Como eu esperava, 2025 foi bem melhor do que 2024. Também pudera: depois de ter vivido em 2024 um dos piores anos da minha vida, era difícil imaginar algo ainda pior. Posso dizer que cerca de 300 dos 365 dias do ano foram bons. Isso me faz lembrar algo que meu irmão costuma dizer: não devemos ficar reclamando das coisas, pois geralmente temos 65 dias ruins e 300 dias bons no ano. Só poderíamos reclamar se fosse o contrário — se tivéssemos 300 dias ruins e apenas 65 dias bons. E há muita gente cuja contagem é justamente essa, com mais dias ruins do que bons, ou até mesmo com os 365 dias do ano sendo ruins.
De fato, tive apenas uns 40 dias realmente ruins, quando enfrentei um problema de saúde meio chato. Além disso, nos últimos dois meses do ano passei por uma fase complicada com meu carro. Em um período de 47 dias, bateram duas vezes no meu carro, o teto foi danificado por uma chuva de granizo e, por fim, passei correndo por um buraco na estrada que estava escondido pela água da chuva. O resultado foi um prejuízo de R$ 1.200,00: tive que trocar um pneu, dois sensores de pressão, além de fazer balanceamento e alinhamento. Fora isso, meu ano foi muito bom. Conheci muita gente legal, algumas pessoas bem interessantes. Viajei um pouco e conheci Londres, que era um dos meus sonhos de infância.
Depois de ter ido a muitos velórios e enterros nos dois últimos anos, achei que em 2025 passaria em branco nesse quesito. Mas, na última semana do ano, acabei indo ao sepultamento de uma pessoa próxima.
Agora é esperar e torcer por um 2026 ainda melhor que 2025. Otimismo e pensamento positivo fazem bem e atraem coisas boas.
O Réveillon de 1999 para 2000, a chamada Virada do Milênio (se bem que o Terceiro Milênio começou oficialmente somente em 2001), foi um dos momentos mais simbólicos e tensos do fim do século XX. Houve muita festa, mas também medos reais, exageros da mídia e algumas tragédias — embora muita coisa tenha sido mitificada depois.
Eu, que não gosto de festas ou datas comemorativas, coloquei meu kit de acampamento na mochila, comprei uma barraca nova (espanhola), peguei um trem e desci para a Serra do Mar. Na época, eu morava em Curitiba. Fiquei no camping do Marumbi. Tinha planos de subir o Conjunto Marumbi, mas choveu e fez frio — em pleno mês de dezembro — nos dois dias em que fiquei acampado.
Para passar o tempo, fiz caminhadas próximas ao camping e pela região da Estação Marumbi e da Estação Engenheiro Lange. Quando chovia, ficava dentro da barraca e, com a ajuda de uma lanterna, li o primeiro livro que o Waldemar Niclevicz escreveu, no qual ele contava sobre a primeira vez que colocou os pés no topo do Everest, a maior montanha do mundo.
À noite, pouco antes da virada do ano, escrevi uma carta para mim mesmo. Essa carta só poderia ser aberta dali a trinta anos. Ainda a tenho guardada a sete chaves, lacrada. Não faço a mínima ideia do que escrevi para mim mesmo. Daqui a cinco anos, abrirei a carta e saberei o que o eu do passado escreveu para o eu do futuro.
Além de mim, só havia no camping um jovem casal de São Paulo. Pouco antes da meia-noite, fui até as construções da área da estação, que ficam próximas ao camping. Tirei uma foto utilizando o timer da máquina fotográfica e logo voltei para a barraca, pois fazia muito frio. No conforto da barraca, logo peguei no sono e não vi o momento da virada. Aliás, metade das viradas de ano que tive na vida passei dormindo. Não curto datas comemorativas; acho que as pessoas exageram nas comemorações. Para mim, todos os dias são iguais, inclusive os do meu aniversário.
