O Diabo Veste Prada 2 – Uma Continuação “Meia-Boca”

Hoje fui assistir a O Diabo Veste Prada 2, a continuação do clássico lançado em 2006. Lembro-me bem de ter visto o original no cinema em Curitiba, época em que ainda morava na capital. Ou seja, a sequência chegou exatos 20 anos depois. Aproveitei o lançamento nacional e um ingresso gratuito que estava prestes a vencer para conferir a novidade aqui na minha cidade.

Das três sessões disponíveis, escolhi a última por ser a única com áudio original, já que não gosto de filmes dublados. Achei que o horário tardio atrairia pouca gente, mas me surpreendi: a fila estava enorme e consegui o penúltimo lugar disponível. Se eu tivesse chegado cinco minutos mais tarde, teria ficado de fora. Na fila, encontrei duas amigas que também estranharam o movimento. Notamos que a maioria do público sequer era nascida quando o primeiro filme estreou; provavelmente conheceram a história pela Sessão da Tarde.

Uma das amigas comentou que hoje mesmo o primeiro filme foi exibido na TV, na Sessão da Tarde. Ressaltei que é uma pena que a Globo costume cortar cerca de meia hora dos filmes na Sessão da Tarde e na Temperatura Máxima. Minha amiga ficou surpresa com a informação; parece que nem todos notam esses cortes bruscos na edição para a TV aberta.

Sobre o filme em si: como acontece com quase toda continuação tardia, não se podia esperar que superasse o original. Contei exatamente sete vezes em que ri durante a exibição. É um filme para passar o tempo, “gostosinho” de ver para quem é fã da franquia, mas enquanto o primeiro é um 9, este não passa de um 4 ou 5.

Um detalhe que me chamou a atenção foi a ausência do namorado da Andrea (Anne Hathaway). Ele foi o único do elenco principal de 2006 que não retornou. Colocaram um novo parceiro para a Andrea que, sinceramente, não faria falta nenhuma se tivesse sido cortado do roteiro. Pesquisando depois, descobri que o ator original deu uma entrevista recente demonstrando chateação por ter sido excluído. Hoje, ele vive de forma mais isolada em um rancho no Texas com a esposa e as duas filhas e meio que largou a carreira de ator.

No fim das contas, foi um bom programa para uma quinta-feira de véspera de feriado, especialmente por não ter pago o ingresso. O único incômodo foi na saída: meu carro estava estacionado do outro lado da rua, a uns 40 metros da porta dos fundos do shopping, mas ela já estava fechada. Tive que dar uma volta gigante de 400 metros para chegar ao veículo. Sorte que não chovia como na noite anterior.

Vale a pena assistir se você gostou do primeiro, mas fica o desejo de que não inventem um terceiro. O Diabo Veste Prada 2 me pareceu mais uma tentativa de arrecadar dinheiro do que de contar uma nova história necessária. Ah, e uma curiosidade: parece que Meryl Streep, Emily Blunt e Stanley Tucci pararam no tempo, enquanto a passagem dos anos foi mais visível para Anne Hathaway.

Depressão

Pra quem nunca afundou, não entende nem de longe a dimensão
Quem não nasceu assim nunca vai ter a visão
De enxergar tudo torto, em linha de produção
Mano, enquanto ‘cê’dorme em paz eu tô em modo contenção
Cabeça campo minado, coração em combustão

Do nada aperta o peito, cinco minutos vira um inferno
Suor escorre frio, coração bate sem terno
Choro mudo no canto, sem barulho externo
Sem dormir, sem chão isolado
No frio pra ver se eu ficava gelado

Lutando todo dia contra mim mesmo
Quero viver, mas ainda me sinto preso
Rezo baixo sonhando com tudo que eu mereço
Lutando todo dia contra mim mesmo

Hoje é fato, chama de louco, descontrolado
Queria ver segurar onda do meu lado
Crise não avisa, se ligar é fato
‘Cês só veem o efeito, mas nunca o estrago

*Trechos da música “Depressão” (Fiuk)

Acidentes da Nasa

Com a volta da Artemis II à Terra nesta sexta-feira (10) após dez dias de missão, a sensação é de dever cumprido. Estamos avançando, é verdade, mas o cosmos não dá margem para erro. E se hoje celebramos o progresso, é porque aprendemos lições caríssimas com o passado.

A NASA, que nos levou à Lua seis vezes desde a Apollo 11 em 1969, carrega em seu histórico não apenas glórias, mas cicatrizes profundas. Três missões específicas nos lembram que a exploração espacial é, antes de tudo, um exercício de sobrevivência ao extremo.

