PERU: The End

E chega ao fim às postagens sobre minha viagem ao Peru, que foi bastante detalhada. Em próximas viagens não devo detalhar tanto, pois não terei tempo disponível igual tive agora. Agradeço a todos que acompanharam essa narrativa e viajaram comigo pelas terras incas. Também agradeço pelos elogios e comentários que recebi via blog, email, MSN, Skype, Facebook, celular e pessoalmente. Recebi somente uma crítica, de uma amiga de Campinas que achou as postagens muito detalhadas e ficou com preguiça de ler tudo.

A narrativa sobre a Trilha Inca também foi publicada num site especializado em viagens e está tendo muitos acessos, dezenas de vezes acima do que eu esperava. E nesse site também recebi elogios e perguntas, além de pedidos de dicas da parte de pessoas que vão fazer a Trilha Inca em breve.

E para finalizar essa série sobre o Peru, deixo para vocês duas visões sobre Machu Picchu, pela ótica de duas pessoas que lá estiveram muito antes que eu. Um deles é bem conhecido, trata-se do famoso guerrilheiro Che Guevara. O outro é um viajante e escritor, com alguns livros publicados, sendo um sobre Machu Picchu.

“Não importa muito, de todo modo, qual tenha sido a origem da fortaleza (Machu Picchu), ou melhor, é mais fácil deixar o debate para os arqueólogos. O que é inegável, entretanto, o mais importante, é que temos à nossa frente uma expressão pura da mais poderosa raça indígena das Américas, intocada pelo contato com a civilização invasora e cheia de tesouros imensamente evocativos em suas paredes, paredes que morreram em decorrência do tédio de não mais existir…”       Ernesto CHE Guevara (médico e guerrilheiro) 

“Dois tipos de pessoa vão a Machu Picchu. O primeiro não se interessa exatamente pela filosofia e cultura dos incas; quer apenas a atração turística. Esse não costuma seguir o caminho inca, preferindo o conforto da subida de ônibus. O outro vai até lá atendendo a um chamado interior, em busca da energia divina que impregna o Vale Sagrado. Esse geralmente opta por seguir a Trilha Inca e tentar aprender um pouco da sua espiritualidade evoluída. Segue o caminho sem pressa, detendo-se nas ruínas e observando a beleza da paisagem, preparando-se, aos poucos, para o ritual que envolve o encontro com a cidade perdida”.   Sérgio Motta (escritor)

Machu Picchu

Lima/São Paulo

Levantei cedo, peguei minhas coisas e fui de taxi para o aeroporto. Pelo caminho fui assistindo as barbeiragens e imprudências dos motoristas. Chegando ao aeroporto fiz os tramites normais de embarque e passei tranquilamente pela Policia Federal local. Então fui para a sala de embarque e para variar o vôo atrasou. Aproveitei para usar a internet e comprar chocolates no Freeshop.

O vôo de volta não foi nada tranqüilo, teve muita turbulência. O piloto avisou que teria que ir desviando de espessas nuvens de chuva e que por essa razão o vôo seria mais demorado do que o previsto. Chacoalhou muito durante quase toda a viagem e fiquei muito enjoado. O pior é que não conseguia dormir, não conseguia ler e assim o tempo não passava. O jeito foi ouvir música no MP3 para tentar me distrair um pouco. No final da tarde teve um momento em que foi bem visível o tal desvio que o piloto estava fazendo das nuvens de chuva. Dava para ver pela janela nuvens escuras e muitos raios, bem próximos ao avião. Era uma cena ao mesmo tempo bonita e assustadora.

Felizmente entre turbulências e mais turbulências, aterrissamos em São Paulo sãos e salvos. Chegava ao fim minha aventura peruana, que será inesquecível por muitas razões. Pretendo voltar ao Peru algum dia, para fazer o que ficou faltando fazer dessa vez e para conhecer novos lugares.

Blogando no aeroporto de Lima.
Decolando de Lima.
Almoço servido pela Tam.
De volta ao Brasil, no aeroporto de Guarulhos

Em Lima novamente

O hotel onde fiquei em Lima era bem no centro da cidade. Próximo a ele tinha uma rua muito parecida com a rua XV, em Curitiba. Essa rua terminava em uma praça bem em frente ao Palácio do Governo do Peru. Em volta da praça muitos prédios pintados de amarelo. Caminhei bastante pelas ruas, prestando atenção aos detalhes. Aproveitei para matar saudades de coisas que comia nos Estados Unidos. O almoço foi pizza no Papa Jhones e a janta foi frango frito no KFC

Em Cuzco fui confundido muitas vezes como sendo norteamericano. Muita gente, principalmente vendedores se dirigiam a mim falando em inglês e quando eu respondia em português, espanhol ou portunhol, eles faziam uma cara de espanto. Já em Lima preferi usar somente camisetas amarelas da seleção de futebol.

Em Lima não existe o problema da altitude, pois a cidade fica a beira mar. Mas voltar ao nível do mar também me fez mal. Acho que era o excesso de oxigênio no ar que me deixou com dor de cabeça e tontura. Devido aos muitos dias que passei em altas altitudes e com ar rarefeito, creio que meu organismo estava começando a ficar acostumado com o pouco oxigênio e sentiu diferença quando voltei ao nível do mar. 

Como percebi em todos os lugares do Peru onde estive, o trânsito é uma caos. Os motoristas são todos imprudentes, egoístas e adoram uma buzina. Logo foi complicado dormir com tantas buzinas a noite. Mesmo assim descansei bem em minha última noite em terras peruanas.

Praça no centro de Lima.
Rua parecida com a XV em Curitiba.
Em frente ao Palácio do Governo.
Alguns dos muitos prédios amarelos do centro da cidade.
Passeio noturno.

Cuzco/Lima

A manhã de minha partida de Cuzco foi sem chuva, o que me deixou mais tranqüilo, pois me preocupava algum problema ou atraso no vôo por culpa da chuva. Fechei a conta no hotel e logo embarquei num taxi rumo ao aeroporto. Os taxis na cidade são baratos e não existe taxímetro, é tudo na base da negociação. Não levou nem dez minutos para chegar ao aeroporto e pude conhecer um pouco mais da periferia da cidade, pela janela do carro. 

