Réveillon do Milênio

O Réveillon de 1999 para 2000, a chamada Virada do Milênio (se bem que o Terceiro Milênio começou oficialmente somente em 2001), foi um dos momentos mais simbólicos e tensos do fim do século XX. Houve muita festa, mas também medos reais, exageros da mídia e algumas tragédias — embora muita coisa tenha sido mitificada depois.

Eu, que não gosto de festas ou datas comemorativas, coloquei meu kit de acampamento na mochila, comprei uma barraca nova (espanhola), peguei um trem e desci para a Serra do Mar. Na época, eu morava em Curitiba. Fiquei no camping do Marumbi. Tinha planos de subir o Conjunto Marumbi, mas choveu e fez frio — em pleno mês de dezembro — nos dois dias em que fiquei acampado.

Para passar o tempo, fiz caminhadas próximas ao camping e pela região da Estação Marumbi e da Estação Engenheiro Lange. Quando chovia, ficava dentro da barraca e, com a ajuda de uma lanterna, li o primeiro livro que o Waldemar Niclevicz escreveu, no qual ele contava sobre a primeira vez que colocou os pés no topo do Everest, a maior montanha do mundo.

À noite, pouco antes da virada do ano, escrevi uma carta para mim mesmo. Essa carta só poderia ser aberta dali a trinta anos. Ainda a tenho guardada a sete chaves, lacrada. Não faço a mínima ideia do que escrevi para mim mesmo. Daqui a cinco anos, abrirei a carta e saberei o que o eu do passado escreveu para o eu do futuro.

Além de mim, só havia no camping um jovem casal de São Paulo. Pouco antes da meia-noite, fui até as construções da área da estação, que ficam próximas ao camping. Tirei uma foto utilizando o timer da máquina fotográfica e logo voltei para a barraca, pois fazia muito frio. No conforto da barraca, logo peguei no sono e não vi o momento da virada. Aliás, metade das viradas de ano que tive na vida passei dormindo. Não curto datas comemorativas; acho que as pessoas exageram nas comemorações. Para mim, todos os dias são iguais, inclusive os do meu aniversário.

No dia seguinte, já no ano 2000, descobri que minhas coisas estavam todas molhadas. Exagerando um pouco, posso afirmar que chovia mais dentro da barraca do que fora. Na verdade, a barraca espanhola não tinha vedação nas costuras e isso, somado ao volume excessivo de chuva, fez com que entrasse muita água no interior da barraquinha. Dias depois, devolvi a barraca na loja onde a havia comprado e adquiri outra, da Trilhas & Rumos, maior e com vedação nas costuras. Usei muito essa barraca nos anos seguintes e, passados 25 anos, ainda a tenho — e acredito que ela ainda aguente mais alguns anos de uso.

A virada do ano de 1999 para 2000 era a Virada do Milênio, e isso assustava muita gente. Estava previsto que poderia acontecer o chamado “Bug do Milênio”. O maior medo não era exatamente o “fim do mundo”, mas um colapso tecnológico. Muitos sistemas antigos registravam o ano com apenas dois dígitos (“99” → “00”). Temia-se que, ao virar para 2000, os computadores interpretassem “00” como 1900. Isso poderia causar falhas em bancos (saldos errados), aviões e aeroportos, usinas elétricas, hospitais e sistemas militares. A mídia frequentemente amplificou o risco, falando em apagões globais e caos generalizado. Na prática, governos e empresas gastaram bilhões corrigindo sistemas — e essa é uma das razões pelas quais quase nada deu errado.

Além da tecnologia, houve um forte clima simbólico. O ano 2000 tinha peso bíblico e místico. Grupos religiosos falavam em Juízo Final, segunda vinda de Cristo e cumprimento de profecias. Seitas apocalípticas ganharam atenção — algumas já vinham desde os anos 1990. Isso gerou pânico real em pessoas emocionalmente mais vulneráveis.

Não houve uma onda global comprovada de suicídios diretamente ligada à virada do milênio. Casos isolados aconteceram, sim, especialmente associados a pânico religioso extremo, transtornos mentais agravados e influência de líderes sectários. Algumas pessoas, guiadas por fanatismo religioso e discursos extremistas, acabaram tirando a própria vida. Ainda assim, o número de suicídios foi menor do que muitos esperavam. Historiadores e sociólogos concordam que o medo existiu, mas a ideia de que “muita gente se matou achando que o mundo ia acabar em 2000” é exagerada.

Quando os relógios passaram da meia-noite, as luzes continuaram acesas, os bancos funcionaram e os aviões pousaram normalmente. Para muita gente, o sentimento foi de alívio, de ridículo coletivo (“a gente acreditou nisso?”) e de euforia.

A Virada do Milênio mostrou que a humanidade projeta medos profundos em datas simbólicas; que a tecnologia gera tanto dependência quanto pânico; que a mídia pode amplificar a ansiedade coletiva; e, principalmente, que pessoas vulneráveis sofrem mais nesses contextos. No fim das contas, todo o burburinho em torno da Virada do Milênio foi menos sobre computadores e mais sobre o medo do desconhecido.

Curtindo os últimos momentos de 1999.
A barraca onde chovia dentro.
Esperando o trem, no primeiro dia do ano 2000. Ao fundo, a esquerda, o camping onde fiquei.

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