Apollo 1 (1967): O desastre antes da decolagem

A ironia mais amarga da Apollo 1 é que ela nunca saiu do chão. Em 27 de janeiro de 1967, durante um teste de rotina no Cabo Canaveral, um incêndio na cabine matou os astronautas Gus Grissom, Ed White e Roger Chaffee.

O cenário era uma “tempestade perfeita” de falhas:

  • Oxigênio puro: A cabine estava pressurizada com 100% de oxigênio, transformando qualquer faísca em um maçarico.

  • Design falho: A porta abria para dentro. Com o aumento da pressão causado pelas chamas, os astronautas ficaram presos em uma armadilha impossível de abrir.

  • Negligência: O teste já acumulava problemas de fiação e comunicação antes mesmo de começar.

O saldo: A tragédia forçou a NASA a redesenhar toda a nave e abolir o uso de oxigênio puro em testes de solo.

Acidente da Apolo I.
Tripulação que morreu na Apolo I.

Challenger (1986): 73 segundos de choque

Se você viveu os anos 80, provavelmente se lembra da imagem do ônibus espacial se transformando em fumaça no céu da Flórida. Em 28 de janeiro de 1986, a Challenger explodiu pouco após o lançamento, matando todos os sete tripulantes.

O culpado técnico? Um O-ring (anel de vedação de borracha) que endureceu devido ao frio intenso daquela manhã, perdendo sua capacidade de vedar gases quentes. Mas o culpado real foi a pressão institucional. Engenheiros alertaram sobre o risco do frio na véspera, mas foram ignorados para manter o cronograma.

A tragédia foi ainda mais sentida pela presença de Christa McAuliffe, a professora que daria a primeira aula do espaço para milhões de crianças que assistiam a tudo ao vivo.

Acidente da Challenger.
Tripulação que morreu na Challenger.

Columbia (2003): O perigo na volta para casa

Diferente das outras, a tragédia da Columbia aconteceu no “minuto final”. Em 1º de fevereiro de 2003, a nave se desintegrou durante a reentrada na atmosfera, apenas 16 minutos antes do pouso.

O problema começou 16 dias antes, na decolagem: um pedaço de espuma isolante se soltou e atingiu a asa esquerda. A gestão da NASA subestimou o dano, achando que era algo menor. Na reentrada, o ar superaquecido entrou por essa fenda e destruiu a estrutura da nave.

Novamente, o padrão se repetiu: engenheiros pediram imagens detalhadas da asa durante a missão para avaliar o risco, mas o pedido foi negado. Sete vidas foram perdidas por uma cultura organizacional que, na época, minimizava sinais de perigo.

Acidente da Columbia.
Tripulação que morreu na Columbia.

O que fica para a Artemis?

Explorar o espaço não é um passeio; é um desafio constante às leis da física e à nossa própria arrogância. A Artemis II volta com sucesso, mas o eco da Apollo 1, Challenger e Columbia serve para nos lembrar: no espaço, o excesso de confiança é tão perigoso quanto a falta de combustível.

Tripulação da Artemis II.

Da Tragédia da Columbia ao Sucesso da Artemis 2

Hoje, o céu da Flórida foi palco de um momento histórico: o lançamento bem-sucedido da missão Artemis 2, que partiu do Kennedy Space Center em direção à Lua. Serão dez dias de uma jornada desafiadora, testando os limites da exploração humana antes do retorno à Terra. Meu irmão está na Flórida a trabalho e, ao lado de um amigo, testemunhou de perto a subida da Artemis 2. Um evento para guardar na memória!

Isso me fez lembrar que, em janeiro de 2003, eu morava em Orlando e trabalhava no hotel Holiday Inn, em frente à praia, em Cocoa Beach — cidade que fica a cerca de 33 km do Kennedy Space Center. De segunda a sexta-feira, eu fazia o trajeto de ‘bate e volta’ na van da empresa entre Orlando e Cocoa Beach. A estrada pela qual passávamos diariamente fica relativamente perto da base de lançamentos da NASA.

Em 15 de janeiro de 2003, quando voltávamos para Orlando no final da tarde, paramos em um ponto da estrada para assistir ao lançamento do ônibus espacial Columbia. Ficamos cerca de uma hora e meia esperando, até que ouvimos no rádio da van que a decolagem havia sido cancelada devido às muitas nuvens que cobriam a região. Ficamos todos tristes, pois perdemos a chance de presenciar um momento histórico.

A Columbia acabou sendo lançada na manhã do dia seguinte, 16 de janeiro, e não pude assistir. Após 16 dias em órbita, no momento da reentrada na atmosfera terrestre — apenas 16 minutos antes do pouso — a Columbia se desintegrou em razão de um dano sofrido ainda no lançamento. Todos os sete tripulantes morreram.

