
Outros locais que visitei em Washington vou citar em postagens específicas. E só vou comentar o maior desapontamento nessa visita, que foi encontrar em reformas e sem água, o espelho d’agua que fica entre o Obelisco e o Memorial de Lincoln e que ficou imortalizado em dezenas de filmes. Como esquecer o Tom Hanks correndo dentro desse espelho d’agua no filme Forrest Gump (um dos meus filmes favoritos). Não ter visto o espelho d’agua é um motivo para me fazer voltar um dia a Washington… rs!
Entre o Capitólio e o Obelisco, existem muitos museus, um ao lado do outro e dos dois lado de uma praça enorme e comprida. Devido ao tempo escasso, tive que escolher somente dois museus para visitar, e escolhi o Museu Aeroespacial e o Museu de História Americana. No Museu de História Natural apenas passei em frente e deixei para conhecer o seu similar em Nova York. Esses museus de Washington já apareceram em muitos filmes e tiveram um destaque especial no filme “Uma Noite No Museu II”.
Na sacada do Hotel/Motel.
Próximo ao Pentágono.
Na praça cercada de museus, com o Capitólio ao fundo.
De Miami segui direto a Washington para ficar somente um dia na cidade e conhecer alguns monumentos e museus que há tempos eu queria conhecer. O vôo entre Miami e Washington foi meio turbulento no início em razão da tempestade tropical em Miami, mas depois de meia hora tudo acalmou. O chato foi ficar uma hora parado na pista do aeroporto Reagan em Washington, por culpa do grande tráfego de aeronaves. A cidade possui dois grandes aeroportos e o Reagan é o menor e que fica mais próximo ao centro da cidade.
Fui de metrô até o hotel (na verdade motel) que era próximo e em seguida fui dar uma volta pelo centro da cidade e alguns de seus pontos turísticos. Estava caindo uma chuva fraca e o centro estava deserto. Foi meio assustador caminhar por alguns locais, pois não se via ninguém e era bem escuro. Se fosse no Brasil ou em outros lugares, com certeza eu não faria um passeio a pé por lugares tão escuros e desertos. Mas Washington por ser a capital e centro de poder dos Estados Unidos é uma cidade bastante segura e com câmeras espalhadas por toda parte. Andei um pouco pelo trecho que vai do Capitólio (Congresso) até o Obelisco e depois fui em direção ao centro propriamente dito. Acabei encontrando o Teatro Ford, que foi o local onde Lincoln sofreu o atentado que tirou sua vida em 1865. Do outro lado da rua, em frente ao teatro, fica a Casa Petersen, que funcionava como hospedaria e para onde Lincoln foi levado ferido após sofrer o atentado no Teatro Ford. Foi nessa hospedaria que Lincoln faleceu no dia seguinte ao atentado. O teatro e a hospedaria são as únicas construções da época do atentado que estão preservadas. As demais construções das redondezas são bem mais modernas. Sou um apaixonado por história e Lincoln é um dos personagens históricos que sempre me despertou grande interesse e cuja biografia estudei mais atentamente. Então estar nesses locais que marcam o último dia de vida de Lincoln e sobre os quais ouvi falar tantas vezes em livros, acabou fazendo valer a pena minha caminhada noturna sob chuva.
O que estranhei muito nesse passeio noturno foi a falta de pessoas nas ruas e de não encontrar nada aberto onde eu pudesse jantar. Nem mesmo um carrinho de cachorro quente encontrei. Logo tive que voltar ao hotel, pois o metrô fecha cedo. E no hotel a única coisa que tinha para comer eram salgadinhos da Elma Chips. Então o jeito foi me contentar em jantar dois saquinhos de salgadinhos e logo cair na cama, pois o dia seguinte seria bastante corrido já que teria pouco tempo para conhecer muitos lugares.
Minha estadia em Miami era curta e com a tempestade tropical que estava tendo, não deu para fazer praticamente nada. Acabei fazendo um passeio noturno de carro pelo centro da cidade e a pé pelo Distrito Art Deco. Fiquei hospedado num dos clássicos hotéis do Distrito Art Deco, o Colony. Também caminhei por Miami Beach debaixo de chuva.
Não é a primeira vez que vou a Miami, mas dessa vez mesmo com as limitações impostas pela chuva deu para conhecer um pouco mais da cidade. Miami sempre foi um local onde estive de “passagem” pegando alguma conexão ao entrar ou sair dos Estados Unidos. De qualquer forma não é uma cidade que me atraia tanto, talvez daí o motivo de nunca ter ficado um pouco mais na cidade e procurado conhecer suas atrações turísticas. Mesmo assim dessa vez valeu a pena ter me demorado um pouco mais na cidade e conhecido um pouco mais dela. E foi bom estar de volta ao calor, após um longo tempo num lugar frio.
No dia em que cheguei ao Canadá e na casa do meu amigo Gilberto, vi umas bolas no fundo do quintal ao lado da cerca que é baixa, próximo à rua. Durante o período em que fiquei no Canadá, todos os dias eu olhava para ver se as bolas ainda estavam lá. E por incrível que possa parecer elas nunca saíram de lá. Se algo parecido fosse no Brasil, acredito que levaria algumas poucas horas para que as bolas desaparecessem, ou minutos. E por que isso? O brasileiro é mais desonesto? Não sei dizer ao certo, o fato é que no Canadá a educação e principalmente a cultura do povo de um modo geral é muito maior que no Brasil. E lembre-se que “cultura” não significa os anos que você passa nos bancos escolares, mas sim o que você aprende dentro de casa com seus pais, nos livros, na escola, na TV, nos jornais e etc. É claro que existem roubos e assassinatos no Canadá, mas com certeza a índices centenas de vezes menores que no Brasil. E o que falta para que no Brasil as coisas sejam diferentes? Acredito que faltem exemplos bons vindos de cima, de quem comanda o país, seja do vereador ao Presidente da República. Vivemos num país onde todos querem levar vantagem, querem tirar proveito de algo, então ser honesto no Brasil é quase sinônimo de ser otário. Infelizmente isso é verdade, pois todos querem de alguma forma dar um jeitinho nisso e naquilo, levar vantagem em tudo o que for possível. Com uma mentalidade dessas o sistema todo fica corrompido e todos querem tirar proveito de algo. E se continuarmos com essa mentalidade as coisas tendem a piorar cada vez mais. Então não adianta a situação econômica do Brasil estar melhorando, se o nível de educação e cultura da população não está crescendo. O que vai acontecer é que seremos um país com economia de primeiro mundo, mas com uma população com educação e cultura eternamente de terceiro mundo.
Por gostar de viajar, sempre procuro aprender um pouco mais da cultura e dos costumes dos lugares por onde passo. E procuro aprender principalmente com as coisas boas que vejo. E muitas vezes me pego perguntando por que tal coisa é diferente no Brasil, ou então me questionando se isso ou aquilo funcionaria no Brasil. Um exemplo disso é o sistema de autopagamento que vi em alguns supermercados nos Estados Unidos e no Canadá. Você mesmo passa os produtos em um caixa, e faz o pagamento com cartão de crédito. Nesse processo não existe nenhum funcionário te observando ou ajudando. Na saída vez ou outra um segurança escolhe alguém e pede para dar uma olhada no comprovante de pagamento e vê se o comprador passou no escaner todas as mercadorias compradas. Mas é muito raro acontecer tal conferência, eu só vi isso uma única vez nas várias vezes em que fui a supermercados. Ou seja, se confia principalmente na honestidade do comprador. E por que o comprador é tão honesto assim? Primeiro em razão da educação que recebeu em casa e no grau de cidadania que possui. E segundo por que ele sabe que se for pego fazendo algo errado, ele será punido e terá que cumprir alguma pena ou pagar uma multa. No Brasil o cara mata alguém e se tiver dinheiro nem cadeia pega. E as muitas Leis que temos, nem sempre são cumpridas, são fiscalizadas. Então o povo em geral deita e rola no descumprimento das Leis, pois sabe que dificilmente será punido. Isso gera crimes e mais crimes, gera desonestidade. E o exemplo vindo de cima é o pior dos possíveis, pois os políticos são os primeiros a desobedecer as Leis e fugirem de punições, quase sempre apoiados por seus pares e pelo corporativismo que existe em muitas esferas do poder. Chega de desabafar isso aqui, pois sei que tão cedo as coisas no Brasil não vão melhorar, que vai demorar algumas gerações para que algo talvez mude e o Brasil deixe de ser o eterno país do futuro. Infelizmente é isso!!!
E como nada é para sempre, chegou o momento de partir do Canadá. Deu vontade de ficar mais, mesmo com o frio aumentando a cada dia. Foram semanas muito gostosas que passei no Canadá, onde conheci muitas coisas e lugares novos. Fiz bons amigos, fui muito bem acolhido por todos e sentirei muitas saudades de tudo e de todos. E parti com a sensação de que um dia voltarei.
E a partida foi numa manhã gelada e de tempo limpo. Nos primeiros minutos de vôo o avião estranhamente seguiu em uma altitude muito baixa. Pela janela fiquei vendo ao longe a cidade de Vancouver ficando para trás e um pouco mais distante dezenas de montanhas nevadas. Logo entendi o motivo do avião estar voando baixo, pois ele passou sobre o Mount Baker, que é um enorme vulcão que fica na fronteira entre Canadá e Estados Unidos. Ao passar sobre o vulcão o piloto avisou aos passageiros para olharem para baixo. A vista do vulcão coberto de neve era espetacular. Após passar o vulcão o avião começou a subir até chegar à altura normal de vôo.
Foram quatro horas de vôo até chegar a Dallas, no Texas, local de escala e troca de avião. Ao sobrevoar a cidade me lembrei do seriado Dallas, que passava na TV Globo no início dos anos oitenta. E Texas para mim faz lembrar de filmes de faroeste e gibis do Tex, coisas que sempre gostei. Passei cerca de três horas no aeroporto de Dallas, que é enorme e muito bonito. Esse aeroporto é base da American Airlines, e dali partem vôos para todo o mundo.
A segunda parte da viagem foi tranqüila e aproveitei para dormir um pouco. A chegada em Miami foi um pouco turbulenta em razão de uma tempestade tropical que quase tinha virado furacão. Chovia bastante, mas mesmo assim fazia calor. Saí de Vancouver com uma temperatura de seis graus, para chegar a Miami com trinta e dois graus. Essa foi uma diferença enorme de temperatura, mas confesso que mesmo gostando de frio já estava sentindo falta de um calorzinho. Do aeroporto segui direto para o hotel em Miami Beach, para um merecido descanso.
Estive visitando uma Feira da Maçã e fiquei surpreso ao ver 122 espécies diferentes de maçãs em exposição. Não sou muito fã de maçãs, mas vez ou outra gosto de comer uma maçã gala, ou uma torta de maçã. Mas nunca imaginei que existissem tantas espécies diferentes de maçãs. Na feira estive olhando a origem dessas maçãs e quase todas as espécies são oriundas do Canadá, Estados Unidos, Rússia e Inglaterra. Das 122 espécies que estavam em exposição, apenas umas seis estavam para venda. E também tinha cerca de quarenta tipos de mudas de maçã para venda. Esse acabou sendo um passeio bastante curioso e interessante.
Aproveitei meus últimos dias no Canadá para fazer alguns passeios de bicicleta. Passei por lugares onde já tinha passado e gostado e também por novos lugares. A cidade possui uma boa estrutura para o ciclismo, então aproveitei para pedalar bastante por aqui. E só não pedalei mais por culpa do tempo, que quase sempre é chuvoso e frio. E mesmo nos dias de sol faz frio e sobre a bicicleta o frio é ainda maior. Meu companheiro inseparável nas pedaladas foi sempre um mapa de bolso, que mostra todas as vias para ciclistas que existem na cidade. Usando o mapa não corria o risco de me perder.
Mesmo já tendo feito outras viagens internacionais, algumas das coisas que vi aqui no Canadá foram inéditas. Isso que é o bom em viajar, pois temos oportunidade de conhecer novos lugares, pessoas “diferentes”, novas culturas e costumes, novos sabores, novos cheiros. E em viagens procuro ser mais observador e notar melhor certos detalhes que muitas vezes passam despercebidos. Então nessa postagem aproveito para postar algumas fotos que tirei aqui em Vancouver e que mostram coisas curiosas, diferentes e até inovadoras.
Tenho visto muitos cartazes de animais perdidos pregados em postes pela cidade. A maioria são de gatos e alguns desses cartazes são muito bem feitos.
A cidade é cheia de parques e praças, e em todas existem muitos bancos. O curioso é que praticamente todos os bancos possuem uma plaquinha com dedicatória a alguém, normalmente alguém que já faleceu. Não sei se a pessoa que faz a dedicatória é que doa o banco, ou se ela paga alguma taxa para ter a tal plaquinha no banco.
Em alguns parques os postes de iluminação possuem um sistema próprio de obtenção de energia solar. O problema é que o sol é artigo raro na cidade em algumas épocas do ano, então acredito que tais postes devam possuir um sistema que também permita seu funcionamento com energia elétrica.
Em algumas ciclovias existem placas de limite de velocidade para bicicletas e patins. Isso para evitar que pedestres sejam atropelados.
Em algumas praias existem placas determinando certas regras para os usuários. E se alguma dessas regras for quebrada, o infrator pode levar multa de U$ 100,00. Existem policiais (Ranger Park) que fiscalizam os parques e praias e eles tem autoridade para multar os infratores no ato.
Diferente das cédulas norte americanas que são todas verdes e me causam certa confusão quando estão na carteira, as cédulas de dólar canadense são coloridas e facilitam um pouco as coisas.
Se seu cachorro fizer um cocôzinho básico em algum local público e você não limpar o cocô (limpar a bunda do cachorro fica a seu critério... rs!) você pode ser multado em até U$ 2.000,00.
Em visita a uma Universidade achei curioso alguns totens de segurança espalhados pelo campus. Como o local é cheio de bosques, se alguém se sentir ameaçado basta apertar um botão de emergência que existe no totem, que a segurança da Universidade é acionada e aparece para lhe socorrer. Esse sistema é mais utilizado por mulheres e inibe os crime sexuais.
O botão para pedestres acionarem o semáforo em avenidas movimentadas é através de um sensor. Você coloca o dedo perto do sensor e o mesmo emite um sinal sonoro. Quando o sinal abre para você, outro sinal sonoro avisa que você pode atravessar a rua.
Como na cidade a bicicleta é o segundo meio de transporte mais utilizado, para atravessar ruas mais movimentadas o ciclista só precisa acionar um botão para que o semáforo fique aberto para ele. E o curioso é que o botão para os ciclistas fica bem ao lado da rua, diferente do botão para pedestres, que fica na calçada.
Como existem muitos ciclistas na cidade, também existem muitos locais para que as bikes sejam estacionadas e cadeadas. Mas vi que muitos ciclistas preferem cadear suas bikes nos parquímetros espalhados pela cidade. Ao menos eles não precisam inserir moedas nos paquímetros, igual aos donos de carro que precisam estacionar.
Em muitas partes da cidade os cartazes promovendo shows e outros espetáculos são afixados em postes nas esquinas, tudo de forma organizada.
Estive fazendo mais uma passeio de bike pelo Stanley Park. Dessa vez aproveitei para conhecer a parte do parque que eu não tinha conhecido no passeio anterior e também percorri por completo a ciclovia que circunda o parque. E fui bem agasalhado e não passei frio igual no passeio anterior.
Eu que adoro andar de bicicleta, me senti no paraíso dos ciclistas quando cheguei a Vancouver. A cidade possui uma estrutura para ciclistas que nunca vi em outro lugar por onde passei, e olha que conheço muitas cidades por esse mundo afora. Aqui a bicicleta é o segundo meio de transporte mais utilizado. E é normal ver pelas ruas pessoas indo para o trabalho de bicicleta. Cheguei a ver homens de terno e mulheres de saia e salto alto indo e vindo de bike. E todos usam capacete, o que é um item obrigatório e sua não utilização é passível de multa. Eu acabei infringido a Lei e nunca saí de capacete em meus passeios pela cidade. E felizmente nunca levei uma multa.
E as bicicletas quase sempre são equipadas com garupa e alforje traseiro, onde o pessoal carrega suas coisas. Bicicletas femininas em sua maioria tem uma cesta na parte da frente, onde as mulheres colocam suas bolsas. Vi algumas senhoras de idade andando de bicicleta e com muito charme. E a razão disso é em sua maior parte por consciência ecológica dos moradores da cidade. Andar de bicicleta é ao mesmo tempo barato, não é um meio de transporte poluente e faz muito bem a saúde. E numa cidade com total estrutura e segurança para os ciclistas, além de paisagens lindas para admirar enquanto pedala, andar de bicicleta pela cidade é algo quase obrigatório.
A cidade tem criado cada vez mais espaço para bicicletas e possui pouco mais de 300 quilômetros de rotas, além de um grande plano de expansão dessas rotas. Recentemente fez algo que seria inaceitável de se fazer em grandes cidades brasileiras. A prefeitura simplesmente fechou uma pista que passa por uma das pontes mais movimentadas da cidade e deixou essa pista exclusiva para bicicletas. Ou seja, a partir do momento em que se facilita a vida dos ciclistas e se dificulta à vida dos motoristas, a tendência é que mais pessoas deixem seus carros em casa e passem a andar de bicicleta. Dessa forma diminui o número de carros nas ruas e o trânsito fica um pouco menos caótico e a cidade menos poluída. E na cidade faz sol e calor durante poucos meses no ano. O frio não inibe o pessoal de andar de bicicleta, o que inibe mais é a chuva e a neve. Outro fator importante que faz a população aderir cada vez mais à bicicleta como meio de transporte, é que os motoristas respeitam e dão preferência aos ciclistas. E com centenas de quilômetros de ciclovias bem sinalizadas, pedalar pela cidade é muito seguro. Já no Brasil, principalmente nas grandes cidades, andar de bicicleta em locais com alto fluxo de veículos é algo meio suicida. E o respeito ao ciclista é zero, pois o que vale é a lei do mais forte.
Hoje é Halloween (Dia das Bruxas) e essa data é bastante comemorada no Canadá. Na verdade o Halloween é o Carnaval deles. Três semanas antes já era possível ver lojas e casas enfeitadas para o Halloween. Não é feriado, mas na noite do dia 31 existem muitas festas pela cidade e nas escolas se comemora tal data. A noite as crianças saem pelas ruas, batendo de porta em porta e dizendo “trick or treat” (travessuras ou gostosuras).
O Halloween é um evento tradicional e cultural, que ocorre com especial relevância no Canadá, Estados Unidos, Irlanda e Reino Unido, tendo como base e origem as celebrações de antigos povos, que no transcurso da história foram se misturando. Se analisarmos o modo como o Halloween é celebrado hoje em dia, veremos que pouco tem a ver com as suas origens: só restou uma alusão aos mortos, mas com um caráter completamente distinto do que tinha ao princípio. Além disso foi sendo pouco a pouco incorporada toda uma série de elementos estranhos as suas origens ancestrais. Originalmente, o Halloween não tinha relação com bruxas. Os Estados Unidos foi que popularizaram a comemoração, principalmente através de seus filmes que são exportados para o mundo todo.
Num raro sábado de sol eu e meu amigo Gilberto fomos andar de bicicleta. Entre muitos lugares que estivemos nesse passeio, o mais inusitado foi a Wreck Beach, uma praia de nudismo que fica dentro do campus da UBC – University of British Columbia. A praia fica embaixo de um penhasco e para chegar até ela é preciso descer uma escadaria de quase quatrocentos degraus. Mesmo com sol fazia frio, e com o vento que vinha do mar, a sensação térmica na praia era muito baixa. Mesmo assim tinha algumas pessoas tomando sol peladas. Interessante é que alguns fazem um tipo de “cercadinho” para se proteger do vento. Essa espécie de “cercadinho” é feita com um tipo de papelão que possui uma película de alumínio e que reflete o sol, esquentando um pouco quem está no “cercadinho”. Por razões obvias de privacidade não tirei fotos próximas onde havia algum nudista. E também por razões obvias não fiquei peladão, ainda mais com o frio que fazia.
Independente do fato de ser uma praia de nudismo, a praia de Wreck Beach é muito bonita. Num canto da praia é possível ver ao longe algumas montanhas com cume nevado. A nudez é opcional em toda Wreck Beach, no entanto os banhistas regulares consideram boa etiqueta que todos fiquem nus na praia e não fiquem apenas observando os que estão nus. Além disso, devido à proximidade de Wreck Beach com a University of British Columbia, muitos estudantes e até professores, podem ser encontradas nas areias da praia. Nos últimos anos, usuários da praia se opuseram aos planos da universidade que queria construir novos edifícios muito perto da borda do penhasco e com vista parcial para a praia. Isso tiraria a privacidade dos nudistas e por essa razão a universidade suspendeu seus planos, ao menos por enquanto.
Em Wreck Beach.
Um dos “cercadinhos”.
Bem ao fundo montanhas com o cume coberto de neve.
Das pontes de Vancouver, a que mais vezes atravessei foi a Burrard Bridge. Passei por ela de carro, de ônibus, de bicicleta e a pé. E também passei por baixo dela em boa parte de sua extensão, num local meio deserto, mas que não chegava a dar medo.
A Burrard Bridge é uma construção no estilo Art Deco e foi construída entre 1930 e 1932. Ela liga o centro de Vancouver com Kitsilano Beach. A Ponte tem calçadas para pedestres em ambos os lados e recentemente uma das pistas de automóveis foi isolada para uso exclusivo de ciclistas. A ponte possui um enorme vão central para permitir altura suficiente para que navios passem por baixo dela.
Burrard Bridge.
Burrard Bridge.
Ciclistas atravessando a Burrard Bridge.
Passagem de pedestres e mirante no alto da Burrard Bridge.
Em minha opinião a ponte mais bonita de Vancouver é a Lions Gate Bridge. Ela é uma antiga ponte suspensa, que liga o centro ao norte de Vancouver. Uma ampla avenida que corta ao meio o Stanley Park chega até a ponte e por ela é possível chegar até North Vancouver. O nome Lions Gate deriva do nome de um conjunto de montanhas ao norte da cidade. A ponte possui um comprimento total de 1.823 metros e seu vão principal é de 473 metros de altura. A altura de sua torre é de 111 metros. Por baixo dela passam navios que chegam e saem do porto de Vancouver. A ponte possui três faixas reversíveis com uso indicado por placas de sinalização. Em suas laterais existem vias menores para trânsito de pedestres e ciclistas. Nos dias de tráfego mais pesado a ponte chega a ser utilizada por mais de 70 mil veículos e é proibido o tráfego de caminhões. A ponte é considerada patrimônio histórico do Canadá, tendo sido tombada em 2005.
Desde 1886 existia a vontade de se construir uma ponte que ligasse a região central de Vancouver, até o norte. O ponto mais curto para travessia do mar era justamente ao lado do Stanley Park, e por essa razão se levou muitos anos até que se conseguisse construir uma ponte no local, derrubando muitas árvores do parque. Alfred James Towle Taylor, que foi quem venceu a concorrência para a construção da ponte, não tinha as finanças suficientes para executar a empreitada. No entanto, ele foi capaz de convencer a família Guinness (donos da famosa marca de cerveja Guinness) a investirem na construção da ponte. A construção começou em 31 de março de 1937. O tráfego de veículos na ponte foi aberto em 14 de novembro de 1938. Em 29 de maio de 1939, o Rei George VI e a Rainha Elizabeth presidiram a abertura oficial durante uma visita real ao Canadá. Um pedágio de 25 centavos passou a ser cobrado por cada carro. Em 20 de janeiro de 1955, a família Guinness vendeu a ponte para o governo da Província de British Columbia. E em 1963, os pedágios foram retirados.
Lions Gate vista a partir do Stanley Park.
Início da Lions Gate.
Sobre a Lions Gate, tendo North Vancouver ao fundo.
Atravessando a Lions Gate de bike.
Lions Gate em North Vancouver.
Ciclistas atravessando a Lions Gate.
Downtown e Stanley Park vistos de cima da Lions Gate.
Após conhecer a parte de baixo da ponte Granville Street Bridge (ver post sobre Granville Island), tive curiosidade em conhecer a parte de cima da ponte. Então em um dos meus passeios a pé pelo centro de Vancouver, resolvi ir a pé até em casa, passando por sobre a Granville Street Bridge. Na ponte existe uma larga calçada para pedestres, o que torna seguro a travessia da mesma. E pude ver que ela é bastante utilizada por pedestres. A vista de cima da ponte é muito bonita. De negativo foi que nesse dia ventava muito e fazia frio, então a sensação térmica sobre a ponte não era das mais agradáveis.
A Granville Street Bridge é uma ponte de oito pistas e está 27,4 metros acima de Granville Island. A ponte original foi concluída em 1889, e era de madeira. Em 1891 essa ponte foi alargada em ambos os lados e recebeu faixas exclusivas para bondes. A segunda ponte no local foi concluída em 1909 e feita em aço. A ponte atual foi inaugurada em 1954 e a estrutura de oito pistas foi construída no mesmo alinhamento que a primeira ponte. O primeiro “civil” que conduziu um carro sobre a nova ponte em 1954, foi a mesma mulher que foi a primeira pessoa a conduzir um carro sobre a segunda ponte em 1909. Ela tinha ficado viúva entre as duas inaugurações, e por isso teve um nome diferente registrado em cada inauguração. Nas duas vezes ela esteve ao volante de um novíssimo Cadillac.
Granville Street Bridge.
Atravessando a Granville Street Bridge.
Vista do alto da ponte.
Granville Street Bridge vista a partir de Granville Island.
A Grouse Mountain é uma das montanhas que ficam ao norte da cidade de Vancouver e a mais próxima da cidade. Ela tem pouco mais de 1.200 metros de altitude. Possui uma pequena área para esqui alpino e é um local bastante visitado, tanto no inverno para atividades na neve, quanto nos períodos sem neve. Para chegar ao seu topo existe um serviço de teleférico e uma trilha de quase três quilômetros, muito utilizada por quem gosta de caminhadas na mata.
Subi a Grouse Mourtain pela Grouse Grind Trail, uma trillha de 2,9 quilômetros que segue pelo meio da mata montanha acima. O grau de dificuldade da trilha não é dos maiores, mas é preciso ter um condicionamento físico razoável para percorrê-la. Ela é bastante utilizada por quem gosta de caminhadas na mata e cerca de cem mil pessoas a percorrem todos os anos. Logo no início da trilha existe uma placa alertando para tomar cuidado com ursos. Para quem não está acostumado é meio assustador. Pela proximidade com a cidade, a presença de ursos na trilha não é tão comum. Mesmo assim existe o risco de aparecer algum urso, então sempre procurei ficar próximo a outros caminhantes que estavam subindo a montanha, pois não tinha intenção de virar comida de urso. Não tive muita dificuldade em chegar até o topo e levei 1h02min para percorrer toda a trilha, o que é um bom tempo. Estava bem frio quando fiz a trilha, mesmo assim tirei minha blusa logo no início da caminhada, pois passei a sentir calor e a transpirar muito. O problema foi quando cheguei ao topo e minha camiseta estava molhada e a temperatura lá no alto era ainda mais fria. Desci a montanha utilizando o teleférico e pude observar a bela vista que se tem da cidade lá do alto.
Na parte norte de Vancouver estive algumas vezes no Lonsdale Quay Market, que faz parte do terminal do SeaBus. O local possui um pequeno mercado público com bancas de legumes, frutas, peixes, pães e alguns cafés e restaurantes com comidas típicas de vários países. Num de seus restaurantes fiz uma de minhas poucas experiências alimentares, algo que sempre evito em viagens. Provei um sanduíche da culinária mediterrânea e acabei gostando. O Lonsdale Quay Market tem no seu andar superior lojas de produtos artesanais como jóias, cerâmicas e tecidos. O complexo também possui um hotel, um bar e um nightclub.
Utilizei o SeaBus algumas vezes, para ir do centro até a região norte de Vancouver. O SeaBus é um ferry, que transporta passageiros. São dois ferrys funcionando de forma simultânea, um em cada sentido e eles se encontram no meio da travessia, que leva entre 10 e 12 minutos. A travessia permite ter uma bela visão do centro de Vancouver e de seus altos edifícios.
O serviço de travessia entre o centro de Vancouver e a região norte da cidade, existe desde 1900, quando funcionava com barcos de madeira. O atual sistema de ferrys do SeaBus funciona desde 1977. Existem catracas para entrada no ferry, mas elas funcionam somente para contagem de passageiros. Quando o número maximo de passageiros é atingido, as catracas travam e não deixam mais ninguém entrar. Não é feito nenhum tipo de cobrança de passagem na entrada da estação de embarque ou no próprio ferry, mas é preciso embarcar tendo um ticket de transfer de ônibus válido, ou do ferry. Eventualmente são feitas fiscalizações dentro dos ferrys, e se algum passageiro não estiver portando o ticket de embarque, ele tanto pode ser retirado do ferry ou levar uma multa de U$ 173,00.
Um local simpático e bonito que estive visitando, foi Deep Cove, uma pequena comunidade localizada em frente a uma baía. O local é próximo a Vancouver, fica a cerca de 13 quilômetros da cidade, no sopé do Mount Seymour. A área de Deep Cove é um território tradicional da nação Salish Squamish, nativos que viviam e ainda vivem na região há milhares de anos.
O Mount Seymour é uma das montanhas que ficam na parte norte de Vancouver e que pode ser vista de quase todas as partes da cidade. Tem 1.449 metros de altura e nele funciona uma estação de esqui desde 1937. Por causa de seu fácil acesso rodoviário e estacionamentos amplos, Mount Seymour é muito utilizado como local de filmagem. Alguns filmes e séries de TV foram rodados em suas florestas e encostas nevadas. Os mais conhecidos foram a série Arquivo X e o filme Eclipse, da saga Crepúsculo. Em dias de tempo bom a vista do alto do Mount Seymor é muito bonita e ampla, onde entre outras coisas é possível ver ao longe o Mount Baker, um vulcão ativo e com neve eterna em seu topo, que fica em território dos Estados Unidos a dezenas de quilômetros de distância.
Aproveitando um dos raros dias de sol em Vancouver, fui dar uma volta de bicicleta e ver o pôr do sol na praia. Foi um espetáculo muito bonito ver os últimos raios de sol iluminado ao longe os muitos “prédios de vidro” do centro da cidade. O único problema foi que dei bobeira e deixei que uma onda molhasse meus pés. A água estava congelante e como fazia frio fui correndo para casa, pois ficar com os pés molhados e gelados não foi uma experiência muito agradável.
Fui assistir outro jogo de futebol do Whitecaps, time profissional de Vancouver. Dessa vez o jogo foi no BC Place Stadium, que tinha acabado de ser reinaugurado, após ter passado por uma milionária reforma. O estádio é muito bonito, inclusive tem cobertura retrátil que pode ser fechada em dias de chuva ou de neve. Com certeza esse foi o melhor e mais bonito estádio onde já entrei.
Dessa vez dei sorte para o time da casa, que venceu o time norte americano do Real Salt Lake. O placar foi de 3 x 0 para o Whitecaps, com direito a dois gols de pênalti do brasileiro Camilo. O estádio possui um telão gigantesco, que transmitiu o jogo em tempo real. Não sei se é por estar habituado a ver jogos pela TV, mas o fato é que muitas vezes eu esquecia de olhar o jogo no campo e ficava vendo o jogo pelo telão. O engraçado é que a imagem do telão estava invertida para o lado em que eu estava sentado. Ou seja, o time no campo atacava para o lado direito de onde eu estava, e no telão aparecia ele atacando para o lado esquerdo.
Na última semana estive duas vezes nas proximidades do Stanley Park e pude ver uma enorme estrutura montada. São muitos carros, caminhões, carretas, equipamentos diversos e pessoas. Tudo isso está num local do parque que foi cercado e muitos seguranças cuidam para ninguém se aproximar. Pela internet descobri que nesse canto do Stanley Park estão gravando cenas do próximo filme do Superman. As cenas que estão sendo gravadas ali, no filme aparecerão como se tivessem acontecido no Alaska. Mesmo não conseguindo ver nada da gravação em si, foi uma experiência interessante ver toda a movimentação no local e fiquei abismado com a estrutura montada e a quantidade de pessoas envolvidas na produção do filme. Não é a toa que tais filmes custam milhões de dólares.
Alguns veículos da produção do novo filme do Superman.
Henry Canvill o novo Superman, durante gravação semana passada em Vancouver. A foto é do site TMZ.
Logo que chegamos de gôndola no alto da montanha de Whistler, uma das coisas que vi e que me chamou atenção foi o Homem de Pedra, uma espécie de escultura feita com pedras sobrepostas. Na verdade essa escultura é um inunnguac, uma tradicional escultura de pedra que era utilizada pelos Inuit, indígenas nativos do Canadá. Esses marcos de pedra serviam para demarcar rotas de viagem, locais de pesca, territórios de caça e etc. Existiam outros tipos de marcos, mas os inunnguac representavam sempre uma figura humana.
Um inunnguac estilizado foi usado como logotipo da Olimpíada de Inverno de 2010, que aconteceu em Vancouver e que teve Whistler como sub sede. O logotipo foi inspirado em um inunnguac existente no Stanley Park, em Vancouver. Os designers gráficos locais Elena Rivera MacGregor e Alatorre Gonzalo, foram os criadores do logotipo que tornou os inunnguac conhecidos em todo o mundo.
O Homem de Pedra, na chegada a montanha de Whistler.
Whistler Village possui uma população fixa de pouco menos de dez mil habitantes, além de habitantes temporários durante o período de esqui. É um local bastante simpático e após as Olimpíadas de Inverno de 2010, ganhou uma bela praça dedicada as Olimpíadas, onde alguns monumentos como os Anéis Olímpicos e a Pira Olímpica, marcam que aquele local foi palco de um grande e importante evento esportivo.
Para encerrar nosso passeio, após descermos das montanhas caminhamos um pouco pela Vila, entramos em algumas lojas e jantamos num dos restaurantes locais. Foi um dia perfeito, muito alegre e onde o tempo ajudou com um sol maravilhoso após muitos dias de chuva.
Passeando por Whistler Village.Whistler Village.Loja da Polícia Montada.Whistler Village e parte da Praça Olímpica.Pira Olímpica.Anéis Olímpicos.Jantar em Whistler.
Fizemos a travessia entre as montanhas de Whistler e Blackcomb, utilizando o sistema de gôndolas PEAK 2 PEAK, que foi inaugurado ano passado para a Olimpíada de Inverno. A “viagem” na gôndola é de tirar o fôlego, tanto pela altura, quando pela paisagem que se vê lá do alto. A travessia entre as duas montanhas leva 11 minutos, e a distância percorrida é de 4,4 quilômetros. A construção de PEAK 2 PEAK quebrou três recordes mundiais: o mais longo período sem suporte que é de 3,024 km; maior elevação de seu tipo com 436 metros acima do fundo do vale; maior sistema de elevação contínua no mundo.
Whistler é uma estação de esqui. Ela engloba uma vila com diversos hotéis, restaurantes, bares e residências. Existem duas montanhas preparadas para o esqui, a Whistler e a Blackcomb. A descida de 1.562 metros em Blackcomb é maior do que qualquer outra estação de esqui na América do Norte. Whistler Blackcomb tem uma área esquiável de 8.171 acres. Algumas pesquisas indicam que Whistler Blackcomb é a maior área destinada ao esqui no mundo, porém devido à prática de diversas estações de esqui Européias (as maiores na França, Áustria e Suíça) de medir a área das pistas ao invés da área total, uma resposta definitiva seria atualmente imprecisa. Blackcomb possui uma geleira que permite condições favoráveis de esqui até mesmo no verão de junho à agosto. Durante as Olimpíadas de Inverno de 2010, cuja sede foi em Vancouver, em Whistler foram disputadas as modalidades de slalon, GS, bobsleigh, luge, e skeleton.
Aproveitamos um domingo e fomos visitar Whistler, que é uma vila e estação de esqui distante 125 km de Vancouver. Fui eu, Gilberto, Yoko, Laura e seu filho. Demos sorte, pois fez um lindo dia de sol, coisa muito rara de acontecer por aqui nessa época do ano. Com tempo bom foi possível ver toda a beleza das montanhas nevadas dessa região do Canadá.
Cerca de dois milhões de pessoas visitam Whistler anualmente, principalmente para praticar esqui alpino e moutain biking. Whistler foi sub-sede das Olimpíadas de Inverno de 2010, cuja sede foi em Vancouver.
Subindo da Vila de Whistler até a montanha de Wistler.
Gilberto e Vander, na gôndola.
Trenó de bobsleigh, da Olimpíada de Inverno.
Estação de esqui.
Gilberto, Laura e o homem de pedra.
Lago que em breve congelará e será utilizado para patinação.
Estive conhecendo a Biblioteca Pública de Vancouver e saí de lá encantado com tudo o que vi. A começar pelo prédio, que lembra o Coliseu de Roma, tudo na biblioteca é moderno e organizado. Aproveitei para ver se encontrava algum livro sobre as expedições para descoberta do Polo Sul (apesar de Vancouver ficar mais perto do Polo Norte) que é um assunto do qual gosto muito. Eu que tenho 15 livros sobre o assunto em minha coleção, acabei encontrando 54 livros sobre tal tema. Como começou a chover, resolvi passar algumas horas na biblioteca olhando esses livros sobre as expedições polares. No final das contas acabou sendo um passeio cultural e bastante interessante.
Um dos locais que vi em meu guia sobre Vancouver e que queria conhecer, acabei encontrando sem querer. Fui caminhar próximo a praia que fica para os lados de casa e ao virar numa esquina dei de cara com a Old Hastings Mill Store Museum. Foi uma agradável surpresa.
A Old Hastings Mill Store Museum foi a primeira loja de Vancouver, e funcionava numa construção feita em 1865, toda em madeira. Em 1930 a construção foi levada em barcas do local original, em Gastown (veja post sobre Gastown) para as margens da Jericho Beach, e depois foi trazida para o endereço atual. O local destinava-se a sediar o iate clube, mas na década de 1940 muitas pessoas contribuíram com diversos tipos de artefatos históricos e hoje a casa abriga um pequeno museu. Esta foi também uma das únicas estruturas que sobreviveu ao grande incêndio de 1886. E foi usada como hospital e necrotério para as vítimas do fogo.
Hastings Mill Park Museum.
Old Hastings Mill Store Museum.
Old Hastings Mill Store Museum.
Old Hastings Mill Store Museum.
Interior do museu.
Fundos do museu.
Em frente ao Old Hastings Mill Store Museum.
Old Hastings Mill Store em seu local original, 1886.
Na visita que fiz a UBC (post anterior) visitei o MOA – Museu de Antropologia da Universidade de British Columbia, que fica dentro da universidade. O acervo é composto por muitos itens oriundos da cultura indígena do Canadá. Os índios canadenses eram mestres em esculpir em madeira e ficaram famosos pelos totens, que são sua marca registrada.
O MOA é um lugar de extraordinária beleza arquitetônica. Um lugar de programação provocadora e vibrante, exposições contemporâneas. Um lugar de exploração ativa e contemplação silenciosa. Um lugar de artes e culturas do mundo. O Museu de Antropologia da Universidade de British Columbia é mundialmente conhecida por suas coleções, pesquisa, ensino, programas públicos, e as conexões com a comunidade. Também é aclamado por sua arquitetura espetacular e cenário único sobre as falésias de Grey Point.
