Estrada Real – 6° Dia

Carrancas/Traituba/Cruzília

(Resumo)

Acordei 08h00min em ponto, com o barulho que vinha do calçadão em frente à janela do meu quarto. Sentia muita dor pelo corpo, principalmente nas pernas. Fui tomar banho para ficar desperto. Voltei ao quarto, arrumei minhas coisas e fui tomar café. Numa mesa no canto meu café da manhã estava separado, pois creio que eu tinha sido o último hospede a acordar.

Poucos carros passaram por mim, e os poucos que passaram levantaram tanta poeira que em alguns momentos eu mal enxergava a estrada a minha frente. Pelo que me contaram não chovia na região há quase dois meses. O sol mais uma vez estava extremamente forte e tive que passar uma dose extra de protetor solar. Mas meu nariz mesmo que passe um quilo de protetor ele fica queimado, vermelho e ardido. E meu consumo de água foi grande, mesmo ela estando morna nas garrafas. Passei por um trecho onde tinha tanta areia na estrada, que os pneus afundavam e eu não conseguia pedalar. Tive que descer e empurrar a bike. Parecia que eu estava na praia, de tanta areia que tinha naquele trecho da estrada. Felizmente o areião ficou para trás e segui pela estrada poeirenta, e depois de ter percorrido cerca de seis quilômetros quase que todo de descidas, comecei a enfrentar muitas subidas chatas. Passei por um rio de água bem limpa e pequenas cachoeiras. Era convidativo tomar um banho nele para aliviar o calor. Mas estava com pressa e passei direto. O calor foi aumentado e minha roupa estava completamente molhada de suor. Com a poeira da estrada grudando no corpo e a roupa molhada, meu aspecto e cheiro não estavam dos melhores.

Pouco depois das 14h00min, cheguei na Fazenda Traituba. O lugar tem muita história e até poucos anos atrás funcionou como pousada. Tinha muita vontade de poder entrar na fazenda e visitar o enorme casarão, mas isso não é tão fácil de se conseguir atualmente. Acabei me contentando em ver da estrada a sede da fazenda. Tinham muitos cachorros latindo ferozmente perto de mim e não achei prudente ir até o portão da fazenda para ver o casarão mais de perto. Olhei em volta para ver se tinha algum local onde eu pudesse pegar água, pois a minha tinha acabado alguns quilômetros antes. Vi algumas casas, mas todas fechadas, com cachorros em frente e nenhum ser humano a vista. O jeito foi ficar com sede e confiar no guia, o qual informava que dali seis quilômetros eu encontraria um local com água potável.

A Fazenda Traituba é conhecida desde o início do século XIX. O Imperador Dom Pedro I, era grande amigo do dono da fazenda e costumava se refugiar no local para repousar e caçar veados. O Imperador costumava ir até a Fazenda Traituba, como um simples plebeu e se hospedava numa casa velha que ficava onde hoje é um galpão da fazenda. Em razão das constantes visitas do Imperador, o proprietário da fazenda naquela época resolveu construir uma enorme casa, para poder recepcionar melhor o Imperador e outros membros da corte. A construção da casa demorou aproximadamente dez anos e ficou pronta em 1831. O portal da casa foi trancado e seria aberto somente quando acontecesse nova visita de Dom Pedro I. Mas o Imperador nunca mais voltou ao local, pois no ano em que a casa ficou pronta ele abdicou do trono no Brasil e foi para Portugal, tendo morrido por lá em 1834. O dono da fazenda então decidiu que só abriria o portal quando a primeira filha nascida na casa viesse a se casar. Só que por duas gerações nenhuma moça nasceu na casa e o portal permaneceu fechado por mais de cem anos. Ele só foi aberto em maio de 1988, quando D. Luiz de Orleans e Bragança, descendente direto do Imperador Dom Pedro I, visitou a fazenda.

