Primeiros mortos da FEB na Itália

Durante a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) enviou cerca de 25 mil soldados — conhecidos como pracinhas — para lutar ao lado dos Aliados na campanha da Itália. A presença brasileira no conflito deixou diversas histórias marcantes, incluindo as primeiras perdas entre os soldados.

Antes mesmo da primeira morte em combate, ocorreu um episódio trágico envolvendo o soldado brasileiro, Antônio Oliveira, que morreu em um acidente. Nos primeiros dias da chegada da FEB à Itália, em 1944, alguns militares estavam em um momento de descanso próximo a um rio na região onde o contingente brasileiro estava instalado. Durante esse período de folga, um dos soldados entrou na água para nadar e acabou se afogando. Como essa morte ocorreu em circunstâncias acidentais e não durante uma operação militar, ela geralmente não é considerada a primeira baixa de guerra da FEB.

A primeira morte oficialmente registrada em combate entre os brasileiros aconteceu pouco depois. O soldado Constantino Marochi, nascido em 17 de julho de 1921 em Campo Largo, no Paraná, integrava o Exército Brasileiro e fazia parte do contingente enviado à Itália pela FEB. Em 21 de setembro de 1944, durante os primeiros confrontos dos brasileiros contra as forças alemãs na região de Vic Santine, Marochi foi atingido por estilhaços de um morteiro disparado pelo inimigo. Ele não resistiu aos ferimentos, tornando-se o primeiro brasileiro morto em combate na campanha italiana.

A morte de Constantino Marochi marcou profundamente os pracinhas que lutavam na Itália e acabou se tornando um símbolo do sacrifício dos soldados brasileiros na guerra. Ao final do conflito, cerca de 457 militares da FEB haviam perdido a vida. Em homenagem ao soldado paranaense, seu nome foi lembrado em diferentes monumentos e homenagens no Brasil, preservando a memória daqueles que participaram da luta contra o nazifascismo na Europa.

Marochi foi sepultado originalmente no Cemitério Militar Brasileiro de Pistoia, na Itália. Em 1960, seus restos mortais foram trazidos para o Brasil e sepultados no Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial — popularmente conhecido como Monumento aos Pracinhas, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro. Ele repousa em um dos jazigos individuais do mausoléu subterrâneo do monumento.

No Batalhão do Exército (20º BIB), onde servi durante dois anos em Curitiba, havia uma rua dentro do próprio batalhão chamada Marochi. Naquele tempo (1989–1991), era ali que se realizavam os desfiles do batalhão. A Marochi ficava bem em frente ao prédio da minha companhia, e passei incontáveis horas nela, entre treinamentos e marchas.

A lembrança que mais ficou gravada, no entanto, aconteceu numa noite de inverno rigoroso, típica de Curitiba. Eu estava de serviço exatamente na Marochi, ao relento, com o vento cortante que parecia atravessar até os ossos. O frio era intenso; meus dedos e ombros quase não respondiam, e, para tentar amenizar, eu batia nos ombros do casaco para derrubar a fina camada de gelo que se formava. Foi nessa noite que, num gesto meio infantil, meio desafiador, consegui escrever meu nome no gelo que se acumulou sobre meu capacete.

Cada minuto parecia se arrastar, cada sopro de vento aumentava a sensação de solidão e desconforto. Sem exagero, posso dizer que foi uma das noites mais longas da minha vida — uma lembrança que, mesmo com o passar dos anos, continua viva, gelada e clara na memória.

Constantino Marochi.
Cemitério de Pistoia – Itália.
Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial.