Túnel do Tempo: 20º BIB

No “Túnel do Tempo” de hoje estou recordando que fazem vinte anos que dei baixa do exército, após passar dois difíceis e inesquecíveis anos no quartel do 20º Batalhão de Infantaria Blindado, em Curitiba. Fui incorporado ao exército em fevereiro de 1989 e dei baixa em fevereiro de 1991. Dessa época guardo muitas recordações e ainda mantenho contato com muitos amigos que serviram comigo. E foi graças a minha ida ao exército que saí de casa, deixei Campo Mourão e fui para Curitiba, onde vivi muitos anos, conheci muitas pessoas e tive muito mais alegrias do que tristezas.

20º BIB
Identificação militar.
Abril/1989.
Abril/1989.
CMC - julho/1989.
Julho/1989.
Manobra da 5ª Região Militar (Três Barras - SC) outubro/1989.
Eu e Mario, parceiro inseparável. Maio/1990.
Comandando recrutas. Maio/1990.
Agosto/1990.
Festa de despedida em fevereiro de 1991. Em pé: Honorato, Paulo Cesar, Germano, Mario, Orlando, Joelmir, Pereira, Odair, Vigilato e Donizete. Agachados: Samuel, Douglas, Marçal, Daniel, Claudio (+) e Vanderlei.
CCS 20º BIB - 1989.

Cinema vazio

Já tinha assistido filmes no cinema com mais duas ou três pessoas somente, mas essa semana aconteceu algo inédito. Assisti a um filme sozinho em um cinema de Curitiba. No meu caso que detesto cinema cheio de gente e com barulho, ter o cinema todo a minha disposição acabou sendo muito bom. Pena que o filme era ruim. Talvez a má qualidade do filme explique a ausência de público. De qualquer forma acabou sendo uma experiência muito interessante.

Cinema vazio...
Expectador solitário.

Umuarama, Guaíra, Salto del Guairá

No final de semana que passou, fiz mais uma viagem “internacional”. Dessa vez fui ao Paraguai fazer umas comprinhas. E não fui a Ciudad de Leste, que fica próximo a Foz do Iguaçu. Fui a Salto del Guairá, perto da cidade de Guaíra. Para quem não sabe, até o início dos anos oitenta, Foz do Iguaçu e Guaíra, rivalizavam para atrair turistas. Foz do Iguaçu com as Cataratas do Iguaçu e Guaíra com as Sete Quedas. Com a construção de Itaipu, as Sete Quedas desapareceram sob o lago de Itaipu, em outubro de 1982 e Guaíra quase virou uma cidade fantasma com o fim do turismo.

Em 1998, com a construção da Ponte Ayrton Senna ligando o Paraná ao Mato Grosso do Sul, a região de Guaíra voltou a crescer. E agora do lado paraguaio está surgindo um comércio parecido com o de Ciudad de Leste. A vantagem é que Salto del Guairá é mais tranqüila, limpa, menos perigosa e os preços são os mesmos de Ciudad de Leste. E a fiscalização é ainda mais precária e ineficiente do que em Foz do Iguaçu. Para quem quer comprar eletrônicos com preço bom e sem pagar imposto, é uma boa! (Também para que pagar imposto? Para que nossos “honrados” políticos tenham mais grana para roubar?) 

A tendência é que o comércio de Salto del Guairá cresça ainda mais e atraía boa parte dos compradores que sempre seguiram para Ciudad de Leste. No meu caso, que estou em Campo Mourão, são quase cem quilômetros a menos de estrada para chegar ao Paraguai via Guaíra, do que indo via Foz do Iguaçu. O estranho é que saí do Paraná, atravessei quase quatro quilômetros de ponte, andei uns cinco quilômetros pelo Mato Grosso do Sul e entrei no Paraguai. Ninguém me pediu documento pessoal ou do carro, seja no lado brasileiro ou paraguaio, tanto na ida quanto na volta. E depois ninguém sabe por onde entra tanta droga e armas no Brasil! E num domingo ensolarado onde o termômetro no centro de Salto Del Guairá marcava 38 graus, nenhum policial ou fiscal da receita estava preocupado em vistoriar carros e pessoas que trafegavam de um país ao outro.

Nessa curta viagem visitei duas cidades aonde não ia há muitos anos. No sábado estive em Umuarama (era caminho), cidade também conhecida como “mulherama”, de tanta mulher que tem por lá. Dormi numa casa que fica quase em frente aos dois maiores ginásios de esportes da cidade, locais onde nos anos de 1986 e 1987 obtive minhas maiores conquistas como jogador de basquete. Foi muito bom rever aquele lugar e relembrar dos amigos e de como era boa aquela vida de jovem esportista. 

E hoje estive em Guaíra, cidade que não visitava desde 1992. E foi nessa visita de 1992 a Guaíra que comecei a usar óculos e nunca mais parei. Lembro que eu estava me sentido sem jeito com o óculos. Daí conquistei uma paraguaia de olhos azuis, que me confidenciou ter sido minha cara de intelectual (graças aos óculos) que a conquistaram. Depois disso nunca mais tive traumas com relação a usar óculos. Cheguei até a usar lentes de contato por um tempo, mas não me acostumei.

 E chega de saudosismos!!!

Chegando a Salto del Guairá.
Êita lugarzinho quente...
Ponte Ayrton Senna.

PERU: The End

E chega ao fim às postagens sobre minha viagem ao Peru, que foi bastante detalhada. Em próximas viagens não devo detalhar tanto, pois não terei tempo disponível igual tive agora. Agradeço a todos que acompanharam essa narrativa e viajaram comigo pelas terras incas. Também agradeço pelos elogios e comentários que recebi via blog, email, MSN, Skype, Facebook, celular e pessoalmente. Recebi somente uma crítica, de uma amiga de Campinas que achou as postagens muito detalhadas e ficou com preguiça de ler tudo.

A narrativa sobre a Trilha Inca também foi publicada num site especializado em viagens e está tendo muitos acessos, dezenas de vezes acima do que eu esperava. E nesse site também recebi elogios e perguntas, além de pedidos de dicas da parte de pessoas que vão fazer a Trilha Inca em breve.

E para finalizar essa série sobre o Peru, deixo para vocês duas visões sobre Machu Picchu, pela ótica de duas pessoas que lá estiveram muito antes que eu. Um deles é bem conhecido, trata-se do famoso guerrilheiro Che Guevara. O outro é um viajante e escritor, com alguns livros publicados, sendo um sobre Machu Picchu.

“Não importa muito, de todo modo, qual tenha sido a origem da fortaleza (Machu Picchu), ou melhor, é mais fácil deixar o debate para os arqueólogos. O que é inegável, entretanto, o mais importante, é que temos à nossa frente uma expressão pura da mais poderosa raça indígena das Américas, intocada pelo contato com a civilização invasora e cheia de tesouros imensamente evocativos em suas paredes, paredes que morreram em decorrência do tédio de não mais existir…”       Ernesto CHE Guevara (médico e guerrilheiro) 

“Dois tipos de pessoa vão a Machu Picchu. O primeiro não se interessa exatamente pela filosofia e cultura dos incas; quer apenas a atração turística. Esse não costuma seguir o caminho inca, preferindo o conforto da subida de ônibus. O outro vai até lá atendendo a um chamado interior, em busca da energia divina que impregna o Vale Sagrado. Esse geralmente opta por seguir a Trilha Inca e tentar aprender um pouco da sua espiritualidade evoluída. Segue o caminho sem pressa, detendo-se nas ruínas e observando a beleza da paisagem, preparando-se, aos poucos, para o ritual que envolve o encontro com a cidade perdida”.   Sérgio Motta (escritor)

Machu Picchu

Lima/São Paulo

Levantei cedo, peguei minhas coisas e fui de taxi para o aeroporto. Pelo caminho fui assistindo as barbeiragens e imprudências dos motoristas. Chegando ao aeroporto fiz os tramites normais de embarque e passei tranquilamente pela Policia Federal local. Então fui para a sala de embarque e para variar o vôo atrasou. Aproveitei para usar a internet e comprar chocolates no Freeshop.

O vôo de volta não foi nada tranqüilo, teve muita turbulência. O piloto avisou que teria que ir desviando de espessas nuvens de chuva e que por essa razão o vôo seria mais demorado do que o previsto. Chacoalhou muito durante quase toda a viagem e fiquei muito enjoado. O pior é que não conseguia dormir, não conseguia ler e assim o tempo não passava. O jeito foi ouvir música no MP3 para tentar me distrair um pouco. No final da tarde teve um momento em que foi bem visível o tal desvio que o piloto estava fazendo das nuvens de chuva. Dava para ver pela janela nuvens escuras e muitos raios, bem próximos ao avião. Era uma cena ao mesmo tempo bonita e assustadora.

Felizmente entre turbulências e mais turbulências, aterrissamos em São Paulo sãos e salvos. Chegava ao fim minha aventura peruana, que será inesquecível por muitas razões. Pretendo voltar ao Peru algum dia, para fazer o que ficou faltando fazer dessa vez e para conhecer novos lugares.

Blogando no aeroporto de Lima.
Decolando de Lima.
Almoço servido pela Tam.
De volta ao Brasil, no aeroporto de Guarulhos

Em Lima novamente

O hotel onde fiquei em Lima era bem no centro da cidade. Próximo a ele tinha uma rua muito parecida com a rua XV, em Curitiba. Essa rua terminava em uma praça bem em frente ao Palácio do Governo do Peru. Em volta da praça muitos prédios pintados de amarelo. Caminhei bastante pelas ruas, prestando atenção aos detalhes. Aproveitei para matar saudades de coisas que comia nos Estados Unidos. O almoço foi pizza no Papa Jhones e a janta foi frango frito no KFC

Em Cuzco fui confundido muitas vezes como sendo norteamericano. Muita gente, principalmente vendedores se dirigiam a mim falando em inglês e quando eu respondia em português, espanhol ou portunhol, eles faziam uma cara de espanto. Já em Lima preferi usar somente camisetas amarelas da seleção de futebol.

Em Lima não existe o problema da altitude, pois a cidade fica a beira mar. Mas voltar ao nível do mar também me fez mal. Acho que era o excesso de oxigênio no ar que me deixou com dor de cabeça e tontura. Devido aos muitos dias que passei em altas altitudes e com ar rarefeito, creio que meu organismo estava começando a ficar acostumado com o pouco oxigênio e sentiu diferença quando voltei ao nível do mar. 

Como percebi em todos os lugares do Peru onde estive, o trânsito é uma caos. Os motoristas são todos imprudentes, egoístas e adoram uma buzina. Logo foi complicado dormir com tantas buzinas a noite. Mesmo assim descansei bem em minha última noite em terras peruanas.

Praça no centro de Lima.
Rua parecida com a XV em Curitiba.
Em frente ao Palácio do Governo.
Alguns dos muitos prédios amarelos do centro da cidade.
Passeio noturno.

Cuzco/Lima

A manhã de minha partida de Cuzco foi sem chuva, o que me deixou mais tranqüilo, pois me preocupava algum problema ou atraso no vôo por culpa da chuva. Fechei a conta no hotel e logo embarquei num taxi rumo ao aeroporto. Os taxis na cidade são baratos e não existe taxímetro, é tudo na base da negociação. Não levou nem dez minutos para chegar ao aeroporto e pude conhecer um pouco mais da periferia da cidade, pela janela do carro. 

Meu vôo seria pela Star Peru, uma companhia aérea de médio porte e com aviões de tamanho médio. Fiz os tramites para despachar bagagem e fui para a sala de embarque. Lá descobri que meu vôo atrasaria em pouco mais de uma hora. Então sentei no chão perto de uma tomada e fiquei usando o computador. Encontrei as duas australianas que faziam parte do outro grupo que fez a Trilha Inca. Conversamos rapidamente e mostrei a elas um pequeno vídeo que fiz delas dançando. Elas ficaram vermelhas de vergonha e pediram para que eu enviasse o vídeo para o email delas. 

E finalmente chegou a hora do embarque e do adeus a Cuzco. Diferente das muitas horas de ônibus que levei de Lima até Cuzco, o retorno seria de apenas uma hora de vôo. O aeroporto de Cuzco é complicado para aterrissagens, pois fica entre muitas montanhas e o piloto tem que fazer uma manobra radical para pousar. Ele executa uma virada lateral de 180 graus, algo mais comum a aviões de guerra. Já para decolar não é necessário executar tal manobra, então embarquei mais tranqüilo. Por mais que eu viaje de avião, não consigo gostar de voar, prefiro sempre ter os pés no chão. 

O vôo foi tranqüilo e comecei a ler o livro do Bingham que tinha comprado no dia anterior. Do meu lado foi uma peruana que começou a puxar conversa. Quando soube que eu era brasileiro, ela me encheu de perguntas. Disse que seu sonho é conhecer o Rio de Janeiro, o carnaval. Falei a ela que o Brasil tem lugares mais interessantes e menos violentos que o Rio de Janeiro, para ela conhecer.  E entre a leitura do livro e a conversa com a peruana, o vôo transcorreu tranqüilo, ou melhor, quase tranqüilo. Um pouco antes de chegar a Lima, teve uma turbulência daquelas inesperadas e que assustam bastante. E para descer em Lima o piloto executou a manobra de 180 graus que ele está habituado a executar para descer em Cuzco. Foi assustador e minha labirintite deu as caras, fiquei tontinho. Com certeza essa foi uma das piores aterrissagens que já fiz.

No desembarque em Lima me despedi da peruana e liguei para o taxista que conheci dias antes. O telefone dele não atendia, acho que era seu dia de folga. Então o jeito foi encontrar outro taxista e seguir rumo ao centro da cidade. Ficaria em Lima até a manhã seguinte, quando então embarcaria para o Brasil.

Despedida do hotel.
Painel de vôos em Cuzco.
Passagem da Star Peru.
Avião da Star Peru, no aeroporto de Cuzco.

De volta a Cuzco

Após retornar da Trilha Inca, passei parte do primeiro dia em Cuzco na cama, dormindo. Levantei depois do meio-dia, fazia frio e chovia sem parar. Tive uma noite maravilhosa de sono, onde recuperei todo o sono atrasado e mandei embora o cansaço acumulado. O quarto do hotel estava convidativo, quentinho e não dava vontade de sair dele. Mas a fome bateu e precisei sair. Andei poucos metros na rua e me senti mal por culpa da altitude. Não tinha tomado chá de coca em nem as pílulas para soroche, como tinha feito todos os dias na Trilha Inca. 

Precisava encontrar um local para comer e que não fosse comida peruana. Pensei no Mac Donald’s, mas lembrei de ter visto na Plaza de Armas um Bembos, que é uma cadeia de lanches peruana, cópia do Mac. Resolvi ir lá experimentar e gostei do lanche que escolhi. E o preço é ainda mais em conta que no Mac. Com a barriga cheia resolvi dar uma volta pelo centro e fazer umas comprinhas, mas chovia muito. Molhei o pé, fiquei com frio e resolvi voltar para o hotel. Fiquei um tempão usando a internet no quarto até a chuva parar. Então no final da tarde caminhei pelo centro, fiz algumas compras, principalmente de lembrancinhas para levar para a família e para os amigos e conheci alguns pontos turísticos importantes do centro. Tinha bem mais coisas interessantes para conhecer e existem muitos passeios nas proximidades da cidade, mas com tanta chuva não deu vontade de ir. 

