Curitiba: A crônica de uma cidade decadente

Na semana passada, meu destino era Porto Alegre, mas durante uma escala em Curitiba, tudo mudou na minha viagem. Por imprevistos de última hora, cancelei a sequência da viagem e resolvi passar meus quatro dias disponíveis na capital paranaense. Se arrependimento matasse, eu estaria fodido.

Vivi em Curitiba por 19 anos, entre idas e vindas — entre fevereiro de 1989 e agosto de 2010. Nos primeiros dois anos após minha partida, eu voltava com frequência; ainda havia amigos, laços e uma memória afetiva forte. Mas o tempo passa, os vínculos se afrouxam e, a cada retorno, a decepção aumenta. Notei uma cidade progressivamente mais suja, pichada e insegura. Quem vive nela talvez não perceba a gravidade dessa decadência, pois as mudanças vêm em “conta-gotas”. Para quem observa de fora, o choque é nítido. E esse é o meu caso. Após essa visita não programada da semana passada, não pretendo voltar tão cedo para passear. Só volto se o trabalho exigir.

O que mais me dói é ver o Centro da cidade, que já foi meu lugar favorito e onde inclusive morei em quatro endereços diferentes. A maioria dos meus refúgios antigos simplesmente fechou. Nesta última visita, descobri que uma tradicional padaria de uma galeria perto da Praça Generoso Marques — onde eu batia ponto para comer aquele cachorro-quente no pão francês com duas vinas — não existe mais. Ela já estava lá muito antes de eu chegar à cidade, e agora é apenas uma lembrança.

Outra constatação curiosa — notada há dois anos, em minha última visita à cidade, e reafirmada agora — é que o espanhol parece ganhar força como idioma local. Imigrantes hispânicos estão por toda parte, presentes na maioria dos postos de trabalho dos lugares que visitei. Dados confirmam que dos cerca de 20 mil estrangeiros na cidade, metade é hispânica, majoritariamente venezuelana. O contraste é incômodo: enquanto vejo estrangeiros trabalhando, vejo cada vez mais brasileiros mendigando ou dormindo pelas calçadas. Sei que tal debate é longo e complexo, e não é meu objetivo aprofundá-lo aqui, mas “algo errado não está certo”.

Sei que alguns curitibanos — e até amigos curitibanos — vão chiar ao ler isso. Mas é a mais pura verdade. Curitiba já foi bela, agradável, quase um “paraíso na terra”, como pregavam os políticos dos anos 1990. Aquela cidade que amei e jurei nunca abandonar morreu. Nesta última visita, encontrei algo mais próximo do Inferno de Dante do que do Céu. A vida seguiu, a fila andou e, como em tantas outras áreas, não pretendo olhar para trás. Sigo e olho somente em frente. Bye-bye, CWB!

*Algumas fotos da minha recente visita a Curitiba.

Alguns comentários sobre o Oscar 2026

Hoje foi noite de Oscar, e o vencedor de Melhor Filme foi minha 9ª opção na lista de preferências entre os dez concorrentes: Uma Batalha Após a Outra. Definitivamente não entendo de cinema pois, a exemplo do ano passado, um dos filmes de que menos gostei foi o vencedor.

O Brasil nunca tinha concorrido a tantos Oscars — foram cinco indicações — e, mesmo assim, não ganhou nada. Mas valeu a participação… O vencedor de Melhor Filme Internacional (categoria em que O Agente Secreto tinha mais chances) foi Valor Sentimental. Foi merecido!

Sean Penn venceu como Melhor Ator Coadjuvante. Muito justo! Ele não foi receber o prêmio. Foi o seu terceiro Oscar e, nas vezes anteriores, ele compareceu. Até o momento, não se sabe o real motivo de sua ausência.

Já na categoria de Melhor Ator, na qual Wagner Moura concorria, o vencedor foi Michael B. Jordan. Também foi merecido; o cara interpretou gêmeos e eu só soube disso meses depois de ter assistido ao filme. Na hora, achei que eram gêmeos de verdade atuando.

