Levantamos cedo e logo pegamos a estrada. O tempo estava nublado, com cara de chuva. Como íamos subir a serra — ou melhor, os Andes —, levamos agasalhos, pois lá no alto poderíamos até mesmo encontrar neve. Íamos até Portillo, famosa estação de esqui próxima à fronteira entre o Chile e a Argentina. Nossa maior expectativa era poder encontrar neve. No ano anterior, o Wagner esteve em Portillo no início de maio e encontrou bastante neve. Estávamos no final de maio e, teoricamente, deveríamos encontrar ainda mais neve do que ele um ano antes. Mas, como o tempo anda meio maluco, no fundo não sabíamos o que iríamos encontrar.

Se no dia anterior pegamos a estrada que desce para o litoral, dessa vez fizemos o inverso: pegamos a estrada que sobe para as montanhas, em direção aos Andes. Pelo caminho, passamos por enormes parreirais e grandes vinícolas. Após uma hora de viagem, já era possível ver ao longe algumas montanhas com seus picos cobertos de neve. A estrada que estávamos percorrendo é uma das principais do Chile e por ela circulam muitos caminhões, não só chilenos, mas também brasileiros e argentinos.

Pelo caminho, fomos fazendo algumas paradas nos locais que achamos interessantes. Uma das paradas foi em uma ponte que ficava numa curva, com uma bonita paisagem. Quando estávamos em cima da ponte, passou uma carreta em alta velocidade e a estrutura tremeu toda. Foi um susto enorme, pois não esperávamos por tal tremelique. Também paramos num local onde perto existe uma grande fenda nas rochas, provavelmente provocada por algum terremoto.

Um detalhe que nos chamou a atenção foi a quantidade enorme de cruzes na beira da estrada. Deve ser uma tradição chilena construir uma pequenina capela com uma cruz e, em alguns casos, bandeiras chilenas, nos locais onde alguém faleceu. Como a estrada em que estávamos é cheia de curvas e precipícios, na época de neve devem ocorrer muitos acidentes por ali, daí a existência de tantas cruzes. Confesso que, apesar de curioso, era algo bastante assustador. Mas tentamos não pensar nisso e nos concentramos na paisagem, que estava ficando cada vez mais bonita conforme íamos nos aproximando das montanhas.

Conforme fomos subindo, montanhas diversas apareciam aos lados. Estávamos entrando numa pequena parte da Cordilheira dos Andes. Essa cordilheira atravessa quase toda a costa ocidental da América do Sul e possui aproximadamente 8.000 km de extensão, sendo a maior cadeia de montanhas do mundo. Sua altitude média gira em torno de 4.000 metros e seu ponto culminante é o pico do Aconcágua, com 6.959 m de altitude. Estávamos entrando na cordilheira e vendo uma pequena parte dessa imensidão. Estou acostumado com montanhas verdes, cobertas de árvores; já estas montanhas por onde passávamos eram marrons, sem vegetação e, no cume (ou abaixo dele, em alguns casos), cobertas de neve. Sem contar que eram bem maiores do que as montanhas com as quais estou acostumado.

Logo percebemos que não encontraríamos neve a baixa altitude. Demos azar, pois esse ano o frio e a neve estão atrasados. Eu, particularmente, nunca tinha visto neve, mesmo já tendo ido para a Alemanha e morado nos Estados Unidos — lugares onde cai muita neve. Ou fui numa época em que não tinha, ou, no caso de Orlando, onde morei, era uma região quente onde não neva. O jeito foi nos conformarmos e aproveitar a beleza da paisagem.

Não demorou muito e iniciamos a subida do “Caracoles”, um trecho da estrada quase na divisa com a Argentina onde há inúmeras curvas fechadas. Chega a dar medo passar por ali, mas a experiência é muito interessante. Olhávamos para cima e ví tínhamos várias curvas do “Caracoles” como se fossem degraus montanha acima. E nesses degraus víamos carretas e mais carretas. Por nós passou um ciclista descendo a estrada em alta velocidade e, pelo visto, vinha de uma longa viagem. Então me lembrei de que um dia pretendo fazer esse caminho de bike. Estar ali foi uma oportunidade de ver de perto o que terei de enfrentar — o que na teoria já parecia difícil, na prática mostrou que vai ser ainda pior.

Fizemos mais uma parada no caminho, num local onde os caminhões que estão descendo o “Caracoles” podem estacionar para esfriar os freios. Dali já era possível ver a Estação de Esqui de Portillo, estrada acima. Meus companheiros de viagem estavam todos agasalhados, mas eu ainda fiquei um bom tempo somente de camiseta. Talvez por estar acostumado com o frio de Curitiba, demorei mais tempo do que eles para sentir o frio dos Andes. Somente quando chegamos a Portillo, onde soprava um vento congelante, é que senti frio pra valer e coloquei um casaco.

Portillo fica a 2.855 metros de altitude e a 152 km de Santiago. É uma pista de esqui bastante famosa. Ali existem um hotel e vários chalés. Atrás do hotel fica o “Laguna del Inca”, que é enorme, de água límpida, cercado por montanhas. Do outro lado do lago aparece o “Cerro Tres Hermanos”, composto por três altas montanhas parecidas, uma ao lado da outra, cobertas de neve. A vista daquilo tudo é maravilhosa, um local lindo. À direita do hotel, víamos o teleférico que, na temporada de esqui, leva os praticantes para a pista na parte de cima da montanha. Somente uns trezentos metros acima de onde estávamos é que era possível ver neve.