Um dos lugares que visitei foi uma faculdade e foi meio sem querer. Ela fica ao lado de uma das igrejas da Plaza de Armas e pensei que estava entrando na igreja. Quando me dei conta tinha entrado na faculdade. Bem que achei estranho a cara de espanto que o segurança fez quando na entrada falei para ele que ia entrar para visitar o lugar. Acredito que aquele não seja um ponto turístico da cidade… rs! Depois fui visitar ás igrejas, mas diante de ser preciso pagar ingresso para entrar, acabei desistindo. Não pelo preço, mas sim em razão de meus princípios. Vejo ás igrejas como a casa de Deus e que devem estar sempre abertas para receber aqueles que necessitam de um lugar para entrar e orar. Então achei absurdo ter que pagar para entrar. E umas das igrejas era jesuíta, e como trabalhei muitos anos para os jesuítas, bem sei que a Companhia de Jesus tem muito dinheiro e não precisa ficar cobrando ingresso para entrar em suas igrejas. Tanto a igreja jesuíta, quanto a catedral que fica na Plaza de Armas, tem seus altares cheios de ouro. Esse ouro foi roubado dos incas e a custo de muito sangue. Mas essa é outra história que prefiro não debater aqui. Nessas igrejas com altares de ouro é proibido fotografar. Mas dei um jeitinho e tirei uma foto do lado de fora da igreja, onde bem ao fundo aparece parte do altar todo em ouro. Não fiz nada de errado, não existia nenhuma placa informando que era proibido fotografar da rua em frente a igreja. A única igreja que entrei foi em uma que fica também no centro, mas um pouco mais distante da Plaza de Armas. Entrei na igreja no horário da missa e não precisava pagar ingresso. Seria um grande absurdo se cobrassem ingresso para assistir a missa. Em meus passeios acabei encontrando pela rua alguns argentinos que conheci na Trilha Inca.

Um ponto turístico que fiz questão de visitar foi à “pedra de 12 ângulos”. Ela fica em uma rua lateral à Plaza de Armas, cerca de 50 metros. É um muro inca com uma construção mais recente em cima. Do outro lado da ruela tem um muro espanhol, imitação mal acabada dos muros incas. Esse muro inca aparece no filme “Diários de Motocicleta”, na visita de Che Guevara a Cuzco. Diz a lenda que Che, ao comparar o muro inca com um muro espanhol disse: “Esse é o muro dos Incas. Esse outro é o muro dos incapazes”.

Continuei com meu passeio pelo centro, aproveitando que a chuva tinha dado uma trégua. Encontrei um mercadinho que vendia muitos produtos americanos. Então aproveitei para comprar alguns chocolates americanos e manteiga de amendoim, algo que não encontro no Brasil. Andei mais um pouco visitando as lojinhas e comprei um livro escrito pelo Hiram Bingham, sobre a descoberta de Machu Picchu. Eu tinha procurado esse livro no Brasil e nunca encontrei. Já em Cuzco existiam várias versões desse livro, tanto em espanhol, como em inglês. Alguns com fotos originais da época, outras versões sem foto e até versões com fotos atuais. E os preços também variavam muito. Mais algumas compras e fui jantar no Bembos. Voltei para o hotel, descansei um pouco e saí dar uma volta antes que o comércio fechasse, o que ocorre ás 22h00min. Aproveitei para tomar uma Inca Kola, um refrigerante peruano muito apreciado pelos locais. Tem gosto de chiclete tutti frutti, achei horrível. Dei uma última volta pela Plaza de Armas e fui assediado por um monte de rapazes que distribuíam ingressos gratuitos para algumas danceterias que funcionam no centro. O assédio era intenso, os rapazes quase brigavam entre si e tentavam me convencer a entrar numa das danceterias. Como era de graça resolvi entrar numa delas para ver como era, mas não me demorei muito. Toca somente música técno, o que detesto. O local até que estava cheio, a maioria bebendo e fumando umas “ervas”. Aquilo não era ambiente para mim, achei melhor ir para o hotel arrumar minhas coisas e descansar, pois no dia seguinte seguiria para Lima.

Plaza de Armas sob chuva.
Ao fundo o altar de ouro da igreja jesuíta.
Bembos.
Plaza de Armas no final do dia.
Na balada...

O “Cão Inca”

Em seu livro “Machu Picchu”, o escritor Sérgio Motta conta que durante sua viagem ao Peru, ele encontrou o mesmo índio três vezes. Primeiro no trem da morte, depois em uma cidade no interior do Peru e por último em Machu Picchu. Foi uma coincidência interessante. 

Eu não encontrei nenhum índio, mas sim um cachorro em vários lugares. Dei a ele o nome de “cão inca”. O vi pela primeira vez no anoitecer do terceiro dia de trilha. Eu estava sentando tirando fotos quando o cachorro apareceu do nada e lambeu minha câmera. Na madrugada seguinte, quando descíamos a montanha em direção a Aguas Calientes, o cachorro passou por nós e pouco depois ele estava deitado na trilha, bem a minha frente.  Horas depois ele apareceu novamente, dessa vez quando eu caminhava ao lado dos trilhos do trem, o cão passou correndo ao lado do trem. E a última e mais surpreendente aparição foi em Machu Picchu. Quando eu e meu irmão estávamos indo embora, pouco antes da saída pedi para ele entrar em uma construção, uma das poucas que possui cobertura de palha, pois queria tirar as últimas fotos. E ao entrar na construção encontramos o “cão inca” deitado, dormindo. Fui perto dele para ver se era o mesmo cachorro, e para minha surpresa era ele mesmo. Peguei um biscoito e ofereci a ele. Ele pegou o biscoito, virou-se e saiu da construção. Fui atrás para tirar mais fotos, mas o cachorro desapareceu, não consegui ver para onde ele foi. Fiquei me perguntando como ele tinha ido parar em Machu Picchu? Se tinha subido a montanha caminhando? E por que ele tinha ido até lá? Do acampamento onde o vi pela primeira vez, até Machu Picchu, é uma distância considerável.

Quando voltamos para Aguas Calientes, contei sobre o cachorro para algumas pessoas do grupo. Alguns o viram nos trilhos do trem e até tiraram fotos com ele. Os colombianos foram os únicos além de mim e de meu irmão que viram o cachorro em Machu Picchu. O assunto acabou virando um debate sobre se era ou não o mesmo cachorro em todos os lugares. A maioria disse que sim, dois disseram que não. Um analisou as manchas pelas fotos e disse que eram diferentes. Eu analisei as manchas e para mim eram iguais e principalmente reconheci ser o mesmo cachorro em todos os lugares. Meu irmão comentou que o cachorro foi muito “educado” quando pegou o biscoito que ofereci a ele em Machu Picchu, sinal de que ele me conhecia. O casal Juan e Cecília ficou dividido, ela disse que era o mesmo cachorro e o Juan disse que não. No dia seguinte os encontrei em Cuzco e na despedida o Juan me disse que era sim o mesmo cachorro. Não sei se encontrar o cachorro em tantos lugares foi apenas coincidência ou se tem algum significado que ainda não descobri. Mas que achei tais acontecimentos estranhos, isso achei…

Fiquei um bom tempo pensando no “cão inca” e a razão dele ter cruzado (sem trocadilhos, por favor!) meu caminho tantas vezes. Então fui pesquisar se o cachorro tinha algum significado especial na cultura incaica e descobri que existia um tipo de cão, pequeno e sem pelo que era cultuado pelos antigos incas.   Os estudiosos afirmam que o “cachorro sem pêlo” chegou ao Peru há mais de dois mil anos e foi o fiel companheiro dos nobres incas e amigo dos famosos guerreiros (pré-incas) do Sipão (norte). Este cachorro singular foi idolatrado pelos antigos peruanos, que o imortalizaram em diferentes cerâmicas e jóias encontradas nas tumbas e templos.

O “cão inca” lambendo minha câmera.

No acampamento do terceiro dia.
Na trilha, na madrugada do quarto dia.
Correndo com o trem.
Dormindo em Machu Picchu.

De volta a Aguas Calientes

Sair de Machu Picchu e voltar a Águas Calientes, me deixou com uma sensação de quero mais. Não ter entrado em Machu Picchu caminhando pela Trilha Inca, e não ter subido até Wuayna Picchu, me deixou meio frustrado e com vontade de voltar ao Peru o mais breve possível para fazer o que ficou faltando.

Descer a montanha de ônibus foi mais rápido do que subir. Descemos na rua, na esquina do restaurante onde deixei a mochila. Eram 15h00min e mal entramos no restaurante começou a chover forte. Os guias peruanos estavam todos ali, tomando cerveja. Fui cumprimentá-los e acabei sofrendo o maior acidente de toda a viagem. Escorreguei no piso molhado e bati a mão em uma coluna. Senti uma dor terrível e o local logo ficou inchado. Coloquei gelo, mas não aliviou muito. No final do dia toda a região em volta do lugar da batida estava roxa e muito dolorida. Fiquei com receio de que fosse algo grave, tamanha era a dor e a aparência ruim com que o ferimento ficou. Achei isso irônico, pois tinha passado dias no meio do mato, correndo enormes riscos de me machucar, talvez até morrer (muitos já morreram na Trilha Inca) e fui me machucar justamente ao entrar num restaurante, o que parecia ser um lugar seguro. Meu escorregão acabou chamando a atenção de todos que estavam no restaurante naquela hora, muitos turistas, até um casal de brasileiros. Em seguida chamamos atenção novamente, pois meu irmão e a garçonete meio que se atrapalharam ao arrumar a mesa e ela derrubou um copo no chão. Mais uma vez todos olharam em nossa direção e para piorar os peruanos gritaram em coro: Brasil, Brasil, Brasil, Brasiiiiiillll !!!! Foi um grande mico e tive vontade de me esconder debaixo da mesa.

Eu meu irmão almoçamos uma pizza e tomamos um litro de Coca-Cola gelada. Após alguns dias comendo a horrível comida servida na trilha, foi muito bom comer algo descente. Os peruanos logo foram embora, deram tchau e dificilmente voltarei a ver algum deles novamente em minha vida. Ainda estávamos comendo quando algumas pessoas do meu grupo chegaram para pegar suas mochilas. E aos poucos foi chegando o restante do pessoal. A chuva tinha aumentado muito e ninguém mais quis ficar passeando por Machu Picchu debaixo de tanta água. Logo meu irmão foi para a estação de trem e fui com ele. Despedimos-nos e dei uma volta por uma enorme feira de artesanato que existe ao lado da estação. Tem muita coisa bonita, mas os preços são para turistas endinheirados, o que não é meu caso. Vi muita coisa feita de prata, algo que achei que seria barato ali. Mas não, é tudo mais caro que no Brasil. Acho que os espanhóis roubaram todo o ouro e prata do Peru, que agora qualquer objeto feito com esses metais é muito caro. A cidade é pequena e como chovia muito resolvi voltar logo para o restaurante.

Até o horário de ir pegar o trem, fiquei no restaurante conversando com o pessoal. Acabei ficando numa mesa muito animada, junto com os dois colombianos do grupo, o Juan e sua esposa Cecília, a Carolina, a Roxana e por último chegou o Che. Fizeram alguns brindes com um tipo de caipirinha feita com pisco, uma bebida local. Acabei tendo que participar dos brindes e tive que tomar um pouco de pisco. O chato nesse tipo de viagem onde você acaba fazendo parte de um grupo de desconhecidos, é que a viagem termina justamente quando você finalmente ficou enturmado e fez muitas amizades. Daí todos se separam e nunca mais se encontram novamente.

Já estava escuro quando fomos para a estação e a chuva continuava firme. Fui um dos últimos a embarcar e logo o trem partiu. Gosto de viajar de trem, mas a noite não da para ver nada, ainda mais com chuva. Os locais por onde íamos passar são interessantes, com paisagens bonitas, mas não dava para ver nada. O jeito foi ficar olhando para dentro do trem. O pessoal ficou jogando baralho do meu lado. Conversei um pouco e depois fiquei quieto pensando na vida. Estava cansado e as duas horas de viagem não foram das melhores. Descemos na estação de Ollantaytambo, pois o trecho até Cuzco está interrompido desde ás fortes chuvas de março do ano passado. Fomos caminhando até um enorme estacionamento onde estavam muitas vans e ônibus esperando o pessoal que desembarcava do trem. Logo encontramos nosso ônibus e tivemos que esperar que fizessem uma chamada demorada e confusa, até que pudéssemos embarcar. Acabei indo parar no ônibus onde estava quase todos do outro grupo que sempre andou próximo a nós. Sentei-me na segunda poltrona atrás do motorista e ao meu lado estava o inglês com quem caminhei junto no final do terceiro dia de trilha. Na poltrona a minha direita duas australianas, a Kylah e sua amiga cujo nome não lembro. O ônibus era desconfortável, e teríamos mais duas horas de viagem pela frente, até Cuzco. Tentei dormir mas foi impossível quando vi as manobras imprudentes que o motorista fazia. Ele corria feito louco e fazia somente ultrapassagens perigosas. Era de dar medo e o sono logo foi embora. O radio do ônibus estava ligado, tocando umas músicas peruanas. Teve uma hora que começou a tocar Leonardo, cantando em espanhol. Comecei a rir…

Chegamos a Cuzco com chuva e muito frio. O ônibus parou numa praça perto da Plaza de Armas e ali desembarquei junto com mais cinco conhecidos. Despedi-me do pessoal e fui para o hotel, distante 200 metros. Cheguei à portaria do hotel e logo encontraram a reserva que eu tinha deixado feita antes de partir para a Trilha Inca. Aproveitei para pegar a mochila que tinha deixado guardada no depósito do hotel. Estava tudo em ordem, nada faltando ou sobrando. Era quase meia noite quando entrei no quarto. Tomei um banho não muito quente, pois a água não esquentava direito e caí na cama. Após seis noites mal dormidas, ou dormidas com pouco conforto, finalmente eu poderia dormir muitas horas numa cama confortável e quentinha. Para garantir dormi com o aquecedor do quarto ligado. A sensação era boa, de missão cumprida. Eu vivi quatro dias intensos e inesquecíveis percorrendo a Trilha Inca e conhecendo Machu Picchu. Agora era descansar, pensar na volta ao Brasil e depois na próxima viagem, na próxima aventura…

Eu e meu irmão.
Duas coisas que adoro: Pizza e Coca-Cola.
o ferimento na mão, que piorou muito nas horas seguintes.
Muitos brindes com pisco.
Che, eu, Juan e Cecília.
No trem.
O pessoal jogando baralho no trem.
Desembarcando em Ollantaytambo.

Em Machu Picchu

Ver Post

Em Aguas Calientes, por ordem dos guias peruanos todos do grupo deixaram suas mochilas no restaurante de um argentino. O dono do restaurante cuidava das mochilas, pois sabia que no retorno de Machu Picchu o pessoal ficava no restaurante consumindo até a hora da partida do trem para Cuzco, o que era um bom negócio para ambas as partes. Fomos para o ponto de ônibus, que era bem próximo ao restaurante. Tinha um ônibus estacionado e muita gente embarcando. Nosso guia achou melhor esperar o próximo ônibus e embarcar todo o grupo junto. Não demorou muito e estávamos todos acomodados dentro do ônibus, seguindo para Machu Picchu. Essa não era a forma que todos nós do grupo gostaríamos de chegar a Machu Picchu. Desde o início o plano era chegar caminhando, mas em razão dos problemas que ocorreram na trilha, o importante agora era chegar. O ônibus leva cerca de meia hora para chegar até a entrada de turistas em Machu Picchu. Ele segue um pouco por uma estrada ao lado do rio Urubamba e depois começa a subir a montanha, fazendo muitas curvas por uma estrada relativamente perigosa. 