Voltei a pedalar e durante alguns quilômetros o caminho era quase todo de reta e pequenas descidas. O sol quente desapareceu e o céu ficou nublado, o que fez a temperatura baixar um pouco. Passei por alguns trechos com árvores na beira da estrada e pastos com gado, além de uma ou outra casa. Poucos veículos passaram por mim nessa tarde e a solidão da estrada e o silêncio algumas vezes assustavam. Num trecho entre árvores vi dois enormes gaviões parados bem no meio da estrada. Cheguei bem perto deles, até que levantaram voo. Mais alguns minutos de pedal e três motos passaram por mim, vindas no sentido contrário. Eram motos grandes e pelo jeito os motoqueiros estavam percorrendo a Estrada Real. Ao passarem por mim buzinaram e acenaram, mas não pararam. O trecho tranquilo chegou ao fim e em seguida veio um trecho de cerca de 13 quilômetros intercalando pequenas descidas e muitas subidas. Não foi nada fácil superar esse trecho e por duas vezes tive que empurrar a bike, pois algumas subidas eram muito inclinadas.

Uma curta reta e cheguei numa estrada asfaltada. A partir dali o pedal ficou fácil, pois foram três quilômetros quase que somente de descidas. Eu embalava e deixava a bike correr, sem precisar pedalar. Apenas tomava cuidado com os carros, e quando ouvia o ruído de algum carro vindo eu seguia pelo acostamento, que ao menos nesse trecho não era esburacado. Cheguei na cidade de Cruzília pouco depois das 18h00min, quando estava começando a escurecer. Parei na entrada da cidade, e dei uma olhada no guia para saber que rumo pegar para ir até o centro da cidade. Voltei a pedalar e pouco depois virei numa esquina correndo, de cabeça baixa. Escutei o ruído de diversas vozes e quando ergui a cabeça para olhar o que era, levei o maior susto. Pela rua vinha um cortejo fúnebre, onde dezenas de pessoas rezando o rosário, seguiam um caixão que era levado em um carrinho daqueles de cemitério. Por muito pouco que eu não bato de frente com o caixão. Quando vi o cortejo, apertei o freio bruscamente e segui para a calçada. Tirei o capacete e baixei a cabeça enquanto o cortejo passava. Parece que todos estavam olhando para mim, e algumas pessoas nitidamente continham o riso ao me ver, imaginando como seria se eu tivesse batido de encontro ao caixão. A última vez que vi um cortejo parecido com aquele, foi quando meu avô materno faleceu, em 1975. Na época os velórios aconteciam em casa e na hora de seguir para a missa de corpo presente, o carro da funerária não apareceu. Então carregaram o caixão do meu avô pelo meio da rua, até a igreja, que não era muito distante. Por ser o primeiro velório de que participei em minha vida, nunca esqueci daquela imagem do caixão seguindo pela rua. E depois de 41 anos voltei a ver algo parecido.

Passado o cortejo e tendo me recuperando do susto, voltei a pedalar. Depois de alguns metros não me contive e caí na gargalhada ao imaginar como teria sido se eu “atropelasse” o cortejo. Atravessei algumas ruas da cidade e logo cheguei no centro, me orientando pelo mapa existente no guia. Eu ficaria hospedado em um hotel que ficava em frente à catedral da cidade. E para terminar o dia com chave de ouro, os últimos 200 metros até chegar na catedral eram de subida duríssima. Segui empurrando a bike, quase sem forças. Parei em frente à catedral e o portão estava fechado. Segurei com ambas as mãos no portão e ali rezei, agradecendo por ter vencido mais um dia de viagem. Todos os dias eu parava para rezar no início e no fim da viagem. Em frente à igreja tinha uma praça e na rua ao lado o hotel, que também era bar e restaurante.

*Para ler o relato completo sobre esse dia de viagem, ou sobre toda a viagem pela Estrada Real, adquira o livro “Estrada Real Caminho Velho”, autor Vander Dissenha.