Meu vôo seria pela Star Peru, uma companhia aérea de médio porte e com aviões de tamanho médio. Fiz os tramites para despachar bagagem e fui para a sala de embarque. Lá descobri que meu vôo atrasaria em pouco mais de uma hora. Então sentei no chão perto de uma tomada e fiquei usando o computador. Encontrei as duas australianas que faziam parte do outro grupo que fez a Trilha Inca. Conversamos rapidamente e mostrei a elas um pequeno vídeo que fiz delas dançando. Elas ficaram vermelhas de vergonha e pediram para que eu enviasse o vídeo para o email delas. 

E finalmente chegou a hora do embarque e do adeus a Cuzco. Diferente das muitas horas de ônibus que levei de Lima até Cuzco, o retorno seria de apenas uma hora de vôo. O aeroporto de Cuzco é complicado para aterrissagens, pois fica entre muitas montanhas e o piloto tem que fazer uma manobra radical para pousar. Ele executa uma virada lateral de 180 graus, algo mais comum a aviões de guerra. Já para decolar não é necessário executar tal manobra, então embarquei mais tranqüilo. Por mais que eu viaje de avião, não consigo gostar de voar, prefiro sempre ter os pés no chão. 

O vôo foi tranqüilo e comecei a ler o livro do Bingham que tinha comprado no dia anterior. Do meu lado foi uma peruana que começou a puxar conversa. Quando soube que eu era brasileiro, ela me encheu de perguntas. Disse que seu sonho é conhecer o Rio de Janeiro, o carnaval. Falei a ela que o Brasil tem lugares mais interessantes e menos violentos que o Rio de Janeiro, para ela conhecer.  E entre a leitura do livro e a conversa com a peruana, o vôo transcorreu tranqüilo, ou melhor, quase tranqüilo. Um pouco antes de chegar a Lima, teve uma turbulência daquelas inesperadas e que assustam bastante. E para descer em Lima o piloto executou a manobra de 180 graus que ele está habituado a executar para descer em Cuzco. Foi assustador e minha labirintite deu as caras, fiquei tontinho. Com certeza essa foi uma das piores aterrissagens que já fiz.

No desembarque em Lima me despedi da peruana e liguei para o taxista que conheci dias antes. O telefone dele não atendia, acho que era seu dia de folga. Então o jeito foi encontrar outro taxista e seguir rumo ao centro da cidade. Ficaria em Lima até a manhã seguinte, quando então embarcaria para o Brasil.

Despedida do hotel.
Painel de vôos em Cuzco.
Passagem da Star Peru.
Avião da Star Peru, no aeroporto de Cuzco.

De volta a Cuzco

Após retornar da Trilha Inca, passei parte do primeiro dia em Cuzco na cama, dormindo. Levantei depois do meio-dia, fazia frio e chovia sem parar. Tive uma noite maravilhosa de sono, onde recuperei todo o sono atrasado e mandei embora o cansaço acumulado. O quarto do hotel estava convidativo, quentinho e não dava vontade de sair dele. Mas a fome bateu e precisei sair. Andei poucos metros na rua e me senti mal por culpa da altitude. Não tinha tomado chá de coca em nem as pílulas para soroche, como tinha feito todos os dias na Trilha Inca. 

Precisava encontrar um local para comer e que não fosse comida peruana. Pensei no Mac Donald’s, mas lembrei de ter visto na Plaza de Armas um Bembos, que é uma cadeia de lanches peruana, cópia do Mac. Resolvi ir lá experimentar e gostei do lanche que escolhi. E o preço é ainda mais em conta que no Mac. Com a barriga cheia resolvi dar uma volta pelo centro e fazer umas comprinhas, mas chovia muito. Molhei o pé, fiquei com frio e resolvi voltar para o hotel. Fiquei um tempão usando a internet no quarto até a chuva parar. Então no final da tarde caminhei pelo centro, fiz algumas compras, principalmente de lembrancinhas para levar para a família e para os amigos e conheci alguns pontos turísticos importantes do centro. Tinha bem mais coisas interessantes para conhecer e existem muitos passeios nas proximidades da cidade, mas com tanta chuva não deu vontade de ir. 

Um dos lugares que visitei foi uma faculdade e foi meio sem querer. Ela fica ao lado de uma das igrejas da Plaza de Armas e pensei que estava entrando na igreja. Quando me dei conta tinha entrado na faculdade. Bem que achei estranho a cara de espanto que o segurança fez quando na entrada falei para ele que ia entrar para visitar o lugar. Acredito que aquele não seja um ponto turístico da cidade… rs! Depois fui visitar ás igrejas, mas diante de ser preciso pagar ingresso para entrar, acabei desistindo. Não pelo preço, mas sim em razão de meus princípios. Vejo ás igrejas como a casa de Deus e que devem estar sempre abertas para receber aqueles que necessitam de um lugar para entrar e orar. Então achei absurdo ter que pagar para entrar. E umas das igrejas era jesuíta, e como trabalhei muitos anos para os jesuítas, bem sei que a Companhia de Jesus tem muito dinheiro e não precisa ficar cobrando ingresso para entrar em suas igrejas. Tanto a igreja jesuíta, quanto a catedral que fica na Plaza de Armas, tem seus altares cheios de ouro. Esse ouro foi roubado dos incas e a custo de muito sangue. Mas essa é outra história que prefiro não debater aqui. Nessas igrejas com altares de ouro é proibido fotografar. Mas dei um jeitinho e tirei uma foto do lado de fora da igreja, onde bem ao fundo aparece parte do altar todo em ouro. Não fiz nada de errado, não existia nenhuma placa informando que era proibido fotografar da rua em frente a igreja. A única igreja que entrei foi em uma que fica também no centro, mas um pouco mais distante da Plaza de Armas. Entrei na igreja no horário da missa e não precisava pagar ingresso. Seria um grande absurdo se cobrassem ingresso para assistir a missa. Em meus passeios acabei encontrando pela rua alguns argentinos que conheci na Trilha Inca.