Ao desembarcar em frente ao portão de entrada de Machu Picchu e passar pela catraca após entregar meu ingresso, eu estava realizando um sonho de quase trinta anos. Foi em 1982 nas aulas do Professor Jader, no Colégio Estadual de Campo Mourão que vi pela primeira vez no livro de Estudos Sociais da 5ª série, uma foto de Machu Picchu coberta por nuvens. Depois o Professor Jader contou que conhecia tal lugar e fez um breve relato. Eu, então com 11 anos senti uma vontade enorme de um dia conhecer tal lugar. Os anos foram passando, cheguei a planejar tal viagem algumas vezes, e nunca dava certo. E eis que quase trinta anos depois eu estava realizando o antigo sonho. Ainda na entrada fui até uma sala onde peguei um mapa e ganhei um carimbo no passaporte. O carimbo é mais para enfeitar o passaporte, pois não é obrigatório. A chuva tinha parado fazia mais de uma hora e o sol surgiu quente. A primeira visão que tive das ruínas logo após subir algumas escadas que ficam após o portão de entrada, foram de tirar o fôlego. A sensação foi estranha. Realizar sonhos antigos pôde ser estranho. Ao mesmo tento que vem aquela sensação de missão cumprida, de sonho realizado, também surge uma sensação de vazio. De qualquer forma eu estava feliz. Eram 10h30min quando nossos guias separaram nosso grupo, para que ficasse mais fácil de caminharmos pelo lugar. Meu irmão logicamente ficou no meu grupo e já começamos a bater muitas fotos. 

Uma outra decepção foi não poder subir até Huayna Picchu, que é aquela montanha que aparece atrás das ruínas nas fotos clássicas de Macchu Picchu. A subida até Huayna Picchu é limitada a 200 pessoas por dia. São distribuídas senhas; 100 para ás 07h00min e mais 100 para ás 10h00min. Se tivéssemos chegado a Machu Picchu pela Trilha Inca, teríamos conseguido as senhas para subir a Huayna Pichu. Infelizmente termos tido que descer a montanha e seguir até Aguas Calientes para pegar o ônibus, acabou nos atrasando e perdemos a chance de conseguir as concorridas senhas. Isso mostrou que realmente devo retornar a Machu Picchu mais uma vez, pois subir até Huayna Picchu era uma de minhas metas iniciais.

Não vou contar detalhes sobre Machu Picchu e sua história, pois já fiz isso em outras postagens. Também não vou me demorar detalhando as várias partes do local que visitamos, pois muitos nomes não recordo direito. Resumindo, visitamos as construções mais importantes, onde os guias paravam e contavam detalhes sobre a funcionalidade e história das construções ou outros locais. Segui sempre caminhando junto com meu. Por ser domingo o lugar estava cheio de turistas vindos de todas as partes do mundo. Em muitos lugares era preciso fazer fila para entrar. Lá do alto a vista é muito bonita, existem muitas montanhas em volta e abaixo o rio Urubamba percorre o pé de outras montanhas. Uma vista inesquecível sem dúvida!

O sol não ficou muito tempo nos fazendo companhia e logo a chuva voltou forte. Isso fez com que os guias antecipassem o fim da excurção guiada. Fizeram a última reunião, entregaram as passagens do trem e se despediram de todos. Para finalizar o grupo foi reunido para tirar uma foto. Meu irmão foi escolhido como fotográfo oficial e ficou com as mãos cheias de câmeras fotográficas. Depois da foto eu e meu irmão ficamos caminhando sozinhos por Machu Picchu, entrando em várias construções. Fomos até um local que parece um pasto, para tirar fotos com as Lhamas. Evitamos uma grande aproximação, para evitar levar uma cuspida. A chuva aumentou e muitos turistas foram embora. Minha câmera molhou e parou de funcionar, fato que não me agradou. Ainda bem que isso aconteceu praticamente no final da viagem e após ter terminado de percorrer a Trilha Inca.

Olhei para a montanha de Huayna Picchu e vi que ela estava coberta pela neblina. Quem subiu até ela no horário das 10hmin00 acabou se dando mal. Além de não verem muita coisa lá de cima por culpa da chuva e da neblina, devem ter tido sérias dificuldades para subir e depois descer pelas escadas molhadas. Normalmente se leva em média duas horas para subir e uma hora e meia para descer de Huayna Picchu. A chuva só aumentava e caminhar por Machu Picchu acabou ficando ruim. Ás vezes encontravámos alguém do nosso grupo e trocavámos algumas palavras. Chegou um momento em que a chuva aumentou tanto que resolvemos parar ao lado de uma construção que fica na parte mais alta e dali ficams observando Machu Picchu. Vez ou outra as nuvens se dicipavam e tentavámos tirar alguma foto. Mas chegou um ponto em que não deu mais, pois além da chuva o frio começou a incomodar. Então resolvemos ir embora. Meu irmão tinha passagem marcada no trem das 17h00min e eu no trem das 19h00min, junto com a maior parte do pessoal do meu grupo. A chuva diminuiu um pouco quando pegamos o ônibus e descemos a montanha rumo Aguas Calientes. Tinhamos acabado de visitar uma das atrações turisticas mais visitadas do mundo. Eu tinha acabado de realizar um antigo sonho…

Na entrada, placa em homenagem a Bingham.
Machu Picchu, tendo ao fundo a montanha de Huayna Picchu.
Logo na entrada, ainda com sol.
Uma das muitas construções do lugar.
O rio Urubamba visto a partir de Machu Picchu.
Alguns terraços.
Templo do Sol.
Terraços descendo a montanha.
Parte de meu grupo dentro de uma ruína ouvindo o guia.
Meu irmão e eu.
Terraços descendo a montanha.
Momento de descanso.
Todo o meu grupo, reunido pela última vez.
Lhamas pastando dentro de Machu Picchu.
Meu irmão e eu sob chuva.
Chove chuva! Chove sem parar...
Meu irmão num momento de descanso.
Eu e meu irmão, debaixo de muita chuva.

Hiram Bingham: descobridor de Machu Picchu

Na verdade o mundo exterior simplesmente topou de repente com Machu Picchu, pois ela nunca havia sido perdida para aqueles que viviam próximos a ela. E essas mesmas pessoas que viviam nas proximidades da cidade “perdida”, foi que levaram o explorador e professor americano Hiram Bingham e sua equipe para o local em 1911. Inicialmente Bingham não viajou para a América do Sul para explorar a terra dos Incas. Na verdade, ele viajou para a América do Sul para concluir seu estudo sobre Simón Bolívar. Em dezembro de 1908, Bingham participou do Primeiro Congresso Científico Panamericano, em Santiago, Chile. Foi aí que ele decidiu seguir a antiga rota de comércio espanhola que ia de Buenos Aires até Lima. E foi assim que ele acabou passando por Cuzco, onde conheceu J. J. Nunes, então prefeito da região de Apurimac, que o convidou para uma árdua viagem até as ruínas de Choquekirau. Bingham, pensou na época que esse poderia vir a ser o local de Vilcabamba, o há muito procurado “último lugar de descanso dos Incas“.

Em seu retorno aos Estados Unidos, Bingham decidiu organizar uma expedição ao Peru. Ele chegou a Lima em junho de 1911, onde começou a estudar as crônicas de Antonio de la Calancha e Fernando de Montesinos, escritas no século XVII. Estas crônicas inspiraram Bingham a buscar as duas últimas capitais dos Incas: Vilcabamba e Vitcos. Saindo de Lima em julho, Bingham voltou a Cuzco, de onde viajou a pé e de mula pelo Vale do Urubamba, Ollantaytambo e garganta do Urubamba. Em 23 de julho, Bingham e sua comitiva acamparam junto ao rio, em um lugar chamado Mandor Pampa. Isso despertou a curiosidade de Melchor Arteaga, um agricultor local. Através do Sargento Carrasco, o policial que foi seu guia e intérprete, Bingham ouviu de Arteaga que havia extensas ruínas no alto da serra em frente ao acampamento de Arteaga. O local era chamado de Machu Picchu, ou “velha montanha”.

Segundo Bingham, “A manhã de 24 de julho amanheceu com uma garoa gelada. Arteaga tremia e parecia inclinado a ficar em sua cabana. Ofereci-me para pagar-lhe bem, se ele me mostrasse as ruínas. Ele recusou e disse que era muito difícil uma subida em um dia tão molhado. Mas quando ele descobriu que eu estava disposto a pagar-lhe três ou quatro vezes seu salário normal, ele finalmente concordou em ir. Quando perguntado onde ficavam as ruínas, ele apontou para cima, para o topo da montanha. Ninguém supôs que elas seriam particularmente interessantes, e ninguém se interessou em ir comigo”. Acompanhado apenas pelo Sargento Carrasco e Arteaga, Bingham deixou o acampamento por volta das 10h00min. Depois de algum tempo de caminhada atravessou uma ponte tão provisória, que o intrépido explorador precisou rastejar de joelhos sobre ela. Depois de atravessar o rio, subiram uma ladeira íngreme até que chegaram ao cume da montanha por volta do meio-dia. Ali Bingham descansou em uma pequena cabana onde apreciou a hospitalidade de um grupo de camponeses. Eles lhe disseram que viviam ali há cerca de quatro anos e que haviam encontrado um extenso sistema de terraços em cujo solo fértil tinham decidido aumentar as suas colheitas. Disseram a Bingham que as ruínas que ele buscava estavam perto. Então lhe cederam como guia um garoto de 11 anos de idade, Pablito Alvarez. Após caminhar um pouco, Bingham visualizou uma grande quantidade de terraços antigos. Eles somavam mais de uma centena e tinham sido recentemente retirados da floresta e reativados. Liderado pelo menino, ele entrou na floresta que seguia além dos terraços e começou a avistar uma série de paredes de granito branco, que o historiador imediatamente considerou os melhores exemplos de alvenaria, que ele jamais tinha visto. Eles eram os restos do que hoje se chama túmulo real, o templo principal, e o Templo das Três Janelas. Hiram Bingham ficou extremamente inspirado pela beleza da região que ele estava explorando.

Outras pessoas viram e viveram em Machu Picchu antes de Hiram Bingham sequer botar os pés no Peru, mas não tinha nem meios e nem a oportunidade de trazer a “cidade perdida”  para a atenção do mundo exterior. Já em 1894, um fazendeiro local chamado Agustín Lizárraga levou um senhor de nome Luis Ugarte até a cidade antiga. Então Luis Ugarte convidou dois amigos para uma viagem até as ruínas em busca de tesouros. Em 14 de julho de 1901, os três amigos visitaram todas as partes acessíveis de Machu Picchu.  Quando Bingham chegou às ruínas, encontrou a rocha que os três amigos tinham assinado com os seus nomes e a data de sua visita. Em seus escritos, porém, Bingham minimizou essa descoberta.

Bingham chamou Machu Picchu de ”A Cidade Perdida dos Incas”. Em 1912 Bingham voltou ao local à frente de uma expedição e acompanhado de especialistas, escavadores, topógrafos e assistentes para explorar, desflorestar e realizar pesquisas arqueológicas. Os trabalhos foram patrocinados pela Universidade de Yale e pela National Geographic Society. Em 1914 e 1915, Bingham com ajuda de outros exploradores,  fez mapas e explorou detalhadamente o local e seus arredores. Fez escavações consideradas pouco ortodoxas em diversos lugares de Machu Picchu. Reuniu dezenas de objetos, entre vasos, peças de bronze, cobre, prata e de pedra, entre outros materiais. Bingham reconheceu também outros importantes grupos arqueológicos nas imediações: Sayacmarca, Phuyupatamarca, a fortaleza de Vitcos e importantes trechos de caminhos (Trilha Inca), todos eles interessantes exemplos da arquitetura desse império. A expedição de Bingham, patrocinada não somente pela Universidade de Yale como também pela National Geographic Society, foi registrada em uma edição especial da revista, publicada em 1913, contendo um total de 186 páginas, que incluía centenas de fotografias.

Hiram Bingham declarou não ter encontrado objetos de ouro em Machu Picchu, mas até hoje essa informação é questionada. Muitos acreditam que ele possivelmente retirou peças de ouro do local e levou para os Estados Unidos de forma clandestina. De acordo com especialistas do Peru, vários lotes importantes de objetos saíram do território peruano de forma irregular, através da Bolívia. Já o material retirado legalmente por ele, cerca de 5.000 mil objetos declarados, foi enviado para a Universidade de Yale, com autorização do governo peruano. O presidente peruano da época, Augusto B. Leguía, havia concedido temporariamente a saída desses objetos do Peru. As peças saíram do país emprestadas em 1912, como recompensa pelo trabalho dos exploradores e estudiosos, mas com a condição de serem devolvidas posteriormente, o que nunca aconteceu. A National Geographic, confirmou esta interpretação dos documentos assinados na altura da saída das peças. Yale, pelo contrário, defende que o código civil peruano de 1852, vigente na altura em que os objetos saíram do Peru, permitia que quem encontrasse vestígios arqueológicos podia mantê-los de forma permanente.

No que diz respeito a repatriar esses objetos, nos últimos anos o governo peruano tem insistido na devolução dos mesmos, mas até o momento não obteve êxito. Um inventário minucioso dos tesouros de Machu Picchu, realizado recentemente na Universidade de Yale mostrou que não foram somente cerca de 5.000 objetos que Bingham teria retirado de Machu Picchu e região e levado para os Estados Unidos, mas sim que a quantidade de objetos é 10 vezes maior. Segundo o inventário, são 46.332 objetos, distribuídos em 5.728 lotes: 3.497 lotes de cerâmica, 126 lotes de restos humanos, 11 lotes de metais, e 1.038 lotes relacionados à fauna. O inventário foi feito nas instalações do Museu Peabody, na Universidade de Yale. As negociações entre o governo peruano e a Universidade de Yale, que detém os objetos na sua coleção permanente, arrastavam-se há anos. As duas partes não chegaram a um acordo sobre o número de peças que Yale tem a devolver. O governo peruano contratou advogados nos Estados Unidos, e tenta a devolução dos objetos.

Hiram Bingham tornou-se rico e famoso, publicou vários trabalhos relacionados as suas aventuras no Peru e depois foi eleito governador do Estado de Connecticut  e senador em Washington. O personagem de cinema Indiana Jones, foi inspirado nele. E a pergunta que muitos fazem hoje em dia é se Bingham é mocinho ou vilão? Eu particularmente acho que o cara foi um safado que se aproveitou de seu papel de professor e explorador, para roubar tesouros e enriquecer.

A equipe de Bingham escavando em Machu Picchu.

Machu Picchu.

Machu Picchu em 1912.

Machu Picchu em 1912.

Hiram Bingham , considerado o verdadeiro Indiana Jones.

Bingham em Machu Picchu.

Hiram Bingham: já rico, famoso e na política.

Machu Picchu

Machu Picchu, em quíchua Machu Pikchu (Velha Montanha) é também chamada de “Cidade Perdida dos Incas”. A 2.400 metros de altitude, Machu Picchu está situada no alto de uma montanha, cercada por outras montanhas e circundada pelo rio Urubamba, o que lhe proporciona uma atmosfera única de segurança e beleza. Encontram-se na margem esquerda do chamado Canyon do Urubamba. Ao pé dos montes e praticamente rodeando-os, corre o rio Urubamba (Vilcanota). As ruínas incas encontram-se a meio caminho entre os picos de duas montanhas. A superfície edificada tem aproximadamente 530 metros de comprimento por 200 de largura e contém 172 edifícios em sua área urbana. Foi construída no século XV, sob as ordens de Pachacuti. O local é provavelmente, o símbolo mais típico do Império Inca, quer devido à sua original localização e características geológicas, quer devido à sua descoberta tardia em 1911. Apenas cerca de 30% da cidade é de construção original, o restante foi reconstruído. As áreas reconstruídas são facilmente reconhecidas, pelo encaixe entre as pedras. A construção original é formada por pedras maiores, e com encaixes com pouco espaço entre as rochas.

Consta de duas grandes áreas: a agrícola formada principalmente por terraços e recintos de armazenagem de alimentos; e a outra urbana, na qual se destaca a zona sagrada com templos, praças e mausoléus reais. A disposição dos prédios, a excelência do trabalho e o grande número de terraços para agricultura são impressionantes, destacando a grande capacidade dos Incas. No meio das montanhas, os templos, casas e cemitérios estão distribuídos de maneira organizada, abrindo ruas e aproveitando o espaço com escadarias. Segundo a história inca, tudo planejado para a passagem do deus sol.