No dia seguinte, já no ano 2000, descobri que minhas coisas estavam todas molhadas. Exagerando um pouco, posso afirmar que chovia mais dentro da barraca do que fora. Na verdade, a barraca espanhola não tinha vedação nas costuras e isso, somado ao volume excessivo de chuva, fez com que entrasse muita água no interior da barraquinha. Dias depois, devolvi a barraca na loja onde a havia comprado e adquiri outra, da Trilhas & Rumos, maior e com vedação nas costuras. Usei muito essa barraca nos anos seguintes e, passados 25 anos, ainda a tenho — e acredito que ela ainda aguente mais alguns anos de uso.
A virada do ano de 1999 para 2000 era a Virada do Milênio, e isso assustava muita gente. Estava previsto que poderia acontecer o chamado “Bug do Milênio”. O maior medo não era exatamente o “fim do mundo”, mas um colapso tecnológico. Muitos sistemas antigos registravam o ano com apenas dois dígitos (“99” → “00”). Temia-se que, ao virar para 2000, os computadores interpretassem “00” como 1900. Isso poderia causar falhas em bancos (saldos errados), aviões e aeroportos, usinas elétricas, hospitais e sistemas militares. A mídia frequentemente amplificou o risco, falando em apagões globais e caos generalizado. Na prática, governos e empresas gastaram bilhões corrigindo sistemas — e essa é uma das razões pelas quais quase nada deu errado.
Além da tecnologia, houve um forte clima simbólico. O ano 2000 tinha peso bíblico e místico. Grupos religiosos falavam em Juízo Final, segunda vinda de Cristo e cumprimento de profecias. Seitas apocalípticas ganharam atenção — algumas já vinham desde os anos 1990. Isso gerou pânico real em pessoas emocionalmente mais vulneráveis.
Não houve uma onda global comprovada de suicídios diretamente ligada à virada do milênio. Casos isolados aconteceram, sim, especialmente associados a pânico religioso extremo, transtornos mentais agravados e influência de líderes sectários. Algumas pessoas, guiadas por fanatismo religioso e discursos extremistas, acabaram tirando a própria vida. Ainda assim, o número de suicídios foi menor do que muitos esperavam. Historiadores e sociólogos concordam que o medo existiu, mas a ideia de que “muita gente se matou achando que o mundo ia acabar em 2000” é exagerada.
Quando os relógios passaram da meia-noite, as luzes continuaram acesas, os bancos funcionaram e os aviões pousaram normalmente. Para muita gente, o sentimento foi de alívio, de ridículo coletivo (“a gente acreditou nisso?”) e de euforia.
A Virada do Milênio mostrou que a humanidade projeta medos profundos em datas simbólicas; que a tecnologia gera tanto dependência quanto pânico; que a mídia pode amplificar a ansiedade coletiva; e, principalmente, que pessoas vulneráveis sofrem mais nesses contextos. No fim das contas, todo o burburinho em torno da Virada do Milênio foi menos sobre computadores e mais sobre o medo do desconhecido.
Curtindo os últimos momentos de 1999.A barraca onde chovia dentro.Esperando o trem, no primeiro dia do ano 2000. Ao fundo, a esquerda, o camping onde fiquei.
Essa semana eu estava na fila do caixa (não tão) rápido de um supermercado e fiquei ouvindo duas mulheres conversando. Uma delas, ao ver a imagem do Papai Noel em uma lata de Coca-Cola, começou a criticar como uma poderosa fabricante de bebidas norte-americana teria se apossado da imagem do Papai Noel, um dos símbolos mais conhecidos do Natal.
Não aguentei ver — ou melhor, ouvir — tanta ignorância e acabei me metendo na conversa. Contei a ela que, na verdade, o Papai Noel que conhecemos hoje, com roupa vermelha, é uma criação publicitária da Coca-Cola, de 1931. E ele usa vermelho justamente porque essa cor está profundamente ligada à identidade da marca. Disse também que, ao contrário do que ela pensava, não foi a Coca-Cola que se apropriou da imagem do Papai Noel; aconteceu o oposto: foi o “mundo” que se apropriou de um símbolo visual criado pela Coca-Cola.