Para conhecer mais sobre o MOA e visitar seu coleção on-line, acesse: http://www.moa.ubc.ca/
Minha amiga Laura me levou para conhecer a UBC (University of British Columbia), local onde ela estudou. A universidade é enorme e sua localização é uma atração à parte, pois fica entre bosques, próximo ao mar. Eu e a Laura andamos pelos principais prédios da universidade e alguns me chamaram mais atenção do que outros. Gostei do Museu de Antropologia, e até farei uma postagem especifica sobre ele. Também gostei do que sobrou do prédio da antiga biblioteca, uma construção em estilo antigo. Já da nova biblioteca, apesar de ser muito “modernosa” para meu gosto, achei interessante o seu formato, que lembra o de um livro. E achei muito bonito um jardim interno, de onde se tem uma bela vista para o mar e para as montanhas. E o mais curioso foi uma espécie de monumento, próximo ao prédio de artes cênicas. Você sobe numa espécie de palco que existe no centro do monumento e quando fala sua voz ecoa de uma forma diferente, como se você estivesse no palco de um teatro. Não sei explicar o motivo de tal fenômeno acústico, mas é muito interessante. E o mais legal da universidade é o local onde ela foi construída, todo cercado de mata. O local é tão bonito que deu vontade de estudar ali!
The University of British Columbia.
Um dos muitos edifícios da UBC.
Ao fundo prédio da antiga biblioteca.
Nova biblioteca, lembra o formato de um livro.
Anfiteatro onde são realizadas as formaturas.
Jardim, onde ao fundo aparece o mar e as montanhas encobertas.
Aproveitando um dos raros dias de sol em Vancouver, fui de bicicleta até o Stanley Park, o maior e mais bonito dos parques da cidade. Esse passeio de bicicleta pelo parque me permitiu conhecer melhor o mesmo, que é muito extenso. E também tinha falado para minha prima Anielly, que faria tal passeio. Ela me contou que quando esteve fazendo intercâmbio em Vancouver, recebeu um convite para ir de bike até o Stanley Park e não foi (acho que por preguiça… rs!) e que depois se arrependeu por não ter ido. Então para não cometer o mesmo erro de minha prima, aproveitei o primeiro dia inteiro de sol que surgiu e fui pedalando até o parque. E lembrei dela quando estava pedalando pelo parque, meio que pedalei por nós dois.
O passeio foi muito bom, segui parte por uma ciclovia que já conhecia e depois por uma ciclovia próxima a praia, um lugar muito bonito. Com sol o pessoal aproveitou para sair à rua e tinha muita gente pedalando, caminhando e patinando. Batia um vento frio vindo do mar, mas o sol ajudava a aquecer. Chegando ao Stanley Park pedalei por algumas estradas internas e empurrei um pouco a bike por uma trilha. Daí cheguei ao outro lado do parque e encontrei uma ciclovia, que passa por baixo da ponte Lions Gate. Segui pela ciclovia e logo cheguei numa parte muito bonita, onde de um lado da ciclovia é rochedo e do outro o mar. Nesse lado do parque o sol não batia e comecei a sentir muito frio, pois o vento vindo do mar tinha aumentado. Sei que quase congelei e foi nesse passeio que ganhei um belo resfriado, que se transformou em gripe e dor de garganta, me deixando mal por uns dias. Mesmo assim valeu o passeio, pois o parque é muito bonito e a ciclovia ao lado do mar e dos rochedos é sensacional. Pretendo voltar a percorrê-la outras vezes!
O Stanley Park possui 404 hectares e é o maior parque urbano do Canadá, e o terceiro maior da América do Norte. Originalmente o local do parque era o lar dos nativos das tribos squamish e musqueam. Foi inaugurado em 1888, ganhando o nome do Lord Stanley de Preston, que era o governador geral do Canadá. No parque entre outras coisas existem bosques de abetos e de cedro, bem como jardins e uma lagoa. E nele funciona o Vancouver Aquarium, onde é possível observar muitas espécies de peixes e também baleias orcas e belugas.
Em dezembro de 2006, uma grande tempestade com ventos fortes provocou um grande estrago no parque, derrubando cerca de três mil árvores. Algumas áreas antes ocupadas por árvores, agora estão abertas e acredita-se que deve levar ao menos uns vinte anos até a total recuperação dos estragos que a tempestade causou.
Um dos jardins do parque.
Alguns dos moradores do parque.
Estrada no interior do parque.
Ponte Lions Gate.
Começando a percorrer a ciclovia dentro do parque.
Dando seqüência em minhas andanças por Vancouver, visitei o bairro de Chinatown, que é um antigo reduto de imigrantes chineses e cantoneses. O bairro existe desde 1885, quando muitos imigrantes vieram para a cidade. Eu conhecia a Chinatown de Nova York, que é bem diferente e mais interessante que essa de Vancouver. Acabei andando um pouco além do que deveria e passei por uma parte da cidade que é bem decadente, com muitos drogados e bêbados vivendo pelas ruas. Foi meio assustador o contraste entre a Vancouver bonita e rica que eu estava conhecendo e essa parte feia da cidade. Não tive medo ao andar por essas “quebradas”, pois para quem está acostumado a andar por grandes cidades brasileiras como Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, a pobreza, os bêbados e drogados, os moradores de rua e as prostitutas, são coisas com as quais estou acostumado e até certo ponto sei como me proteger e não arrumar problema com eles.
A área de Chinatown está em decadência já faz alguns anos e conta com um concorrente, Village Golden, em Richmond, subúrbio de Vancouver. Diferente dos chineses pobres que foram para o Canadá no século 19 e se estabeleceram em Chinatown, a nova leva de imigrantes vindos principalmente de Hong Kong e Taiwan, é de chineses ricos que preferiram se estabelecer em Richmond e não em Chinatown. Quando a Inglaterra “devolveu” Hong Kong para a China em 1997, os milionários locais em sua maioria seguiram para o Canadá levando suas fortunas, com medo de que o governo comunista da China as tomasse. Pelas ruas da cidade você encontra milhares de chineses. Sempre que vejo um Porche ou uma Ferrari na rua, olho para ver se é um chinês ao volante, e na maioria das vezes é.
Devido à enorme presença étnica chinesa em Vancouver, especialmente representada pela multi-geração de chineses canadenses (filhos de chineses que nasceram no Canadá) e imigrantes de primeira geração vindos de Hong Kong, a cidade tem sido chamada de “Hongcouver”. Esse termo é considerado pejorativo pela maioria dos chineses que vivem na cidade.
Ainda passeando pela parte antiga de Vancouver, conheci o prédio mais charmoso de Gastown, que é o Triangular Building. Ele é um edifício triangular de seis andares, construído entre 1908 e 1909. Foi a primeira estrutura reforçada de concreto a ser construída no Canadá. Nele funcionou um hotel desde a sua inauguração até 1983, quando foi reformado e remodelado para servir como habitação. Ele é bastante parecido com o Flatiron Building, de Nova York. O edifício serviu de locação para o filme The Changeling (A Troca) gravado em 1980.
Em minhas andanças para conhecer Vancouver, estive visitando a região de Gastown, que é uma das áreas mais antigas da cidade. Nessa região em 1867 chegou um marinheiro, “Gassy” Jack Deighton, que era capitão de navio a vapor. Ele abriu o primeiro sallon no local, para atender os trabalhadores de uma serraria. A partir disso, essa área da cidade começou a prosperar e mais pessoas começaram a abrir seus comércios na região. E rapidamente o local se transformou no centro geral do comércio na cidade.
Atualmente Gastown é uma mistura de ruas pavimentadas com tijolinhos, construções do século 19 restauradas e muitas lojas. Algumas lojas são bem elegantes e caras. Pela região também existem muitos cafés, restaurantes e galerias de arte nativa.
Em Gastown existe uma estátua de Gassy Jack, que é ponto de parada obrigatório para os turistas que visitam a cidade. Um outro ponto obrigatório para os turistas é o relógio a vapor, localizado na esquina das ruas Cambie e Water. O relógio foi colocado para cobrir uma grelha de vapor, que fazia parte do sistema de distribuição de vapor utilizado no aquecimento da cidade. O relógio foi construído como uma maneira de aproveitar o vapor que era despejado na rua e para impedir que moradores de rua dormissem no local, em tempo frio.
Na década de 1960, os cidadãos de Vancouver ficaram preocupados com a preservação arquitetônica e histórica de Gastown, que juntamente com a vizinha Chinatown e Strathcona, estavam para serem demolidas para darem lugar a uma larga avenida que levaria até o centro da cidade. Uma campanha liderada por empresários e proprietários de imóveis do local, que contou com o apoio de muitos moradores e políticos, pressionou o governo da província para declarar a área um local histórico. Esse movimento obteve êxito e em 1971 a área foi declarada como local histórico e de preservação obrigatória.
Fiz uma visita ao Canada Place, que é o local onde ficam o Centro de Exposições e Espetáculos de Vancouver, o Hotel Pan Pacífico, o World Trade Center de Vancouver e um cinema 3D da IMAX, o primeiro do mundo. É também o principal terminal de navios de cruzeiro da região, onde os procurados cruzeiros de Vancouver para o Alasca iniciam. O Canadá Place foi construído para a Expo’ 86, que aconteceu em Vancouver. Ele funcionou como o Pavilhão do Canadá. As “velas” brancas do edifício fizeram dele uma das principais atrações da cidade.
Fui a um jogo de hóquei no gelo, entre o Canucks de Vancouver e o Sharks de San José – USA. Foi uma experiência muito interessante, a começar pelo ginásio de hóquei, a Rogers Arena. É um ginásio enorme, muito bonito, organizado e confortável. Tudo com lugares marcados e banheiros limpos, algo que nunca consegui ver no Brasil.
O jogo em si foi legal, mesmo com os times não jogando com todas suas estrelas, pois ainda estão na fase de pré-temporada, testando novos jogadores. Mas para um leigo como eu, que até então só tinha assistido a um jogo pela TV alguns dias antes, foi um belo espetáculo. E teve até briga, o que é algo normal no hóquei e tem até regras próprias para brigar. Não sei se sou pé frio aqui no Canadá, mas o fato é que a exemplo do futebol que eu tinha assistido, no hóquei o time da casa também perdeu.
E outro show foi a torcida nos intervalos e tempos técnicos. Sempre tinha alguma coreografia ou algo nos telões, mostrando a torcida fazendo festa. O mais legal era quando mostravam um casal no telão e eles tinham que se beijar. Com quase todo o ginásio olhando, teve alguns casos em que não saiu o tal beijo.
O hóquei no gelo é o esporte nacional do Canadá, o pessoal simplesmente adora. Isso significa sempre ginásio cheio durante os jogos. Meu amigo Gilberto está há anos na fila de espera para comprar ingressos para a temporada completa de hóquei e ainda não conseguiu. Esse ano ele conseguiu ingressos para um terço da temporada, e isso após uma longa fila de espera.
O hóquei no gelo, ou hóquei sobre o gelo, é um esporte olímpico jogado entre duas equipes de seis jogadores, onde todos os jogadores e juízes calçam patins. Os jogadores patinam no gelo e usam tacos (sticks) para movimentar um disco de borracha (puck). O objetivo do jogo é fazer gol na baliza do adversário. O hóquei no gelo é um dos jogos mais rápidos do mundo, tanto pelo movimento constante e rápido dos jogadores quanto pelas tacadas que podem alcançar uma velocidade de mais de 160 quilômetros por hora. É um dos poucos esportes que permitem a troca de jogadores (ilimitadamente) enquanto o jogo ainda está em progresso. É também um esporte muito violento e agressivo, que necessita a utilização de pesados equipamentos de proteção.
O hóquei no gelo surgiu no Canadá e é o esporte nacional do país. O Canadá é o maior vencedor de competições internacionais de hóquei no gelo do mundo, entre eles o Campeonato Mundial e os Jogos Olímpicos. O hóquei no gelo também é muito popular nos Estados Unidos (principalmente na região norte e mais fria do pais), Suécia, Rússia, Finlândia, Eslovênia e Letônia. Nos Estados Unidos e na Rússia, o hóquei no gelo é chamado simplesmente de “hóquei”.
Ingresso do jogo.
Começo de jogo.
Visão que eu tinha no ginásio.
Passeando no intervalo de jogo.
O telão animando a torcida.
Canucks x Sharks (Photo by Nick Didlick).
Canucks x Sharks (Photo by Nick Didlick/Getty Images).
Outro parque simpático que estive visitando foi o Ambleside Park. Esse parque fica na região norte da cidade (North Shore), ao lado da praia. Dele se tem uma bela visão da ponte Lions Gate e do Stanley Park. Quando estava no parque passaram três navios de cruzeiro, na praia em frente. Acredito que estavam seguindo para o Alaska, que é um destino bem procurado pelos moradores da região.
E descobri porque existem tantos troncos nas praias da cidade. É que na região existem madeireiras que transportam os troncos de árvores cortados, como nos velhos tempos, ou seja, deixando que os rios levem os troncos até um determinado local. Mas vez ou outra algum tronco se “perde” e vai parar em alguma praia de Vancouver.
Ambleside Park.
Ao fundo a Lions Gate e o Stanley Park.
Navio de cruzeiro possivelmente seguindo para o Alaska.
E no norte de Vancouver, também estive visitando parte do Cypress Provincial Park. Não adentramos mais ao parque porque o tempo estava fechando e as nuvens não permitiriam que apreciássemos a vista lá do alto. Então fizemos uma parada num mirante do Cypress Park. O tempo em Vancouver estava bom, então tivemos uma bela visão da cidade. Infelizmente as fotos não conseguem transmitir muito bem a beleza da vista que tínhamos lá do alto.
Mirante do Cypress Provincial Park.
Vancouver vista do mirante do Cypress Provincial Park.
Outro lugar bonito que conheci na região norte de Vancouver, foi o Whitecliff Park. O parque fica próximo ao mar, numa encosta rochosa. No parque existem muitas belas árvores. O local também possui playground, áreas de piquenique, quadras de tênis e uma praia onde é possível nadar. A área aquática do parque é atualmente o lar de mais de 200 espécies de animais marinhos. Também é a primeira área marinha protegida no Canadá. Leões-marinhos podem ser vistos tomando sol na praia durante o verão. O local também é bastante utilizado para a prática do mergulho.
Algo que achei interessante no parque foram as lixeiras anti-urso. A região norte, com suas montanhas e matas é habitada por muitos ursos. Os ursos quando encontram comida em um determinado lugar, costumam voltar outras vezes a esse local. Por essa razão as lixeiras do parque possuem uma trava escondida, para que o urso não consiga abrir. Minha amiga Laura disse que alguns humanos também não conseguem abrir essas lixeiras… rs!
Finalmente fui conhecer a região Norte de Vancouver, que é onde ficam as montanhas. Quem me conhece bem, sabe que adoro montanhas. Gosto mais de montanhas do que de praias… rs! Fui para o Norte com o Gilberto e a Laura. Saímos de Vancouver com o tempo fechado e chovendo muito. Achei que o passeio seria uma furada, pois com chuva não dá para ver muita coisa. O Gilberto garantiu que ia sair sol, pois tinha olhado a previsão do tempo. Até brinquei com ele, dizendo que dessa vez ele que é o homem da previsão do tempo iria falhar. Mas não é que ele estava certo, pois ao chegarmos a Horseshoe Bay a chuva e as nuvens foram embora e o sol apareceu.
Horseshoe Bay é uma comunidade com cerca de mil residentes. É um lugar muito bonito, entre as montanhas e o mar. No local funciona um Ferry que faz a ligação da região de Vancouver com algumas ilhas. O tempo que ficamos em Horseshoe Bay serviu para admirar a bela paisagem e tranquilidade do local. E também deu para ver uma foca nadando bem próximo a margem, numa água extremamente gelada. Até então eu só tinha visto focas em zoológico e no Sea World. Ver na natureza foi à primeira vez e foi bem mais interessante ver o bichinho ali, nadando tranqüilo em seu ambiente natural.
Fui a um jogo de futebol aqui em Vancouver, junto com meu amigo Gilberto. O time local, Whitecaps, que mesmo sendo canadense disputa a MLS (Major League Soccer) que é a principal liga de futebol dos Estados Unidos. O time é o último colocado do campeonato. Já o time do Seattle, que foi o adversário nesse jogo que assisti, está em terceiro lugar. O time de Vancouver tem um brasileiro, Camilo, que é um dos melhores do time. Já no Seattle a estrela do time é o goleiro Kasey Keller, que jogou durante muito tempo na seleção norte americana, tendo inclusive participado de quatro Copas do Mundo: 1990, 1998, 2002 e 2006.
O jogo em si foi bom, pena que o Whitecaps perdeu muitos gols e no final levou uma virada de 3 x 1. O espetáculo em si é que valeu a pena. O jogo foi num estádio provisório, pois o estádio principal da cidade está sendo reformado. Mas esse estádio provisório é melhor do que muito estádio em que já fui no Brasil. Cadeiras com lugares marcados, banheiros limpos, torcida educada, sem xingamentos, sem mexer com as mulheres e sem jogar xixi nos outros. Não teve brigas, inclusive a torcida adversária circulava normalmente entre a torcida do Whitecaps e ninguém se importava com isso. Foi um programa divertido sem dúvida.
MLS
Whitecaps (CAN) 1 X 3 Seatlle (USA)
Whitecaps X Seatlle
Conhecendo o futebol da América do Norte.
Ataque do Whitecaps.
No telão o replay dos melhores lances da partida.
Vander e Gilberto, dois corinthianos torcendo para o Withecaps.
Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, fez um desenho para homenagear Sergio Boneli, quadrinista italiano que faleceu nesta segunda-feira (26/09) aos 79 anos. No alto da imagem, vê-se a mensagem “Grazie per tutto, Bonelli!” que quer dizer, em italiano, “Obrigado por tudo, Bonelli!”. Uma estátua do artista está no centro do desenho e alguns personagens criados por Mauricio de Sousa mostram feições tristes ao lado do monumento. Todos estão trajados como personagens com os quais Bonelli trabalhou. Cebolinha está vestido como o cowboy Tex, Cascão é Zagor e Louco é Mágico Vento. Do lado direito da imagem, Mônica é a criminóloga Julia Kendall, Xaveco é Martin Mystère, Penadinho é o detetive do além Dylan Dog e Anjinho é Nathan Never.
No sábado a tarde eu e o Gilberto fizemos um longo passeio de bike. Nesse passeio fiquei conhecendo mais um pouco de Vancouver. Seguimos vários quilômetros por uma ciclovia, que estava bastante movimentada em razão de ser sábado e não estar chovendo. Entre os muitos lugares pelos quais passamos, um que achei interessante foi a Vila Olímpica das Olimpíadas de Inverno de 2010.
Com Gilberto, pedalando num sábado a tarde. (24/09/2011)
A Vila Olímpica das Olímpiadas de Inverno de 2010.
Na Vila Olímpica, e ao fundo o Estádio de futebol e o Ginásio de hóquei no gelo.
Eu e meu amigo Gilberto fomos de bike até Granville Island. Deixamos as bikes cadeadas num local destinado a elas e saímos a caminhar. Visitamos o mercado e outras instalações do local. Acabamos almoçando por lá. Entre as várias opções gastronômicas acabei escolhendo um sanduíche polonês, que foi feito por uma chinesa. Essa mistura não podia dar certo e o resultado foi que o sabor do sanduba não era dos melhores, achei muito apimentado. Diga-se de passagem que o pessoal daqui gosta muito de comida apimentada. Almoçamos sentados em um banco de frente para uma marina, vendo os barcos passando e cuidando para que nenhuma gaivota roubasse nossa comida.
Granville Island é uma península que fica na área comercial de Vancouver. No passado o local era uma área de produção industrial, mas hoje em dia é um importante ponto turístico da cidade. Granville Island oferece comodidades como um grande Mercado Público (Mercado Municipal no Brasil), uma extensa marina, um hotel, boutiques, a Emily Carr Universidade de Arte e Design, vários teatros, galerias de artes plásticas, e uma variedade de áreas comerciais.
Gilberto chegando a Granville Island.
Mercado Público de Granville Island.
Banca de frutas no Mercado Público.
A marina em frente a Granville Island.
Momento de descanso.
O almoço foi um sanduíche polonês acompanhado de um Canadá Dry.
Almoçando o sanduíche apimentado.
Criança perseguindo uma das gaivotas ladras de comida.
Vou fazer um parênteses nas postagens sobre os dias aqui no Canadá, para falar um pouco de uma pessoa que faleceu hoje. Eu não conhecia pessoalmente tal pessoa, mas ela influenciou muito minha vida em vários sentidos. Quem faleceu foi Sergio Bonelli, editor italiano de quadrinhos e criador entre outros do personagem Zagor, que sempre foi meu personagem de quadrinhos favorito. E eu estar hoje no Canadá é de certa forma por “culpa” de Sergio Bonelli e deu seu pai, Gian Luigi Bonelli, criador do lendário personagem Tex Willer. É que graças às revistas em quadrinhos editadas pela Editora Bonelli, fiz muitas amizades pelo Brasil e pelo mundo nesses trinta e poucos anos que leio e coleciono quadrinhos. E entre esses amigos que fiz está o Gilberto Walker, brasileiro que vive no Canadá e que estou visitando nesses dias. Foi o gosto por quadrinhos Bonelli que iniciou e fortaleceu nossa amizade e depois de muitos anos vim fazer uma visita a ele. Para aqueles que não gostam de quadrinhos, talvez fique difícil de entender o que a morte do Sergio Bonelli significa, mas para mim e para milhares de colecionadores e admiradores da Bonelli Editore espalhados pelo mundo, hoje é um dia triste, um momento de luto e a sensação de que todos ficamos um pouco órfãos a partir de agora.
Faleceu hoje em San Gerardo di Monza, Milão, com a idade de 78 anos, Sergio Bonelli. Nascido a 2 de Dezembro de 1932 em Milão, estava hospitalizado no hospital San Gerardo há uma semana, depois de ter iniciado a acusar problemas de saúde em agosto. Editor, argumentista, conhecido também no início da sua carreira com o pseudónimo de Guido Nolitta, escolhido para evitar ser confundido com o seu pai Gian Luigi, criador em 1948 de Tex Willer. O herói western que defende os fracos e oprimidos independentemente da sua cor da pele.
Sergio Bonelli, explica um comunicado da editora italiana, morreu após uma curta doença, deixando a esposa e o seu filho Davide. Sergio Bonelli, realça o comunicado, “foi o principal artificie da passagem das revistas em quadrinhos como simples instrumento de entretenimento popular a produto de dignidade cultural, criando, ao longo da sua carreira de cinquenta anos, uma das mais importantes editoras de revistas em quadrinhos no contexto italiano e mesmo mundial“.
Na última sexta-feira fiz meu primeiro passeio de bike por Vancouver. Não fui muito longe, pois além de estar cansando dos muitos quilômetros caminhados no dia anterior, estou meio enferrujado após vários dias sem pedalar. Fui até a praia, que não é muito longe de casa e andei um pouco pela ciclovia compartilhada com pedestres, que segue por toda a praia. Andar de bike aqui em Vancouver é uma maravilha, pois existem centenas de quilômetros de ciclovias seguras e sinalizadas, bem como em muitas ruas existem faixas exclusivas para ciclistas. E na cidade muita gente utiliza a bicicleta como meio de transporte. É raro ver uma moto por aqui, mas bicicletas você vê aos montes. E outro diferencial é que os motoristas respeitam e dão preferência aos ciclistas e pedestres. A diferença com relação ao Brasil é gritante.
As praias por onde andei são de areia grossa e água gelada. Um detalhe que achei interessante é que existem muitos troncos de árvores espalhados pela areia, todos organizados em fileiras. Esses troncos servem como bancos, mesas e outras coisas mais. Fiquei um bom tempo sentado num tronco desses olhando os navios ancorados em frente à praia, esperando para entrar no porto da cidade. E de longe dava para ver o centro da cidade. Perto de mim estavam realizando uma seção de fotos com algumas modelos. Quando fui embora pedalando pela ciclovia acabei sem querer vendo uma modelo trocando de roupa dentro de um carro. Isso acabou fazendo valer ainda mais o passeio nesse dia… rs!
Fiz meu primeiro longo passeio a pé pela cidade, indo até o centro de Vancouver, que fica numa ilha. Não sei precisar quantos quilômetros caminhei, mas sei que foram muitos. Saí de casa e caminhei até a praia, depois fui seguindo por calçadas que passam por muitos parques. Eu que achava que Curitiba tinha muitos parques, descobri que aqui tem muito mais. O que não ajudou muito nesse passeio foi o tempo, pois choveu um pouco e fez frio. Mesmo assim foi um passeio divertido e além de conhecer um pouco mais da cidade, pude passar por locais interessantes onde só se pode ir a pé ou de bicicleta. Passei por algumas marinas bonitas e depois atravessei a Burrard Bridge, uma antiga e bela ponte. Primeiro passei por baixo da ponte, um lugar meio sinistro, para depois passar por cima e poder observar a bela vista que se tem lá de cima.
Chegando ao centro da cidade, caminhei por algumas ruas principais observando o movimento e os belos prédios. Atravessei o centro e fui até o outro lado da ilha. Desse lado a vista é ainda mais bonita, pois da para ver as montanhas. Andei bastante ao lado de marinas com muitos barcos e iates ancorados. E vi algo interessante, um aeroporto de hidroaviões. Fiquei um tempo observando as decolagens e aterrissangens na água. Acredito que não seja uma experiência muito boa, principalmente no meu caso, pois não gosto muito de voar. A existência de muitos hidroaviões na cidade é por que em muitas regiões do Canadá só é possível chegar via aérea e pousando na água, em rios.
Sei que passei muitas horas caminhando e descobrindo lugares e coisas interessantes. Gosto de passear dessa forma, caminhando sem pressa e observando tudo. Essa é uma boa maneira de se conhecer uma cidade. Na volta para casa achei melhor ir de ônibus, pois estava cansado de tanto andar. E coincidentemente do meu lado estava sentado um casal de brasileiros, conversando. Fiquei quietinho ouvindo a conversa deles. No exterior nem sempre brasileiro gosta de encontrar brasileiro. Eu particularmente prefiro passar despercebido quando encontro conterrâneos.
Um dos muitos parques por onde passei. (22/09/2011)
Museu Marítimo de Vancouver.
Uma das muitas marinas por onde passei. (22/09/2011)
Atravessando a Burrard Bridge rumo a ilha onde fica o centro de Vancouver.
Pequeno trecho do centro de Vancouver.
Hidroporto (aeroporto de hidroaviões).
Em mais uma marina.
Momento de descanso.
Calçada ao lado do mar, para caminhantes e ciclistas.
Hidroavião “estacionado” na marina.
Mais um pedacinho do centro, no final da tarde. (22/09/2011)
Vancouver é uma cidade litorânea que fica na Columbia Britânica, Canadá. O nome da cidade vem do capitão britânico George Vancouver que explorou a área na década de 1790. Vancouver é a maior área metropolitana no Oeste do Canadá e ocupa a posição de terceira maior do país e de oitava maior cidade propriamente dita. Segundo o censo de 2006, Vancouver tinha uma população de pouco mais de 578.000 habitantes e a sua Área Metropolitana Censitária excede os 2,1 milhões de pessoas. Seus habitantes são etnicamente diversos, com 52% tendo uma língua materna diferente do inglês.
Serrarias estabeleceram-se em 1867 na área conhecida como Gastown, que se tornou o núcleo em torno do qual a cidade cresceu. Vancouver foi incorporada como uma cidade em 1886. Em 1887, a ferrovia transcontinental foi prolongada até a cidade, para aproveitar o seu grande porto natural, que logo se tornou elo vital na rota de comércio entre o Oriente, leste do Canadá e Londres. O Porto de Vancouver é o maior e mais movimentado do Canadá, bem como o quarto maior porto (em tonelagem) da América do Norte. A indústria madeireira continua sendo sua maior fonte de renda, mas Vancouver também é conhecida como um centro urbano cercado pela natureza, fazendo do turismo a sua segunda maior indústria. É também o terceiro maior centro de produção cinematográfica na América do Norte depois de Los Angeles e Nova York, ganhando o apelido de “Hollywood do Norte”.
Vancouver tem sido classificada como “a cidade mais habitável” no mundo há mais de uma década, de acordo com avaliações de revistas de negócios. Ela recebeu muitos congressos e eventos internacionais. Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, e os Jogos Paraolímpicos de Inverno de 2010 foram realizados em Vancouver e nas proximidades de Whistler, comunidade a 125 km ao norte de Vancouver.
E no passeio que fiz pela cidade com a Laura (post anterior) acabamos indo no bairro gay de Vancouver, o Davie Village. Ela foi buscar um celular numa loja e enquanto esperava por ela dei uma volta pelas redondezas, por pura curiosidade. E o que mais me chamou a atenção foi a cor das lixeiras e pontos de ônibus do bairro, todos são rosa brilhante.
Meu segundo dia no Canadá amanheceu um pouco frio e chovendo. A chuva não é forte, mas é constante. Chove um pouco, para, chove mais um pouco, daí para de novo, chove outra vez e assim vai… Nesse dia aproveitei para me familiarizar com a casa do Gilberto, onde ficarei hospedado e também dei uma olhada rápida pela vizinhança. O bairro é residencial, com casas antigas em sua maioria, mas bonitas. É uma arquitetura bem diferente da que existe no Brasil.
À tarde fiquei conhecendo a Laura, amiga do Gilberto e também o Ethan, filho dela e que é praticamente um filho para o Gilberto. Acabei saindo com a Laura e o Ethan, de carro. Assim pude conhecer um pouco mais da cidade. A chuva durou o dia todo, naquele ritmo de chover, parar, chover de novo. É uma chuva fraca, mas que incomoda.
No final da tarde fui assistir ao treino de futebol do Ethan, em um colégio. Achei interessante a quantidade de meninas, de várias idades que também estavam treinando futebol. Tanto aqui no Canadá quanto nos Estados Unidos, o futebol (soccer) é muito praticado por meninas, algo bem diferente do que ocorre no Brasil.
Para terminar o dia, fomos jantar fora. Fomos eu, Laura, Gilberto, Ethan e a Yoko, uma japonesa que está fazendo intercambio em Vancouver e que ficou hospedada na casa da Laura. Fomos em um restaurante bem charmoso e depois de olhar detalhadamente o cardápio escolhi algo que não causaria surpresas, pois sou chato para comer e sempre me dou mal quanto tento experimentar alguma comida nova. Pedi um hambúrguer, que veio no prato junto com uma salada de repolho e batata frita. Estava uma delícia!
Após uma semana em Orlando, arrumei minha mala e segui para o Canadá. A Consuelo me levou até ao aeroporto e depois de despachar a mala e pagar cash U$ 25,00 por isso, segui para os tramites de embarque. Desde o 11 de setembro que os procedimentos de embarque em aeroportos dentro dos Estados Unidos são bastante rigorosos. E pela primeira vez passei pela maquina de scaner corporal, que causou muita polemica quando passou a ser usada, pois ela praticamente permite que o pessoal da segurança veja a pessoa meio que nua. Notei que nem todos estavam passando pelo tal scaner, somente algumas filas é que passavam por ele. Passei tranquilamente por todos os processos de revista. E uma segurança ruiva e bonita ficou me olhando e quando fui liberado ela deu um sorriso para mim. Naquela hora deu vontade de ser detido por ela, que portava até algemas… rs!
Fui para o portão de embarque do meu vôo e não demorou muito até eu embarcar num A319 da United Airlines. O avião estava lotado e fui no fundão, na poltrona do meio e ao lado de dois americanos maiores que eu. Mais uma vez minha falta de sorte em viagens de avião ficou evidente. Foi bem desconfortável esse vôo, mas mesmo assim consegui dormir metade do tempo. Após duas horas e meia aterrisamos na cidade de Chicago. No meu caso que era conexão, fiquei na parte de embarque do aeroporto e não precisei retirar minha mala. O aeroporto de Chicago é enorme e muito bonito. Ele funciona como base de conexão para a United Airlines. Como fiquei pouco mais de duas horas parado ali, aproveitei para caminhar pelo aeroporto. Já estava começando a ficar cansado, quando finalmente foi anunciado o embarque para meu vôo rumo a Vancouver, no Canadá.
Dessa vez levei mais sorte, pois quando cheguei na minha poltrona vi que iria em companhia de duas garotas. Na hora lembrei daquele comercial da Pepsi, onde o cara entra no avião e a comissária fala que só tem lugar na poltrona do meio, entre duas loiras e pergunta para ele: Pode ser? Me sentei entre as duas e segurei para não rir, lembrando do tal comercial. Cheguei a conversar um pouco com elas, com meu inglês sofrível. Uma delas era canadense e a outra norte americana, do estado de Minesota. Logo após a decolagem o papo acabou, pois uma pegou um livro para ler, a outra foi ver uma série no note book e eu fiquei vendo um filme e ouvindo música no meu note book. Eu tinha pensado que minha falta de sorte em vôos tinha ido embora, pois estava sentado entre duas moças bonitas. Mas não demorou muito para eu perceber que estava enganado, pois descobri que a canadense tinha mau hálito e a norte americana estava cheirando suor, parecia que não tomava banho fazia uns dias. Se eu pudesse colocava algodão no nariz, mas como não podia o jeito foi me conformar com minha falta de sorte aérea e suportar bravamente às quatro horas de viagem até Vancouver.
O desembarque em Vancouver foi tranqüilo, fazia sol e a vista da cidade era muito bonita. Peguei minha mala e fui passar pela imigração. Tive que me virar no inglês e ocorreu tudo bem, foi muito fácil entrar no pais. O atendimento e a burocracia é bem diferente do que acontece nos Estados Unidos. Logo encontrei meu amigo Gilberto, que me esperava na área de desembarque. Do aeroporto fomos até sua casa e após deixar minhas coisas lá, saímos à rua.
Estava começando a escurecer e fomos até um bar, onde encontramos o Cristian, amigo do Gilberto. Nesse bar tinha algumas televisões e todas mostrando o jogo de hóquei no gelo, do time de Vancouver. Durante o jogo o Gilberto e o Cristian separaram ingressos para parte da temporada de hóquei no gelo, que está começando. Esse esporte é meio que uma paixão nacional, algo parecido com o futebol para nós brasileiros. Jantamos enquanto assistíamos ao jogo e os dois iam me explicando as regras. Até então eu só tinha visto hóquei no gelo em filmes e sempre achei que aquelas brigas que sempre aconteciam faziam parte do roteiro. Na verdade as brigas são permitidas, tem toda uma regra. Por exemplo, se um jogador chamar o outro pra briga ele tem que tirar suas luvas, e se o outro jogador também tirar as luvas significa que ele topou a briga. Daí os dois entram na porrada, e o juiz fica olhando para ver se não está acontecendo nenhum movimento ilegal por parte dos jogadores que passaram a ser lutadores. Resumindo, o jogo além de ter gol, também tem briga autorizada. Conforme ia ouvindo as explicações do Gilberto e do Cristian e ia vendo e entendo o jogo, fui ficando cada vez mais interessado. Acho que descobri um novo esporte para acompanhar e durante o tempo em que ficar pelo Canadá quero aprender sobre as regras e ver mais jogos de hóquei. Após o jogo fomos para casa e não demorei muito a ir para a cama, pois estava muito cansado. Esse dia tinha sido especial, pois estava conhecendo o Canadá, lugar que sempre tive vontade de conhecer. O Canadá é o oitavo pais que conheço (além do Brasil). E o fuso horário mudou novamente, agora estou quatro horas a menos em relação ao Brasil.
Nos Estados Unidos as placas de carro são bem interessantes. Diferente do que acontece no Brasil onde você vende o carro e a placa vai junto, nos Estados Unidos você vende o carro e fica com a placa. Você pode trocar de carro várias vezes na vida e sempre usar a mesma placa, ou seja, a placa está vinculada ao motorista e não ao carro. Outra coisa interessante são as placas em si, que são bem coloridas e diferentes nos vários estados. Geralmente nas placas está pintado algum símbolo que identifica o estado a qual ela pertence.
E mais um diferencial nas placas é que você pode pagar um pouco mais e ter uma placa exclusiva, que pode ter seu apelido, seu nome e etc, desde que respeite um número x de caracteres. E pagando um pouco mais você também pode ter uma placa que presta homenagem ao seu time de futebol ou a Universidade onde você estuda ou estudou. E também pode adquirir a placa de alguma ONG ou algum outro tipo de entidade e o valor que você paga a mais por usar essa placa diferenciada é remetido à entidade.
E existem outras pequenas diferenças também. Uma que achei interessante foi que no carro de deficientes físicos, por exemplo, na própria placa tem o desenho de uma cadeira de rodas indicando que o motorista é portador de alguma necessidade especial.
Placa do Estado da Florida.
Placa do Estado de Illinois.
Placa fazendo campanha para Obama em 2008.
Placa do Estado da Virginia, para deficientes físicos.
A International Drive é uma famosa avenida de Orlando, conhecida por ser ponto obrigatório de turistas que passam pela cidade. Ela é bem extensa e em seus arredores existem cerca de 100 hotéis e 150 restaurantes, além de muitas outras atrações e lojas.
O hotel Four Points, antigo Sheraton, local onde trabalhei no passado.
Nesses dias em Orlando aproveitei para fazer umas comprinhas. Não sou consumista, mas são tantas opções e preços bem mais em conta que no Brasil, que fica impossível não comprar nada. Sei que passei uma tarde inteira no Premium Outlets. Quando morava em Orlando esse outlet se chamava Belz e era bem menor. Fiquei impressionado com a mudança que houve e com a quantidade de lojas que agora existem. Praticamente todas as grandes marcas estão ali. Para quem é consumista aquilo ali é o paraíso das compras, uma verdadeira perdição. E o lugar está cheio de brasileiros, parece que o pessoal invadiu o local e compra tudo o que vê pela frente.
Aproveitei para visitar o Island Club, condomínio onde morei durante um ano entre novembro de 2002 e dezembro de 2003. Não pude entrar no condomínio, pois não conheço mais ninguém que mora lá. Mesmo assim foi bom rever o antigo lar, local que me traz boas lembranças.
Em Orlando estou hospedado na casa de minha amiga Consuelo. O condomínio é enorme e muito bonito. E possui uma boa academia e uma enorme piscina, lugares que acabei indo somente uma vez. É que fiz tantas coisas nos últimos dias que acabou não dando tempo de desfrutar melhor as opções que o condomínio oferece.
Na última sexta-feira estava entrando num Wal Mart, que fica perto de onde morei em Orlando entre 2002 e 2003. Logo ao entrar, do nada lembrei da Irene, que era dona do apartamento onde eu morei. E em seguida dei de cara com a própria Irene, que estava fazendo compras ali. Não sei quem se assustou mais, se ela ao me ver ou se eu ao vê-la justamente quando estava pensando nela. Conversamos um pouco e ela me convidou para no dia seguinte ir no aniversário do filho do Elói, que era nosso vizinho e com quem fiz uma boa amizade naquela época.
No sábado fui com a Irene na casa do Elói, que estava cheia do convidados para o aniversário. Tinha muitas crianças, quase todas americanas filhas de brasileiros. Foi bom reencontrar o Elói após muitos anos. Também acabei encontrando o Anderson, outro conhecido antigo. Tanto ele como o Elói são curitibanos. E fiquei conhecendo a Bianca, esposa do Elói e seus três filhos. Foi uma tarde agradável, onde provei o tradicional churrasco americano, feito com hamburger. O resto do dia fiquei conversando e depois fui ver o pessoal jogar futebol.