Há diversas teorias sobre a função de Machu Picchu, e a mais aceita afirma que foi um assentamento construído com o objetivo de supervisionar a economia das regiões conquistadas e com o propósito secreto de refugiar o soberano Inca e seu séquito mais próximo, no caso de ataque. Pela obra humana e pela localização geográfica, Machu Picchu é considerada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Em 1885, no curso de suas viagens de exploração pelo Peru, o naturalista italiano Antonio Raimondi passou ao pé das ruínas sem sabê-lo e menciona o quão escassamente povoada era a região na época. Porém, tudo indica que foi por esses anos que a região começou a receber visitas por interesses distintos dos meramente científicos. Foi nesta época que os mapas de prospecções mineiras começam a mencionar Machu Picchu. Em 1870, o norte-americano Harry Singer coloca pela primeira vez em um mapa a localização do Cerro Machu Picchu . Um segundo mapa de 1874, elaborado pelo alemão Herman Gohring, menciona e localiza em seu local exato a montanha. Por fim, em 1880 o explorador francês Charles Wiener confirma a existência de restos arqueológicos no lugar (afirma “há ruínas na Machu Picchu”), embora não se possa chegar ao local. Em qualquer caso está claro que a existência da suposta “cidade perdida”  não se havia esquecido, como se acreditava até há alguns anos.

Foi o professor norte-americano Hiram Bingham que à frente de uma expedição da Universidade de Yale, redescobriu e apresentou ao mundo Machu Picchu em  24 de julho de 1911. Hiram Bingham  realizou uma investigação da zona próxima a Machu Picchu. Naquela época, a meta de Bingham era outra: encontrar a legendária capital dos descendentes dos Incas, Vilcabamba, tida como baluarte da resistência contra os invasores espanhóis, entre 1536 e 1572. Ao penetrar pelo cânion do Urubamba, Bingham ouviu do camponês Melchor Arteaga o relato de que no alto de cerro Machu Picchu existiam abundantes ruínas. Alcançá-las significava subir por uma empinada ladeira coberta de vegetação. Embora cético, Bingham insistiu em ser guiado ao lugar. Chegando ao cume, um dos meninos das duas famílias de pastores que residiam no local o conduziu aonde efetivamente apareciam imponentes construções arqueológicas cobertas pelo manto verde da vegetação tropical e em evidente estado de abandono há muitos séculos. A cidade estava tomada por vegetação nativa e árvores. Depois desta expedição, Bingham voltou ao lugar em 1912 e nos anos de 1914 e 1915. Com ajuda de outros exploradores,  foram feitos mapas e uma exploração detalhada do local e dos arredores. Suas escavações, não muito ortodoxas, em diversos lugares de Machu Picchu, permitiram-lhe reunir 555 vasos, aproximadamente 220 objetos de bronze, cobre, prata e de pedra, entre outros materiais. A cerâmica mostra expressões da arte inca e o mesmo deve dizer-se das peças de metal: braceletes, brincos e prendedores decorados, além de facas e machados. Ainda que não tenham sido encontrados objetos de ouro, o material identificado por Bingham era suficiente para inferir que Machu Picchu remonta aos tempos de esplendor inca, algo que já evidenciava seu estilo arquitetônico.

Machu Picchu – 2011.

Machu Picchu – 1911.

Machu Picchu.

Macchu Picchu.

Uma das muitas ruínas de Machu Picchu.

Aguas Calientes

Aguas Calientes é o nome coloquial para Machu Picchu Pueblo. Pequena cidade, pacata e charmosa é mais conhecida como o ponto de acesso mais próximo à cidade sagrada inca de Machu Picchu, que fica a 6 km de distância. É de Aguas Calientes que parte todos os dias, a partir da 5h30min da manhã e a cada 15 minutos, os ônibus que sobem 700 metros de altitude para levar os visitantes ao Santuário Histórico de Machu Picchu. Como o próprio nome sugere, Aguas Calientes possui agradáveis piscinas naturais de água quente a apenas 15 minutos de caminhada da sua praça principal. Conhecidas por suas propriedades medicinais, são chamadas de Baños Termales, em castelhano, e são utilizados especialmente para o uso recreativo da população e dos turistas.

Originalmente ocupada por poucas famílias de fazendeiros em 1901, o pequeno povoado foi transformado em moradia para os trabalhadores da ferrovia que foi construída por lá a partir de 1920. A cidade foi o ponto central para acomodação dos trabalhadores e os seus equipamentos até que a ferrovia fosse concluída em 1931.

Aguas Calientes serve como um terminal para a Perurail. Os trens servem os habitantes locais e turistas que chegam a partir de Cuzco e Ollantaytambo para visitar Machu Picchu. Um grande mercado de souvenirs funciona ao lado da estação ferroviária. O mercado de artesanato da pequena cidade é um dos mais importantes centros de exposição e comercialização de produtos artesanais da região de Cuzco. Artesãos de diferentes comunidades campesinas e, inclusive, de outras zonas andinas do Peru, trazem seus produtos aos turistas de Machu Picchu.

Aguas Calientes.

Aguas Calientes.

Ruela no centro do vilarejo.

Na praça central da cidade.

Machu Picchu Pueblo (Aguas Calientes).

Estrada que vai de Aguas Calientes a Machu Picchu.

Vista geral de Aguas Calientes.

Trilha Inca (4º dia)

Acordamos ás 03h30 e ainda chovia e fazia um pouco de frio. Por ter ido dormir tarde senti muita dificuldade para levantar. Arrumei minhas coisas e fui me reunir ao pessoal dentro do bar. Enquanto todos tomavam café, preferi ficar sentado num canto cochilando. Depois teve a reunião de todas as manhãs explicando a programação das próximas horas. Em seguida começamos a descer a montanha, abandonando de vez a Trilha Inca. Seguimos num ritmo forte e felizmente a chuva logo parou. Íamos clareando a trilha com lanternas, pois a escuridão era total. Mais uma vez encontrei o “cão inca” que parou na minha frente e se deitou na trilha, bem onde eu ia passar. Após pouco mais de uma hora de caminhada e com o dia começando a clarear, chegamos à margem do Rio Urubamba. Aproveitamos para descansar e esperar o restante do pessoal do nosso grupo. Aproveitei para tirar o casaco e percebi que minha camiseta estava toda molhada de suor.

Ás 07h00min o grupo estava todo reunido e fomos até um posto de controle em frente a uma pequena ponte que atravessa o rio Urubamba. Tivemos que esperar um pouco até um funcionário abrir um portão que dá acesso a ponte. Atravessamos a pequena ponte que chacoalhava muito e logo estávamos nos trilhos do trem seguindo para Aguas Calientes. Não demorou muito e a chuva recomeçou. Pelo caminho vi pedras enormes que pareciam ter caído da montanha poucas horas antes. Mais tarde ficamos sabendo que na noite anterior tinha acontecido um pequeno tremor de terra na região. Caminhei um bom tempo sozinho e depois com meu amigo Diego. Conforme nos aproximávamos de Aguas Calientes a chuva aumentava. A estrada de ferro segue todo o tempo ao lado do rio. Passamos por algumas poucas casas e por uma represa. Pouco mais de uma hora de caminhada e chegamos a Aguas Calientes sob muita chuva. Paramos debaixo de uma marquise para descansar e esperar o restante do pessoal. Depois fomos até um restaurante cujo dono é argentino e ali deixamos nossas mochilas e fomos comprar ás passagens do ônibus que leva até Machu Picchu.

Antes de partir para a Trilha Inca, falei com meu irmão pela internet e ele me contou que estava indo para o Peru a trabalho. Então ele disse que tentaria ir para Machu Picchu no domingo e tentaria me encontrar por lá. Depois não tivemos mais contato e eu não sabia se ele tinha ido mesmo para o Peru. Quando estava na fila para comprar a passagem do ônibus, vejo meu irmão descendo tranquilamente pela rua ao lado. Fui em direção a ele rindo e ele tomou o maior susto ao me ver. Foi um encontro não programado, pois pelo plano original não era pra eu estar em Aguas Calientes naquela manhã. Foi um encontro muito legal, pois nada como encontrar alguém da família após os difíceis dias na Trilha Inca. Apresentei meu irmão a alguns amigos do grupo e a nossos guias. Ele foi bem recebido por todos e a partir dali acabou fazendo parte de nosso grupo e seguiria junto conosco para Machu Picchu. Ali terminava a aventura pela Trilha Inca e iniciaria uma nova aventura rumo a Machu Picchu. Missão cumprida! Essa era a sensação geral e mesmo não tendo percorrido a Trilha Inca por inteiro em razão do desmoronamento e do fechamento da trilha, todos estavam contentes e ansiosos para chegar logo a Machu Picchu que estava bem perto, na montanha pouco acima de onde estávamos.

De madrugada, com cara de sono.

Terminando de descer a montanha, ao clarear do dia.

Rio Urubamba.

Atravessando a pequena ponte sobre o rio Urubamba.

Caminhando ao lado dos trilhos.

Longa caminhada pelos trilhos do trem.

O trem trazendo turistas para Machu Picchu.

Caminhando entre os trilhos e o rio, sob muita chuva.

Chegando a Aguas Calientes.

Eu e Diego descansando sob uma marquise.

Eu e meu irmão em Aguas Calientes.

Trilha Inca (3º dia)

Mais uma vez acordamos ás 05h00mim e ainda estava escuro e chovendo. Dormi nove horas direto, algo que não acontecia fazia vários dias. O Diego acordou reclamando da chuva que tinha molhado a barraca e algumas coisas dele. Fui conferir meu lado da barraca e minhas coisas, mas estava tudo seco. Demos uma olhada geral na barraca e dava pra ver nitidamente que metade da barraca estava molhada e a outra metade não. O Diego ficou olhando aquilo com cara de quem não acreditava e eu fiquei rindo. Entendi que em nossa barraca, que entre nós existia um equilíbrio entre sorte e azar e que todo o azar ia para o lado do Diego e toda a sorte para o meu lado. Coisas da Trilha Inca!

Arrumei minhas coisas e fui sob chuva até o banheiro. O banheiro masculino tinha fila e o feminino estava vazio. Como estava apurado não pensei duas vezes e entrei no banheiro feminino. Logo escutei vozes femininas do lado de fora e me preparei para as reclamações quando fosse sair. E não deu outra, quando abri a porta me deparei com umas dez meninas que começaram a reclamar por eu estar usando o banheiro feminino. Respondi que ele estava vazio quando cheguei e saí rindo, o que deixou a mulherada ainda mais brava e ouvi xingamentos em pelo menos quatro idiomas diferentes.

Após o café os guias fizeram uma reunião e nos deram uma péssima notícia. O posto de controle do governo peruano que existe no acampamento onde estávamos, tinha sido informado via rádio que em razão da chuva das últimas horas ocorreram deslizamentos na parte final da Trilha Inca, que vai do último acampamento até a entrada de Machu Picchu. Então por razões de segurança a parte final da trilha foi fechada e ficaria assim até meados ou final de março. Em fevereiro a Trilha Inca é fechada para manutenção e por ser época de chuvas, então somente em fevereiro é que tentariam resolver o problema dos desmoronamentos. Foi uma frustração geral em todos de nosso grupo. Tínhamos sofrido tanto, íamos penar mais um dia caminhando pela trilha e perderíamos justamente a melhor parte que era chegar caminhando em Machu Picchu. A alternativa seria desviarmos nossa rota no final do último dia, pernoitar no alto da montanha e de madrugada descer a montanha. Atravessaríamos uma pequena ponte sobre o rio Urubamba e caminharíamos um bom tempo ao lado dos trilhos do trem até chegar à pequena cidade de Aguas Calientes. Lá pegaríamos um dos muitos ônibus que seguem até a entrada de Machu Picchu e que partem a cada 15 minutos. Tudo o que eu nunca desejei foi chegar a Machu Picchu de ônibus, mas não teria outra alternativa. Após assimilar o golpe e a decepção, passei a olhar a situação por outro lado. Eu sabia que janeiro é época de chuvas e aceitei o risco de ir para a Trilha Inca nessa época. Pegamos dois dias de sol na trilha, então não dava pra reclamar da sorte. E entendi o fato de não poder chegar até Machu Picchu caminhando, como um sinal de que devo voltar para o Peru outra vez e fazer a Salcantay, uma outra trilha que leva até Machu Picchu e que é mais longa e mais difícil de percorrer. Acho que estou começando a ficar místico e comecei a sentir certas coisas, receber sinais… sei lá! De qualquer forma eu não ia ficar abatido, pois percorreria 90% da Trilha Inca e isso era bem melhor do que nada.

Pouco antes da 07h00mim iniciamos a caminhada pela trilha. Não seria um dia tão difícil como o anterior, mas sob chuva as coisas complicavam um pouco. Sendo o terceiro dia o corpo estava mais adaptado com o ritmo da caminhada e com a altitude. A única coisa chata foi ter que usar capa de chuva, o que limita um pouco os movimentos e esquenta o corpo mais que o normal. Após uns minutos tirei o capuz da capa da chuva, pois com ele minha visão periférica ficava limitada e isso não estava me agradando. Preferi molhar a cabeça na chuva, era bem melhor. De cara já pegamos uma forte subida e com as pedras da trilha molhadas pela chuva, o cuidado para não cair tinha que ser dobrado e em alguns trechos em que caminhávamos ao lado do abismo esse cuidado era triplicado. Para mim sempre o início da caminhada é mais difícil, meu corpo demora para aquecer e pegar ritmo. Após não muito tempo de caminhada chegamos até uma antiga ruína inca chamada Runkuraqay. Estávamos a 3.800 metros e com muita chuva. A ruína ficava ao lado da trilha, mais ou menos na metade de uma montanha. De onde estávamos à vista era bonita, dava pra ver bem no fundo de um vale o acampamento onde tínhamos passado à noite. Ainda eram visíveis algumas barracas montadas, de outros grupos. Observando a geografia em volta, a impressão que dá é que somente pela trilha seria possível transpor as montanhas do lugar, cheia de precipícios e de encostas escarpadas. Runkuraqay foi construída em forma de circulo, dentro de um semicírculo e com apenas uma entrada. Acredita-se que foi construída para ser um posto de vigilância e também de parada para descanso ou de troca, para os mensageiros que seguiam a pé rumo Machu Picchu. Fizemos uma longa parada no local e os guias separaram o grupo para poderem contar mais tranquilamente à história (ou provável história) do lugar. Os incas foram gênios em sua época, mas não tinham uma escrita que possibilitasse que sua história chegasse até os dias de hoje. Então muito do que se fala sobre os incas são suposições e até mesmo os nomes dos locais são outros, já que não se sabe ao certo os verdadeiros nomes. Mesmo adorando historia e sendo formado em história, eu não conseguia ficar muito tempo parado ouvindo o que os guias contavam. Eu preferia andar pelo lugar, tirar fotos, tocar nas rochas, ficar imaginando quem passou por ali, como era aquele local há centenas de anos. Cada um tem um jeito de curtir lugares históricos, o meu jeito é esse.

