Caminho da Fé (5º dia)

“‘E que o peregrino, mesmo cansado, inquieto sempre, possa ser dos que seguem o caminho mais incerto e mais belo, mesmo que o horizonte seja longínquo.”

(Autor Desconhecido)

Acordei às 6h00min, quando meus companheiros de quarto levantaram para começar a caminhar. Despedi-me deles e voltei a dormir. Acordei novamente às 9h00min, chovia fino e resolvi dormir mais um pouco. Uma hora depois levantei e fui me arrumar para pegar a estrada. Foi então que descobri o pneu traseiro da bike furado. Na hora lembrei-me do que o dono da bicicletaria em Tambaú tinha me falado no dia anterior e lamentei não ter escutado o conselho dele e trocado o pneu. Eu tinha câmera nova e bomba para encher, mas trocar pneu traseiro não é meu forte, pois é mais complicado. Era feriado de carnaval e dificilmente encontraria algum lugar aberto onde pudesse trocar o pneu. Fui tomar café e fiquei pensando no que fazer. Uma opção era ficar ali mais um dia, onde aproveitaria para descansar e também participaria do retiro de carnaval, que estava sendo interessante. Conversei com algumas pessoas e fiquei um tempo sentado numa escada pensando no que fazer. Até que decidi pegar estrada, mesmo que empurrando a bike, e tinha esperança de que em algum lugar da cidade poderia encontrar ao menos uma borracharia aberta, onde pudesse consertar o pneu.

Eram 11h00min quando me despedi de algumas pessoas e saí empurrando a bike. A chuva tinha dado uma trégua quando saí do Santuário. Andei menos de dois quarteirões e um motoqueiro parou ao meu lado e perguntou se eu estava fazendo o Caminho da Fé. Ele disse que me viu saindo do Santuário com o pneu da bike furado e veio tentar ajudar. O nome dele era Carlos, ex-jogador de futebol e que agora trabalha como preparador físico em clubes profissionais. Ele saiu com a moto à procura de alguma borracharia aberta e eu continuei descendo uma rua. Logo passei em frente a um Lava Car, que era talvez o único comércio aberto naquele dia. O dono do Lava Car estava sentado na porta do estabelecimento e perguntou se eu tinha como consertar o pneu. Respondi que tinha uma câmera nova e ele se propôs a fazer o conserto. Logo o Carlos voltou e contou que tinha encontrado um local para consertar o pneu, mas já que eu tinha conseguido resolver o problema, estava tudo bem. Ele conhecia o Evandro, dono do Lava Car. Ficamos conversando os três, enquanto o Evandro realizava o conserto do pneu e ao terminar perguntei quanto era o serviço. A resposta do Evandro foi que não era nada. Perguntei se ele tinha certeza disso e ele respondeu que sim, que era cortesia. Agradeci, despedi-me dos dois e segui viagem, feliz por ter resolvido o problema e por mais uma vez ter encontrado pessoas boas que me ajudaram.

Atravessei o centro da cidade e logo cheguei a uma espécie de parque, bastante arborizado, o qual atravessei seguindo as setas amarelas de sinalização do Caminho da Fé. Depois atravessei uma rodovia e cheguei a um bairro periférico. Passando pelo bairro atravessei por baixo de um viaduto e entrei numa estrada de terra. Não percorri um quilometro pela estrada de terra e começou a chover. Parei para colocar a capa no alforje e a capa de chuva em mim. A chuva ficou muito forte. Segui pedalando e logo entrei por alguns carreadores e atravessei propriedades particulares por uma trilha estreita e cheia de mato. Meu freio ainda estava ruim e tive que tomar muito cuidado para não sofrer algum tipo de acidente e também utilizei muito a sola do pé como freio. Acabei passando por mais uma rodovia, atravessei mais uma propriedade e entrei numa rodovia maior. Fui pedalando pelo acostamento, na contramão e com chuva pela frente. Tinha percorrido dez quilômetros desde Casa Branca, quando o pneu traseiro furou novamente. Eu estava no meio do nada, numa rodovia, debaixo de muita chuva e não tinha como fazer novo conserto no pneu. Restavam-me duas opções; voltar 10 km até Casa Branca e esperar o dia seguinte para trocar o pneu, ou então empurrar a bike pelo próximos 22 km até a cidade de Vargem Grande do Sul, meu próximo destino. Escolhi a segunda opção e passei a empurrar a bike pelo acostamento, com chuva. Quem passava de carro devia pensar que eu era meio maluco ou então deviam ficar com pena de mim.

