Acidentes da Nasa

Com a volta da Artemis II à Terra nesta sexta-feira (10) após dez dias de missão, a sensação é de dever cumprido. Estamos avançando, é verdade, mas o cosmos não dá margem para erro. E se hoje celebramos o progresso, é porque aprendemos lições caríssimas com o passado.

A NASA, que nos levou à Lua seis vezes desde a Apollo 11 em 1969, carrega em seu histórico não apenas glórias, mas cicatrizes profundas. Três missões específicas nos lembram que a exploração espacial é, antes de tudo, um exercício de sobrevivência ao extremo.

Apollo 1 (1967): O desastre antes da decolagem

A ironia mais amarga da Apollo 1 é que ela nunca saiu do chão. Em 27 de janeiro de 1967, durante um teste de rotina no Cabo Canaveral, um incêndio na cabine matou os astronautas Gus Grissom, Ed White e Roger Chaffee.

O cenário era uma “tempestade perfeita” de falhas:

  • Oxigênio puro: A cabine estava pressurizada com 100% de oxigênio, transformando qualquer faísca em um maçarico.

  • Design falho: A porta abria para dentro. Com o aumento da pressão causado pelas chamas, os astronautas ficaram presos em uma armadilha impossível de abrir.

  • Negligência: O teste já acumulava problemas de fiação e comunicação antes mesmo de começar.

O saldo: A tragédia forçou a NASA a redesenhar toda a nave e abolir o uso de oxigênio puro em testes de solo.

Acidente da Apolo I.
Tripulação que morreu na Apolo I.

Challenger (1986): 73 segundos de choque

Se você viveu os anos 80, provavelmente se lembra da imagem do ônibus espacial se transformando em fumaça no céu da Flórida. Em 28 de janeiro de 1986, a Challenger explodiu pouco após o lançamento, matando todos os sete tripulantes.

O culpado técnico? Um O-ring (anel de vedação de borracha) que endureceu devido ao frio intenso daquela manhã, perdendo sua capacidade de vedar gases quentes. Mas o culpado real foi a pressão institucional. Engenheiros alertaram sobre o risco do frio na véspera, mas foram ignorados para manter o cronograma.

A tragédia foi ainda mais sentida pela presença de Christa McAuliffe, a professora que daria a primeira aula do espaço para milhões de crianças que assistiam a tudo ao vivo.

Acidente da Challenger.
Tripulação que morreu na Challenger.

Columbia (2003): O perigo na volta para casa

Diferente das outras, a tragédia da Columbia aconteceu no “minuto final”. Em 1º de fevereiro de 2003, a nave se desintegrou durante a reentrada na atmosfera, apenas 16 minutos antes do pouso.

O problema começou 16 dias antes, na decolagem: um pedaço de espuma isolante se soltou e atingiu a asa esquerda. A gestão da NASA subestimou o dano, achando que era algo menor. Na reentrada, o ar superaquecido entrou por essa fenda e destruiu a estrutura da nave.

Novamente, o padrão se repetiu: engenheiros pediram imagens detalhadas da asa durante a missão para avaliar o risco, mas o pedido foi negado. Sete vidas foram perdidas por uma cultura organizacional que, na época, minimizava sinais de perigo.

Acidente da Columbia.
Tripulação que morreu na Columbia.

O que fica para a Artemis?

Explorar o espaço não é um passeio; é um desafio constante às leis da física e à nossa própria arrogância. A Artemis II volta com sucesso, mas o eco da Apollo 1, Challenger e Columbia serve para nos lembrar: no espaço, o excesso de confiança é tão perigoso quanto a falta de combustível.

Tripulação da Artemis II.

Da Tragédia da Columbia ao Sucesso da Artemis 2

Hoje, o céu da Flórida foi palco de um momento histórico: o lançamento bem-sucedido da missão Artemis 2, que partiu do Kennedy Space Center em direção à Lua. Serão dez dias de uma jornada desafiadora, testando os limites da exploração humana antes do retorno à Terra. Meu irmão está na Flórida a trabalho e, ao lado de um amigo, testemunhou de perto a subida da Artemis 2. Um evento para guardar na memória!

Isso me fez lembrar que, em janeiro de 2003, eu morava em Orlando e trabalhava no hotel Holiday Inn, em frente à praia, em Cocoa Beach — cidade que fica a cerca de 33 km do Kennedy Space Center. De segunda a sexta-feira, eu fazia o trajeto de ‘bate e volta’ na van da empresa entre Orlando e Cocoa Beach. A estrada pela qual passávamos diariamente fica relativamente perto da base de lançamentos da NASA.

Em 15 de janeiro de 2003, quando voltávamos para Orlando no final da tarde, paramos em um ponto da estrada para assistir ao lançamento do ônibus espacial Columbia. Ficamos cerca de uma hora e meia esperando, até que ouvimos no rádio da van que a decolagem havia sido cancelada devido às muitas nuvens que cobriam a região. Ficamos todos tristes, pois perdemos a chance de presenciar um momento histórico.

A Columbia acabou sendo lançada na manhã do dia seguinte, 16 de janeiro, e não pude assistir. Após 16 dias em órbita, no momento da reentrada na atmosfera terrestre — apenas 16 minutos antes do pouso — a Columbia se desintegrou em razão de um dano sofrido ainda no lançamento. Todos os sete tripulantes morreram.