A chuva parou um pouco, mas logo que reiniciamos a subida da montanha ela voltou forte. A trilha era difícil e fui apertando o passo e tomando cuidado para não cair. Com a chuva e a neblina nosso raio de visão ficou limitado a não mais que 400 metros. Então não era possível admirar a vista estupenda que poderíamos ter lá de cima. Esse problema se estendeu por quase todo o dia e sei que acabei deixando de ver muitas paisagens maravilhosas pelo caminho por culpa da chuva e da neblina quase constantes. Após pouco mais de uma hora de difícil subida chegamos ao alto da montanha, um local conhecido por Second Pass (Segundo Passo) e que fica a 3.900 metros de altitude. Nesse local também existiam rochas mais altas ao lado da trilha e em cima delas amontoados de pequenas pedras. Acabei encontrando quatro brasileiros; um casal de Belo Horizonte, uma garota de São Paulo e outra de Santos. Eles estavam num pequeno grupo, junto com alguns chilenos. Conversamos um pouco trocando experiências sobre os últimos dias. Não demorou muito e meu grupo partiu e eu junto. Dessa vez tinham algumas pequenas descidas intercaladas a pequenas subidas. Logo no início passamos por um local onde existia dois lagos muito bonitos logo abaixo da trilha, mas a neblina não permitiu bater boas fotos dos lagos. Depois de uma hora e meia de caminhada chegamos à outra ruína inca. Deixamos nossas mochilas num canto da trilha e um guia ficou tomando conta delas.

Subimos por uma escadaria estreita que foi construída de forma estratégica no bico de uma montanha e entramos em Sayaqmarka, uma enorme ruína e a que mais gostei de todas que visitei. O nome do local no idioma quéchua significa “Cidade Inacessível”. As ruínas são enormes e muito bem preservadas e estão em vários níveis ligados por escadas. Existem inúmeros aposentos, canais e pátios. Segundo nosso guia contou, o lugar foi um pequeno centro religioso para aldeias periféricas. Logo que chegamos ao lugar a chuva e a neblina foram embora e o sol surgiu forte. Mais uma vez o grupo foi dividido pelos guias para as devidas explicações sobre o lugar. Depois tivemos meia hora para explorar o local. Preferi caminhar sozinho, observando os detalhes e acabei indo parar num pátio externo onde existia um muro bem ao lado do abismo. Tirei fotos e continuei explorando o lugar. Bem mais abaixo em frente da montanha onde estava visualizei outra construção inca de menor tamanho e vi que a trilha passava bem ao lado. Logo o tempo fechou novamente e começou a chover. Descemos de volta para a trilha e seguimos nosso caminho mais uma vez debaixo de chuva. Quando passei pela construção inca que tinha visto lá do alto em Sayaqmarka, chovia tanto que nem tive vontade de parar. 

Continuei caminhando e logo cheguei ao local do almoço. Nossos porteadores já tinham chegado ao lugar muito antes e montado a barraca da cozinha e a barraca para o almoço. Ao lado de onde foram montadas as barracas existia uma construção com banheiros masculino e feminino e cuja higiene também não era boa. A chuva aumentou e deixamos as mochilas do lado de fora, uma sobre as outras debaixo de uma pequena lona. Tivemos que nos espremer dentro da barraca das refeições, pois chovia muito e não dava pra deixar as entradas abertas como sempre fazíamos e que era algo que deixava a barraca mais espaçosa. Comi três coisas no almoço que até agora não tenho a mínima idéia do que eram. Tinha um negócio que a princípio pensei ser um bolinho e que ao morder descobri ser uma mistura de batata com mandioca, de sabor estranho. Após o almoço não nos demoramos muito e fomos nos preparar para seguir a caminhada. O sol apareceu novamente, ardido e forte. Mas não durou nem 5 minutos e voltou a chover. Estávamos entrando numa região de floresta tropical e o clima ficou ainda mais estranho.

O trecho que fizemos à tarde é considerado o mais bonito da Trilha Inca, mas não deu para ver muita coisa pois a chuva e a neblina nos acompanharam durante toda a tarde. O sol deu as caras raríssimas vezes e por poucos minutos somente. Já a neblina não foi embora nem mesmo quando o sol aparecia. Foi uma caminhada relativamente tranqüila, principalmente se comparada a dificuldade do dia anterior. A trilha em sua maior parte seguia por um terreno mais plano e praticamente todo o percurso seguia pelo topo de uma cadeia de montanhas. A vegetação ia ficando cada vez mais densa e bonita. Passamos por um túnel inca feito no meio da rocha, ao lado de um precipício. Era uma obra de engenharia impressionante, principalmente se levarmos em consideração a época em que foi construído e as ferramentas que os incas possuíam. Pouco após deixar o túnel passei por uma situação complicada. Comecei a sentir fortes dores na barriga e uma vontade imediata de ir ao banheiro. Mas estávamos numa trilha estreita onde do lado direito existia um paredão de rocha de centenas de metros de altura e do lado esquerdo um precipício sem fim. A frente e atrás caminhavam várias pessoas, muitas sendo mulheres. Então onde é que eu ia resolver meu problema? Onde achar um banheiro ou uma moita num lugar daqueles? Fiquei muito preocupado, me segurei o que pude e já estava começando a ficar desesperado. E para piorar a chuva aumentando. Caminhei uns 15 minutos na maior tortura e tentando encontrar uma saída para tal situação, até que finalmente numa curva da trilha avistei uma pedra enorme e atrás dela um pequeno carreiro. Fui investigar o lugar e pelas marcas vi que alguém já tinha usado tal lugar pelas mesmas razões que eu. Não pensei duas vezes e entrei no carreiro. Quando dei o segundo passo escorreguei no capim molhado e no barro e saí deslizando morro abaixo. Consegui parar uns três metros depois, me segurando em alguns galhos e no capim alto. Quando olhei e vi que mais um metro para baixo de onde estava era o precipício, gelei! Mas na situação em que estava não dava pra gelar por muito tempo, pois tinha algo mais imediato para fazer. Analisei a situação e rapidamente decidi como resolver meu problema. Prefiro não entrar em detalhes para preservar a mim e a você caro leitor. Sei que devo ter feito o “serviço” numa das posições mais estranhas da história. E qualquer descuido eu ia parar morro abaixo. A situação era pra chorar, mas eu morria de rir e lembrei de meu irmão que adora parar em moitas na beira da estrada. Depois da emergência resolvida tive que pensar em como sair dali sem correr o risco de escorregar e ir parar no abismo. Lembrei de uma queda que tive ao descer o Pico do Marumbi uns anos antes e que foi bem parecida com essa. Então usei da mesma estratégia da outra vez para rastejar morro acima e com cuidado consegui chegar de volta a trilha. Eu estava com lama da cabeça aos pés, mas ao menos tinha resolvido o problema emergencial. Voltei a caminhar e só então me dei conta do risco que corri. Mais um metro deslizando e eu teria caído num precipício enorme e como ninguém tinha me visto entrar ali, se eu tivesse caído morro abaixo nunca iam saber onde fui parar, como desapareci. Ninguém mais ia saber de mim, nem mesmo minha família. Eu seria declarado desaparecido nas montanhas peruanas. Faltou muito pouco para isso acontecer, na verdade faltou um metro. Achei melhor não pensar mais nisso e seguir em frente, agora literalmente aliviado. Logo encontrei ao lado da trilha uma pequena mina de água e aproveitei para me lavar e tirar parte do barro das botas, da mochila e da roupa.

No meio da tarde paramos em mais uma ruína inca, Phuyupatamarca. Essa ruína fica a 3.680 metros de altitude e segundo nosso guia ela servia ao culto e à morada de nobres e sacerdotes. Pela redondeza existiam também alguns núcleos religiosos de vilas campesinas, mas que por serem construídas com tijolos de adobe, se desmancharam pela ação do tempo. Em Phuyupatamarca foram catalogados três praças, seis banhos litúrgicos, canais de água, quinze quartos e um observatório. Mais uma vez nossos guias contaram a história do local e depois liberaram o grupo para que cada um seguisse no seu ritmo. Também informaram onde deveríamos sair da trilha e seguir rumo ao último acampamento, que seria ao lado de um tipo de bar, onde existia banho quente, cerveja e Coca-Cola. A chuva voltou mais uma vez e a neblina desceu de vez. Percebi que não daria pra ver muita coisa pelo caminho e nem tirar boas fotos, então resolvi seguir num ritmo forte pois a idéia de um banho quente e de uma Coca-Cola gelada era muito atraentes para mim naquela altura dos acontecimentos.  O trecho era quase todo de descida e partes planas, com raras subidas. Então fui caminhando forte, o último grande teste para saber se minhas hérnias de disco estavam curadas. Pelo caminho fui passando por integrantes de meu grupo e do outro grupo co-irmão. Fiquei sentido pelo tempo estar ruim, pois sabia que estava perdendo paisagens lindas. Segui por cerca de uma hora e meia num ritmo forte e constante, parando poucas vezes para beber água e bater uma ou outra foto da trilha. Logo alcancei dois argentinos que sempre caminhavam na frente e o meu colega inglês do outro grupo. Então passamos a caminhar os quatro juntos e num ritmo ainda mais forte. Pouco depois chegamos a uma bifurcação na trilha, num local onde existe uma torre metálica de energia elétrica. Ali o guia tinha avisado que era para seguir pela trilha da direita e chegaríamos ao nosso acampamento. Seguindo a esquerda entraríamos no trecho bloqueado da Trilha Inca, que leva até as ruínas de Intipata e depois a Machu Picchu. Bem que deu vontade de seguir pela esquerda!

Alguns metros após caminhar pela trilha da direita, surgiu a nossa frente uma vista de tirar o fôlego. Várias montanhas com os topos cercados por nuvens e abaixo delas no fundo de um vale corria o rio Urubamba. Parei uns instantes para admirar tal vista e voltei a caminhar, agora por uma descida íngreme e que seria a última do dia. Não demorou muito e ultrapassei um dos argentinos e logo encostei no outro. Ele não queria ficar pra trás e forçou tanto para se manter a minha frente que logo parou, com dor no joelho. Cheguei no acampamento junto com o inglês do outro grupo e fui o terceiro de meu grupo a chegar. Na minha frente chegaram dois argentinos, os mesmo que tinham sido os primeiros a chegar no dia anterior. Nossas barracas estavam armadas uma ao lado da outra na encosta do morro e logo em frente a elas tinha um enorme barranco. Se o cara não tomasse cuidado ao sair da barraca, corria o risco de ir parar morro abaixo. Em frente a mesma maravilhosa vista que eu tinha visto um pouco mais acima. Escolhi uma barraca, deixei minhas coisas e fui procurar o tal banho quente. No local ao lado do acampamento existe o Wiñaywayna Visitors Center, uma construção grande de alvenaria onde funciona uma lanchonete e existem mesas enormes. O que me chamou a atenção foram algumas placas avisando que aquela construção era segura em caso de terremotos. Ali também tem banheiros limpos, com chuveiro quente ao custo de cinco soles. Acabei sendo o primeiro a tomar banho e foi uma delícia após três dias de trilha poder tomar um banho de verdade. Depois do banho fui na lanchonete comprar uma Coca-Cola, que para minha decepção não é gelada. Aproveitei para repor meu estoque de chocolates e então fui para a barraca descansar. A chuva ficou mais forte e depois de uma hora o Diego chegou, mais uma vez sem mochila. Falei a ele sobre o banho quente mas ele não quis saber. E não foi por falta de dinheiro que ele não quis tomar banho, mas sim por não querer tomar banho. Então como último recurso ofereci a ele meus últimos lenços umedecidos e ele aceitou. Era melhor que meu companheiro de barraca tomasse um banho de gato do que nenhum banho.

Após descansar um pouco fui no centro de visitantes. Lá fiquei conversando com o pessoal e depois me sentei do lado de fora, ao lado de uma espécie de mirante e fiquei olhando a vista dali. Era demais, algo muito bonito e uma paisagem que mudava a todo instante por culpa da mudança e da quantidade de nuvens e até de alguns raios de sol. Algo pra se lembrar para sempre. Foi nesse momento que tive o primeiro contato com o “cão inca”, história que contarei numa postagem especifica daqui uns dias. Logo serviram nosso café da tarde dentro do enorme refeitório e depois conversei mais um pouco e tirei fotos. Quando anoiteceu serviram o jantar, mas não comi nada. Os guias vieram perguntar o motivo de eu não querer comer e após contar sobre minha dor de barriga, me mandaram comer um pouquinho de macarrão, que logo depois me levariam um chá especial que curaria meu problema. Comi um pouco da macarronada que estava horrível e quando me entregaram uma caneca de chá tive que ser muito corajoso para beber. A cor e o cheiro não eram nada atrativos e o sabor muito menos. Achei melhor não perguntar do que era o tal chá, mas o resultado foi bom e quase imediato.

Em seguida ao jantar todos fomos para o mirante do lado de fora, onde ocorreu a despedida dos porteadores. Todos do grupo se apresentaram aos porteadores e eles a nós, falando suas idades, estado civil e quantidade de filhos. Fiquei impressionado quando soube a idade de alguns. Tinha um de 40 que da pra dizer que é meu pai e outro de 21 que aparenta ter a minha idade. Todos levam uma vida sofrida e a idade pra eles pesa mais do que pra nós. Fizemos uma vaquinha que é tradicional na trilha e o que foi arrecado foi dado de presente aos porteadores. E não é que um dos porteadores vestia uma camisa do Palmeiras! Eu corinthiano que sou nem dei muita bola pra ele. Já para um outro porteador que vestia uma camisa da seleção brasileira, fiz questão de dar um abraço e tirar uma foto com ele. Pena que as fotos desse evento não ficaram boas, pois estávamos no meio da neblina.

Acabei encontrando os quatro brasileiros com quem conversei pela manhã na trilha. Reunimos-nos numa mesa e ficamos um bom tempo conversando e bebendo Cuzqueña e Coca-Cola. Aquele local parecia uns daqueles bares de fim de mundo que vemos nos filmes. E foi interessante numa noite de sábado quatro brasileiros se reunirem ao redor de uma mesa para falar da vida, após terem percorrido quase 40 quilômetros de umas das trilhas mais famosas, bonitas e difíceis do mundo. O clima era de missão cumprida. Eram quase onze horas quando resolveram fechar o bar e tive que ir para a barraca. Chovia muito forte e dei carona a minha amiga Carolina até a porta de sua barraca. A carona consistia de iluminar o caminho com minha lanterna. Andar sem lanterna na escuridão do lugar, com chuva e com barrancos, era quase um suicídio. Entrei na barraca, dei boa noite para o Diego e fiquei pensando que o dia seguinte seria o grande dia, o dia de conhecer Machu Picchu e realizar um sonho de quase trinta anos. Dormi ouvindo o barulho da chuva batendo na lona da barraca a poucos centímetros do meu rosto.

Eu e Diego e eu com o casal Juan e Cecília, no amanhecer do 3º dia.

Caminhando sob chuva e com o guia Juan Carlos.

Nas ruínas de Runkuraqay.

Ao fundo as ruínas de Runkuraqay.

Na trilha; com os brasileiros e Roxana; com Carolina; um dos lagos.

Nas ruínas de Sayaqmarka.

Em Sayaqmarka.

Em Sayaqmarka.

Sayaqmarka.

Construção inca que é vista do alto de Sayaqmarka.

Phuyupatamarca.

Em Phuyupatamarca e em trechos da trilha.

Parte final da Trilha Inca no terceiro dia.

No acampamento da última noite.

Parte da vista que se vê do mirante do Wiñaywayna Visitors Center.

Quatro brasileiros conversando num bar no meio da floresta peruana.