A noite acabei jantando na casa do Elói e conversamos bastante. Como ficou tarde, acabei indo dormir na sala da casa da Irene. Conversamos até bem tarde e tive que contar a ela detalhadamente o que fiz nos últimos anos, bem como tentar explicar uma certa burrada que fiz com alguém que ela conhece. Ela ficou inconformada com a história e me chamou de burro para cima. Essa é a Irene! Uma grande pessoa, de coração enorme e sinceridade também, que não exita em chamar de burro o amigo aqui. Mas ela tem razão sobre tal fato, que prefiro não detalhar. Mas é a vida… vivendo, fazendo burradas e tentando aprender com isso tudo.
Um monumento existente próximo ao Lago Eola e que acho muito interessante é o que presta homenagem a todos os soldados que morreram na Batalha de Bulge, que aconteceu na Bélgica durante a Segunda Guerra Mundial. Do monumento fazem parte a estátua de um soldado, onde na base existe uma placa de bronze e dos lados os escudos das diversas divisões das quais faziam parte os soldados mortos. Próximo existem mastros com bandeiras e numa calçada estão gravados os nomes de todos os norte americanos mortos nessa batalha.
PS: A série de TV “Band of Brothers”, produzida pela HBO, mostra essa batalha em um dos dez episódios da série.
No centro de Orlando fica o Lago Eola (Lake Eola). A cidade foi construída numa região pantanosa e cheia de lagos e o Eola pode ser considerado o principal, por ficar justamente no centro da cidade. No centro do lago existe um chafariz flutuante, que a noite com luzes especiais transforma a visão do lago muito bonita. Infelizmente nessa última visita que fiz ao lago o chafariz estava desligado, creio que para consertos.
Em volta do lago a paisagem é bonita e variada, onde entre outras coisas existem alguns monumentos e áreas de lazer. Também tem um anfiteatro para shows ao ar livre, que foi construído pela Disney e doado a cidade. E algo que acho interessante é um local destinado a casamentos ao ar livre, com um pulpito e bancos. É um costume norte americano fazer casamentos ao ar livre, se vê muito isso em filmes. Anos atrás, quando visitei o Lago Eola pela primeira vez estava acontecendo um casamento ali e fiquei de longe olhando, pois para mim era uma experiência nova e interessante.
Estive visitando o centro (downtown) de Orlando. A cidade é grande e bastante “esparramada”, mas o centro é relativamente pequeno. E diferente do restante da cidade que é cheia de turistas, o centro é pouco frequentado, pois não possui grandes atrações. Os turistas preferem frequentar os vários parques temáticos e os diversos restaurantes, lojas e shopping centers que existem por quase toda a cidade. Com certeza são poucos os brasileiros que já estiveram em Orlando e conheceram o simpático centro da cidade.
E o primeiro almoço nessa minha volta a Orlando, acabou sendo no Denny’s. Só não foi no mesmo Denny’s onde trabalhei, por que esse não existe mais. Mesmo assim foi bom comer a deliciosa e calórica comida do Denny’s. Desde que tinha ido embora de Orlando no final de 2003 que eu não comia panqueca doce. Se bem que na época que eu trabalhei no Denny’s eu tinha até enjoado das panquecas, não suportava mais o cheiro ou o sabor. Mas após quase oito anos voltei a gostar das panquecas. Minha única reclamação foi com relação aos copos da Coca-Cola, que antes eram de vidro, maiores e lisos. Agora são de plástico, o que achei meio sem graça. Lembro que no tempo em que trabalhei no Denny’s quebrei muito desses copos. Tenho um guardado em minha coleção de itens da Coca-Cola. Esse ganhei de presente, guardo com carinho e nunca usei, pois como sou desastrado com copos, melhor não arriscar… rs!
O voo entre Miami e Orlando foi tranquilo. O avião estava cheio de turistas, principalmente de brasileiros, e na aterrisagem o pessoal inclusive bateu palmas. O processo de desembarque foi meio lento, mas sem maiores problemas. Peguei o trenzinho até o local onde se retira as bagagens e em seguida fiquei numa espécie de praça que tem no aeroporto, esperando minha “velha” amiga Consuelo ir me buscar. Nos conhecemos há uns 17 anos, desde os tempos em que trabalhamos juntos na Stella Barros Turismo, em Curitiba. Em maio de 2002 quando vim a primeira vez aos Estados Unidos foi por incentivo dela, que me recebeu aqui e me mostrou como era a cidade e como muitas coisas funcionavam. Depois tive mais uma passagem por Orlando, onde acabei vivendo um ano por aqui entre novembro de 2002 e dezembro de 2003. E agora estou retornando, após quase oito anos ausente. A diferença da primeira vez em 2002 quando a Consuelo foi me buscar no aeroporto e agora, é que ela está casada e tem uma filha.
A Consul não demorou muito a chegar e logo estávamos circulando por uma das muitas estradas que cortam a cidade. Achei que o impacto seria igual das primeiras vezes, ou então igual quando se chega num pais estranho e você fica olhando para os lados e achando tudo diferente. Dessa vez nada disso aconteceu, foi até meio frustrante. A sensação era igual a que sinto quando fico um tempo longe de Campo Mourão ou de Curitiba e retorno. Aquele gostinho de novidade não existe mais. Mesmo assim foi bom estar de volta a Orlando, cidade de que gosto muito e que faz parte de minha história, pois durante o ano que vivi aqui tive muitas experiências interessantes e conheci muita gente. Alguns poucos amigos ainda vivem na cidade. Nos dias que passarei aqui vou aproveitar para rever lugares de que gostava e reencontrar amigos que aqui deixei. E também curtir um pouco da cidade e das coisas boas que ela proporciona.
Chegando a Orlando. Do alto da para ver alguns dos muitos lagos da cidade.
Pegando o trenzinho para ir até o terminal de bagagens.
Fazia um ano que estava planejando uma viagem mais “distante” e demorada. E por “n” motivos tive que adiar algumas vezes tal viagem. A princípio essa viagem era para ter sido com destino a Europa, mas em razão de problemas físicos que me impossibilitariam de fazer as principais coisas que gostaria de fazer na Europa, acabei mudando o destino da viagem e em vez de Europa segui para a América do Norte. Essa é minha terceira viagem para os Estados Unidos. E mais uma vez o destino principal é a cidade de Orlando, na Florida, onde morei durante um ano entre 2002 e 2003.
Após uma semana corrida onde tive muitas coisas para resolver, finalmente consegui arrumar minha mala, que não era muito grande. As despedidas até que foram tranquilas. As únicas exceções foram minha avó e minha mãe, que choraram um pouco. Não gosto de despedidas e com choro acaba sendo ainda pior, o astral fica lá embaixo. Uma despedida especial aconteceu na noite anterior a viagem. Apesar de ter sido rápida, foi bem interessante. Confesso que nessa despedida fiquei com vontade de ficar, de não viajar. Mas viajei, a vida segue e o futuro dirá o que acontecerá (ou não) quando eu voltar.
Meu irmão me levou até o aeroporto de Maringá . Na despedida nosso amigo Sidão também estava presente. Na hora do embarque os dois ficaram numa cerca próxima a pista do aeroporto, tirando fotos e me zoando de longe. Em Maringá o embarque é feito na pista, e embarquei bem próximo a cerca onde eles estavam. O motivo maior da zoação é melhor eu não contar aqui. Mas com certeza eles gostariam de estar no meu lugar na hora do embarque e não era em razão da viagem… rs! O voo até Curitiba, local da primeira escala, foi tranquilo. Teve apenas uma turbulência curta no meio da viagem, daquelas inesperadas e que acabam dando susto. Em Curitiba fiquei pouco mais de três horas no aeroporto, esperando o voo para São Paulo. Fiquei na Sala Vip da Itaucard, lendo jornal e comendo. Ao menos dessa forma as horas de espera foram agradáveis.
Embarquei no final da tarde rumo à Guarulhos. Outra viagem tranquila, onde o único contratempo foi ter que ficar vinte minutos dando voltas próximo ao aeroporto, pois o tráfego de aviões era grande naquele momento. E os “caras” ainda querem fazer Copa do Mundo e Olímpiada num pais com estrutura tosca igual a do Brasil. No aeroporto de Guarulhos dei uma última ajeitada na mala e na mochila, para ver se não tinha nada que me causasse problema com a segurança da American Airlines, que é bastante rígida. Mesmo chegando para fazer chekin com mais do que as duas horas exigidas, acabei quase perdendo o voo. A fila estava enorme e depois para passar pela revista e raio x, e também pela Polícia Federal, foi um caos. Filas enormes, poucos funcionários e políciais, estrutura medonha, pouco espaço físico. Nas filas você ouvia muito gente questionando como o Brasil vai conseguir comportar eventos esportivos grandiosos iguais Copa do Mundo e Olimpíada, se o maior aeroporto do pais não da conta da demanda de passageiros num dia normal. Até lá muita correria vai acontecer e muito dinheiro vai desaparecer, com certeza!
Embarquei atrasado, mas não fui o único. Teve mais gente que se atrasou por culpa das filas enormes. Isso fez com que o voo saísse com mais de uma hora de atraso. Essa foi a segunda vez que viajei pela American Airlines. O avião era um Boeing 777, enorme. Fui sentado bem no fundão, na penúltima poltrona e ao lado do banheiro. Fiquei no corredor da fila de quatro poltronas do meio. No avião embarcaram várias misses, que tinham participado do Concurso de Miss Universo, que aconteceu em São Paulo. Sempre achei que concurso de miss é uma furada, pois não são as mais bonitas que participam. E mais uma vez ficou comprovada minha teoria, pois já tive namoradas e ficantes mais bonitas do que algumas das misses que estavam no avião. E tinha uma miss de um pais asiático, que eu não ” pegava” de jeito nenhum… rs!!
Sempre dou azar em voos, seja com atrasos, turbulências, cancelamentos e com pessoas que sentam ao meu lado. Dessa vez mesmo com um avião cheio de misses, do meu lado fui um gordinho. O cara ocupava o assento dele, metade do assento do cara que estava a sua esquerda e metade do meu assento. Quando vi meu vizinho de viagem, imaginei que a viagem seria longa e torturante. E não foi diferente, pois teve bastante turbulência no início da viagem e no fundo chacoalha bem mais. Outro problema foi que toda hora as comissárias ficavam passando no corredor e esbarrando em mim, bem como o pessoal que ia ao banheiro. E para piorar, no dia anterior eu tinha retirado os pontos de um ferimento que fiz na cabeça. E no local dos pontos ficou uma pequena ferida que incomodava e o local da ferida era justamente onde a cabeça encostava na poltrona. Então dormir durante a viagem acabou sendo algo muito complicado. Pouco antes da meia noite foi servido o jantar, que talvez em razão da fome que eu estava, achei muito saboroso. Depois assisti três filmes para passar o tempo. Na metade do último acabei pegando no sono. Fui acordado umas duas horas depois, pelo meu vizinho de poltrona. Ele disse que estava precisando ir ao banheiro urgentemente e que tinha ficado mais de uma hora se segurando, pois não queria me acordar. Não reclamei, pois estávamos quase no final da viagem e os comissários estavam servindo o café da manhã.
Chegamos em Miami ainda estava escuro. O fuso horário com relação ao Brasil é de uma hora a menos. Daqui uns dias será de três horas a menos, pois vai acabar o horário de verão na Florida e começar o horário de verão no Brasil. O desembarque foi demorado e tranquilo. Depois fui fazer os trâmites de imigração. Algumas perguntas, várias respostas e me deram seis meses de permanência. Depois fui passar pela aduana e o cara que me atendeu implicou com minha mala, que era pequena. Respondi a ele que pretendia comprar muitas roupas e mais uma mala aqui nos Estados Unidos. Ele não se convenceu muito disso e me mandou para a fila do raio x, e revista especial. Bem que eu podia ter dito a ele que outro motivo da mala ser pequena é porque nos Estados Unidos as roupas não são secadas em varais, mas sim em secadoras. E como o algodão que utilizam na fabricação das roupas no Brasil é de péssima qualidade, as roupas encolhem quando são lavadas aqui nos Estados Unidos. As cuecas e meias então, após três lavagens e secagens ficam parecendo roupas de criança. Como não sabia se ele ia entender tal explicação, ou se ia achar que eu estava zoando com ele, achei melhor ficar quieto e seguir para a fila que ele me indicou.
Após passar pelo raio x, entregar minha mala para um funcionário da imigração e seguir para mais alguns trâmites, onde tive que tirar o tênis e a meia, além de responder mais um monte de perguntas, finalmente me liberaram e fui procurar o portão de embarque para o próximo e último voo. O aeroporto de Miami, bem como o de Orlando, meu destino final, são enormes. Tem até um pequeno trem que temos que utilizar para ir de um local a outro do aeroporto. Como era a terceira vez que eu estava no Aeroporto de Miami, não tive grandes problemas em encontrar meu portão de embarque. Estava amanhecendo o dia quando entrei no avião, para uma curta viagem até Orlando, distante 400 km dali. Quando o avião começou a se mover rumo ao ponto de decolagem lembrei de algo meio tolo, mas interessante. Dali meia hora eu estaria em Orlando, e seria a primeira vez na vida em que em menos de 24 horas eu teria estado nas três cidades onde já morei: Campo Mourão, Curitiba e Orlando.
Hoje está fazendo dez anos dos atentados terroristas de 11 de setembro. Tal data é marcante para os norte americanos e para o resto do mundo também, pois tal fato é um divisor histórico onde muita coisa que era de um jeito antes do 11 de setembro de 2001, passou a ser de outro jeito após essa data. Ser atacado dentro de seu território feriu muito o orgulho e o patriotismo norte americano. Diferente de nós brasileiros que somos patriotas somente de quatro em quatro anos, os norte americanos em sua maioria são patriotas diariamente.
Muita gente lembra o que estava fazendo em 11 de setembro de 2001. Eu particularmente lembro muito bem. Na época trabalhava numa agencia de turismo em Curitiba e de repente o telefone começou a tocar, gente dizendo para ligarmos a TV. E outras ligações eram para pedir informações sobre passageiros nossos que estavam viajando pelos Estados Unidos naquele dia. Parentes queriam saber número de vôos. Quando ficou claro que realmente era um atentado terrorista, telefonei para meu irmão e para a Talita, minha namorada na época, perguntando se estavam vendo a TV. Lembro de minha chefe olhando inconformada para a TV e dizendo que Nova York não seria mais a mesma sem o World Trade Center. Naquele dia não fui almoçar, fiquei vendo o noticiário. E a noite não fui para a faculdade, preferi ficar em frente à TV.
Nove meses após os atentados, fui pela primeira vez aos Estados Unidos. E nessa viagem deu para perceber que o 11 de setembro ainda estava fresco na memória dos norte americanos. Voltei outra vez aos Estados Unidos e em setembro de 2003 estive em Nova York, e visitei o local onde ficavam as torres gêmeas. Naquela época estavam escavando um buraco enorme para reconstruir o metrô. Muita gente estava visitando o lugar nesse dia e pude ver pessoas rezando e outras chorando.
Que os Estados Unidos são imperialistas e se preocupam mais com seu próprio umbigo, isso é fato. E acho que estão corretos, pois acredito que primeiro devemos pensar em nossa casa e no bem estar dos nossos, para depois pensar nos outros. Isso não é egoísmo, isso é ser racional. Tem muita gente que critica os norte americanos por isso. E no tempo em que lá morei, pude ver de perto que a maioria sabe pouco sobre o resto do mundo, mas sabe muito sobre o próprio pais. Melhor ser assim, do que saber sobre o resto do mundo e não saber quase nada da história de nossa própria cidade, o que é o caso da maioria dos brasileiros.
Durante a faculdade de história tive alguns professores anti-americanos, que diziam boicotar marcas norte americanas e nem Coca- Cola tomavam. O pior é que muitos alunos iam na onda, meio que achando que todo historiador tem que ser de esquerda. No meu caso que não sou de direita, esquerda ou centro, posso dizer que gosto dos Estados Unidos e da cultura americana. Para quem começou a ser alfabetizado com revistinha Disney, que gostava de Elvis Presley e amava filmes de faroeste, não tem como não gostar dos Estados Unidos e de sua cultura. Eles foram espertos e conquistaram o mundo com sua música, seus filmes, seu modo de vida. Então que os demais países (principalmente os de esquerda) tentem fazer o mesmo e que consigam ser tão competentes como os yankees foram nesse quesito.
E estou embarcando para mais uma viagem aos Estados Unidos, pouco depois do 11 de setembro. Vai ser meio “estranho” fazer um vôo interno pela American Airlines, que teve dois aviões destruídos nos ataques terroristas de dez anos atrás. Mas deixando o medo de lado, vou aproveitar ao maximo essa viagem e aproveitar para visitar mais uma vez Nova York e rever o local onde ficavam as torres cuja destruição marcou o mundo.
Ao fundo local onde ficava o World Trade Center. (setembro/2003)
Em frente o local onde ficava o World Trade Center. (setembro/2003)
Para aproveitar à tarde ensolarada de feriado, eu e o Luis César, meu “velho” amigo de pedaladas fomos dar uma volta de bike. Fazia dez meses que não pedalávamos juntos. A última vez tinha sido no feriado de finados. Depois disso andei viajando bastante e também fiquei um bom tempo machucado. Já o Luis César acabou sendo pai nesse período e trocou os passeios de bike por trocas de fraldas.
O passeio foi gostoso, pois mesmo com sol o dia estava com uma temperatura amena. Acabamos fazendo 25 km, tudo em asfalto. Quase no final do passeio presenciamos um acidente, onde um motoqueiro bêbado com uma garota na garupa resolveu descer na contramão de um viaduto e bateu de frente com um carro. Fui dar água para a garota que estava caída num gramado. Ao ver a perna dela com uma fratura quase exposta e com buracos saindo sangue, quase fui eu a precisar de água. Logo o Siate chegou e achamos melhor ir embora, pois ver sangue e pessoas machucadas não é algo de que gostamos.
Aproveitando o feriado em plena quarta-feira, fizemos um alegre churrasco com os “meninos” da Iline Informática. Além de comer muito, demos boas risadas lembrando de histórias engraçadas do passado e contando causos. E como parte do pessoal vai ter que trabalhar a tarde, o churrasco foi regado a Coca-Cola somente.
Como homenagem aos 189 anos de independência do Brasil, vou utilizar um pouco de meus dotes de historiador e contar a história de um quadro. Esse quadro é famoso e com certeza todos os brasileiros que estudaram um pouco de história na escola, viram a imagem desse quadro em alguma cartilha. Tive o privilégio de ver esse quadro ao vivo e a cores, e posso lhes garantir que ele é muito bonito. Mas como é normal na história passada e atual de nosso querido pais, nem tudo o que parece é realmente verdade. O nome desse quadro é “Independência ou Morte” e foi pintando por Pedro Américo.
Infelizmente a história é sempre contada pela visão dos vencedores e também ensinada de acordo com o contexto sócio-político de determinado local ou época. Isso faz com que desde a infância seja nos apresentada uma história que é reconhecida universalmente e que jamais pode ser discutida. Na história do Brasil é comum que heróis sejam esquecidos e que personagens inexpressivos sejam transformados em heróis. Que fatos sejam alterados ou inventados, de acordo com os interesses da ideologia dominante em certa época. Tudo isso para se tentar valorizar um regime de governo ou determinada orientação política vigente. Esse quadro do Pedro Américo é um exemplo clássico disso. A bela imagem que nos foi passada desde a infância, mostrando como foi o momento sublime da independência é na verdade uma imagem que foi retratada bem diferente da imagem real do 7 de setembro de 1822.
A independência do Brasil foi proclamada em 1822, mas Pedro Américo só terminou de pintar o quadro em 1888 em Florença, na Itália, onde ele vivia na época. Esse quadro foi encomendado pela Família Real, que desejava ressaltar a monarquia e seus heróis. O regime monárquico estava cambaleante e caiu em 15 de novembro de 1889, com a Proclamação da República. E como se tratava de um quadro encomendado, referente a um fato histórico ocorrido muitos anos antes e presenciado por poucos, Pedro Américo decidiu mudar um pouco a imagem do momento do grito de independência feito por Dom Pedro I. Tal momento foi “reconstruido”, passando uma imagem mais pomposa.
Entre as principais alterações feitas, o autor do quadro chegou a “desviar” o curso do riacho do Ipiranga, que a rigor estaria passando por trás de quem observasse a cena naquele local. Outra alteração feita é com relação ao tamanho da comitiva, que não tinha tantos membros igual o quadro retrata. As roupas também não eram iguais as que aparecem no quadro, todas roupas de gala. A comitiva de Dom Pedro I tinha subido a Serra do Mar, vinda de Santos e ninguém naquela época usava roupas de gala em viagens, pois elas eram quentes e cheias de enfeites. Na verdade todos deveriam estar usando trajes mais práticos e simples e possivelmente cheios de pó e barro da estrada, que naquela época era pouco mais que uma trilha no meio do mato. E o principal é que Dom Pedro I não estava montado num imponente cavalo. Naquela época para viagens longas e principalmente subindo uma serra, eram utilizados jumentos e mulas. E conta a lenda que Dom Pedro I estava com uma forte diarréia e que tinha parado naquele local às margens do riacho Ipiranga para dar uma “aliviada”.
Mesmo não retratando a “imagem” real do momento do grito da independência, o quadro de Pedro Américo possui um valor inestimável para a história brasileira. O quadro mede 7,60 x 4,15 metros. Pedro Américo se preocupou em estudar todos os detalhes do quadro, como roupas e armas utilizadas na época em que ocorreu o grito da independência. Para a produção deste quadro ele se dirigia freqüentemente ao bairro do Ipiranga, próximo ao riacho, para conhecer melhor a luz e a topografia do local, entre outros aspectos. Desde que foi pintado, esse quadro está no Museu do Ipiranga (atualmente chamado de Museu Paulista da USP), em São Paulo. Inclusvie quando da construção do Museu, Pedro Américo pediu que a parede onde ficaria o quadro fosse um pouco inclinada para possibilitar uma melhor visualização e sentido de dimensão de sua obra.
No local onde aconteceu o grito de independência em 1822, nos dias de hoje pouca coisa lembra como ele era na época. O riacho do Ipiranga é poluído e está quase esquecido em meio a avenidas e outras construções. Próximo a ele foi constuído o Monumento à Independência. Debaixo do monumento fica a cripta onde estão os restos mortais de Dom Pedro I, trazidos de Portugal em 1972. Ao lado dos restos mortais de Dom Pedro I, também estão os restos mortais de suas duas esposas, Leopoldina e Amélia. Os restos mortais de sua amante, a Marquesa de Santos, estão sepultados um pouco distantes dali, no cemitério da Consolação. O coração de Dom Pedro I está conservado e guardado como relíquia em um mausoléu na capela-mor da Igreja da Lapa, em Porto, Portugal.
Quadro: Independência ou Morte
Salão Nobre do Museu do Ipiranga.
Museu do Ipiranga.
Monumento à Independência.
Urna com os restos mortais de Dom Pedro I.
Local onde aconteceu o grito da independência, nos dias atuais.
Dessa vez não tinha nenhum galo para me acordar de madrugada, mas mesmo assim acabei acordando as 5h34mim. É que chegou uma mulher que ia preparar uma espécie de exposição sobre a cultura ucraniana. E o local onde a tal exposição seria montada era justamente a poucos metros de minha barraca. Com muito custo consegui voltar a dormir, até que pontualmente às 6h30min parecia que tinha uma banda de rock tocando no acampamento. Era o celular da Karina que despertou. Ela tinha esquecido o despertador do celular ligado e acabou acordando quase todos com a barulheira. Depois dessa desisti de tentar dormir e resolvi levantar. E aproveitei para fazer uma boa ação e acordar os que ainda estavam dormindo. Mas o pessoal é meio mal educado e mesmo eu fazendo uma boa ação em acordá-los, fui xingado por alguns. Né Valter? rs!!
Depois de desmontar a barraca e guardar tudo na mochila, aproveitei para dar uma volta pelo local. Pude então ver o sol nascendo e iluminando os trigais maduros, um belo espetáculo. Também pude ver a cidade de Ivaiporã, ao longe. Não imaginei que a cidade fosse tão “grande” como é, imaginava que fosse uma cidade bem pequena. O restante do pessoal levantou finalmente e também desmontou as barracas. Quando fui guardar minha mochila no carro tomei um susto, pois na mochila tinha uma aranha “gigante” grudada. Quando pensava no que fazer com a aranha, ela foi mais rápida e se “atirou” dentro do carro, indo parar debaixo do banco traseiro. Tentei encontrar a aranha e tirá-la de lá, mas não obtive êxito na “caçada”. Então deixei para resolver o problema depois.*
Logo uma Kombi veio nos buscar e nos levou até a Comunidade da Água da Laranjeira, onde seria o início da caminhada. Tinha bastante gente no local e muito mais gente chegando. Depois vim saber que próximo a mil pessoas estiveram participando da caminhada, que faz parte do projeto de Caminhadas na Natureza (http://www.andabrasil.com.br/). Fomos tomar café e encontramos mesa farta, com muitas opções saborosas. Normalmente não tomo café da manhã, mas em caminhadas procuro comer algo, pois o desgaste físico é grande e o almoço quase sempre atrasa. Ao sentar a mesa, em minha frente tinha um rapaz de barba que se mostrou muito simpático e que conversou um pouco conosco. Mais tarde fui saber que ele era o padre da comunidade. O pior é que ele não tinha “cara” de padre. Ainda bem que na frente dele não falei nenhum palavrão ou alguma outra bobagem. No café encontrei mais amigos de Maringá, que fazem parte do grupo do Jair.
Após o café todos se reuniram no pátio em frente à pequena e simpática igreja do local e após discursos do prefeito e de outras pessoas, o padre fez uma oração e uma personal trainer comandou o aquecimento. E pouco depois das 9h30mim começou a caminhada. Nosso pessoal ficou no final, pois costumamos ir devagar, curtindo o caminho, admirando as paisagens e tirando fotos. Nessas caminhadas tem muita gente que parece estar participando de uma corrida e quer chegar o quanto antes ao final, sem nem curtir o caminho.
Seguimos por uma estrada, e logo entramos em uma região de mata e ali encontramos um certo congestionamento. Percorremos a trilha pelo meio da mata, seguindo ao lado de um rio. Me chamou atenção à cor da água do rio, que era clara. Normalmente nessas regiões de terra vermelha a água é bem escura. Logo chegamos a um sítio, onde foi montado pelo proprietário uma espécie de circuito. Você passava entre outras coisas por uma fábrica de móveis, galinheiro, jardim, alambique e também por uma cozinha rústica onde fazem doces. Num fogão de barro estava sendo defumado carne de frango. Nesse sítio tinha um balanço onde muitos aproveitaram para brincar um pouco. Seguindo com a caminhada, subimos um morro no meio do mato e depois saímos em uma estrada, para depois seguir um tempo por um carreiro no meio de um trigal. Algum tempo depois chegamos à chácara da Nadir, o local onde tínhamos dormido. Ali estava montada uma espécie de exposição sobre a cultura ucraniana, que é bem forte na região. Tinha livros, discos, fotos e outros objetos. E também tinham alguns jovens vestidos com trajes típicos. O prefeito de Ivaiporã também estava ali, pois estava participando da caminhada e aproveitou a parada para tirar algumas fotos com o pessoal.
Seguimos nosso caminho e passámos a caminhar numa região com muitas plantações de trigo e quase nenhuma árvore. Logo chegamos num local onde um grupo de cavaleiros tinham armado uma espécie de acampamento e preparavam uma costela ao fogo de chão. Ali também tinha um touro com uma sela. Mesmo parecendo domesticado o touro dava medo. Acabei subindo no bicho para tirar fotos e levei uma “rabada” que arranhou meu lábio e só não me acertou o olho em razão de eu estar de óculos. A sensação em cima do touro não é das melhores, pois o bicho se mexe e da à impressão que a qualquer momento ele vai sair disparado, pulando igual nos rodeios. Como não tenho pretensão de me tornar caubói de rodeio, logo desci do bicho. A Karina e o Igor também subiram no touro para tirar fotos. Os demais preferiram descansar e tomar chimarrão numa mesa próxima.
Continuamos caminhando e chegamos num lago muito bonito, cercado de árvores. Não nos demoramos muito ali e voltamos a caminhar. Passamos por uma pequena mata, saímos numa estrada, depois voltamos a caminhar pelo meio da mata, para logo caminhar por uma trilha que ficava entre a mata e uma plantação de milho recém colhida. Então chegamos a uma fazenda e ali bebemos água, descansamos e alguns de nosso grupo aproveitaram para comer algo. Logo voltamos a caminhar e no final de uma subida passamos por uma placa que indicava que estávamos no quilômetro número dez. Faltavam mais dois quilômetros para o fim. Continuamos caminhando e o sol começou a castigar, fazia muito calor. Pelo caminho encontramos poucas pessoas. A maioria dos caminhantes já tinham chegado ao final da caminhada e deveriam estar almoçando. Os quilômetros finais foram sem muitos atrativos e então chegamos a Comunidade Pindauvinha.
Fomos direto para o barracão onde estava sendo servido o almoço. O cardápio era bem rural, com saladas, porco e frango. Comi bastante para recuperar as energias gastas e depois fiquei conversando com o pessoal. Pouco depois das 15h00 tiramos uma foto com todo nosso grupo e em seguida dois carros da Emater nos levaram até a chácara da Nadir, onde estavam nossos carros. Ali conversamos um pouco, alguns tomaram banho e em seguida nos despedimos e pegamos à estrada. Foi mais um final de semana gostoso, conhecendo lugares e pessoas, em contato direto com a natureza. Para quem gosta de programas assim não existe nada melhor. E que venham às próximas caminhadas!
* Na metade da viajem de volta, a Karina foi pegar o celular em sua bolsa que estava no banco de trás e soltou um grito ensurdecedor. Ela viu a aranha gigante no chão. Como a aranha não morreu de susto com o grito da Karina, ela tirou a sandália, criou coragem e acertou uma única e certeira “sandalhada” na pobre aranha, que nesse momento deve estar em paz no céu dos insetos. rs…
No último sábado fui para Ivaiporã, cidade distante 128 km aqui de Campo Mourão. Lá encontrei alguns amigos de Maringá e de Pitanga, pois iríamos acampar na chácara da Nadir, que fica bem perto da cidade. O ponto de encontro foi na Pizzaria Show, que pertence à família da Nadir e fica no centro da cidade. Encontrei o pessoal próximo às 21h00min e depois de um bom papo em uma mesa na calçada, entramos para jantar.
O cardápio foi pizza e Coca-Cola. Tinha uma pizza com cebola e pimentão que era uma delícia e foi a preferida da maioria do pessoal. Na mesa estavam eu e Karina; de Campo Mourão. Shudy, Celso e Valter; de Maringá. Igor, Hermes e João Paulo; de Pitanga. O local estava cheio e num canto uma dupla sertaneja cantava, animando o ambiente. Comemos, conversamos e demos boas risadas. Quase no final da noite “seguimos” a Nadir até sua chácara e lá montamos acampamento. Antes de dormir ainda rolou muita conversa. Eu não consigo dormir cedo e fui o último a ir para a cama, ou melhor, ir para a barraca. E antes de dormir fiquei um bom tempo num canto escuro vendo as estrelas.
Jantando na pizzaria.
Shudy, Igor, Hermes, João Paulo, Valter, Vander, Celso, Nadir e Karina.
As imagens abaixo “surrupiei” no Blog do GAT de Nova Tebas (Grupo de Apoio ao Turismo), coordenado pelo Marcos. São imagens do Enduro a Pé, do qual participei alguns dias atrás. O pessoal do GAT faz um trabalho bonito na região, explorando as belezas naturais do local, que são muitas. A cidade é pequena, sua economia é baseada na agricultura e pecuária, então explorar o turismo é uma forma de fomentar a economia da região. Meus parabéns ao Marcos e ao Wagner Lino pelo belo trabalho que fazem.
Ontem fui assistir ao show de Milionário & José Rico, na abertura da 17ª Festa do Carneiro ao Vinho, em Peabiru. Apesar do frio e do vento de congelar as orelhas, o show estava bom e tinha bastante público. Tenho um carinho especial por essa dupla, pois quando criança viajava muito com meu pai, que era caminhoneiro e no toca fitas do caminhão só “dava” Milionário & José Rico. Sei a letra de quase todas as músicas deles e muitas músicas me fazem lembrar momentos de minha infância e das viagens que fiz com meu pai, algumas que duravam semanas. Então o show de ontem foi uma verdadeira viagem ao passado e a cada música que eles cantavam vinha um tipo de flashback de momentos bons do passado.
No segundo dia do Enduro a Pé, acordei às sete da manhã e nem ouvi o galo cantar. O pessoal disse que ele andou cantando pelo acampamento, mas eu de tão cansado que estava dormi profundamente e nem o galo cantor conseguiu me acordar. Estava um pouco dolorido, com as canelas doendo e ao contrário do que imaginava minhas costas não incomodaram, o que era bom sinal. Nos aprontamos e logo iniciamos a caminhada do dia, que dessa vez começou ali mesmo no local do acampamento.
O dia prometia ser quente, pois logo cedo o sol estava castigando. O Alex nos acompanhou no início da manhã, seguindo a cavalo ao nosso lado. Andamos pouco tempo e paramos na casa do seu Zé Matogrosso para tomar café. Mais uma vez fomos bem recebidos e com mesa farta. Na saída tiramos uma foto com todo o grupo e os donos da casa e prosseguimos com nossa caminhada. Seguimos por uma estrada de terra e após atravessar uma porteira entramos num pasto onde tinham passado arado, o que dificultava nossa caminhada. Após atravessar o pasto chegamos a uma cerca de arame farpado, a primeiro do dia e o Alex não teve mais como seguir conosco, pois não tinha como atravessar a cerca. Dessa vez inovei e em vez de pular a cerca ou passar pelo meio dos arames, segui o exemplo do Celso e passei por debaixo da cerca.
Seguimos caminhando por um pasto, tomando cuidado com o gado, que deveria estar ali por perto. O local era no alto de um morro e a vista em volta era muito bonita, dava para enxergar bem longe. Logo vimos que o gado estava num local distante de onde passaríamos, o que nos deixou mais tranqüilos. Pena que nossa tranqüilidade não durou muito, pois logo vimos um touro solitário e com cara de poucos amigos, parado ao lado da trilha por onde teríamos que passar. Caminhamos próximos um do outro na esperança de que o touro se assustasse conosco. Era difícil saber quem estava com mais medo, se nós ou o touro. Eu olhei em volta e vi algumas árvores próximas e decidi que seria na direção delas que eu correria num eventual “ataque” do touro. Felizmente o touro não era muito corajoso e foi se afastando do caminho conforme fomos nos aproximando. Depois que saímos do pasto o Marcos comentou que segundo o GPS, nossa média anterior a passar pelo touro era de 2,5 km/h e que a média ao passar perto do touro subiu para 4,2 km/h. Ou seja, com a tensão provocada pela ameaça de um ataque por parte do touro, aumentamos nossa velocidade de caminhada sem nos dar conta.
Após atravessar a região de pasto, chegamos até um canavial. Ali demos uma parada e fomos chupar cana. Não demoramos muito e seguimos caminhando, até chegar numa fazenda, onde paramos para reabastecer nosso estoque de água. Fomos muito bem recebidos pelo dono da fazenda, que é conhecido do Marcos. O interessante desse local foi a quantidade de cachorros que existiam ali. Para o Thiago que tem “fobia” de cachorros, a parada na fazenda não foi nada agradável. Segundo o dono da fazenda ele tem quatorze cachorros e dois gatos, que convivem todos em harmonia. Não vi todos os cachorros, vi apenas uns oito, de diferentes espécies e tamanhos, bem como vi os dois gatos. Após termos descansado e com o estoque de água refeito, seguimos nosso caminho.
Passamos a caminhar por uma estrada de pedras irregulares, o que não é nada agradável, pois dói a sola dos pés. E também o movimento de carros era um pouco maior, o que demandava um pouco mais de cuidado de nossa parte. Atravessamos uma grande reserva de mata, um lugar muito bonito e chegamos a comunidade de São José do Paraíso. Não paramos na comunidade, seguimos em frente e logo deixamos a estrada de pedras para seguir por uma estrada de terra. Pouco depois paramos numa casa abandonada para colher poncãs. Então voltamos a caminhar e alguns minutos depois paramos numa encruzilhada para colher jabuticabas. Em seguida fomos em uma casa de outro conhecido do Marcos, mais uma vez para reabastecer nosso estoque de água. Em vez de água, os donos da casa nos convidaram para entrar e nos ofereceram biscoitos e suco de laranja, de goiaba e de limão. Era quase meio dia e os biscoitos com suco serviram para enganar o estômago, pois mais uma vez nosso almoço seria feito com atraso. Na saída tiramos uma foto com os donos da casa e seguimos nossa caminhada.
Logo voltamos a estrada de pedras e tivemos que enfrentar uma longa subida. Ali ficou claro que meu preparo físico não era dos melhores e praticamente me “arrastei” morro acima, com o sol quente castigando. Chegamos então ao distrito de Poema e ali fizemos uma parada num dos únicos bares da cidade. O pessoal aproveitou para tomar uma cerveja gelada e eu preferi não tomar nada, apenas descansar e recuperar o fôlego para encarar os quilômetros finais do enduro. Logo voltamos a caminhar e seguimos por uma estrada de terra por alguns quilômetros até finalmente chegarmos ao Morro dos Ventos, local onde almoçaríamos e onde encerraríamos o enduro.
Subir até o alto do morro foi o último esforço que fiz e confesso que não foi nada fácil. Eu já estava começando a sentir tonturas devido ao esforço extremo que fiz nas duas últimas horas. No alto do morro os pais do Wagner nos esperavam com o almoço (Vaca Atolada). A vista do alto é maravilhosa, dá para enxergar a dezenas de quilômetros. O Marcos informou que segundo o GPS, tínhamos percorrido 18 km nesse dia. Então encerrávamos o Enduro a Pé percorrendo 48 km em dois dias, o que é uma marca considerável. Particularmente fiquei muito feliz em ter vencido tal desafio, após quase dois meses machucado e sem poder fazer atividades físicas. E mais uma vez consegui superar meus limites físicos usando a força de vontade. E também contei com a ajuda dos amigos de enduro, que entenderam meus limites físicos e sempre procuraram me ajudar, principalmente quando era necessário atravessar cercas, pois eu tinha muita dificuldade para me abaixar. E vai um agradecimento especial ao Celso, que sem eu pedir me ajudou a montar e desmontar minha barraca no acampamento.
Após almoçarmos, cada um escolheu um canto do gramado e aproveitou para descansar. Utilizei um pedaço de tronco como travesseiro e tirei um gostoso cochilo. Passamos o resto da tarde ali no Morro dos Ventos, curtindo a paisagem, conversando e descansando. Tiramos a foto final com todos os participantes do enduro, e também com o seu José Lino e a dona Irani, pais do Wagner, e donos do morro onde estávamos. E o motorista do ônibus que foi nos buscar também saiu na foto. Vimos o pôr do sol, que lá do alto é muito bonito. Em seguida fomos de ônibus até o sítio do Alex, onde desmontamos nosso acampamento e voltamos para casa cansados, mas felizes e com muita vontade de retornar em 2012 para participar do próximo enduro.