Empurrei a bike por quase uma hora, até que ao chegar a um pedágio, as setas indicavam que eu deveria virar a esquerda e seguir por uma estrada de terra. A chuva parou, mas mesmo assim a estrada estava bastante embarreada e empurrar a bike por ela não era tarefa fácil. E assim segui por vários quilômetros, no meio de canaviais. Até que cheguei a uma porteira e tanto as setas amarelas de sinalização, quanto o guia, diziam que eu devia atravessar um pasto e tomar cuidado com as vacas. Não gostei muito da idéia, principalmente quando vi a quantidade de vacas e a mistura de barro com bosta de vaca, por onde teria que passar. Mas o negócio era seguir em frente e foi assim que fiz. Tomei todo o cuidado para não assustar ás vacas e fui empurrando a bike pelo meio da grama e do barro misturado com bosta de vaca. Teve um momento que foi engraçado, quando umas vinte vacas ficaram enfileiradas ao lado do caminho me vendo passar. Conforme fui avançando pelo pasto pude perceber que o caminho ficava cada vez pior e logo a trilha desapareceu debaixo da água. Eu teria que passar por uma trilha cercada por dois lagos e um banhado, que com a chuva constante dos últimos dias deixou a trilha submersa. E ao lado, um pouco longe vi um touro com cara de poucos amigos. Fiquei de olho no touro e tomei cuidado para não entrar por engano em uma área onde o touro pudesse me alcançar. Sei que atravessar esse trecho de banhado foi um dos piores momentos de todo o Caminho da Fé. Em alguns trechos tive que levantar a parte traseira da bike, para que o alforje não fosse atingido pela água. Foi bastante cansativo e desgastante passar por esse local. Penso que deveria existir alguma outra opção de caminho para se evitar esse pasto cheio de vacas, principalmente em dias de chuva. Finalmente cheguei ao final do pasto e passei por outra porteira. Atravessei uma ponte rústica e passei a caminhar novamente pelo meio de um canavial.

A chuva ia e voltava, mas de forma fraca. E eu seguia empurrando a bike pelo meio do barro. Ao atravessar outro canavial vi dois animais pretos cruzarem a estrada logo a minha frente, mas foi tão rápido que não tive tempo de tirar uma foto. Não sei dizer que animais eram. Pareciam com ariranhas, mas como não tinha nenhum rio por perto, não posso afirmar que eram ariranhas. Um pouco mais a frente, ao entrar em mais um canavial, um urubu levantou vôo bem a minha frente e levei o maior susto. Devo ter xingado até a quinta geração do tal urubu. Mais um tempo e saí do meio dos monótonos canaviais, atravessei algumas porteiras de arame farpado e entrei numa propriedade particular. Tive que atravessar um longo pasto, onde quase não existia mais trilha e onde era difícil empurrar a bike com o pneu furado. Passei ao lado de algumas casas abandonadas e saí por nova porteira, seguindo então por uma estrada. A chuva voltou e passei ao lado de uma plantação de abobrinhas. Logo passei por algumas goiabeiras carregadas, bem ao lado da estrada. Como não gosto de goiabas, nem perdi tempo tentando colher alguma.