Um ponto turístico que fiz questão de visitar foi à “pedra de 12 ângulos”. Ela fica em uma rua lateral à Plaza de Armas, cerca de 50 metros. É um muro inca com uma construção mais recente em cima. Do outro lado da ruela tem um muro espanhol, imitação mal acabada dos muros incas. Esse muro inca aparece no filme “Diários de Motocicleta”, na visita de Che Guevara a Cuzco. Diz a lenda que Che, ao comparar o muro inca com um muro espanhol disse: “Esse é o muro dos Incas. Esse outro é o muro dos incapazes”.

Continuei com meu passeio pelo centro, aproveitando que a chuva tinha dado uma trégua. Encontrei um mercadinho que vendia muitos produtos americanos. Então aproveitei para comprar alguns chocolates americanos e manteiga de amendoim, algo que não encontro no Brasil. Andei mais um pouco visitando as lojinhas e comprei um livro escrito pelo Hiram Bingham, sobre a descoberta de Machu Picchu. Eu tinha procurado esse livro no Brasil e nunca encontrei. Já em Cuzco existiam várias versões desse livro, tanto em espanhol, como em inglês. Alguns com fotos originais da época, outras versões sem foto e até versões com fotos atuais. E os preços também variavam muito. Mais algumas compras e fui jantar no Bembos. Voltei para o hotel, descansei um pouco e saí dar uma volta antes que o comércio fechasse, o que ocorre ás 22h00min. Aproveitei para tomar uma Inca Kola, um refrigerante peruano muito apreciado pelos locais. Tem gosto de chiclete tutti frutti, achei horrível. Dei uma última volta pela Plaza de Armas e fui assediado por um monte de rapazes que distribuíam ingressos gratuitos para algumas danceterias que funcionam no centro. O assédio era intenso, os rapazes quase brigavam entre si e tentavam me convencer a entrar numa das danceterias. Como era de graça resolvi entrar numa delas para ver como era, mas não me demorei muito. Toca somente música técno, o que detesto. O local até que estava cheio, a maioria bebendo e fumando umas “ervas”. Aquilo não era ambiente para mim, achei melhor ir para o hotel arrumar minhas coisas e descansar, pois no dia seguinte seguiria para Lima.

Plaza de Armas sob chuva.
Ao fundo o altar de ouro da igreja jesuíta.
Bembos.
Plaza de Armas no final do dia.
Na balada...

O “Cão Inca”

Em seu livro “Machu Picchu”, o escritor Sérgio Motta conta que durante sua viagem ao Peru, ele encontrou o mesmo índio três vezes. Primeiro no trem da morte, depois em uma cidade no interior do Peru e por último em Machu Picchu. Foi uma coincidência interessante. 

Eu não encontrei nenhum índio, mas sim um cachorro em vários lugares. Dei a ele o nome de “cão inca”. O vi pela primeira vez no anoitecer do terceiro dia de trilha. Eu estava sentando tirando fotos quando o cachorro apareceu do nada e lambeu minha câmera. Na madrugada seguinte, quando descíamos a montanha em direção a Aguas Calientes, o cachorro passou por nós e pouco depois ele estava deitado na trilha, bem a minha frente.  Horas depois ele apareceu novamente, dessa vez quando eu caminhava ao lado dos trilhos do trem, o cão passou correndo ao lado do trem. E a última e mais surpreendente aparição foi em Machu Picchu. Quando eu e meu irmão estávamos indo embora, pouco antes da saída pedi para ele entrar em uma construção, uma das poucas que possui cobertura de palha, pois queria tirar as últimas fotos. E ao entrar na construção encontramos o “cão inca” deitado, dormindo. Fui perto dele para ver se era o mesmo cachorro, e para minha surpresa era ele mesmo. Peguei um biscoito e ofereci a ele. Ele pegou o biscoito, virou-se e saiu da construção. Fui atrás para tirar mais fotos, mas o cachorro desapareceu, não consegui ver para onde ele foi. Fiquei me perguntando como ele tinha ido parar em Machu Picchu? Se tinha subido a montanha caminhando? E por que ele tinha ido até lá? Do acampamento onde o vi pela primeira vez, até Machu Picchu, é uma distância considerável.

Quando voltamos para Aguas Calientes, contei sobre o cachorro para algumas pessoas do grupo. Alguns o viram nos trilhos do trem e até tiraram fotos com ele. Os colombianos foram os únicos além de mim e de meu irmão que viram o cachorro em Machu Picchu. O assunto acabou virando um debate sobre se era ou não o mesmo cachorro em todos os lugares. A maioria disse que sim, dois disseram que não. Um analisou as manchas pelas fotos e disse que eram diferentes. Eu analisei as manchas e para mim eram iguais e principalmente reconheci ser o mesmo cachorro em todos os lugares. Meu irmão comentou que o cachorro foi muito “educado” quando pegou o biscoito que ofereci a ele em Machu Picchu, sinal de que ele me conhecia. O casal Juan e Cecília ficou dividido, ela disse que era o mesmo cachorro e o Juan disse que não. No dia seguinte os encontrei em Cuzco e na despedida o Juan me disse que era sim o mesmo cachorro. Não sei se encontrar o cachorro em tantos lugares foi apenas coincidência ou se tem algum significado que ainda não descobri. Mas que achei tais acontecimentos estranhos, isso achei…

Fiquei um bom tempo pensando no “cão inca” e a razão dele ter cruzado (sem trocadilhos, por favor!) meu caminho tantas vezes. Então fui pesquisar se o cachorro tinha algum significado especial na cultura incaica e descobri que existia um tipo de cão, pequeno e sem pelo que era cultuado pelos antigos incas.   Os estudiosos afirmam que o “cachorro sem pêlo” chegou ao Peru há mais de dois mil anos e foi o fiel companheiro dos nobres incas e amigo dos famosos guerreiros (pré-incas) do Sipão (norte). Este cachorro singular foi idolatrado pelos antigos peruanos, que o imortalizaram em diferentes cerâmicas e jóias encontradas nas tumbas e templos.