Um detalhe marcante é que, três semanas antes do acidente, eu vi um dos tripulantes “ao vivo e a cores” andando pelo hotel onde eu trabalhava. Era o Coronel Ilan Ramon, uma figura de extrema importância histórica e militar em Israel. Ele tinha 48 anos e era o primeiro astronauta de seu país. Ele estava no hotel visitando a esposa e os filhos, que estavam hospedados lá. Eu não sabia que ele era astronauta, pois, devido ao lançamento da Columbia, muitos militares norte-americanos se hospedaram no hotel.

Quem me mostrou o astronauta israelense andando pela parte externa do hotel foi um colega de trabalho, mais antenado nos assuntos espaciais. Lembro que dei uma olhada mais demorada e pensei: ‘Que legal, primeira vez que vejo um astronauta de carne e osso’. Jamais poderia imaginar que, poucos dias depois, ele estaria morto em um desastre que marcou a história da exploração espacial.

Ilan Ramon.

Oito anos depois, visitei o Cemitério de Arlington, em Washington, D.C. Estive no memorial dos astronautas mortos nos acidentes da Columbia e da Challenger (que explodiu em 1986). Foi interessante visitar aquele lugar de descanso eterno dos heróis norte-americanos. Como esperado, o astronauta israelense não foi sepultado ali; Ilan Ramon foi levado para Israel, onde foi enterrado com honras de herói nacional.

Lembro que, quando o vi em Cocoa Beach, ele estava com a esposa, a filha pequena e um dos filhos. Anos depois, soube que um de seus filhos morreu em um acidente pilotando um caça F-16 da Força Aérea Israelense. Jamais saberei se o menino que vi no hotel foi esse que também partiu cedo demais. Pena que naquela época não existia celular com câmera; com certeza eu teria tirado uma foto daquela família, mesmo que de longe. E talvez teria até pedido uma selfie com o austronauta de Israel.

Outra coisa que recordo bem foi o dia do acidente, 1 de fevereiro de 2003. Eu já tinha deixado o emprego em Cocoa Beach, cansado das viagens diárias, e estava trabalhando no hotel Renaissance, em Orlando. Ao chegar, vi muita gente aglomerada em frente à TV na sala de descanso dos funcionários. Muitos choravam. Foi ali que soube da tragédia. Sempre achei fantástico como os norte-americanos são patriotas; naquele dia, comprovei isso ao ver meus colegas chorando como se tivessem perdido alguém da própria família. O clima era de um velório silencioso e pesado.

Hoje, ao olhar para trás, percebo que vi de perto um capítulo da história espacial sendo escrito. Só não testemunhei ainda mais porque o lançamento da Columbia foi cancelado justamente no dia em que eu estava lá para assistir ao vivo.

Tripulação do ônibus espacial Columbia. (2003)
A Columbia indo para a base de lançamento. (01/2003)
Lançamento da Artemis 2. (01/04/2026)
Vander e Marcos, no Holiday Inn Cocoa Beach. (2003)
Memorial dos astronautas da Columbia e da Challenger. (2011)

Meus dois aniversários em abril

Já faz alguns anos que comemoro dois aniversários em abril. No dia 4, o oficial, esse ano farei 56 anos. E no dia 1, o extraoficial, em que estou celebrando meus 16 anos. Isso porque, há exatamente 16 anos, escapei de forma milagrosa de um acidente de carro. Até hoje não consigo entender como saí vivo daquela situação e sem nenhum arranhão.

Como um “quase estatístico” que sou — pois cursei cinco anos de Estatística na Universidade Federal do Paraná —, aprendi muito sobre probabilidade. E posso afirmar: minha chance de ter escapado ileso naquele dia era de 0,01%. Por isso, digo que aconteceu um milagre naquele primeiro de abril. Se estou vivo hoje, foi por conta do acaso, da probabilidade mínima e, principalmente, pela vontade de Deus, que naquele momento olhava por mim. Se Ele estivesse ocupado com qualquer outra coisa, eu não estaria aqui para contar esta história.

No dia 1 de abril de 2010, eu viajava de Curitiba, onde morava, para Campo Mourão, para passar a Páscoa com minha família. Também comemoraria meu aniversário, que naquele ano caiu justamente no domingo de Páscoa. Naquela época, minha vida não estava nada fácil; eu enfrentava uma depressão profunda e uma hérnia de disco terrível. Sentia muita dor física e, mentalmente, estava derrotado, sem ânimo ou vontade para nada. Tinha perdido 14 quilos e só usava calças de agasalho ou bermudas, pois precisava amarrar o cordão bem forte para que não caíssem.