Pela primeira vez, assisti à cerimônia do Oscar no cinema. Foi uma experiência legal, com cerca de cem pessoas na sala. Na entrada, teve direito a tapete vermelho e champanhe (que não bebi, pois não gosto). Também dei uma entrevista ao vivo. Durante os intervalos, o pessoal do cinema distribuiu brindes para quem acertava perguntas. Eu estava na penúltima fileira e, sabia muitas respostas. Como a sala era em degraus, não valia o risco de descer correndo no escuro para responder no microfone. O risco de alguém que enxerga mal no escuro, como eu, cair e quebrar o pescoço era grande.

Mesmo assim, ganhei uma pipoca e um ingresso. Acertei duas perguntas, sendo uma delas das mais difíceis. Até recebi palmas! Como eram perguntas difíceis e ninguém correu para responder, pude descer a escadaria com calma. Na mais difícil, que exigia uma resposta dupla, avisei que sabia metade e chutaria o restante. E bingo! Chutei certo.

Cinemaxs – Campo Mourão.
Vander e Alemão, no tapete vermelho.

Primeiros mortos da FEB na Itália

Durante a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) enviou cerca de 25 mil soldados — conhecidos como pracinhas — para lutar ao lado dos Aliados na campanha da Itália. A presença brasileira no conflito deixou diversas histórias marcantes, incluindo as primeiras perdas entre os soldados.

Antes mesmo da primeira morte em combate, ocorreu um episódio trágico envolvendo o soldado brasileiro, Antônio Oliveira, que morreu em um acidente. Nos primeiros dias da chegada da FEB à Itália, em 1944, alguns militares estavam em um momento de descanso próximo a um rio na região onde o contingente brasileiro estava instalado. Durante esse período de folga, um dos soldados entrou na água para nadar e acabou se afogando. Como essa morte ocorreu em circunstâncias acidentais e não durante uma operação militar, ela geralmente não é considerada a primeira baixa de guerra da FEB.

A primeira morte oficialmente registrada em combate entre os brasileiros aconteceu pouco depois. O soldado Constantino Marochi, nascido em 17 de julho de 1921 em Campo Largo, no Paraná, integrava o Exército Brasileiro e fazia parte do contingente enviado à Itália pela FEB. Em 21 de setembro de 1944, durante os primeiros confrontos dos brasileiros contra as forças alemãs na região de Vic Santine, Marochi foi atingido por estilhaços de um morteiro disparado pelo inimigo. Ele não resistiu aos ferimentos, tornando-se o primeiro brasileiro morto em combate na campanha italiana.

A morte de Constantino Marochi marcou profundamente os pracinhas que lutavam na Itália e acabou se tornando um símbolo do sacrifício dos soldados brasileiros na guerra. Ao final do conflito, cerca de 457 militares da FEB haviam perdido a vida. Em homenagem ao soldado paranaense, seu nome foi lembrado em diferentes monumentos e homenagens no Brasil, preservando a memória daqueles que participaram da luta contra o nazifascismo na Europa.

Marochi foi sepultado originalmente no Cemitério Militar Brasileiro de Pistoia, na Itália. Em 1960, seus restos mortais foram trazidos para o Brasil e sepultados no Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial — popularmente conhecido como Monumento aos Pracinhas, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro. Ele repousa em um dos jazigos individuais do mausoléu subterrâneo do monumento.

No Batalhão do Exército (20º BIB), onde servi durante dois anos em Curitiba, havia uma rua dentro do próprio batalhão chamada Marochi. Naquele tempo (1989–1991), era ali que se realizavam os desfiles do batalhão. A Marochi ficava bem em frente ao prédio da minha companhia, e passei incontáveis horas nela, entre treinamentos e marchas.

