Análise literária: “De Bike pelo Caminho de Santiago de Compostela”

De Bike pelo Caminho de Santiago de Compostela — quando a viagem não quer te impressionar

Há livros de viagem que tentam convencer o leitor de que o autor viveu algo grandioso. O livro de Vander Dissenha faz o movimento oposto: diminui o tom — e, justamente por isso, tudo ganha mais força.

De Bike pelo Caminho de Santiago de Compostela não se apresenta como guia turístico, nem como relato espiritual, muito menos como uma saga heroica. É um diário cru, escrito por alguém comum atravessando estradas, limites físicos e silêncios internos — sem maquiagem literária.

O diferencial do Vander está aí: ele não escreve como herói da aventura, mas como alguém vivendo coisas extraordinárias sem precisar se colocar acima delas. Sua marca registrada é o perrengue honesto, acompanhado de um humor seco e autoconsciente, que nunca glamouriza o sofrimento, mas também não o transforma em drama épico. Há cansaço, desconforto, fome e dor — e tudo isso aparece sem pose.

A bicicleta, longe de ser símbolo de superação esportiva, funciona como um filtro de realidade. Pedalar intensifica tudo: o corpo dói mais, os encontros são mais breves, os pensamentos ficam mais insistentes. Não há atalhos emocionais. O livro não quer impressionar. Quer registrar. E, ao registrar com honestidade, acaba tocando mais fundo.

Um dos aspectos mais interessantes da narrativa é a forma como lida com a solidão escolhida. Vander encontra pessoas o tempo todo, mas o foco está no que acontece quando ninguém está falando. A solidão aqui não é abandono — é ferramenta. O livro a trata como algo funcional, não como carência.

Outro ponto forte está na percepção dos limites. Em um momento marcante, o autor percebe que o corpo reclama antes da mente desistir. A leitura deixa claro que a desistência raramente é física; ela nasce no pensamento, não nas pernas. O limite real aparece depois do desconforto, não antes.

Os encontros no Caminho também são tratados com uma naturalidade quase desconcertante. Pessoas surgem, caminham juntas por um tempo e desaparecem da rota, como parte do cenário. No Caminho, as pessoas não ficam — elas passam. Como quase tudo na vida. Essa abordagem transforma o livro em uma metáfora silenciosa da vida adulta: relações importantes podem ser breves e, ainda assim, verdadeiras.

Talvez uma das maiores qualidades do livro esteja na forma como aborda a espiritualidade. Vander não tenta convencer ninguém, nem se coloca como convertido. Ele entende que não é preciso acreditar em tudo para respeitar o significado. É uma espiritualidade sem dogma, sem frase pronta, sem moral da história — o que amplia enormemente o alcance da obra. O livro conversa tanto com quem acredita quanto com quem já cansou de discursos religiosos rasos. É espiritual sem ser religioso.

O final não faz barulho. A chegada, como não poderia deixar de ser, evita a euforia. Não há explosão emocional — há silêncio. Esse anti-clímax é proposital. A transformação não acontece no ponto final da viagem, mas no acúmulo silencioso do caminho. Quando o livro termina, a sensação é clara: o essencial já aconteceu antes. O final é calmo — como quem entende que a mudança verdadeira não precisa anunciar sua chegada.

Este é um livro para quem gosta de viagens com mais reflexão do que ostentação. Para quem prefere honestidade a frases motivacionais. Para quem entende que algumas jornadas não servem para vencer nada — apenas para atravessar.

De Bike pelo Caminho de Santiago de Compostela é menos sobre chegar a um destino e mais sobre aprender a sustentar o caminho, mesmo quando ele não promete aplausos. E talvez seja exatamente por isso que o livro fica na mente do leitor.