Pensei muito antes de pegar a estrada e enfrentar os quase 500 quilômetros até minha cidade natal. Por causa das dores da minha segunda hérnia de disco (tive a primeira em 1995), ficar horas sentado no carro era uma tortura. Antes de sair de casa, tomei remédios para a dor, olhei para o céu e conversei com Deus. Falei que estava difícil seguir em frente, que já não suportava as dores físicas e mentais e que não sabia até onde aguentaria. Pedi que, se Ele tivesse algum plano para mim, que me mostrasse. Então, entrei no carro e fui.

Nesse dia, corri mais que o normal com meu Uno 1996, que fazia 19 km por litro de gasolina — nunca tive um carro tão econômico quanto aquele “Uninho”. Lembro que, em algumas curvas, os pneus chegaram a cantar pela forma como eu dirigia. Naquele dia, eu estava testando a morte e a Deus. Fiz uma única parada no caminho, na cidade de Reserva. Ao sair de lá, em uma reta, fui parado pela Polícia Rodoviária Estadual. Os policiais estavam sob a sombra de uma árvore e eu não os vi; quase os atropelei.

Eles me mandaram parar com as armas em punho. Achei que seria multado ou até preso. Enquanto um policial apontava a arma para o carro, o segundo veio falar comigo. Pediu os documentos e perguntou de onde eu vinha e para onde ia. Contei que morava em Curitiba e ia passar a Páscoa e o aniversário com a família. Acho que o policial notou que eu não estava bem, talvez pelo semblante de desânimo e desapego. Não sei explicar, mas ao me olhar no espelho, eu não via vida em meus olhos. O policial ficou um instante me observando e me deu alguns conselhos, dizendo para eu ir mais devagar e aproveitar os dias com a família. Então, ele me liberou. O outro policial, inconformado, perguntou se ele não ia me dar nem uma multa por excesso de velocidade. O que conversou comigo respondeu que não, que depois explicava. Segui em frente… tive mais sorte do que juízo, como aconteceu dezenas de vezes na minha vida.

Nos primeiros quilômetros após a blitz, fui devagar. Mas logo “apertei o botão do foda-se” e voltei a correr. Faltando menos de 100 quilômetros para chegar em Campo Mourão, há uma pequena serra cheia de curvas fechadas. Eu fazia as curvas a 140, 150, 160 km/h, cantando pneus… até que o carro começou a falhar. Notei que, toda vez que passava de 120 km/h, ele falhava — penso que o carburador recebia gasolina demais. Passei a andar abaixo dessa velocidade e, na terceira curva após diminuir o ritmo, foi quando quase morri.

Rodei na curva e o carro foi de lado pela pista por alguns metros. Vinham duas carretas no sentido contrário e, até hoje, não entendo como saí ileso. Dizem que, pouco antes de morrer, passa um filme pela mente. Não vi filme nenhum, mas tudo aconteceu em câmera lenta. Dessa vez, senti o bafo gelado da morte no cangote. Teve um momento em que parecia que eu estava fora do carro, no alto, vendo tudo acontecer. Não bebo, nunca usei drogas, então não foi alucinação. Se outra pessoa me contasse, eu não acreditaria; mas aconteceu comigo.

No último segundo, consegui controlar o carro e escapar por meio metro de bater de frente com a primeira carreta. Lembro até hoje da cara de desespero do motorista, vendo o acidente inevitável — ou quase! Consegui desviar da segunda carreta e saí rindo… Olhei para o céu e agradeci a Deus pelo milagre. No som do carro, tocava I Have a Dream, do ABBA. A tradução é “Eu tenho um sonho”, e naquela altura eu ainda tinha muitos sonhos por realizar.

Depois de quase morrer, corri para realizar a maioria dos meus sonhos. Esses últimos 16 anos foram intensos. Através daquele susto, Deus me respondeu: entendi que era para ser mais forte e seguir em frente. Na viagem de volta a Curitiba, decidi que mudaria de emprego, de cidade e recomeçaria do zero. Quatro meses depois, foi o que fiz. Não foi fácil, mas foi a escolha certa.

Hoje, comemoro a nova vida e todas as coisas boas que vieram com ela. Houve coisas ruins também, algumas muito ruins… mas saí inteiro e mais forte de todas as provações. Vim ao mundo por um descuido, quase morri nos primeiros meses de vida e, nestes 56 anos, perdi mais vidas que um gato. Acredito que ainda vou viver muitos anos e incomodar bastante. E espero que, no dia em que eu não puder escapar da morte, que ela chegue à noite, enquanto eu durmo, e me leve em paz, sem que eu precise olhar nos olhos dela. Que assim seja!

**A gravura abaixo ilustra como foi o quase acidente. O detalhe é que o carro ia de frente aos caminhões.