A lembrança que mais ficou gravada, no entanto, aconteceu numa noite de inverno rigoroso, típica de Curitiba. Eu estava de serviço exatamente na Marochi, ao relento, com o vento cortante que parecia atravessar até os ossos. O frio era intenso; meus dedos e ombros quase não respondiam, e, para tentar amenizar, eu batia nos ombros do casaco para derrubar a fina camada de gelo que se formava. Foi nessa noite que, num gesto meio infantil, meio desafiador, consegui escrever meu nome no gelo que se acumulou sobre meu capacete.

Cada minuto parecia se arrastar, cada sopro de vento aumentava a sensação de solidão e desconforto. Sem exagero, posso dizer que foi uma das noites mais longas da minha vida — uma lembrança que, mesmo com o passar dos anos, continua viva, gelada e clara na memória.

Constantino Marochi.
Cemitério de Pistoia – Itália.
Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial.

Frascos lacrados por Darwin

Essa é uma história fascinante que parece saída de um romance de mistério científico. Na verdade, esses frascos lacrados por Charles Darwin, fazem parte de um “tesouro botânico” que ficou esquecido por quase dois séculos e agora está revelando segredos sobre como o mundo mudou desde a época vitoriana (período do reinado da rainha Vitória no Reino Unido, entre junho de 1837 e  janeiro de 1901).

O “Baú do Tesouro” de Darwin e Henslow

Os frascos em questão pertencem à coleção de John Stevens Henslow, que foi o mentor de Charles Darwin na Universidade de Cambridge. Foi Henslow quem conseguiu a vaga para Darwin no HMS Beagle.

Durante a década de 1830, enquanto Darwin coletava espécimes ao redor do mundo, Henslow estava montando uma biblioteca botânica massiva em Cambridge. Muitos desses frascos contêm amostras que o próprio Darwin enviou ou coletou sob a orientação de seu mestre.

O que há dentro dos frascos?

Ao contrário de herbários comuns, onde as plantas são secas e prensadas, essas amostras foram preservadas em espírito (álcool) dentro de frascos de vidro selados com cera e bexigas de animais.

  • Amostras de frutas e flores: Estruturas 3D que normalmente seriam esmagadas em papel.

  • Culturas agrícolas: Variedades de batatas, trigos e vegetais que não existem mais da mesma forma hoje.

  • DNA preservado: O álcool ajudou a manter o material genético relativamente intacto.


Por que estudá-los agora?

Cientistas do Jardim Botânico da Universidade de Cambridge iniciaram recentemente um esforço para catalogar e analisar essas peças. A importância vai muito além da nostalgia:

  1. Mudanças Climáticas: Ao comparar as plantas de 1830 com as atuais, os pesquisadores podem ver como o aumento do CO2 e das temperaturas alterou a fisiologia das espécies.

  2. Evolução Genética: O sequenciamento de DNA permite entender como as pragas agrícolas evoluíram. Por exemplo, eles podem estudar os patógenos da batata de antes da Grande Fome da Irlanda.

  3. Restauração de Biodiversidade: Algumas dessas amostras representam variedades extintas ou raras que podem conter genes de resistência a doenças que perdemos na agricultura moderna.

“É como ter um backup do disco rígido da natureza de 200 anos atrás.”


Aqui está como os cientistas trabalham com esses frascos de Darwin e Henslow:

1. Amostragem Minimamente Invasiva

Para não destruir o espécime histórico (que muitas vezes é único no mundo), os pesquisadores não retiram a planta inteira. Eles utilizam pinças de precisão para remover apenas um minúsculo fragmento de tecido, como um pedaço de folha ou uma semente, de preferência de uma área que não comprometa a identificação visual da planta.

2. O Problema do “Espírito” (Álcool)

Muitas dessas amostras foram preservadas em etanol ou outros tipos de álcool vitoriano.

  • A boa notícia: O álcool ajuda a fixar o DNA e impede que bactérias o comam.

  • A má notícia: Com o tempo, o álcool pode causar reações químicas que “grudam” o DNA em proteínas e outros componentes celulares, tornando a extração difícil.