Também contei às duas senhoras que, quando a Coca-Cola criou essa imagem gráfica do Papai Noel, o refrigerante sequer existia no Brasil. Ele só chegaria por aqui cerca de dez anos depois. A Coca-Cola chegou ao Brasil de forma informal em 1941, por meio das cidades de Recife (PE) e Natal (RN), onde foram montadas pequenas instalações de produção para atender principalmente os soldados norte-americanos estacionados no Nordeste durante a Segunda Guerra Mundial. Essas mini-fábricas produziam e distribuíam o refrigerante para as tropas como parte da logística americana.
A primeira fábrica “de verdade” da Coca-Cola no Brasil foi inaugurada no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em abril de 1942. Essa instalação tinha maior capacidade de produção e marca o início formal da presença da marca no mercado brasileiro.
Como a Coca-Cola criou o Papai Noel que conhecemos hoje — e como a publicidade se apoderou dessa imagem:
Quando pensamos em Papai Noel, a imagem é quase universal: um senhor alegre, de barba branca, roupa vermelha, botas pretas e uma risada contagiante. O curioso é que essa figura, que hoje parece “eterna”, é na verdade resultado direto de uma das campanhas publicitárias mais bem-sucedidas da história.
Antes do século XX, o Papai Noel não tinha uma aparência padronizada. Inspirado em São Nicolau, um bispo do século IV, ele já foi retratado de várias formas ao longo do tempo:
Magro ou robusto
Vestindo roupas verdes, marrons, azuis ou até douradas
Às vezes sério, outras vezes quase assustador
Em alguns países, mais próximo de uma figura religiosa do que de um personagem infantil
Ou seja, o “Papai Noel” existia, mas não havia um consenso visual.
Em 1931, a Coca-Cola decidiu associar sua marca ao Natal para aumentar o consumo da bebida durante o inverno no hemisfério norte — justamente quando refrigerantes vendiam menos.
Para isso, a empresa contratou o ilustrador Haddon Sundblom, que criou um Papai Noel:
Simpático e humano
Gordo e bem-humorado
Vestido de vermelho (cor da marca Coca-Cola)
Próximo das pessoas, especialmente das crianças
Essas ilustrações foram usadas em anúncios, pôsteres e revistas por mais de 30 anos, sempre reforçando a mesma imagem. A repetição foi tão forte que o personagem se consolidou no imaginário coletivo. A partir desse momento, o Papai Noel deixou de ser apenas uma figura folclórica e passou a ser um símbolo publicitário global. O sucesso da Coca-Cola mostrou algo fundamental ao mercado: Quem controla os símbolos, controla as emoções.
Outras marcas rapidamente se apropriaram do Papai Noel para vender seus produtos:
Lojas de departamento
Brinquedos
Alimentos
Bebidas alcoólicas e não alcoólicas
Campanhas de fim de ano em geral
O Papai Noel virou um “garoto-propaganda” universal, capaz de despertar nostalgia, felicidade, generosidade e consumo — tudo ao mesmo tempo.
Com o tempo, o Natal passou a ser menos sobre tradição religiosa e mais sobre experiência, presente e compra. A publicidade transformou o Papai Noel em:
Um convite ao consumo emocional
Um símbolo de recompensa e merecimento
Uma figura que conecta infância, memória e desejo
O que antes era uma lenda regional se tornou um produto cultural global, impulsionado pela força do marketing. A Coca-Cola não “inventou” o Papai Noel, mas definiu sua forma final. A publicidade, por sua vez, percebeu que imagens bem construídas podem atravessar gerações e moldar comportamentos. Hoje, é quase impossível separar o Papai Noel do consumo natalino — e isso diz muito mais sobre o poder da propaganda do que sobre o personagem em si. Talvez a pergunta que fique seja: quantos outros símbolos que consideramos naturais também foram cuidadosamente desenhados por campanhas publicitárias?