Trilha Inca (2º dia)

Acordamos ás 05h00min, fazia muito frio e o tempo estava bem nublado. Arrumei minhas coisas, guardei tudo na mochila e fui escovar os dentes e usar o banheiro. Estávamos usando o banheiro de uma moradora local e a higiene do mesmo não era das melhores. Tudo bem, no meio do mato não dava pra esperar grande coisa. O mais chato era ficar na fila do banheiro. Nessa manhã fiquei atrás de cinco argentinas, todas descabeladas, com cara de sono e com um rolo de papel higiênico na mão. Era uma cena engraçada, que achei melhor não fotografar, pois elas podiam não gostar. Após utilizar o banheiro fui direto para a barraca das refeições. Não costumo tomar café da manhã, pois não sinto fome antes do meio dia, mas como seria o dia mais puxado na trilha achei melhor comer um pouco. O cardápio foi bom, com direito a um tipo de pão tostado e panquecas. Pra beber café, leite solúvel e chá de coca. Optei pelo chá de coca que no caso era de saquinhos, igual ao chá mate que compramos no supermercado. Descobri outra forma de fazer o chá de coca, que é através de infusão, ou seja, colocar folhas de coca na água quente. Acabei inventado uma nova maneira de fazer o meu chá, colocava um saquinho de chá no caneco com água quente e adicionava algumas folhas de coca também. Ficava bem forte, mas dava pra beber. Junto com o chá de coca tomei uma Sorojchi Pills, para o mal de altitude, um relaxante muscular para aliviar possíveis dores e um Centrun, complexo de vitaminas. Ou seja, estava “turbinado” e pronto pra encarar a difícil subida do vale.

Pouco antes das 07h00min os guias reuniram o grupo, deram alguns avisos e começamos a caminhada. Fazia frio e optei por utilizar somente um casaco leve, pois conforme fosse caminhando sabia que sentiria calor. Passamos pelas últimas casas existentes na trilha, onde alguns moradores vendem água, Gatorade e refrigerantes. Algumas pessoas do meu grupo aproveitaram para comprar água e pagaram um preço absurdo, mas justificável, pois dá o maior trabalho levar mercadorias até aquele local e o transporte é feito nas costas ou em lombo de mula. Eu tinha levado um bom estoque de água, para dois dias e um Gatorade para ser usado nesse trecho da trilha. Para o último dia tinha levado uma cartela de pastilhas antibactericida, para colocar na água que encontrasse pelo caminho, fosse em bicas ou rios. O bom da história era que conforme eu caminhava e consumia minha água, o peso da mochila ia diminuindo. Pelos meus cálculos eu chegaria no alto do vale com uns dois quilos a menos de peso nas costas, que seria o peso da água que eu consumiria para percorrer o trecho mais difícil. O trecho era todo de subida e até o corpo aquecer por completo fica complicado caminhar, sem contar que o ar ia ficando cada vez mais rarefeito. Fizemos algumas curtas paradas pelo caminho e numa delas um cachorro enorme e com cara de poucos amigos veio em minha direção quando eu estava sentado numa pedra e colocou a cabeça na minha coxa, pedindo carinho. Primeiro levei um susto, mas logo estava acariciando a cabeça do cachorro.

Continuamos nossa caminhada, sempre subindo. Então fizemos uma parada num posto de controle do governo, onde os guias reuniram todos do nosso grupo e deram mais avisos. A partir dali não precisávamos mais seguir em grupo, cada um poderia seguir no seu ritmo. Informaram que teríamos que parar num local chamado Paqaymayu, onde estariam montados os acampamentos de todas as equipes que estavam na trilha naquele dia. Conforme fôssemos chegando no local deveríamos procurar nosso acampamento, que era o de número nove. Outro aviso do guia foi que ao chegarmos no alto da passo (First Pass) a 4.215 metros, o ponto mais alto da Trilha Inca, não deveríamos ficar mais de 15 minutos lá, pois começaríamos a sentir fortes dores de cabeça em razão da escassez de ar. Ao passar por mim o guia olhou nos meus olhos e disse que somente os fortes chegariam ao alto do passo naquele dia. Quando voltamos a caminhar resolvi seguir sozinho e no ritmo que aguentasse, queria me testar e ver até onde suportaria. Não foi nada fácil, mas conforme ia caminhando e o corpo aquecendo eu me sentia mais disposto a caminhar. Pelo caminho ia ultrapassando pessoas de outros grupos que estavam na trilha e que eu ainda não tinha visto. Eram muitos estrangeiros, se falava muitos idiomas numa verdadeira Babel. Logo comecei a andar junto com dois argentinos do meu grupo e conversamos um pouco. E quando souberam que eu tinha 40 anos e duas hérnias de disco, ficaram impressionados com minha disposição em caminhar. Pelo caminho existiam alguns pontos de parada para descanso e quando passava por esses locais via muita gente deitada, descansando. Então percebi que meu grupo tinha pernoitado num dos últimos acampamentos da trilha e que também tinha sido um dos últimos a iniciar a caminhada naquela manhã. Evitei fazer paradas longas e principalmente me sentar. Fiz uma única parada de dez minutos, onde aproveitei para tirar a mochila das costas e me sentar por alguns instantes. Logo voltei a caminhar e a trilha ia ficando cada vez mais inclinada e dessa vez era toda calçada em pedras e com muitos degraus. O que me ajudou bastante foi o bastão que estava levando, pois além de dar melhor equilíbrio, na hora de subir os degraus ele funcionava como uma terceira perna e preservava um pouco os joelhos, que estavam sendo muito exigidos nesse trecho da trilha. Logo chegamos numa região de mata fechada e a trilha ia fazendo círculos. Ali parei de andar com os argentinos e fiz uma pequena parada. Sentia-me muito tonto e com falta de ar, a vista ficou turva e achei que fosse desmaiar. Nesse momento baixei a cabeça e fiz uma oração, não queria de maneira alguma desistir, queria chegar até o fim, precisava chegar até o fim. Respirei fundo, reuni todas minhas forças e logo me senti melhor para continuar caminhando.

Saímos da região de floresta fechada onde estávamos e chegamos a um local aberto. A trilha seguia pela esquerda, circundando uma montanha enorme. Do lado direito um vale aparecia bem lá embaixo e vi uma pequena casinha coberta de palha e ao lado um pasto com Lhamas pastando. Foi interessante vislumbrar tal cena, pois nunca tinha visto Lhamas pastando. Atrás era possível ver as mesmas montanhas que víamos desde o início da trilha. Mesmo elas ficando cada vez mais distantes conforme caminhávamos parecia que ficavam maiores. É que íamos subindo e dessa forma elas ficavam mais visíveis e pareciam ser maiores. Sei lá, acho que é esse o motivo ou então eu estava muito tonto e vendo coisas… rs. Olhar para cima era desanimador, pois não dava pra ver o final da montanha, o ponto mais alto da trilha. Reuni minhas forças e continuei subindo. Por mim passaram muitos porteadores carregados de coisas e vi muitos outros parados, sentados ao lado da trilha. Ali dava pra ver mais claramente a quantidade de pessoas que estavam na trilha naquele dia e o grande número de porteadores dos vários grupos. Eu sabia que no máximo podem entrar na Trilha Inca 500 pessoas por dia, quantidade que é muito bem controlada pelo governo peruano visando a segurança de todos e também a preservação da trilha. O sol começou a castigar e minha camisa estava empapada de suor. Abri meu Gatorade, bebi a metade e segui em frente. Fazia breves paradas de não mais que um minuto e continuava a andar. O ar cada vez faltava mais e dar um novo passo era um esforço tremendo. Se eu que estava bem preparado fisicamente estava sentindo tanta dificuldade para subir em direção ao passo, fiquei imaginando meus amigos do grupo. Será que alguém iria desistir? A mochila parecia ficar cada vez mais pesada, mas em nenhum momento a tirei das costas. As tiras começaram a doer no ombro e preferi deixar como estavam, pois sabia por experiência que após um tempo o ombro fica adormecido e não se sente mais dor, então era melhor não tirar a mochila. Não sei precisar quanto tempo levei para subir esse trecho rumo ao passo, que é o mais difícil da Trilha Inca. Estava com relógio, mas a mente ficava meio atrapalhada e não consigo me lembrar quanto tempo levei caminhando nesse trecho. Fiz algumas paradas rápidas para tirar fotos e numa delas uma alemã que passava por mim pediu para tirar uma foto dela e depois ela tirou uma foto minha. Uns minutos depois ultrapassei essa alemã, que estava sentada na beira da trilha e pelo visto não sairia dali tão cedo. Sei que em certo momento olhei pra cima e consegui visualizar o alto do passo e vi algumas pessoas sentadas lá em cima. Essa visão me deu uma força extra e segui ainda com mais vontade de chegar. Parecia que eu ia conseguir chegar até lá em cima e venceria o maior desafio da Trilha Inca, algo que em alguns momentos cheguei a duvidar de que seria capaz de conseguir.

Quando pisei no alto do First Pass, me invadiu uma sensação que não é possível descrever, uma sensação de missão cumprida, de superação. Deixei minha mochila no chão e fui até a borda da montanha e fiquei olhando a paisagem. A beleza era grande, uma das cenas mais belas que vi na vida. Dali também dava pra ter uma visão ampla da Trilha Inca morro abaixo, o trecho por onde eu tinha passado. Dava pra ver dezenas de pessoas subindo aquele trecho, alguns perto do fim e muitos lá embaixo, a mais de uma hora de caminhada de onde eu estava. O sol e o calor que me torturaram na última hora desapareceram e uma nevoa tomou conta do lugar, a temperatura baixou muitos graus em poucos minutos. Vi um pouco acima um marco de madeira e fui até lá tirar fotos. No marco estava escrito a altitude de 4.215 metros, o ponto mais alto da Trilha Inca e também a altitude mais alta onde já cheguei com minhas próprias pernas. Um pouco mais acima visualizei uma pedra enorme. Resolvi subir nessa pedra, um último esforço para atingir o lugar mais alto do First Pass. Lá em cima encontrei centenas de pequenas pedras amontoadas umas sobre as outras. Entendi que ali deveria deixar uma das pedras que trazia no bolso e para a qual tinha contado todos meus dramas, meus problemas, meus sonhos. Esse tipo de amontoado de pedras é uma antiga tradição inca. Os incas costumavam fazer isso em lugares altos ao lado do caminho por onde passavam e acreditavam que quando deixavam folhas de coca mastigadas sobre esses pequenos amontoados de pedra, também deixavam ali o cansaço do caminho e outros males. Segurei firme uma das pedras que tirei do bolso, fiz uma oração e coloquei a pedra em cima de um dos muitos amontoados de pedras ao meu redor. Acreditei de coração no que pedi e no que estava fazendo. O resultado… só o tempo dirá! Fiquei mais algum tempo em cima da rocha olhando para baixo, vendo ás pessoas que chegavam ao alto do passo. Vi alguns conhecidos chegando e fiquei feliz por eles. Então resolvi gravar na máquina fotográfica uma mensagem que acabou se transformando num desabafo. Lembrei de tudo que passei no último ano, de todas as dificuldades, das dores, do sofrimentos. Lembrei da família, dos amigos, de todos que me ajudaram e me deram forças para me curar e estar naquele momento ali, no alto do passo. Lembrei também daqueles que pisaram em mim, me magoaram, me fizeram mal. Na verdade mais do que a força dos amigos, a força que me levou até ali foi o mal que os outros me fizeram. Canalizei tudo o que me fizeram de mal, todas minhas dores e transformei isso em combustível pra me levar até ali. Agora me sinto curado, me sinto bem, me sinto feliz e mais forte do que nunca. Algo aconteceu comigo no alto daquela pedra, não sei explicar ao certo, mas tenho certeza de que lá em cima deixei muitos sentimentos ruins, muita mágoa e muitas pessoas que me fizeram mal nos últimos meses. Posso afirmar que desci daquela rocha mais leve de espírito e livre do passado.

Fiquei meia hora no alto do passo tirando fotos, descansando e conversando com algumas pessoas que chegavam. Tinha um inglês do outro grupo que veio conosco, com quem conversei um pouco em inglês. Logo comecei a sentir uma dor estranha na cabeça como se ela estivesse sendo apertada por duas mãos. Então lembrei do que o guia falou sobre não ficar muito tempo lá em cima. Peguei minhas coisas e comecei a descer o First Pass pelo outro lado da montanha. A descida não tinha fim e logo descobri que descer era pior do que subir. Parte do preparo muscular que fiz para enfrentar a Trilha Inca foi visando subidas. Em nenhum momento me preparei para descidas. A maioria dos músculos das pernas que utilizamos pra subir são diferentes do que utilizamos para descer. Loco comecei a sentir fortes dores na parte da frente das coxas. Acredito que eu devia ser um dos poucos na trilha que estava infeliz com a descida. Eu preferia era subir mais e não descer. Outra dificuldade na descida é o peso da mochila nas costas, que te empurra pra baixo. Se não tomar cuidado você acaba caindo, podendo se machucar e dar adeus a trilha. Nessa hora o bastão ajudou ainda mais do que na subida. Ele servia como ponto de equilíbrio e logo eu estava conseguindo descer rápido sem o risco de cair. As dores nas coxas fui suportando. Após meia hora de descida o sol reapareceu e voltei a sentir muito calor. Fiz uma breve parada num local muito bonito, onde tirei o casaco, bebi bastante água e resolvi colocar na cabeça minha bandana com a bandeira do Brasil. Sendo o único brasileiro do meu grupo eu tinha que marcar isso de alguma forma. Continuei descendo a trilha que era toda de pedras, com centenas, milhares de degraus. Voltei a lembrar de tudo o que tinha passado recentemente, de meus problemas físicos e ás vezes não conseguia acreditar que estava ali realizando tal proeza de percorrer a lendária Trilha Inca. Comecei a ficar arrepiado e não demorou para eu chorar feito criança. Isso me fez bem, parece que eliminei de vez tudo o que ainda me incomodava. Coisas da Trilha Inca! Como eu disse em outra postagem, muitas pessoas que passam por esse lugar acabam tendo revelações, acabam se encontrando na vida. A Trilha Inca é meio mágica, mística, difícil de explicar. Para entender vá até lá e tire suas próprias conclusões.

Eu ainda tinha lágrimas escorrendo pelo rosto quando uma moça ao passar por mim perguntou se eu era brasileiro. Eu estava tão acostumado a ouvir e falar somente espanhol nos últimos dias que respondi a ela que sim, em espanhol. Ela era brasileira, do litoral de São Paulo e seu nome era Marceli. Era a primeira pessoa do Brasil que eu encontrava na Trilha Inca e fiquei feliz com tal encontro. Disfarcei para enxugar ás lagrimas que restavam em meu rosto e iniciamos uma gostosa e animada conversa. O papo estava tão bom que nem senti mais a dificuldade da meia hora final de trilha até chegar ao acampamento. Na entrada do acampamento, que era enorme, com as diversas equipes espalhadas pelo lugar, tiramos uma foto, nos despedimos e nunca mais nos vimos. Logo encontrei meu acampamento, que era um dos últimos morro abaixo. Eram quase 14h00mim e descobri que tinha sido o sexto a chegar no acampamento e que a caminhada daquele dia estava encerrada, que passaríamos a tarde e a noite ali. Eu achava que teríamos que caminhar mais naquele dia e fiquei extremamente feliz com a notícia. Escolhi uma barraca vazia, arrumei minhas coisas e tomei meu banho de gato. Em comemoração por ter superado o pior trecho da trilha, troquei toda a roupa. Dessa vez coloquei camisa, calça, cueca e meias limpas. Voltou a fazer calor e então tirei as pernas da calça, que virou uma bermuda. Por último troquei a bota pelo velho e confortável chinelo Havaianas. Fiquei deitado por cerca de uma hora descansando, quando então vieram me chamar para o almoço. A maior parte de nosso grupo já tinha chegado. Na barraca do almoço senti falta de minhas amigas Carolina, Roxana e do Diego, meu parceiro de barraca. O almoço foi arroz, frango e legumes. Com a fome que estava a comida desceu muito bem. Então se iniciou na barraca uma conversa sobre as posições que cada um tinha chegado ao acampamento. Eu chegar em sexto acabou sendo considerado um grande feito, ainda mais porque no dia anterior eu sempre era um dos últimos na triha. É que ninguém sabia que eu estava me poupando. E confesso que também fiquei surpreso em ser um dos primeiros a chegar. E olha que demorei mais do que a maioria parado no alto do passo. Sei que daquele momento em diante passei a ser mais respeitado por todos e não me chamaram mais de brasileiro. Passaram a me chamar de Vander. Nos dias seguintes até pessoas com quem eu não havia conversando ainda, me chamavam pelo nome. Naquela tarde algumas pessoas vieram me perguntar se eu tinha feito algum treinamento especial para percorrer a trilha. Outros vieram perguntar se eu tinha mesmo 40 anos, ou então se era verdade que eu tinha duas hérnias de disco. Isso foi algo interessante e me mostrou que a idade não está no RG, mas sim na mente. Posso ser um quarentão, mas de mente e de espírito ainda sou muito jovem e muitas aventuras mais virão pela frente.