Acordei com um galo cantando. Achei que era hora de levantar e quando olhei o relógio senti vontade de depenar o galo cantor. Eram pouco mais de cinco da manhã, e o jeito foi tentar voltar a dormir. Fazia um pouco de frio, a barraca estava aconchegante, “convidando” para dormir mais. Mas não deu muito certo, o galo era insistente e chato, continuou cantando sem parar. Ainda consegui dormir um pouco e depois de acordar várias vezes resolvi levantar. O restante do pessoal estava acordado, todos querendo depenar o galo.
Não demoramos muito para nos arrumar e deixando o acampamento montado, seguimos de carro até o centro de Nova Tebas. Lá pegamos um ônibus e viajamos alguns quilômetros até a comunidade de Volta Grande, onde seria o início do IIEnduro a Pé de Nova Tebas. Seriamos somente nove participantes. Em razão do roteiro difícil e quilometragem planejada para mais de 40 quilômetros de caminhada, somente alguns “corajosos” se habilitaram a participar. Eu não me considero um dos “corajosos”, mas sim o “inconseqüente” do grupo, pois em razão de ainda estar me recuperando de um problema nas costas, não deveria participar de algo que exige tanto esforço e preparo físico. Mas sou teimoso e inconseqüentemente responsável, sabedor de meus limites. Então tomaria todos os cuidados para não me machucar mais. Minha única preocupação era conseguir acompanhar o ritmo do restante do pessoal. Não queria ser um estorvo para eles.
Saímos de Volta Grande e logo atravessamos a estrada Campo Mourão/Guarapuava. Atravessando a estrada passamos a caminhar por uma estrada de terra em meio à mata e logo saímos numa região com pasto e muitas araucárias. O tempo estava nublado e meio frio, o que era bom para caminhar. Logo paramos no sitio do senhor José Dal Santo. Ali nos foi servido o café da manhã. Eu ainda estava empanturrado pela costela da noite anterior e não pretendia comer nada. Logo mudei de idéia quando vi a mesa farta. O café foi servido em uma mesa na varanda e o piso estava tão limpo que todos tiraram os calçados. Eu fiquei com preguiça de tirar minha bota e tomei o café ajoelhado ao lado da mesa. O pessoal comeu um monte, talvez prevendo que o almoço atrasaria muitooooo nesse dia. Logo após o café fomos até a Cachoeira São Roque, que ficava ali perto. Tivemos que descer um barranco enorme e úmido, mas sem grandes problemas. A visita valeu a pena, pois a cachoeira é muito bonita. Entrar na água nem pensar, a água estava muito gelada.
Saindo da cachoeira, seguimos nossa caminhada. Andamos um bom tempo ao lado de uma cerca de arame, próximo a um pasto. Depois tivemos que passar pela cerca. Essa foi a primeira de muitas cercas de arame farpado que teríamos que atravessar nesse dia. Caminhamos por um trigal e após atravessar nova cerca, pudemos ver ao longe uma pequena boiada sendo conduzida por alguns homens a cavalo. Então passamos a percorrer a antiga estrada que ligava Pitanga a Catuporanga. Logo encontramos o primeiro de muitos pés de laranja que fariam nossa alegria durante o dia. O restante da manhã caminhamos por estradas de terra, entre árvores e capinzais.
Passava um pouco do meio-dia quando chegamos a comunidade de Santa Clara. O Marcos, nosso guia, trabalha na Emater de Nova Tebas e conhece muita gente na região, o que facilitou muita coisa para nós. Em Santa Clara fomos nos abastecer de água em uma casa de pessoas que o Marcos conhece e a dona da casa nos “presenteou” com suco de laranja para levarmos no caminho. E tanto ela quanto o marido insistiram para almoçarmos com eles. Agradecemos o convite e seguimos nossa caminhada.
Passamos por outra região com muita mata preservada, tendo muitas árvores centenárias. O sol estava começando a castigar, e caminhar sob a sombra das árvores era algo muito bom. Infelizmente logo a mata acabou e tivemos que caminhar sob o sol quente, ao lado de plantações. Passamos em um local onde uma enorme árvore caída servia de “ponte” sobre um riacho. Pulamos uma cerca de arame farpado e fomos atravessar a tal árvore. Foi um exercício de equilíbrio muito divertido. Então surgiu um touro muito bravo do outro lado da árvore, dando urros muito fortes e assustadores. Acho que o touro era meio psicopata. Achamos melhor ficar longe dele e seguimos nosso caminho pela estrada.
No meio da tarde chegamos a Cachoeira Barreirinho. Mesmo com sol forte, a água estava fria e achei melhor não entrar nela. Outro que não entrou foi o Wagner Lino, que estava meio resfriado. O restante da galera foi todo pra água. Após uma hora de descanso na cachoeira, chegou a vez de seguir com a caminhada. Ainda não tínhamos almoçado e a fome começava a apertar. Tínhamos uma programação básica para seguir e horários que não precisavam ser seguidos a risca. Isso era bom, pois podíamos parar em lugares que achávamos mais interessantes. Por outro lado, isso acabava atrasando o horário das refeições, o que acabou não sendo problema, pois ninguém reclamou de ter passado fome ou de comer fora do horário.
Atravessamos mais um pasto, cuidando para manter as vacas distantes de nós. Entramos em uma estrada e seguimos por ela por um bom tempo, até pular mais uma cerca de arame e seguir pelo meio de um capinzal. Então chegamos a um pé de laranja carregado de laranjas muito doces. Como a fome começava a apertar, fizemos uma longa parada e chupamos todas a laranjas possíveis. Votamos a caminhar e passamos por outra estrada antiga que de tão abandonada foi tomada pela grama e pelo mato. Daí chegamos a um rio e a única forma de atravessá-lo foi entrando na água. Tiramos os calçados e com o Marcos nos guiando atravessamos o rio sem problemas ou quedas. Eu passei por uma situação digamos constrangedora. Escorreguei quando estava no meio do rio e foi uma perna para cada lado. Foi algo parecido com aquelas aberturas de perna que as bailarinas fazem. Confesso que foi uma experiência um pouco dolorida. Após atravessar o rio passamos por mais um pasto e logo chegamos ao Pesque Pague onde seria servido nosso almoço. O detalhe é que eram seis da tarde e o almoço estava mais é com cara de janta.
Fomos muito bem recebidos no Pesque Pague e o almoço além de farto, era muito saboroso. Todos estávamos famintos e comemos até não poder mais. Eu mal tinha me recuperado da janta da noite anterior e me entupi de comida novamente. E ainda teve sobremesa, que não sei como consegui arrumar espaço para ela em meu estômago. Descansamos um pouco e seguimos com nossa caminhada.
Já era noite e nos demos conta de que todos tinham deixado as lanternas nas barracas, no acampamento. Ninguém previu que poderíamos nos atrasar e termos que caminhar a noite. Por sorte a lua cheia estava nascendo e nem sentimos falta das lanternas. Foi uma experiência muito interessante caminhar a noite sob a luz da lua, sem lanterna alguma. Eu já tinha participado de caminhadas noturnas, mas sempre com lanternas. Sei que caminhamos por quase três horas iluminados pela lua cheia, até chegarmos a Nova Tebas. Entramos na cidade e caminhamos até o centro, onde sentamos em um gramado próximo a catedral da cidade e descansamos um pouco. Passava um pouco das 21h00min e pelo GPS tínhamos caminhado 30 quilômetros e alguns metros nesse dia. Tinha sido cansativo, mas muito prazeroso e todos estavam felizes por terem vencido o desafio do dia.
Fomos de carro até o sitio do Alex, onde tinham ficado nossas barracas. Eu estava quebrado e fui direto para minha barraca, onde me deitei e cochilei por alguns minutos. Depois fui tomar banho. O banho era a moda antiga, ou seja, água quente em um galão suspenso por uma corda, com uma torneira embaixo dele. Era um chuveiro adaptado, mas que resolveu muito bem a necessidade de um banho. Lembrei que a última vez que tinha tomado banho nesse estilo, foi há quase vinte anos em uma fazenda no interior do Paraguai.
Achei que ninguém ia querer jantar, pois tínhamos almoçado às seis da tarde e comemos muito. Mas o Alex e a Jaque prepararam uma alcatara assada e um arroz carreteiro que eram irresistíveis. Todos comemos e eu particularmente não sei como consegui comer tanto em menos de vinte quatro horas. Depois de jantar conversei um pouco com o pessoal e fui me deitar no gramado próximo a fogueira. Fiquei olhando a lua, as estrelas e pensando numa certa loira que naquele momento estava em uma festa em Londrina. Acabei adormecendo ali e após uns minutos acordei assustado e achei melhor ir dormir na barraca. Estava muito cansado, mas feliz por ter conseguido caminhar os 30 quilômetros sem sentir muitas dores. Logo peguei no sono, torcendo para que o galo tivesse ido “parar” na panela de alguém e não me acordasse muito cedo no dia seguinte.
Volta Grande, Cachoeira São Roque, Café da manhã, Santa Clara.
A arte de pular cerca.
Alguns momentos do Enduro a Pé.
Paisagens do caminho.
Cachoeira Barreirinho.
Alguns momentos do Enduro a Pé.
Laranjas e mais laranjas...
Atravessando o rio.
Almoço no final do dia e caminhada sob a lua cheia.
Na última sexta-feira fui para Nova Tebas (distante 84 km daqui de Campo Mourão), junto com meus amigos de Maringá: Celso, Valter e Vanderlei. A cidade de Nova Tebas é pequena, mas fica numa região de muitas montanhas, rios e cachoeiras. É uma região muito bonita, onde estive final do ano passado participando de uma caminhada. O acampamento foi um “aquecimento” para o Enduro a Pé que aconteceria no final de semana.
Acampamos na propriedade do Alex, que fica uns 4 km depois da cidade. O Alex e sua namorada Jaque, nos esperavam com uma deliciosa Costela ao Fogo de Chão. A costela estava tão boa que comi demais e quase passei mal. Também acamparam conosco o Marcos (Nova Tebas), Thiago (Poema), Igor e Hermes (Pitanga). Comemos ouvindo música caipira e batendo papo. A noite era de lua cheia e o céu estava muito claro e bonito. Na hora de dormir tive dificuldade para pegar no sono, culpa da barriga cheia… rs! Fiquei um bom tempo ouvindo a “orquestra” de grilos e sapos até que finalmente adormeci.
Desde a viagem ao Peru em janeiro último, que eu não dormia em barraca. E desde o Caminho de Peabiru do ano passado que eu não dormia na “minha” barraca. Foi bom voltar a dormir de barraca e dessa vez pude estrear novos acessórios para acampamento que melhoraram ainda mais o conforto da minha “velha” e querida barraca, companheira de muitas aventuras e de boas lembranças.
Acampamento (foto que o Marcos tirou de cima de uma árvore).
Hoje meu blog está completando três anos de existência. Esse último ano ele foi bem movimentado, tanto em conteúdo, quanto com relação a receber comentários e ser utilizado por outras pessoas como fonte de pesquisa e outras finalidades. Outro detalhe é que nesse último ano ele teve o dobro de acessos do que nos dois primeiros anos somados. Resumindo, a “brincadeira” que iniciei a três anos acabou se transformando em algo “maior” do que eu poderia imaginar ao fazer a primeira postagem. E o melhor que aconteceu nesses três anos foi a ajuda que pude dar a muitas pessoas e principalmente as muitas amizades que fiz. Tem pessoas que conheci graças ao blog e que hoje se tornaram grandes amigos, daqueles de conversar toda semana. Né dona Lilian? E teve gente que tinha “sumido” de minha vida fazia mais de dez anos e que graças ao blog “retornou”. Né dona Andrea C.?
E nesses três anos de existência, o blog serviu para eu compartilhar momentos bons e ruins. Desde ano passado que minha vida não tem sido nada fácil, que passei talvez pelos piores momentos de minha existência. E quando penso que a tempestade passou, logo descubro que ela não passou, que sofreu variações e continua testando o quando posso ser forte e persiste na busca de seguir em frente e tentar ser feliz. E nesse período o blog acabou servindo de auxilio, tanto como ferramenta de terapia onde eu posso exteriorizar meus sentimentos, como também para que amigos e estranhos dêem o apoio que eu preciso em certos momentos complicados. É interessante que algumas pessoas sabem se estou bem ou não, somente observando o conteúdo de alguma postagem que faço.
Nesses três anos pessoas entraram e saíram de minha vida. Pessoas nasceram e morreram. E pude contar muito desses momentos aqui. Momentos bons e ruins de minha vida nos últimos três anos estão registrados nas quase seiscentas postagens do blog. No futuro poderei reler tais postagens e relembrar de momentos de minha vida, de minha história, que independente de serem bons ou ruins serviram para me ensinar algo e me transformar numa pessoa melhor.
E o futuro do blog? Sinceramente não sei qual será o futuro dele, pois já faz alguns meses que venho pensando em encerrar, em parar com o blog. Confesso que já não tenho mais a mesma motivação do início e que talvez seja melhor encerrá-lo num momento em que ele está em “alta” do que deixá-lo ir morrendo aos poucos. Sei que até o final do ano vou mantê-lo ativo e daí decido o que fazer a partir de 2012.
E aproveito para dizer que diferente do que muita gente imagina, eu não posto aqui tudo o que faço ou o que penso. Isso não é um diário. Eu posto aqui somente aquilo que desejo compartilhar com outras pessoas, aquilo que desejo contar. Então meu muito obrigado as milhares de pessoas que tem “nos visitado” nestes três anos. Alguma sei que visitam o blog diariamente.
O domingo passei em Londrina, junto com uma galera bem divertida vendo a corrida de Fórmula Truck. Após tantos dias de chuva e frio, hoje o sol estava castigando e mesmo usando protetor solar e boné, meu nariz ficou vermelho igual um pimentão. A corrida em si foi o menos importante, tanto é que ao final da corrida nenhum de nós sabia quem tinha sido o vencedor. Isso era um detalhe insignificante, pois o que valeu mesmo foi o dia divertido e gostoso que passamos.
E o momento mais emocionante (e assustador do dia) foi na segunda volta da corrida, quando me posicionei ao lado do alambrado (onde o público não pode ficar) num local onde os caminhões fazem uma curva em alta velocidade. Coloquei o braço por um buraco do alambrado para tirar uma foto e um caminhão saiu da pista e passou na terra a menos de dois metros de mim, inclusive “me jogando” terra. Na hora pensei: morri… E o pior não foi o susto em si e a proximidade com o perigo. O pior foi que no susto acabei esquecendo de bater a foto (que seria digna de um prêmio… rs!). Depois dessa fui ficar perto dos amigos num lugar alto e seguro, comendo churrasco e tomando Coca-Cola, sem mais emoções fortes.
Largada...
Autódromo cheio.
Rasgando a reta...
Velozes e Furiosos.
Giovani, Renan, Vô, Tio Bala, Pity, Vandeco, Vander, Sid, Dudu e Pai Edson.
As pessoas complicam muito as coisas … Tá com saudades? Ligue. Quer encontrar? Convide. Quer compreensão? Explique-se. Tá com dúvidas? Pergunte. Não gostou? Fale. Gostou? Fale mais. Tá com vontade? Faça. Quer algo? Pedir é a melhor maneira de começar a merecer. Se o “não” você já tem, só corre o risco do “sim” … A vida é uma só!!!! Bora ser feliz… Gostei, copiei e postei aqui… Simples assim.
É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
Mencionei O Vampiro de Curitiba em uma postagem e vieram me pedir mais informações sobre ele. Esse vampiro curitibano é personagem de um livro de Dalton Trevisan. A primeira vez que vi algo sobre ele foi no início dos anos oitenta, em um anúncio sobre o livro, publicado em um gibi. Na época eu era uma criança interiorana que eventualmente ia a Curitiba visitar meus avós. E quando vi o livro no anúncio, imaginei que o tal vampiro era real, que em Curitiba realmente vivia um vampiro. E nas visitas seguintes à casa de meus avós evitava sair sozinho à noite, com medo do vampiro. Anos depois descobri que o tal vampiro não chupava sangue, e que seu vampirismo era a busca constante do prazer, de sexo. Li o livro pela primeira vez aos 15 anos e depois fiz mais duas releituras. Mesmo assim nos quase vinte anos que acabei vivendo em Curitiba, vez ou outra ao andar pela cidade ficava imaginando se o tal vampiro curitibano de minha infância era mesmo personagem de um livro, ou se ele teria uma versão real. Essa duvida persiste até hoje e prefiro deixar que ela permaneça assim.
Sobre o livro: O Vampiro de Curitiba foi publicado em 1965. O livro é a reunião de 15 contos que apresentam somente um fio condutor quanto aos aspectos temáticos, personagem, linguagem e estilo. Nelsinho é o protagonista dos contos. É o vampiro literário. Um curitibano que segue, persegue e assedia velhinhas, senhoras respeitáveis e carentes; virgens e prostitutas, agoniado e indeciso. Nelsinho é um caçador implacável e segue a presa até a exaustão; quase sempre é bem sucedido. O vampiro representa o apetite de viver o ato libidinoso, que renasce tão logo é saciado.
O autor do livro: Dalton Trevisan nasceu em Curitiba, no ano 1925. É reconhecido como um dos maiores mestres do conto. Entretanto esconde-se da fama: não dá entrevistas, não cede o telefone a ninguém, não recebe visitas e são raras as suas fotografias. É um sujeito arredio, solitário e misterioso.
Estive em Curitiba nas duas últimas semanas e entre outras coisas, aproveitei para fazer caminhadas noturnas pelo centro da cidade. Isso era algo que eu fazia muito quando morava em Curitiba, principalmente nos anos em que vivi no centro da cidade. Adorava sair andando sem rumo, indo de um canto a outro do centro, observando as pessoas e o movimento noturno. Sempre tomava o cuidado de não levar carteira, celular ou algum outro objeto de valor, pois costumava caminhar também por lugares perigosos do centro. Encantava-me observar os tipos noturnos da cidade, os boêmios, os bêbados, os drogados, os mendigos, as putas. Todos os personagens que vivem na noite curitibana, que circulam por suas ruas e igual ao Vampiro de Curitiba desaparecem ao nascer do dia.
Em minhas caminhadas noturnas sempre evitei o contato com as pessoas. Raramente era abordado por alguém, e quando isso acontecia preferia ficar em silêncio e seguir meu caminho. Sempre tive especial predileção por caminhar em noites frias, pois para mim a cidade tinha um aspecto diferente nessas noites, onde a quantidade de personagens noturnos é bem menor. Os ruídos da cidade, seu cheiro, o movimento de pessoas e carros, tudo é diferente durante a noite. É dessa Curitiba noturna e exótica que sinto saudades agora que vivo distante dela. Por isso que em minha recente visita a cidade, procurei fazer algumas caminhadas noturnas e reencontrar antigos lugares e personagens noturnos, bem como descobrir novos lugares e personagens. A cidade é mutante e mesmo que essa mutação ocorra num ritmo lento, quando se fica muito tempo ausente da cidade é mais fácil perceber tais mutações.
Iniciei essas caminhas noturnas no distante ano de 1993 e por muitas vezes me senti o próprio Vampiro de Dalton. Já outras vezes senti que estava sendo observado pelo Vampiro de Curitiba, escondido atrás de alguma janela da adormecida cidade.
Tenho um novo “brinquedo” para me divertir. Acabo de adquirir uma bike, que foi montada de acordo com meu biotipo e também para que eu não force muito minhas hérnias de disco. Fiquei um bom tempo procurando uma bike para comprar, que estivesse de acordo com o que eu precisava. Não encontrava uma bike que tivesse tudo o que eu queria, até que descobri que era possível montar uma. Ou seja, comprei tudo separado, de acordo com o que buscava e montei a bike. Saiu um pouco mais caro, mas ficou perfeita, sob medida. E ela ficou bem leve, por ser quase toda em aluminio pesa a metade do que minha bike anterior pesava. Isso faz muita diferença, principalmente quando está toda equipada. Agora não vejo a hora de coloca-lá na estrada e pedalar muito. O problema é que estou machucado e vai demorar algumas semanas até eu poder estrear o novo brinquedo.
No sábado a tarde estive mais uma vez na Gibicon e dessa vez aproveitei para pegar autógrafos do Fabio Civitelli e do Lucio Filippucci. Peguei mais para amigos do que para mim mesmo. E na fila de autógrafos conversei com muita gente e também encontrei mais amigos, como o Gervásio Freitas, Nilson Farinha, Sergio Starepravo, Ezequiel e sua esposa, Nei e sua filha.
Um fato que achei interessante foi que duas pessoas vieram conversar comigo, dizendo que tinham me reconhecido da internet. Um viu fotos minhas da Comix do ano passado, e outro viu a entrevista para o Blog do Tex. Estou ficando famoso… rs!
1) Com Nei e sua filha. 2) Com Nilson Farinha, Nei e Gervário Freitas. 3) Com Sergio, Valdivino e Gervásio Freitas. 4) Com Ezequiel e Valdivino.
Na sexta-feira a noite, na Gibicon, aconteceu a inauguração da Mostra “A Lenda de Tex”, com diversas ilustrações originais vindas da Itália, cedidas pela Editora Bonelli. A inauguração da Mostra contou com a presença dos consagrados desenhistas de Tex, Fabio Civitelli e Lucio Filippucci. A Mostra conta com diversas gravuras e releituras de Tex feitas por artistas de diversas nacionalidades. Na mesma noite, no mesmo local também foi inaugurada a Mostra “Tex Brasileiro“, uma exposição de releituras de Tex, feitas por autores de todo o Brasil, como Mike Deodato Jr, Odyr, Sama, Carlos Paul, Bira Dantas, Fulvio Pacheco, José Aguiar e outros.
Participei da inauguração da Mostra, onde entrei junto com os dois desenhistas italianos, com Julio Schneider (tradutor da Mythos Editora), Dorival Vitor Lopes (Editor da Mythos Editora), com os amigos Paulo Possebon, Valdivino e seu filho Jhon. A abertura da Mostra teve rápidos discursos e depois foi servido um coquetel. No meio da sala de exposição três músicos tocavam músicas do velho oeste e num canto era mostrado um vídeo com fotos do velho oeste e gravuras do Tex. Logo após a abertura do evento, o espaço reservado a Mostra foi aberto para o público, que compareceu em peso. O Valdivino adorou o coquetel, principalmente um salgadinho com uma pimenta em cima e que desceu ardendo goela abaixo… rs!
Fiquei um bom tempo andando pelo local da Mostra e observando as várias gravuras de Tex. Também aproveitei para conversar com algumas pessoas. Achei interessante três visitantes que estavam vestidos a caráter. Estes visitantes criaram personagens próprios, num misto de faroeste pós-moderno e pank. Ficou uma mistura bastante interessante.
Entrada da Mostra Tex. Filippucci e Vander. Filippucci assinando sua obra.
Na última sexta-feira estive no Memorial de Curitiba, onde acontecia à primeira Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba, a GIBICON número zero. Por esquecimento acabei perdendo a palestra sobre o Tex. Cheguei no momento em que acontecia uma sessão de autógrafos com dois desenhistas italianos de Tex: Fabio Civitelli e Lucio Filippucci. O Civitelli eu já conhecia da Comix do ano passado, em São Paulo. Achei interessante que ele ao me ver me reconheceu. Não lembrou do meu nome, mas se dirigiu a mim como o “viajante”. Não entrei na fila de autógrafos, pois tinha um compromisso importante logo em seguida. Fiquei circulando pelo local e aproveitei para falar com alguns amigos de outros encontros de quadrinhos. Entre esses amigos falei com o Felipe e sua esposa, com Julio Schneider, Dorival Vitor Lopes e Valdivino.
Hoje no final da noite fui dar uma olhada nas estatísticas do Blog, algo que eventualmente faço por curiosidade. E nessa verificação me supreendeu os 300 e poucos acessos num único dia, o que não é normal, pois a média diária de acessos varia de 100 até 160 acessos. Então fui verificar de onde vinham os acessos e descobri que a maior parte deles vinha do Twitter. Verificando as estatísticas do Blog desde sua criação, descobri que ele nunca antes tinha sido acessado via Twitter, ou seja, o Blog nunca tinha sido mencionado no Twitter. Tomado de curiosidade continuei investigando as estatísticas e descobri que hoje tinha sido publicado no Twitter de um fã clube e também no Twitter oficial de Maria Cecília & Rodolfo, o link da postagem sobre o show de ontem, que foi publicado no Blog hoje. Então foi essa a razão de tantos acessos via Twitter no dia de hoje. Fiquei contente com isso, de que o Blog está sendo cada vez mais visitado e divulgado em outras ferramentas da internet. E outro detalhe interessante foi que o pequeno vídeo do show que postei no Youtube e publiquei no blog, teve 122 acessos somente hoje.
O encerramento da Festa do Carneiro no Buraco, foi com o bom show de Maria Cecília & Rodolfo. Milagrosamente o show iniciou no horário, o que fez com que muita gente perdesse o início do show. Eu só consegui entrar no local do show quando a quinta música estava sendo cantada. O normal é sempre o início de shows atrasarem, por isso que muita gente foi pega de surpresa. De qualquer forma o show valeu a pena, o público estava animado e os grandes sucessos da dupla foram cantados. Na metade do show ocorreu falta de energia, e o show foi interrompido durante vinte minutos, para depois recomeçar ainda melhor.
Hoje a tarde estive no Parque de Exposições aqui de Campo Mourão, dando uma olhada na Festa do Carneiro no Buraco. O parque estava lotado, tinha muita gente. Na arena de rodeio nem dava pra entrar, pois estava abarrotada. Andei bastante pelo lugar, onde acabei encontrando alguns amigos e parentes.
Ontem em Curitiba, passei a tarde na Festa Julhina do Colégio Medianeira, meu antigo local de trabalho. A festa estava boa, com muita gente e bastante animada. Nos últimos anos eu ia à festa para trabalhar e nem aproveitava. Já dessa vez aproveitei bastante e também revi amigos. E o mais gostoso foi ouvir de muitas pessoas que trabalham lá (não só de amigos) que eu faço falta, que no meu tempo as coisas funcionavam melhor, que eu deveria voltar. Isso para o ego é muito bom e me deixou feliz, com uma sensação de missão cumprida.
Começa hoje aqui em Campo Mourão a 21ª Festa Nacional do Carneiro no Buraco. Particularmente não curto muito essa festa, pois não como carne de carneiro. Se fosse algum outro tipo de festa gastronômica, eu curtiria bem mais. De qualquer forma trata-se de um grandioso evento que movimenta a cidade. Para saber mais sobre a festa acesse: http://www.carneironoburaco.com.br/novo/
Como surgiu o prato típico de Campo Mourão: A iguaria foi criada em 1962 (durante o período de disputa da Copa do Mundo no Chile) por três pioneiros da cidade, depois de assistirem a um filme em que vaqueiros preparavam alimentos sobre brasas, dentro de um buraco cavado no chão. Ênio Queiroz, Joaquim Teodoro de Oliveira e Saul Ferreira Caldas – todos já falecidos – resolveram experimentar o peculiar sistema, mas as primeiras tentativas foram frustradas. Ora os ingredientes não ficavam cozidos, ora era impossível consumir por estar impregnado pela fumaça. Também não foi fácil acertar a melhor combinação entre legumes, tubérculos, condimentos, carne e até fruta. Mas valeu a curiosidade e persistência. No início servido esporadicamente apenas em festas de amigos, o prato foi ganhando fama e na década de 80 passou a ser servido também quando autoridades visitavam a cidade. Um movimento encabeçado pela confraria da Boca Maldita local levou a oficialização da iguaria como prato típico do Município em 1990, na gestão do prefeito Augustinho Vecchi durante a ocupação interina do cargo por Elmo Linhares. A 1ª Festa do Carneiro no Buraco foi realizada já no ano seguinte. Na primeira festa foram servidos 70 tachos, para cerca de 4.200 pessoas. Atualmente são 140 tachos para nove mil pessoas. Em 2003 por iniciativa da administração municipal foi transformadaem Festa Nacional. Oevento, que acontece sempre em meados de julho, acabou transformando o prato típico em verdadeiro símbolo de Campo Mourão, divulgando o Município em todo o Brasil em outros países.
O preparo da Iguaria: O prato típico de Campo Mourão é cozido em um buraco de 1,50 metrosde profundidade e abertura de 1,05 metros, com dois metros cúbicos de lenha seca e um tacho de 30 polegadas, com tampa metálica. Os ingredientes do tempero são batidos no liquidificador, a carne cortada em pedaços pequenos, a qual deve permanecer por três horas na vinha. No tacho untado, a primeira camada é sempre de chuchu e abobrinha. Em seguida, alternam-se as camadas de carne e legumes. No final, colocam-se por cima os tomates, as cebolas e maçãs, inteiros. O restante do tempero que sobrou da vinha é despejado no tacho por cima de todos os legumes. Após a queima de dois metros de lenha no buraco, por um período de seis horas, é descido o tacho, que fica sobre as brasas e coberto com uma tampa metálica e vedado com terra. Ganchos especiais são usados na colocação e retirada do tacho. Após seis horas, a iguaria está pronta. O pirão é preparado com caldo retirado do tacho e farinha de mandioca torrada, além de cheiro verde e pimenta a gosto. O Carneiro no Buraco é servido acompanhado ainda de arroz branco e salada de almeirão. Pode ser acompanhado de vinho, cerveja ou refrigerante. Um tacho dá para cerca de 60 pessoas. Tempo de preparação: aproximadamente 12 horas.
Fonte: Clube da Panela – responsável pela Cozinha Única “Tony Nishimori”.
Na noite de sábado dois rituais marcam ainda a Festa Nacional do Carneiro no Buraco. O primeiro é espetáculo “O Guardião do Fogo”, realizado na Arena do Parque de Exposições pela Fundação Cultural do Municipio a partir de recursos cênicos. No local é apresentada a história da criação do prato típico, desde a descoberta do fogo, até aspectos da recente colonização do Município, e finalmente a implantação do prato típico. Na mesma noite acontece o Ritual do Fogo, com o acendimento dos buracos, às 23h. Durante o ritual, autoridades, atiradores do Tiro de Guerra, entidades e patrocinadores conduzem o fogo com o qual serão acesos os buracos. O cortejo segue em caminhada pelo Parque até o Buraco nº 1, e depois ao Pavilhão dos Buracos e lá solenemente as autoridades fazem o acendimento num clima de magia e rara beleza. No domingo é realizado Ritual de Retirada dos Tachos, o mesmo cortejo se repete com a abertura do tacho nº 01 que marca o início do almoço com o delicioso Prato Típico Carneiro no Buraco.
Recentemente estive no aniversário do meu amigo Kayo, que aconteceu na Confraria do Café, em Cianorte. Foi uma noite muito gostosa, uma festa bastante animada onde estavam reunidos amigos e familiares do Kayo. Desejo muita felicidade e vida longa ao Kayo, pois ele merece.
Semana passada fui à festa junina da Ghor, a academia que freqüento. Foi um programa bem divertido, onde comi bastante e bati papo com alguns conhecidos.
A maluca da minha amiga Fabiola disse que sou perigoso, que tem medo de mim. E para completar disse que minha música era “Só os Loucos Sabem”, do Charlie Brown Jr. Não entendi bem porque ela me acha meio louco, mas ultimamente não ando entendendo muito a mim mesmo e nem aos outros. Então segue a letra e o vídeo da música que minha amiga campineira dedicou a mim e tire você suas próprias conclusões sobre o que ela quis dizer.
Só Os Loucos Sabem
Agora eu sei exatamente o que fazer Vou recomeçar, poder contar com você Pois eu me lembro de tudo irmão, eu estava lá também Um homem quando está em paz não quer guerra com ninguém Eu segurei minhas lágrimas, pois não queria demonstrar a emoção Já que estava ali só pra observar e aprender um pouco mais sobre a percepção Eles dizem que é impossível encontrar o amor sem perder a razão Mas pra quem tem pensamento forte o impossível é só questão de opinião
E disso os loucos sabem Só os loucos sabem Disso os loucos sabem Só os loucos sabem
Toda positividade eu desejo a você pois precisamos disso nos dias de luta O medo cega os nossos sonhos O medo cega os nossos sonhos Mina linda, eu quero morar na sua rua
Você deixou saudade Você deixou saudade Quero te ver outra vez Quero te ver outra vez Você deixou saudade
Agora eu sei exatamente o que fazer Vou recomeçar, poder contar com você Pois eu me lembro de tudo irmão, eu estava lá também Um homem quando esta em paz não quer guerra com ninguém.
A melhor forma de esquecer
É dar tempo ao tempo
A melhor forma de curar o vício
É no início
A melhor forma de escolher
É provar o gosto
A melhor forma de chorar
É cobrindo o rosto
Evitar as rugas
É não olhar no espelho
Esvaziar o revólver
É puxar o gatilho
A melhor forma de esconder as lágrimas
É na escuridão
A melhor forma de enxergar no escuro
É com as mãos
As idéias estão no chão
Você tropeça e acha a solução
Acabar com a dor
É tomar um analgésico
Matar a saudade
É não olhar pra trás
A melhor forma de manter-se jovem
É esconder a idade
A melhor forma de fugir
É a toda velocidade
As idéias estão no chão
Você tropeça e acha a solução
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.
1 Coríntios 13
Gostei desse texto bíblico desde a primeira vez que o li há muitos anos atrás. E por um bom tempo achei que o compreendia. Mas estava enganado, pois ele não é de fácil compreensão. Para entender bem esse texto, você precisa viver certas coisas sobre as quais ele fala. Hoje posso dizer que entendo melhor esse texto, pois consigo aceitar certas coisas que antes para mim eram impossíveis de aceitar. Hoje consigo aceitar tais coisas, pois finalmente entendi que amar significa querer o bem da pessoa que amamos, mesmo que tal pessoa não fique ao nosso lado, mesmo que seja preciso abrir mão dessa pessoa para que ela seja feliz. Não é um exercício fácil de realizar, é bastante triste e dolorido, mas se amamos precisamos deixar que a pessoa amada siga o caminho que ela escolheu e não insistir mais, não forçar certas situações. Apenas precisamos deixar a pessoa amada seguir o caminho dela e suportar a dor que isso possa nos causar, e ao mesmo tempo nos sentirmos felizes pela pessoa amada estar buscando o que ela quer.
Bons tempos em que eu colecionava figurinhas do Zequinha. Isso tem mais de trinta anos. Primeiro foi esse álbum da imagem, com as profissões e outras coisas mais. Isso foi em 1980. Como fez sucesso, em 1981 saiu o álbum com fotos e desenhos de cidades e outras coisas importantes do Paraná. Ainda tenho guardado dois álbuns completos, um de cada, que ficaram como recordação daquele tempo gostoso que não volta mais.
Meu pai está fora de casa faz duas semanas. Ele foi para Guarantã, no Mato Grosso, pescar com uns irmãos e um sobrinho dele. Ele que gosta de peixe e de pescaria, deve estar se divertindo muito. Eu não gosto de nenhuma das duas coisas, não curto pesca e não como peixe. Com certeza meu “velho” vai voltar com muitas histórias de pescador para contar.
Hoje à tarde saí dar um volta a pé por Goiânia, para conhecer um pouco da cidade. E passando por um hotel próximo ao hotel onde estou hospedado, vi que estava saindo o ônibus da Seleção Brasileira de Futebol. A Seleção Brasileira está na cidade para jogar um amistoso contra a Holanda, no próximo sábado. Fiquei uns minutos olhando o embarque dos jogadores, mas tinha um certo tumulto que resolvi ir embora logo.
Agora à noite vendo na TV Globo local, reportagens sobre o dia da seleção, acabei vendo que apareci em algumas cenas do embarque. Achei isso curioso, pois nem percebi que tinha sido filmado.
Estou passando uns dias em Goiânia. Essa é a décima segunda capital brasileira que fico conhecendo. Já estive em Goiás antes, mas foi no interior do Estado e já fazem 10 anos isso. Achei Goiânia uma cidade interessante. É grande, movimentada, relativamente limpa, e com muita mulher bonita.
Estava vendo na internet uma entrevista do Lobão, para o Programa do Jô. O Lobão mencionou uma Playmate pela qual foi apaixonado na infância. Então por curiosidade fui procurar no Google quem foi a Playmate do mês e ano que nasci. E encontrei! A Playmate de abril de 1970, chama-se Barbara Hillary, uma loira farta e não muito bela.
Para quem não sabe, a Playmate é a modelo que tem sua foto publicada num pôster central, na edição mensal da Playboy norte americana. Muitas dessas modelos ficaram famosas após terem sido Playmate. No caso da Playmate do mês do meu nascimento, descobri apenas que ela virou enfermeira e se estiver viva é uma avó de 62 anos.
Em razão de problemas técnicos, ainda não tinha publicado aqui no blog o vídeo da viagem pelo Caminho da Fé. Agora que os problemas técnicos foram resolvidos, segue o vídeo. E ouça com o som ligado, senão fica sem graça.
Um grupo de religiosos norte americanos está prevendo o final do mundo para hoje. Segundo a rede “Family Radio”, o Apocalipse bíblico vai ocorrer neste sábado, com a volta de Jesus Cristo e o arrebatamento previsto na Bíblia. Essa previsão é do pastor Harold Camping, de 89 anos. Ele diz ter buscado na Bíblia muitas provas de que a volta de Jesus ocorrerá neste sábado, exatamente 7 mil anos depois de Deus ter salvo Noé do Dilúvio.
Não estou nem um pouco preocupado com isso. No fundo até seria bom que o fim do mundo fosse mesmo hoje, e tudo acabasse. Esse nosso mundo está uma droga, com muita injustiça, guerras, destruição da natureza, maldades e muito mais. E como meu humor hoje não está dos melhores, até preferia que hoje tudo acabasse, que Jesus voltasse e colocasse ordem na casa. Se bem que acredito ter poucas chances de alcançar o paraíso no caso do arrebatamento ocorrer hoje. De qualquer forma ficarei em casa esperando pra ver se o fim do mundo é hoje. Se não for vou dormir e esperar que amanhã meu humor tenha melhorado.
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca pois metade de mim é o que eu grito mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante porque metade de mim é partida mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento porque metade de mim é o que ouço mas a outra metade é o que calo
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada porque metade de mim é o que penso e a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que me lembro ter dado na infância porque metade de mim é a lembrança do que fui e a outra metade não sei
Que não seja preciso mais que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito e que o teu silêncio me fale cada vez mais porque metade de mim é abrigo mas a outra metade é cansaço
Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer porque metade de mim é platéia e a outra metade é a canção
E que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade também.
Acabo de assistir na TV um documentário de 2007, sobre o livro/filme Na Natureza Selvagem (Into The Wild). Para quem acompanha o blog há mais tempo, deve ter visto outras postagens relacionadas a essa história, que postei aqui. Sou um fã confesso de tal história e posso dizer que fui inspirado por ela. Desde que li o livro e depois assisti ao filme, fiquei fascinado por tal história. E no período em que andava meio perdido na vida, voltar a essa história, reler o livro e me aprofundar mais na vida de Christopher McCandless, me fez encontrar motivação e forças para dar a volta por cima.
Voltando ao documentário que assisti, ele une o ator/diretor Sean Peen e o escritor Jon Krakauer. O Sean Peen foi quem dirigiu o filme, baseado no livro escrito por Krakauer, que pesquisou a fundo a história de McCandless, seguiu seus últimos passos. No documentário Sean Penn e John Krakauer refazem juntos o caminho percorrido por Christopher McCandless até o Alasca, onde morreu. Durante a viagem os dois trocam impressões sobre a vida, carreira e arte, além de expressarem suas opiniões pessoais sobre McCandless.