Um detalhe marcante é que, três semanas antes do acidente, eu vi um dos tripulantes “ao vivo e a cores” andando pelo hotel onde eu trabalhava. Era o Coronel Ilan Ramon, uma figura de extrema importância histórica e militar em Israel. Ele tinha 48 anos e era o primeiro astronauta de seu país. Ele estava no hotel visitando a esposa e os filhos, que estavam hospedados lá. Eu não sabia que ele era astronauta, pois, devido ao lançamento da Columbia, muitos militares norte-americanos se hospedaram no hotel.

Quem me mostrou o astronauta israelense andando pela parte externa do hotel foi um colega de trabalho, mais antenado nos assuntos espaciais. Lembro que dei uma olhada mais demorada e pensei: ‘Que legal, primeira vez que vejo um astronauta de carne e osso’. Jamais poderia imaginar que, poucos dias depois, ele estaria morto em um desastre que marcou a história da exploração espacial.

Ilan Ramon.

Oito anos depois, visitei o Cemitério de Arlington, em Washington, D.C. Estive no memorial dos astronautas mortos nos acidentes da Columbia e da Challenger (que explodiu em 1986). Foi interessante visitar aquele lugar de descanso eterno dos heróis norte-americanos. Como esperado, o astronauta israelense não foi sepultado ali; Ilan Ramon foi levado para Israel, onde foi enterrado com honras de herói nacional.

Lembro que, quando o vi em Cocoa Beach, ele estava com a esposa, a filha pequena e um dos filhos. Anos depois, soube que um de seus filhos morreu em um acidente pilotando um caça F-16 da Força Aérea Israelense. Jamais saberei se o menino que vi no hotel foi esse que também partiu cedo demais. Pena que naquela época não existia celular com câmera; com certeza eu teria tirado uma foto daquela família, mesmo que de longe. E talvez teria até pedido uma selfie com o austronauta de Israel.

Outra coisa que recordo bem foi o dia do acidente, 1 de fevereiro de 2003. Eu já tinha deixado o emprego em Cocoa Beach, cansado das viagens diárias, e estava trabalhando no hotel Renaissance, em Orlando. Ao chegar, vi muita gente aglomerada em frente à TV na sala de descanso dos funcionários. Muitos choravam. Foi ali que soube da tragédia. Sempre achei fantástico como os norte-americanos são patriotas; naquele dia, comprovei isso ao ver meus colegas chorando como se tivessem perdido alguém da própria família. O clima era de um velório silencioso e pesado.

Hoje, ao olhar para trás, percebo que vi de perto um capítulo da história espacial sendo escrito. Só não testemunhei ainda mais porque o lançamento da Columbia foi cancelado justamente no dia em que eu estava lá para assistir ao vivo.

Tripulação do ônibus espacial Columbia. (2003)
A Columbia indo para a base de lançamento. (01/2003)
Lançamento da Artemis 2. (01/04/2026)
Vander e Marcos, no Holiday Inn Cocoa Beach. (2003)
Memorial dos astronautas da Columbia e da Challenger. (2011)

Samuca

E nesse retorno a Orlando, finalmente consegui encontrar meu grande amigo Samuel, vulgo Samuca. Nos conhecemos em 2002, logo que fui morar em Orlando e ele foi o melhor amigo que fiz nos Estados Unidos. O Samuel é de Olinda – PE, e vive há 11 anos em Orlando. Marcamos de nos encontra em um bar para conversar e passamos um bom tempo contando sobre nossas vidas nos últimos oito anos, desde que nos vimos pela última vez. E relembramos alguns momentos e histórias que vivemos juntos em 2002 e 2003.

Conheci o Samuel quando fui trabalhar num hotel em Cocoa Beach, praia que fica próxima a NASA. Éramos uma equipe contratada para fazer pequenos retoques nos banheiros de 400 quartos do hotel, principalmente no isolamento ao redor das banheiras. Para quem não sabe, nos Estados Unidos praticamente todos os banheiros de casas e hotéis possuem banheira. O chuveiro fica acima da banheira e você toma banho em pé dentro da banheira. A equipe era formada por mim, Samuel, Marcos e Honey. Nossa supervisora era uma jovem loira irlandesa, que estava fazendo estágio em hotelaria nos Estados Unidos. Nos primeiros dias enrolamos bastante no serviço, pois ganhávamos por hora. E mesmo assim a irlandesa veio reclamar que estávamos indo rápido demais e dessa forma o trabalho ia acabar logo, o que não era bom para ela. Ser nossa supervisora era moleza, e ela queria permanecer nessa moleza por mais tempo. Então firmamos um acordo, onde limitamos a quatro o número de quartos que cada dupla consertaria por dia. Se fosse para trabalhar para valer, daria para fazer tranquilamente uns 12 quartos por dia. E assim ficamos dois meses nesse hotel, que era em frente ao mar, fazendo o trabalho de forma tranqüila. E riamos muito, pois zoávamos o tempo todo. E vez ou outra dávamos um jeito de fugir e ir passear na praia. Outra coisa comum era enquanto um trabalhava, o outro ficar dormindo. Lembro do Marcos dormindo debaixo de uma cama. E eu muitas vezes dormia sentado atrás da porta do banheiro. Bons tempos!

Vander e Samuel.