O tempo mudou novamente, voltou a esfriar e fui para a barraca. Tentei dormir, mas não consegui, possivelmente em razão do chá e das folhas de coca que tinha consumido pela manhã. Então fiquei deitado descansando e pensando na vida. Aproveitei para examinar meus pés detalhadamente. Tenho as unhas dos dedões dos pés pretas, em razão de terem sido machucadas em caminhadas passadas. Para que esse problema não se agravasse na Trilha Inca, resolvi utilizar uma técnica que desenvolvi e que usei na última caminhada que fiz em dezembro, em Rosário do Ivaí. Coloquei algodão nos dedões e nos calcanhares, local onde sempre saem bolhas. E por cima do algodão enchi de micropóro. O resultado foi bom, pois não piorei o estado dos meus dedos e não ganhei nenhuma bolha em toda a Trilha Inca. Fazia quase duas horas e meia que eu tinha chegado, quando apareceu o Diego meu parceiro de barraca. Ele estava com uma cara de cansado e contou que na metade do caminho pagou para um porteador levar sua mochila. Esse estratagema é muito utilizado na trilha, o pessoal paga para alguém levar suas coisas. Depois chegam em suas casas contando aos amigos que percorreram a Trilha Inca, que são fodões, mas omitem essa questão da mochila ter sido carregada por outro. Para mim não importa o que os outros fazem ou deixam de fazer na trilha, o que importa é que carreguei minhas coisas o tempo todo. E não fui fazer a Trilha Inca para mostrar ou provar algo para alguém. Fui fazer a Trilha Inca porque eu queria, porque esse tipo de aventura me atraí e também porque eu precisava mostrar para mim mesmo que eu estava curado dos muitos problemas que tive em 2010, principalmente os físicos.

Meu agora amigo Diego pediu emprestado meus lencinhos umidecidos para se limpar. Cedi os lenços a ele de bom grado. Ao menos nessa noite nossa barraca ficaria mais cheirosa e agradável. Ficar a toa na barraca estava sendo chato e resolvi dar uma saída. O tempo fechou de vez, ventava e fazia frio. Andei pelo acampamento, tirei algumas fotos, mas não encontrei ninguém para conversar. Estavam quase todos dentro de suas barracas descansando e fugindo do frio. Ao lado do acampamento corria um rio de águas cristalinas e fui até lá renovar meu estoque de água. Utilizei as pílulas antibacteria para garantir água pura. Depois fiquei na barraca de refeições com alguns argentinos que jogavam baralho. Eles também jogam “truco”, igual no Brasil. Como não gosto e não sei jogar “truco”, fiquei apenas os observando e papeando. No final da tarde o tempo fechou de vez e começou a garoar. Nós estávamos no fundo de um vale, com montanhas por todo lado, um lugar muito bonito. Ao redor muitas nuvens e neblina. Ás 17h00 teve café, onde serviram uns bolinhos muito bons.

Descobri que existiam dois banheiros no acampamento, um mais acima e outro abaixo de onde foram montadas nossas barracas. O de baixo era mais próximo e quando escureceu se tornou uma aventura ir até o banheiro. Era escuro a beça, precisava levar lanterna e para chegar até ele precisávamos atravessar uma pequena ponte de madeira. A chuva começou forte e não parou mais, choveu a noite toda. Ás 19h00min teve janta, a comida estranha de sempre que não era ruim, mas também não era boa. Depois da janta serviram outros tipos de chá e não o de coca. Acho que queriam que o pessoal dormisse. Tomei um chá de aniz, de gosto duvidoso. Logo fui para a barraca e quando eram quase 20h00min me deitei. O chá de aniz somado ao esforço físico do dia e o barulho da chuva, deram um resultado magnífico. Dormi como um anjo até o dia seguinte. Só tive sonhos bons e nem me incomodei com os roncos do Diego.

Amanhecer no acampamento e trechos da trilha.

Trechos da subida até o First Pass.

Trilha fora da mata, porteadores e Lhamas pastando.

No alto do First Pass.

Amontoado de pedras onde deixei uma de minhas pedras.

No alto do First Pass o marco dos 4.215 metros.

Várias fotos no alto do passo (First Pass).

A Trilha Inca no trecho de descida após o First Pass.

Descendo pela Trilha Inca.

Uma das poucas paradas para descanso durante a descida do passo.

Com a brasileira Marceli; em frente a barraca e na hora do almoço.

De bobeira pelo acampamento do segundo dia de triha.

Trilha Inca (1º dia)

Após passar pelo posto de controle e atravessar a ponte sobre o rio Urubamba, finalmente iniciei a caminhada pela Trilha Inca. Parecia que todos no grupo estavam ansiosos para iniciar logo a trilha. Para mim era a realização de um antigo sonho, justamente após sofrer muito com duas hérnias de disco, ter sido ameaçado de ficar torto, manco e até mesmo ir parar em uma cadeira de rodas. Nada disso aconteceu, consegui me recuperar com fé, dedicação ao tratamento médico, muito esforço e força de vontade. Fisicamente estava bem preparado, tinha treinado muito nas semanas anteriores, algumas vezes até três horas por dia. Ao dar os primeiros passos na Trilha Inca senti uma sensação boa e confesso que até me dei um pequeno beliscão pra ver se não estava sonhando. O beliscão foi algo meio instintivo e ri quando me vi fazendo tal bobeira. Meu maior receio era de sentir dores, de travar a perna e não conseguir terminar a trilha. Preocupava-me o peso da mochila nas costas, não sabia como minhas hérnias de disco iriam reagir a tal peso. Mas independente de tudo, eu daria o meu melhor, ia me esforçar e tentar provar a mim mesmo que estava curado de todos meus males. Pretendia percorrer toda a Trilha Inca e chegar em Machu Picchu, onde deixaria para trás todos os meus problemas, as coisas ruins e as pessoas que me fizeram ficar  mal. Para muitas pessoas a Trilha Inca e principalmente Machu Picchu tem um forte valor espiritual, algo  místico. Já li e ouvi relatos de pessoas que tiveram nesses locais experiências diversas, que encontraram ao percorrer a Trilha Inca a verdadeira razão de suas vidas, saíram dali mudadas, deram novos rumos ás suas vidas. Eu não sou nada místico, apenas sou uma pessoa que acredita muito em Deus e tem muita fé. E sou muito cético em relação ás coisas, por isso não sabia o que podia acontecer comigo após percorrer a Trilha Inca. Mas por via das dúvidas fiz algo que me ensinaram, peguei duas pedras e coloquei no bolso. Durante os dias na trilha fui conversando com essas pedras, contando a elas sobre minha vida, meus problemas, meus medos, meus sonhos e tudo o que gostaria de mudar em minha vida, ás coisas e pessoas que gostaria de afastar de vez de minha vida, tudo o que eu queria deixar para trás após sair da Trilha Inca. Deixaria uma dessas pedras pelo caminho e a outra em Machu Picchu.

O primeiro trecho da Trilha Inca foi difícil, era uma subida e como ainda não estávamos adaptados a caminhar na altitude com o ar rarefeito, foi meio cansativo esse início. Para compensar o cansaço tínhamos a paisagem, que para todos os lados que olhávamos era maravilhosa. Seguimos costeando uma montanha e abaixo de nós seguia o rio Urubamba. Do outro lado do rio mais montanhas e um vale que seguia junto ao rio, tudo muito bonito. No início estranhei ás muitas paradas para descanso, mas logo entendi que o motivo era para o pessoal não se cansar muito, ir se adaptando aos poucos. Comecei caminhando sozinho e depois de pedir para uma argentina tirar uma foto minha, iniciamos uma animada conversa e caminhamos um bom tempo juntos. O nome da argentina era Carolina e acabamos nos tornando bons amigos nos dias seguintes. Meu espanhol estava meio enferrujado, mas foi possível conversar sobre diversos assuntos, ela falando em espanhol e eu misturando espanhol com portunhol. Para quem fala espanhol é um pouco difícil entender o português. Já pra nós brasileiros é mais fácil entender o espanhol e falando em portunhol acabamos nos fazendo entender melhor. Nos dias seguintes alguns argentinos elogiaram meu espanhol. Fiquei na dúvida se estavam sendo sinceros ou caçoando de mim. Como eu era o único que falava português no grupo, tive que me virar no espanhol e a prática acabou ajudando e logo estava me expressando bem em espanhol, me fazendo entender pelos demais.

Com minha amiga Carolina caminhei boa parte da tarde e em alguns trechos a esperei, pois ela se cansava facilmente, ficava com falta de ar. Eu não queria forçar muito meu ritmo nesse primeiro dia, queria me poupar para o dia seguinte, que seria o mais difícil de todos. A trilha sempre subia e em alguns trechos era plana. No início víamos algumas casas simples ao lado da trilha e por nós passava vez ou outra algum morador. Comentei com a Carolina sobre ás crianças que vimos pelo caminho, que possivelmente passariam a vida toda naquele lugar, nem sabiam muito sobre o mundo, sobre nossa maneira de viver, nossos valores. Então chegamos á conclusão que não devíamos sentir pena delas por isso, pois possivelmente seriam mais felizes do que nós, não conhecendo muitas das coisas ruins que conhecemos, como violência, estresse, depressão, trânsito ruim e outros males das grandes cidades onde vivemos. Aquelas crianças iam crescer e viver num lugar bonito, com ar puro, no meio da natureza, sem muitas das comodidades que a vida moderna nos oferece, mas também sem muitos dos problemas que essa mesma vida moderna nos trás.

No meio da tarde fizemos uma parada mais longa, para o almoço. Eu que sou chato para comida, estava meio temeroso com relação ao que iria encontrar pela frente nas refeições. E fui preparado para o pior. Seguiria a risca o conselho que me foi dado de não visitar nunca a barraca onde eram feitas as refeições. A mesa do almoço foi montada dentro de uma barraca grande e todos os 29 membros do grupo se espremeram dentro dela, sentados em pequenos bancos. Eu preferi ficar numa das pontas. Primeiro foi servida uma sopa de repolho. Os guias traziam os pratos da cozinha e entregavam para quem estava numa das pontas da mesa e esse passava o prato para quem estava ao seu lado, que passava para o outro ao seu lado e assim sucessivamente até chegar ao último da mesa. Logo percebi que tal sistema era prático, mas não muito higiênico, pois muita gente pegava na borda do prato com ás mãos sujas e fatalmente alguma, ou várias bactérias iam parar no alimento. Mas como quem está na chuva é pra se molhar, o jeito era não se preocupar muito com ás coisas e aprender a conviver com ás mínimas condições de conforto e higiene. Se eu quisesse conforto e higiene total, não estaria ali, mas sim em algum outro lugar que me oferecesse tais coisas. Então o jeito era abstrair e levar tudo numa boa. Até  me lembrei dos tempos de Exército e das comidas ruins e estragadas que tantas vezes comi. E não morri por isso, até saí de lá mais forte  e gordinho. A sopa de repolho não era lá muito saborosa, mas deu pra engolir. Depois veio o prato principal, macarrão, fiapos de omelete e batata. A quantidade de comida nos pratos não era muita, mas ninguém reclamou. Achei que um dos motivos era porque comer muito em alta altitude dificulta a digestão e causa mal estar. Depois um dos guias falou que era esse mesmo o motivo de a comida não ser tão farta. De qualquer forma acho que ninguém passou fome. Na mesa era comum um doar aos que comiam mais, parte da comida que não gostavam ou que não conseguiam comer. Após o almoço foi servido chá de coca bem quente, pra ajudar na digestão e para dar uma força extra para o pessoal. O chá de coca não vicia, não é alucinógeno e não faz mal. Ele apenas ajuda a combater o mal estar causado pelo ar rarefeito. O sabor do chá não agradava muito meu paladar, mas mesmo assim eu tomava sempre e sem açúcar. Também foram distribuídas folhas de coca e guardei algumas no bolso para mascar em momentos que me sentisse muito cansado. A folha de coca, a exemplo do chá também não vicia ou tem efeito alucinógeno. Ela ajuda no combate ao mal estar e da uma força extra. Tanto a folha de coca quanto o chá, são consumidos naquela região a centenas de anos e não causam mal algum.

Após o almoço tivemos uma hora de descanso e então voltamos a caminhar pela trilha. Antes de nós partiram os “porteadores”, carregadores que levam nas costas os equipamentos para acampamento e a comida a ser consumida nos três dias de trilha. Pela lei não podem carregar mais de 25 kg cada um, mas mesmo assim o peso que levam requer muito esforço numa altitude tão alta. De qualquer forma é assim que ganham a vida e sustentam suas famílias. Continuei caminhando ao lado da Carolina e muitas vezes parei para tirar fotos da bela paisagem. Teve um trecho curto de subida que foi muito difícil e o ar faltou muitas vezes. O guia falou que aquele trecho era apenas uma pequena amostra do que nos esperava no dia seguinte. Fizemos mais algumas paradas rápidas para descanso e após chegarmos a um local plano no alto de uma montanha, um dos guias falou que teríamos uma surpresa. Dividiram o grupo em dois e cada pequeno grupo seguiu um dos guias. Meu grupo foi até um canto da montanha e lá do alto avistamos embaixo no vale uma antiga vila inca, chamada Llactapata. Essa vila inca com terraços cultiváveis, era um local para cerimoniais e por volta de 1536 foi queimada pelos incas, para evitar que fosse tomada pelos espanhóis. A vista da vila era maravilhosa e sentamos para ouvir o guia Juan Carlos, contar a história do lugar. Eu não consegui ficar sentado muito tempo e ao mesmo tempo que ouvia suas explicações, aproveitava para tirar fotos e caminhar por perto do grupo. Após uma hora prosseguimos em nossa caminhada e passamos ao lado de um antigo forte inca, mas não pudemos parar para visitá-lo. Após tantas subidas, finalmente começamos a descer um pouco. Seguimos em direção a um vale cercado de montanhas por ambos os lados e ao lado da trilha tinha um rio de águas cristalinas. Caminhamos até o final da tarde e pouco antes de escurecer chegamos a Wayllabamba, a última comunidade existente na Trilha Inca e onde já estava armado nosso acampamento. Esse local ficava no fundo de um vale a 3.000 metros de altitude.