À venda a partir de 01/11/2016 

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Versão impressa: Clube de Autores

319
Catedral de Carrancas.

340
Sede da Fazenda Traituba.

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Estrada Real – 5° Dia

São João del Rei/Caquende/Capela do Saco/Carrancas

(Resumo)

Acordei 06h00min em ponto, com ajuda do despertador do celular. Tomei um longo banho para despertar, arrumei minhas coisas e saí. Na noite anterior tinha combinado com a Lua, que jogaria por baixo da porta a chave do hostel. Mesmo sendo cedo, o sol estava alto no céu, prometendo um dia de muito calor. Tirei uma foto da frente do hostel, olhei o guia para saber que rumo tomar e parti. No caminho parei em frente uma igreja e fiz uma oração na calçada.

Saí de São João del Rei pedalando por uma longa avenida e então cheguei numa estrada que me levaria até a rodovia.  Logo de cara tinha uma longa subida e fui pedalando devagar, ainda aquecendo as pernas. Após vencer a longa subida, resolvi parar na beira da estrada e tomar meu café da manhã, que consistia de duas bananas. Depois de comer, notei que o pneu da frente estava um pouco murcho. Peguei a bomba de encher e a encaixei no bico do pneu. E ao começar a bombear, em vez de encher o pneu murchou ainda mais. Foi aí que vi que o bico da bomba estava quebrado. O pneu ficou muito vazio e não tinha como pedalar. Eu não queria voltar até a cidade para procurar algum lugar onde encher o pneu. Resolvi arriscar e segui em frente na esperança de encontrar algum posto de gasolina onde pudesse encher o pneu. Empurrei a bike por cerca de um quilômetro, quando vi uma pessoa vindo pelo outro lado da estrada. A imagem era meio surreal, pois se tratava de uma moça vestindo uma justíssima roupa de ginástica toda colorida, caminhando pelo acostamento e ouvindo música com fones de ouvido. Quando ela chegou perto de mim, notei que a roupa era extremamente justa e destacava de forma exagerada as curvas da moça. Dei bom dia e perguntei se ela sabia de algum posto de gasolina próximo dali. Ela respondeu que mais uns 500 metros eu chegaria na rodovia, e que seguindo para o lado direito demoraria muito para eu encontrar um posto. E que para o lado esquerdo da rodovia ela nunca tinha ido e não sabia responder se existia algum posto. E falou que na casa dela tinha uma bomba de encher pneus e que se eu quisesse ela me emprestava. Ela morava na cidade, distante cerca de cinco quilômetros de onde estávamos. Agradeci a oferta e disse que preferia arriscar e seguir em frente. Nos despedimos e segui pensando se não era perigoso a tal moça caminhar sozinha ao lado da estrada deserta. E se eu não devia ter aceitado a oferta da moça e ido até a casa dela encher o pneu.

A rodovia estava muito movimentada e por segurança fui pedalando pelo acostamento. Mas ele era horrível, com muitos buracos e pedras soltas, sem contar o mato que muitas vezes arranhava minha canela e tornozelo direito. E o pior é que pedalando pelo acostamento ruim eu não conseguia andar muito veloz. Esse seria um dia em que precisava pedalar dezenas de quilômetros, e ganhar tempo era necessário para conseguir chegar em Carrancas, cidade onde planejava pernoitar. E no meio do caminho teria que atravessar uma balsa, e caso ocorresse mais algum contratempo eu corria o risco de perder a balsa e ter que dormir na rua. Pensando em tudo isso, segui pedalando sob um sol que ficava cada vez mais quente, até que um caminhão passou por mim buzinando de forma estridente. Era o caminhoneiro que tinha me ajudado com o pneu da bike. Acenei para ele e em pensamento agradeci pela ajuda recebida.

Após superar um longo trecho de curvas e subidas, finalmente cheguei em um trecho com sombra, retas e descidas. E passei por dois outros puteiros ao lado da estrada. Um deles tinha o nome “Capa de Revista” pintado na fachada. “Capa de Revista” foi uma música de sucesso nos anos oitenta, cantada pela dupla Gilberto & Gilmar. Segui pedalando forte pelas retas e descidas da estrada, enquanto cantava… ♫♪Capa de revista, exposta na banca pra todos verem. Um dia a tarde, andando na rua me surpreendi. Quando numa banca vi um corpo nu, queimado do sol. Conhecido meu a tempos atrás me pertenceu. Como eu era feliz… ♫♪ Pedalei muitos quilômetros cantarolando esse trecho da música. Sabe quando você começa a cantar uma música e não consegue parar? Acho horrível quando isso acontece, quando a música vem à mente sem eu querer e eu não consigo deixar de cantar, por mais que me concentre e tente não cantar.

