Da Tragédia da Columbia ao Sucesso da Artemis 2

Hoje, o céu da Flórida foi palco de um momento histórico: o lançamento bem-sucedido da missão Artemis 2, que partiu do Kennedy Space Center em direção à Lua. Serão dez dias de uma jornada desafiadora, testando os limites da exploração humana antes do retorno à Terra. Meu irmão está na Flórida a trabalho e, ao lado de um amigo, testemunhou de perto a subida da Artemis 2. Um evento para guardar na memória!

Isso me fez lembrar que, em janeiro de 2003, eu morava em Orlando e trabalhava no hotel Holiday Inn, em frente à praia, em Cocoa Beach — cidade que fica a cerca de 33 km do Kennedy Space Center. De segunda a sexta-feira, eu fazia o trajeto de ‘bate e volta’ na van da empresa entre Orlando e Cocoa Beach. A estrada pela qual passávamos diariamente fica relativamente perto da base de lançamentos da NASA.

Em 15 de janeiro de 2003, quando voltávamos para Orlando no final da tarde, paramos em um ponto da estrada para assistir ao lançamento do ônibus espacial Columbia. Ficamos cerca de uma hora e meia esperando, até que ouvimos no rádio da van que a decolagem havia sido cancelada devido às muitas nuvens que cobriam a região. Ficamos todos tristes, pois perdemos a chance de presenciar um momento histórico.

A Columbia acabou sendo lançada na manhã do dia seguinte, 16 de janeiro, e não pude assistir. Após 16 dias em órbita, no momento da reentrada na atmosfera terrestre — apenas 16 minutos antes do pouso — a Columbia se desintegrou em razão de um dano sofrido ainda no lançamento. Todos os sete tripulantes morreram.

Um detalhe marcante é que, três semanas antes do acidente, eu vi um dos tripulantes “ao vivo e a cores” andando pelo hotel onde eu trabalhava. Era o Coronel Ilan Ramon, uma figura de extrema importância histórica e militar em Israel. Ele tinha 48 anos e era o primeiro astronauta de seu país. Ele estava no hotel visitando a esposa e os filhos, que estavam hospedados lá. Eu não sabia que ele era astronauta, pois, devido ao lançamento da Columbia, muitos militares norte-americanos se hospedaram no hotel.

Quem me mostrou o astronauta israelense andando pela parte externa do hotel foi um colega de trabalho, mais antenado nos assuntos espaciais. Lembro que dei uma olhada mais demorada e pensei: ‘Que legal, primeira vez que vejo um astronauta de carne e osso’. Jamais poderia imaginar que, poucos dias depois, ele estaria morto em um desastre que marcou a história da exploração espacial.

Ilan Ramon.

Oito anos depois, visitei o Cemitério de Arlington, em Washington, D.C. Estive no memorial dos astronautas mortos nos acidentes da Columbia e da Challenger (que explodiu em 1986). Foi interessante visitar aquele lugar de descanso eterno dos heróis norte-americanos. Como esperado, o astronauta israelense não foi sepultado ali; Ilan Ramon foi levado para Israel, onde foi enterrado com honras de herói nacional.

Lembro que, quando o vi em Cocoa Beach, ele estava com a esposa, a filha pequena e um dos filhos. Anos depois, soube que um de seus filhos morreu em um acidente pilotando um caça F-16 da Força Aérea Israelense. Jamais saberei se o menino que vi no hotel foi esse que também partiu cedo demais. Pena que naquela época não existia celular com câmera; com certeza eu teria tirado uma foto daquela família, mesmo que de longe. E talvez teria até pedido uma selfie com o austronauta de Israel.

Outra coisa que recordo bem foi o dia do acidente, 1 de fevereiro de 2003. Eu já tinha deixado o emprego em Cocoa Beach, cansado das viagens diárias, e estava trabalhando no hotel Renaissance, em Orlando. Ao chegar, vi muita gente aglomerada em frente à TV na sala de descanso dos funcionários. Muitos choravam. Foi ali que soube da tragédia. Sempre achei fantástico como os norte-americanos são patriotas; naquele dia, comprovei isso ao ver meus colegas chorando como se tivessem perdido alguém da própria família. O clima era de um velório silencioso e pesado.

Hoje, ao olhar para trás, percebo que vi de perto um capítulo da história espacial sendo escrito. Só não testemunhei ainda mais porque o lançamento da Columbia foi cancelado justamente no dia em que eu estava lá para assistir ao vivo.

Tripulação do ônibus espacial Columbia. (2003)
A Columbia indo para a base de lançamento. (01/2003)
Lançamento da Artemis 2. (01/04/2026)
Vander e Marcos, no Holiday Inn Cocoa Beach. (2003)
Memorial dos astronautas da Columbia e da Challenger. (2011)

Samuca

E nesse retorno a Orlando, finalmente consegui encontrar meu grande amigo Samuel, vulgo Samuca. Nos conhecemos em 2002, logo que fui morar em Orlando e ele foi o melhor amigo que fiz nos Estados Unidos. O Samuel é de Olinda – PE, e vive há 11 anos em Orlando. Marcamos de nos encontra em um bar para conversar e passamos um bom tempo contando sobre nossas vidas nos últimos oito anos, desde que nos vimos pela última vez. E relembramos alguns momentos e histórias que vivemos juntos em 2002 e 2003.

Conheci o Samuel quando fui trabalhar num hotel em Cocoa Beach, praia que fica próxima a NASA. Éramos uma equipe contratada para fazer pequenos retoques nos banheiros de 400 quartos do hotel, principalmente no isolamento ao redor das banheiras. Para quem não sabe, nos Estados Unidos praticamente todos os banheiros de casas e hotéis possuem banheira. O chuveiro fica acima da banheira e você toma banho em pé dentro da banheira. A equipe era formada por mim, Samuel, Marcos e Honey. Nossa supervisora era uma jovem loira irlandesa, que estava fazendo estágio em hotelaria nos Estados Unidos. Nos primeiros dias enrolamos bastante no serviço, pois ganhávamos por hora. E mesmo assim a irlandesa veio reclamar que estávamos indo rápido demais e dessa forma o trabalho ia acabar logo, o que não era bom para ela. Ser nossa supervisora era moleza, e ela queria permanecer nessa moleza por mais tempo. Então firmamos um acordo, onde limitamos a quatro o número de quartos que cada dupla consertaria por dia. Se fosse para trabalhar para valer, daria para fazer tranquilamente uns 12 quartos por dia. E assim ficamos dois meses nesse hotel, que era em frente ao mar, fazendo o trabalho de forma tranqüila. E riamos muito, pois zoávamos o tempo todo. E vez ou outra dávamos um jeito de fugir e ir passear na praia. Outra coisa comum era enquanto um trabalhava, o outro ficar dormindo. Lembro do Marcos dormindo debaixo de uma cama. E eu muitas vezes dormia sentado atrás da porta do banheiro. Bons tempos!

Vander e Samuel.