Na hora de dividir o grupo nas barracas, os dois casais ficaram sozinhos em barracas e o restante do pessoal deveria ficar três em cada barraca. Daí um argentino (Diego) me perguntou se eu gostaria de dividir uma barraca com ele. Falei que sim e por sermos os dois “grandes” o guia autorizou que ficássemos somente em dois numa barraca. Arrumei minhas coisas no lado direito da barraca e fui tomar meu banho de gato. Molhei uma pequena toalha, passei pelo corpo e depois fiz o mesmo com lencinhos umedecidos e perfumados. Coloquei uma camiseta limpa e me senti revigorado, limpinho e cheiroso. As meias, a calça e a cueca permaneceram sendo ás mesmas. Já meu companheiro de barraca apenas trocou a camiseta e o cheiro de suor e chulé vindos do lado dele da barraca não eram nada agradáveis. Arrumei meu saco de dormir, enchi meu travesseiro inflável e tive a grande idéia do dia; coloquei o casaco que comprei no dia anterior em Cuzco e que era grosso e macio, debaixo do saco de dormir na região onde ficaria minhas costas. Testei minha “cama” e aprovei o uso do casaco como colchão por baixo do saco de dormir, pois ficou muito macio. Senti muita falta do colchão de ar que costumo usar para dormir quando vou acampar ou fazer caminhadas. Ele pesa dois quilos e meio quando está vazio, o que tornou inviável levá-lo para a Trilha Inca. Descansei um pouco, comi uns chocolates e fui jantar. O esquema era o mesmo do almoço e de entrada foi servida uma sopa de legumes, com poucos legumes e muita água. Depois teve o prato principal que consistia de arroz, legumes e truta. Não como peixe e doei meu pedaço de truta a um argentino (Jesus)  que estava sentado ao meu lado. Nos dias seguintes acabamos ficando bons amigos. Após a janta teve de sobremesa um negócio vermelho feito com milho, que parecia gelatina mole, mas que estava gostoso. Por último foi servido um chá diferente cujo nome não lembro. A temperatura baixou bastante e antes das nove todos se recolheram para suas barracas. Lembrei que era noite de lua cheia e resolvi esperar um pouco pra ver a lua surgir por cima das montanhas. A espera valeu a pena e pouco após ás nove horas a lua deu ás caras. Ela estava muito brilhante e clareou todo o vale onde estávamos e deixou melhor definido o perfil das montanhas em volta. Foi uma das noites de lua cheia mais bonitas que vi na vida. Fui o único que ficou no frio presenciando tal espetáculo da natureza, ninguém mais viu. Pena que é impossível captar tamanha beleza através de uma fotografia ou gravação. Foi o tipo de experiência que ficará gravada na memória para sempre. Pouco antes das dez entrei na barraca e a temperatura despencava. Diego roncava alto no seu lado da barraca. Entrei no saco de dormir e fiquei um tempo pensando na vida, depois adormeci. Acordei três vezes durante a noite, por culpa da inclinação do local onde a barraca foi armada. Durante o sono eu ia escorregando aos poucos e tinha que vez ou outra levantar e puxar o saco de dormir de volta para a parte mais alta da barraca. Fora esse imprevisto a noite foi muito boa, dormi bem e até sonhei. E melhor não contar o sonho aqui… rs!!! 

Ps1: antes de iniciarmos a trilha foi feita uma apresentação, onde falamos nossos nomes e idades. Eu, com 40 anos era o mais velho do grupo. A maioria do pessoal estava na faixa etária entre 20 e 28 anos. 

Ps2: durante todo o primeiro dia de trilha me chamaram de “brasileiro”. A única exceção foi minha amiga Carolina que me chamava de Vander ou Vanderlei e também sua amiga Roxana, que me chamava de Vander ou Bander. Um dos guias me chamava de “Brasil”.

Iníco da trilha e ponte sobre o rio Urubamba.

Primeiros passos pela Trilha Inca e parada para descanso.

Após muita subida um pouco de terreno plano.

Llactapata

O guia Juan Carlos contando a história de Llactapata.

Curtindo a vista no meio das montanhas.

Parte final do primeiro dia de Trilha Inca.

Hora da janta.

Trilha Inca

Trilha Inca, ou Caminhos Inca é o nome que se dá ao extenso sistema de caminhos construído durante o Império Inca. Todos os caminhos da América do Sul direcionavam a Cuzco, a principal metrópole sul-americana do período pré-colombiano, legado de uma antiga tradição cultural. Foi usado pelos conquistadores espanhóis para dirigir-se a Bolívia, Chile e as cordilheiras argentinas. Esta rede de estradas se estendia do centro do Equador até a região central do Chile, ao sul, e da costa do oceano Pacífico até as encostas orientais dos Andes. O percurso deste trecho famoso que é conhecido como Trilha Inca e começa no km 82 da ferrovia Cuzco/Quillabamba, atravessa as montanhas acima da margem esquerda do rio Urubamba e chega até Machu Picchu depois de 4 dias de caminhada. São cerca de 42km de extensão e a altitude máxima é de 4215 metros.

Durante o primeiro dia de caminhada o terrenos é liso, sem pedras (calçamento), mas sobe continuamente. Alguns consideram esse como o dia mais difícil de todo a Trilha Inca, pois apesar de ainda não se chegar às grandes alturas o organismo ainda não está bem adaptado e sofre-se muito com os efeitos da altitude também conhecido como “soroche” ou “mal da montanha”. No segundo dia de caminhada a trilha fica cada vez mais íngreme e o terreno cada vez mais irregular. A trilha eleva-se abruptamente em direção à primeira passagem, Warmiwañuska (passagem da mulher morta) a 4.200 metros acima do nível do mar. Geralmente venta bastante neste local e o frio é intenso devido à altitude elevada. É um momento para sentar, descansar e admirar as lindas paisagens, mesmo que o tempo esteja nublado. De Warmiwañuska a trilha é marcada por grandes descidas e algumas pequenas subidas. Muitos trechos possuem calçamento original inca. Ao longo deste percurso existem os sítios arqueológicos de Runkuraqay, Sayacmarka, Puyupatamarka e Wynaywayña.

Os nomes da maioria dos lugares ao longo da trilha são originários da língua Quéchua e foram adaptados pelo do norte-americano Hiran Bingham em sua expedição de 1915. Runkuraqay (pilha de ruínas) está a 3.850 metros de altitude. Por causa de sua posição e da disposição de seus compartimentos, acredita-se que o edifício tenha sido um tambo, um tipo de posto para os viajantes que seguiam a trilha até Machu Picchu. Tinha áreas com dormitórios para os viajantes e instalações de estábulo para seus animais domesticados. As paredes desta construção são do tipo “pirka”.  Sayacmarka foi explorada pela segunda expedição de Bingham em 1915, que lhe deu o nome de Cedrobamba (planície de cedros). Em 1941 uma expedição liderada por Paul Fejos explorou novamente o lugar e rebatizou-a como Sayaqmarka, considerando sua localização geográfica que domina visualmente todo o vale do rio Aobamba. Dentro da cidadela existem diversas construções feitas com certa complexidade por terem sido adaptadas à forma da montanha, incluindo-se um aqueduto de pedra que uma vez levou água para o local. As paredes são sólidas e a forma da fortaleza pode ser vista facilmente de longe.

Puyupatamarka (lugar sobre as nuvens) está a 3.680 metros de altitude. Assim como os outros, este grupo arqueológico também foi descoberto por Bingham em 1915, mas foi Paul Fejos quem em 1941 o rebatizou com o nome de “Puyupatamarka” em razão de que este lugar, quase sempre, se acha por sobre a neblina e as nuvens que se formam nos vales ao redor. Estas ruínas estão numa área de onde visualmente é possível controlar um amplo território e possivelmente foi um importante núcleo administrativo e religioso. Destaca-se neste conjunto uma plataforma de forma quase ovalar e uma série de estruturas retangulares alinhadas ao longo de um dos lados com canais por onde ainda escorre a água a partir do nível mais alto. Alguns acreditam que essas estruturas eram banhos com alguma função ritual. Wynaywayña foi revelada por Paul Fejos em 1941. Posteriormente, em 1942, o arqueólogo peruano Julio C. Tello rebatizou o lugar com o nome de Wiñaywayna (jovem para sempre) que também é o nome quéchua de uma espécie de orquídea, muito comum nas redondezas. Neste grupo arqueológico se encontram diversas construções bem trabalhadas, entre elas se destaca uma na parte superior conhecida como “torre” construída parcialmente com pedras trabalhadas; uma sucessão de 10 fontes rituais do lado direito que são clássicas em todos os povoados importantes e também o setor agrícola com grande quantidade de terraços artificiais. Mais abaixo estão outras construções na borda do precipício, com paredes do tipo “pirka”, de onde se tem uma vista maravilhosa da parte inferior das montanhas. Em direção ao noroeste chega-se até “Intipata” (lugar do sol) consistindo essencialmente de terraços artificiais para uso agrícola.

A etapa final da Trilha Inca a partir de Wiñaywayna é através de um impressionante caminho talhado com maestria na montanha, em cujo lado direito está um profundo precipício. É uma caminhada fácil, seguindo pela trilha larga e por entre um bosque bem arejado. Depois de mais ou menos uma hora, a trilha se estreita em degraus que conduzem acima até uma pequena estrutura de pedra com um chão de grama de alguns metros quadrados. Este é Intipunku (porta do sol) situado à 2.650 metros de altitude. Possivelmente foi uma espécie de alfândega para controlar a entrada de quem chegava à eterna cidade. De Intipunku se tem a fantástica visão panorâmica de Machu Picchu. Pela conjunção destas intrigantes ruínas com as espetaculares paisagens que oferece aos viajantes durante os dias de caminhada a Trilha Inca é uma das rotas de trekking mais famosas do mundo. Percorrer a Trilha Inca é reviver o modo como os incas faziam para chegar a Machu Picchu. Devido à altitude e ao esforço requerido nos dois primeiros dias de caminhada é um momento de superação e um desafio pessoal.

Mapa da Trilha Inca.

Trecho da Trilha Inca no primeiro dia.

Trilha com calçamento, no segundo dia.

Trecho da trilha percorrido no terceiro dia.

Trecho da trilha no final do terceiro dia.

Ollantaytambo

Minha primeira noite em Cuzco não foi das melhores no quesito sono. Dormi muito mal, acordei várias vezes com falta de ar, tive sonhos ruins. Sei que levantei ás seis da manhã no maior bagaço e pra piorar ás três noites seguintes seriam no meio das montanhas, dormindo em barraca. Se no conforto da cama do hotel dormi mal, fiquei preocupado em como seriam as noites seguintes. Caindo de sono terminei de arrumar minhas coisas, fui até a portaria do hotel e deixei uma mochila para ser guardada no depósito. É meio que praxe todos os hotéis e hostels terem um depósito para que os hóspedes deixem algo guardado enquanto vão fazer alguma trilha ou então seguem para Machu Picchu. Não me cobraram nada pelo serviço de guardar a mochila, talvez em razão de eu ter feito uma nova reserva para quando voltasse da Trilha Inca. Eu ainda sentia enjôo, falta de ar e tonturas, então tomei uma pílula para altitude, que tinha comprado no dia anterior, tomei uma xícara de chá de coca e masquei algumas folhas de coca. No hotel tinha uma mesinha num canto com chá de coca para os hóspedes e também uma cestinha com folhas de coca. O sabor da folha de coca não é dos melhores, a boca fica meio adormecida. Sei que pouco tempo depois eu já me sentia melhor, acredito que a combinação  pílula + chá de coca +  folha de coca, fez um efeito mais imediato. 

Fiquei quase uma hora na calçada em frente ao hotel esperando que alguém da agencia de turismo fosse me buscar. Nesse tempo pelo menos uns cinqüenta taxis passaram na rua em frente e buzinaram para mim. Parece que na cidade existem mais taxis do que carros de passeio e os motoristas têm o péssimo hábito de buzinar para todos os estrangeiros que eles vêm na rua, na esperança de que algum resolva seguir no seu taxi. Sei que é algo irritante, ás vezes passavam três taxis juntos e os três buzinavam. Finalmente apareceu alguém da agencia, era a Glória, uma peruana que seria uma das guias na Trilha Inca. Fui com a Glória até um ônibus estacionado perto do hotel. Eu fui o último a embarcar e ali mesmo se iniciou uma chamada para conferir se não faltava ninguém. Os hispanos não conseguem pronunciar meu nome corretamente, isso acontecia muito no tempo em que eu vivi nos Estados Unidos. Eles não conseguem pronunciar o “V”, que pra eles tem o som de “B”. Então meu nome que é “José Vanderlei”, acaba sendo pronunciado como “Rosé Banderlei”, o que para mim é algo horrível. Felizmente nos dias seguintes todos passaram a me chamar de Vanderlei ou de Vander, mesmo que errando na pronúncia, mas isso é bem melhor do que o “Rosé”.  Após umas três ou quatro chamadas, finalmente resolveram pegar a estrada. Fiquei no fundo do busão e  próximo a mim iam dois caras com cara de estrangeiros, que depois vim a descobrir serem da Inglaterra e do Canadá. Logo na saída da cidade percebi que a periferia é muito pobre, com casas construídas nos morros. Desde março de 2010 quando a região sofreu com ás chuvas, no que foi chamada de enchente do século, parte dos trilhos do trem que iam de Cuzco até Aguas Calientes (pequena cidade aos pés de Machu Picchu) foram destruídos e por essa razão parte do trajeto tem que ser feito de ônibus. Na estrada fiquei assustado com a velocidade que o motorista conduzia o ônibus, tirando fina de outros veículos. Como estava com sono resolvi encostar minha cabeça na janela e logo adormeci. Fui acordar quase duas horas depois, quando chegamos ao pequeno vilarejo de Ollantaytambo, no km 68. Os guias avisaram que ali seria o último lugar onde poderíamos comprar por preços justos equipamentos que faltassem, água e algum tipo de comida. 

O vilarejo é muito interessante, com uma enorme praça central, algumas lojas e pequenos prédios em volta. Ao lado do vilarejo dá pra ver montanhas muito altas e bonitas e também algumas ruínas de construções incas. O que mais me chamou atenção foi que numa das calçadas existe um tipo de caneleta por onde corre água que vem das montanhas. A água é limpa e gelada. Andei pelas proximidade e vi que essa canaleta na calçada também passa bem na porta de algumas casas. Aproveitei para usar o banheiro de um mercadinho e esse foi o último banheiro descente que usei em quatro dias. Logo voltamos para o ônibus e pegamos a estrada novamente. Fomos através de uma estradinha ruim que seguia por um vale e passava bem perto dos trilhos do trem. Seguimos até o km 82, onde paramos e desembarcamos junto com nossas mochilas. 

No meu grupo eram 59 pessoas, que foram subdivididas em dois grupos. Fui parar num grupo de 29 pessoas. Eu, dois colombianos e 26 argentinos. Por sorte sempre me dei bem com argentinos e principalmente com argentinas. No outro grupo cujo guia falava inglês, ficaram alguns canadenses, ingleses, australianos e… argentinos. No início não entendi o porquê de tantos argentinos, mas depois conversando com alguns, vim descobrir que em razão da moeda deles estar muito desvalorizada, eles procuram destinos turísticos onde o valor da moeda não seja dos piores, como é o caso da Bolívia e do Peru. Em vez de irem em peso ao Brasil como faziam antes, agora é mais barato ir pra mais longe, pois no Brasil a moeda deles vale somente a metade, enquanto no Peru tem quase o mesmo valor que a moeda local. 

Após acertamos os últimos detalhes e verificarmos nosso equipamento, fomos em direção ao posto de controle da trilha. No caminho paramos em frente a uma placa que indica o início da Trilha Inca, e onde tradicionalmente todos os grupos que por lá passam, tiram uma foto em frente. Com nosso grupo não foi diferente e após várias fotos seguimos até o posto de controle. Eu era o último da fila, na minha frente tinha um argentino com a cara do Che Guevara quando mais moço e ainda por cima ele usava um boné igual o utilizado pelos revolucionários de Fidel Castro e de Che Guevara,  na Revolução Cubana, inclusive com uma bandeira cubana pregada na lateral. Sei que nos dias seguintes todos passaram a chamar esse argentino pelo nome Che. Passei pelo posto de controle sem nenhum problema e ganhei uma carimbo em meu passaporte. A sensação era de estar entrando em um outro país, devido ao tipo de controle feito para entrar no “Santuário Histórico de Machu Picchu”. Ali iniciava a aventura, era o começo do sonho…

Ollantaytambo

A calçada com a canaleta de água e alguns moradores locais.

Caminhando pelas calçadas de Ollantaytambo.

Ruas de Ollantaytambo e ruínas incas nas montanhas próximas.

A tradicional foto em frente a placa no início da Trilha Inca.