Gravura publicitária da Coca-Cola, 1931.Pai Noel (Santa Claus).Papai Noel Coca-Cola.
A Nina foi abandonada ainda filhote na rua da casa dos meus pais, em meados de 2015. Meu pai se encantou com a cachorrinha peluda e resolveu adotá-la, mesmo contra a vontade da minha mãe. Na casa deles já havia outros cachorros, e minha mãe não queria mais um.
Os anos passaram, a Nina cresceu e teve uma vida feliz. Os outros cachorros foram morrendo com o tempo, pois já estavam idosos, e a Nina acabou se tornando a única cachorra da casa. Ela era muito apegada ao meu pai e, após o falecimento dele, em julho de 2024, ficou muito triste.
Depois da morte do meu pai, assumi a função de levá-la para passear uma vez por semana. Ela adorava esses passeios e fazia a maior festa ao sair de casa. E assim a vida seguiu por mais de um ano, até que a Nina adoeceu de repente, foi internada e, em menos de 24 horas, morreu.
Fiquei muito triste com a morte dela, pois, de certa forma, ela era uma ligação minha com o meu pai. Pensei no que meu pai faria com o corpo da Nina e, em vez de entregá-lo para ser jogado na fossa séptica da prefeitura, resolvi enterrá-la no fundo do quintal da casa da minha mãe, local onde a Nina passou boa parte de sua vida.
Agora ficam as boas lembranças de uma cachorra que alegrou a família durante anos e foi uma grande companheira do meu falecido pai.
A Nina quando foi adotada. (06/2015)Voltando do veterinário. (08/2024)Visitando o túmulo do meu pai. (07/2025)
Hoje completa 50 anos do falecimento de meu avô materno. Ele morreu aos 54 anos, vítima de um infarto. Ou seja, ele era mais novo do que eu sou atualmente, pois tenho 55 anos. Quando meu avô faleceu, eu tinha cinco anos. Até então, nunca havia ido a um velório ou a um enterro e, para mim, a experiência de ver meu avô no caixão e depois acompanhar seu sepultamento foi bastante traumática.
O velório aconteceu na sala da casa de meus avós e, durante muitos anos, evitei entrar nesse cômodo quando ia visitar minha avó. Outra lembrança marcante que tenho do falecimento de meu avô é que não havia carro funerário disponível para levá-lo até a igreja para a missa de corpo presente. Como a igreja não ficava muito distante, o caixão foi carregado até lá em um cortejo fúnebre pelas ruas. Só voltei a ver algo parecido em 2016, no interior de Minas Gerais, quando chegava a uma pequena cidade durante uma viagem de bicicleta que fiz pela Estrada Real.
Meu avô se chamava Valério, mas apenas anos depois de seu falecimento descobri que, na verdade, seu nome era Valentim. Ninguém soube me explicar o motivo de ele ser chamado por outro nome. Décadas mais tarde, ao pesquisar sobre a família Kreticoski, fiquei sabendo que o pai de meu avô se chamava Paulo, mas era conhecido como André. Também ninguém soube me explicar isso. Sei lá! Talvez fosse uma tradição na família de meu avô materno batizar as pessoas com um nome e chamá-las por outro. Pensando bem, estou dando continuidade a essa tradição, pois me chamo Vanderlei e a maioria das pessoas que me conhece me chama de Vander.
Tenho poucas, mas boas lembranças de meu avô Valério (Valentim Kreticoski). Tive pouco tempo de convivência com ele, e a lembrança mais forte é do dia anterior à sua morte, quando esteve em casa e brincou comigo por um longo tempo, como se fosse uma criança de cinco anos, assim como eu. Descanse em paz, meu vô!
Valentin Kreticoski.Meus Avós, Apolonia e Valentin, em frente a Basílica Velha de Aparecida – SP.Meus avós em frente sua casa. (Campo Mourão – PR)Túmulo de meu avô.