Fonte: www.cartografiapessoal.com

Pluviofilia

Nunca fui muito fã do sol. Praia nunca me atraiu tanto, e desde criança sempre tive uma preferência clara por dias nublados — especialmente os chuvosos. Enquanto a maioria das pessoas parecia torcer pelo céu azul, eu me sentia mais confortável quando as nuvens tomavam conta. Por muito tempo, cheguei a me perguntar se havia algo de errado nisso, já que quase todos ao meu redor reclamavam da chuva e celebravam os dias ensolarados.

Sempre gostei do frio também. Em dias frios e chuvosos, algo em mim muda: acordo mais disposto, mais centrado, e o dia simplesmente rende mais. O barulho da chuva, o clima mais fechado, o ar mais denso… tudo parece colaborar para que eu funcione melhor. Só recentemente descobri que esse sentimento é mais comum do que eu imaginava — e que ele tem um nome: pluviofilia.

Para mim, a chuva nunca foi apenas um fenômeno do tempo. Ela é o som suave das gotas no chão, o cheiro da terra molhada, o céu fechado que convida ao recolhimento. Quando chove, o mundo parece desacelerar, e eu desacelero junto. É nesse silêncio que encontro espaço para pensar, criar e simplesmente existir.

Há algo de profundamente terapêutico na chuva. Ela lava a paisagem e, de certa forma, também lava o que vai por dentro. Desperta memórias, traz conforto e uma sensação difícil de explicar, mas fácil de sentir. Enquanto muitos veem a chuva como um dia perdido, eu a vejo como um presente.

Em um mundo que corre o tempo todo, a chuva impõe sua própria cadência. Ela não tem pressa — e me ensina a não ter também. A pluviofilia me lembra que há beleza nos dias nublados, que nem toda luz vem do sol e que está tudo bem em preferir o cinza no céu.

Caminhando na chuva…
Correndo na chuva…
Pedalando na chuva…

Goodbye Arthur!

Hoje é um dia muito triste. Primeiro fiquei sabendo que meu amigo Arthur estava desaparecido em São Paulo desde a noite de domingo. Algumas horas depois, veio a notícia que eu mais temia: ele havia sido encontrado morto. Fiquei em choque.

Arthur era uma pessoa muito gente boa — e não digo isso porque ele se foi, é um fato. Eu o conheci anos atrás, quando ele veio morar aqui em Campo Mourão, vindo de Natal. Na época, ele namorava a sobrinha da minha namorada. Nos demos bem logo de cara. Tínhamos conversas interessantes, leves, descontraídas. Arthur era extremamente inteligente, tinha uma fala calma e estava quase sempre sorrindo, embora carregasse um ar meio melancólico.

Assim como eu, ele gostava de jogar UNO. São inesquecíveis as noites em que jogamos: na casa dele, na minha casa e, por último, no apartamento dele em São Paulo. Ele inventava nomes para algumas jogadas. Uma delas, em minha homenagem, chamava-se “Vanderô”. Sem ele, jogar UNO não terá mais a mesma graça. A partir de hoje, ao olhar para as cartas de UNO, sei que sentirei tristeza.

A última vez que nos vimos pessoalmente já faz alguns anos. Depois disso, mantivemos contato apenas pelo WhatsApp. Ainda assim, pude ajudá-lo em uma fase difícil pela qual passou, dando conselhos e compartilhando como consegui superar momentos muito difíceis da minha própria vida.

Adeus, meu amigo…

Você foi uma das pessoas que passaram pela minha vida e deixaram apenas coisas boas. 💔

Noite de UNO. (Campo Mourão)
A última vez que jogamos UNO. (São Paulo)
A última vez que nos vimos… (Aeroporto de Guarulhos)

Jovem desaparecido no Pico Paraná

Tenho acompanhado com bastante atenção o caso do jovem Roberto Farias Thomaz, de 20 anos, que está desaparecido no Pico Paraná desde o dia 1º de janeiro. Não conheço o jovem, mas, se na tarde do dia 30 de dezembro eu não tivesse desistido de ir passar o réveillon no Pico Paraná, fatalmente o teria encontrado no cume ao amanhecer do dia 1º de janeiro.