O “cão inca” lambendo minha câmera.

No acampamento do terceiro dia.
Na trilha, na madrugada do quarto dia.
Correndo com o trem.
Dormindo em Machu Picchu.

De volta a Aguas Calientes

Sair de Machu Picchu e voltar a Águas Calientes, me deixou com uma sensação de quero mais. Não ter entrado em Machu Picchu caminhando pela Trilha Inca, e não ter subido até Wuayna Picchu, me deixou meio frustrado e com vontade de voltar ao Peru o mais breve possível para fazer o que ficou faltando.

Descer a montanha de ônibus foi mais rápido do que subir. Descemos na rua, na esquina do restaurante onde deixei a mochila. Eram 15h00min e mal entramos no restaurante começou a chover forte. Os guias peruanos estavam todos ali, tomando cerveja. Fui cumprimentá-los e acabei sofrendo o maior acidente de toda a viagem. Escorreguei no piso molhado e bati a mão em uma coluna. Senti uma dor terrível e o local logo ficou inchado. Coloquei gelo, mas não aliviou muito. No final do dia toda a região em volta do lugar da batida estava roxa e muito dolorida. Fiquei com receio de que fosse algo grave, tamanha era a dor e a aparência ruim com que o ferimento ficou. Achei isso irônico, pois tinha passado dias no meio do mato, correndo enormes riscos de me machucar, talvez até morrer (muitos já morreram na Trilha Inca) e fui me machucar justamente ao entrar num restaurante, o que parecia ser um lugar seguro. Meu escorregão acabou chamando a atenção de todos que estavam no restaurante naquela hora, muitos turistas, até um casal de brasileiros. Em seguida chamamos atenção novamente, pois meu irmão e a garçonete meio que se atrapalharam ao arrumar a mesa e ela derrubou um copo no chão. Mais uma vez todos olharam em nossa direção e para piorar os peruanos gritaram em coro: Brasil, Brasil, Brasil, Brasiiiiiillll !!!! Foi um grande mico e tive vontade de me esconder debaixo da mesa.

Eu meu irmão almoçamos uma pizza e tomamos um litro de Coca-Cola gelada. Após alguns dias comendo a horrível comida servida na trilha, foi muito bom comer algo descente. Os peruanos logo foram embora, deram tchau e dificilmente voltarei a ver algum deles novamente em minha vida. Ainda estávamos comendo quando algumas pessoas do meu grupo chegaram para pegar suas mochilas. E aos poucos foi chegando o restante do pessoal. A chuva tinha aumentado muito e ninguém mais quis ficar passeando por Machu Picchu debaixo de tanta água. Logo meu irmão foi para a estação de trem e fui com ele. Despedimos-nos e dei uma volta por uma enorme feira de artesanato que existe ao lado da estação. Tem muita coisa bonita, mas os preços são para turistas endinheirados, o que não é meu caso. Vi muita coisa feita de prata, algo que achei que seria barato ali. Mas não, é tudo mais caro que no Brasil. Acho que os espanhóis roubaram todo o ouro e prata do Peru, que agora qualquer objeto feito com esses metais é muito caro. A cidade é pequena e como chovia muito resolvi voltar logo para o restaurante.

Até o horário de ir pegar o trem, fiquei no restaurante conversando com o pessoal. Acabei ficando numa mesa muito animada, junto com os dois colombianos do grupo, o Juan e sua esposa Cecília, a Carolina, a Roxana e por último chegou o Che. Fizeram alguns brindes com um tipo de caipirinha feita com pisco, uma bebida local. Acabei tendo que participar dos brindes e tive que tomar um pouco de pisco. O chato nesse tipo de viagem onde você acaba fazendo parte de um grupo de desconhecidos, é que a viagem termina justamente quando você finalmente ficou enturmado e fez muitas amizades. Daí todos se separam e nunca mais se encontram novamente.

Já estava escuro quando fomos para a estação e a chuva continuava firme. Fui um dos últimos a embarcar e logo o trem partiu. Gosto de viajar de trem, mas a noite não da para ver nada, ainda mais com chuva. Os locais por onde íamos passar são interessantes, com paisagens bonitas, mas não dava para ver nada. O jeito foi ficar olhando para dentro do trem. O pessoal ficou jogando baralho do meu lado. Conversei um pouco e depois fiquei quieto pensando na vida. Estava cansado e as duas horas de viagem não foram das melhores. Descemos na estação de Ollantaytambo, pois o trecho até Cuzco está interrompido desde ás fortes chuvas de março do ano passado. Fomos caminhando até um enorme estacionamento onde estavam muitas vans e ônibus esperando o pessoal que desembarcava do trem. Logo encontramos nosso ônibus e tivemos que esperar que fizessem uma chamada demorada e confusa, até que pudéssemos embarcar. Acabei indo parar no ônibus onde estava quase todos do outro grupo que sempre andou próximo a nós. Sentei-me na segunda poltrona atrás do motorista e ao meu lado estava o inglês com quem caminhei junto no final do terceiro dia de trilha. Na poltrona a minha direita duas australianas, a Kylah e sua amiga cujo nome não lembro. O ônibus era desconfortável, e teríamos mais duas horas de viagem pela frente, até Cuzco. Tentei dormir mas foi impossível quando vi as manobras imprudentes que o motorista fazia. Ele corria feito louco e fazia somente ultrapassagens perigosas. Era de dar medo e o sono logo foi embora. O radio do ônibus estava ligado, tocando umas músicas peruanas. Teve uma hora que começou a tocar Leonardo, cantando em espanhol. Comecei a rir…