Vi uma placa ao lado da estrada que indicava a entrada para o Circuito das Águas. Por essa estrada seriam 135 quilômetros para chegar na cidade de Caxambu. Fiquei bastante tentado a seguir por essa estrada, pois seria um bom atalho, já que Caxambu estava em meu roteiro. Mas se fizesse isso eu estaria deixando grande parte da Estrada Real de lado e isso faria minha viagem perder o sentido. Me mantive fiel à Estrada Real, apenas deixando muitas vezes de seguir por estradas de terra, e optando por seguir por estradas asfaltadas. E vale lembrar que muitos trechos originais da Estrada Real foram asfaltados e hoje fazem parte de grandes rodovias. O que acontece é que muitas vezes acabam existindo trechos alternativos de terra, que são mais seguros.

Pouco antes do meio dia e sob um sol escaldante, cheguei em São Sebastião da Vitória. Estava com pouca água e ela estava quase fervendo. Vi um posto de gasolina e nele um bebedouro. Fui pedalando todo alegrinho na esperança de encontrar água gelada, mas o bebedouro estava quebrado. Mesmo assim consegui matar a sede com uma água pouco mais fresca que a minha. Voltei a pedalar e segui pela rodovia, que atravessava toda a pequena cidade. Me lembrei de que estava sem dinheiro e fui olhando atentamente a procura de uma Casa Lotérica, onde eu pudesse sacar dinheiro de minha conta da Caixa Econômica Federal. Parei em uma farmácia pedir informação e a atendente contou que tinha uma loja onde era possível fazer saques, mas que a dona não estaria lá naquela hora do dia. Segui em frente olhando para os lados a procura de um local para lanchar e que aceitassem cartão de débito. Vi uma panificadora e quando ia entrar nela, do outro lado da rua vi um pequeno restaurante com uma placa anunciando “comida caseira”. Não resisti e fui até o restaurante. Meu plano desde o início era nunca fazer refeições na hora do almoço, mas apenas lanches leves, pois pedalar com o estômago muito cheio não é nada produtivo. Mas estava cansado de comer lanches nos últimos dias e minha fome era grande.

Cheguei no pequeno povoado de Caquende. Fui até a pequena igreja do povoado, tirei uma foto em frente a ela e me informei sobre o caminho a seguir até o local onde deveria pegar a balsa. Não era longe e em poucos minutos parei na margem do rio, no exato local onde a balsa costuma parar. No mesmo local estava o motoqueiro que tinha passado por mim há pouco. Começamos a conversar, ele era paulista de Ribeirão Preto. Me contou que já foi ciclista e que já tinha viajado de bike. Daí comprou a moto e resolveu percorrer a Estrada Real. Ele tinha sofrido uma queda pouco antes de passar por mim na estrada e além de sofrer alguns esfolados, também ralou a moto e quebrou um pisca traseiro. Próximo de onde estávamos tinham alguns caras pescando e nos informaram que a balsa demoraria cerca de meia hora para voltar, pois ela tinha acabado de atracar em Capela do Saco, no outro lado do rio. Tirei algumas fotos, conversei mais um pouco com o motoqueiro, cujo nome não anotei e não consigo lembrar. O sol estava muito quente, eu estava todo molhado de suor e cheio de poeira. Olhei o rio em volta, sua água era clara, pois o fundo era de areia grossa. Vi que próximo onde a balsa atracava era raso e não resisti, tirei meu tênis, meias e camisa, ficando de bermuda somente e entrei na água.