Já subi o Pico Paraná algumas vezes, assim como outras montanhas da região, e também já passei réveillon acampando em montanha. Nesta última virada de ano, estava com vontade de me isolar. Além de ser avesso a festas, comemorações e fogos de artifício, eu buscava uma passagem de ano diferente e, por isso, escolhi subir o Pico Paraná. Treinei durante um mês e convidei um amigo para me acompanhar nessa aventura.

Tudo estava certo e planejado para a viagem, mas, na terça-feira, dia 30, acordei com uma sensação estranha. Minha intuição dizia para não seguir com a viagem. Entrei em contato com o pessoal do IAT, no Parque Estadual Pico Paraná, e fui informado de que as trilhas estavam pesadas e perigosas, pois havia chovido todos os dias na última semana. A trilha molhada, por si só, não me fez desistir. O que realmente me fez cancelar a viagem foi saber que o parque estaria fechado no dia 31.

Eu sabia que existia a possibilidade de entrar mesmo com o parque fechado — como alguns fizeram, inclusive o jovem que se perdeu —, mas não sou adepto de atitudes irregulares e optei por desistir. Tinha consciência de que, ao entrar sem autorização em um parque estadual, correria o risco de ser multado e, em caso de acidente, o socorro poderia demorar. Com a decisão tomada, avisei meu amigo de que não iríamos mais e segui a vida.

No dia 1º de janeiro, comecei a ver as notícias sobre o jovem desaparecido e me dei conta de que, se tivesse insistido na viagem, talvez o tivesse encontrado. Pelo que li até agora, ele e a amiga que o acompanhava cometeram alguns erros que acabaram resultando em seu desaparecimento. Não julgo ninguém, pois não estava lá. Apenas faço essa reflexão com base em experiências que já vivi em montanha, inclusive nas trilhas do Pico Paraná.

Uma coisa que aprendi é que não se deve deixar um companheiro sozinho na trilha, principalmente quando ele não está se sentindo bem, como parece ter sido o caso. Já ajudei companheiros em dificuldades em trilhas de montanha, assim como já fui ajudado. Inclusive, na última vez que subi o Pico Paraná, na Páscoa de 2022, tive um mau jeito nas costas quase no final da subida. Na descida sofri bastante: fiquei lento e, para piorar, tive problemas com a lanterna. O final da trilha foi extremamente difícil, sob chuva, mas minha companheira não me abandonou e me guiou até o fim. Com dor e cansaço, meu raciocínio ficou comprometido e eu já não conseguia tomar as melhores decisões. Até escolher onde pisar na trilha molhada e escorregadia se tornava um desafio, e acabei sofrendo algumas quedas. Por isso, acredito que o jovem desaparecido possa ter passado por algo semelhante. Estando sozinho, cansado, sem comida (água até é possível encontrar nos riachos da região), molhado, com frio e sem conhecer bem o local, a chance de se perder ou sofrer uma queda na mata fechada é grande. Nessas condições, torna-se extremamente difícil se orientar e encontrar uma saída.

Desejo, de coração, que ele seja encontrado com vida e em boas condições. Fico me perguntando se, caso eu tivesse ido, algo poderia ter sido diferente. Pelo meu perfil de cuidar de quem passa mal na trilha — algo que já fiz outras vezes —, talvez eu pudesse ter ajudado de alguma forma, caso o tivesse encontrado. Por outro lado, talvez nem tivéssemos nos cruzado.

Como o “se” não muda a realidade, fico em paz por ter tomado a decisão certa ao não viajar. Tenho uma boa intuição, mas raramente costumo ouvi-la. A partir de agora, pretendo dar mais atenção a ela, pois isso pode fazer toda a diferença.

Roberto Farias Thomaz.
www.tribunapr.com.br
RPC/Rede Globo.