Chegamos a Cuzco com chuva e muito frio. O ônibus parou numa praça perto da Plaza de Armas e ali desembarquei junto com mais cinco conhecidos. Despedi-me do pessoal e fui para o hotel, distante 200 metros. Cheguei à portaria do hotel e logo encontraram a reserva que eu tinha deixado feita antes de partir para a Trilha Inca. Aproveitei para pegar a mochila que tinha deixado guardada no depósito do hotel. Estava tudo em ordem, nada faltando ou sobrando. Era quase meia noite quando entrei no quarto. Tomei um banho não muito quente, pois a água não esquentava direito e caí na cama. Após seis noites mal dormidas, ou dormidas com pouco conforto, finalmente eu poderia dormir muitas horas numa cama confortável e quentinha. Para garantir dormi com o aquecedor do quarto ligado. A sensação era boa, de missão cumprida. Eu vivi quatro dias intensos e inesquecíveis percorrendo a Trilha Inca e conhecendo Machu Picchu. Agora era descansar, pensar na volta ao Brasil e depois na próxima viagem, na próxima aventura…

Eu e meu irmão.
Duas coisas que adoro: Pizza e Coca-Cola.
o ferimento na mão, que piorou muito nas horas seguintes.
Muitos brindes com pisco.
Che, eu, Juan e Cecília.
No trem.
O pessoal jogando baralho no trem.
Desembarcando em Ollantaytambo.

Em Machu Picchu

Ver Post

Em Aguas Calientes, por ordem dos guias peruanos todos do grupo deixaram suas mochilas no restaurante de um argentino. O dono do restaurante cuidava das mochilas, pois sabia que no retorno de Machu Picchu o pessoal ficava no restaurante consumindo até a hora da partida do trem para Cuzco, o que era um bom negócio para ambas as partes. Fomos para o ponto de ônibus, que era bem próximo ao restaurante. Tinha um ônibus estacionado e muita gente embarcando. Nosso guia achou melhor esperar o próximo ônibus e embarcar todo o grupo junto. Não demorou muito e estávamos todos acomodados dentro do ônibus, seguindo para Machu Picchu. Essa não era a forma que todos nós do grupo gostaríamos de chegar a Machu Picchu. Desde o início o plano era chegar caminhando, mas em razão dos problemas que ocorreram na trilha, o importante agora era chegar. O ônibus leva cerca de meia hora para chegar até a entrada de turistas em Machu Picchu. Ele segue um pouco por uma estrada ao lado do rio Urubamba e depois começa a subir a montanha, fazendo muitas curvas por uma estrada relativamente perigosa. 

Ao desembarcar em frente ao portão de entrada de Machu Picchu e passar pela catraca após entregar meu ingresso, eu estava realizando um sonho de quase trinta anos. Foi em 1982 nas aulas do Professor Jader, no Colégio Estadual de Campo Mourão que vi pela primeira vez no livro de Estudos Sociais da 5ª série, uma foto de Machu Picchu coberta por nuvens. Depois o Professor Jader contou que conhecia tal lugar e fez um breve relato. Eu, então com 11 anos senti uma vontade enorme de um dia conhecer tal lugar. Os anos foram passando, cheguei a planejar tal viagem algumas vezes, e nunca dava certo. E eis que quase trinta anos depois eu estava realizando o antigo sonho. Ainda na entrada fui até uma sala onde peguei um mapa e ganhei um carimbo no passaporte. O carimbo é mais para enfeitar o passaporte, pois não é obrigatório. A chuva tinha parado fazia mais de uma hora e o sol surgiu quente. A primeira visão que tive das ruínas logo após subir algumas escadas que ficam após o portão de entrada, foram de tirar o fôlego. A sensação foi estranha. Realizar sonhos antigos pôde ser estranho. Ao mesmo tento que vem aquela sensação de missão cumprida, de sonho realizado, também surge uma sensação de vazio. De qualquer forma eu estava feliz. Eram 10h30min quando nossos guias separaram nosso grupo, para que ficasse mais fácil de caminharmos pelo lugar. Meu irmão logicamente ficou no meu grupo e já começamos a bater muitas fotos. 

Uma outra decepção foi não poder subir até Huayna Picchu, que é aquela montanha que aparece atrás das ruínas nas fotos clássicas de Macchu Picchu. A subida até Huayna Picchu é limitada a 200 pessoas por dia. São distribuídas senhas; 100 para ás 07h00min e mais 100 para ás 10h00min. Se tivéssemos chegado a Machu Picchu pela Trilha Inca, teríamos conseguido as senhas para subir a Huayna Pichu. Infelizmente termos tido que descer a montanha e seguir até Aguas Calientes para pegar o ônibus, acabou nos atrasando e perdemos a chance de conseguir as concorridas senhas. Isso mostrou que realmente devo retornar a Machu Picchu mais uma vez, pois subir até Huayna Picchu era uma de minhas metas iniciais.

Não vou contar detalhes sobre Machu Picchu e sua história, pois já fiz isso em outras postagens. Também não vou me demorar detalhando as várias partes do local que visitamos, pois muitos nomes não recordo direito. Resumindo, visitamos as construções mais importantes, onde os guias paravam e contavam detalhes sobre a funcionalidade e história das construções ou outros locais. Segui sempre caminhando junto com meu. Por ser domingo o lugar estava cheio de turistas vindos de todas as partes do mundo. Em muitos lugares era preciso fazer fila para entrar. Lá do alto a vista é muito bonita, existem muitas montanhas em volta e abaixo o rio Urubamba percorre o pé de outras montanhas. Uma vista inesquecível sem dúvida!

O sol não ficou muito tempo nos fazendo companhia e logo a chuva voltou forte. Isso fez com que os guias antecipassem o fim da excurção guiada. Fizeram a última reunião, entregaram as passagens do trem e se despediram de todos. Para finalizar o grupo foi reunido para tirar uma foto. Meu irmão foi escolhido como fotográfo oficial e ficou com as mãos cheias de câmeras fotográficas. Depois da foto eu e meu irmão ficamos caminhando sozinhos por Machu Picchu, entrando em várias construções. Fomos até um local que parece um pasto, para tirar fotos com as Lhamas. Evitamos uma grande aproximação, para evitar levar uma cuspida. A chuva aumentou e muitos turistas foram embora. Minha câmera molhou e parou de funcionar, fato que não me agradou. Ainda bem que isso aconteceu praticamente no final da viagem e após ter terminado de percorrer a Trilha Inca.

