Já faz alguns anos que comemoro dois aniversários em abril. No dia 4, o oficial, esse ano farei 56 anos. E no dia 1, o extraoficial, em que estou celebrando meus 16 anos. Isso porque, há exatamente 16 anos, escapei de forma milagrosa de um acidente de carro. Até hoje não consigo entender como saí vivo daquela situação e sem nenhum arranhão.
Como um “quase estatístico” que sou — pois cursei cinco anos de Estatística na Universidade Federal do Paraná —, aprendi muito sobre probabilidade. E posso afirmar: minha chance de ter escapado ileso naquele dia era de 0,01%. Por isso, digo que aconteceu um milagre naquele primeiro de abril. Se estou vivo hoje, foi por conta do acaso, da probabilidade mínima e, principalmente, pela vontade de Deus, que naquele momento olhava por mim. Se Ele estivesse ocupado com qualquer outra coisa, eu não estaria aqui para contar esta história.
No dia 1 de abril de 2010, eu viajava de Curitiba, onde morava, para Campo Mourão, para passar a Páscoa com minha família. Também comemoraria meu aniversário, que naquele ano caiu justamente no domingo de Páscoa. Naquela época, minha vida não estava nada fácil; eu enfrentava uma depressão profunda e uma hérnia de disco terrível. Sentia muita dor física e, mentalmente, estava derrotado, sem ânimo ou vontade para nada. Tinha perdido 14 quilos e só usava calças de agasalho ou bermudas, pois precisava amarrar o cordão bem forte para que não caíssem.
Pensei muito antes de pegar a estrada e enfrentar os quase 500 quilômetros até minha cidade natal. Por causa das dores da minha segunda hérnia de disco (tive a primeira em 1995), ficar horas sentado no carro era uma tortura. Antes de sair de casa, tomei remédios para a dor, olhei para o céu e conversei com Deus. Falei que estava difícil seguir em frente, que já não suportava as dores físicas e mentais e que não sabia até onde aguentaria. Pedi que, se Ele tivesse algum plano para mim, que me mostrasse. Então, entrei no carro e fui.
Nesse dia, corri mais que o normal com meu Uno 1996, que fazia 19 km por litro de gasolina — nunca tive um carro tão econômico quanto aquele “Uninho”. Lembro que, em algumas curvas, os pneus chegaram a cantar pela forma como eu dirigia. Naquele dia, eu estava testando a morte e a Deus. Fiz uma única parada no caminho, na cidade de Reserva. Ao sair de lá, em uma reta, fui parado pela Polícia Rodoviária Estadual. Os policiais estavam sob a sombra de uma árvore e eu não os vi; quase os atropelei.
Eles me mandaram parar com as armas em punho. Achei que seria multado ou até preso. Enquanto um policial apontava a arma para o carro, o segundo veio falar comigo. Pediu os documentos e perguntou de onde eu vinha e para onde ia. Contei que morava em Curitiba e ia passar a Páscoa e o aniversário com a família. Acho que o policial notou que eu não estava bem, talvez pelo semblante de desânimo e desapego. Não sei explicar, mas ao me olhar no espelho, eu não via vida em meus olhos. O policial ficou um instante me observando e me deu alguns conselhos, dizendo para eu ir mais devagar e aproveitar os dias com a família. Então, ele me liberou. O outro policial, inconformado, perguntou se ele não ia me dar nem uma multa por excesso de velocidade. O que conversou comigo respondeu que não, que depois explicava. Segui em frente… tive mais sorte do que juízo, como aconteceu dezenas de vezes na minha vida.
Nos primeiros quilômetros após a blitz, fui devagar. Mas logo “apertei o botão do foda-se” e voltei a correr. Faltando menos de 100 quilômetros para chegar em Campo Mourão, há uma pequena serra cheia de curvas fechadas. Eu fazia as curvas a 140, 150, 160 km/h, cantando pneus… até que o carro começou a falhar. Notei que, toda vez que passava de 120 km/h, ele falhava — penso que o carburador recebia gasolina demais. Passei a andar abaixo dessa velocidade e, na terceira curva após diminuir o ritmo, foi quando quase morri.
Rodei na curva e o carro foi de lado pela pista por alguns metros. Vinham duas carretas no sentido contrário e, até hoje, não entendo como saí ileso. Dizem que, pouco antes de morrer, passa um filme pela mente. Não vi filme nenhum, mas tudo aconteceu em câmera lenta. Dessa vez, senti o bafo gelado da morte no cangote. Teve um momento em que parecia que eu estava fora do carro, no alto, vendo tudo acontecer. Não bebo, nunca usei drogas, então não foi alucinação. Se outra pessoa me contasse, eu não acreditaria; mas aconteceu comigo.
No último segundo, consegui controlar o carro e escapar por meio metro de bater de frente com a primeira carreta. Lembro até hoje da cara de desespero do motorista, vendo o acidente inevitável — ou quase! Consegui desviar da segunda carreta e saí rindo… Olhei para o céu e agradeci a Deus pelo milagre. No som do carro, tocava I Have a Dream, do ABBA. A tradução é “Eu tenho um sonho”, e naquela altura eu ainda tinha muitos sonhos por realizar.
Depois de quase morrer, corri para realizar a maioria dos meus sonhos. Esses últimos 16 anos foram intensos. Através daquele susto, Deus me respondeu: entendi que era para ser mais forte e seguir em frente. Na viagem de volta a Curitiba, decidi que mudaria de emprego, de cidade e recomeçaria do zero. Quatro meses depois, foi o que fiz. Não foi fácil, mas foi a escolha certa.
Hoje, comemoro a nova vida e todas as coisas boas que vieram com ela. Houve coisas ruins também, algumas muito ruins… mas saí inteiro e mais forte de todas as provações. Vim ao mundo por um descuido, quase morri nos primeiros meses de vida e, nestes 56 anos, perdi mais vidas que um gato. Acredito que ainda vou viver muitos anos e incomodar bastante. E espero que, no dia em que eu não puder escapar da morte, que ela chegue à noite, enquanto eu durmo, e me leve em paz, sem que eu precise olhar nos olhos dela. Que assim seja!
**A gravura abaixo ilustra como foi o quase acidente. O detalhe é que o carro ia de frente aos caminhões.