Sinopse de Into The Wild: Em 1990, com 22 anos, Christopher McCandless ao terminar a faculdade, doa todo o seu dinheiro a uma instituição de caridade, muda de identidade e parte em busca de uma experiência genuína que transcendesse o materialismo do quotidiano. Abandona, assim, a próspera casa paterna sem que ninguém saiba e mete-se à estrada. Anda por uma boa parte da América (chegando mesmo ao México) de carona, a pé, ou até de canoa, arranjando empregos temporários sempre que o dinheiro faltasse pois, Chris acaba de abandonar o seu carro e queimar todo o dinheiro que levava consigo para se sentir mais livre, mas nunca se fixando muito tempo no mesmo local. Desconfiado das relações humanas e influenciado pelas suas leituras, que incluíam Tolstoi e Thoreau, ansiava por chegar ao Alasca, onde poderia estar longe do homem e em comunhão com a natureza selvagem e pura. O que lhe acontece durante este percurso transforma o jovem num símbolo de resistência para inúmeras pessoas.
Livro Into The Wild
Jon Krakauer e Sean Peen.
Sean Peen e Jon Krakauer em frente ao famoso ônibus.
Na última quinta-feira teve show em Cianorte, com Victor & Leo. O público era grande e o show foi muito bom. Cantaram algumas músicas novas que nunca ouvi antes e também muitos dos grandes sucessos da dupla.
Ontem não deu para o Corinthians e perdemos o Campeonato Paulista para o Santos. Futebol é assim mesmo, um dia ganhamos e noutro perdemos, então nada de se lamentar. Eu particularmente gosto de futebol, de acompanhar pela TV, mas não sou e nunca fui fanático. Para mim tanto a alegria da vitória, quanto a tristeza da derrota desaparecem após meia hora. Tenho assuntos e problemas mais importantes para resolver, então não da para ficar muito tempo me preocupando com futebol. Acho tristes aqueles que são fanáticos, que exageram, matam e morrem por causa de uma partida de futebol, a troco de nada.
Gosto de brincar, zoar com os amigos torcedores de outros times, quando somos os vencedores. E quando somos os perdedores aceito numa boa as brincadeiras. Hoje na academia um professor que é corinthiano colocou o hino do Corinthians para tocar. Ele, eu e mais dois torcedores ficamos em sentido com a mão sobre o coração. Foi vaia para todo lado, principalmente por parte da mulherada. Foi divertido, sinal de que levamos numa boa o momento de derrota e que continuamos mais corinthianos do que nunca.
Quando li a sinopse de 127 HORAS, no final de fevereiro, não fiquei nem um pouco interessado em assistir tal filme. Mas depois que duas pessoas falaram que lembraram de mim assistindo ao filme, que tinham visto certas semelhanças de personalidade e de gosto por aventuras entre eu e o personagem do filme, acabei ficando curioso e assisti ao filme. O filme é mediano, foi baseado em fatos reais.
Confesso que também vi semelhanças entre eu e o personagem do filme. Poucas semelhanças, mas vi algumas. Também já me meti em algumas “frias” durante minhas aventuras, e felizmente sempre saí ileso – ou um pouco ralado – bem diferente do cara do filme que saiu sem parte do braço. O maior erro do cara da história foi não ter avisado ninguém sobre o local aonde ia. Já fiz isso muitas vezes, de sair por aí sem avisar ninguém. E outras vezes quando avisava alguém, dizia que ia para um lugar e na metade do caminho mudava os planos e ia para outro canto. Depois de ter visto o filme, com certeza tomarei mais cuidado com relação a isso.
Essa semana dei uma folheada no livro que deu origem ao filme. Tem umas fotos bem interessantes e como de costume parece que o livro é mais completo que o filme. Vou colocar o livro na lista de livros a serem adquiridos no futuro.
Sinopse do filme: O filme 127 HORAS conta a história real do alpinista Aron Ralston, que após sofrer uma queda em um desfiladeiro isolado no estado de Utah (EUA), fica preso e sozinho durante cinco dias. Durante esses dias, o montanhistacomeça a fazer uma retrospectiva da sua vida, revivendo todos os fatos que aconteceram antes da sua viagem, relembrando amigos, amantes e família. Ralston examina toda a sua vida e cria coragem para sobreviver aos elementos que dificultam a sua recuperação e a volta para um local seguro. Aron fica preso com uma rocha sobre o seu braço, depois de muitas horas sentindo dor e sem ninguém por perto para ajudá-lo, ele decide amputar o membro superior com um canivete que levava consigo. O alpinista descobre assim que tem forças e os recursos necessários para se libertar por qualquer meio necessário, escalar uma parede com 200 metros e caminhar mais de12 km antes de conseguir ser salvo.
Essa semana estive viajando pelo Mato Grosso do Sul. Conhecia pouca coisa desse estado e dessa vez pude conhecer melhor a região. Passei por cidades importantes: Dourados, Naviraí e Campo Grande, que é a décima primeira capital brasileira que venho a conhecer. Fiquei três dias em Campo Grande, onde fiz alguns passeios e visitei uma tia que mora a mais de trinta anos na cidade. A cidade é até bonita, limpa, mas perde em termos de atrativos para cidades aqui do interior do Paraná, como Maringá e Londrina. Mesmo sendo uma capital de estado, o centro da cidade não possui nada interessante e de um modo geral a cidade não tem pontos turísticos marcantes. Mesmo assim valeu o passeio.
No sábado dia 16/04, aconteceu a 2ª PEREGRINAÇÃO NA ROTA SIMBÓLICA E TURÍSTICA DOS CAMINHOS DE PEABIRU NA COMCAM. Dessa vez foi uma caminhada de apenas um dia, onde percorremos cerca de dezesseis quilômetros a pé e mais alguns quilômetros de ônibus. Passamos por um trecho já conhecido, o mesmo que foi percorrido em outubro último. Saímos da periferia de Campo Mourão, almoçamos na Comunidade do Barreiro das Frutas e de lá fomos de ônibus até a Comunidade Boa Esperança. Então caminhamos até a cachoeira do Boi Cotó.
Quase que não participo dessa peregrinação, pois estava gripado e com fortes dores em minhas costas e perna, por culpa da hérnia de disco. Mas como participei de forma consecutiva das últimas cinco peregrinações, fiz um esforço para participar dessa. Encontrei o pessoal logo cedo, na Associação da Coopermibra, que fica perto de casa. Reencontrei muitos amigos de outras peregrinações, o que é sempre agradável. Também tinha um pessoal novo, do curso de Turismo da Fecilcam.
A caminhada iniciou na frente da Associação do Coopermibra e seguimos por estrada de terra, passando ao lado de uma mata e por terra recém arada. Depois andamos pela margem de uma estrada asfaltada, no Anel Viário da cidade, local por onde costumo andar de bike. Saindo da margem da estrada seguimos mais alguns quilômetros por uma estrada de chão, até chegar a Comunidade do Barreiro das Frutas, onde seria servido o almoço. Para mim não foi muito fácil caminhar, pois o mal estar provocado pela gripe me deixou muito cansado. Antes do almoço teve uma palestra com um casal de índios guarani: Mbei Mbei Tupã e Jaxy. Os temas da palestra eram TERRITORIALIDADES INDÍGENA GUARANI e EDUCAÇÃO INDÍGENA. Eu estava tão mal que abdiquei das palestras, e fiquei deitado atrás do pessoal que estava sentado prestando atenção nos palestrantes. Sei que dormi tão profundamente que cheguei a sonhar e depois me contaram que ronquei. Sei que não foi legal ter dormido, que perdi uma boa palestra, mas ou fazia isso, ou então não teria forças para caminhar durante a tarde.
Depois da palestra e do almoço, descansamos um pouco e embarcamos no ônibus da Fecilcam. Então seguimos até a Comunidade Boa Esperança. Desembarcamos, tiramos uma foto com todo o grupo e voltamos a caminhar. Nesse trecho o sol logo foi embora e acabou não sendo muito cansativo a caminhada. Passamos por dentro de uma reserva ecológica. Foi bem legal esse trecho, caminhar por dentro do mato é sempre interessante. Pouco depois das 16h00min chegamos à cachoeira do Boi Cotó. Mesmo gripado, não resisti e entrei na água. Senti frio e a noite mal conseguia falar de tão rouco que fiquei, mas mesmo assim valeu a pena entrar na água. Após o banho de cachoeira teve janta, onde foi servido “porco no tacho”. Jantar às 17h30min é muito cedo para mim e não consegui comer muito. Depois do jantar teve mais uma foto em grupo e retornamos para Campo Mourão, aonde chegamos quando já estava escuro.
Hoje foi publicada uma entrevista minha no Blog do Tex. Esse Blog é de Portugal, e dei a entrevista a convite do Zeca, responsável pelo Blog. Para ler a entrevista, basta acessar o link http://texwillerblog.com/wordpress/?p=27152
“Pior que não terminar uma viagem é nunca partir.”
(Amyr Klink)
Acordei às 6h00mim e vi que ainda chovia e continuava frio. Sabendo que os setenta quilômetros que faltavam até Aparecida seria todo em asfalto, com muitas retas e descidas, resolvi voltar a dormir, pois não teria grande dificuldade para percorrer esse trecho final. Acordei novamente as 9h00min. Ainda chovia e o frio diminuiu um pouco. Arrumei minhas coisas, tomei um rápido café e me despedi da Bianca, agradecendo o bom atendimento. Os três peregrinos tinham saído bem cedo, seguiriam pelo caminho de terra, então não nos veríamos mais. Ao sair à rua, com chuva e frio, respirei fundo e lembrei da cama quentinha que tinha deixado há pouco. Cheguei até cogitar a possibilidade de ficar aquele dia na cidade, descansar, passear e fazer umas comprinhas. Mas logo mudei de idéia, pois até então não tinha parado nenhum dia e não queria fazer isso justamente no último dia. Sem contar que a ansiedade por chegar em Aparecida era enorme. Então melhor pegar a estrada e acabar logo.
Atravessei parte da cidade pedalando por uma ciclovia. Depois segui por uma rua até chegar ao famoso e belo portal da cidade. Após passar o portal, parei para tirar uma foto, da mesma posição de onde tirará uma foto meses antes. Alguns funcionários da Coca-Cola, que estavam do outro lado da estrada, gritaram para mim desejando boa sorte. Agradeci e segui em frente. O início da pedalada foi em subida, mas logo cheguei na parte de descida e comecei a descer a serra de Campos do Jordão. Segui pelo acostamento, pela mão correta. Eu não precisava pedalar, era só deixar a bike seguir no embalo. A estrada era bastante movimentada e perigosa. Meu maior problema era quando passava algum caminhão e jogava água em mim. Segui descendo a serra, com todo cuidado. No meio do caminho fiz uma parada num mirante ao lado da estrada. Descansei um pouco, bebi água e ia comer uma banana que tinha pegado na pousada antes de sair. Então surgiram dois cachorros, com cara de famintos. Fiquei com dó e dei minha banana a eles, que comeram e ficaram com cara de quero mais. Voltei à estrada e tive que atravessar um viaduto. Segui ao lado da mureta, que era baixa e qualquer descuido eu podia cair no precipício. Quando passava algum caminhão, dava o maior medo. Foi assustador passar por esse viaduto. Segui serra abaixo e a chuva não dava folga. Passei por um túnel e pouco depois cheguei ao final da serra. A chuva finalmente parou e o frio também.
Parei num trevo para tirar fotos e descansar um pouco. Daí voltei a pedalar e segui vários quilômetros por uma estrada reta e com curvas e descidas suaves. Após uma hora de pedal, cheguei a Pindamonhangaba e atravessei a periferia da cidade. Parei em uma padaria lanchar e voltei para a estrada. Era o trecho final, então o cansaço tinha ido embora e a ansiedade dominava. Percorri vários quilômetros por uma larga ciclovia que passa ao lado da estrada. Esse trecho é muito habitado e famoso pelos assaltos a peregrinos. Então evitei fazer paradas e não tirei fotos. Em trechos assim é melhor não mostrar objetos de valor. Segui numa velocidade constante, percorrendo grandes retas. Chegava a ser monótono passar por esse trecho. Quando a ciclovia acabou, passei a pedalar pela lateral da estrada, tomando cuidado com os carros. Pouco antes das 14h00min cheguei à Aparecida.
Em setembro do ano passado estive rapidamente na cidade de Aparecida, quando seguia viagem para o estado do Rio de Janeiro. Então algumas ruas por onde estava passando eram-me familiares. Fui seguindo as setas do Caminho da Fé e quando vi uma placa num poste informando que faltavam somente dois quilômetros para terminar o Caminho da Fé, o coração bateu mais forte. Mais alguns minutos pedalando e finalmente avistei o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. De meus lábios saíram um “Eu consegui!”. Era o último quilômetro a ser percorrido, e igual ao primeiro quilômetro que percorri, treze dias antes, lágrimas desceram pelos olhos. Não demorou muito e entrei no estacionamento do Santuário. Tinha percorrido setenta quilômetros nesse dia. Meu odômetro indicava que eu tinha percorrido 501 quilômetros pelo Caminho da Fé, um feito e tanto para mim. Parei no estacionamento, em frente ao Santuário e tirei algumas fotos. Então sentei no chão, sob uma fina garoa e ali fiquei durante muitos minutos, curtindo aquela sensação boa de dever cumprido. Fiquei curtindo o momento e lembrei-me de muita coisa que tinha acontecido nos últimos dias. Lembrei dos momentos de dificuldade, do cansaço, das pessoas que me ajudaram, dos amigos que fiz, dos cachorros que correram atrás de mim. Estava envolto por diversos sentimentos que não dá para explicar aqui, pois certas coisas a gente sente, não explica. Essa viagem foi uma grande aventura, um desafio, um exercício de fé, um feito extraordinário para mim. Algo para lembrar pelo resto da vida, e um dia na velhice contar para os netos.
“Quanto mais simples a casa, mais sincero é o bom dia.”
(Pato Fu)
Levantei bem cedo, pois nesse dia pretendia dormir em Campos do Jordão, distante 60 km. E nesse dia também passaria pela pior subida do Caminho da Fé. Arrumei minhas coisas, tomei um café da manhã reforçado e parti, pouco depois das 7h30min. Na periferia da cidade quase fui atropelado. Estava subindo uma rua tranqüila, quando um carro saiu da garagem de uma casa dando ré e atravessou a rua de uma vez. Por muito pouco a motorista do carro não me acertou em cheio. Total barbeiragem dela.
Saindo da cidade segui durante três quilômetros por uma estrada asfaltada, com ótimas descidas. Daí entrei numa estrada de terra e segui por grandes retas e muitas descidas. Com uma hora de pedal eu já tinha percorrido oito quilômetros, o que era uma boa quilometragem. Mas logo as descidas terminaram e cheguei à parte das subidas. Na primeira subida encontrei um boiadeiro tocando algumas cabeças de gado e tive que me espremer no canto da estrada para não ser atropelado. Vencida a primeira subida do dia, que não foi das maiores, passei a seguir por uma longa reta e cheguei a uma pequena comunidade, chamada Cantagalo. Vi uma faixa informando que no Bar do Alfredo, tinha carimbo para a credencial. Parei no bar, ganhei o carimbo, tomei uma Tubaína para matar a sede e conversei um pouco com o Alfredo, pessoa bastante simpática. Despedi-me e segui em frente.
Entrei numa região de mata fechada, um lugar bonito. Então passei por uma placa informando que estava na divisa de Minas Gerais com São Paulo. Após alguns dias eu voltava ao estado de São Paulo. Ao sair da área de mata, vi no fundo de um vale a cidade de Luminosa. Até a cidade seria uma grande descida, com várias curvas e onde eu sairia de São Paulo e voltaria para Minas Gerais. Luminosa é uma cidade mineira. A descida foi meio complicada, pois passei por um trecho com muitas pedras na estrada e tive que tomar bastante cuidado. Ao entrar na pequena cidade de Luminosa, parei para tirar algumas fotos e ao tirar a foto de uma égua parada em frente a uma casa, o dono dela fez questão que eu tirasse uma foto montado na égua. Seu Juca, o dono da égua, era um típico mineiro do interior, simpático e conversador. Montei na égua e tirei a foto. Depois sentei ao lado do Seu Juca e fiquei conversando com ele e com seu sobrinho, Elias, que estava na cidade a passeio. Seu Juca me convidou para almoçar em sua casa. Agradeci o convite e expliquei que precisava pedalar muito naquele dia e era melhor não almoçar, apenas faria um lanche leve. Despedi-me e segui em frente. Antes de sair da cidade, parei em uma pousada para pegar o carimbo na credencial.
Após sair de Luminosa segui por um reta longa e depois comecei a subir. Em algum lugar dessa subida devo ter voltado ao estado de São Paulo, mas não tinha nada sinalizando. Era o começo da maior subia do Caminho da Fé. Eu subiria cerca de novecentos metros de altitude e para isso percorreria uns sete quilômetros, sempre subindo. O jeito era empurrar a bike e sob o sol do meio dia a tarefa não era das mais fáceis. Minha água ficou quente e logo comecei a sentir fome. Arrependi-me de não ter aceitado o convite do Seu Juca, e também de não ter feito um lanche na cidade. Passei por uma pousada meio que perdida no alto da estrada. Como não vi ninguém, não parei para ver se vendiam comida. Entrei no meio de uma plantação de bananas e algumas bananeiras estavam com cachos de bananas maduras. Teve um momento em que senti vontade de pular a cerca e roubar algumas bananas. Mas roubar não é comigo, então desisti da idéia. Não andei cinqüenta metros e vi dois homens com enormes facões, no meio do bananal, colhendo bananas. Fiquei imaginando o que teria acontecido se eu tivesse invadido a plantação para roubar bananas e eles me vissem. Em meio a esses pensamentos segui em frente e numa curva, onde as bananeiras ficavam no alto, ao lado da estrada, vi algumas bananas boas caídas na estrada. Recolhi as bananas, verifiquei se estavam boas e as comi. Foram as melhores bananas que comi na vida e dessa forma matei minha fome sem precisar roubar. A subida foi ficando cada vez mais inclinada e não demorou para eu passar por uma porteira e entrar num pasto. Cheguei em uma pequena curva, muito inclinada e sofri para passar por ela. Depois cheguei a uma pequena reta e me sentei numa pedra ao lado da estrada para descansar um pouco. Dali a vista era muito bonita e alcançava muitos quilômetros de distância. Era possível ver a cidade de Luminosa ao longe e também parte da estrada que tinha percorrido durante a manhã. Após descansar alguns minutos segui em frente e logo encontrei um monte de vacas deitadas na estrada, impedindo minha passagem. Havia alguns bezerros e tomei bastante cuidado ao passar por eles. Felizmente não tive problemas e segui em frente.
A subida parecia não ter fim e quando cheguei ao final dela foi um grande alivio. Segui por uma pequena descida e algumas curtas retas, logo chegando a uma nova subida. Minha água acabou e sob o sol forte isso foi um enorme problema. Segui empurrando a bike e cheguei numa região com bastante araucárias. Em uma curva dei de frente com um monte de bois e vacas que estavam mais uma vez parados no meio da estrada. Ao tentar passar pela lateral, um boi partiu para cima de mim. Quase me joguei por cima de uma cerca de arame farpado. Tentei tocar o gado, mas eles nem se mexiam. Fui andando centímetro por centímetro, bem devagar ao lado da estrada e assim consegui passar por eles. Mais um susto sem conseqüências, felizmente. Algumas curtas retas e cheguei a uma região de mata fechada. Andar pela sombra era um alivio, pois o sol estava muito quente. Tive que enfrentar uma grande subida, com pedras soltas que me faziam escorregar. Não foi nada fácil passar por esse trecho, mas a recompensa veio quase no final da subida, quando encontrei uma fonte de água. Pude matar minha sede com uma água maravilhosamente gelada. Enchi minhas garrafinhas de água e segui em frente.
No meio da tarde finalmente cheguei ao final das grandes subidas e passei a percorrer uma região mais plana, onde em volta existiam muitas araucárias. Entrei em um trecho de mata fechada e segui por ele durante algum tempo. Depois cheguei a um trecho de descida e curvas, ainda no meio da mata. Passei por uma placa do Caminho da Fé que indicava que faltavam cem quilômetros até Aparecida. Continuei descendo pela estrada de terra no meio da mata e alguns minutos depois cheguei num cruzamento e a partir dali comecei a subir por uma estrada asfaltada. A estrada não tinha acostamento e possuía muitas curvas. Tive que tomar cuidado nas curvas, para não ser atropelado. O sol que tinha me castigado durante todo o dia, foi embora. Surgiu uma névoa e depois uma garoa fina. Empurrei a bike por cerca de meia hora, até chegar ao final do trecho de subida. Finalmente atingi a altitude máxima naquele dia e passei a percorrer uma longa descida, num trecho com muitas curvas. O tempo fechou de vez e começou a fazer frio. Para quem tinha passado calor a maior parte do dia, agora passava a sentir frio. Desci em alta velocidade, em alguns trechos cheguei a atingir 60 km/h. Fui tomando bastante cuidado nas curvas fechadas, e por sorte poucos carros passaram por mim. Passei pela entrada que leva ao complexo da Pedra da Baú, ponto turístico de Campo do Jordão e onde estive em setembro do ano passado. Por culpa da névoa não foi possível ver a Pedra do Baú. Desci tão embalado que acabei não parando na pousada que fica pouco antes da localidade de Campista. Essa pousada era ponto para carimbar a credencial. Parei somente no final da grande descida.
Eram pouco mais de 16h00min quando parei em um bar ao lado da estrada. Fiz um rápido lanche e conversei com o dono do bar. Estava sentindo muito frio e fiquei analisando minhas opções. Podia voltar três quilômetros e passar a noite na pousada que vi ao lado da estrada. Ou então seguir mais alguns quilômetros por estrada de terra, até Campos do Jordão. Escolhi a segunda opção, que era meu plano original. Ao lado do bar o Caminho da Fé seguia por uma estrada de terra, passando pelo meio de uma floresta. Tinha percorrido pouco mais de dois quilômetros pelo meio do mato, quando começou a chover forte. A estrada virou um lamaçal e nos trechos de subida, quando tinha que empurrar a bike, a situação piorava, pois o chão ficava escorregadio. Não tinha outra opção, era seguir em frente a qualquer custo. Eu estava muito cansado e sentindo cada vez mais frio. Teve um trecho no meio da mata, onde dava medo passar. Segui por mais de uma hora nessa estrada até que cheguei a um local sem mata, onde existiam retas e descidas e pude voltar a pedalar.
Cheguei às imediações da cidade e passei a pedalar no asfalto. Não demorou muito e voltei a percorrer uma estrada de chão, com muito barro. Depois de alguns minutos voltei a um trecho de asfalto, mais uma vez no meio do mato e foi aí que passei por um grande susto. Uma moto passou por mim, e na curva seguinte vi a moto parada ao lado da estrada, e o motoqueiro em pé no meio da estrada. Ao passar por ele, fui encarado de uma forma estranha e ao olhar para trás vi que o motoqueiro tinha subido na moto. Fiquei com a sensação de que seria assaltado e passei a pedalar rápido, com todas as minhas forças. Para minha sorte era uma longa descida e quando a moto me alcançou eu estava numa região com casas em volta e pessoas próximas, num ponto de ônibus. O motoqueiro passou por mim bem devagar, me encarando. Reduzi a velocidade e parei perto das pessoas no ponto de ônibus. Esperei alguns minutos e voltei a pedalar, ainda ressabiado. Finalmente cheguei efetivamente á cidade de Campos do Jordão e logo estava na avenida principal. Campos do Jordão era a primeira cidade na rota do Caminho da Fé, onde eu já estivera antes. A cidade é muito bonita e famoso ponto turístico do estado de São Paulo. No inverno a cidade é invadida por paulistanos de média e alta classe. É uma cidade cara, e por essa razão que em minha visita anterior fiquei hospedado em uma cidade próxima, onde as pousadas eram mais baratas.
Andei alguns quarteirões por uma avenida movimentada, sob chuva. Virei duas vezes à esquerda e cheguei à pousada que constava no guia. Por ser ponto de parada de peregrinos que percorrem o Caminho da Fé, essa pousada não é cara como as demais pousadas da cidade. Já estava escuro quando toquei a campainha da pousada. Eu estava cansado, molhado, cheio de barro e tremendo de frio. Quem me atendeu foi a Bianca, uma moça bastante simpática. Guardei a bike num depósito e levei minhas coisas até um quarto coletivo, cheio de beliches. Em seguida fui tomar um banho quente. Debaixo do chuveiro foi que me dei conta de que havia percorrido sessenta quilômetros, passando por trechos muito difíceis. Estava exausto, todo dolorido, mas feliz. No dia seguinte chegaria à Aparecida, finalizando minha viagem pelo Caminho da Fé.
Fui para o quarto, onde escolhi uma beliche inferior, num canto e me deitei. Descansei um pouco e fiquei pensando no que fazer. Precisava achar um local para comer e também queria comprar alguns chocolates, que são uma das especialidades da cidade. Mas estava frio, chovia e eu teria que sair de chinelos. Pensando no que fazer fui até uma sala, onde três peregrinos conversavam. Apresentei-me a eles e conversamos um pouco. Marcos e Marcelo, dois primos e outro senhor, de nome Serafim, estavam percorrendo o Caminho da Fé a pé. Eles tinham se conhecido pelo caminho, e estavam caminhando juntos. Um dos primos tinha machucado o joelho e daí pegaram carona no trecho final até Campos do Jordão. Serafim foi o único que atravessou o trecho final no meio do mato, e disse que também teve medo de passar por ali. Chegou o dono da pousada, Edson, e entrou na conversa. Daí a Bianca falou que faria janta, o que agradou a todos, pois não precisaríamos sair à rua para comer. Enquanto a janta era feita, engatamos um gostoso papo. Uma hora depois a janta foi servida, e comi bastante. Depois ficamos batendo papo por mais um tempo e o Edson chegou a cantar algumas músicas ao violão. Conversei um pouco com a Bianca e ela contou parte de sua vida, sobre ter morado no México e de como começou a trabalhar na pousada. Ela estava fazendo um trecho do Caminho da Fé, quando se hospedou na pousada e depois recebeu o convite para morar e trabalhar ali. Conversei com o Edson e ele me aconselhou a fazer o trecho entre Campos do Jordão e Pindamonhangaba, pelo asfalto e não pelo Caminho da Fé. Dei uma olhada no guia e ali também dizia que em dias de chuva não era para fazer esse trecho de bike, pois seria intransitável. Mais um pouco de papo com o pessoal, algumas fotos e todos foram dormir. Eu estava exausto e uma cama confortável era tudo o que queria. Somando-se a isso, o frio e o barulho da chuva, o sono veio logo, de forma intensa.
“Peregrinar é respeitar o seu corpo, acariciar os seus pés todos os dias, deitar debaixo de uma árvore e se entregar. É tomar uma forte decisão: desistir, nunca.”
(Kátia Esteves)
Levantei pouco depois das 8h00mim e não acreditei que tinha dormido por doze horas a fio. Minhas pernas doíam muito, em compensação a dor e o amortecido do pulso tinham desaparecidos. Arrumei minhas coisas, busquei as roupas no varal e desci tomar café na padaria que fica embaixo da pousada. Eram 9h45min quando parti. Atravessei a cidade e cheguei a uma passarela que passa por cima da rodovia Fernão Dias. Logo entrei numa estrada de terra e segui por várias descidas, em meio a muitas árvores. Depois cheguei a uma subida bastante íngreme e que foi difícil transpor. Quando cheguei ao alto dessa subida, olhei para trás e vi a cidade de Estiva, ao longe. Dali dava para ver muitos dos morros que tinha atravessado nos últimos dias. Era difícil acreditar que eu tinha superado toda aquela distância e aqueles morros. Do alto também dava para ver a chuva se aproximando. Logo começaram as descidas e corri bastante para fugir da chuva. Cheguei à pequena cidade de Consolação e parei numa pousada ao lado da igreja da cidade, onde carimbei minha credencial e aproveitei para almoçar. Durante o almoço era possível ouvir o som dos trovões e ver o tempo fechado. Fiquei parado na porta da pousada e um carro parou em frente. O motorista disse que estava vindo de Paraisópolis, meu próximo destino, e que estava chovendo muito por lá. Que era melhor eu esperar um pouco para pegar a estrada. Agradeci a informação e resolvi esperar. No fim das contas a chuva acabou não caindo em Consolação.
Quando o sol voltou, decidi que era hora de voltar a pedalar. Saí da pequena cidade e percorri três quilômetros por uma estrada asfaltada. Esse trecho asfaltado deve ser novo, pois não constava no guia. Logo entrei numa região muito bonita, com muitas retas e descidas discretas, passando por muitos pastos. Tive que passar por dentro de uma grande fazenda e próximo a uma casa um cachorro veio correndo em minha direção. Era uma pequena subida e não tinha como fugir do cachorro. Esperei pelo pior, imaginando uma forma de me defender. Ao chegar perto o cachorro saltou sobre a bike e para minha sorte ele só queria brincar. Foi um grande susto! Continuei seguindo por entre várias fazendas de gado, numa região bonita, onde aproveitei para tirar muitas fotos. No final do dia cheguei a uma subida íngreme e depois de passar por ela, teve um longa descida, bastante radical e cheia de buracos, onde precisei tomar bastante cuidado.
Cheguei à Paraisópolis bem no final da tarde e me hospedei na Pousada da Praça, ao lado da catedral da cidade. A dona da pousada, Jurema, foi muito simpática e me deixou a vontade. Até liberou uma mangueira para que eu lavasse a bike, que para variar estava toda embarreada. A pousada tinha um estilo todo especial, muito aconchegante e também foi um dos melhores lugares em que me hospedei durante a viagem pelo Caminho da Fé. Após limpar e arrumar minhas coisas, tomei banho e fui dar uma volta pela cidade. Lanchei e aproveitei para cortar o cabelo, que quanto mais curto, melhor fica para usar o capacete. Depois voltei para a pousada, onde coloquei o diário de viagem em dia, vi um pouco de tv e dormi cedo. Estava quase no fim da viagem. Se tudo corresse bem, faltavam apenas dois dias para chegar à Aparecida. Nos próximos dois dias pretendia fazer boas quilometragens, então era melhor descansar o maximo possível.
“Peregrinar é renunciar as vaidades e mordomias do cotidiano. É ir de peito aberto, ao encontro de pessoas de todas as nacionalidade, religiões e crenças. É a total falta de identidade que permite uma liberdade maior, sem máscaras. Não se sabe quem é pobre ou quem é rico. Isso não importa. Os julgamentos, comuns no dia-a-dia, são deixados de lado.”
(Katia Esteves)
Levantei 8h30min, olhei pela janela e vi que fazia sol. Arrumei minhas coisas e fui tomar café. Perguntei sobre minhas três amigas e fiquei sabendo que elas tinham partido bem cedo. Não me demorei no café e logo parti. Atravessei a cidade e após uns dez minutos de pedalada cheguei numa estrada de terra. O sol estava forte, mas o barro era bastante, sinal de que tinha chovido muito durante a noite. Os primeiros quilômetros foram de curtas subidas e longas descidas. Após uma hora encontrei minhas três amigas, bem no início de uma longa subida. Subi junto com elas, empurrando a bike. Pegamos um trecho com bastante barro e passamos por um leiteiro, com sua caminhonete atolada ao lado da estrada. Ele pediu que avisássemos uma pessoa num sitio, um pouco a frente de onde estávamos, para que ela viesse o socorrer. E assim fizemos nossa boa ação do dia, parando no sítio e dando o recado.
Na metade da grande subida existia um local de descanso. Era um casa vazia, com uma gruta ao lado e ao lado da gruta uma torneira com água de bica. Eu e Vanda chegamos primeiro a essa casa e sentamos num banco, debaixo de uma árvore, onde ficamos ouvindo um “passo preto” cantando. Pouco tempo depois chegaram às outras duas. Fiquei uns minutos ali descansando, daí despedi-me das três e voltei a empurrar a bike pela estrada. A subida era enorme e parecia não ter fim, e caminhar sob o sol quente era bem desgastante. Cheguei à porteira de uma fazenda e tive que atravessar um pasto. Logo na entrada, debaixo de uma árvore muitas vacas estavam paradas a sombra, impedindo a passagem. Com bastante cuidado segui pelo canto da estrada e conforme avançava as vacas iam saindo da frente. Ao chegar perto de um bezerro, ele não saiu da estrada e sua mãe veio para cima de mim. Saí rapidamente de perto do bezerro e já estava quase subindo um barranco e deixando a bike para trás, quando a vaca brava desistiu de mim e parou ao lado do bezerro, numa posição de proteção. O susto foi grande e me afastei dali rapidinho. Segui mais alguns minutos pelo pasto, até que cheguei ao final da subida. Ao sair da fazenda tive certa dificuldade para passar com a bike por baixo de uma árvore que tinha caído sobre a porteira.
Cheguei a um local alto, no topo de um morro. A vista era muito bonita, dava para enxergar longe. Ali pude ver que o restante do dia seria subindo e descendo morros. Voltei a pedalar e após algumas retas longas, cheguei a uma grande e radical descida. Desci em boa velocidade e com todo o cuidado. Foi um trecho bastaste técnico, onde precisei aliar velocidade, equilíbrio e mãos no freio. Estou pegando prática em tais descidas, que já consigo descer em alta velocidade e com pouca margem de risco de queda. Passei pela placa que indicava que faltavam “apenas” 200 quilômetros até a cidade de Aparecida. Pouco depois cheguei a uma ponte caída, creio que por culpa das chuvas. Ao lado da ponte foi feita uma passagem provisória, uma estrutura de madeira não muito confiável e foi por ela que passei com todo o cuidado.
Às 13h00min em ponto cheguei à pequena cidade de Tocos do Mogi. Passei na Pousada da Dona Terezinha, para carimbar minha credencial e depois segui pela avenida principal da cidade. Parei em um bar e entrei para almoçar pastel de milho e Tubaína. O pastel era ainda melhor do que o da noite anterior. O recheio de queijo parecia requeijão. Paguei a conta e ao sair, um pessoal me chamou até uma mesa. Um dos rapazes, Nei, viu escrito Campo Mourão em minha camiseta e perguntou se eu era de lá. Então ele contou que tinha morado durante quase seis anos em Campo Mourão. Na mesa tinha um outro senhor, cuja prima mora em Cianorte. Sentei-me a mesa com eles e batemos um longo e animado papo. Todos foram muito simpáticos e ao tirarmos uma foto, chamaram até o dono do bar para se juntar a nós. Dentro do bar levei uma picada de marimbondo, que doeu muito. Daí lembrei-me do conselho do dia anterior e fiquei feliz por ter comprado uma caixa de antialérgico. Tomei um comprimido, despedi-me do pessoal e parti.
O sol estava ainda mais quente e minha vontade era de deitar debaixo de uma árvore e dormir. Mas não fiz isso, segui em frente e comecei a rodar por uma região muito bonita, uma serra com muito verde. Cheguei então ao início de uma descida bastante radical e longa. No fundo do vale era possível ver uma pequena comunidade e também a estrada. Respirei fundo, me enchi de coragem e desci a estrada feito louco, gritando muito, numa média de 40 km/h até chegar ao fundo do vale. Essa descida foi adrenalina pura, muito emocionante. No fundo do vale passei em frente de algumas casas e bares, cheios de pessoas. Não parei, segui em frente até chegar ao pé de uma grande subida. Essa região é conhecida por ser grande produtora de morangos. Levei um bom tempo subindo, e em alguns trechos mais íngremes a estrada possuía um calçamento, para possibilitar que os carros passassem nos dias de chuva. Fiz algumas paradas durante a subida, para descansar e também admirar a paisagem. Era possível ver a longa descida por onde eu tinha vindo e também parte da subida. Após o final da longa subida, passei por alguns trechos de retas e pequenas descidas.
Quase no final da tarde cheguei ao alto de um morro de onde era possível ver a cidade de Estiva, no fundo de um vale. Parei ao lado de uma cerca e fiquei alguns minutos admirando a vista do lugar. No meu caso, que não estava correndo contra o tempo, que não tinha pressa em chegar à Aparecida, eu podia me dar ao luxo de muitas vezes parar e curtir as belas paisagens do Caminho da Fé. Subi na bike e desci a longa estrada até chegar a Estiva. A cidade é pequena. Fui até uma pousada que constava no guia e chegando lá descobri que a mesma estava fechada. Felizmente existia outra e voltei alguns quarteirões até ela.
A Pousada da Poka fica em cima de uma padaria e é muito confortável. Foi um dos melhores lugares onde me hospedei durante a viagem. Depois de tomar banho, aproveitei para usar a lavandeira e lavei algumas roupas e meu tênis. Meu pulso estava muito dolorido e amortecido, por culpa da picada do marimbondo. Fui lanchar e ao voltar para a pousada encontrei um peregrino que também estava hospedado ali. Ele era apicultor e falei a ele sobre a picada de marimbondo que tinha levado e sobre meu pulso estar muito dolorido e amortecido. Ele me disse que algumas espécies de marimbondo tem a picada mais dolorida do que muitas espécies de abelhas. E que a dor e o amortecimento logo passariam. Fiquei mais tranqüilo com a informação e fui para meu quarto. Estava cansado e com o efeito do antialérgico, que provoca sono, fui dormir às 20h00min e só acordei doze horas depois.
O antigo Minas Hotel, em Borda da Mata.
Subida difícil, sob muito sol.
A bike estacionada em frente a porteira.
Casa vazia que virou ponto de descanso e água.
Local onde a vaca me atacou.
Faltando “apenas” 200 km para chegar em Aparecida.
Passagem ao lado da ponte que caiu.
No bar, em Tocos do Mogi.
Em Tocos do Mogi.
Pausa para descanso.
Estrada sem fim…
Passarinhos namorando.
Bela paisagem.
Saindo do “Vale dos Morangos”.
Admirando a paisagem pouco antes de chegar à Estiva.
Hoje fiz 41 anos… Tô ficando velho, ou melhor, ficando experiente. Diferente do ano passado quando meu aniversário foi meio estranho, esse ano foi um dia muito gostoso. Eu que nunca gostei de aniversários, que sempre detestei meu dia de aniversário, dessa vez curti a data. Passei parte do dia em Cianorte, com a Andréia e o restante do dia em Campo Mourão, com a família. A comemoração foi simples, em família, com direito a jantar fora, e depois comer bolo em casa. Durante todo o dia recebi muitas ligações, emails, mensagens via SMS, Orkut, Facebook e MSN. Foram pouco mais de cem pessoas me desejando feliz aniversário e muitas coisas mais. Então meu muito obrigado a todos que se lembraram dessa data e também para aqueles que esqueceram ou então lembraram e preferiram ignorar a data por algum motivo.
“Peregrinar é a decisão maior que o ser humano se permite, pois ele deve seguir em completa solidão, assim se encontrará consigo mesmo.”