Comecei a me sentir muito cansado e isso não ajudava muito, pois o cansaço deixa nosso raciocínio lento. E por culpa do cansaço e da preguiça de pegar o guia e olhar mais detalhadamente as indicações do caminho, passei a seguir os marcos da Estrada Real. Até que numa encruzilhada não prestei muita atenção na direção que o marco indicava e acabei seguindo pela estrada errada. O problema é que demorei muito para perceber o erro. Enquanto ainda achava que estava no caminho certo, comecei a pedalar por um trecho com muita areia e mato dos dois lados da estrada. O sol estava se pondo e era um pouco assustador pedalar ali, pois da mata vinham ruídos estranhos. E a areia ficou tão fofa, que tive que descer e empurrar a bike. Até cheguei a pensar que tinha finamente chegado na famosa subida da “cruz das almas”, mas quando cheguei no final da subida vi pelo aplicativo do celular que ela tinha somente um quilômetro de extensão. Então não poderia ser a famosa e assustadora subida de quatro quilômetros.

O dia estava começando a escurecer e passei a seguir por uma estrada longa, com pasto dos dois lados. Eu subia quase o tempo todo, mas não era uma subida íngreme. E cada vez eu ficava mais perto das montanhas que tinha visto antes. Foi aí que tive certeza de que estava no caminho errado. E tinha quase certeza de que tinha errado o caminho quando passei pelo último marco da Estrada Real, já que depois disso não vi mais nenhum marco. Tentei me localizar olhando o guia, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão objetiva. Na verdade eu não sabia ao certo onde estava e nem para onde a estrada seguia. Voltar ao local onde tinha errado o caminho era algo fora de cogitação, pois já tinha percorrido mais de dez quilômetros depois disso e tinha passado por muita areia. Resolvi confiar na sorte e seguir em frente. A noite foi chegando e passou um ônibus escolar por mim. Mas ele chegou tão silencioso que me assustei quando percebi ele atrás de mim. E no susto acabei não dando sinal para o motorista parar para eu pedir informação sobre o caminho. Parei e fiquei olhando o ônibus seguir pela estrada, e quando ele já estava bem distante vi ele virar na direção da montanha, que ficava cada vez mais perto. E notei que ele passou a andar mais veloz e comecei a ver luzes de carros. Ou seja, ali tinha uma estrada, possivelmente asfaltada. Ganhei um animo extra e pedalei mais forte até que uns dois quilômetros depois cheguei numa rodovia. Parei e fiquei pensando para qual lado deveria seguir. Não tinha nenhuma placa indicando o caminho e após pensar um pouco cheguei à conclusão de que a cidade de Carrancas ficava na direção das montanhas. Tinha ficado escuro e peguei a lanterna que ficava guardada na bolsa de guidão. A lanterna ainda não tinha sido usada na viagem e estava com a bateria cheia, o que me dava cerca de duas horas de autonomia de luz. Ela era bem forte, tinha sido comprada especialmente para a viagem, para o caso de alguma emergência noturna. E naquele momento eu estava numa emergência, no escuro, seguindo por uma estrada que eu não sabia ao certo para onde ia.

Para piorar minha situação fiquei sem água. E empurrar a bike montanha acima me fazia suar em bicas. Teve um trecho onde eu passei bem próximo a um alto paredão de rocha. E vi que recentemente tinham caído algumas pedras enormes ao lado da estrada. Era o que me faltava, cair uma pedra na minha cabeça! Passei o mais rápido que consegui por aquele trecho e quando me senti mais seguro parei para descansar. Aproveitei para guardar o guia na bolsa de guidão e fechá-la totalmente com o zíper, pois no escuro tinha receio de algo cair da bolsa e eu não ver. E ao mexer na bolsa de guidão, acabei encontrando o bombom que a Lua tinha deixado em meu travesseiro, na noite anterior no hostel em São João del Rei. Comi aquele bombom com um prazer indescritível. E todo aquele açúcar me deu nova energia para seguir empurrando a bike montanha acima. E nisso gritei bem alto um “obrigado Lua!”. E por falar em lua, ela surgiu (não a Lua do hostel) no céu, iluminando meu caminho. Não sei ao certo quanto tempo empurrei a bike morro acima, pois estava tão cansado que nem tinha vontade de pegar o celular no bolso traseiro da camisa para ver o horário ou a distância.

