Se alguém me dissesse alguns anos atrás que um carro sem motorista me pegaria na porta de um hotel e me levaria até o destino com a maior naturalidade do mundo, eu provavelmente diria para manerar na ficção científica. Mas o futuro tem essa peculiaridade: ele não avança aos gritos; ele simplesmente chega, estaciona na sua frente e destrava as portas pelo aplicativo.

Em Orlando — uma cidade associada a grandes parques temáticos e ao movimento constante de turistas —, a verdadeira atração tecnológica da temporada não tem montanha-russa. Está rodando direto no asfalto. Trata-se da frota de veículos 100% autônomos da Waymo (a divisão de tecnologia de navegação autônoma da Alphabet/Google), que opera comercialmente pela cidade oferecendo corridas abertas ao público.

O processo para chamar um carro autônomo é quase idêntico ao de pedir um aplicativo convencional. Você baixa o app da Waymo, seleciona o ponto de partida e o destino. Quando o veículo se aproxima — geralmente um Jaguar I-PACE elétrico munido de uma cúpula superior repleta de sensores, LiDARs e câmeras —, ele exibe duas letras personalizadas no teto para garantir que você está entrando no carro certo.

A grande diferença, claro, fica no assento do motorista: ele está completamente vazio.

Ao embarcar e afivelar o cinto, basta tocar na tela interna do veículo para iniciar a viagem. O volante começa a girar sozinho, fazendo conversões, dando preferência a pedestres e reagindo ao tráfego denso com uma precisão cirúrgica.

Assistir a essa tecnologia em funcionamento gera uma sensação dupla. Por um lado, há a admiração inevitável pela capacidade computacional de processar milhares de variáveis por segundo. O carro não se desconcentra com o celular, não perde a paciência no trânsito nem toma decisões impulsivas. A condução é extremamente suave e cautelosa.

Por outro lado, fica a reflexão sobre como o trânsito é uma das atividades mais humanas que existem. O ato de dirigir envolve constante leitura de contexto, sinalizações informais entre motoristas e uma boa dose de intuição. Ver um algoritmo traduzir tudo isso em código e trafegar com segurança por vias movimentadas mostra que a mobilidade urbana está entrando definitivo em uma nova era.

Com a expansão da tecnologia autônoma em diversas metrópoles americanas, cidades como Orlando se tornaram verdadeiros laboratórios a céu aberto. A promessa de redução de acidentes causados por falha humana, aliada à frota elétrica e silenciosa, sinaliza mudanças profundas no planejamento urbano e no próprio conceito de propriedade de automóveis nos próximos anos.

A tecnologia da Waymo em Orlando deixa de ser um “protótipo de laboratório” para virar rotina. E, no fim das contas, encarar o volante girando sozinho deixa de parecer feitiçaria no segundo em que você percebe que está apenas fazendo um trajeto normal de um ponto A a um ponto B.

Orlando entrou para o seleto grupo de metrópoles globais — ao lado de pioneiras como Phoenix, São Francisco e Los Angeles — a receber os veículos 100% autônomos abertos ao público em geral.

Quanto ao bolso, andar em um carro autônomo segue a mesma lógica dos aplicativos tradicionais: o valor varia conforme a distância, o tempo e a demanda do momento. Uma corrida rápida de 15 minutos pela região da International Drive costuma girar em torno de US$ 10 a US$ 15. A tarifa base é bastante comparável à do UberX, mas com uma vantagem bem-vinda no custo final: como não há motorista ao volante, elimina-se a gorjeta (tip), aquele acréscimo de 15% a 20% habitual nos Estados Unidos. No fim das contas, a experiência de rodar no futuro acaba custando praticamente o mesmo que um trajeto comum no presente.

Foi muito estranho estar andando pela cidade e, de repente, ver um desses carros na minha frente no trânsito ou ao meu lado. Ou até mesmo estar caminhando pela calçada, atravessar a faixa de pedestres e ver um carro desses passar sem motorista, sem passageiro e com o volante girando sozinho. Parecia cena daqueles filmes de terror que eu assistia no passado. Sinceramente, nunca imaginei que viveria para ver uma tecnologia como essa funcionando bem diante dos meus olhos.

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