Olhei para a montanha de Huayna Picchu e vi que ela estava coberta pela neblina. Quem subiu até ela no horário das 10hmin00 acabou se dando mal. Além de não verem muita coisa lá de cima por culpa da chuva e da neblina, devem ter tido sérias dificuldades para subir e depois descer pelas escadas molhadas. Normalmente se leva em média duas horas para subir e uma hora e meia para descer de Huayna Picchu. A chuva só aumentava e caminhar por Machu Picchu acabou ficando ruim. Ás vezes encontravámos alguém do nosso grupo e trocavámos algumas palavras. Chegou um momento em que a chuva aumentou tanto que resolvemos parar ao lado de uma construção que fica na parte mais alta e dali ficams observando Machu Picchu. Vez ou outra as nuvens se dicipavam e tentavámos tirar alguma foto. Mas chegou um ponto em que não deu mais, pois além da chuva o frio começou a incomodar. Então resolvemos ir embora. Meu irmão tinha passagem marcada no trem das 17h00min e eu no trem das 19h00min, junto com a maior parte do pessoal do meu grupo. A chuva diminuiu um pouco quando pegamos o ônibus e descemos a montanha rumo Aguas Calientes. Tinhamos acabado de visitar uma das atrações turisticas mais visitadas do mundo. Eu tinha acabado de realizar um antigo sonho…

Na entrada, placa em homenagem a Bingham.
Machu Picchu, tendo ao fundo a montanha de Huayna Picchu.
Logo na entrada, ainda com sol.
Uma das muitas construções do lugar.
O rio Urubamba visto a partir de Machu Picchu.
Alguns terraços.
Templo do Sol.
Terraços descendo a montanha.
Parte de meu grupo dentro de uma ruína ouvindo o guia.
Meu irmão e eu.
Terraços descendo a montanha.
Momento de descanso.
Todo o meu grupo, reunido pela última vez.
Lhamas pastando dentro de Machu Picchu.
Meu irmão e eu sob chuva.
Chove chuva! Chove sem parar...
Meu irmão num momento de descanso.
Eu e meu irmão, debaixo de muita chuva.

Hiram Bingham: descobridor de Machu Picchu

Na verdade o mundo exterior simplesmente topou de repente com Machu Picchu, pois ela nunca havia sido perdida para aqueles que viviam próximos a ela. E essas mesmas pessoas que viviam nas proximidades da cidade “perdida”, foi que levaram o explorador e professor americano Hiram Bingham e sua equipe para o local em 1911. Inicialmente Bingham não viajou para a América do Sul para explorar a terra dos Incas. Na verdade, ele viajou para a América do Sul para concluir seu estudo sobre Simón Bolívar. Em dezembro de 1908, Bingham participou do Primeiro Congresso Científico Panamericano, em Santiago, Chile. Foi aí que ele decidiu seguir a antiga rota de comércio espanhola que ia de Buenos Aires até Lima. E foi assim que ele acabou passando por Cuzco, onde conheceu J. J. Nunes, então prefeito da região de Apurimac, que o convidou para uma árdua viagem até as ruínas de Choquekirau. Bingham, pensou na época que esse poderia vir a ser o local de Vilcabamba, o há muito procurado “último lugar de descanso dos Incas“.

Em seu retorno aos Estados Unidos, Bingham decidiu organizar uma expedição ao Peru. Ele chegou a Lima em junho de 1911, onde começou a estudar as crônicas de Antonio de la Calancha e Fernando de Montesinos, escritas no século XVII. Estas crônicas inspiraram Bingham a buscar as duas últimas capitais dos Incas: Vilcabamba e Vitcos. Saindo de Lima em julho, Bingham voltou a Cuzco, de onde viajou a pé e de mula pelo Vale do Urubamba, Ollantaytambo e garganta do Urubamba. Em 23 de julho, Bingham e sua comitiva acamparam junto ao rio, em um lugar chamado Mandor Pampa. Isso despertou a curiosidade de Melchor Arteaga, um agricultor local. Através do Sargento Carrasco, o policial que foi seu guia e intérprete, Bingham ouviu de Arteaga que havia extensas ruínas no alto da serra em frente ao acampamento de Arteaga. O local era chamado de Machu Picchu, ou “velha montanha”.

Segundo Bingham, “A manhã de 24 de julho amanheceu com uma garoa gelada. Arteaga tremia e parecia inclinado a ficar em sua cabana. Ofereci-me para pagar-lhe bem, se ele me mostrasse as ruínas. Ele recusou e disse que era muito difícil uma subida em um dia tão molhado. Mas quando ele descobriu que eu estava disposto a pagar-lhe três ou quatro vezes seu salário normal, ele finalmente concordou em ir. Quando perguntado onde ficavam as ruínas, ele apontou para cima, para o topo da montanha. Ninguém supôs que elas seriam particularmente interessantes, e ninguém se interessou em ir comigo”. Acompanhado apenas pelo Sargento Carrasco e Arteaga, Bingham deixou o acampamento por volta das 10h00min. Depois de algum tempo de caminhada atravessou uma ponte tão provisória, que o intrépido explorador precisou rastejar de joelhos sobre ela. Depois de atravessar o rio, subiram uma ladeira íngreme até que chegaram ao cume da montanha por volta do meio-dia. Ali Bingham descansou em uma pequena cabana onde apreciou a hospitalidade de um grupo de camponeses. Eles lhe disseram que viviam ali há cerca de quatro anos e que haviam encontrado um extenso sistema de terraços em cujo solo fértil tinham decidido aumentar as suas colheitas. Disseram a Bingham que as ruínas que ele buscava estavam perto. Então lhe cederam como guia um garoto de 11 anos de idade, Pablito Alvarez. Após caminhar um pouco, Bingham visualizou uma grande quantidade de terraços antigos. Eles somavam mais de uma centena e tinham sido recentemente retirados da floresta e reativados. Liderado pelo menino, ele entrou na floresta que seguia além dos terraços e começou a avistar uma série de paredes de granito branco, que o historiador imediatamente considerou os melhores exemplos de alvenaria, que ele jamais tinha visto. Eles eram os restos do que hoje se chama túmulo real, o templo principal, e o Templo das Três Janelas. Hiram Bingham ficou extremamente inspirado pela beleza da região que ele estava explorando.

