Dias atrás, li um texto na internet falando sobre o “Deus de Espinosa”. Achei a reflexão interessante, mas fiquei na dúvida se era real ou não. Fui pesquisar e vi que essa visão realmente existe — é de um filósofo do passado chamado Baruch Espinosa — e que ficou mundialmente famosa quando Einstein falou sobre ela.

Todo mundo achava que Einstein era ateu, por ser um dos físicos mais brilhantes da história, mas ele explicou que acreditava em um Deus muito parecido com o de Espinosa.

Pesquisando mais a fundo, descobri que aquele texto específico que circula na internet é apócrifo: alguém fez uma versão adaptada e moderna, que não está no texto original. Ainda assim, não deixa de ser uma visão fascinante.

Ela vai muito ao encontro do que penso sobre Deus. Não acredito nesse “Deus de igreja” que a gente, desde criança, é meio que obrigado a aceitar. Fiz catequese e crisma — quase sempre contra a minha vontade —, frequentei a igreja protestante por muitos anos e depois ainda trabalhei bastante tempo ao lado dos padres jesuítas. Foi convivendo tão de perto com a estrutura religiosa que eu quase perdi a fé, parei de ir na igreja.

Deus é um tema complexo e cada um tem a sua visão. Respeito a de todo mundo, tenho a minha e acho que a verdade só vamos saber mesmo no dia em que partirmos. Também me incomoda um pouco esse clichê do “morreu, agora está lá sentado ao lado de Deus”. Quem lê a Bíblia sabe que existem visões bem diferentes sobre o que acontece depois da morte. Mas cada um se apega ao que lhe traz conforto, paz e fé, e isso é legítimo.

Como costumo usar este espaço para compartilhar minhas opiniões, quis deixar registrada a minha visão sobre esse assunto. Acredito, sim, em uma força ou ser superior. Sou prova viva disso: sou fruto de um milagre e já vivi coisas na minha vida que, se alguém me contasse, eu não acreditaria. Mas aconteceram comigo. Foram alguns milagres…

Não sei se esse ser controla cada detalhe ou se apenas exerce uma força sobre nós, mas sei que essa presença existe — bem distante das regras e dogmas das instituições humanas.

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“Deus de Espinosa”

A declaração mais famosa sobre o tema ocorreu em 1929, quando o rabino Herbert S. Goldstein enviou a Einstein um telegrama perguntando diretamente: “Você acredita em Deus?”. Einstein respondeu:

“Acredito no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia de tudo o que existe, e não num Deus que se ocupa do destino e das ações dos seres humanos.”

O texto frequentemente compartilhado na internet como um “poema” ou “sermão” de Espinosa (que começa com “Pare de ficar rezando e me dando golpes no peito…”) é, na verdade, apócrifo. Ele não foi escrito por Baruch Espinosa, mas sim criado modernamente para resumir a visão do filósofo de forma acessível.

A visão real de Espinosa sobre Deus está registrada em sua obra principal, “Ética” (Ethica Ordine Geometrico Demonstrata, publicada em 1677), escrita na forma de teoremas e proposições geométricas.

Abaixo estão os trechos autênticos mais célebres em que Espinosa define sua concepção de Deus, seguidos do famoso texto apócrifo para comparação.

Os trechos autênticos de Espinosa (Ética)

Na Ética, Espinosa introduz o Conceito Central de que Deus e a Natureza são a mesma realidade infinita:

1. A Definição de Deus (Parte I, Definição 6)

“Por Deus entendo um ser absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste em infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita.”

2. A Unidade da Substância (Parte I, Proposição 14)

“Não pode existir nem ser concebida nenhuma outra substância a não ser Deus.”

3. Tudo existe em Deus (Parte I, Proposição 15)

“Tudo o que existe, existe em Deus, e nada pode existir nem ser concebido sem Deus.”

4. A famosa fórmula Deus sive Natura (Parte IV, Prefácio)

“Aquele ser eterno e infinito a que chamamos Deus ou Natureza age pela mesma necessidade com que existe.”

O famoso texto popular (Apócrifo / Atribuído a Espinosa)

A versão poética que circula amplamente nas redes sociais reflete a ideia do “Deus de Espinosa”, mas com linguagem contemporânea:

“Para de rezar e de bater no peito. O que quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes da tua vida. Quero que gozes, que cantes, que te divirtas e que aprecies tudo o que fiz para ti.

Para de ir a esses templos sombrios, escuros e frios que tu mesmo construíste e dizes que são a minha casa. A minha casa está nas montanhas, nas florestas, nos rios, nos lagos, nas praias. É ali onde vivo e exprimo o meu amor por ti.

Para de me culpar pela tua vida miserável; eu nunca te disse que havia algo de errado em ti, ou que eras um pecador, ou que a tua sexualidade era algo mau. O sexo é um presente que te dei e com o qual podes expressar o teu amor, o teu êxtase, a tua alegria. Por isso, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Para de ler supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não me consegues ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar dos teus amigos, nos olhos do teu filho, não me encontrarás em livro nenhum!

Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se eu te criei, fui eu que te dei as tuas paixões, as tuas limitações, as tuas necessidades, as tuas virtudes. Como posso culpar-te por seres como és, se fui eu quem te fez? Como posso castigar-te por seres o que és, se sou eu quem te governa?

Respeita os teus semelhantes e não faças aos outros o que não queres para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida, que o teu estado de alerta seja o teu guia.

Esta vida não é um teste, nem um degrau, nem um passo na estrada, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é a única que existe aqui e agora, e é a única de que precisas.

Eu te fiz inteiramente livre, não há prêmios nem castigos, não há pecados nem virtudes, ninguém leva um placar, ninguém leva um registro. És inteiramente livre para criar na tua vida um céu ou um inferno.”

“Ou seja, de certa forma, para Espinosa, Deus é a própria Natureza. Se olharmos por esse ângulo, ao destruir e poluir a Natureza, estamos matando o próprio Deus — e, com isso, decretando o nosso próprio fim. A cada dia tiramos tudo o que a Terra tem a oferecer, esquecendo que isso acabará com a humanidade. Pelo menos é assim que eu vejo.

Desde muito novo, sempre fui apaixonado pela natureza — quem me conhece de verdade sabe disso. Enquanto muitos preferiam festas e praias lotadas no final do ano, eu pegava a minha barraquinha e me isolava na serra, no meio do mato. Passava os dias caminhando por rios, tomando banho de cachoeira, fazendo trilhas e subindo montanhas. Sempre que alcançava o cume, sentia uma conexão profunda, como se estivesse mais perto de Deus. É algo completamente diferente de estar a 10.000 metros de altitude dentro de um avião. A sensação de chegar ao topo com o próprio esforço, com a força das próprias pernas, é única. Ali no cume, eu parava, meditava e me sentia, verdadeiramente, mais perto do Sagrado.”

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