Nunca fui muito fã do sol. Praia nunca me atraiu tanto, e desde criança sempre tive uma preferência clara por dias nublados — especialmente os chuvosos. Enquanto a maioria das pessoas parecia torcer pelo céu azul, eu me sentia mais confortável quando as nuvens tomavam conta. Por muito tempo, cheguei a me perguntar se havia algo de errado nisso, já que quase todos ao meu redor reclamavam da chuva e celebravam os dias ensolarados.
Sempre gostei do frio também. Em dias frios e chuvosos, algo em mim muda: acordo mais disposto, mais centrado, e o dia simplesmente rende mais. O barulho da chuva, o clima mais fechado, o ar mais denso… tudo parece colaborar para que eu funcione melhor. Só recentemente descobri que esse sentimento é mais comum do que eu imaginava — e que ele tem um nome: pluviofilia.
Para mim, a chuva nunca foi apenas um fenômeno do tempo. Ela é o som suave das gotas no chão, o cheiro da terra molhada, o céu fechado que convida ao recolhimento. Quando chove, o mundo parece desacelerar, e eu desacelero junto. É nesse silêncio que encontro espaço para pensar, criar e simplesmente existir.
Há algo de profundamente terapêutico na chuva. Ela lava a paisagem e, de certa forma, também lava o que vai por dentro. Desperta memórias, traz conforto e uma sensação difícil de explicar, mas fácil de sentir. Enquanto muitos veem a chuva como um dia perdido, eu a vejo como um presente.
Em um mundo que corre o tempo todo, a chuva impõe sua própria cadência. Ela não tem pressa — e me ensina a não ter também. A pluviofilia me lembra que há beleza nos dias nublados, que nem toda luz vem do sol e que está tudo bem em preferir o cinza no céu.