Passava um pouco das 17h00min quando cheguei à periferia da cidade de Vargem Grande do Sul. Tive que atravessar um lamaçal terrível bem na entrada da cidade. Logo entrei no asfalto e ficou mais fácil empurrar a bike. Passei por um Cristo, numa praça da cidade e parei para tirar fotos. Depois cheguei a um descida enorme, de onde se tinha uma visão muito bonita da cidade. Tirei a câmera para bater uma foto e ela escorregou de minhas mãos e saiu deslizando pelo asfalto molhado. Fui pegá-la achando que tinha quebrado, mas felizmente estava inteira, apenas com vários arranhões. Empurrei a bike por mais alguns quarteirões e finalmente cheguei à pousada que o guia indicava. Na verdade era um hotel e ficava dentro de um Posto de Gasolina. Eu estava todo molhado e embarreado quando entrei na recepção do hotel. O recepcionista deve estar acostumado a receber pessoas naquelas condições, pois nem ligou para meu estado e logo me arrumou um quarto e liberou a lavanderia do hotel para que eu guardasse a bike. Pedi permissão e aproveitei para utilizar o tanque e lavar meu tênis e a roupa cheia de barro. Minhas meias achei melhor jogar no lixo. Eram novas, sem furos, mas estavam tão encardidas que nem valia a pena lavar. Conversei um pouco com o recepcionista e ele me contou que os dois rapazes com quem dividi o quarto na noite anterior, tinham chegado ao hotel no meio da tarde e deviam estar dormindo. Ele também contou algumas histórias sobre os peregrinos que passam pelo hotel. O mais interessante foi saber que às mulheres, principalmente as de mais idade, quando chegam ao hotel, a primeira coisa que fazem é pedir uma cerveja.

Entrando no quarto tirei todas as coisas do alforje e a distribui pelo quarto. Então liguei o ventilador de teto bem forte para que o vento pudesse secar minhas coisas. Em seguida tomei um banho quente, onde pude tirar todo o barro acumulado, principalmente em minhas pernas. Já limpinho e cheirosinho caí na cama e dormi um pouco, pois empurrar a bike por 22 km tinha sido muito cansativo. Levantei duas horas depois e fui até uma lanchonete próxima ao hotel, onde jantei. A chuva tinha retornado e logo voltei para o hotel, para a cama e dormi cedo.

Pneu furado.
Mais um canavial.
Pasto para atravessar.
Criando coragem para “enfrentar” as vacas.
Mistura de barro e bosta de vaca.
Trilha submersa.
Atravessando o banhado.
Trilha sob a água.
Água e mais água.
Ponte não confiável.
Barreiro na entrada de Vargem Grande do Sul.
Em frente ao Cristo.

Caminho da Fé (4º dia)

“O verdadeiro peregrino sabe por que caminha, mas pensa que não sabe. E por ser chamado à peregrinação, acaba identificando o que já sabia, pois tinha na mente e veio à luz, na poeira do caminho.” 

(Luiz Carlos Marques da Silva)

Acordei ás 07h00min com o barulho de uma mensagem chegando pelo celular. Era minha amiga Liliam me mandando tomar cuidado, pois tinha tido um sonho ruim comigo. Confesso que isso me deixou preocupado, mas mesmo assim voltei a dormir. Levantei tarde, com preguiça, talvez por ser segunda-feira. Arrumei minhas coisas e desci para a garagem do hotel pegar a bike. O dono do hotel foi junto e me ajudou a colocar as coisas na bike. Saindo do hotel pedalei 200 metros e parei numa bicicletaria. Comprei óleo para lubrificar a corrente e pedi para o dono da bicicletaria regular o freio e as marchas que estavam escapando. Ele regulou tudo e não cobrou pelo serviço. Então ele disse que seria bom eu trocar o pneu traseiro, que estava meio ruim para enfrentar trechos com muita pedra que viriam pela frente. Agradeci o conselho e respondi que trocaria o pneu mais para frente.

Parei na igreja do Padre Donizete, um milagreiro local que está em processo de canonização para virar santo. Tirei algumas fotos e peguei água para a viagem num local com gamelas estilizadas, algo muito bonito. Precisava pegar o carimbo em minha credencial do Caminho da Fé, pois no hotel não tinham o carimbo. O local onde encontraria o carimbo seria na Secretaria de Turismo, que ficava ao lado da igreja. Era segunda-feira de carnaval e seria esperar demais encontrar uma repartição pública aberta. Então entrei na igreja pedir informação sobre o carimbo e fui recebido de forma muito atenciosa por um padre. Ele me deu um forte abraço e disse para eu ir até uma loja que vende artigos religiosos, no outro lado da rua, que o carimbo estava lá. Fui até a loja e uma moça muito simpática carimbou minha credencial. Ela me deu de presente duas relíquias do Padre Donizete. Na verdade trata-se de um santinho plastificado, onde de um lado tinha duas orações e do outro lado a imagem do Padre Donizete e um pedacinho de pano, que fazia parte do pano que envolveu os ossos do Padre Donizete quando o mesmo foi exumado e teve seus ossos transferidos do cemitério da cidade, para a igreja que leva seu nome. É uma exigência do Vaticano que pessoas em processo de santificação tenham seus restos mortais sepultados dentro de igrejas. Ainda na loja duas senhoras vieram perguntar se eu estava fazendo o Caminho da Fé. Daí disseram que eu era corajoso por fazer o caminho sozinho, me desejaram sorte e pediram que orasse por elas em Aparecida. Coloquei um dos santinhos do Padre Donizete na bolsa de guidão, sob um plástico transparente o que tornava o santinho visível para todos. Esse santinho ficou ali até o final da viagem.