Outras pessoas viram e viveram em Machu Picchu antes de Hiram Bingham sequer botar os pés no Peru, mas não tinha nem meios e nem a oportunidade de trazer a “cidade perdida”  para a atenção do mundo exterior. Já em 1894, um fazendeiro local chamado Agustín Lizárraga levou um senhor de nome Luis Ugarte até a cidade antiga. Então Luis Ugarte convidou dois amigos para uma viagem até as ruínas em busca de tesouros. Em 14 de julho de 1901, os três amigos visitaram todas as partes acessíveis de Machu Picchu.  Quando Bingham chegou às ruínas, encontrou a rocha que os três amigos tinham assinado com os seus nomes e a data de sua visita. Em seus escritos, porém, Bingham minimizou essa descoberta.

Bingham chamou Machu Picchu de ”A Cidade Perdida dos Incas”. Em 1912 Bingham voltou ao local à frente de uma expedição e acompanhado de especialistas, escavadores, topógrafos e assistentes para explorar, desflorestar e realizar pesquisas arqueológicas. Os trabalhos foram patrocinados pela Universidade de Yale e pela National Geographic Society. Em 1914 e 1915, Bingham com ajuda de outros exploradores,  fez mapas e explorou detalhadamente o local e seus arredores. Fez escavações consideradas pouco ortodoxas em diversos lugares de Machu Picchu. Reuniu dezenas de objetos, entre vasos, peças de bronze, cobre, prata e de pedra, entre outros materiais. Bingham reconheceu também outros importantes grupos arqueológicos nas imediações: Sayacmarca, Phuyupatamarca, a fortaleza de Vitcos e importantes trechos de caminhos (Trilha Inca), todos eles interessantes exemplos da arquitetura desse império. A expedição de Bingham, patrocinada não somente pela Universidade de Yale como também pela National Geographic Society, foi registrada em uma edição especial da revista, publicada em 1913, contendo um total de 186 páginas, que incluía centenas de fotografias.

Hiram Bingham declarou não ter encontrado objetos de ouro em Machu Picchu, mas até hoje essa informação é questionada. Muitos acreditam que ele possivelmente retirou peças de ouro do local e levou para os Estados Unidos de forma clandestina. De acordo com especialistas do Peru, vários lotes importantes de objetos saíram do território peruano de forma irregular, através da Bolívia. Já o material retirado legalmente por ele, cerca de 5.000 mil objetos declarados, foi enviado para a Universidade de Yale, com autorização do governo peruano. O presidente peruano da época, Augusto B. Leguía, havia concedido temporariamente a saída desses objetos do Peru. As peças saíram do país emprestadas em 1912, como recompensa pelo trabalho dos exploradores e estudiosos, mas com a condição de serem devolvidas posteriormente, o que nunca aconteceu. A National Geographic, confirmou esta interpretação dos documentos assinados na altura da saída das peças. Yale, pelo contrário, defende que o código civil peruano de 1852, vigente na altura em que os objetos saíram do Peru, permitia que quem encontrasse vestígios arqueológicos podia mantê-los de forma permanente.

No que diz respeito a repatriar esses objetos, nos últimos anos o governo peruano tem insistido na devolução dos mesmos, mas até o momento não obteve êxito. Um inventário minucioso dos tesouros de Machu Picchu, realizado recentemente na Universidade de Yale mostrou que não foram somente cerca de 5.000 objetos que Bingham teria retirado de Machu Picchu e região e levado para os Estados Unidos, mas sim que a quantidade de objetos é 10 vezes maior. Segundo o inventário, são 46.332 objetos, distribuídos em 5.728 lotes: 3.497 lotes de cerâmica, 126 lotes de restos humanos, 11 lotes de metais, e 1.038 lotes relacionados à fauna. O inventário foi feito nas instalações do Museu Peabody, na Universidade de Yale. As negociações entre o governo peruano e a Universidade de Yale, que detém os objetos na sua coleção permanente, arrastavam-se há anos. As duas partes não chegaram a um acordo sobre o número de peças que Yale tem a devolver. O governo peruano contratou advogados nos Estados Unidos, e tenta a devolução dos objetos.

Hiram Bingham tornou-se rico e famoso, publicou vários trabalhos relacionados as suas aventuras no Peru e depois foi eleito governador do Estado de Connecticut  e senador em Washington. O personagem de cinema Indiana Jones, foi inspirado nele. E a pergunta que muitos fazem hoje em dia é se Bingham é mocinho ou vilão? Eu particularmente acho que o cara foi um safado que se aproveitou de seu papel de professor e explorador, para roubar tesouros e enriquecer.

A equipe de Bingham escavando em Machu Picchu.

Machu Picchu.

Machu Picchu em 1912.

Machu Picchu em 1912.

Hiram Bingham , considerado o verdadeiro Indiana Jones.

Bingham em Machu Picchu.

Hiram Bingham: já rico, famoso e na política.

Machu Picchu

Machu Picchu, em quíchua Machu Pikchu (Velha Montanha) é também chamada de “Cidade Perdida dos Incas”. A 2.400 metros de altitude, Machu Picchu está situada no alto de uma montanha, cercada por outras montanhas e circundada pelo rio Urubamba, o que lhe proporciona uma atmosfera única de segurança e beleza. Encontram-se na margem esquerda do chamado Canyon do Urubamba. Ao pé dos montes e praticamente rodeando-os, corre o rio Urubamba (Vilcanota). As ruínas incas encontram-se a meio caminho entre os picos de duas montanhas. A superfície edificada tem aproximadamente 530 metros de comprimento por 200 de largura e contém 172 edifícios em sua área urbana. Foi construída no século XV, sob as ordens de Pachacuti. O local é provavelmente, o símbolo mais típico do Império Inca, quer devido à sua original localização e características geológicas, quer devido à sua descoberta tardia em 1911. Apenas cerca de 30% da cidade é de construção original, o restante foi reconstruído. As áreas reconstruídas são facilmente reconhecidas, pelo encaixe entre as pedras. A construção original é formada por pedras maiores, e com encaixes com pouco espaço entre as rochas.

