Tenho acompanhado com bastante atenção o caso do jovem Roberto Farias Thomaz, de 20 anos, que está desaparecido no Pico Paraná desde o dia 1º de janeiro. Não conheço o jovem, mas, se na tarde do dia 30 de dezembro eu não tivesse desistido de ir passar o réveillon no Pico Paraná, fatalmente o teria encontrado no cume ao amanhecer do dia 1º de janeiro.
Já subi o Pico Paraná algumas vezes, assim como outras montanhas da região, e também já passei réveillon acampando em montanha. Nesta última virada de ano, estava com vontade de me isolar. Além de ser avesso a festas, comemorações e fogos de artifício, eu buscava uma passagem de ano diferente e, por isso, escolhi subir o Pico Paraná. Treinei durante um mês e convidei um amigo para me acompanhar nessa aventura.
Tudo estava certo e planejado para a viagem, mas, na terça-feira, dia 30, acordei com uma sensação estranha. Minha intuição dizia para não seguir com a viagem. Entrei em contato com o pessoal do IAP, no Parque Estadual Pico Paraná, e fui informado de que as trilhas estavam pesadas e perigosas, pois havia chovido todos os dias na última semana. A trilha molhada, por si só, não me fez desistir. O que realmente me fez cancelar a viagem foi saber que o parque estaria fechado no dia 31.
Eu sabia que existia a possibilidade de entrar mesmo com o parque fechado — como alguns fizeram, inclusive o jovem que se perdeu —, mas não sou adepto de atitudes irregulares e optei por desistir. Tinha consciência de que, ao entrar sem autorização em um parque estadual, correria o risco de ser multado e, em caso de acidente, o socorro poderia demorar. Com a decisão tomada, avisei meu amigo de que não iríamos mais e segui a vida.
No dia 1º de janeiro, comecei a ver as notícias sobre o jovem desaparecido e me dei conta de que, se tivesse insistido na viagem, talvez o tivesse encontrado. Pelo que li até agora, ele e a amiga que o acompanhava cometeram alguns erros que acabaram resultando em seu desaparecimento. Não julgo ninguém, pois não estava lá. Apenas faço essa reflexão com base em experiências que já vivi em montanha, inclusive nas trilhas do Pico Paraná.
Uma coisa que aprendi é que não se deve deixar um companheiro sozinho na trilha, principalmente quando ele não está se sentindo bem, como parece ter sido o caso. Já ajudei companheiros em dificuldades em trilhas de montanha, assim como já fui ajudado. Inclusive, na última vez que subi o Pico Paraná, na Páscoa de 2022, tive um mau jeito nas costas quase no final da subida. Na descida sofri bastante: fiquei lento e, para piorar, tive problemas com a lanterna. O final da trilha foi extremamente difícil, sob chuva, mas minha companheira não me abandonou e me guiou até o fim.
Com dor e cansaço, meu raciocínio ficou comprometido e eu já não conseguia tomar as melhores decisões. Até escolher onde pisar na trilha molhada e escorregadia se tornava um desafio, e acabei sofrendo algumas quedas. Por isso, acredito que o jovem desaparecido possa ter passado por algo semelhante. Estando sozinho, cansado, sem comida (água até é possível encontrar nos riachos da região), molhado, com frio e sem conhecer bem o local, a chance de se perder ou sofrer uma queda na mata fechada é grande. Nessas condições, torna-se extremamente difícil se orientar e encontrar uma saída.
Desejo, de coração, que ele seja encontrado com vida e em boas condições. No entanto, confesso que a situação tem cheiro de tragédia. Fico me perguntando se, caso eu tivesse ido, algo poderia ter sido diferente. Pelo meu perfil de cuidar de quem passa mal na trilha — algo que já fiz outras vezes —, talvez eu pudesse ter ajudado de alguma forma, caso o tivesse encontrado. Por outro lado, talvez nem tivéssemos nos cruzado, ou até mesmo eu poderia ter sido o desaparecido, já que as trilhas estavam molhadas e perigosas.
Como o “se” não muda a realidade, fico em paz por ter tomado a decisão certa ao não viajar. Tenho uma boa intuição, mas raramente costumo ouvi-la. A partir de agora, pretendo dar mais atenção a ela, pois isso pode fazer toda a diferença.