Saindo da loja atravessei a praça da igreja e do outro lado da rua parei numa lanchonete fazer um lanche, que seria meu almoço naquele dia. Pouco depois do meio dia iniciei minha pedalada do dia. O tempo estava nublado e sem chuva. Pedalei por cerca de um quilômetro pela cidade e ao passar em frente ao cemitério fiquei curioso para ver o antigo túmulo do Padre Donizete. Entrei no cemitério, o segurança da entrada ficou cuidando de minha bike e após caminhar poucos metros vi o túmulo do padre, que se destacava entre os demais. O túmulo é todo em vidro e mesmo com os restos mortais do padre não estando mais ali, o túmulo foi mantido como era e recebe muitos visitantes. O lugar onde ficava o corpo está vazio e coberto com uma tampa de vidro. A tampa estava toda embaçada, úmida por dentro. Pensei que o motivo seria a chuva dos últimos dias, mas depois fiquei sabendo que tal fenômeno é permanente. Mistério? Causa física? Não sei! Tem certas coisas que prefiro não saber os motivos. Saí do cemitério e voltei a pedalar.

Logo na saída da cidade tem uma ponte e ao lado um pequeno portal do Caminho da Fé. O caminho segue por um pinguela, que estava bastante escorregadia. Olhei no guia, que dizia que era para atravessar o rio pela pinguela e seguir pela direita dentro da propriedade ao lado da plantação e paralelo a estrada de terra. Foi o que fiz e ao atravessar a pinguela quase que a bicicleta fica entalada entre dois tocos, por culpa dos alforjes laterais. Comecei a percorrer um trilha tomada pelo mato e com muito barro. Tive que empurrar a bike e conforme avançava a vegetação ia ficando mais densa e empurrar a bike foi ficando difícil. Ao lado tinha um rio com muita vegetação e diversas espécies de pássaros, algo muito bonito. A trilha foi desaparecendo no meio da vegetação. Para um caminhante passar ali era interessante, já para um ciclista era terrível. Tentei seguir pelo lado do canavial que ficava próximo, mas logo me cortei com folhas da cana e fulo da vida decidi parar. Peguei o guia, li e reli para ver se tinha pegado o caminho errado. Pelo guia eu tinha seguido pelo caminho correto, mas não dava para seguir em frente. Raciocinei um pouco e resolvi voltar até a pinguela e tentar seguir pela estrada de terra paralela a plantação. Com muito esforço atravessei o mato e cheguei até a pinguela. Dali passei por um barreiro e alcancei a estrada de terra. Então vi as setas amarelas que indicam o Caminho da Fé pintadas em um poste e numa cerca. Ali entendi que não daria para confiar cem por cento no guia e também que o portal e a pinguela são bonitinhos, mas inúteis. Devia ter algum aviso informando que somente caminhantes deveriam seguir pela pinguela e entrar na propriedade ao lado, e que ciclistas deveriam seguir pela ponte ao lado e virar a direita na estrada de terra. Isso teria me poupado meia hora de tempo perdido e esforço físico inútil. Sem contar que me cortei e ganhei vários arranhões nos braço e pernas por andar pelo mato e no canavial. E parar piorar ainda mais as coisas, entrou mato na coroa e catraca da bike. Levei meia hora par conseguir tirar o mato. No final das contas tinha perdido uma hora e me ferrado um monte por culpa da sinalização equivocada naquele trecho e do guia que não foi nada prático nas informações.