3. Sequenciamento de DNA Antigo (aDNA)

Em vez de tentar ler o DNA como um livro inteiro, os cientistas usam uma técnica chamada Shotgun Sequencing:

  1. Eles quebram o que sobrou do DNA em pedaços ainda menores.

  2. Lêem cada pedacinho individualmente.

  3. Usam supercomputadores para alinhar esses fragmentos com o genoma de plantas modernas, como se estivessem montando um quebra-cabeça de um milhão de peças onde metade das peças sumiu.


Por que isso é revolucionário?

Imagine que uma doença ataque as plantações de trigo hoje. Ao estudar o DNA do trigo dos frascos de 1830, os cientistas podem encontrar genes de resistência que existiam antes da agricultura industrial “limpar” a diversidade genética das nossas sementes.

É literalmente recuperar ferramentas de sobrevivência que a evolução descartou ou que nós esquecemos no caminho.

O desafio da preservação

O maior problema é que o selante original (frequentemente uma mistura de cera de abelha e resina) está secando e rachando. Se o álcool evaporar, o material genético e a estrutura física da planta serão destruídos para sempre. Por isso, existe uma corrida contra o tempo para restaurar os lacres e digitalizar a coleção.

Foto: The Trustees of The Natural History Museum.

Quando o Amor se Perde Pelo Caminho

O que quase ninguém diz é que o amor, em certos casos, não termina por falta de sentimento. Ele termina por medo — medo de se entregar, de arriscar, de sair da zona de conforto. Termina por timing errado, quando dois corações estão na mesma sintonia, mas em momentos diferentes da vida. E termina por escolhas desencontradas, quando caminhos que poderiam se cruzar seguem direções opostas.

Símbolo do Exército Brasileiro

Se você já observou atentamente as viaturas militares brasileiras ou os uniformes históricos, deve ter notado um círculo branco com cinco estrelas no centro. Esse símbolo é a representação da constelação do Cruzeiro do Sul, o maior ícone da nossa soberania nos céus e na terra.

Mas você sabia que existe uma diferença visual entre o símbolo usado pelos “Pracinhas” na 2ª Guerra Mundial e o padrão utilizado pelo Exército após a guerra? Vamos entender essa história.

A Força Expedicionária Brasileira (FEB)

À esquerda, na imagem no início da página, vemos o símbolo da FEB. Durante a campanha na Itália (1944-1945), a identificação visual era vital.

  • O Desenho: Note que as estrelas estão dispostas de forma simétrica e centralizada dentro do círculo.

  • O Contexto: Este símbolo foi estampado em jipes, caminhões e tanques que lutaram contra o nazi-fascismo. Ele representava o Brasil como a única nação latino-americana a enviar tropas terrestres para o teatro de operações europeu.

O Exército Brasileiro (EB) Padrão

À direita, na imagem postada no início da página, temos o símbolo do Exército Brasileiro como passou a ser visto em manuais de sinalização e identificação de frota, após o fina da 2ª Guerra Mundial.

  • A Diferença: A principal distinção está na posição da “Intrometida” (a estrela Epsilon Crucis, a menor delas). No símbolo do EB, a disposição das estrelas segue fielmente a posição astronômica vista no céu e representada na Bandeira Nacional, onde a quinta estrela fica ligeiramente deslocada para a direita.

  • A Identidade: O círculo segmentado em quatro partes evoca a ideia de uma mira ou bússola, simbolizando a precisão e a direção da força terrestre em defesa do território nacional.

  • Desde o início da década de 1980, o principal símbolo do Exército Brasileiro mudou e apresenta vinte lâminas ou pontas de espadas que circundam um eixo vertical. Este símbolo representa principalmente a força, bem como bravura e virtude. Ademais, o interior é formado por elipses que sugerem a defesa por escudos de proteção. As cores do símbolos são as mesmas da Bandeira do Brasil. Por fim, o último elemento no centro é a constelação do Cruzeiro do Sul ou Crux, simbolizando uma cruz.