(Katia Esteves)
Acordei às 8h30min e fui arrumar minhas coisas. Tinha chovido a noite toda, sinal de que encontraria muito barro pelo caminho. Tomei o café da manhã, que é algo que nunca faço em casa. Durante a viagem sempre procurei tomar café da manhã, em razão do esforço físico que estava fazendo todos os dias. Saí à rua, fui levar a bike para consertar. Na bicicletaria tinha fila de espera, então deixei a bike lá e fui dar uma volta pela cidade. Queria conhecer melhor as antigas construções da cidade. Começou a cair uma garoa fina e mesmo assim continuei andando. Fui até a Catedral, que fica bem no alto da cidade. Depois fui a um Mercadinho, que o guia mencionava, e onde existia uma gruta com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Chegando ao Mercadinho descobri que a gruta estava desativada, passando por reformas. Conversei um pouco com o dono do Mercadinho, que é um entusiasta e apoiador do Caminho da Fé. Ele me contou sobre duas mortes de peregrinos, que aconteceram ano passado. Um deles era meio obeso e enfartou ao chegar a Aparecida, provavelmente por culpa do esforço físico e da emoção de chegar ao final do Caminho da Fé. A outra morte foi de um médico, picado por cinco abelhas e que por ser alérgico acabou falecendo ao dar entrada no hospital. O dono do Mercadinho perguntou se eu era alérgico a abelhas, pois existem muitas pelo caminho. Respondi que provavelmente não, pois já levei picadas de abelhas, vespas, marimbondos e nunca tive problemas. Então ele disse para eu comprar uma caixa de antialérgico, por precaução, já que estava viajando sozinho e em caso de ser picado por muitas abelhas e estando num local deserto, demoraria a conseguir socorro. Despedi-me, ganhei um carimbo na credencial e fui direto a uma farmácia comprar um antialérgico. Eu tinha decidido seguir os conselhos que me fossem dados, após os problemas com os pneus da bike.
Pouco antes do meio dia fui buscar a bike no conserto. Passei na pousada pegar minhas coisas e logo parti. Na saída da cidade entrei numa estrada de terra e segui por ela um bom tempo. O tempo estava nublado, o que era bom para pedalar, sem chuva ou sol quente. A estrada tinha bastante barro, nada que fosse problemático. Pretendia percorrer trinta quilômetros à tarde, até a cidade de Borda da Mata. Segundo o guia, o trecho era tranqüilo, com uma única subida grande. Após alguns quilômetros cheguei à pequena cidade de Inconfidentes. O guia dizia para parar no Bar do Maurão, para pegar o carimbo na credencial. O bar ficava na avenida principal e não tive dificuldade em encontrá-lo. No Bar do Maurão aproveitei para almoçar dois pastéis de queijo e tomar uma Tubaína. Depois fiquei conversando com o Maurão, que como todo mineiro é bom de conversa. Ele me contou algumas histórias sobre o Caminho da Fé e também sobre o médico que morreu em razão das picadas de abelha. Logo chegou a esposa do Maurão, que também entrou na conversa, contando fatos sobre peregrinos que por ali passaram. O papo estava bom, dava vontade de ficar mais tempo ali, mas eu precisava seguir em frente. Despedi-me e segui em frente.
Na saída de Inconfidentes, andei um pouco ao lado de uma estrada asfaltada. Logo voltei para uma estrada de terra e segui por ela um bom tempo. Pelo caminho passei por alguns locais com casas e alguns bares. Ao passar o pessoal ficava me olhando. Eu sempre cumprimentava todos que via, e as pessoas respondiam. Depois de quase uma hora cheguei a um local onde existia uma parada para descanso, debaixo de uma árvore, com bancos de madeira e uma torneira com água. Esse local tinha sido preparado pelo Seu Joaquim, um morador que tem apoiado o Caminho da Fé. Ali encontrei três senhoras, que estavam percorrendo o Caminho da Fé a pé, já fazia vários dias. Vanda, Adélia e Nair, eram de São Carlos – SP. Conversamos um pouco e descobri que elas eram nascidas em Goio-êre, uma cidade próxima a Campo Mourão e que viviam há muitos anos no interior de São Paulo. Quando nos preparávamos para partir, surgiu o Seu Joaquim, dono do lugar. Conversamos um pouco e logo minhas novas amigas partiram. Fiquei mais um tempo conversando com Seu Joaquim. Ele me contou sobre o início do Caminho da Fé, sobre como é bom viver num lugar tranqüilo igual aquele e sobre seus planos de construir uma lanchonete ao lado da estrada, como ponto de apoio aos peregrinos. Depois de um tempo despedi-me do Seu Joaquim e peguei a estrada.
Após pedalar uns dois quilômetros, encontrei as três peregrinas, no início de uma grande subida. Desci da bike e segui conversando com elas. Era a primeira vez que eu seguia pelo Caminho da Fé acompanhado por alguém. Conversamos sobre muitos assuntos. Diverti-me com algumas histórias que elas contaram e com as reclamações. Elas não tinham nenhum preparo físico quando iniciaram a peregrinação. Estavam seguindo na força de vontade, na fé. Fiquei admirado com a disposição delas. E achei engraçado quando paravam cansadas e fumavam um cigarro. Segundo elas, o cigarro era para dar uma força extra. Como não tinha pressa, acabei andando um bom tempo junto com as três. Chegamos a um lugar onde tinha alguns abacaxis ao lado da estrada. A Adele colheu um dos abacaxis e descascou para comer. As outras duas ficaram brincando que o abacaxi era venenoso. Foi me oferecido um pedaço, que educadamente recusei, não pelo medo de ser venenoso, mas sim por estar com aftas na boca desde o dia anterior e o abacaxi só pioraria a situação. Pouco antes das 17h00min me despedi das três e decidi voltar a pedalar. Ainda faltavam seis quilômetros até Borda da Mata. Segundo o guia, na cidade existiam dois hotéis, um novo e um antigo, de 1940. Eu queria ficar no hotel antigo e as três também. Então combinamos que ao chegar ao hotel eu reservaria um quarto para elas.
Os seis quilômetros até Borda da Mata foram tranqüilos, com duas subidas não muito fortes. Numa delas vi uma cobra atravessando a estrada. Com cuidado parei ao lado dela e tirei uma foto. A cobra era brava e tentou morder o pneu da bicicleta. Segui meu caminho e deixei a cobra seguir o dela. Não demorou muito e cheguei a Borda da Mata. Logo na entrada da cidade tinha uma subida pesada e desci da bike, passando a empurrá-la. Ao passar em frente a uma casa, um senhor que estava na varando perguntou se eu estava fazendo o Caminho da Fé sozinho. Respondi que sim e ele falou “Êita! Tem que ser muito corajoso para fazer isso!”. Ri do comentário e respondi que não precisava de coragem, mas sim de vontade e fé. Várias vezes durante o caminho, pessoas falaram que eu era corajoso em fazer o Caminho da Fé sozinho. Nunca me achei corajoso por isso. Apenas não tinha outra opção, já que não encontrei ninguém para viajar comigo. Então era viajar sozinho ou não viajar. E não via problema em seguir sozinho, apenas sabia que seria perigoso caso sofresse alguma queda, ou algum outro acidente e me machucasse seriamente. E também sabia que sozinho era mais vulnerável a assaltos. Mas nunca tive medo, sempre orava pedindo proteção e tinha certeza de que nada aconteceria comigo. Alguns chamam isso de fé…
Não foi difícil encontrar o Minas Hotel, que ficava numa esquina, no centro da cidade. Fui atendido pela Dona Maria, dona do local a quase cinqüenta anos. Ela me arrumou um quarto e depois reservou um para minhas três amigas. O hotel estava cheio naquele sábado. A Dona Maria foi à missa e me deixou encarregado de esperar minhas três novas amigas chegarem. Deixou-me a chave do quarto e me deu mais algumas coordenadas sobre o funcionamento do hotel. De repente me vi gerenciando o hotel. Mais uma vez alguém que nunca tinha me visto na vida, depositava confiança em mim. Ao entrar no quarto carregando o alforje da bike nas mãos, todo sujo de barro, me senti o verdadeiro “boiadeiro errante”, personagem de uma música do Sérgio Reis. Meu quarto era bem simples e antigo. Pelo visto não tinha mudado muito desde a construção do hotel. A única mudança era um banheiro que foi adaptado dentro do quarto, onde fizeram uma espécie de muro num canto e colocaram um chuveiro e um vaso sanitário. Deitei na velha cama e fiquei olhando para o teto e imaginando quantas pessoas já tinham dormido naquele quarto nos últimos setenta anos. Muitos boiadeiros que chegavam em comitiva, com certeza dormiram ali.
Minhas amigas chegaram quando já estava escuro. As levei até o quarto delas e depois fui dar uma volta pelas proximidades do hotel. Na esquina oposta existiam duas praças, uma onde ficava a Catedral e outra com um chafariz. Em volta muitas lanchonetes e sorveterias. Parei numa sorveteria tomar um sorvete e depois entrei numa loja ao lado, que vendia produtos típicos de minas. Tinha muitas variedades de queijos e doces de leite. Deu vontade de comprar alguma coisa para levar para o pessoal de casa, mas como não podia carregar mais peso, achei melhor não comprar nada. Voltei ao hotel e descansei um pouco. Tinha combinado de jantar com as três peregrinas, mas no horário marcado somente a Vanda apareceu. Fomos em uma lanchonete próxima e fizemos um lanche. Então ela voltou para o hotel, levando lanche para as outras duas, que de tão cansadas que estavam, preferiram não sair do hotel. Dei algumas voltas pelo centro e depois sentei-me num banco da praça. Logo a praça começou a encher de pessoas. Muita gente bem vestida, passeando por ali. Sou do interior, conheço muitas cidades do interior, mas nunca tinha visto algo igual. Parecia que quase todos os moradores da cidade estavam passeando pela praça e arredores, e nem era noite de festa. Fiquei um bom tempo olhando o movimento, até que resolvi voltar ao hotel. No caminho passei em frente a uma pastelaria, que vendia “pastel de milho”. O guia dizia para provar essa iguaria local. Eu pensava que o recheio é que era de milho, mas na verdade é chamado de pastel de milho, porque a massa do pastel é feita com farinha de milho. Provei um com recheio de carne e outro com queijo. Era muito bom, uma delícia. Arrependi-me de ter lanchado antes. De barriga cheia fui para o hotel dormir. Ainda não tinha adormecido, quando começou a chover forte, sinal de estrada cheia de barro no dia seguinte.
“Peregrinar é uma imagem de vida, encerrada em poucos dias, um tempo no qual tomamos verdadeiramente a consciência de nós mesmos.”
(Anabela Coquenão)
Acordei às 8h00min, com muita dor no corpo e cogitei a possibilidade de tirar o dia para descansar. Logo mudei de idéia. Mesmo com dores o jeito era seguir em frente, sempre… Com muita preguiça levantei e arrumei minhas coisas, num passo de tartaruga. Antes de sair vi um Novo Testamento em cima de uma mesa e resolvi ler um trecho. Abri de forma aleatória e li um texto de Tiago, que falava sobre a paciência. Refleti um pouco sobre o que li, e entendi que devo continuar sendo paciente com a vida, pois dessa forma tudo vai se resolver. E essa viagem também está sendo um exercício de paciência, pois tenho seguido sem muita pressa, curtindo cada momento.
Ao pagar a conta do hotel, a moça que me atendeu disse que tinha me visto na rua no dia anterior. Saindo do hotel procurei uma bicicletaria para poder arrumar o freio. Também tinha um raio quebrado que tive que trocar. O cara que consertou a bike disse que seria bom eu trocar o pneu dianteiro, que não estava muito bom. Respondi a ele que já tinha trocado o pneu traseiro durante a viagem e que pretendia seguir até o final da viagem sem trocar o dianteiro. O cara da bicicletaria também disse que tinha me visto na rua no dia anterior. Pelo jeito estou ficando conhecido na cidade… rs! Saindo da bicicletaria parei fazer um lanche e peguei a estrada.
Após sair da cidade, entrei numa estrada de terra e segui por um longo trecho com bastante descidas. Mesmo com a forte chuva da noite anterior, não tinha muito barro na estrada. Talvez em razão do sol forte. Passei em frente uma escolinha, dessas de sítio, e os alunos ao me verem fizeram a maior festa, correndo para a cerca para falar comigo. Fui atencioso, mas preferi não parar. Cheguei a primeira subida do dia e depois dela novas descidas e retas, por uma região muito bonita. Então cheguei ao início da Serra dos Lima e teria que superar a segunda pior subida do Caminho da Fé. O sol do meio dia estava forte, a estrada com pedrinhas soltas que me faziam escorregar. Foi complicado percorrer esse trecho. Quase na metade da subida vi uma pequena capela e ao lado uma mina de água, fria. Parecia até uma miragem em meio ao deserto. Tirei as luvas para poder lavar o rosto. Sentei-me em frente a capela e fiquei um bom tempo ali, pensando na vida. Não tinha a mínima vontade de voltar a empurrar a bike morro acima, debaixo de sol. Mas tinha que seguir em frente e assim voltei para a estrada. Quase um quilômetro depois foi que dei falta das luvas, que ficaram ao lado da mina. Voltar para buscá-las seria complicado e achei melhor seguir em frente, sem as luvas. Se fosse algo de maior valor, até que valeria a pena voltar para buscar, mas as luvas já estavam bastante usadas e não valia o esforço de retornar. Nesse trecho passei a pendurar o capacete no guidão e a usar boné para me proteger do sol. Somente em trechos de descida é que colocava o capacete. Após chegar ao final da grade subida da Serra dos Lima, comecei a andar por um trecho com longas retas e descidas. Passei por um local onde estavam carregando um caminhão com batatas colhidas em uma plantação ao lado. Debaixo de uma árvore vi quatro moças sentadas. Elas estavam colhendo as batatas e vestidas igual bóias-frias, cheias de roupas. Ao passar por elas dei um ‘”boa tarde” e pude notar que as quatro eram muito bonitas, mesmo sujas e vestidas com roupa de trabalho. Segui pedalando e pensando na vida difícil que muitas pessoas levam. Logo comecei a descer novamente. As descidas eram tão íngremes que as mãos doíam de tanto apertar os freios. Em razão das pedras e buracos na estrada, não dava para correr muito, era mão nos freios o tempo todo. Cheguei num local de onde era possível ver a pequena cidade de Barra, no fundo de um vale. E do outro lado do vale dava para ver a estrada e as subidas que me esperavam mais tarde.
Na entrada de Barra, passei por algumas vacas soltas ao lado da estrada. Precisava passar por um mata burro, sobre um rio. E bem no meio do caminho tinha uma vaca enorme, grávida, possivelmente de gêmeos. Gritando tentei fazer a vaca sair da frente, mas isso a deixou brava e ela ficou me encarando com cara de poucos amigos, e nem arredava as patas de onde estava. Gritei mais um pouco, tentei falar com a vaca, até pensei em tacar alguma pedra nela. De repente, do nada chamei a vaca pelo nome de uma pessoa e a vaca saiu da estrada. Comecei a rir. Será que o nome da vaca era o mesmo dessa pessoa, que por razões obvias não vou citar aqui? De qualquer forma a vaca liberou o caminho e segui em frente.
Barra é uma cidade pequena e tranqüila, um lugar bucólico. Logo na entrada da cidade vi um monte de canarinhos numa cerca, uns vinte. Começou a cair uma garoa fina e parei num Mercadinho, com a intenção de comer alguma coisa. Acabei almoçando dois potes de sorvete. Sentei em frente a porta do Mercadinho e fiquei tomando o sorvete e curtindo o momento, a tranqüilidade do lugar. A sensação era de que naquela cidadezinha o tempo tinha parado. Acredito que passar uns dias ali cura qualquer estresse ou depressão. Senti-me feliz por estar ali, num lugar tranqüilo, no meio do nada, curtindo a vida, o momento. Algo bem diferente de minha vida um ano antes. Nada como um dia, uma semana, um mês, um ano após o outro… Fiquei quase uma hora sentado naquele Mercadinho, meditando sobre a vida. A única coisa que achei estranho foi o açougue que funcionava nos fundos. As carnes ficavam penduras, a mostra, sem preocupação com refrigeração.
Precisava seguir em frente e perguntei para a dona do Mercadinho, onde podia conseguir o carimbo para minha credencial do Caminho da Fé. Ela respondeu que seria na Pousada, que fica atrás da igreja, mas que não tinha ninguém lá aquela hora. Lamentei ficar sem o carimbo de Barra e então a dona do Mercadinho disse que eu podia ir até a Pousada e entrar, pois os donos deixavam o lugar aberto e o carimbo em cima da mesa. Fui até a Pousada, meio sem jeito entrei e fui até uma mesa onde encontrei o carimbo. Mais uma vez fiquei impressionado com a confiança que o pessoal deposita em estranhos. Saí rapidamente e resisti a tentação de pegar uns biscoitos que estavam sobre a mesa e tinham aspecto de serem apetitosos. Atravessei a cidade e logo cheguei num lugar, cuja foto estava no guia e que desde a primeira vez que li o guia, mais de uma ano antes, tinha sido a foto mais bonita que vi. Agora estava ali, em frente a paisagem da foto que admirei durante vários meses. Foi um momento gostoso, difícil de explicar.
Após tirar algumas fotos, saí de Barra e logo cheguei numa grande subida, com muito barro. Foi um esforço imenso empurrar a bike morro acima, com todo aquele barro. Após a subida entrei num trecho cercado de mata e atravessei dois riachos, dessa vez sem molhar os pés. Saindo da mata, entrei numa parte com muitas descidas. Em volta a paisagem era exuberante, com muito verde. Era possível enxergar a quilômetros de distância, uma paisagem de beleza tão grande que não é possível captar com a câmera, é o tipo de beleza que você guarda na mente. No final do trecho de descidas cheguei a uma pequena localidade que não recordo o nome. Passando em frente a uma escolinha, vi uma moça lavando a calçada com uma mangueira. Parei e pedi para encher minhas garrafinhas com água. Conversei um pouco com a moça, que fez perguntas sobre de onde eu era, sobre o Caminho da Fé. Despedi-me e segui em frente, passando ao lado de uma antiga casa de fazenda, muito bonita.
O restante da tarde fui alternando trechos de curtas subidas e descidas. Tudo ia bem, até que o pneu da frente esvaziou. Tentei encher com a bomba de ar e percebi que ele tinha um pequeno furo. Na hora lembrei-me do conselho do rapaz da bicicletaria em Andradas. Mais uma vez tinha ignorado um conselho sobre trocar pneu e fiquei na mão. Decidi que ia ouvir mais os conselhos que me dessem pelo caminho. Os quilômetros seguintes foram de muitas paradas para encher o pneu da bike e seguir pedalando, até parar novamente e encher o pneu.
Ás 17h00mim cheguei a cidade de Crisólia e parei no Bar da Zetti, para carimbar a credencial do Caminho da Fé. Aproveitei para tomar uma Tubaína gelada e descansar um pouco. Informei-me sobre a existência de algum lugar na pequena cidade, onde pudesse consertar o pneu, e a respostas foi que não existia nada. A Zetti me aconselhou a seguir pela estrada de asfalto, até Ouro Fino, meu próximo destino. Segundo ela, seriam somente quatro quilômetros, quase todo em descida. Já se eu fosse pelo Caminho da Fé, seriam sete quilômetros, com algumas pequenas subidas. Optei por seguir pelo Caminho da Fé, mesmo correndo o risco do pneu me deixar na mão de uma vez e eu ter que empurrar a bike. Despedi-me da Zetti e peguei a estrada.
Não demorou muito e passei por uma árvore onde estava pregada uma placa indicando que faltavam 250 quilômetros até a cidade de Aparecida, meu destino final. Ou seja, eu tinha atingido exatamente a metade do Caminho da Fé, o que me deixou bastante contente. O pneu colaborou e após parar umas três vezes para enchê-lo, finalmente cheguei à periferia de Ouro Fino. Ali passei por um momento delicado. Ao descer em alta velocidade por uma estrada asfaltada, na entrada da cidade, vi três rapazes e uma moça saírem do meio do mato, logo a minha frente. Como eu estava em alta velocidade, eles só me viram quando passei por eles, e se assustaram. Deu para sentir o cheiro da maconha que eles fumavam e imagino que se fosse num trecho de subida, ou então se tivessem me visto antes, eles teriam me assaltado. Nas pequenas cidades por onde passa o Caminho da Fé, não existe grande risco de assaltos. Já próximo às cidades maiores esse risco aumenta e li relatos de peregrinos que foram assaltados, quase sempre por usuários de drogas. Infelizmente o consumo de drogas e a violência que envolve esse consumo, está se transformando um problema muito grande em todo o Brasil. E nossas autoridades não dão muita bola a isso e continuam tratando os usuários como coitadinhos, nem para a cadeia vão. Na verdade se não existir o usuário, não existe o grande traficante. Então se deve coibir o uso da droga e punir os pequenos usuários, pois se continuar como está, a violência só vai aumentar, já que o consumo desenfreado de drogas fomenta cada vez mais a violência.
Ao entrar na cidade de Ouro Fino, o pedal esquerdo quebrou. Por sorte eu estava no final de uma pequena subida, a baixa velocidade. Se a quebra do pedal acontecesse quando eu estivesse correndo bastante, isso poderia ter causado um sério acidente. Parei na estátua do Menino da Porteira, para tirar fotos. A cidade de Ouro Fino ficou famosa em todo o Brasil, graças a música “O Menino da Porteira”, que foi gravada pelo cantor Sérgio Reis, em meados dos anos setenta. Um dos compositores dessa música possuía um sítio nos arredores da cidade, e talvez por isso tenha citado a cidade na música. A estátua é bonita, tem dez metros de altura e ao lado tem uma placa de bronze com a letra da música e embaixo a mão do Sérgio Reis moldada no gesso.
Quando deixei a estátua para trás e entrei na cidade, já estava escuro. Segui empurrando a bike com o pneu totalmente murcho, até chegar numa pousada bem no centro da cidade. A pousada era legal, mas estranhei pedirem o pagamento adiantado. Era a primeira vez que isso acontecia. Fui para o banho e ao sair vi que minhas pernas a cada dia tinham mais marcas de arranhões e de picadas de insetos. Estavam ficando feias com tantas marcas. Logo saí e dei uma volta pela cidade, que é bastante antiga, com muita história e que possui construções antigas e conservadas. Jantei em um restaurante simples, antigo e simpático. A comida era boa demais e acabei exagerando. Depois dei mais uma volta pelo centro, para fazer a digestão. Voltei para a pousada e fui direto para a cama. Mal deitei e começou a chover. Com o barulho da chuva foi ainda mais gostoso dormir.
Estrada poeirenta.
Capela onde esqueci minhas luvas.
Bela paisagem.
Mais uma igrejinha perdida.
Longa estrada…
Capelinha ao lado da estrada.
Região de serra.
No fundo do vale, a pequena cidade de Barra.
Vaca prenha no meio da estrada.
Mata burro sobre o rio.
Igreja de Barra.
Minha paisagem favorita.
Lugar bucólico.
Barro na subida.
Atravessando o pequeno riacho.
Antiga casa de fazenda.
Uma das muitas paradas para encher o pneu furado.
Em frente a estátua do Menino da Porteira. Ouro Fino – MG
Acordei 8h30min, olhei pela janela e vi que o sol brilhava forte, mas mesmo assim fazia um friozinho. Da janela dava para ver um pouco distante a pequena São Roque da Fartura na encosta de uma morro, uma paisagem bonita. Estava todo dolorido do esforço do dia anterior e o jeito foi tomar um remédio para dor. Arrumei minhas coisas, tomei café na cozinha da Dona Cida e logo peguei a estrada, pois queria aproveitar o dia de sol e tentar chegar até a cidade de Andradas, já em território mineiro. Ou seja, pretendia fazer pouco mais de cinqüenta quilômetros naquele dia, então não podia perder tempo. Antes de partir confirmei com Dona Cida sobre a informação de que deveria seguir pela estrada asfaltada e não pela estrada de terra por onde passa o Caminho da Fé. Diante da resposta de que deveria seguir pela estrada asfaltada, despedi-me e parti. Até então não tinha usado capacete para pedalar. Em razão da chuva dos primeiros dias, tinha achado melhor não utilizar luvas e capacete, pois seriam mais coisas para molhar. No dia anterior, com sol, tinha usado luvas. Agora que passaria por trechos perigosos, era melhor usar equipamento completo, por segurança.
Logo ao sair da Pousada da Dona Cida andei alguns metros por uma estrada de terra e cheguei à estrada asfaltada. Próximo tinha a entrada de uma cachoeira, mas tinha tomado tanta chuva nos últimos dias que não fiquei com vontade de ver mais água. Comecei a pedalar pelo canto da estrada, pois a mesma não tinha acostamento. Fiquei preocupado com isso, pois sabia que seriam 22 quilômetros até chegar à próxima cidade, Águas da Prata. Se todo o trecho fosse naquela estrada, seria bastante perigoso. Não andei muito e cheguei numa grande subida, onde o jeito foi descer e empurrar a bike. Procurei ir bem no canto da estrada, mas mesmo assim os carros passavam bem próximos a mim. Felizmente a maioria dos carros ao passar por mim distanciavam-se, indo para a pista contrária. A subida parecia não ter fim, foram quase três quilômetros empurrando a bike, até que cheguei no alto de uma serra. Ali subi na bike e comecei a descer, descer e descer. Havia muitas curvas fechadas e buracos na pista, tive que tomar muito cuidado. Abusei do freio traseiro e ele logo começou a falhar, dando sinais de desgaste. Após uma das muitas curvas, tive que parar num local onde trabalhadores estavam consertando a estrada e o trânsito estava momentaneamente impedido. Um cara que cuidava do trânsito veio até mim e me deu uma bronca, dizendo para eu não correr tanto pois podia colocar em risco a vida de um dos operários que trabalhavam na estrada. Inicialmente achei que ele estava brincando e tinha até pensando em fazer uma piadinha, mas diante da cara amarrada dele vi que a bronca era séria e resolvi me calar. Depois de alguns minutos ele liberou a estrada e voltei a descer feito louco estrada abaixo, testando o freio traseiro e vendo que ele estava cada vez pior. Então em uma curva vi que estava chegando numa cidade, a qual não lembro o nome e que não constava em meu guia. Daí lembrei que estava fora do percurso original do Caminho da Fé e que por esse motivo a tal cidade não era mencionada no guia. Chegando no trevo da cidade descobri que a estradinha ruim que estava percorrendo terminava ali e que dali para frente eu deveria seguir por uma rodovia bastante movimentada. Seria serra abaixo o tempo todo. Ao menos o acostamento era bom.
Comecei a seguir pela rodovia, primeiro na contramão e depois pela mão correta, onde o acostamento era mais largo. Era descida o tempo todo e curvas bastante abertas onde dava para correr bastante. Eu não precisava pedalar, era só deixar a bike descer. A paisagem em volta era muito bonita, mas não dava para ficar apreciando. Logo o freio de trás parou de funcionar de vez. Parei para tentar consertar, mas não foi possível. Tive que tomar muito cuidado dali para frente, freando somente com o freio dianteiro. Logo descobri que em razão do peso da bike e da velocidade com que estava descendo, quando eu apertava o freio dianteiro, conseguia parar somente uns cinco metros depois. Isso poderia ser muito perigoso caso precisasse parar bruscamente por culpa de algum buraco, ou carro parado no acostamento. Passei a tomar ainda mais cuidado, observando bem a estrada à frente. Mesmo assim corri bastante e não demorou muito para chegar num trevo, sair da rodovia e entrar numa estrada menor. Mais alguns metros e cheguei numa ponte, que não tinha acostamento. Para piorar a situação, a ponte ficava numa curva em descida. Estudei a melhor forma de atravessar a ponte e resolvi empurrar a bike pela contramão. Logo nos primeiro metros sobre a ponte, notei que os carros que subiam em sentido contrário estavam bem devagar. Imagino que algum carro que estava descendo tenha dado sinal de luz avisando que tinha algum perigo (no caso eu) na pista e por isso os carros diminuíram a velocidade. Ou então foi a Providência Divina que mais uma vez me ajudou. Atravessando a ponte, subi na bike e voltei a pedalar pela contramão. Logo cheguei à cidade de Águas da Prata. Tinha percorrido vinte dois quilômetros em menos de duas horas, um recorde.
A cidade de Águas da Prata é uma conhecida estação termal, que recebe muitos turistas. Cidade antiga e simpática, foi ali que começou o movimento pela criação do Caminho da Fé e é nela onde fica a sede do Caminho da Fé. A cidade é pequena e logo estava pedalando pelo centro. Vi uma bicletaria e parei para regular o freio. O rapaz que fez o serviço não cobrou nada. Agradeci e ao sair da bicicletaria descobri que ela ficava ao lado da sede do Caminho da Fé, onde também funciona uma Pousada para os peregrinos. Fui até lá pegar o carimbo na credencial e conhecer o lugar. Ali fiquei sabendo que a informação sobre o trecho entre São Roque da Fartura e Águas da Prata estar intransitável era incorreta. Fora motivada por culpa de um peregrino meio enjoado que não deve ter gostado de atravessar trechos de muito barro e chegando na sede do Caminho da Fé passou a informação de que era impossível andar por aquele trecho. Eu tinha passado por trechos muito ruins e não teria tido problemas em passar por esse trecho. Foi uma pena ter sido vítima de uma informação errada, mas não dava mais para voltar atrás. O negócio era seguir em frente e foi o que fiz.
Na saída de Águas da Prata, parei fazer um lanche leve, numa lanchonete que fica em frente a antiga Estação de Trem, que foi inaugurada por Don Pedro II. Não me demorei muito e segui em frente. Andei cerca de um quilômetro pelo asfalto e entrei numa estrada de terra. O sol estava muito forte e fazia bastante calor. A estrada tinha subidas curtas e muitas retas o que fez render a pedalada. Passei por um igrejinha perdida no meio do mato e parei para descansar e tirar algumas fotos. Não me demorei e segui em frente.
Boa parte da tarde segui por meio de uma estrada deserta e fiquei um bom tempo sem ver ninguém. Passei por uma cachoeira no meio do mato e parei para descansar um pouco. Depois atravessei uma região de mata fechada, onde a sombra e a umidade davam a sensação de frio. Era como entrar num ambiente com ar condicionado ligado. Em alguns trechos no meio da mata, dava certo medo do silêncio do lugar ou então de ruídos estranhos que vinham do mato. Nessas horas a imaginação “viaja” um pouco e fiquei imaginando que a qualquer instante um onça surgiria no meio da estrada. Felizmente o único animal que surgiu foi um tatu, ao lado da estrada. Parei bem pertinho dele e fiquei em silêncio o observando. Até que em determinado momento ele começou a farejar o ar, sentiu meu cheiro e saiu correndo para o meio do mato. Confesso que meu cheiro não deveria ser dos melhores, sujo e suado como estava.
E finalmente numa curva da estrada cheguei num rio que não tinha ponte e que segundo informações era a divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais. Pensei que o rio era raso e fui tentar atravessá-lo pedalando. Quando chegou no meio do rio descobri que ele era um pouco fundo e por pouco não caio um tombo feio. Consegui descer da bike e atravessei caminhando. Mesmo num dia de muito sol eu consegui molhar os pés. Era o sétimo dia de viagem e o sétimo dia em que eu ficava com o tênis molhado. À noite no hotel ao olhar o guia, vi que o mesmo informava sobre uma pinguela no lado direito da estrada, que permitia atravessar esse rio sem se molhar. Confesso que não vi tal pinguela, isso se ela ainda existir.
Foi de certa forma algo marcante passar a pedalar em outro estado. Sabia que dali para frente o caminho ficaria mais difícil, pois em Minas Gerais tem muitas serras e trechos com pedras. No dia anterior, o Seu Francisco tinha me falado que em Minas o caminho seria bem mais “dificultoso”. Mas estava preparado para tudo e cada dia estava mais perto de meu destino final, o que era algo bastante motivador. Mais uma vez fiquei sem água e com o calor que fazia isso foi um complicador. Olhando no guia vi que passaria pela Pousada do Gavião, que ficava alguns quilômetros a frente de onde estava quando acabou minha água. Então passei a pedalar mais rápido, até que cheguei à pousada. Uma funcionária me atendeu e encheu minhas garrafinhas com água. Aproveitei para tomar um Guará Vita, uma espécie de refrigerante que só é vendido no Sudeste e que gelado é muito bom. Também ganhei mais um carimbo em minha credencial e segui em frente. Tinha um longo trecho até chegar em Andradas, onde passaria a noite. E não queria correr o risco de ficar na estrada à noite.
O trecho final antes de Andradas foi bastante difícil, pois tinha muitas pedras na estrada. O trecho era todo em descida, inclinadas demais. Tive que tomar muito cuidado para não derrapar nas pedras e cair. Qualquer descuido seria fatal. As mãos doíam de tanto apertar os freios. Mesmo sendo descida não dava para correr, tinha que seguir devagar em meio à estrada pedregosa e freiando sempre. Sofrer uma queda naquele lugar era fácil e como a região era deserta, caso eu caísse e me machucasse, ia demorar até conseguir algum tipo de socorro. Então segui com muito cuidado, atenção triplicada. Começou a escurecer e logo fiquei preocupado, pois não via mais nenhuma seta indicando o Caminho da Fé. Fiquei com receio de não ter visto alguma seta indicando que deveria seguir por outra das estradinhas pelas quais passei. Concentrado como estava em olhar para o chão e evitar cair nas pedras, bem que podia ter deixado passar despercebido a sinalização. Comecei a ficar muito preocupado com a possibilidade de estar no caminho errado. Voltar para trás seria muito complicado, em razão das descidas íngremes e cheias de pedras se transformarem em subidas íngremes e cheia de pedras. Rodei mais uns dois quilômetros até encontrar uma seta amarela pintada em uma árvore, sinalizando que o caminho estava correto. Ver aquela seta me deu uma grande sensação de alívio.
Já no final do dia pude avistar a cidade de Andradas. Então começaram a passar alguns carros pela estrada que até então estava deserta, todos em alta velocidade e mal tomando conhecimento de minha presença na estrada. Passei a tomar ainda mais cuidado. Finalmente cheguei à periferia da cidade e seguindo a sinalização das setas amarelas pintadas em postes, fui me aproximando do centro da cidade. O trânsito era caótico, o fluxo de veículos intenso e por mais de uma vez quase fui atropelado. Nessa de tomar cuidado com os carros, acabei passando direto pelo hotel onde pretendia passar a noite e somente um quilômetro depois é que me dei conta disso. Então dei meia volta e segui empurrando a bicicleta pela calçada. Chegando no hotel tive que fazer um último esforço e subir uma enorme escadaria com a bike, até chegar no quarto. Tinha percorrido 54 quilômetros nesse dia, parte graças aos 22 quilômetros de descidas pela estrada asfaltada. Mesmo assim era uma quilometragem considerável e que me deixou feliz.
Com a bike dentro do quarto nem precisei tirar o alforje com minhas coisas, igual fizera em todos os dias anteriores. E como não tinha chovido, não tinha molhado nada. Era o primeiro dia sem chuva desde o início da viagem. Fui tomar banho e deitei para descansar um pouco. Logo começou a chover. Ao menos dessa vez eu não precisava me molhar na chuva. Quando a chuva parou, saí dar uma volta pelo centro da cidade. Lanchei e aproveitei para ir numa Lan House e ver meus emails. Fazia uma semana que não acessava a internet. Nos dois primeiros dias foi complicado ficar sem internet, quase tive crise de abstinência. Mas depois não fez falta. Essa viagem me fez ver que posso viver com pouca coisa, que tudo na vida é uma questão de se adaptar ao meio em que se vive. Logo voltei para o hotel e dormi cedo, cansado que estava.
São Roque da Fartura – SP.
Trevo.
Tentando consertar o freio.
Descanso e água.
Em frente a sede do Caminho da Fé.
Águas da Prata – SP.
Ao fundo a Estação de Trem que foi inaugurada por Don Pedro II.
Igrejinha ao lado da estrada.
Placa indicando a distância que ainda tenho que percorrer.
“O ser humano é um peregrino. É só na aparência que ele tem uma geografia.” (Nélida Pinon)
Levantei 08h30min, todo dolorido em razão de ter andado 22 km no dia anterior empurrando a bike. Saí a procura de uma bicicletaria. Tive que andar um monte até chegar a Bicicletaria do Feijão, na periferia da cidade. Ali troquei o pneu traseiro, colocando um pneu especial para estradas de terra. Também fiz uma revisão geral nos freios e nas marchas. O Feijão foi bastante simpático e deu algumas dicas sobre o trecho seguinte da viagem. Ele me aconselhou a seguir pelo asfalto naquele dia, pois segundo ele eu encontraria muito barro pelo caminho, se seguisse a rota original do Caminho da Fé. Voltei para o hotel, arrumei minhas coisas, paguei a conta e parti pouco antes das 11h00min. Atravessei o centro da cidade e parei em frente a catedral para tirar uma foto. Fazia sol forte, o primeiro dia de sol que eu pegava no Caminho da Fé.
Mesmo com sol forte havia muito barro na estrada. Os primeiros quiômetros pedalei por longas retas e subidas não muito íngrimes. Após quase uma hora de pedalada cheguei num local onde existia um trecho de muito barro. Parei e fiquei pensando qual seria a melhor maneira de atravessar todo aquele barro. Ao lado na estrada, dois caras descansavam em cima de um trator. Querendo me ajudar, disseram que seguindo por uma pequena estrada a esquerda e depois virando numa árvore grande que aparecia um pouco distante, eu desviaria do barro. Segui o conselho deles e fui por uma estradinha que seguia ao lado de uma cerca de arame farpado. Era tudo descida e após uns dois quilômetros cheguei na tal árvore. Virei a direita, atravessei um canavial e cheguei a um pasto, com porteira fechada e cheio de vacas. Não achei boa idéia atravessar tal pasto, pois vi dois touros com cara de poucos amigos. Dali resolvi retornar até onde tinha desviado da estrada. Sei que nessa brincadeira perdi quase uma hora e pedalei 5 km a toa. Quando cheguei novamente no local cheio de barro, os caras do trator não estavam mais lá. Fiquei na dúvida se a informação deles era com intenção de me ajudar ou de me sacanear. Prefiro pensar que queriam ajudar. Então o jeito foi atravessar o trecho cheio de barro. Foi a maior dificiculdade, não dava para passar pedalando e tive que empurrar a bike. O barro grudava nos pneus, nos freios e se acumulava entre o pneu traseiro e o bagageiro, fazendo com que o pneu travasse e ficasse pesado para empurrar a bike. Depois de atravessar esse trecho, ainda perdi um bom tempo para tirar o barro da bike.
Após sair do trecho com barro, passei a pedalar por uma estrada melhor. Logo avistei algumas araucárias, sinal de que estava entrando numa região de serra, com altitudes mais elevadas. Na verdade eu estava nos arredores da Serra da Mantiqueira e nos dias seguintes atravessaria várias regiões de serra, com muitas subidas. Mais um pouco de estrada e cheguei numa igrejinha simpática, num local chamado Santana. Parei para descansar e depois rezei um pouco aos pés de uma pequena imagem de Cristo. Acabei pisando num formigueiro e levei diversas picadas nas pernas. Minhas pernas que já estavam marcadas com cortes provocados por mato, picadas de mosquitos e arranhões diversos, ficou ainda mais cheia de marcas. O sol começou a sumir e nuvens de chuva surgiram. Então achei melhor pegar a estrada novamente. Comecei a subir e olhando no guia vi que essa seria umas das maiores subidas que encontraria pelo caminho. Tive que empurrar a bike e logo meu estoque de água acabou. Era o primeiro dia que pedalava sob sol e com calor forte, então consumi mais água do que nos outros dias. Sabia que quase no final dessa enorme subida ficava a Pousada da Dona Cidinha, onde encontraria água.