Ainda bravo subi na bike e comecei a pedalar. Não andei 300 metros e começou a chover. Coloquei a capa de chuva e segui em frente, ainda bravo. Logo cheguei a umas subidas com muita lama. Numa delas o pneu traseiro patinou dando um giro de 360 graus sobre o eixo. Desde criança ando de bicicleta e nunca tinha visto um pneu girar dessa forma. Segui em frente e logo descobri que estava juntando lama em várias partes da bike, inclusive no sistema de freios, que passou a não funcionar corretamente. Logo tive outro problema com o guia, que dizia sobre uma cerca a direita, quando eu só via uma cerca a esquerda e na frente dela uma placa do Caminho da Fé com uma seta amarela. Fiquei um tempo lendo as instruções no guia e entendi que logo mais a frente o caminho retornaria a estrada em que eu estava. Para não me meter em outra furada, resolvi ignorar o guia e não entrar pela tal cerca. Segui pela estrada e cada vez surgia mais lama e poças d’agua. Com o freio ruim, nas descidas todo cuidado era pouco. Comecei a utilizar uma técnica do MotoCross, usando uma perna como apoio e equilíbrio, tocando o pé no chão. Com o cambio regulado as marchas não escapavam mais e dessa forma conseguia pedalar em subidas leves que nos dias anteriores eu teria que descer da bike e seguir a pé.

A chuva foi aumentando e a estrada ficando cada vez mais intransitável. Em dado momento entrei muito veloz em uma curva cheia de lama e fui derrapando lateralmente de um lado ao outro da estrada, sem conseguir parar. Até agora não entendo como não caí. Por sorte não vinha nenhum carro, senão seria acidente na certa. Segui mais um tempo por essa estrada ruim e de repente numa curva me deparei com uma estrada asfaltada. E para melhorar ainda mais a situação, a chuva parou. Não fiquei pedalando muito tempo no asfalto e logo após atravessar uma ponte a setas indicavam para virar a esquerda e descer por uma estrada de terra, no meio de um canavial. Na verdade não era terra, mas sim areia vermelha, areião.

Estava seguindo tranquilamente pela estrada e dessa vez sentindo calor, pois com o fim da chuva ficou muito abafado, sinal de que até o final do dia choveria forte novamente. Passei ao lado de uma fazenda e vi na estrada um cachorro enorme. Ao me ver, o cachorro se espreguiçou e ficou parado. Quando passei por ele o cão começou a latir e a correr atrás de mim. Levantei a perna esquerda do pedal e coloquei sobre o guidão como forma de proteção. Então ouvi latidos vindos da fazenda, do outro lado e quando olhei vi um cachorro ainda maior passar pela cerca de arame farpado e vir correndo atrás de mim. Tirei a outra perna do pedal e tentei me equilibrar sobre a bike. Era descida, a velocidade era alta e a bike seguiu derrapando na lama. O coração estava na boca e a única coisa que consegui pensar foi que se eu caísse fatalmente seria devorado pelos cães ferozes. Por sorte eles logo desistiram da caçada. Então olhei para o lado e vi logo a frente uma pequena igrejinha ao lado do canavial. Resolvi parar ali e após me certificar que os cachorros tinham ido realmente embora, sentei-me na porta da igreja para descansar, beber água e me recuperar do cagaço pelo qual tinha acabado de passar.

Logo voltei a pedalar e comecei a ver ao longe a chuva caindo. Saí do meio do canavial e entrei numa região de mata. O calorão desapareceu e passei a sentir frio no meio da mata. Não demorou muito e a chuva caiu forte. E para variar ela sempre vinha de frente, dificultando ainda mais o pedalar. Andei vários quilômetros sob chuva e logo entrei numa larga estrada de terra, cheia de poças d’agua. Andei um longo tempo por essa estrada e finalmente a chuva parou e o sol surgiu. Era a primeira vez que eu via o sol desde que iniciará o Caminho da Fé. O sol não durou nem cinco minutos e desapareceu. Começou a cair uma chuva fina e finalmente cheguei ao fim daquela estrada monótona e cheia de buracos. Ela terminava numa estrada asfaltada e as setas indicavam para eu seguir pela esquerda, por uma descida. De repente vi surgir no meio da chuva e das nuvens a cidade de Casa Branca, no alto de um morro. Esse seria meu destino final naquele dia. Aquela foi uma bela visão para um ciclista molhado, cansado e com frio.