Ficamos umas duas horas em Portillo, onde tiramos várias fotos e fizemos alguns pequenos vídeos. O vento era cortante e o frio também. Lanchamos no carro, pois o restaurante do hotel cobra caro e não estávamos a fim de gastar muito em uma refeição. Então partimos dali e subimos mais uns poucos quilômetros estrada acima, até a fronteira com a Argentina. Tiramos mais algumas fotos e tivemos que voltar.

Estrada abaixo, o “Caracoles” era ainda mais assustador. Ficamos imaginando como seria difícil transitar por ali com neve. Fizemos mais uma parada no caminho, dessa vez para colocar umas latas de Coca-Cola para gelar numa queda d’água que descia da montanha. Tiramos algumas fotos ali perto e, de repente, o barulho da água aumentou. O volume cresceu de uma vez e por pouco nossas latinhas de Coca não desceram morro abaixo.

Na subida, tínhamos visto uma placa que indicava uma pequena estradinha com algum aviso sobre um caminho nas montanhas. Resolvemos procurar essa estrada e seguir por ela para ver onde chegaríamos. Não foi muito fácil, mas encontramos a tal estradinha. Só não fomos muito longe, pois logo encontramos uma porteira e uma placa que dizia: “Propriedade Privada – Entrada Proibida”. O jeito foi dar meia-volta e retornar à estrada principal.

Desde que chegamos ao Chile, eu queria comer uma autêntica “Empanada Chilena”, uma espécie de pastel assado típico do país e que eu já tinha comido algumas vezes no Brasil. Acabamos parando num local ao lado da estrada que vendia empanadas quentinhas, saídas na hora do forno de barro. Os “meninos” resolveram provar também, mas não gostaram. O Wagner ficou mal do estômago por um bom tempo e desconfiamos que era feita de carne de lhama. Eu até gostei das empanadas chilenas originais, mas confesso que a versão brasileira é bem mais gostosa.

O Luiz Cesar, desde que saímos do Brasil, falava da vinícola “Concha y Toro”, que talvez seja a mais famosa do Chile. Ele queria conhecer o lugar, mas acabamos não programando a visita. Quando estávamos na metade do caminho para Santiago, sem querer, passamos em frente à tal vinícola. O Luiz Cesar ainda gritou para o Wagner parar, mas não deu tempo. Como logo em seguida havia um pedágio, não dava para fazer o retorno. Outro detalhe é que o portão da vinícola estava fechado, talvez por já ter passado do horário de visitação. De qualquer forma, o Luiz Cesar pôde ao menos ver de longe a vinícola que tanto queria conhecer. Foi uma situação parecida com a visita que eu queria fazer à casa de Pablo Neruda na Isla Negra, em Viña del Mar. Ambos estivemos muito perto do que quer tínhamos vontade de conhecer quando saímos do Brasil, mas acabamos não conseguindo. Quem sabe numa próxima visita ao Chile possamos matar essa vontade.

A última parada que fizemos antes de chegar a Santiago foi no “Monumento à Batalha de Chacabuco”. Foi nesse local que, em 1817, San Martín e Bernardo O’Higgins comandaram as tropas chilenas contra os espanhóis e conseguiram marchar até Santiago, onde declararam a independência do Chile em 1818.

Quando chegamos a Santiago ainda não tinha anoitecido, então resolvemos ir até o palácio presidencial, no centro da cidade. No dia 11 de setembro de 1973, sob as ordens de Augusto Pinochet, os militares chilenos bombardearam o palácio presidencial e derrubaram o governo de Salvador Allende. O presidente foi morto em circunstâncias não esclarecidas e Pinochet instaurou uma ditadura militar.

Enquanto tirávamos fotos nos fundos do palácio, notamos que algumas pessoas tinham entrado para visitar a parte de dentro. Fomos perguntar a um guarda se poderíamos visitar a parte interna e ele respondeu que já tinha fechado. Então saímos dali e fomos tirar fotos da parte da frente. Depois demos uma volta a pé pelo centro da cidade e pegamos nosso carro. Ao passar de carro novamente pelos fundos do palácio, vimos uma porção de pessoas entrando. Ou seja: o guarda nos sacaneou por sermos brasileiros e não nos deixou entrar, inventando uma mentira. Essa foi a única situação de preconceito que enfrentamos durante nossa visita ao Chile.

Chegamos ao hotel quando estava começando a escurecer. Cada um foi para o seu quarto tomar banho e descansar. Mais tarde saímos eu, Wagner e Maico. O Luiz Cesar resolveu ficar no hotel, pois não se sentia bem. Fomos para o shopping da noite anterior, onde demos algumas voltas e jantamos na Pizza Hut — com o Wagner ainda reclamando que a empanada tinha lhe feito mal. Depois voltamos ao hotel, fomos arrumar nossas malas e dormir.

Na estrada a caminho da Cordilheira dos Andes. (24/05/2009)
Na estrada a caminho da Cordilheira dos Andes. (24/05/2009)
Montanhas e Lago Del inca. (24/05/2009)
Montanhas e Lago Del Inca. (24/05/2009)
Portillo. (24/05/2009)
Portillo. (24/05/2009)
Portillo. (24/05/2009)
Portillo e fronteira Chile/Argentina. (24/05/2009)
Caracoles. (24/05/2009)
Caracoles. (24/05/2009)
Caracoles. (24/05/2009)
Caracoles. (24/05/2009)
Pela estrada andina. (24/05/2009)
Pela estrada andina. (24/05/2009)
Na estrada voltando para Santiago. (24/05/2009)
Na estrada voltando para Santiago. (24/05/2009)
Monumento a Batalha de Chacabuco. (24/05/2009)
Monumento a Batalha de Chacabuco. (24/05/2009)
Palácio Governamental em Santiago. (24/05/2009)
Palácio Governamental em Santiago. (24/05/2009)

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