Após sofrer um monte empurrando a bicicleta morro acima e com a boca seca pela sede, finalmente cheguei a Pousada da Dona Cidinha, debaixo de uma garoa fina. A Dona Cidinha não estava, quem me atendeu foi o Seu Francisco, marido dela. Tomei dois Gatorade extremamente gelados e isso aliviou minha sede. Como almoço comi queijo caipira com docê de banana caseiro. Não queria comer muito, pois logo voltaria para a estrada, mas o queijo estava tão bom que comi a metade. Conversei mais um pouco com o Seu Francisco, que contou que o pai dele teve terras em Campo Mourão, nos anos cinquenta. Refiz meu estoque de água e aproveitei para levar as duas garrafinhas de Gatorade, também com água. O local da pousada é bonito, fica no alto e da para ter uma visão ampla da região. Ao longe dava para ver a chuva caindo e resolvi voltar logo para a estrada e tentar fugir da chuva. Despedi-me do Seu Francisco prometendo voltar ali um dia.
A enorme subida logo chegou ao fim e finalmente peguei algumas descidas e retas. Passei por uma pequena ponte onde a água estava quase passando por cima, em razão da quantida enorme de chuva dos últimos dias. Depois percorri uma região muito bonita, com pequenas descidas e subidas. Então vi um bando de papagaios numa árvore. Parei e contei, eram vinte e dois. Eles se assustaram e sairam voando em bando, fazendo a maior algazarra. Pouco mais a frente vi alguns tucanos e diversos outros passarinhos. Cheguei numa nova subida e um carro que vinha descendo parou ao meu lado e o motorista falou que eu teria muita dificuldade para passar por ali. Respondi que estava acostumado com as dificuldades do caminho e segui em frente. Mas a subida era bem pior do que eu esperava. Era quase uns quinhentos metros de muito barro, que além de ser escorragadio grudava na bike fazendo com que ela travasse. Tive que fazer muita força para seguir em frente. Chegou um momento em que eu olhava uns dez metros a frente, marcava mentalmente um ponto e fazia o maior esforço para chegar até o tal ponto marcado. Tive que ter muita força de vontade para superar esse trecho. Não foi nada fácil, mas em nenhum momento me arrependi de estar ali. Igual na vida eu sabia que mesmo diante das maiores dificuldades, temos que ser fortes e seguir em frente custe o que custar. Atravessar aquele trecho de estrada foi uma grande lição para mim. Essa subida foi um dos piores momentos de toda a viagem pelo Caminho da Fé. Quando cheguei ao final da subida estava exausto, mal conseguia dar um passo mais. Descansei um pouco, subi na bike e reuni forças para continuar pedalando.
Pedalei mais um tempo por pequenas subidas e descidas, com curtas retas. Finalmente cheguei numa estrada asfaltada, no alto de uma serra, a Serra da Fartura. O guia dizia que dali para frente seria somente descida, até chegar a pequena cidade de São Roque da Fartura, onde passaria a noite. Mal comecei a pedalar pela estrada asfaltada e começou a chover. Desci a serra correndo muito, mesmo debaixo de chuva. Logo comecei a sentir muito frio, a chuva era gelada. Cheguei a atingir 50 km/h e tomei todo o cuidado para não derrapar nas curvas e cair. Quase chegando na cidade, o proteror solar que tinha passado no rosto, derretou com a chuva e foi parar nos meus olhos, ardendo muito e me deixando cego por alguns instantes. Eu vinha muito rápido e tive que parar sem enxergar nada, quase caindo num barranco. Lavei os olhos com água e voltei a pedalar. Ao chegar na entrada de São Roque da Fartura, a chuva parou e surgiu um belo arco-íris. A cidade é bem pequena, com poucas ruas e muita gente ficou me olhando passar. Parei em frente a igreja e me sentei na escadaria para descansar um pouco. Estava todo molhado, sujo e morrendo de frio. Olhei no guia e descobri que a pousada onde ia pernoitar era quase dois quilômetros depois da cidade. Então não perdi tempo e segui em frente.
Na saída da cidade peguei uma estrada de terra, numa região bonita, que com o arco-íris formava um quadro muito lindo. Para terminar bem o dia uma grande subida, onde empurrei a bike com as últimas forças que me restavam. Então finalmente cheguei a Pousada da Dona Cida. Ela estava sentada em frente sua casa e me recebeu muito bem. Mostrou-me onde ficava o quarto coletivo com vários beliches, me deu algumas dicas sobre o funcionamento da pousada e liberou um local para eu lavar a bike e minhas coisas, que estavam cheias de barro. Tirei tudo da bike, separei o que estava muito sujo e fui lavar tudo com um forte jato de água. A Dona Cida saiu para ir a igreja e me deixou sozinho na pousada, dizendo que se eu precisasse de algo podia entrar em sua casa e pegar. Fiquei admirado com a confiança depositada em uma estranho e fui terminar de lavar minhas coisas. Depois tomei um delicioso banho, tirei o barro acumulado em meu corpo, escolhi uma cama confortável e me deitei. Estava completamente exausto, nesse que tinha sido até então o dia mais difícil de toda a viagem.
Acordei um tempo depois com a Dona Cida me chamando para jantar. Fazia frio, pois a região é de serra e com a chuva que caiu a tarde, a temperatura despencou. Subi até a casa da Dona Cida e jantei em sua cozinha. Depois conversei um pouco com ela e seu marido. Ela me contou que tinha recebido uma ligação de Águas da Prata, da sede do Caminho da Fé e que tinham informado a ela que o trecho do caminho que eu teria que passar no dia seguinte estava impedido em razão das chuvas. Então o marido da Dona Cida me explicou o caminho que deveria fazer na manhã seguinte, todo ele em estrada asfaltada. Fiquei um pouco chateado em ter que sair do Caminho da Fé, principalmente em um trecho que dizem ser muito bonito e onde existe um conhecido mirante. Despedi-me dos dois e voltei para o quarto, onde logo me deitei. Estava muito cansado e com o frio que fazia peguei no sono rapidamente.
“‘E que o peregrino, mesmo cansado, inquieto sempre, possa ser dos que seguem o caminho mais incerto e mais belo, mesmo que o horizonte seja longínquo.”
(Autor Desconhecido)
Acordei às 6h00min, quando meus companheiros de quarto levantaram para começar a caminhar. Despedi-me deles e voltei a dormir. Acordei novamente às 9h00min, chovia fino e resolvi dormir mais um pouco. Uma hora depois levantei e fui me arrumar para pegar a estrada. Foi então que descobri o pneu traseiro da bike furado. Na hora lembrei-me do que o dono da bicicletaria em Tambaú tinha me falado no dia anterior e lamentei não ter escutado o conselho dele e trocado o pneu. Eu tinha câmera nova e bomba para encher, mas trocar pneu traseiro não é meu forte, pois é mais complicado. Era feriado de carnaval e dificilmente encontraria algum lugar aberto onde pudesse trocar o pneu. Fui tomar café e fiquei pensando no que fazer. Uma opção era ficar ali mais um dia, onde aproveitaria para descansar e também participaria do retiro de carnaval, que estava sendo interessante. Conversei com algumas pessoas e fiquei um tempo sentado numa escada pensando no que fazer. Até que decidi pegar estrada, mesmo que empurrando a bike, e tinha esperança de que em algum lugar da cidade poderia encontrar ao menos uma borracharia aberta, onde pudesse consertar o pneu.
Eram 11h00min quando me despedi de algumas pessoas e saí empurrando a bike. A chuva tinha dado uma trégua quando saí do Santuário. Andei menos de dois quarteirões e um motoqueiro parou ao meu lado e perguntou se eu estava fazendo o Caminho da Fé. Ele disse que me viu saindo do Santuário com o pneu da bike furado e veio tentar ajudar. O nome dele era Carlos, ex-jogador de futebol e que agora trabalha como preparador físico em clubes profissionais. Ele saiu com a moto à procura de alguma borracharia aberta e eu continuei descendo uma rua. Logo passei em frente a um Lava Car, que era talvez o único comércio aberto naquele dia. O dono do Lava Car estava sentado na porta do estabelecimento e perguntou se eu tinha como consertar o pneu. Respondi que tinha uma câmera nova e ele se propôs a fazer o conserto. Logo o Carlos voltou e contou que tinha encontrado um local para consertar o pneu, mas já que eu tinha conseguido resolver o problema, estava tudo bem. Ele conhecia o Evandro, dono do Lava Car. Ficamos conversando os três, enquanto o Evandro realizava o conserto do pneu e ao terminar perguntei quanto era o serviço. A resposta do Evandro foi que não era nada. Perguntei se ele tinha certeza disso e ele respondeu que sim, que era cortesia. Agradeci, despedi-me dos dois e segui viagem, feliz por ter resolvido o problema e por mais uma vez ter encontrado pessoas boas que me ajudaram.
Atravessei o centro da cidade e logo cheguei a uma espécie de parque, bastante arborizado, o qual atravessei seguindo as setas amarelas de sinalização do Caminho da Fé. Depois atravessei uma rodovia e cheguei a um bairro periférico. Passando pelo bairro atravessei por baixo de um viaduto e entrei numa estrada de terra. Não percorri um quilometro pela estrada de terra e começou a chover. Parei para colocar a capa no alforje e a capa de chuva em mim. A chuva ficou muito forte. Segui pedalando e logo entrei por alguns carreadores e atravessei propriedades particulares por uma trilha estreita e cheia de mato. Meu freio ainda estava ruim e tive que tomar muito cuidado para não sofrer algum tipo de acidente e também utilizei muito a sola do pé como freio. Acabei passando por mais uma rodovia, atravessei mais uma propriedade e entrei numa rodovia maior. Fui pedalando pelo acostamento, na contramão e com chuva pela frente. Tinha percorrido dez quilômetros desde Casa Branca, quando o pneu traseiro furou novamente. Eu estava no meio do nada, numa rodovia, debaixo de muita chuva e não tinha como fazer novo conserto no pneu. Restavam-me duas opções; voltar 10 km até Casa Branca e esperar o dia seguinte para trocar o pneu, ou então empurrar a bike pelo próximos 22 km até a cidade de Vargem Grande do Sul, meu próximo destino. Escolhi a segunda opção e passei a empurrar a bike pelo acostamento, com chuva. Quem passava de carro devia pensar que eu era meio maluco ou então deviam ficar com pena de mim.
Empurrei a bike por quase uma hora, até que ao chegar a um pedágio, as setas indicavam que eu deveria virar a esquerda e seguir por uma estrada de terra. A chuva parou, mas mesmo assim a estrada estava bastante embarreada e empurrar a bike por ela não era tarefa fácil. E assim segui por vários quilômetros, no meio de canaviais. Até que cheguei a uma porteira e tanto as setas amarelas de sinalização, quanto o guia, diziam que eu devia atravessar um pasto e tomar cuidado com as vacas. Não gostei muito da idéia, principalmente quando vi a quantidade de vacas e a mistura de barro com bosta de vaca, por onde teria que passar. Mas o negócio era seguir em frente e foi assim que fiz. Tomei todo o cuidado para não assustar ás vacas e fui empurrando a bike pelo meio da grama e do barro misturado com bosta de vaca. Teve um momento que foi engraçado, quando umas vinte vacas ficaram enfileiradas ao lado do caminho me vendo passar. Conforme fui avançando pelo pasto pude perceber que o caminho ficava cada vez pior e logo a trilha desapareceu debaixo da água. Eu teria que passar por uma trilha cercada por dois lagos e um banhado, que com a chuva constante dos últimos dias deixou a trilha submersa. E ao lado, um pouco longe vi um touro com cara de poucos amigos. Fiquei de olho no touro e tomei cuidado para não entrar por engano em uma área onde o touro pudesse me alcançar. Sei que atravessar esse trecho de banhado foi um dos piores momentos de todo o Caminho da Fé. Em alguns trechos tive que levantar a parte traseira da bike, para que o alforje não fosse atingido pela água. Foi bastante cansativo e desgastante passar por esse local. Penso que deveria existir alguma outra opção de caminho para se evitar esse pasto cheio de vacas, principalmente em dias de chuva. Finalmente cheguei ao final do pasto e passei por outra porteira. Atravessei uma ponte rústica e passei a caminhar novamente pelo meio de um canavial.
A chuva ia e voltava, mas de forma fraca. E eu seguia empurrando a bike pelo meio do barro. Ao atravessar outro canavial vi dois animais pretos cruzarem a estrada logo a minha frente, mas foi tão rápido que não tive tempo de tirar uma foto. Não sei dizer que animais eram. Pareciam com ariranhas, mas como não tinha nenhum rio por perto, não posso afirmar que eram ariranhas. Um pouco mais a frente, ao entrar em mais um canavial, um urubu levantou vôo bem a minha frente e levei o maior susto. Devo ter xingado até a quinta geração do tal urubu. Mais um tempo e saí do meio dos monótonos canaviais, atravessei algumas porteiras de arame farpado e entrei numa propriedade particular. Tive que atravessar um longo pasto, onde quase não existia mais trilha e onde era difícil empurrar a bike com o pneu furado. Passei ao lado de algumas casas abandonadas e saí por nova porteira, seguindo então por uma estrada. A chuva voltou e passei ao lado de uma plantação de abobrinhas. Logo passei por algumas goiabeiras carregadas, bem ao lado da estrada. Como não gosto de goiabas, nem perdi tempo tentando colher alguma.
Passava um pouco das 17h00min quando cheguei à periferia da cidade de Vargem Grande do Sul. Tive que atravessar um lamaçal terrível bem na entrada da cidade. Logo entrei no asfalto e ficou mais fácil empurrar a bike. Passei por um Cristo, numa praça da cidade e parei para tirar fotos. Depois cheguei a um descida enorme, de onde se tinha uma visão muito bonita da cidade. Tirei a câmera para bater uma foto e ela escorregou de minhas mãos e saiu deslizando pelo asfalto molhado. Fui pegá-la achando que tinha quebrado, mas felizmente estava inteira, apenas com vários arranhões. Empurrei a bike por mais alguns quarteirões e finalmente cheguei à pousada que o guia indicava. Na verdade era um hotel e ficava dentro de um Posto de Gasolina. Eu estava todo molhado e embarreado quando entrei na recepção do hotel. O recepcionista deve estar acostumado a receber pessoas naquelas condições, pois nem ligou para meu estado e logo me arrumou um quarto e liberou a lavanderia do hotel para que eu guardasse a bike. Pedi permissão e aproveitei para utilizar o tanque e lavar meu tênis e a roupa cheia de barro. Minhas meias achei melhor jogar no lixo. Eram novas, sem furos, mas estavam tão encardidas que nem valia a pena lavar. Conversei um pouco com o recepcionista e ele me contou que os dois rapazes com quem dividi o quarto na noite anterior, tinham chegado ao hotel no meio da tarde e deviam estar dormindo. Ele também contou algumas histórias sobre os peregrinos que passam pelo hotel. O mais interessante foi saber que às mulheres, principalmente as de mais idade, quando chegam ao hotel, a primeira coisa que fazem é pedir uma cerveja.
Entrando no quarto tirei todas as coisas do alforje e a distribui pelo quarto. Então liguei o ventilador de teto bem forte para que o vento pudesse secar minhas coisas. Em seguida tomei um banho quente, onde pude tirar todo o barro acumulado, principalmente em minhas pernas. Já limpinho e cheirosinho caí na cama e dormi um pouco, pois empurrar a bike por 22 km tinha sido muito cansativo. Levantei duas horas depois e fui até uma lanchonete próxima ao hotel, onde jantei. A chuva tinha retornado e logo voltei para o hotel, para a cama e dormi cedo.
“Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.”
Estou relendo o livro On The Road, que é um grande clássico norte americano. Estão fazendo uma versão para o cinema, com direção do brasileiro Walter Salles, e espero que o filme seja tão bom quanto o livro. No elenco do filme aparecem alguns nomes conhecidos, como: Kristen Stewart, Amy Adams, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Garrett Hedlund, Alice Braga e Sam Riley.
On The Road (Pé na Estrada) é considerado a obra prima de Jack Kerouac, um dos principais expoentes da Geração Beat*, sendo uma grande influência para a juventude dos anos 60, que colocavam a mochila nas costas e botavam o pé na estrada. Foi lançado nos Estados Unidos, pela primeira, vez em 1957. Responsável por uma das maiores revoluções do século XX, On The Road escancarou ao mundo o lado divertido da experiência da vida americana, a partir da viagem de dois jovens (Sal Paradise e Dean Moriaty) que atravessaram os Estados Unidos de costa a costa. Acredita-se que Sal Paradise, o personagem principal, seja o próprio Jack Kerouac. É um livro que influenciou a música, do rock ao pop, os hippies e, mais tarde, até o movimento punk. E confesso que também fui um pouco influenciado, pois desde a primeira vez que li o livro, tenho colocado cada vez mais o “pé na estrada”.
*O termo Geração Beat (Beat Generation em inglês), foi criado por Jack Kerouac por volta de 1948. Era formado por um grupo de jovens intelectuais norte americanos, que cansados da monotonia da vida ordenada e da idolatria à vida suburbana do pós-guerra, resolveram, regados a jazz, drogas, sexo livre e pé na estrada, fazer sua própria revolução cultural por meio da literatura. O tempo passou e o ideal de liberdade foi assimilado, e um momento importante desse ideal foram os três dias do festival de Woodstock e seu público de meio milhão de pessoas.
Ontem fui no show do Capital Inicial, em Cianorte. Fui com a Andréia, que é sempre garantia de boa companhia. O show foi bastante animado, o Capital Inicial cantou antigos sucessos e também algumas músicas novas.
“O verdadeiro peregrino sabe por que caminha, mas pensa que não sabe. E por ser chamado à peregrinação, acaba identificando o que já sabia, pois tinha na mente e veio à luz, na poeira do caminho.”
(Luiz Carlos Marques da Silva)
Acordei ás 07h00min com o barulho de uma mensagem chegando pelo celular. Era minha amiga Liliam me mandando tomar cuidado, pois tinha tido um sonho ruim comigo. Confesso que isso me deixou preocupado, mas mesmo assim voltei a dormir. Levantei tarde, com preguiça, talvez por ser segunda-feira. Arrumei minhas coisas e desci para a garagem do hotel pegar a bike. O dono do hotel foi junto e me ajudou a colocar as coisas na bike. Saindo do hotel pedalei 200 metros e parei numa bicicletaria. Comprei óleo para lubrificar a corrente e pedi para o dono da bicicletaria regular o freio e as marchas que estavam escapando. Ele regulou tudo e não cobrou pelo serviço. Então ele disse que seria bom eu trocar o pneu traseiro, que estava meio ruim para enfrentar trechos com muita pedra que viriam pela frente. Agradeci o conselho e respondi que trocaria o pneu mais para frente.
Parei na igreja do Padre Donizete, um milagreiro local que está em processo de canonização para virar santo. Tirei algumas fotos e peguei água para a viagem num local com gamelas estilizadas, algo muito bonito. Precisava pegar o carimbo em minha credencial do Caminho da Fé, pois no hotel não tinham o carimbo. O local onde encontraria o carimbo seria na Secretaria de Turismo, que ficava ao lado da igreja. Era segunda-feira de carnaval e seria esperar demais encontrar uma repartição pública aberta. Então entrei na igreja pedir informação sobre o carimbo e fui recebido de forma muito atenciosa por um padre. Ele me deu um forte abraço e disse para eu ir até uma loja que vende artigos religiosos, no outro lado da rua, que o carimbo estava lá. Fui até a loja e uma moça muito simpática carimbou minha credencial. Ela me deu de presente duas relíquias do Padre Donizete. Na verdade trata-se de um santinho plastificado, onde de um lado tinha duas orações e do outro lado a imagem do Padre Donizete e um pedacinho de pano, que fazia parte do pano que envolveu os ossos do Padre Donizete quando o mesmo foi exumado e teve seus ossos transferidos do cemitério da cidade, para a igreja que leva seu nome. É uma exigência do Vaticano que pessoas em processo de santificação tenham seus restos mortais sepultados dentro de igrejas. Ainda na loja duas senhoras vieram perguntar se eu estava fazendo o Caminho da Fé. Daí disseram que eu era corajoso por fazer o caminho sozinho, me desejaram sorte e pediram que orasse por elas em Aparecida. Coloquei um dos santinhos do Padre Donizete na bolsa de guidão, sob um plástico transparente o que tornava o santinho visível para todos. Esse santinho ficou ali até o final da viagem.
Saindo da loja atravessei a praça da igreja e do outro lado da rua parei numa lanchonete fazer um lanche, que seria meu almoço naquele dia. Pouco depois do meio dia iniciei minha pedalada do dia. O tempo estava nublado e sem chuva. Pedalei por cerca de um quilômetro pela cidade e ao passar em frente ao cemitério fiquei curioso para ver o antigo túmulo do Padre Donizete. Entrei no cemitério, o segurança da entrada ficou cuidando de minha bike e após caminhar poucos metros vi o túmulo do padre, que se destacava entre os demais. O túmulo é todo em vidro e mesmo com os restos mortais do padre não estando mais ali, o túmulo foi mantido como era e recebe muitos visitantes. O lugar onde ficava o corpo está vazio e coberto com uma tampa de vidro. A tampa estava toda embaçada, úmida por dentro. Pensei que o motivo seria a chuva dos últimos dias, mas depois fiquei sabendo que tal fenômeno é permanente. Mistério? Causa física? Não sei! Tem certas coisas que prefiro não saber os motivos. Saí do cemitério e voltei a pedalar.
Logo na saída da cidade tem uma ponte e ao lado um pequeno portal do Caminho da Fé. O caminho segue por um pinguela, que estava bastante escorregadia. Olhei no guia, que dizia que era para atravessar o rio pela pinguela e seguir pela direita dentro da propriedade ao lado da plantação e paralelo a estrada de terra. Foi o que fiz e ao atravessar a pinguela quase que a bicicleta fica entalada entre dois tocos, por culpa dos alforjes laterais. Comecei a percorrer um trilha tomada pelo mato e com muito barro. Tive que empurrar a bike e conforme avançava a vegetação ia ficando mais densa e empurrar a bike foi ficando difícil. Ao lado tinha um rio com muita vegetação e diversas espécies de pássaros, algo muito bonito. A trilha foi desaparecendo no meio da vegetação. Para um caminhante passar ali era interessante, já para um ciclista era terrível. Tentei seguir pelo lado do canavial que ficava próximo, mas logo me cortei com folhas da cana e fulo da vida decidi parar. Peguei o guia, li e reli para ver se tinha pegado o caminho errado. Pelo guia eu tinha seguido pelo caminho correto, mas não dava para seguir em frente. Raciocinei um pouco e resolvi voltar até a pinguela e tentar seguir pela estrada de terra paralela a plantação. Com muito esforço atravessei o mato e cheguei até a pinguela. Dali passei por um barreiro e alcancei a estrada de terra. Então vi as setas amarelas que indicam o Caminho da Fé pintadas em um poste e numa cerca. Ali entendi que não daria para confiar cem por cento no guia e também que o portal e a pinguela são bonitinhos, mas inúteis. Devia ter algum aviso informando que somente caminhantes deveriam seguir pela pinguela e entrar na propriedade ao lado, e que ciclistas deveriam seguir pela ponte ao lado e virar a direita na estrada de terra. Isso teria me poupado meia hora de tempo perdido e esforço físico inútil. Sem contar que me cortei e ganhei vários arranhões nos braço e pernas por andar pelo mato e no canavial. E parar piorar ainda mais as coisas, entrou mato na coroa e catraca da bike. Levei meia hora par conseguir tirar o mato. No final das contas tinha perdido uma hora e me ferrado um monte por culpa da sinalização equivocada naquele trecho e do guia que não foi nada prático nas informações.
Ainda bravo subi na bike e comecei a pedalar. Não andei 300 metros e começou a chover. Coloquei a capa de chuva e segui em frente, ainda bravo. Logo cheguei a umas subidas com muita lama. Numa delas o pneu traseiro patinou dando um giro de 360 graus sobre o eixo. Desde criança ando de bicicleta e nunca tinha visto um pneu girar dessa forma. Segui em frente e logo descobri que estava juntando lama em várias partes da bike, inclusive no sistema de freios, que passou a não funcionar corretamente. Logo tive outro problema com o guia, que dizia sobre uma cerca a direita, quando eu só via uma cerca a esquerda e na frente dela uma placa do Caminho da Fé com uma seta amarela. Fiquei um tempo lendo as instruções no guia e entendi que logo mais a frente o caminho retornaria a estrada em que eu estava. Para não me meter em outra furada, resolvi ignorar o guia e não entrar pela tal cerca. Segui pela estrada e cada vez surgia mais lama e poças d’agua. Com o freio ruim, nas descidas todo cuidado era pouco. Comecei a utilizar uma técnica do MotoCross, usando uma perna como apoio e equilíbrio, tocando o pé no chão. Com o cambio regulado as marchas não escapavam mais e dessa forma conseguia pedalar em subidas leves que nos dias anteriores eu teria que descer da bike e seguir a pé.
A chuva foi aumentando e a estrada ficando cada vez mais intransitável. Em dado momento entrei muito veloz em uma curva cheia de lama e fui derrapando lateralmente de um lado ao outro da estrada, sem conseguir parar. Até agora não entendo como não caí. Por sorte não vinha nenhum carro, senão seria acidente na certa. Segui mais um tempo por essa estrada ruim e de repente numa curva me deparei com uma estrada asfaltada. E para melhorar ainda mais a situação, a chuva parou. Não fiquei pedalando muito tempo no asfalto e logo após atravessar uma ponte a setas indicavam para virar a esquerda e descer por uma estrada de terra, no meio de um canavial. Na verdade não era terra, mas sim areia vermelha, areião.
Estava seguindo tranquilamente pela estrada e dessa vez sentindo calor, pois com o fim da chuva ficou muito abafado, sinal de que até o final do dia choveria forte novamente. Passei ao lado de uma fazenda e vi na estrada um cachorro enorme. Ao me ver, o cachorro se espreguiçou e ficou parado. Quando passei por ele o cão começou a latir e a correr atrás de mim. Levantei a perna esquerda do pedal e coloquei sobre o guidão como forma de proteção. Então ouvi latidos vindos da fazenda, do outro lado e quando olhei vi um cachorro ainda maior passar pela cerca de arame farpado e vir correndo atrás de mim. Tirei a outra perna do pedal e tentei me equilibrar sobre a bike. Era descida, a velocidade era alta e a bike seguiu derrapando na lama. O coração estava na boca e a única coisa que consegui pensar foi que se eu caísse fatalmente seria devorado pelos cães ferozes. Por sorte eles logo desistiram da caçada. Então olhei para o lado e vi logo a frente uma pequena igrejinha ao lado do canavial. Resolvi parar ali e após me certificar que os cachorros tinham ido realmente embora, sentei-me na porta da igreja para descansar, beber água e me recuperar do cagaço pelo qual tinha acabado de passar.
Logo voltei a pedalar e comecei a ver ao longe a chuva caindo. Saí do meio do canavial e entrei numa região de mata. O calorão desapareceu e passei a sentir frio no meio da mata. Não demorou muito e a chuva caiu forte. E para variar ela sempre vinha de frente, dificultando ainda mais o pedalar. Andei vários quilômetros sob chuva e logo entrei numa larga estrada de terra, cheia de poças d’agua. Andei um longo tempo por essa estrada e finalmente a chuva parou e o sol surgiu. Era a primeira vez que eu via o sol desde que iniciará o Caminho da Fé. O sol não durou nem cinco minutos e desapareceu. Começou a cair uma chuva fina e finalmente cheguei ao fim daquela estrada monótona e cheia de buracos. Ela terminava numa estrada asfaltada e as setas indicavam para eu seguir pela esquerda, por uma descida. De repente vi surgir no meio da chuva e das nuvens a cidade de Casa Branca, no alto de um morro. Esse seria meu destino final naquele dia. Aquela foi uma bela visão para um ciclista molhado, cansado e com frio.
Segui pela estrada asfaltada, numa descida longa e em curva, seguida por mais uma curva. Desci embalado e quando estava a 42 km/h descobri que os freios não estavam funcionando. Consegui não me apavorar e na hora lembrei-me de meu amigo Lucas Pierin e de tê-lo visto meses antes freando uma bike sem freio, com o pé. Na hora meti a sola do pé esquerdo no asfalto e assim consegui reduzir a velocidade e terminar a descida em segurança. Logo veio uma extensa subida, uma curva a direita e cheguei a Casa Branca. E foi chegar à cidade para cair um semi dilúvio. Fui seguindo a sinalização das setas amarelas pintadas em postes. Logo comecei a subir por um rua bastante íngreme, empurrando a bike. Ao lado da calçada descia tanta água que mais parecia uma cachoeira. Parei e lavei a bike na enxurrada, tirando todo o barro acumulado durante o dia, Também lavei meu tênis e pernas. Segui em frente e logo cheguei ao Santuário do Desterro, local onde passaria a noite. Tinha percorrido 33 difíceis quilômetros nesse dia.
Logo na entrada do Santuário existe uma igreja com uma bonita fachada, onde um mosaico mostra a fuga de Maria e José rumo ao Egito. Entrei no Santuário e logo uma pessoa veio me atender e me levou até um quarto coletivo. La já estavam dois caminhantes, Vinicius e Aluan, que faziam uma parte do Caminho da Fé a pé. Guardei a bike dentro do quarto, tomei um delicioso banho quente e arrumei e limpei minhas coisas. Depois fui andar pelo Santuário. Estava sendo realizado ali um retiro de carnaval com cerca de 150 pessoas, jovens em sua maioria. Fui até a igreja, rezei um pouco e depois fiquei olhando o local. Num canto fica a sepultura do Coronel João Gonçalves dos Santos, sua esposa e filhas. O Coronel, muitos anos antes construiu uma capela no local em pagamento a uma promessa. Com o tempo muitas pessoas iam até o local rezar e em 1936 no ali foi construído Santuário, onde no passado funcionou um Seminário. No altar da igreja está sepultado o Irmão Roberto Giovanni, ao qual são atribuídos diversos milagres e que se encontra em processo de canonização. Em uma sala próxima ao altar fica um armário onde guardam objetos e roupas que pertenceram ao Irmão Roberto, bem como objetos deixados pelos devotos como forma de agradecimento. Achei tudo aquilo muito curioso. Para quem não sabe, na Igreja Católica, Irmão é aquele que estuda, faz os votos igual um padre, mas não se torna padre, não reza missa. Após o curto passeio voltei para o quarto e dormi até a hora do jantar.
Pouco antes das 20h00min fui jantar em companhia do Aluan e do Vinicius. Jantamos com os participantes do retiro e aproveitei para conversar com algumas pessoas. A comida estava muito boa e eu com fome não me fiz de rogado e repeti duas vezes. Fui convidado para participar de uma celebração que aconteceria logo após o jantar. Aceitei o convite. Foi uma celebração interessante, com canções e uma pregação via telão, tudo muito espiritual. Teve um intervalo e fiquei conversando com uma moça chamada Michele, que me contou um pouco da história da cidade. Logo voltamos para a celebração, que terminou por volta da meia noite. Então fui dormir e lembrei-me do sonho de minha amiga Liliam, que felizmente não se concretizou, mas tinha sido por pouco, pois naquele dia eu tinha passado por vários apuros.
Igreja do Padre Donizete, Tambaú – SP.
Local para pegar água na Igreja do Padre Donizete.
“Fazer uma peregrinação é um modo de buscar respostas para nossas perguntas mais profundas. As respostas estão todas dentro de nós, mas é tão grande nossa tendência a esquecer que algumas vezes precisamos aventurar-nos a uma terra distante para despertar nossa memória. Nosso eu intuitivo se fechou; nossa luz para a transcendência se apagou.”
(Luiz Carlos Marques da Silva)
Acordei cedo e para minha decepção o tão esperado sol não deu as caras. E para piorar ainda mais, chovia a cântaros. Virei de lado e voltei a dormir, pois não estava nem um pouco a fim de sair pedalar debaixo de chuva forte. Levantei pouco antes das 10h00min, tomei café e arrumei minhas coisas. Esperei mais um tempo e ao meio dia subi na bike e saí pedalando debaixo de uma chuva fina. Ao atravessar o centro da cidade uma caminhonete parou ao meu lado e o motorista perguntou se eu estava percorrendo o Caminho da Fé. Diante de minha resposta afirmativa, ele disse que já tinha feito o Caminho da Fé oito vezes, sempre a cavalo. Desejou-me sorte e foi embora. Não demorou muito e vi em um poste a primeira seta amarela indicando a direção que deveria seguir. Quase no limite da cidade segui por uma descida íngreme e no final dela descobri que o freio traseiro não estava funcionando. Com bastante dificuldade consegui parar a bike e fui checar o freio. Nesse momento passava um senhor com dois cachorros. Ele perguntou se eu estava fazendo o Caminho da Fé e qual era o problema com a bike. Diante de minha resposta ele convidou-me para ir até sua casa que era logo ao lado e na garagem da casa consertou o freio da bike. Sua esposa e seu pai vieram me falar um “oi” e fui convidado para o almoço. Recusei educadamente, agradeci pela ajuda, despedi-me de todos e peguei a estrada. Todos os dias ao levantar faço minhas orações e peço que somente pessoas boas cruzem meu caminho. Pelo visto meus pedidos estão sendo atendidos.
Logo ao sair da cidade o asfalto terminou e entrei em uma estrada de terra. A primeira subida não demorou a aparecer. Mesmo com as marchas leves falhando e trocando sozinhas, consegui subi-la pedalando. Os primeiros quilômetros foram alternando curtas retas, pequenas descidas e curtas subidas. Parei perto de uma fazenda para descansar e um cachorro com cara de poucos amigos veio correndo e latindo em minha direção. Protegi-me atrás da bicicleta e quando o cachorro vinha de um lado, eu ia para o outro lado da bicicleta. Até parecia que estávamos brincando de pega-pega. Comecei a conversar com o cachorro até ele se acalmar e parar de latir. Então ele virou-se e foi embora. Subi na bike e saí dali o mais rápido possível. A chuva voltou forte e segui pedalando no meio do barro, tomando cuidado para não cair.
Cheguei num trecho onde se iniciou uma grande seqüência de descidas. Arrisquei bastante descendo rapidamente e se meu freio não tivesse sido consertado pouco antes, teria tido sérios problemas nesse trecho. Acabei me animando com as descidas e exagerei na velocidade. Teve um final de descida que estava muito liso, com bastante barro e não deu para frear direito. Dessa vez pensei que ia cair, cheguei a gritar “vou cair!”. O coração disparou e mesmo derrapando muito consegui sair ileso e sem cair. Depois desse apuro resolvi ser menos audacioso.
Passei por uma bela fazenda, num trecho de muito barro. Não vi ninguém, era domingo e com chuva não se via ninguém fora das casas. Passei por um bambuzal e deparei-me com uma subida bastante íngreme. Mais uma vez tive que descer e empurrar a bike. Depois da subida peguei uma longa reta e atravessei dois mata-burros. Para quem não sabe, mata-burro é uma pequena vala, ou ponte de tábuas espaçadas, que serve para evitar a passagem de animais. Após passar pelo segundo mata-burro, parei e comi algumas frutas que tinha levado para o almoço. Mordi um caqui marrento e fiquei o resto do dia com gosto ruim na boca. Em frente do lugar que parei, tinha uma fazenda com construções bem antigas. A região onde estava pertenceu no passado a barões do café. Escravos trabalhavam nos cafezais e com o fim da escravidão no Brasil em maio de 1888, muitos imigrantes italianos vieram trabalhar nas lavouras da região. Hoje em dia o café e os barões do café fazem parte da história e onde se plantava café, atualmente se planta cana ou laranja. Senti vontade de ir até a fazenda e pedir para tirar fotos das construções antigas. Mas logo mudei de idéia, pois a chuva aumentou, não vi viva alma na fazenda e fiquei com receio de ter novo problema com cachorros, já que ouvia muitos latidos vindos da fazenda.
Segui em frente, atravessei um trecho muito bonito, cercado de palmeiras. Em seguida cheguei numa estrada asfaltada, onde tive que pedalar pelo canto da pista, pois a estrada não tinha acostamento. Menos de dois quilômetros pedalando pela estrada asfaltada e voltei para uma estrada de terra, seguindo as setas amarelas que indicavam o caminho. Esse trecho era bonito, alternava pequenas subidas com pequenas descidas. Numa reta vi ao lado da estrada uma garça branca, muito bela. Ela se assustou ao me ouvir se aproximar e não deu tempo de tirar uma foto dela. Mais um pouco pedalando na lama e cheguei novamente a uma estrada asfaltada. Olhei no guia e vi que o restante do caminho seria pela estrada asfaltada, o que não era má idéia com tanta chuva que estava caindo. Essa nova estrada asfaltada também não tinha acostamento e tive que seguir bem no cantinho da pista. O interessante foi que a maioria dos carros ao passar por mim mantinham uma boa distância. Muitos carros chegavam a invadir a pista contrária para ficar bem distantes de mim. Apenas um ou outro FDP é que passavam muito perto, mas eu estava esperto e em nenhum momento corri algum tipo de risco. Logo entrei em uma região de serra, com muitas descidas no início. Tomei cuidado para não correr muito, principalmente nas curvas, pois com a pista molhada seria fácil derrapar e cair. Desci o tempo todo com os olhos no odômetro e quando atingia a velocidade de 40 km/h, metia a mão no freio, pois 40 km/h era meu limite de segurança naquela estrada. Passei em um trecho que tinha tanta água na pista que a roda da frente jogava água em meu rosto, me obrigando a manter a boca fechada para não engolir água suja. Como tudo que desce tem que subir, logo cheguei a um trecho de muitas subidas. O jeito foi descer e empurrar a bike.
Terminando o longo trecho de subidas, surgiram novas retas e descidas. Ao longe avistei a cidade de Tambaú, meu próximo destino. Na parte final peguei chuva e vento de frente. Senti muito frio, pois estava completamente molhado. Para quem estava resfriado na semana anterior, chuva e frio não faziam nada bem. Cheguei à conclusão de que pedalar com a capa de chuva não resolve muito. Em vez da capa de chuva deveria ter levado um anorak ou então um casaco impermeável. Outro problema a resolver em futuras viagens de bike é a questão do calçado. Com chuva o tênis fica ensopado. Talvez um tênis ou sapatilha impermeáveis resolvam tal problema. De qualquer forma essa viagem é mais um aprendizado, visando viagens maiores no futuro.
Passava um pouco das 16h00min quando cheguei a Tambaú. As setas que indicavam o caminho, de repente seguiam por uma escada ao lado da estrada. Mesmo sendo poucos degraus, foi bastante sofrido subir pela escada com a bike carregada. Logo depois vi que o caminho seguia por uma rua paralela a estrada por alguns metros e depois virava em direção à cidade. Nessa hora xinguei o autor do guia. Bem que ele podia ter colocado isso no guia, que somente os caminhantes deveriam subir a escada e que os ciclistas deveriam seguir mais uns metros pela estrada e depois virar, seguindo em direção a cidade. Isso teria poupado um esforço enorme, principalmente no meu caso que tenho duas hérnias de disco. Em outros momentos da viagem também achei o guia falho. Ele deveria separar melhor as informações para ciclistas e caminhantes.