Segui pela estrada asfaltada, numa descida longa e em curva, seguida por mais uma curva. Desci embalado e quando estava a 42 km/h descobri que os freios não estavam funcionando. Consegui não me apavorar e na hora lembrei-me de meu amigo Lucas Pierin e de tê-lo visto meses antes freando uma bike sem freio, com o pé. Na hora meti a sola do pé esquerdo no asfalto e assim consegui reduzir a velocidade e terminar a descida em segurança. Logo veio uma extensa subida, uma curva a direita e cheguei a Casa Branca. E foi chegar à cidade para cair um semi dilúvio. Fui seguindo a sinalização das setas amarelas pintadas em postes. Logo comecei a subir por um rua bastante íngreme, empurrando a bike. Ao lado da calçada descia tanta água que mais parecia uma cachoeira. Parei e lavei a bike na enxurrada, tirando todo o barro acumulado durante o dia, Também lavei meu tênis e pernas. Segui em frente e logo cheguei ao Santuário do Desterro, local onde passaria a noite. Tinha percorrido 33 difíceis quilômetros nesse dia.

Logo na entrada do Santuário existe uma igreja com uma bonita fachada, onde um mosaico mostra a fuga de Maria e José rumo ao Egito. Entrei no Santuário e logo uma pessoa veio me atender e me levou até um quarto coletivo. La já estavam dois caminhantes, Vinicius e Aluan, que faziam uma parte do Caminho da Fé a pé. Guardei a bike dentro do quarto, tomei um delicioso banho quente e arrumei e limpei minhas coisas. Depois fui andar pelo Santuário. Estava sendo realizado ali um retiro de carnaval com cerca de 150 pessoas, jovens em sua maioria. Fui até a igreja, rezei um pouco e depois fiquei olhando o local. Num canto fica a sepultura do Coronel João Gonçalves dos Santos, sua esposa e filhas. O Coronel, muitos anos antes construiu uma capela no local em pagamento a uma promessa. Com o tempo muitas pessoas iam até o local rezar e em 1936 no ali foi construído Santuário, onde no passado funcionou um Seminário. No altar da igreja está sepultado o Irmão Roberto Giovanni, ao qual são atribuídos diversos milagres e que se encontra em processo de canonização. Em uma sala próxima ao altar fica um armário onde guardam objetos e roupas que pertenceram ao Irmão Roberto, bem como objetos deixados pelos devotos como forma de agradecimento. Achei tudo aquilo muito curioso. Para quem não sabe, na Igreja Católica, Irmão é aquele que estuda, faz os votos igual um padre, mas não se torna padre, não reza missa. Após o curto passeio voltei para o quarto e dormi até a hora do jantar.

Pouco antes das 20h00min fui jantar em companhia do Aluan e do Vinicius. Jantamos com os participantes do retiro e aproveitei para conversar com algumas pessoas. A comida estava muito boa e eu com fome não me fiz de rogado e repeti duas vezes. Fui convidado para participar de uma celebração que aconteceria logo após o jantar. Aceitei o convite. Foi uma celebração interessante, com canções e uma pregação via telão, tudo muito espiritual. Teve um intervalo e fiquei conversando com uma moça chamada Michele, que me contou um pouco da história da cidade. Logo voltamos para a celebração, que terminou por volta da meia noite. Então fui dormir e lembrei-me do sonho de minha amiga Liliam, que felizmente não se concretizou, mas tinha sido por pouco, pois naquele dia eu tinha passado por vários apuros.

Igreja do Padre Donizete, Tambaú – SP.
Local para pegar água na  Igreja do Padre  Donizete.
O túmulo vazio do Padre Donizete.
Atravessando pinguela na saída de Tambaú.
Portal do Caminho da Fé. Tambaú – SP.
Trilha tomada pelo mato.
Estrada escorregadia.
Atravessando ponte sobre linha férrea.
Igrejinha perdida ao lado do canavial.
Descansando em frente a igrejinha.
Do lado direito, seta indicando o caminho.
Sujinho…
Mosaico da Igreja do Santuário do Desterro.
A bike guardada no quarto.
Túmulo do Irmão Roberto Giovanni.
Armário com objetos do Irmão Roberto.