Consta de duas grandes áreas: a agrícola formada principalmente por terraços e recintos de armazenagem de alimentos; e a outra urbana, na qual se destaca a zona sagrada com templos, praças e mausoléus reais. A disposição dos prédios, a excelência do trabalho e o grande número de terraços para agricultura são impressionantes, destacando a grande capacidade dos Incas. No meio das montanhas, os templos, casas e cemitérios estão distribuídos de maneira organizada, abrindo ruas e aproveitando o espaço com escadarias. Segundo a história inca, tudo planejado para a passagem do deus sol.

Há diversas teorias sobre a função de Machu Picchu, e a mais aceita afirma que foi um assentamento construído com o objetivo de supervisionar a economia das regiões conquistadas e com o propósito secreto de refugiar o soberano Inca e seu séquito mais próximo, no caso de ataque. Pela obra humana e pela localização geográfica, Machu Picchu é considerada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Em 1885, no curso de suas viagens de exploração pelo Peru, o naturalista italiano Antonio Raimondi passou ao pé das ruínas sem sabê-lo e menciona o quão escassamente povoada era a região na época. Porém, tudo indica que foi por esses anos que a região começou a receber visitas por interesses distintos dos meramente científicos. Foi nesta época que os mapas de prospecções mineiras começam a mencionar Machu Picchu. Em 1870, o norte-americano Harry Singer coloca pela primeira vez em um mapa a localização do Cerro Machu Picchu . Um segundo mapa de 1874, elaborado pelo alemão Herman Gohring, menciona e localiza em seu local exato a montanha. Por fim, em 1880 o explorador francês Charles Wiener confirma a existência de restos arqueológicos no lugar (afirma “há ruínas na Machu Picchu”), embora não se possa chegar ao local. Em qualquer caso está claro que a existência da suposta “cidade perdida”  não se havia esquecido, como se acreditava até há alguns anos.

Foi o professor norte-americano Hiram Bingham que à frente de uma expedição da Universidade de Yale, redescobriu e apresentou ao mundo Machu Picchu em  24 de julho de 1911. Hiram Bingham  realizou uma investigação da zona próxima a Machu Picchu. Naquela época, a meta de Bingham era outra: encontrar a legendária capital dos descendentes dos Incas, Vilcabamba, tida como baluarte da resistência contra os invasores espanhóis, entre 1536 e 1572. Ao penetrar pelo cânion do Urubamba, Bingham ouviu do camponês Melchor Arteaga o relato de que no alto de cerro Machu Picchu existiam abundantes ruínas. Alcançá-las significava subir por uma empinada ladeira coberta de vegetação. Embora cético, Bingham insistiu em ser guiado ao lugar. Chegando ao cume, um dos meninos das duas famílias de pastores que residiam no local o conduziu aonde efetivamente apareciam imponentes construções arqueológicas cobertas pelo manto verde da vegetação tropical e em evidente estado de abandono há muitos séculos. A cidade estava tomada por vegetação nativa e árvores. Depois desta expedição, Bingham voltou ao lugar em 1912 e nos anos de 1914 e 1915. Com ajuda de outros exploradores,  foram feitos mapas e uma exploração detalhada do local e dos arredores. Suas escavações, não muito ortodoxas, em diversos lugares de Machu Picchu, permitiram-lhe reunir 555 vasos, aproximadamente 220 objetos de bronze, cobre, prata e de pedra, entre outros materiais. A cerâmica mostra expressões da arte inca e o mesmo deve dizer-se das peças de metal: braceletes, brincos e prendedores decorados, além de facas e machados. Ainda que não tenham sido encontrados objetos de ouro, o material identificado por Bingham era suficiente para inferir que Machu Picchu remonta aos tempos de esplendor inca, algo que já evidenciava seu estilo arquitetônico.

Machu Picchu – 2011.

Machu Picchu – 1911.

Machu Picchu.

Macchu Picchu.

Uma das muitas ruínas de Machu Picchu.

Aguas Calientes

Aguas Calientes é o nome coloquial para Machu Picchu Pueblo. Pequena cidade, pacata e charmosa é mais conhecida como o ponto de acesso mais próximo à cidade sagrada inca de Machu Picchu, que fica a 6 km de distância. É de Aguas Calientes que parte todos os dias, a partir da 5h30min da manhã e a cada 15 minutos, os ônibus que sobem 700 metros de altitude para levar os visitantes ao Santuário Histórico de Machu Picchu. Como o próprio nome sugere, Aguas Calientes possui agradáveis piscinas naturais de água quente a apenas 15 minutos de caminhada da sua praça principal. Conhecidas por suas propriedades medicinais, são chamadas de Baños Termales, em castelhano, e são utilizados especialmente para o uso recreativo da população e dos turistas.

Originalmente ocupada por poucas famílias de fazendeiros em 1901, o pequeno povoado foi transformado em moradia para os trabalhadores da ferrovia que foi construída por lá a partir de 1920. A cidade foi o ponto central para acomodação dos trabalhadores e os seus equipamentos até que a ferrovia fosse concluída em 1931.

Aguas Calientes serve como um terminal para a Perurail. Os trens servem os habitantes locais e turistas que chegam a partir de Cuzco e Ollantaytambo para visitar Machu Picchu. Um grande mercado de souvenirs funciona ao lado da estação ferroviária. O mercado de artesanato da pequena cidade é um dos mais importantes centros de exposição e comercialização de produtos artesanais da região de Cuzco. Artesãos de diferentes comunidades campesinas e, inclusive, de outras zonas andinas do Peru, trazem seus produtos aos turistas de Machu Picchu.

Aguas Calientes.

Aguas Calientes.

Ruela no centro do vilarejo.

Na praça central da cidade.

Machu Picchu Pueblo (Aguas Calientes).

Estrada que vai de Aguas Calientes a Machu Picchu.

Vista geral de Aguas Calientes.