A descida era radical e com uma curva atrás da outra. E minha lanterna foi ficando fraca, até quase não iluminar nada. O que ajudava um pouco era a luz da lua. No começo ia segurando no freio, com medo de cair em algum buraco da estrada Mas notei que tinham algumas marcas mais escuras no asfalto, resultado de um recape recente. Isso me fez sentir mais seguro, e criei confiança e passei a descer rápido pela estrada. Não passavam carros e eu seguia pelo meio da pista. Comecei a sentir frio, mas nem ligava e seguia no embalo, sem precisar pedalar. Aquilo era muito radical, perigoso e gostoso. Com certeza esse foi um dos melhores e mais perigosos pedais que já fiz na vida. Foi um momento, uma aventura inesquecível, mas que espero não precisar mais repetir, pois foi perigoso demais. Descer aquela serra em alta velocidade, com peso traseiro e mal conseguindo enxergar a estrada direito é algo de gente maluca. Mas eu estava seguro do que estava fazendo e o risco era calculado. E também sou um cara de fé e meu anjo da guarda, coitado, sempre está ao meu lado. Costumo brincar que meu anjo da guarda não tem mais penas nas asas, que é manco e tem muitas fraturas e pontos pelo corpo. Vez ou outra ele falha e eu me estrepo, mas quase sempre ele está a postos e me livra dos perrengues.

Não sei dizer quanto tempo durou a descida, mas quando chegou no fim passei a pedalar por uma longa reta e sentia muita dor nas pernas. Eu não estava tendo mais forças para pedalar, mas precisava seguir em frente, pois estava cada vez mais perto de Carrancas. Nesse trecho passaram muitos carros por mim. Parecia que os carros estavam esperando eu descer a montanha, para então passarem. Cheguei num pequeno trevo e achei que era a entrada para Carrancas, mas lendo uma placa descobri que o caminho não era aquele. Pedalei mais uns dois quilômetros e logo comecei a ver luzes e algumas casas. Finalmente eu tinha chegado em Carrancas. Segui por uma longa avenida e após uma pequena descida vi uma praça e uma igreja. Como a cidade não era muito grande, sabia que ali era o centro da cidade. Ao meu lado parou um carro e quando me virei para olhar o que era, vi uma bela e jovem mulher ao volante. Antes que eu dissesse algo, ela perguntou se eu precisava de ajuda. Respondi que estava procurando a Pousada da Mica. Ela disse que a pousada ficava perto, e que eu deveria subir duas quadras e virar à direita, que mais 100 metros eu chegaria na pousada. Agradeci a informação e ela respondeu que ao me ver percebeu que eu era um viajante e que fatalmente precisava de ajuda.

Antes de me ajeitar para dormir, liguei para casa dar noticiais e fiz algumas anotações em meu diário de viagem. Em seguida apaguei as luzes e deixei a janela aberta, pois a noite estava um pouco quente. Me deitei e mal sentia meu corpo, e minhas pernas doíam muito. Resolvi tomar um Dorflex e quando estava quase pegando no sono, ouvi vozes debaixo da janela do meu quarto. Discretamente fui espiar e vi que era um casal, sendo que a garota era muito jovem e bonita. Voltei para a cama e fiquei ouvindo a conversa dos dois, que nem imaginavam que eu estava próximo a eles, escutando tudo o que falavam. O rapaz era bom de papo e estava tentando levar a garota para a casa dele, pois seus pais tinham viajado. A garota estava se valorizando, dizia que era virgem e que ele estava indo rápido demais. Mas o cara era muito bom de papo e após uns 15 minutos de conversa a garota estava quase cedendo.  Atento a conversa dos dois esqueci as dores e o cansaço, mas acabei pegando no sono e jamais saberei se a garota foi ou não para a casa do rapaz.

*Para ler o relato completo sobre esse dia de viagem, ou sobre toda a viagem pela Estrada Real, adquira o livro “Estrada Real Caminho Velho”, autor Vander Dissenha.

À venda a partir de 01/11/2016 

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Versão impressa: Clube de Autores

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