Segui pedalando pela periferia da cidade e logo cheguei à catedral. Tirei a já tradicional foto em frente à igreja e fui para um hotel ali perto. Estava morrendo de frio. No hotel me dediquei à rotina de tirar o equipamento da bike, limpar o barro e colocar o que estava molhado para secar. Em seguida banho quente e cama. No final da tarde saí debaixo de chuva à procura de um local para lanchar. Tive que andar um monte até encontrar um lugar aberto. Lanchei e voltei para o hotel, onde coloquei o diário de viagem em dia. Próximo ao hotel estava tendo carnaval de rua e o barulho estava incomodando. Fechei bem as janelas do quarto para não ouvir as horríveis músicas carnavalescas e fui dormir, mais uma vez sonhando com um amanhecer ensolarado no dia seguinte.
“A motivação dos peregrinos foi sempre múltipla: prestar homenagem, pagar uma promessa, fazer uma purificação, cumprir uma pena ou rejuvenescer espiritualmente. A jornada começa por nosso desassossego, um estado de perturbação. Alguma coisa está faltando à vida. O ritual da peregrinação tenta preencher esse vazio.”
(Luiz Carlos Marques da Silva)
Acordei cedo e vi que a chuva não tinha parado, então voltei para a cama. Dormi mais um pouco e depois levantei e saí para a rua. Lanchei e logo voltei para o hotel, pois a chuva não dava trégua. Arrumei minhas coisas, paguei a conta do hotel, carimbei minha credencial do Caminho da Fé e fui pegar a bike no depósito. Estava arrumando ás coisas na bike quando apareceu uma funcionária do hotel e perguntou de onde eu era. Respondi e ela ficou toda contente em saber que sou do interior do Paraná, pois ela é de Maringá e vive faz muitos anos no interior de São Paulo.
Passava um pouco do meio dia quando subi na bike e peguei a estrada debaixo de muita chuva. Segui por algumas ruas dentro da cidade e logo cheguei numa grande ponte. Atravessei a ponte e logo visualizei pintadas em alguns postes de energia as setas amarelas que indicam a rota do Caminho da Fé. Nos dias seguintes tive que ficar sempre atento buscando as tais setas amarelas para não errar o caminho. Passei por um trevo e enfrentei a primeira subida do dia. Cheguei a uma rodovia, a qual atravessei com todo o cuidado, pois o movimento de veículos era grande. Entrei numa estrada estreita e vi uma placa informando que era proibido o tráfego de bicicletas. Ignorei tal placa e segui pedalando pelo cantinho da pista, bem por onde descia uma forte enxurrada. Logo saí dessa estrada, virei à esquerda e entrei numa estrada de terra. Foi então que as dificuldades começaram para valer. Tinha muitas poças d’agua na estrada e em alguns locais forte enxurrada e trechos de areia onde a bike quase parava atolada. Nas descidas era preciso frear, pois em alta velocidade a bike derrapava e o risco de sofrer uma queda era enorme.
A chuva não dava folga e logo cheguei numa subida onde tive que descer e empurrar a bike. Fui prestando atenção nas setas amarelas que indicavam o caminho e logo vi uma placa do Caminho da Fé que indica qual a distância que faltava até chegar a Aparecida. Percebi que ainda teria muito chão pela frente até chegar a Aparecida, mas isso não me desanimou. O que me desanimava era a chuva que não parava. Teve um trecho onde tive que atravessar uma enorme poça d’agua que tomava conta de toda a estrada. A poça era funda e ao atravessá-la a água chegou até meus pés e quase não consigo passar pedalando por ela. Tempos depois cheguei num local cheio de laranjais. As laranjas estava todas verdes. Andar por ali quando as laranjas estão maduras deve ser muito bonito. Após ter pedalado dez quilômetros foi que passou o primeiro carro por mim. Até ali não tinha visto nenhuma pessoa ou carro. Ao lado da estrada vi uma pequena capela e parei para tirar fotos e orar. Nos dias seguintes veria muitas capelas desse tipo ao lado da estrada. Bater fotos com chuva era uma operação complicada, pois não queria molhar a câmera nova. Após bater algumas fotos segui viagem e logo cheguei numa propriedade, onde de um lado da estrada havia duas casas e do outro lado um curral com bois. Fiquei com receio de ter errado o caminho e parei para pedir informação a um senhor que tratava os animais no curral. De onde ele estava respondeu que era para eu seguir em frente. E foi o que fiz, segui em frente, cada vez com a estrada mais enlameada.
Cheguei a uma subida e resolvi descer da bike. Empurrá-la era mais fácil no meio de tanto barro. Quando voltei a pedalar descobri que por culpa do excesso de água e de areia, o câmbio da bike se tornara totalmente automático, ou seja, trocava marchas sozinho, principalmente as marchas leves que utilizo nas subidas. Logo cheguei à primeira de muitas pequenas e grandes serras que encontraria pelo Caminho da Fé. Essa era uma serra pequena e enfrentei uma subida enorme empurrando a bike sob vento e chuva, tarefa que não foi das mais fáceis, pois eu escorregava no barro. Enquanto seguia empurrando a bike morro acima me lembrei da Trilha Inca e de sua suas muitas subidas, que enfrentei em janeiro último. A diferença era que dessa vez não carregava o peso nas costas, mas sim empurrava o peso. E o principal era o ar não ser rarefeito. Então eu estava no lucro! Quando cheguei ao final da subida encontrei um morador caminhando pela estrada. Começamos a conversar e segui empurrando a bike ao lado dele por um bom tempo. O nome do tal senhor era Pedro e ele foi me contando sobre sua vida e sobre alguns projetos ecológicos que estava desenvolvendo. A conversa estava interessante e ao chegarmos ao asfalto e trevo de acesso a cidade de Santa Rita do Passa Quatro, nos separamos. Ali nos despedimos e seu Pedro pediu que chegando a Aparecida eu fizesse uma oração por ele e pelos seus projetos.
A chuva voltou forte e segui pedalando pelo asfalto. A estrada não tinha acostamento, então segui pelo canto da estrada por razões de segurança. Peguei algumas descidas e atingi velocidades maiores, mas em contrapartida o vento e a chuva me fizeram sentir muito frio. Logo cheguei ao bonito portal de entrada da cidade de Santa Rita. Segui por uma avenida e logo cheguei à catedral da cidade. Tirei fotos e utilizando o guia encontrei um hotel próximo ao centro. Entrando no quarto do hotel tirei minhas coisas da bike e limpei o que estava sujo de barro. Depois tomei um longo banho quente e deitei para descansar. Tinha feito somente 20 quilômetros, mas levando em consideração que tinha começado a pedalar depois do almoço, que choveu o tempo todo e que ainda estava me adaptando a pedalar com peso, até que foi uma boa quilometragem. Meu cronograma de viagem já estava atrasado no segundo dia, mas diante das dificuldades que a chuva constante e o barro causavam, o jeito era seguir em frente com segurança, mesmo que de forma lenta.
No final da tarde saí dar uma volta pelo centro da cidade. Chamou-me atenção as várias casas e casarões antigos, tudo muito bonito e bem cuidado. Bati algumas fotos em frente à catedral e entrei para orar. A catedral é jesuíta e por dentro muito bonita, com belos vitrais. Saí dali e andei mais um pouco pelo centro da cidade. Encontrei a antiga estação de trem, onde atualmente funciona o “Museu Zequinha de Abreu”, em homenagem a um ilustre compositor da cidade cujo maior sucesso foi a marchinha de carnaval “Tico-tico no Fubá”. Algo que notei nas cidades por onde tinha passado foi que o trem, importante meio de transporte responsável por num passado não muito distante transportar o rico café da região, não passar mais por essas cidades. Nem mesmo os trilhos existem mais na maioria das cidades. Já as belas estações foram preservadas e para elas encontradas novas finalidades.
A chuva continuava e aumentou ainda mais. Então lanchei cedo e voltei para o hotel descansar. Antes de dormir olhei pela janela e vi que a chuva tinha parado e que surgira um denso nevoeiro. Isso me deu esperança de que o dia seguinte amanheceria com sol.
Ponte na saída de Porto Ferreira.
Muito barro e poças d’agua.
Placa indicando a distância que faltava até Aparecida.
Atravessando laranjais.
Capela ao lado da estrada.
Pedalar sob chuva não era tarefa fácil.
Seu Pedro, morador com quem conversei muito.
Portal na entrada de Santa Rita do Passa Quatro – SP.
“Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.”
(Amyr Klink)
Fiquei dois dias em São Paulo resolvendo assuntos referentes ao visto canadense que solicitei. Passei a noite em um hotel no centro velho da cidade e ás 06h45min de uma sexta-feira nublada levantei bem disposto, arrumei minhas coisas, paguei a conta do hotel e fui pegar o Metrô na Estação República. Foi meio complicado carregar a mala bike e o alforje com minhas coisas. Tinha pesado tudo quando embarquei em um vôo da Gol em Maringá, dois dias antes e sabia que o peso total da bike e do equipamento era de 26 quilos. Ao entrar na estação do Metrô fiquei em dúvida se me deixariam embarcar com a mala bike, que é enorme e pesada. Fiz uma cara de coitadinho e segui em direção a catraca de entrada. Tinha dois seguranças e dois fiscais bem próximos da catraca. Evitei olhar para eles, imaginando que se não olhasse eles não me notariam. Inseri o tíquete de passagem, chutei o alforje por baixo da catraca e ao erguer a mala bike por cima da catraca, não agüentei o peso e bati com ela no visor de acrílico da catraca, fazendo o maior barulho e quase quebrando o mesmo. Achei que levaria uma bronca, mas ninguém falou nada, apenas me olharam com cara feia. Respirei fundo e segui em frente. Embarquei num vagão que felizmente não estava muito cheio e segui rumo á Rodoviária do Tietê.
Chegando a Rodoviária do Tietê fui até o guichê da Viação Danúbio Azul e retirei minha passagem, para a cidade de Descalvado. Depois fiquei por quase três horas esperando o horário de embarque. Optei por chegar mais cedo a rodoviária, para evitar o horário de maior movimento de pessoas no Metrô. Era final de semana de carnaval e o local estava cheio de pessoas embarcando para vários cantos do Brasil. Ás 10h00min embarquei no ônibus da Danúbio Azul. O pessoal foi bastante atencioso e não tive nenhum problema com o embarque da bike, já que a mesma estava devidamente desmontada e acondicionada numa mala apropriada. Mal saímos da rodoviária e começou a chover. Mal sabia eu que essa chuva só iria parar seis dias depois. Logo peguei no sono e fui acordar duas horas depois na rodoviária da cidade de Pirassununga, onde o ônibus fez uma rápida parada. Desci fazer um lanche e logo voltei para o ônibus. A chuva continuava e dormi mais um pouco. Acordei e fiquei pensando na vida, olhando a paisagem pela janela. O ônibus fez paradas em algumas cidades, onde desceram e subiram pessoas. Finalmente ás 14h30min chegamos a Descalvado. Desembarquei, peguei minhas coisas, me informei sobre onde encontrar uma bicicletaria e saí caminhando pela cidade, sob chuva.
Na bicicletaria desembalei minha bike e conferi para ver se estava tudo em ordem. Descobri que tinha apenas uma raio quebrado. Para chegar até ali minha bike tinha viajado cerca de mil quilômetros. Ela andou de carro, avião, taxi, metrô e ônibus. Levou muitas pancadas e chacoalhou bastante. Diante disso tudo, ter apenas um raio quebrado era lucro. Quando falei ao Mauricio, o rapaz que ia montar a bike, que eu faria o Caminho da Fé, ele e um cliente que estava na bicicletaria me deram dicas sobre o caminho. Depois da bike montada coloquei o alforje com minhas coisas, a bolsa de guidão e troquei de roupa. Dei uma olhada no guia sobre o Caminho da Fé que tinha levado e pouco depois das 15h00min subi na bicicleta e dei as primeiras pedaladas até a catedral da cidade. Ao lado da catedral entrei em um hotel e fiz minha credencial do Caminho da Fé. Pelas cidades onde passaria pelo caminho deveria colher carimbos que comprovariam que realizei o Caminho da Fé. E ao chegar a Aparecida entregaria a credencial na secretária da Basílica de Aparecida e receberia um certificado de peregrinação pelo Caminho da Fé. Chovia bastante e o bom senso mandava passar a noite em Descalvado e iniciar a viagem na manhã seguinte. Mas bom senso nunca foi uma de minhas características mais marcantes. Para mim era importante iniciar logo o Caminho da Fé. Bem sei que o mais difícil é dar o primeiro passo, no caso a primeira pedalada, então estava ansioso para iniciar logo minha viagem de bike. Esperei mais de um ano para chegar a Descalvado e iniciar o Caminho da Fé, então não queria esperar mais um dia.
Descalvado é o inicio do ramal oeste do Caminho da Fé e dali até Aparecida (que não é e nunca foi Aparecida do Norte) seriam quase 500 quilômetros. O primeiro trecho do caminho, que vai de Descalvado até a cidade de Porto Ferreira é de 20 quilômetros. Em vez de fazer esse trecho pela rota original do Caminho da Fé que é quase toda em estrada de terra, resolvi seguir o conselho do pessoal da bicicletaria e seguir pelo asfalto. Chovia muito, faltava somente duas horas para escurecer, portanto a melhor opção era ir pela estrada asfaltada. Não era a opção mais segura, mas sim a mais rápida. Informei-me sobre como sair da cidade e finalmente parti. Num trevo logo na saída da cidade vi que o hodômetro da bike marcava um quilômetro percorrido, o primeiro quilômetro da viagem. Daí comecei a chorar… de alegria. Numa viagem, mais difícil do que chegar ao final é iniciar a viagem, percorrer o primeiro quilômetro. A chuva e o vento estavam de frente, o que dificulta muito pedalar. Outra dificuldade que enfrentei foi meu óculos molhado e embaçado, que me fazia seguir quase às cegas. Em alguns momentos achei melhor seguir sem óculos. A chuva aumentou mais e logo descobri que a capa de chuva não protegia muito. O pneu da frente jogava água por baixo da capa e logo fiquei encharcado. Segui sempre pelo acostamento, na contramão. Acho mais seguro ver os carros vindo próximos a mim de frente do que pelas costas.
Felizmente as subidas da estrada não eram muito pesadas e consegui passar por todas pedalando, sem precisar descer da bike e empurrá-la. Na metade do caminho tinha um pedágio e fiquei na dúvida sobre como passar por ele. Acabei encontrando uma passagem entre alguns cones e segui em frente. Ao sair do pedágio tive o único momento de real perigo desse primeiro trecho de viagem. Um motoqueiro invadiu uma área que era proibida para ele trafegar e quase me atingiu. Ainda bem que pedalo sempre na defensiva e quando vi o motoqueiro imprudente fui rapidinho para fora do acostamento, indo parar em um gramado. Após 1h40min de pedal ininterrupto cheguei à cidade de Porto Ferreira. Pedi informação de como chegar ao centro da cidade e minutos depois estava em frente à catedral da cidade, onde tirei algumas fotos e utilizando o guia encontrei um hotel bom e barato para passar a noite.
No hotel me cederam um depósito para guardar a bike. Retirei o alforje e fui para o quarto. Ao retirar minhas coisas do alforje, descobri que mesmo com a capa para chuva o alforje molhou por dentro. A parte interna do alforje fica próxima as rodas e não é protegida e nem impermeável. Felizmente tinha acondicionado minhas coisas em sacos plásticos e nada se molhou. Tomei um delicioso banho quente e fui me deitar, pois sentia fortes dores nas pernas. Por culpa de uma inflamação no tendão do pé direito, nos últimos doze dias anteriores a viagem não pratiquei nenhuma atividade física. Logo não estava cem por cento preparado fisicamente e senti bastante os 20 quilômetros que tinha pedalado sob chuva, com os músculos gelados de frio. Descansei um pouco e saí dar uma caminhada pelo centro da cidade. Tinha levado somente um par de tênis, que ficará encharcado após pedalar na chuva. O jeito foi sair de chinelo, mesmo estando frio e chovendo. Fui até a catedral que estava aberta e orei um pouco. Em seguida parei numa lanchonete e fiz um lanche. Voltei ao hotel e cansado como estava, com o barulho da chuva e fazendo frio, logo peguei no sono. Nem dei atenção ao carnaval de rua, ao desfile que estava acontecendo próximo ao hotel. Detesto carnaval e minha preocupação era outra. Sei que dormi feliz, tinha iniciado minha tão sonhada e esperada primeira longa viagem de bike.
Em São Paulo, embarcando no ônibus da Danubio Azul.
Iniciando a viagem de bike ao lado da catedral de Descalvado – SP.
5. Raro, singular, essencial, que é poucas vezes visto.
A primeira vez que ouvi falar sobre o Caminho da Fé foi em 2007, quando percorria o Caminho de Peabiru e meu amigo Pierin falou sobre esse caminho, contou que já o tinha percorrido. Os anos passaram, fui pegando gosto por caminhadas, por peregrinações. Limitava-me a peregrinações de final de semana, de no maximo 55 quilômetros. Percorrer os quase 500 quilômetros do Caminho da Fé era um sonho meio distante. O tempo foi passando e em janeiro de 2010 vi numa livraria um guia sobre o Caminho da Fé, escrito pelo Antonio Olinto, um cicloturista que já percorreu boa parte do mundo sobre uma bicicleta e de quem tenho um livro contado essa história. Comprei o guia e planejei fazer o Caminho da Fé em maio, durante minhas férias. Mas planos nem sempre dão certo. Fiquei doente menos de um mês após comprar o guia e todos os meus planos mudaram do dia para a noite.
Quase no final de março de 2010 estava estirado sobre uma cama, muito doente, mal conseguia respirar sem sentir dor. E numa bela tarde vi o guia sobre o Caminho da Fé em minha estante. Peguei o guia, comecei a ler e ao chegar ao final falei em voz alta que quando ficasse curado eu faria a peregrinação pelo Caminho da Fé. Foi algo mais em tom de desabafo do que uma promessa, mas o fato foi que meses depois fiquei curado. Muitas coisas me motivaram a seguir a risca o tratamento, a suportar o sofrimento, a repousar, tomar remédios, me cuidar. E fazer o Caminho da Fé foi um desses motivadores. E com o passar do tempo o desejo de ficar bom e depois percorrer o Caminho da Fé acabou virando então uma promessa.
O Caminho da Fé é mais percorrido por católicos, pois leva até a cidade de Aparecida. Eu nasci numa família católica, fui batizado, fiz primeira comunhão, crisma, participei de Grupo de Jovens e ia à missa de vez em quando. Aos 21 anos mudei de religião, entrei para uma igreja protestante, fui batizado novamente, e durante muitos anos deixei o catolicismo de lado. Mas os anos foram passando, fui amadurecendo e chegou um momento em minha vida que o tema religião ficou meio confuso. Não conseguia seguir uma determinada religião somente, pois para mim todas possuíam imperfeições. Então passei a seguir cada vez mais a Deus e menos a determinada religião. Para quem perguntava minha religião, muitas vezes eu respondia que era um “protestante católico” ou então um “católico protestante”. Depois de um tempo passei a me definir como “ecumênico”, que numa definição especificamente religiosa significa a unidade da igreja de Cristo que vai além das diferenças geográficas, culturais e políticas entre as diversas igrejas. Resumindo, sou cristão, freqüento qualquer igreja sem problema algum, sem preconceito, fanatismo ou achando que uma igreja é melhor que a outra. Por experiência própria sei que nenhuma igreja é perfeita, que todas possuem falhas. Não posso afirmar que essa minha forma de encarar a religião esteja certa. E com certeza não cabe a você me julgar com relação a isso!
Desde o final de 2010 estou curado de meus problemas de saúde e comecei a lembrar da tal promessa que fizera meses antes, de percorrer o Caminho da Fé. Acabei fazendo outras viagens e chegou um momento que achei melhor fazer o que tinha prometido. Não fiz muitos planos, não defini bem uma data. Segui um conselho de meu irmão que me disse que quando planejamos muito uma viagem ela acaba não acontecendo. Que a partir do momento que resolvermos viajar, todo o restante se resolve por si só, sem muitos planos. E foi assim que fiz. Queria fazer o Caminho da Fé a pé, mas devido à longa distância do mesmo, não era aconselhável fazer dessa forma, pois minhas hérnias de disco necessitam de um certo cuidado. Então resolvi fazer a viagem de bicicleta. Eu tinha todo o equipamento para realizar tal viajem. Já tinha planejado anteriormente fazer uma viagem de bicicleta, comprei o equipamento necessário e no fim a viagem não aconteceu. Fisicamente estava bem preparado, tendo pedalado quase toda semana nos últimos meses. Foi só arrumar minhas coisas, desmontar a bike, colocá-la na mala bike, pegar o guia sobre o Caminho da Fé, me despedir do pessoal e pegar a estrada.
Resolvi iniciar pelo ramal oeste do Caminho da Fé, iniciando a viagem de bike na cidade de Descalvado, interior de São Paulo. Imaginava percorrer os quase 500 km (que com alguns perdidos que dei se transformaram em 501 km percorridos) entre sete ou dez dias. Em razão das chuvas que não deram folga, acabei percorrendo o Caminho da Fé em treze dias. No fundo para mim não importava a duração. Importava era percorrer o caminho e curtir tudo o que fosse possível. E foi isso que fiz. Teve dias que pedalei mais quilômetros, outros menos. Parei muito para tirar fotos, observar animais, ouvir passarinhos cantando, admirar paisagens e principalmente conversar com as pessoas. Então a duração foi o que menos contou nessa viagem.
Sei que foram treze dias inesquecíveis. Passei frio, fome, sede, sofri com o calor. Pedalei sete dias debaixo de chuva, todo molhado e embarreado. Empurrei a bike morro acima muitas vezes. Atravessei rios, matas, barreiros onde quase não tinha forças mais para empurrar a bike. Tive problemas de freio, pneu furado mais de uma vez. Levei picada de marimbondo, mosquito, formigas. Ralei braços e pernas no mato, no pedal e na coroa da bike diversas vezes. Levei carreirão de cachorro, de boi e de vaca. Mesmo assim em nenhum momento pensei em desistir, ou então me perguntei o que estava “fazendo ali”. Tive problemas, muitos até, mas em compensação tive mais alegrias. Vi paisagens incríveis, conheci pessoas maravilhosas, apreendi muitas lições, principalmente nos momentos de dificuldade. E consegui encontrar respostas para muitas perguntas que tinha ao iniciar o Caminho da Fé. Também voltei com novas perguntas, as quais preciso encontrar respostas. E o principal foi que voltei a acreditar no ser humano. Fazia tempo que por vários motivos eu andava descrente com a raça humana. E percorrendo lugares distantes e quase perdidos no interior do Brasil, conheci pessoas boas, simples, de coração enorme, que sempre tinham uma palavra ou um gesto de incentivo. Em nenhum momento durante toda a viagem fui maltratado, ofendido ou ameaçado por alguém. Ao contrário, só tive ajuda, mesmo quando não precisava ou pedia. Na verdade nunca pedi ajuda, pois não era preciso. Antes de abrir a boca para pedir ajuda, alguém se antecipava e me ajudava. Pessoas surgiam do nada para me ajudar nos momentos complicados. Recebia convites para almoçar na casa de pessoas que nunca vi antes na vida. E muita coisa mais…
Nos próximos dias postarei aqui no blog sobre essa mágica viagem. Vou transcrever para o blog as anotações que fiz num caderno, que foi meu diário de viagem. Mesmo assim muita coisa ficará faltando, pois não saberei descrever fielmente a beleza de muitos lugares por onde passei, a bondade e amizade de pessoas que conheci e principalmente muitas das emoções que senti. Me acompanhe nessa viagem a partir de hoje. Serão treze postagens, treze capítulos dessa maravilhosa aventura.
O guia que utilizei.
Minhas coisas ainda embaladas, ao chegar a Descalvado – SP.
O Caminho da Fé é inspirado no milenar Caminho de Santiago de Compostela (Espanha). Foi criado para dar estrutura às pessoas que sempre fizeram peregrinação ao Santuário Nacional de Aparecida, oferecendo-lhes os necessários pontos de apoio.
A idéia da sua criação ocorreu após um dos organizadores percorrer por duas vezes o conhecido caminho espanhol. Imbuído do propósito de criar algo semelhante no Brasil, convidou alguns amigos aos quais expôs seus planos, tendo recebido pronta acolhida dos mesmos. Assim, o trio composto por Almiro Grings, Clóvis Tavares de Lima e Iracema Tamashiro e no princípio ajudado por outros amigos voluntários, deram início aos primeiros contatos com prefeituras e paróquias das cidades por onde passaria a trilha.
O Caminho da Fé foi inaugurado em 11/02/2003 na cidade de Águas da Prata/SP. Seu traçado poderá sempre ser alterado, visando agregar outras cidades. No dia 15/08/2003 foi criada a Associação dos Amigos do Caminho da Fé com sede na cidade de Águas da Prata/SP, composta por um Conselho Deliberativo e uma Diretoria Executiva que presta serviços voluntários. Com ajuda de um mapa e partindo de Águas da Prata, foi imaginado um caminho que chegasse até Aparecida privilegiando a rota mais lógica e que atendesse ao perfil peregrino, sem interferência política.
São 497 km, dos quais aproximadamente 300 km atravessando a Serra da Mantiqueira por estradas vicinais, trilhas, bosques e asfalto, proporcionando momentos de reflexão e fé, saúde física e psicológica e integração do homem com a natureza. Seguindo sempre as setas amarelas que sinalizam o caminho, o peregrino vai reforçando sua fé observando a natureza privilegiada, superando as dificuldades do caminho que é a síntese da própria vida. Aprende que o pouco que necessita cabe na mochila e vai despojando-se do supérfluo. Exercitando a capacidade de ser humilde, compreenderá a simplicidade das pousadas e das refeições. Em cada parada, estará contribuindo para o desenvolvimento econômico e social das pequenas cidades e propiciando a integração cultural de seus habitantes com a dos peregrinos oriundos de todas as regiões do Brasil e de diferentes partes do mundo.
Todo peregrino porta uma credencial, documento que o peregrino retira na cidade onde inicia sua trajetória. Esse documento deve ser carimbado em vários locais ao longo do trajeto e apresentado na Secretaria da Basílica de Aparecida para recebimento do Certificado de Conclusão.
Passei a última semana toda em Curitiba tratando de assuntos particulares e aproveitei para estrear minha nova câmera fotográfica. A anterior agüentou somente um ano e meio e após muitas quedas e chuva acabou quebrando. Então abaixo seguem algumas fotos de Curitiba, tiradas com a nova câmera.
No “Túnel do Tempo” de hoje estou recordando que fazem vinte anos que dei baixa do exército, após passar dois difíceis e inesquecíveis anos no quartel do 20º Batalhão de Infantaria Blindado, em Curitiba. Fui incorporado ao exército em fevereiro de 1989 e dei baixa em fevereiro de 1991. Dessa época guardo muitas recordações e ainda mantenho contato com muitos amigos que serviram comigo. E foi graças a minha ida ao exército que saí de casa, deixei Campo Mourão e fui para Curitiba, onde vivi muitos anos, conheci muitas pessoas e tive muito mais alegrias do que tristezas.
20º BIB
Identificação militar.
Abril/1989.
Abril/1989.
CMC – julho/1989.
Julho/1989.
Manobra da 5ª Região Militar (Três Barras – SC) outubro/1989.
Eu e Mario, parceiro inseparável. Maio/1990.
Comandando recrutas. Maio/1990.
Agosto/1990.
Festa de despedida em fevereiro de 1991. Em pé: Honorato, Paulo Cesar, Germano, Mario, Orlando, Joelmir, Pereira, Odair, Vigilato e Donizete. Agachados: Samuel, Douglas, Marçal, Daniel, Claudio (+) e Vanderlei.
Já tinha assistido filmes no cinema com mais duas ou três pessoas somente, mas essa semana aconteceu algo inédito. Assisti a um filme sozinho em um cinema de Curitiba. No meu caso que detesto cinema cheio de gente e com barulho, ter o cinema todo a minha disposição acabou sendo muito bom. Pena que o filme era ruim. Talvez a má qualidade do filme explique a ausência de público. De qualquer forma acabou sendo uma experiência muito interessante.
Abaixo algumas fotos de uma rápida passagem por Matinhos, na casa de minha grande e querida amiga Carmen. O tempo estava ruim, com chuva, mas deu para descansar um pouco e caminhar na praia.
No final de semana que passou, fiz mais uma viagem “internacional”. Dessa vez fui ao Paraguai fazer umas comprinhas. E não fui a Ciudad de Leste, que fica próximo a Foz do Iguaçu. Fui a Salto del Guairá, perto da cidade de Guaíra. Para quem não sabe, até o início dos anos oitenta, Foz do Iguaçu e Guaíra, rivalizavam para atrair turistas. Foz do Iguaçu com as Cataratas do Iguaçu e Guaíra com as Sete Quedas. Com a construção de Itaipu, as Sete Quedas desapareceram sob o lago de Itaipu, em outubro de 1982 e Guaíra quase virou uma cidade fantasma com o fim do turismo.
Em 1998, com a construção da Ponte Ayrton Senna ligando o Paraná ao Mato Grosso do Sul, a região de Guaíra voltou a crescer. E agora do lado paraguaio está surgindo um comércio parecido com o de Ciudad de Leste. A vantagem é que Salto del Guairá é mais tranqüila, limpa, menos perigosa e os preços são os mesmos de Ciudad de Leste. E a fiscalização é ainda mais precária e ineficiente do que em Foz do Iguaçu. Para quem quer comprar eletrônicos com preço bom e sem pagar imposto, é uma boa! (Também para que pagar imposto? Para que nossos “honrados” políticos tenham mais grana para roubar?)
A tendência é que o comércio de Salto del Guairá cresça ainda mais e atraía boa parte dos compradores que sempre seguiram para Ciudad de Leste. No meu caso, que estou em Campo Mourão, são quase cem quilômetros a menos de estrada para chegar ao Paraguai via Guaíra, do que indo via Foz do Iguaçu. O estranho é que saí do Paraná, atravessei quase quatro quilômetros de ponte, andei uns cinco quilômetros pelo Mato Grosso do Sul e entrei no Paraguai. Ninguém me pediu documento pessoal ou do carro, seja no lado brasileiro ou paraguaio, tanto na ida quanto na volta. E depois ninguém sabe por onde entra tanta droga e armas no Brasil! E num domingo ensolarado onde o termômetro no centro de Salto Del Guairá marcava 38 graus, nenhum policial ou fiscal da receita estava preocupado em vistoriar carros e pessoas que trafegavam de um país ao outro.
Nessa curta viagem visitei duas cidades aonde não ia há muitos anos. No sábado estive em Umuarama (era caminho), cidade também conhecida como “mulherama”, de tanta mulher que tem por lá. Dormi numa casa que fica quase em frente aos dois maiores ginásios de esportes da cidade, locais onde nos anos de 1986 e 1987 obtive minhas maiores conquistas como jogador de basquete. Foi muito bom rever aquele lugar e relembrar dos amigos e de como era boa aquela vida de jovem esportista.
E hoje estive em Guaíra, cidade que não visitava desde 1992. E foi nessa visita de 1992 a Guaíra que comecei a usar óculos e nunca mais parei. Lembro que eu estava me sentido sem jeito com o óculos. Daí conquistei uma paraguaia de olhos azuis, que me confidenciou ter sido minha cara de intelectual (graças aos óculos) que a conquistaram. Depois disso nunca mais tive traumas com relação a usar óculos. Cheguei até a usar lentes de contato por um tempo, mas não me acostumei.
E chega ao fim às postagens sobre minha viagem ao Peru, que foi bastante detalhada. Em próximas viagens não devo detalhar tanto, pois não terei tempo disponível igual tive agora. Agradeço a todos que acompanharam essa narrativa e viajaram comigo pelas terras incas. Também agradeço pelos elogios e comentários que recebi via blog, email, MSN, Skype, Facebook, celular e pessoalmente. Recebi somente uma crítica, de uma amiga de Campinas que achou as postagens muito detalhadas e ficou com preguiça de ler tudo.
A narrativa sobre a Trilha Inca também foi publicada num site especializado em viagens e está tendo muitos acessos, dezenas de vezes acima do que eu esperava. E nesse site também recebi elogios e perguntas, além de pedidos de dicas da parte de pessoas que vão fazer a Trilha Inca em breve.
E para finalizar essa série sobre o Peru, deixo para vocês duas visões sobre Machu Picchu, pela ótica de duas pessoas que lá estiveram muito antes que eu. Um deles é bem conhecido, trata-se do famoso guerrilheiro Che Guevara. O outro é um viajante e escritor, com alguns livros publicados, sendo um sobre Machu Picchu.
“Não importa muito, de todo modo, qual tenha sido a origem da fortaleza (Machu Picchu), ou melhor, é mais fácil deixar o debate para os arqueólogos. O que é inegável, entretanto, o mais importante, é que temos à nossa frente uma expressão pura da mais poderosa raça indígena das Américas, intocada pelo contato com a civilização invasora e cheia de tesouros imensamente evocativos em suas paredes, paredes que morreram em decorrência do tédio de não mais existir…” Ernesto CHE Guevara (médico e guerrilheiro)
“Dois tipos de pessoa vão a Machu Picchu. O primeiro não se interessa exatamente pela filosofia e cultura dos incas; quer apenas a atração turística. Esse não costuma seguir o caminho inca, preferindo o conforto da subida de ônibus. O outro vai até lá atendendo a um chamado interior, em busca da energia divina que impregna o Vale Sagrado. Esse geralmente opta por seguir a Trilha Inca e tentar aprender um pouco da sua espiritualidade evoluída. Segue o caminho sem pressa, detendo-se nas ruínas e observando a beleza da paisagem, preparando-se, aos poucos, para o ritual que envolve o encontro com a cidade perdida”.Sérgio Motta (escritor)
Levantei cedo, peguei minhas coisas e fui de taxi para o aeroporto. Pelo caminho fui assistindo as barbeiragens e imprudências dos motoristas. Chegando ao aeroporto fiz os tramites normais de embarque e passei tranquilamente pela Policia Federal local. Então fui para a sala de embarque e para variar o vôo atrasou. Aproveitei para usar a internet e comprar chocolates no Freeshop.
O vôo de volta não foi nada tranqüilo, teve muita turbulência. O piloto avisou que teria que ir desviando de espessas nuvens de chuva e que por essa razão o vôo seria mais demorado do que o previsto. Chacoalhou muito durante quase toda a viagem e fiquei muito enjoado. O pior é que não conseguia dormir, não conseguia ler e assim o tempo não passava. O jeito foi ouvir música no MP3 para tentar me distrair um pouco. No final da tarde teve um momento em que foi bem visível o tal desvio que o piloto estava fazendo das nuvens de chuva. Dava para ver pela janela nuvens escuras e muitos raios, bem próximos ao avião. Era uma cena ao mesmo tempo bonita e assustadora.
Felizmente entre turbulências e mais turbulências, aterrissamos em São Paulo sãos e salvos. Chegava ao fim minha aventura peruana, que será inesquecível por muitas razões. Pretendo voltar ao Peru algum dia, para fazer o que ficou faltando fazer dessa vez e para conhecer novos lugares.
O hotel onde fiquei em Lima era bem no centro da cidade. Próximo a ele tinha uma rua muito parecida com a rua XV, em Curitiba. Essa rua terminava em uma praça bem em frente ao Palácio do Governo do Peru. Em volta da praça muitos prédios pintados de amarelo. Caminhei bastante pelas ruas, prestando atenção aos detalhes. Aproveitei para matar saudades de coisas que comia nos Estados Unidos. O almoço foi pizza no Papa Jhones e a janta foi frango frito no KFC.
Em Cuzco fui confundido muitas vezes como sendo norteamericano. Muita gente, principalmente vendedores se dirigiam a mim falando em inglês e quando eu respondia em português, espanhol ou portunhol, eles faziam uma cara de espanto. Já em Lima preferi usar somente camisetas amarelas da seleção de futebol.
Em Lima não existe o problema da altitude, pois a cidade fica a beira mar. Mas voltar ao nível do mar também me fez mal. Acho que era o excesso de oxigênio no ar que me deixou com dor de cabeça e tontura. Devido aos muitos dias que passei em altas altitudes e com ar rarefeito, creio que meu organismo estava começando a ficar acostumado com o pouco oxigênio e sentiu diferença quando voltei ao nível do mar.
Como percebi em todos os lugares do Peru onde estive, o trânsito é uma caos. Os motoristas são todos imprudentes, egoístas e adoram uma buzina. Logo foi complicado dormir com tantas buzinas a noite. Mesmo assim descansei bem em minha última noite em terras peruanas.
Praça no centro de Lima.
Rua parecida com a XV em Curitiba.
Em frente ao Palácio do Governo.
Alguns dos muitos prédios amarelos do centro da cidade.
A manhã de minha partida de Cuzco foi sem chuva, o que me deixou mais tranqüilo, pois me preocupava algum problema ou atraso no vôo por culpa da chuva. Fechei a conta no hotel e logo embarquei num taxi rumo ao aeroporto. Os taxis na cidade são baratos e não existe taxímetro, é tudo na base da negociação. Não levou nem dez minutos para chegar ao aeroporto e pude conhecer um pouco mais da periferia da cidade, pela janela do carro.
Meu vôo seria pela Star Peru, uma companhia aérea de médio porte e com aviões de tamanho médio. Fiz os tramites para despachar bagagem e fui para a sala de embarque. Lá descobri que meu vôo atrasaria em pouco mais de uma hora. Então sentei no chão perto de uma tomada e fiquei usando o computador. Encontrei as duas australianas que faziam parte do outro grupo que fez a Trilha Inca. Conversamos rapidamente e mostrei a elas um pequeno vídeo que fiz delas dançando. Elas ficaram vermelhas de vergonha e pediram para que eu enviasse o vídeo para o email delas.
E finalmente chegou a hora do embarque e do adeus a Cuzco. Diferente das muitas horas de ônibus que levei de Lima até Cuzco, o retorno seria de apenas uma hora de vôo. O aeroporto de Cuzco é complicado para aterrissagens, pois fica entre muitas montanhas e o piloto tem que fazer uma manobra radical para pousar. Ele executa uma virada lateral de 180 graus, algo mais comum a aviões de guerra. Já para decolar não é necessário executar tal manobra, então embarquei mais tranqüilo. Por mais que eu viaje de avião, não consigo gostar de voar, prefiro sempre ter os pés no chão.
O vôo foi tranqüilo e comecei a ler o livro do Bingham que tinha comprado no dia anterior. Do meu lado foi uma peruana que começou a puxar conversa. Quando soube que eu era brasileiro, ela me encheu de perguntas. Disse que seu sonho é conhecer o Rio de Janeiro, o carnaval. Falei a ela que o Brasil tem lugares mais interessantes e menos violentos que o Rio de Janeiro, para ela conhecer. E entre a leitura do livro e a conversa com a peruana, o vôo transcorreu tranqüilo, ou melhor, quase tranqüilo. Um pouco antes de chegar a Lima, teve uma turbulência daquelas inesperadas e que assustam bastante. E para descer em Lima o piloto executou a manobra de 180 graus que ele está habituado a executar para descer em Cuzco. Foi assustador e minha labirintite deu as caras, fiquei tontinho. Com certeza essa foi uma das piores aterrissagens que já fiz.
No desembarque em Lima me despedi da peruana e liguei para o taxista que conheci dias antes. O telefone dele não atendia, acho que era seu dia de folga. Então o jeito foi encontrar outro taxista e seguir rumo ao centro da cidade. Ficaria em Lima até a manhã seguinte, quando então embarcaria para o Brasil.